Chauvinismo e extrema direita
7. Integralismo contemporâneo e as novas determinações propiciadas pelas tecnologias de comunicação: guerra de posição, estratégias de organização e difusão ideológica
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
7. Integralismo contemporâneo e as
novas determinações propiciadas
pelas tecnologias de comunicação:
guerra de posição, estratégias de
organização e difusão ideológica
O denominado portal da Frente Integralista Brasileira é o site mais estruturado entre as atuais organizações herdeiras da ideologia do Sigma, disponibilizando um grande número de fontes de informação entre artigos, documentos, imagens, localização dos núcleos, informes sobre atividades realizadas pelos grupos de diferentes cidades do país e materiais para download, como o jornal Ação.
A proposta da FIB, segundo informações disponibilizadas em sua página na internet, tem como objetivo articular os núcleos integralistas que manifestam consenso em relação à interpretação e às estratégias dos intelectuais dirigentes desta organização na interpretação da herança ideológica deixada por Plínio Salgado.
7.1 O site da Frente Integralista Brasileira:
estrutura burocrática administrativa, principais
dirigentes, núcleos, localização e estratégias de
ação
As informações sobre as modalidades de organização dos aparelhos integralistas na atualidade, suas estruturas burocráticas e a identificação dos dirigentes foram investigadas através do site da FIB. Na mensagem de apresentação da página, obtida por meio do acesso ao link “Institucional”, é explicitado o objetivo da organização de “criar uma escola de cultura e civismo, inspirada em valores
cristãos”. 1 A FIB tem como “órgão máximo” da organização o denominado “Conselho Administrativo Nacional”:
Órgão máximo da FIB, constituído por companheiros de todo o
Brasil que tem como atribuição zelar pelo movimento, fiscalizar
e acompanhar todo o trabalho de todos os demais órgãos da
FIB. Cabe a ele, portanto, a avaliação e, se necessário, o veto a
qualquer medida tomada por membros e dirigentes da FIB que
firam os propósitos da FIB, seus estatutos e regimentos ou a
Doutrina Integralista. Tem a responsabilidade de eleger
periodicamente todos os cargos da Direção Nacional podendo
decidir pela demissão de qualquer membro. Os membros do
conselho prestam apoio a todas as diretorias diretamente ou
indiretamente e têm prioridade para ocuparem cargos
diretivos.2
A “Presidência Nacional” é, segundo dados do site da FIB, colocada
como “órgão máximo” de direção e deliberação do movimento. 3 A “Diretoria Administrativa Nacional” é o órgão onde estão os dirigentes mais importantes, pois são eles que elaboram a divulgação dos pressupostos ideológicos, as estratégias de propaganda e a escolha das lideranças para cargos dentro da
organização.4
A FIB esta organizada atualmente também em quatro “Secretarias Nacionais” onde os principais dirigentes organizam as estratégias para a formação e a expansão dos quadros de militantes. São elas: Secretaria Geral, Secretaria Nacional de Assuntos Jurídicos, Secretaria Nacional de Doutrina e Estudos e Secretaria de
Expansão. 5
No site da FIB, na ocasião da inauguração da denominada Secretaria de Expansão e Organização, em 2009, foi publicado um informe sobre o papel do novo órgão burocrático. Ele foi apresentado com as finalidades de “coordenar, reorganizar e alinhar todos os núcleos”, incluindo “a proposição de políticas e definição de estratégias relacionadas às diferentes formas de atuação e organização” e realizar “o monitoramento da atividade do movimento
nas diversas regiões”. 6
Outro elemento de análise nas informações institucionais do site da FIB é o dado obtido no link “Serviços de Interesse Público”, que evidenciaram o intento dos militantes integralistas em articularem-se com outras organizações congêneres e desenvolver um trabalho de divulgação de sua ideologia através da inserção em espaços da sociedade civil. Esse trabalho foi denominado pelos atuais integralistas como um “trabalho educativo”, sendo proposta a oferta de palestras e a participação em debates em escolas, sindicatos e
outras instituições que recebam os dirigentes da organização.7
Na análise das novas formas de mobilização e estruturação dos aparelhos privados de hegemonia representados pelos núcleos da FIB foi evidenciado um elemento que num primeiro olhar poderia ser considerado comum, como a busca pela arrecadação de suporte financeiro para a continuidade das atividades da militância.
Entretanto, a dinamização possibilitada pelas novas tecnologias de comunicação utilizadas pela FIB foi também evidenciada nas modernas estratégias para angariar contribuições de seus militantes e simpatizantes. Ao clicar no link da página inicial do portal “Contribuição financeira” obtém-se o seguinte texto:
Companheiro(a), ao fazer uma doação, tão necessária hoje em
dia, você se junta ao time de colaboradores efetivos da Frente
Integralista Brasileira. Nosso movimento é mantido pelo apoio e
colaboração de nossos companheiros, através do trabalho
voluntário de cunho político, cívico e social nos diversos
núcleos espalhados pelo Brasil. Temos centenas de metas,
projetos e desafios a conquistar que dependem da colaboração
de todos os companheiros que junto conosco estão na linha de
frente desta grande epopeia moral em prol da nação. Somos
atualmente o único movimento cívico-político-social realmente
preocupado com a grande causa nacional, sem vínculos ou
comprometimentos com qualquer organização privada ou
partido político existente. É por isso que sua doação é tão
importante. Anauê!8
Na mesma página consta outro link “Fazer uma contribuição” onde é disponibilizada uma ficha cadastral com dados e valores do doador e é gerado automaticamente um boleto bancário para que seja efetuado o depósito para colaborar no financiamento da FIB.
7.2 Núcleos da FIB: localização e estratégias de
ação
A preocupação e a perspectiva de crescimento da FIB no Brasil ficaram evidenciadas explicitamente na análise do site integralista em foco. Já na página inicial do site foi identificado, ao lado direito da tela, o link, em destaque, “Filie-se!Venha construir um novo Brasil!”. Ao clicar no link abre-se a página sobre os procedimentos para uma pré-filiação que pode ser realizada on-line ou também nos núcleos ou eventos organizados pela Frente Integralista.
A FIB instrui os militantes já filiados nos núcleos existentes pelo país a efetuar também seu recadastramento com o objetivo de atualizar a base de dados nacional que a organização afirma possuir. O cadastro, segundo o site, inclusive possibilita ao pré-filiado ferramentas de formação política como os cursos de Educação a Distância (EaD) do recém-criado “Instituto Plínio Salgado”.
