Chauvinismo e extrema direita
Parte II – A atualidade e a particularidade do objeto
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Parte II – A atualidade e a
particularidade do objeto
5. A ação do Partido de
Representação Popular (PRP) e os
“Águias brancas”; elos entre a antiga
militância e os intelectuais do Sigma
contemporâneos
No Brasil, os antigos aliados do fascismo italiano e seus congêneres continuaram após a Segunda Guerra a se rearticular, possibilitando em perspectiva gramsciana a interpretação de uma guerra de posição e uma guerra de movimento, na continuidade de atuação desses grupos.
Com a extinção dos partidos políticos, decretada com o golpe do Estado Novo em 1937, os integralistas ficaram no ostracismo até 1945, quando Plínio Salgado retornou do exílio imposto pela ditadura varguista fundando o Partido de Representação Popular (PRP).
O contexto em questão marcou a primeira reestruturação institucional do integralismo no século XX e representou a segunda fase de continuidade da organização, atuando através do PRP e dos Centros Culturais de Juventude (CCCJs). Os seguidores de Plínio Salgado cumpriram a função social de componentes da dominação burguesa, defendendo posições excludentes e reacionárias para a manutenção da ordem. Integralistas e outros nacionalistas da agremiação do PRP naquele período eram chamados de populistas. O PRP foi analisado em profundidade nas pesquisas de Calil (2001; 2005), autor da investigação mais completa e profunda sobre a agremiação. Nas suas pesquisas sobre Plínio Salgado e a atuação do partido, Calil apontou a questão do nacionalismo como um dos temas recorrentes nas publicações integralistas das décadas de 1940 a 1960.
O nacionalismo como componente ideológico fundamental do PRP, segundo Calil (2001), pode ser exemplificado em trechos de artigos de Plínio Salgado, nos quais a valoração chauvinista foi afirmada como o “fundamento moral” e base da educação de um povo; propriamente, o nacionalismo segundo os intelectuais do Sigma era entendido como uma escola de nacionalidade (Calil, 2001, p.214). A formação da consciência nacional e de regeneração da Pátria era explicitada como um processo educacional, segundo a imprensa do
PRP estudada por Calil (2001). 1
No sentido de reorganização das condições materiais para a continuidade da difusão do nacionalismo, os herdeiros do Eixo, através de instituições geradoras de cultura como jornais, editoras, livrarias, associações civis e partidos políticos, construíram também no Brasil uma complexa rede para continuidade e difusão de suas concepções políticas. Essa situação pode ser estudada focalizando o aparente proselitismo político caracterizado pela migração de muitos militantes chauvinistas para partidos políticos conservadores e democrata-cristãos depois da Segunda Guerra Mundial, como é o caso do Partido de Representação Popular (PRP), fundado por Plínio Salgado. Rapidamente após a fundação da legenda, Plínio lançou jornais, como A Marcha, Idade Nova, as editoras Voz do Oeste e Livraria Clássica Brasileira, com o objetivo de influenciar segmentos da opinião pública e intervir nas disputas políticas através de diferentes formas de propaganda política e formação ideológica. O PRP, por exemplo, também ofereceu um programa de rádio chamado Palestras com o povo entre 1957 a 1958.
No período em que se iniciava a denominada Guerra Fria, o anticomunismo e o nacionalismo dos militantes do PRP foram úteis à manutenção da ordem burguesa.A Livraria Clássica Brasileira foi um grande empreendimento dos militantes do Sigma. Durante as décadas de 1950 e 1960, a editora possuiu mais de 400 pontos de venda, além de mais de 20 mil clientes, segundo o jornal A Marcha, de outubro de 1963 (Christofoletti, 2011, p.82).
Para o autor, a articulação da livraria foi financiada com contribuições de políticos, banqueiros e industriais que possuíam grande interesse na difusão dos títulos de publicações anticomunistas distribuídos pela editora do PRP.