Na busca de uma maior dinamização para a cooptação de membros, a denominada “Diretoria Administrativa Nacional” informa no site que repassará os dados do pré-filiado aos dirigentes e que o interessado será contatado pelo representante da FIB presente na
região do candidato a filiação.9
Para a abertura de um novo núcleo da FIB o site também disponibiliza informações sobre os procedimentos a serem seguidos, segundo as normas de seus dirigentes, como foi averiguado acessando o link “Como constituir um núcleo na minha cidade?”. A análise dos conteúdos dessa seção proporcionou a compreensão da estrutura organizativa dos núcleos divididos em aparelhos municipais e estaduais ou distritais. Além disso, afirma-se a possibilidade de relativa independência dos núcleos para suas ações em suas respectivas regiões, porém, com o compromisso de
seguir as orientações da “Diretoria Administrativa Nacional”.10
Em interpretação fundamentada na acepção gramsciana de uma lógica de guerra de posições na sociedade civil, os integralistas buscam mobilizar seus adeptos e articular novos simpatizantes e membros. Na busca pela continuidade da divulgação da sua ideologia, a FIB orienta seus militantes para ações de propaganda política:
Algumas atividades propostas para os núcleos:
– Distribuição de panfletos e informativos integralistas;
– Promoção de palestras, debates e estudos (em empresas,
escolas, universidades etc.);
– Incentivo aos membros para participação em outras
atividades sociais e culturais;
– Promoção de encontros e atividades com companheiros de
outros núcleos;
– Fixação de faixas e cartazes, convidando a população a
conhecer mais sobre o integralismo;
– Colaboração com textos, imagens, artigos e outras
informações para publicação nos veículos de comunicação da
Frente Integralista Brasileira;
– Fixação de sede (se possível com biblioteca e documentos),
preferencialmente aberta à visitação pública. 11
Na mensagem inicial do link “Presença: núcleos em todo o Brasil” foram identificados os objetivos e a proposta da estrutura nuclear da FIB, assim como elementos de sua organização e divulgação:
O que são os núcleos? Os núcleos são a parte de nossa
estrutura que realizam a atuação da Frente Integralista
Brasileira nos diversos distritos, municípios e regiões de todo o
Brasil. O objetivo do Núcleo é fazer o trabalho de base junto
aos membros filiados à nossa organização, realizando ações
sociais, estudos e propaganda de nossa doutrina e objetivos.
Atualmente estamos bem organizados em algumas das
principais cidades do Brasil e estamos trabalhando na
organização de núcleos em diversos municípios. Alguns
núcleos contam com dezenas de companheiros, outros contam
com três ou quatro membros ativos. [...]12
Essa seção oferece aos usuários um sistema de busca para informações sobre a localização de cada um dos núcleos existentes no país, como apontado. Acessando o referido link, visualiza-se a imagem do mapa político brasileiro onde é possível clicar sobre cada estado da federação sendo disponibilizadas informações dos endereços e nomes dos dirigentes dos núcleos existentes naquele estado.
Foi identificado na análise das formas de organização dos militantes que no site é possível também clicar na região onde se busca obter informações e consultar os nomes e endereços dos coordenadores de cada uma das cinco regiões do país. Procurando a referência do coordenador do Nordeste, por exemplo, observamos que a região é administrada diretamente pela Secretaria Nacional de Expansão e Organização, esta com o objetivo de dinamizar a expansão dos núcleos pelo país:
Coordenadoria Regional do Nordeste
Responsável: Secretaria de Expansão e Organização
Cidade: São Paulo, SP
CEP: 01.032-970
Caixa Postal: 1156
Fone(s): -
End. Eletrônico: 13 exp@integralismo.org.br
Como constatado, clicando sobre o estado onde deseja obter a informação, são conseguidas as referências de quantos núcleos existem naquela região. Ainda no caso do Nordeste, por exemplo, são disponibilizados os endereços de dois núcleos, no Ceará e em Pernambuco e, recentemente, em Alagoas.
Em Pernambuco, por exemplo, constou ao acessarmos o mapa núcleo somente a representação da FIB em Recife. Porém, ao ser acessado o link “Próximos eventos” no mês de fevereiro de 2011, a pesquisa constatou a informação de um encontro oficial da Administração Estadual da FIB-PE com representante da “Diretoria Administrativa Nacional” enviado à cidade do interior pernambucano
de Cabo do Santo Agostinho.14 Esta informação confirma dado obtido através da leitura do informativo impresso Bandeira do Sigma que fazia referência às ações para a organização de um núcleo na referida cidade.
As análises feitas no primeiro semestre de 2011 demonstraram a inexistência de núcleos na região Norte, através da pesquisa no sistema de buscas “Presença: Núcleos em todo o Brasil”. Porém, o site da FIB postou informe sobre a organização da denominada “Administração Provisória da FIB” em Vilhena, no estado de Rondônia sob a direção da “Secretaria de Expansão e Organização”, a Administração Provisória da FIB-RO tem suas atividades coordenadas pelo militante Luiz Carlos Barros, desde
2009, segundo dados do site. 15 Possivelmente, trata-se não de um núcleo propriamente, mas de militantes buscando organizar um grupo na localidade.
No Sudeste constaram, segundo a análise, referências de núcleos em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e o anúncio de que em breve será inaugurado mais um núcleo em Vitória, no Espírito Santo. A coordenação da região foi identificada sob a responsabilidade do militante Luiz Gonçalves Alonso Ferreira, de
Santos (SP).16
Em Minas Gerais consta o endereço de três cidades com núcleos da FIB e os nomes de seus respectivos representantes. Essas informações foram relevantes, sobretudo, na perspectiva de que novas pesquisas possam aprofundar a dinâmica da militância destes
aparelhos integralistas. 17
No Rio de Janeiro, segundo a página web da FIB, a coordenação das atividades da FIB-RJ é realizada pelo militante Guilherme J. Figueira e o núcleo da capital fluminense é coordenado pelo
militante Murilo Cesar.18 Em São Paulo a presidência estadual é
coordenada pela Administração Nacional da FIB. 19
No site foram constatados os endereços de cinco núcleos em cidades paulistas diferentes e os nomes dos coordenadores dos respectivos três núcleos das cidades de Ribeirão Preto, Santos e São Paulo, em específico é a “Casa Plínio Salgado”. Porém, os núcleos de São Bernardo do Campo do centro da cidade de São
Paulo são somente anunciados que em breve serão inaugurados.20
Em relação ao Centro-Oeste foram identificados dados sobre o núcleo integralista recentemente inaugurado na cidade de Valparaíso de Goiás sob a representação do militante Elthon
Jeffrey.21 E no Distrito Federal sob a presidência do militante Rafael
A. dos Santos Sandoval. 22
No Sul o integralismo em todo o século XX teve grande representatividade, na época da AIB e do PRP. Porém, na atualidade, segundo o site da FIB, a coordenação administrativa da região está sob a tutela da Secretaria de Expansão e Organização e constou somente o endereço de um núcleo da FIB-PR na cidade de Curitiba, sob a representação de Regerson Ribeiro. O que sugere que os integralistas dos estados do Sul do país não estão articulados com a proposta centralizadora das lideranças da FIB que hegemonicamente estão no Sudeste.