As pesquisas de Gilberto Calil (2005) sobre as relações dos integralistas com o golpe de 1964 também confirmam o financiamento das publicações do PRP por parte de frações da burguesia que tinham interesse nas publicações integralistas por disseminarem o anticomunismo. Um exemplo destacado pelo autor foi o do Serviço Social da Indústria de São Paulo, que comprava muitas edições da editora Livraria Clássica brasileira para
distribuição entre seus associados. 2
Calil (2005) também apontou que os financiamentos de frações da burguesia no contexto de arranjo para o golpe militar proporcionaram recursos para um programa semanal de TV em 1963:
Os integralistas voltaram a receber expressivo apoio de
integrantes da grande burguesia para a sustentação de um
programa semanal de televisão e o relançamento do jornal A
Marcha, cuja circulação fora suspensa em 1962. O programa
televisivo foi ao ar, semanalmente, entre maio e agosto de
1963. Seu alto custo teria sido financiado pelas “classes
conservadoras”, embora o apoio tenha sido insuficiente para
mantê-lo no ar. (Ibid., 2005, p.69)
O Partido da Representação Popular (PRP) apresentou-se como um fenômeno político relacionado ao contexto internacional no qual antigos fascistas, nazistas e, no caso brasileiro, integralistas, sobreviveram dentro de legendas partidárias que surtiram o efeito de abrigar ideólogos do chauvinismo que buscavam apresentar uma imagem de legalidade dentro das instituições políticas para a continuidade da defesa de seus princípios (Caldeira Neto, 2011, p.45).
As publicações do PRP indicavam, segundo o autor, que ocorria uma infiltração comunista em vários setores da sociedade. Era denunciada, por exemplo, a ação dos comunistas nas instituições educacionais e no movimento estudantil (Calil, 2001, p.318).
A atuação e a influência do PRP não foram hegemônicas no cenário político brasileiro do período, entretanto, alguns momentos foram expressivos. Algumas de suas conquistas foram os quatro mandatos como deputado federal de Plínio Salgado e Raimundo Padilha, este último atuou como deputado federal em 1952. Ambos integraram como deputados a Comissão de Educação e Cultura. Godofredo da S. Telles foi eleito deputado estadual em São Paulo, em 1946, e deputado federal, em 1951. E muitos outros membros do PRP foram
eleitos para cargos nas esferas estaduais e municipais.3 Importantes postos, interpretado em perspectiva gramsciana de guerra de movimento, foram alcançados por algumas lideranças integralistas naquele período do PRP e também posteriormente com a ditadura militar. Um exemplo é a nomeação de Raimundo Padilha,
indicado para o governo do Estado do Rio de Janeiro em 1971.4
A pesquisa de Caldeira Neto (2011, p.48-9) também apontou as estratégias de Plínio Salgado para aglutinar antigos militantes da AIB e novos aliados através da participação nas disputas políticas institucionalizadas com a aparente adesão às regras da democracia representativa, buscando transmitir a imagem de partido democrático e desvinculado do apoio e identidade ideológica dos regimes fascistas e nazistas. Para a legitimação desta farsa, a estratégia foi retirar palavras e frases de apoio aos regimes da Itália, Alemanha, Portugal e Espanha nas reedições de livros integralistas publicados na década de 1930, como foi apontado na primeira parte desta investigação.
No PRP, existiu uma ala jovem que representava o setor mais hegemonicamente integralista dentro do partido, os militantes denominados “águias brancas”, como eram chamados os membros das Confederações dos Centros Culturais de Juventude (CCCJs).
A juventude do partido era a tendência mais apologética do integralismo dentro do PRP e muitos “águias brancas” foram responsáveis pela continuidade da divulgação da ideologia do Sigma após a morte de Plínio Salgado em 1975 (Caldeira Neto, 2011, p.61).
Os militantes “águias brancas” foram efetivamente uma importante organização dentro do PRP que se tornou fundamental para o resgate da valoração dos símbolos e convicções ideológicas integralistas para uma nova geração de jovens do Sigma que exerceu um papel fundamental na continuidade da divulgação da ideologia integralista.
A organização, em acepção gramsciana, de aparelhos privados de hegemonia, materializados nos núcleos e centros de preservação da memória integralista, foi inaugurada inicialmente a partir na década de 1980 e com desdobramentos importantes a partir da década de 1990, e a atuação dos “águias brancas” naquele processo foi
imprescindível, como será apontado adiante nesta investigação. 5
Segundo informações obtidas na tese de Rodrigo Christofoletti (2010, p.63) foram localizadas referências de dados acerca do número existente dos Culturais da Juventude, que chegou a 320 núcleos em atuação simultânea. A investigação de Christofoletti (2010) também destacou que os integralistas sob o entorno do PRP e dos CCJ articularam alianças com outras organizações anticomunistas atuantes no período, como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), a Ação Democrática Parlamentar, o Movimento Anticomunista (MAC) e o Grupo de Ação Patriótica (GAP).
O anticomunismo foi um dos elementos ideológicos mais importantes que caracterizaram a plataforma ideológica do PRP, configurada no contexto de início da Guerra Fria como expressão nacional particular entre a universalidade dos fenômenos políticos representados por partidos conservadores e nacionalistas que marcaram o período em questão em muitos países sob a bandeira do perigo vermelho (Motta, 2002).
O papel e função social dos integralistas, compreendidos como “cães de guarda da ordem burguesa”, segundo a expressão que consta no título da tese de Gilberto Calil (2005), ficaram evidenciados nos préstimos executados pelo PRP, nas denúncias e combates contra os comunistas para as forças de repressão do Estado através de informações levantadas pelo “serviço secreto” do PRP (Calil, 2001, p.317-8).
Entre os militantes na década de 1940 a 1960 que exerceram influência decisiva para a reorganização dos camisas verdes na segunda metade do século XX, Gumercindo Rocha Dórea foi, como apontado, um dos maiores expoentes. Este intelectual do Sigma assumiu na época a presidência da Confederação dos Centros Culturais da Juventude (CCCJs). Gumercindo Dórea, assim como José Batista de Carvalho, foram ativos “águias brancas”; além de Genésio Pereira Filho, que militou na década de 1950 como secretário nacional de Arregimentação Estudantil do PRP.
Corroborando com a identificação do anticomunismo como uma importante bandeira ideológica dos integralistas no PRP, Chistofoletti (2011) destacou também o anticomunismo e a articulação de diferentes organizações que mantinham relação com o PRP durante toda a década que antecedeu o golpe militar de 1964, ocorrendo a formação de uma frente anticomunista composta por diferentes grupos.
José Batista de Carvalho foi entrevistado em julho de 2004 por Márcia Carneiro (2007), na época era presidente da Casa Plínio Salgado. Filho de integralista, participou da AIB na infância e em 1946, aos 17 anos, entrou para o PRP. Sua militância destaca-se pelo ativismo dedicado a sua ideologia e, em 1952, participou da fundação dos CCJs. Segundo ele, os grêmios dos CCJs faziam estudos da problemática brasileira que incluíam a sociologia e a filosofia, elemento que evidencia a preocupação da cúpula da organização com a preparação dos seus quadros.
Pedro Batista de Carvalho, irmão de José Batista, participou junto com Anésio Lara Campos somente do PRP; este último, figura polêmica pelo seu envolvimento com militantes do nacional-socialismo e com textos revisionistas.
Entre os intelectuais do Sigma mais importantes, Gumercindo Rocha Dórea representou um papel fundamental para a continuidade e reorganização do integralismo após a morte de Plínio Salgado. A Editora GRD, de propriedade de Gumercindo, foi fundada em 1956 e publicou diversos títulos de autores integralistas
assim como livros dos principais teóricos do movimento. 6
Em entrevista concedida à pesquisadora Márcia Carneiro (2007), Gumercindo revelou que em 1952 ajudou a fundar a confederação do CCJ, de onde, em 1953 foi o diretor e primeiro fundador do jornal periódico do Rio de Janeiro A Marcha, até o ano de 1955, atividade que desempenhou a convite do próprio Plínio Salgado. Gumercindo também escreveu para o Jornal Idade Nova de Raimundo Padilha e foi secretário estadual de Estudantes, no Rio de Janeiro, dentro da Secretaria Regional de Arregimentação Estudantil.
Nas eleições presidenciais de 1955, quando Salgado concorreu à presidência, os “águias brancas” organizaram “bandeiras” pelo país; campanhas políticas de divulgação das propostas do PRP, sendo Gumercindo um militante de destaque na campanha presidencial de Plínio Salgado.