No site da FIB foi observada a disponibilização do endereço
somente do núcleo de Curitiba, como apontado. 23 A ação dos
militantes na região Sul era divulgada no site “integralismonosul”, 24 que não está mais on-line. Porém, no site de relacionamentos Orkut existia a comunidade “Integralismo no Sul do Brasil”, com 154
membros cadastrados.25 Elemento que é apenas uma evidência e que suscita a necessidade de pesquisas mais abrangentes sobre a atual conjuntura de organização dos herdeiros do Sigma na referida região.
A militância dos integralistas no Sul sempre foi representativa e no início desta pesquisa, em 2007, foram coletados no antigo site da FIB dados sobre o núcleo integralista de Porto Alegre, onde uma de suas lideranças possuía inclusive um programa num canal de TV por assinatura:
Companheiros.
É com grande satisfação que informamos que o nosso
companheiro integralista e renomado jornalista, Dário Di
Martino, estreou o seu programa “Doa a quem doer – A
Verdade acima de tudo!”, Sábado, dia 13 de abril de 2006, às 3
horas da madrugada, no Canal 6 da Net/Sul (Rio Grande do
Sul). O programa semanal tratará de integralismo,
nacionalismo, política, atualidades etc. Será transmitido aos
sábados, com reprise todas as quartas-feiras, às 11 horas, e as
sextas-feiras, às 21 horas. O programa ainda poderá ser visto
pela Internet, www.poatv.org. Graças ao esforço e à dedicação
de heroicos integralistas, como o companheiro Di Martino,
gradativamente vai sendo rompido o cerco imposto ao
integralismo pelos inimigos do povo brasileiro.26
7.2 Informações sobre atividades dos núcleos
através dos sites e blogs, estatutos e manifestos
da FIB
No site da FIB através do link “Notícias” são disponibilizadas informações sobre análises de fatos de ordem política de caráter nacional e internacional sob a “ótica integralista”, assim como notícias referentes a informações internas, para os membros da organização, como eventos, atividades e reuniões de seus núcleos. Foram analisados 71 artigos, dos quais foram selecionados os mais importantes, com fragmentos citados, para a busca de uma melhor compreensão dos conteúdos preconizados pelos atuais intelectuais do Sigma.
No primeiro semestre de 2009 os militantes publicaram um artigo interessante no sentido de possibilitar a compreensão da posição dos mesmos sobre as políticas sociais do governo federal naquele período. O texto abordou de forma crítica as políticas de cotas afirmando que os cidadãos brancos e pardos estão sendo vítimas de discriminação diante de políticas que beneficiam minorias étnicas ou grupos homoafetivos, inclusive manifestando posições homofóbicas. As críticas às ações de movimentos sociais no país também foram explicitadas como resultado das políticas do governo
do Partido dos Trabalhadores (PT).27
Nas notícias divulgadas e analisadas destacou-se a informação sobre a ação de integralistas no Amapá, no artigo “Polícia confirma assassinato de coordenador da FIB”. Os militantes abordaram na referida matéria a questão do recente assassinato de uma liderança da FIB na região Norte. O texto sugere que o assassinato pode ter
sido realizado por comunistas.28
Alguns artigos do link “Notícias” abordaram a implantação e inauguração de novos núcleos da FIB, os artigos foram elaborados e publicados no sentido de propagandear o relativo crescimento da organização. Os atuais militantes continuam na busca pela fundação de novos núcleos oitenta anos depois das pioneiras “Bandeiras Integralistas”. Para uma maior dinamização das ações da militância da FIB, foram criadas no final de 2009 as denominadas “coordenadorias regionais”, visando proporcionar à organização “supervisão para abertura de novos núcleos, fornecimento de materiais para estudos, oferecer suporte as atividades administrativas”, garantindo, segundo o site, “maior articulação e integração entre a Diretoria administrativa Nacional e as lideranças
e filiados em suas respectivas regiões”.29 A respeito das atividades no Nordeste, o site divulgou informações sobre a FIB no artigo “Divulgação do integralismo no agreste de Pernambuco”. O texto fez referência ao militante Midiel da Silva, identificado como secretário-geral de Pernambuco, que realizou palestras em escolas da cidade
interiorana de Solidão. 30
No artigo “FIB-CE: avanço do integralismo pelo nordeste” foram analisados mais dados sobre as iniciativas para organização de núcleo na cidade de Fortaleza sob a coordenação do militante
Eduardo Viana.31 A FIB na ocasião do aniversário de 78 anos do lançamento da Manifesto de Outubro postou em seu site informações sobre a situação dos núcleos em Minas Gerais divulgando a implantação de núcleos em Juiz de Fora e Ubá sob a coordenação do militante Ronalde Tubarão e em Belo Horizonte sob a coordenação de Giuliana Netto. Esses dados também foram noticiados no boletim Bandeira do Sigma. Foram também divulgados no artigo referenciado abaixo as iniciativas para a
organização de representações da FIB em outros estados. 32
Em São Paulo há o suporte dado aos militantes das cidades do interior pelos dirigentes da capital paulista através da recém-criada “Coordenadoria Regional do Sudeste”, resultado na expansão
relativa de novos aparelhos da FIB, segundo o site da FIB. 33
As regiões Centro-Oeste e Norte são localidades onde historicamente o integralismo não exerceu grande representatividade, salvo o período de atividade do Partido de Representação Popular, em específico, com relativa atuação naquela região. Porém, no início de 2010, foi fundado um núcleo da FIB na capital de Goiás. Esse é mais um elemento que corroborou para a compreensão da perspectiva do crescimento, mesmo que residual, das atividades de grupos chauvinistas no país. Segundo
dados do artigo “FIB-GO: o integralismo avança no Brasil”. 34
No mesmo período, início de 2010, a FIB postou artigo sobre a inauguração de um núcleo no sul de Rondônia, na cidade de Vilhena, como apontado. De fato as informações supervalorizam as ações dos militantes e, na verdade, em muitos casos, em localidades distantes onde existem integralistas, as publicações da FIB apresentam informações relatando estabelecimento de núcleos,
como foi verificado.35
Em “FIB-PR: Núcleo Integralista em Curitiba”, o site analisado proporcionou informações sobre mais um aparelho da FIB na capital paranaense. O dirigente integralista na referida cidade afirmou no respectivo artigo a “trajetória integralista significante”, devido à representatividade da AIB e do PRP no Sul, no século XX, assim como apontou a ligação dos veteranos integralistas em Curitiba com
a nova geração. 36
As ações sociais foram estratégias de inserção na sociedade civil utilizadas pelos integralistas desde a década de 1930. Os estudos sobre a AIB na primeira metade do século XX enfatizaram que os trabalhos assistenciais foram uma estratégia importante executada pelos “camisas verdes e blusas verdes”, principalmente proporcionando uma imagem positiva da organização em relação à opinião pública. Escolas e ambulatórios eram, por exemplo, uma forma de atrair também novos participantes nos núcleos onde os trabalhos eram desenvolvidos (Trindade, 1974; Cavalari, 1999).