Gumercindo Rocha Dórea também fez parte, durante a ditadura militar, da “Comissão Nacional de Moral e Civismo”. O objetivo desta comissão era criar diretrizes para o currículo escolar e livros didáticos. Atuou posteriormente na Fundação Nacional do Material Escolar (Fameme), criada em 1967.
Entre o início da segunda metade do século XX até a extinção dos partidos políticos pela ditadura militar, o PRP atuou como legenda que aglutinou os integralistas, militantes conservadores e nacionalistas não adeptos da ideologia integralista. Diluído no contexto do regime militar, porém, Plínio Salgado e antigos integralistas colaboraram na conjuntura de efetivação do golpe de Estado que inaugurou o período ditatorial militar e continuaram os seus préstimos à nova configuração da ordem nacionalista militarizada, através do partido político criado para apoiar a ditadura, a Aliança Renovadora Nacional (Arena).
O pesquisador Fábio Bertonha (2011) também abordou elementos sobre a relação de apoio dos militantes do Sigma na implantação da ditadura militar através do apoio dos deputados do PRP e das
publicações de apoio ao golpe por meio da Editora GRD. 7
A presença de ex-integralistas e militantes ativos dentro de órgãos do governo ditatorial militar e o apoio dos integralistas liderados por Plínio Salgado, que foi líder do governo na Câmara dos Deputados, proporcionaram condições para que os intelectuais do Sigma continuassem a apologética chauvinista durante o período de estado de exceção. O apoio de Salgado proporcionou também vantagens, como a reedição de seus livros pelo Ministério da Educação:
Efetivamente Raimundo Padilha chegou a ser líder do governo
no Congresso e governador da Guanabara; Alfredo Buzaid e
Ibrahim Abi Ackel foram ministros da Justiça; João Paulo Reis
Velloso do Planejamento e Euro Brandão da Educação e
Cultura. Os ex-integralistas também controlaram, segundo
algumas fontes, muitas posições menores em vários
ministérios, como a Comissão de Moral e Cívica do MEC e a
Superintendência de Desenvolvimento do SUL (Sudesul), com
sua máquina burocrática. O próprio Plínio Salgado se encaixou
sem problemas na nova ordem. Ele foi líder do governo na
Câmara dos Deputados e teve papel de destaque na aprovação
de várias leis enviadas pelos militares ao Legislativo. [...] Como
recompensa por sua fidelidade, Plínio conseguiu algumas
nomeações e favores para amigos, e alguns de seus livros
foram reeditados com o apoio do Ministério da Educação [...].
(Bertonha, 2011, p.439)
A partir de 1975, com o falecimento de Plínio Salgado, seus seguidores rapidamente começaram a articular novas possibilidades para a continuidade da militância. As primeiras iniciativas de reorganização ocorreram com a iniciativa da formação de associações civis e o lançamento de publicações sobre o integralismo pouco tempo depois do falecimento de Salgado.
As pesquisas de Gilberto Calil (2001; 2005) e Odilon Caldeira Neto (2010) apontaram a existência de algumas iniciativas para a reorganização do integralismo, já no final da década de 1970. Fundamentando-se em pesquisas acadêmicas e dados da imprensa, os autores apontaram um panorama de organizações e publicações criadas com o objetivo de reorganizar o integralismo, como: o jornal Renovação Nacional, fundado em 1978 pelo integralista Jader Medeiros, a organização Appolo Sport Clube, a Cruzada de Renovação Nacional, a tentativa de refundação da Associação Brasileira de Cultura, em 1979, inspirada na efêmera tentativa de reorganização dos integralistas após o golpe do Estado Novo, o Movimento Popular de Apoio à Fundação Plínio Salgado (MPAPS), fundado em 1979 no estado do Maranhão, e a Associação Cívico-Cultural Minuano, fundada em 1957, localizada então na antiga sede do PRP de Porto Alegre (Caldeira Neto, 2010, p.74-6).
Márcia R. Carneiro (2007, p.148-9), em sua tese sobre as memórias dos militantes integralistas, apontou as diferentes estratégias dos herdeiros da ideologia do Sigma para a continuidade de seus ideais chauvinistas. E destacou a identificação de classe social da atual militância como pertencente, em sua maioria, à classe média e que os novos quadros de militantes do Sigma utilizam na contemporaneidade, com grande ênfase, as tecnologias de comunicação e informação na contemporaneidade como estratégia política de difusão ideológica e organização.
Nas últimas três décadas do século XX iniciaram-se as primeiras ações para a continuidade da manutenção e difusão da ideologia integralista, através de diferentes gerações de militantes. Este processo de reorganização recebeu grande impulso especificamente nas duas últimas décadas, como será apontado. Pois mesmo não estando mais articulados em um único partido político, os militantes em questão ainda objetivam a mobilização de simpatizantes, a continuidade de sua propaganda política, assim como a obtenção de novos membros em seus quadros.
5.1 A reorganização dos intelectuais do Sigma a
partir de 1980: a identificação dos principais
intelectuais e aparelhos integralistas
As consequências do processo de reestruturação produtiva do capital na segunda metade do século XX causaram crises financeiras e desemprego em muitos Estados nacionais e potencializaram a continuidade da proliferação de ideologias nacionalistas como manifestação de oposição às mudanças ocorridas nas últimas quatro décadas.
As políticas liberais conservadoras de Thatcher e Reagan foram imulsionadoras de condições para a continuidade de articulações e alianças entre diferentes matizes da direita. A conjuntura internacional influenciada pela administração conservadora nas últimas décadas possibilitou estímulos para a conquista de espaços na sociedade para grupos com solidariedade ideológica nacionalista e anticomunista no clima do final da Guerra Fria (Vizentini, 2000).
No Brasil, sob a influência do contexto de conservadorismo internacional, como apontado, foi fundada em 1981 a Casa Plínio Salgado, por Pedro Baptista de Carvalho na cidade São Paulo, com a proposta de formar grupos de estudo e discussões sobre o movimento e organizar um acervo importante das obras do integralismo.
A pesquisa de Caldeira Neto (2010) também evidenciou o papel da Casa Plínio Salgado e o êxito na militância dos irmãos José e Pedro Batista em fundar aquele aparelho privado de hegemonia que é, desde 1981, um importante espaço de aglutinação de militantes até então dispersos e que inicialmente, através do ativismo dos irmãos Batista, em conjunto com o apoio prestado por ex-águias brancas e militantes do PRP, e agora com a atuação do sobrinho Lucas Batista, continuam a agremiar novos pares nas atividades que realizam até hoje na cidade São Paulo:
De acordo com os fundadores, em entrevista concedida a
Márcia Carneiro, a Casa Plínio Salgado foi idealizada e
constituída por eles com o auxílio de alguns ex-participantes
dos CCJs, contando com apoio de Rui Arruda Camargo (antigo
membro da AIB) e da viúva de Plínio Salgado, d. Carmela
Salgado. Situada no centro da cidade de São Paulo, a Casa
Plínio Salgado foi desde o início destinada a ser um meio para
a guarda da memória militante do integralismo. Entretanto, este
aspecto exclusivamente voltado à conservação da memória do
integralismo gradativamente dividiu espaço com as tentativas
de retomada institucional dos camisas verdes, inclusive no
espaço físico da Casa Plínio Salgado, tendo em vista que o
local foi utilizado diversas vezes para a realização de reuniões
que acabariam por gerar os primeiros grupos neointegralistas
voltados à atuação no âmbito político e institucional, tal qual a
“recriação” da Ação Integralista Brasileira. (Caldeira Neto, 2010,
p.77)
A pesquisa de Carneiro (2007), através de dados obtidos com entrevistas com os militantes José e Pedro Batista, corroborou com a identificação do papel da Casa Plínio Salgado no trabalho de
manutenção das ações integralistas a partir da década de 1980. 8 Em seu estudo pioneiro sobre o tema, em profundidade de análise, a referida autora demonstrou que os desdobramentos da militância integralista, no período da reabertura política da década de 1980, contaram na região sudeste com outras iniciativas de estabelecimentos de aparelhos privados de hegemonia para a manutenção dos pressupostos ideológicos deixados por Plínio Salgado.