Na contemporaneidade, esta estratégia está retornando nos núcleos da FIB e ações do gênero foram divulgadas em grande escala nos jornais e boletins impressos consultados nesta pesquisa, como constatamos no artigo “Núcleo de Belo Horizonte distribui livros e
incentiva a leitura”.37
No contexto das fortes enchentes que ocorreram em 2009 em alguns estados brasileiros os militantes também atuaram com a arrecadação e distribuição de donativos. A atividade rendeu nas mídias da FIB mais elementos para sua propaganda. Na ocasião do ocorrido, o presidente estadual da FIB em Pernambuco, Achilles
Oliveira, publicou texto sobre a iniciativa.38
As ações na sociedade dos militantes do Sigma são fator de repercussão nas mídias das organizações em análise. Através de panfletagens, comemorações em datas cívicas ou em protestos contra seus oponentes, os militantes divulgam suas concepções e opõem-se àqueles que repudiam. São palco para suas cênicas aparições em público as datas cívicas, como o Sete de Setembro, os desfiles militares ou em ocasiões de manifestações públicas de grupos com os quais os integralistas divergem.
O dia 7 de Setembro, por exemplo, tradicionalmente é comemorado por muitos grupos nacionalistas. Na cidade de São Paulo, no “Parque da Independência” no Ipiranga, anualmente os integralistas e outros grupos e militantes congêneres reúnem-se para seus cerimoniais chauvinistas. As atividades são sempre acompanhadas de ações de propaganda em alguns pontos da cidade, no caso paulistano a fonte referenciada afirma que foram entregues mais de 3 mil panfletos em um único dia, nas comemorações da data em 2010. Essas ações ocorrem em diferentes cidades e são praticadas por militantes do Sigma, como aponta o site da FIB que faz referência a atividades também no Rio de Janeiro e em Brasília. No artigo “Importantes manifestações no 7 de Setembro”, estas ações
foram divulgadas.39
As possibilidades de manifestações públicas são exploradas pelos integralistas até mesmo em algumas ocasiões irreverentes, como na denominada “Marcha da Maconha”, manifestação pela descriminalização, que ocorre anualmente em várias cidades brasileiras, como foi constatada na menção ao tema feita pelo boletim Bandeira do Sigma. O fato em si, de caráter aparentemente irrelevante, aponta, entretanto, o discurso da ordem moralizante dos chauvinistas em questão, assim como a sua busca incessante para aproveitar os espaços abertos na sociedade civil para a divulgação de suas concepções intolerantes e a propaganda de sua organização. O artigo “Integralistas barram Marcha da Maconha no
Ceará” abordou esta questão.40
A preparação dos quadros de militantes destaca-se na atualidade como uma das grandes preocupações dos novos dirigentes do Sigma. A organização de escolas e cursos de alfabetização e de formação política foi uma estratégia pioneira no Brasil, oferecida pelos integralistas na época da AIB entre 1932 a 1938. Cavalari (1999) aborda com riqueza de fontes documentais o papel das escolas da AIB na formação de seus filiados e como fator de atração
para novos participantes, como já apontado no capítulo 1.
É interessante como na atualidade os herdeiros de Plínio Salgado estão articulados com as novas tendências e tecnologias. A utilização da modalidade “Educação a Distância” (EaD) em grande popularização no Brasil por instituições educacionais publicas e privadas foi rapidamente absorvida pela FIB como ferramenta organizativa e diretiva. Os cursos virtuais de formação de militantes foram inaugurados em 2009 e evidenciam que integralistas estão imbuídos do objetivo de reestruturação do movimento em nível nacional e de preparação de novos dirigentes para seus planos de expansão.
No artigo “Instituto Plínio Salgado dará início as atividades” a divulgação desta nova estratégia foi repercutida:
É nesse contexto que o Instituto Plínio Salgado lança a partir de
2009 uma série de cursos de formação política, como os
referentes à Doutrina Integralista, entre outros diferentes
cursos, como os cursos de humanas que serão oferecidos
como base complementar para o aperfeiçoamento individual. A
educação a distância é um recurso de incalculável importância
como modo apropriado para atender a grandes contingentes de
alunos, de forma mais efetiva que outras modalidades e sem
riscos de reduzir a qualidade dos serviços oferecidos em
decorrência da ampliação do público atendido. [...] O projeto
está sendo organizado pela Secretaria de Expansão e
Organização em conjunto com a Secretaria Nacional de
Doutrina, que irá fiscalizar e avaliar o conteúdo dos cursos. Os
primeiros cursos, Doutrina I e Liderança I, são voltados
exclusivamente ao movimento e têm previsão de início na
terceira semana de julho.41
Na análise dos artigos do link “Notícias” do site da FIB foram identificadas nesta pesquisa outros dados importantes para a compreensão do panorama atual da referida organização. E no link “Opinião” foi possível observar mais valores e concepções preconizadas e difundidas pelos intelectuais do Sigma. Estes dois links referenciados concentram a maior parte dos artigos relevantes encontrados no portal em discussão. Em “Uma síntese recente do movimento integralista”, o presidente da FIB fez referência ao que ele denomina de “ciclo de expansão” da organização, evidenciando alguns posicionamentos da organização diante de assuntos da conjuntura nacional, como a crítica ao governo do PT, ao PNH3 e aos movimentos sociais, assim como a respeito da divisão de
militantes integralistas em organizações não vinculadas à FIB.42
Em “Marx está morto!” foi identificado e referenciado outro elemento ideológico caro aos grupos de extrema direita, em âmbito internacional, o repúdio ao marxismo. No texto, de autoria do presidente da FIB, Victor Barbuy, o autor revela suas preferências por alguns dos teóricos expressivos dos regimes fascista e nazista, como Giovanni Gentile e Carl Schmitt.