Duas organizações foram destacadas por Márcia Carneiro (2007, p.149), a Ação Nacionalista Brasileira, fundada em 1883, e a segunda, a tentativa efêmera de refundação através do registro de uma nova Ação Integralista Brasileira, pelo militante Anésio Lara, em São Paulo, em 1985.
A análise sobre a atuação e a rearticulação dos integralistas após a morte de seu líder teve como marco a década de 1980, segundo as informações apresentadas na pesquisa de Caldeira Neto (2011). Os dados analisados corroboraram com a interpretação de Carneiro (2007), nos quais o intelectual do Sigma Anésio Lara Campos e os fundadores da Casa Plínio Salgado foram destacados como ativistas importantes dentro do contexto das primeiras tentativas de reorganização do integralismo com o fim da ditadura militar (Caldeira Neto, 2010, p.78).
As informações sobre a rede de solidariedade ideológica proporcionaram condições para o entendimento das iniciativas organizativas de Anésio Lara Campos, que fundou a Ação Nacionalista Brasileira e, dois anos depois, em 1985 registrou também em seu nome a Ação Integralista Brasileira, buscando articular uma rede de relações com outras organizações chauvinistas:
Após o fracasso da Ação Nacionalista Brasileira, no ano de
1985, Anésio de Lara Campos Júnior formaliza a tentativa de
retomada da Ação Integralista Brasileira, registrando a nova AIB
em seu nome. No contexto de redemocratização da política
brasileira, Anésio Lara busca articular a nova AIB em conjunto
com alguns agrupamentos da extrema direita então existentes
no Brasil. Uma destas organizações que mantiveram relações
com a AIB de 1985 foi o Partido de Ação Nacionalista (PAN)
que, de acordo com René Dreifuss, tinha como presidente
Rômulo Augusto Romero Fontes e Antônio Carlos Meirelles no
cargo de secretário geral. (Caldeira Neto, 2010, p.78)
Anésio Lara Campos Junior foi um militante de destaque não só por suas iniciativas de reorganização do movimento, mas também por sua ambição de ser o novo presidente nacional do integralismo e por suas relações com segmentos chauvinistas não apoiados hegemonicamente pelos integralistas, como os nacional-socialistas.
Os conflitos entre Anésio e militantes, inclusive com a própria família de Salgado, que não concordou com o domínio do registro da sigla por Anésio Lara Campos nem com sua posição de busca de controle da organização, proporcionaram empecilhos para as tentativas de reorganização de um movimento nacional e de um
partido integralista sob a liderança do referido intelectual do Sigma.9
A realização do referido Congresso integralista de 1989 na cidade de Niterói (RJ) foi uma expressão das tentativas de reorganização de uma entidade registrada e atuante em nível nacional, assim como um reflexo dos conflitos entre os herdeiros do Sigma. Entretanto, essas contradições não foram empecilhos para os integralistas que na década seguinte continuaram a arquitetar possibilidades para sua militância, encontrando êxito nas articulações com seus pares e com outras organizações chauvinistas no país.
O Rio de Janeiro destacou-se como um dos estados onde os militantes integralistas foram muito atuantes. Antiga capital da República e um dos centros intelectuais do país, a região foi o cenário de destaque de organizações políticas e intelectuais de correntes diversas.
Na conjuntura contemporânea, o Rio de Janeiro continua a ser um dos estados onde os integralistas têm expressiva organização e onde estão algumas das principais lideranças e organizações do Sigma que lá desenvolveram ações e manifestações para a continuidade da difusão da sua ideologia.
Neste sentido, o militante Arcy Lopes Estrella foi também identificado nesta investigação e aqui interpretado como um dos ativistas mais representativos nas ações para reorganização do integralismo contemporâneo. Sua atuação ocorreu no aparelho denominado Centro Cultural Plínio Salgado (CCPS) em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Arcy Estrella militou como fundador e diretor responsável por mais de vinte anos, na busca de articular
condições para a união de antigos e novos militantes. 10 Estas estratégias e contextos puderam ser apreendidos na investigação do boletim Alerta, produzido e distribuído pela liderança em questão. O CCPS passou a divulgar o boletim Alerta em 1995, lançando o primeiro número em novembro daquele ano. Salvo por algumas exceções, ele foi publicado mensalmente até o ano de 2002.