O primeiro foi ministro da Instrução Pública no governo de Benito Mussolini, entre 1922 e 1925, responsável pela reforma do ensino durante o fascismo italiano e membro do denominado “Grande Conselho Fascista”, órgão máximo do Partido Nacional Fascista. Gentile permaneceu fiel a Mussolini até sua morte pelos combatentes antifascistas, os partigiani. Assim como no texto da FIB em análise, o presidente Victor Barbuy faz referência ao jurista Carl Schmitt, membro do partido nazista que permaneceu fiel a Hitler até o final da Segunda Guerra e nunca se retratou da filiação ao
partido. 43
Entre os temas contemporâneos da conjuntura nacional o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3) foi objeto de grande repercussão nos meios de comunicação da militância integralista. A pesquisa constatou muitos números dos boletins e informativos da FIB que abordaram e condenaram de forma veemente o PNDH3, sendo um dos temas de maior destaque entre as recentes publicações dos intelectuais do Sigma.
No artigo “Milhares em Ato Público contra o PNDH-3”, foram colocados de maneira explícita os fundamentos da interpretação integralista sobre a conjuntura política nacional no aspecto do
repúdio ao aborto e ao Programa Nacional de Direitos Humanos.44 No artigo “Ponderações sobre o PNDH3” de autoria do presidente da FIB, foram constatados importantes elementos de homofobia da plataforma ideológica dos herdeiros do Sigma, com a crítica à união civil de pessoas do mesmo sexo, a crítica aos movimentos sociais, além de o texto abordar também a temática relativa ao aborto. Essas questões foram apresentadas como consequências do que eles afirmam ser uma “ditadura pseudossocialista” que está sendo
implantada no país. 45 A crítica às posições de investigação sobre os crimes de tortura foram condenadas pelo presidente da FIB, no mesmo artigo, numa argumentação apologética à Ditadura Militar
brasileira.46
As críticas aos movimentos sociais do campo, especificamente ao MST, também foram enfatizadas no texto que defendeu o “direito natural à propriedade” e o repúdio a essa organização. Segundo o presidente da FIB, o MST divulga uma ideologia “baseada no ódio,
na violência e na desagregação moral, ética e social”.47
As tecnologias da informação nas últimas duas décadas propiciaram a antigos e novos militantes dos aparelhos integralistas novas determinações para o intento de rearticulação de adeptos da ideologia de Plínio Salgado, como a pesquisa buscou apontar remetendo-se aos conteúdos dos sites e informativos impressos analisados. Porém, outro elemento que deve ser levado em consideração são os blogs criados por militantes de diversas partes do Brasil.
Os blogs integralistas, até então esparsos, foram centralizados pela liderança integralista do Rio de Janeiro, Sérgio Vasconcellos, da FIB-RJ através de sua iniciativa de criação de um blog denominado “Ação dos blogs integralistas”, o referido militante organizou algumas dezenas de blogs de integralistas de todo o país numa relação sistematizada de endereços eletrônicos na sua busca de uma política centralizadora para reorganizar o movimento em nível nacional, segundo informações do blog em “Regras para a ação dos
blogs integralistas”.48
Os militantes do Sigma através da “Ação dos blogs integralistas” forneceram indiretamente para esta pesquisa a facilitação da sistematização dos blogs integralistas ativos. Estes proporcionam mais um canal midiático de interação e difusão de material de formação política, assim como informações sobre a ação das organizações pelo país. Foram analisados 34 blogs em
funcionamento.49
Os conteúdos destas páginas pessoais possuem alguns eixos temáticos, como foi constatado. São eles: história, poesia, notícias de conjuntura nacional, blogs de núcleos regionais ou locais e com conteúdo acadêmico. Neste último item, destacam-se Victor Barbuy, o presidente da FIB, que postou em seu blog os blogs “O Quarto Império” e “Caminho do campo” que disponibilizam artigos de conteúdo acadêmico com muitas referências ao filósofo nacional-socialista Martim Heidegger. Estes dois últimos são do cientista social de Curitiba Thiago Moraes, diretor do centro Acadêmico de Ciência Política da Faculdade Internacional de Curitiba (Facinter).
O artigo “Heidegger Filósofo da poesia, poeta da filosofia”, de autoria de FIB, proporcionou mais elementos interessantes para a reflexão sobre suas preferências intelectuais, compartilhadas por lideranças integralistas e militantes da atualidade. A análise do “Estatuto da Frente Integralista Brasileira” revelou aspectos organizativos e fundamentos ideológicos da atual militância, ampliando as informações obtidas através das fontes selecionadas e confirmando muitos elementos identificados nos textos analisados.
A FIB no seu site apresenta-se como uma associação civil sem fins lucrativos fundada no dia 22 de janeiro de 2005, com sede na Avenida Casper Líbero, n. 36, em São Paulo, com foro na capital paulista e com abrangência em todo território nacional, segundo os dados que constam no documento. A finalidade da organização, conforme o estatuto, é “promover movimentos culturais, políticos e sociais como forma de resgate da herança cultural, cívica, política e ideológica da Ação Integralista Brasileira, principalmente no que se refere à trilogia Deus, pátria e família”, intitulando-se um movimento espiritualista.
No artigo 5º da fonte documental analisada, a FIB defende como fundamentos do Estado Nacional Brasileiro:
a. a defesa da soberania nacional;
b. o exercício da cidadania plena;
c. a defesa da dignidade da pessoa humana; d. o reconhecimento dos valores sociais do trabalho e da livre
iniciativa;
e. a defesa do pluralismo político. 50
A defesa do pluralismo político evidencia uma importante ruptura ideológica da atual militância com a crítica veemente ao sistema político pluripartidarista estabelecido pelos líderes do movimento na década de 1930. Porém, em artigos de publicações da FIB, como o boletim Bandeira do Sigma, foram analisados textos críticos ao pluripartidarismo, como apontado no capítulo seis desta investigação.
É interessante como a questão da educação política é um fator destacado pelo documento, no artigo 6º do referido estatuto, nos “princípios fundamentais” constam a defesa e valorização da formação política dos militantes da FIB:
a. afirmar-se como escola política no sentido de procurar
desenvolver uma nova mentalidade nacional tendo como inspiração os fundamentos do Manifesto de Outubro de 1932;
b. funcionar como movimento cultural e cívico, consoante os
ditames do Código de Ética do Estudante elaborado por
Plínio Salgado em 1946.51
Na organização das atividades e na estrutura interna, a FIB tem o objetivo, segundo seus documentos e conteúdos disponibilizados em suas publicações, de exercer as suas atividades em todo território nacional através do modelo de núcleos integralistas inspirados nas características organizacionais da década de 1930. O modelo nuclear aplicado na atualidade funciona através de núcleos com comunicação principalmente pela internet e por intermédio dos boletins, jornais e informativos impressos.
A respeito do modelo de articulação administrativa a lógica segue o formato semelhante ao da década de 1930, com núcleos em âmbito distrital, municipal e estadual. Os distritais podem ser estabelecidos dentro de qualquer município e estão subordinados ao núcleo municipal. E as sedes estaduais são nas respectivas capitais dos estados onde exista um núcleo.
A administração em âmbito nacional não é explicitada no estatuto da FIB. Porém, o “presidente nacional” e o “secretário-geral de doutrina” têm foro privilegiado de influência e decisão sobre os militantes, embora sem buscarem afirmar-se com autoridade semelhante à de Plínio Salgado, considerado o eterno “chefe nacional”. Abaixo destes, na estrutura do movimento, estão os membros dos Conselhos Diretivos, de âmbito nacional, estadual, municipal e distrital.
Os militantes integralistas financiam o movimento com contribuições e comercializações de produtos. O artigo 15º diz que “as fontes de recursos da são”:
a. doações de pessoas físicas e instituições; b. contribuições periódicas dos membros associados; c. receita obtida com a comercialização de materiais (como
livros, informativos, símbolos etc.).52
Já nos boletins e informativos da década de 1990 analisados, como o Alerta, foi constatado que era executada a estratégia de vender produtos como livros, gravações de discursos de Plínio Salgado em áudio e camisetas. Inclusive o boletim publicado a partir de 2009 Bandeira do Sigma e o site da FIB inserem-se na atividade comercial de materiais de formação ideológica e até souvenires integralistas e documentos internos da FIB através da loja virtual “Tenda Verde”, como foi apontado.
Interessante o Capítulo V do estatuto, intitulado “Dos direitos e deveres”, no qual consta que todos os membros têm o direito de receber material político e cultural como forma de “aprimoramento doutrinário” – elemento que evidencia a preocupação dos intelectuais da FIB de criar condições e instrumentos para a formação ideológica dos novos camisas verdes e blusas verdes.
Os membros filiados são expressamente proibidos, segundo o estatuto, de dar declarações ou fazer pronunciamentos em nome da FIB, bem como enviar artigos ou cartas aos veículos de comunicação em nome da organização, sem que tenham sido previamente autorizados pelo Conselho Diretivo Nacional. A centralização da informação e a busca pelo controle das publicações mediante a análise do Conselho Diretivo Nacional lembram os mesmos objetivos e finalidades da Secretaria Nacional de Imprensa na década de 1930 que instruía que todas as publicações fossem enviadas ao denominado “chefe nacional” Plínio Salgado.
A questão da preocupação com a inserção e influência da FIB na sociedade civil foi colocada nos objetivos do estatuto deste aparelho privado de hegemonia através da estratégia de atividades em campanhas de esclarecimento, como no caso da campanha contra o PNDH3. A guerra de posição, em sentido gramsciano, também é enfatizada através da proposição de formação nos núcleos de jornais e informativos para a “circulação geral entre os membros e a sociedade”, também a implantação de bibliotecas, oferta de cursos profissionalizantes e serviços de documentação são oferecidos em
alguns núcleos e abertos ao atendimento público. 53
A estratégia de oferta de cursos e bibliotecas já experimentadas inicialmente em 1930 foi também o modelo buscado por Arcy Estrella, no Centro Cultural Plínio Salgado, na cidade do Rio do Ouro na década de 1990, e na Casa Plínio Salgado, localizada em São Paulo, atuante também desde a década de 1990, como foi confirmado através da análise das fontes. O boletim Alerta, publicação do Centro Cultural Plínio Salgado que circulou por cinco anos sob a direção de Arcy Estrella em vários números, publicou a oferta de cursos como datilografia, corte e costura etc. como canal de atração de novos participantes e simpatizantes. A sala de aula como meio de inserção e integração continua válida e usual para os integralistas contemporâneos.
A busca por articulação com outros grupos congêneres também foi pontuado no documento como objetivo de agremiar outras organizações chauvinistas. Isto inclusive fica evidenciado através da menção e reprodução de textos de outros grupos nacionalistas apoiados pela FIB e publicados em seus periódicos como o Alerta, o Bandeira do Sigma e o Informativo CEDI. O caráter grandiloquente dos propósitos da FIB ficou explicitado no artigo 20 no parágrafo único:
Os Conselhos Diretivos em âmbitos distrital, municipal e
estadual são constituídos pelos membros fundadores da FIB,
sendo o número mínimo de 5 membros e o máximo de 5 mil em
cada um deles.54
Entre as responsabilidades do presidente nacional destacou-se na análise a atribuição de “estabelecer, anualmente, o programa de ação nacional da F.I.B., dirigindo suas atividades”. Este elemento diretivo foi confirmado, em termos de ações concretas, ao serem consultados os informativos, jornais e sites e observados conteúdos publicados em referência ao programa de ação dos militantes. Especificamente o primeiro número do novo jornal Ação, publicação bimestral que em sua primeira edição de janeiro/fevereiro de 2011, trouxe em destaque de primeira página ordenamentos diretivos para um plano de ação para articulação e expansão dos núcleos, como apontado no capítulo anterior.
Outro elemento de análise evidenciado através das fontes consultadas foi a coluna do informativo Bandeira do Sigma, denominada “Novidades integralistas pelo Brasil”, que apresentou em vários números informes sobre a inauguração de núcleos em vários estados do país. A preocupação dos intelectuais dirigentes do movimento com a expansão da organização, segundo o estatuto da FIB que foi publicado em 2005, rendeu frutos, pois na consulta dos sites integralistas disponíveis, como o portal da FIB, foram constatados dados de um relativo crescimento da organização. Isto se verifica segundo fatores como a articulação de militantes espalhados geograficamente que “conectaram-se” através dos novos meios de comunicação das últimas três décadas, além da articulação de antigos e novos simpatizantes. Um crescimento irrisório quando comparado ao grau de expansão do integralismo em sua gênese, porém esse crescimento modesto favorecido em grande medida por modalidades não presenciais de práxis política não seria possível sem as novas determinações sociais dos recursos tecnológicos que influenciam a atual militância na sociedade civil e no ciberespaço.
No Estatuto da FIB, no parágrafo 3º do artigo 5º, foi observada por esta pesquisa a instrutiva sobre atribuições da Diretoria Administrativa Nacional, que tem responsabilidades na elaboração de programas de formação política para a militância e na articulação com outras organizações congêneres no Brasil e exterior, assim como se enfatiza a atuação dos integralistas através de canais de comunicação. Mais uma evidência das pretensões dos herdeiros de
Plínio Salgado. 55
O documento da FIB denominado “Manifesto 13 de maio” também foi analisado. O mesmo foi lançado na data que dá título ao documento, no ano de 2009, e foi elaborado pelo Presidente Nacional da FIB Victor Vilella Barbuy, segundo dados do site da
organização.56 O manifesto é iniciado em seus fundamentos abordando a negação de perspectivas raciais dentro no integralismo.
O integralismo, movimento cívico, político, cultural e social
alicerçado numa visão integral do universo e do homem, luta
pela edificação de um Estado Ético e de uma Democracia
Orgânica e condena, à luz dos ensinamentos do Evangelho e
de pensadores como Alberto Torres, todas as teorias
defensoras da superioridade de determinadas etnias sobre
outras. Defende, a Doutrina do Sigma, portanto, que o nosso
povo é tão capaz quanto qualquer outro e que o Brasil deve se
tornar efetivamente uma Democracia Étnica onde brancos,
negros, índios, orientais, caboclos, mulatos, cafuzos e demais
mestiços vivam em harmonia e em igualdade de deveres e de
direitos em face da Sociedade e do Estado.57
O autor do documento Victor Barbuy demonstrou conhecimento sobre os teóricos do racismo cientificista do século XXI e XX e, com ênfase, atribuiu o contexto dos últimos dois séculos como um
período predominante de difusão destas concepções. 58 Porém, afirma-se na fonte documental em questão que alguns pensadores nacionalistas como Alberto Torres suplantaram, segundo o manifesto, as concepções racistas que no Brasil exerciam relativa influência sobre representantes do pensamento social brasileiro do
período.59
Deslocando a discussão para instrumentalizá-la contra a denominada “esquerda brasileira” e as políticas de cotas raciais discutidas no governo petista de Luiz Inácio Lula da Silva, os integralistas afirmaram que o governo do PT está tentando dividir o país pela perspectiva racial. No documento foi evidenciado também que as injustiças “muito mais econômicas do que étnicas” devem ser solucionadas com a proposta integralista de educação integral e, que no dia 13 de maio, data de comemoração da Abolição da Escravidão no Brasil, os brasileiros deveriam lutar a favor de uma
nova abolição, agora contra os banqueiros internacionais.60
O “Manifesto da Guanabara” 61 foi o terceiro documento da FIB analisado, o mesmo foi lançado no dia 25 de janeiro de 2009 na ocasião do III Congresso Nacional Integralista, realizado no estado do Rio de Janeiro. A análise do documento foi fundamental, pois, revelou aspectos importantes da ideologia do Sigma, em específico, o teor fortemente moralizante baseado em pressuposto fundamentalista cristão e fundamentado numa lógica organicista de ordenamento social em que a família, o município, as categorias profissionais e a nação são entendidas como “grupos naturais que compõem a pátria”.
Segundo a análise do manifesto o elemento fundamentalista religioso como ordenamento moralizante da sociedade foi evidenciado como importante componente ideológico:
Art. 1º O integralismo é uma Doutrina que, por Deus, Ser
Supremo e Absoluto, pela pátria, terra dos pais, que é também
nossa e de nossos filhos nascidos ou por nascer, e pela família,
célula máter da sociedade, compreende o universo de um modo
integral, pretendendo edificar o Novo Estado, a nova sociedade
e a nova civilização de acordo com a hierarquia de seus valores
espirituais e materiais, segundo as leis que regem seus
movimentos e sob dependência de Deus, que criou o homem à
sua imagem e semelhança, lhe conferindo uma destinação
superior, um destino transcendente.
Parágrafo único. A hierarquia supracitada, em que se fundam
o princípio e o exercício da autoridade, faz prevalecer o
espiritual sobre o moral, o moral sobre o social, o social sobre o
nacional e, por derradeiro, o nacional sobre o particular.62
No documento foi afirmado que o integralismo na sua proposta da organização social defende não um sistema de governo, e sim um
regime baseado no “Direito Natural” e no “Direito positivo”.63
A concepção organicista de ordenamento social enfatizou o papel das famílias e municípios como células que “compõem a nação”. Esta concepção foi constatada na afirmação de que a família enquanto “instituição natural e divina” tem como fundamento pessoas de sexos distintos, revelando implicitamente valores
homofóbicos.64 O caráter autocrático chauvinista e regressivo explicitado no Manifesto da Guanabara, apresentado de forma clara nos pressupostos ideológicos do documento em questão, proporcionou a percepção do caráter irracionalista dos valores preconizados pelos intelectuais da FIB:
Parágrafo único: O integralismo prega o patriotismo, sentimento
espontâneo e decorrente da lei natural. É chegado o momento
de, uma vez mais, acordar as forças ocultas que dormem no
seio da grande pátria e, assim, despertar novamente o Brasil de
seu sono e de seu sonho, o reconduzindo às bases morais de
sua formação e ao caminho de seu destino histórico. É chegado
o momento de restaurar o primado do espírito e a filosofia
perene e de reconduzir a ciência jurídica ao direito natural
clássico, a sociedade à tradição e as relações internacionais ao
universalismo personalista que a chamada Idade Média tão
bem realizou. Devemos ter em mente que de nossa marcha
depende não apenas o futuro do Brasil como também o de todo
o mundo e que de nossa marcha depende, ademais, a vitória
ou derrota final de nossa Nação.
O irracionalismo e o caráter ideológico regressivo na gênese da ideologia integralista foram apontados por Chasin (1978) e, segundo as constatações realizadas nesta investigação, através das fontes primárias consultadas, permanecem atuais estes fundamentos na compreensão obtida dos valores preconizados pelos integralistas contemporâneos.
A defesa do “Direito Natural” de valores tradicionalistas marca a configuração ideológica dos integralistas na atualidade como manifestação irracionalista com um fenômeno de decadência ideológica, como apontou Lukács (1959).
7.3 Conteúdos ideológicos disponibilizados no
site da Ação Integralista Revolucionária A Ação Integralista Revolucionária (AIR) foi fundada pelo militante da cidade de Rio Claro (SP) Jenyberto Pizzotti, como apontado no quinto capítulo. Seu site não está mais disponível na internet e alguns links que ainda podem ser acessados na rede estão aqui referenciados em notas de rodapé. Para obtenção dos conteúdos ideológicos defendidos pela AIR foram analisados o denominado “Manifesto da AIR” e o documento “Posição Oficial”, no qual o intelectual do Sigma explicitou elementos de sua interpretação do integralismo e sobre a conjuntura política contemporânea.
O “Manifesto da AIR” examinado nesta pesquisa não poderia ser intitulado como um manifesto, segundo o entendimento aqui estabelecido, pois, um manifesto é compreendido segundo a lógica de um documento de preposições de um projeto político. E, após a leitura de seus conteúdos, observou-se que o autor do documento, o líder da AIR Jenyberto Pizzotti, escreveu na verdade um texto de crítica ao então presidente da República, onde são apresentadas ideias relacionadas à concepção de uma conspiração realizada pelo governo federal, considerado no texto “esquerdista” e “articulado com investidores capitalistas internacionais, para o detrimento da nação”.
Não constam no citado manifesto, informações referentes às propostas do projeto político da denominada Ação Integralista Revolucionária, sendo seus conteúdos aqui caracterizados como de caráter panfletário. No final do documento Jenyberto Pizzotti conclamou aos militares para “acordar de seu sono letárgico” e
“salvar o Brasil”.65
As posições de Jenyberto também foram obtidas no texto oriundo do site da AIR, enquanto este ainda estava disponível, denominado “Posição Oficial”, onde o “quixotesco” intelectual do Sigma e dirigente da AIR colocou sua visão a respeito da polêmica relacionada à revisão dos pressupostos integralistas originários, publicados na primeira metade do século XX.
O documento foi publicado em 2006, quando os grupos integralistas contemporâneos já haviam divergido a respeito dos rumos da militância na ocasião do “Congresso Integralista para o século XXI”, realizado em São Paulo em 2004. Segundo a fonte documental, Jenyberto Pizzotti reivindicou a liberdade de interpretação da ideologia integralista e criticou a busca de centralização dos núcleos e militantes existentes, argumentando pela necessidade de compreensão do integralismo enquanto um movimento de princípios políticos, e não como um partido político institucionalizado:
Liberdade para estudar e interpretar o integralismo.
Acreditamos que qualquer pessoa, Integralista ou não, pode e
deve estudar, pesquisar, entender, e interpretar livremente o
integralismo, como doutrina e como fato histórico. Acreditamos
que é mais que necessário, é um dever, estudar e compreender
tudo o que aconteceu e acontece no Integralismo, e saber, de
forma livre e responsável, separar os acertos e os erros, o que
é certo, e o que é errado dentro de qualquer movimento
político-social ou ideologia. Não nos prendemos a dogmas e
ideias consideradas imutáveis. Acreditamos que a autocrítica é
necessária para aperfeiçoarmos cada vez mais o pensamento
integralista. [...] 2. Grupos integralistas livres e independentes:
acreditamos que no momento atual do integralismo, a união de
todos os integralistas e organizações Integralistas sob o
comando de uma AIB – Ação Integralista Brasileira – inexistente
e não reconhecida pelos integralistas é impossível. O ideal seria
uma única organização integralista, com todos os companheiros
unidos num só bloco de pensamento e ação, mas não é essa a
realidade hoje. No momento, defendemos a existência de
diversas organizações integralistas independentes de um
“comando único e central”. Talvez, com o tempo, “os iguais se
aproximem e se unam”.66
A estratégia de organização defendida por Jenyberto Pizzotti foi, como já apontado, a proposta de um modelo descentralizado de células de militantes orientado na perspectiva de volta das “raízes
integralistas”, entendida enquanto “ideia revolucionária”. 67 Interessante na análise deste documento foi a constatação de que Jenyberto Pizzotti apontou explicitamente os aspectos autocráticos que seriam consubstanciados com o denominado “Estado Integral”. O autor também defendeu a crítica ao modelo partidário optado por Plínio Salgado após 1935 e que seria equivocado.
A defesa do integralismo contemporâneo enquanto movimento político cultural foi apoiada, porém, de modo que não se negava a possibilidade de uma organização em partido político, mas argumentando sobre sua inadequação no atual contexto de divisão entre os herdeiros de Plínio Salgado. É também importante ressaltar aqui a posição crítica do dirigente da AIR sobre a estratégia da atual militância em apoiar “em bloco” a indicação de candidatos para pleitos eleitorais – fato constatado na análise dos sites e publicações dos outros dois grupos integralistas mais expressivos: a FIB e o MIL-B.
Ainda segundo o dirigente da AIR a identificação do integralismo enquanto portador de uma proposta de organização social de caráter ditatorial é explicitado:
4. A AIR combate o liberalismo. Os integralistas combatiam o
liberalismo defendendo a existência de um Estado “forte”, com
poder para determinar, orientar, fiscalizar e punir, se necessário,
as ações dos cidadãos. Apesar das tentativas filosóficas de
construir uma diferenciação entre “Estado totalitário integral”
(representado pela implantação do integralismo) e “Estado
totalitário” (representado por ditaduras civis ou militares), na
prática, através de diversos textos documentados, a
implantação e manutenção no poder do Estado integralista só
seria possível através de uma ditadura. Diversos textos e
tentativas foram feitos, principalmente por Plínio, para não
caracterizar a implantação do Estado Integral como uma
ditadura, por exemplo, na frase de Plínio “só os povos bárbaros
aceitam as ditaduras”, e em muitas outras, no entanto, a
estruturação, organização, e sobretudo, os objetivos e ações
que seriam colocadas em prática, como por exemplo “a
fiscalização e orientação dos meios de comunicação”