O Centro Cultural Plínio Salgado foi interpretado nesta pesquisa como um dos aparelhos mais importantes no contexto de busca pela reestruturação do movimento e suas reuniões também agremiavam chauvinistas de outras organizações, como participantes do movimento Carecas do Rio, membros do Partido Nacional Socialista Brasileiro (PNSB) e jovens da organização integralista carioca Juventude Nativista Bandeira do Sigma.
Arcy Estrella, segundo os objetivos expostos em seu boletim Alerta, tinha de forma clara a finalidade de organizar e difundir o integralismo e o êxito de suas perspectivas. Isso foi analisado e constatado através dos dados obtidos nas páginas de seu periódico, que evidenciaram uma rede de relações entre o CCPS e intelectuais e organizações nacionalistas. Entre os apoiadores de Estrella, destacou-se a militância de Marcelo Mendes que, a partir da segunda metade da década de 1990, colaborou com o CCPS e
fundou o Centro de Estudos e Debates Integralistas.11
O Centro de Estudos e Debates Integralistas (Cedi) foi fundado em 2001 e seu informativo, publicado no mesmo ano, tinha como editor responsável Marcelo Mendez; como redator chefe, Flávio Silva; e como jornalista responsável, Arcy Estrella. E seu primeiro número foi publicado em outubro de 1999. Foram identificadas vinte e sete edições do informativo que a partir de seu vigésimo sexto número, com o falecimento de Estrella teve como jornalista responsável o militante Di Martino.
O boletim do Cedi foi uma fonte importante para a compreensão da efêmera mas intensa atuação de Marcelo Mendez e sua contribuição para a continuidade do integralismo.
A militância de Marcelo Mendez, como apontado, recebeu grande apoio de Arcy Estrella e foi no boletim do CCPS que difundiu as primeiras manifestações do propósito da organização do Cedi, evidenciadas na edição de janeiro de 2001 do boletim Alerta, no qual podem ser compreendidos os objetivos do Centro de Estudos e Debates Integralistas.
Em perspectiva gramsciana, o Cedi foi um aparelho privado de hegemonia para congregar intelectuais chauvinistas e difundir a ideologia do Sigma. No referido artigo de janeiro de 2001, foi
lançado o documento sobre as propostas do Cedi.12
O informativo Cedi lançou em setembro de 1999 um artigo referente ao seu primeiro ano de atividades. O texto também corroborou com a interpretação aqui defendida sobre o papel central das novas tecnologias da informação e comunicação na mobilização da atual militância integralista. Ressalta-se ainda o papel de Marcelo Mendez enquanto pioneiro na utilização da internet como ferramenta de militância integralista e a sua dedicação em relação à estratégia de articular variados grupos chauvinistas sob a influência do CCPS e do Cedi.
As relações entre os integralistas e os membros da organização fundamentalista cristã Tradição Família e Propriedade (TFP), fundada por Plínio Correia de Oliveira, nunca foram de apoio explicitamente oficial, mas as aproximações ideológicas entre o integralismo e a TFP podem ser evidenciadas no lema de ambos os movimentos: “Deus, Pátria e Família”. Na década de 1990, Marcelo Mendez buscou aproximar as organizações:
C.E.D.I. – Um ano de existência! No dia 1 de setembro de 1999,
estreou na internet o site do Centro de Estudos e Debates
Integralistas; foi fundado pelo companheiro Marcelo Mendez,
integralista, carioca, sócio da Casa Plínio Salgado, sócio do
Centro Cultural Plínio Salgado, sócio do Centro de Estudos
Históricos e Políticos, sócio-correspondente da Sociedade
Brasileira da Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP),
membro do Movimento Pró-Monarquia, sócio do Círculo
Monárquico do Rio de Janeiro e membro do Apostolado da
Oração, da Igreja Católica. A ideia central que norteou a
fundação do Cedi foi atingir quase que exclusivamente na
internet, tentando esclarecer aos internautas curiosos sobre o
Integralismo, atendendo aos pesquisadores de vários pontos do
país que normalmente estão escrevendo livros ou fazendo
teses de mestrado sobre a doutrina do Sigma, ou ainda fazendo
proselitismo com companheiros de ideal integralista em outras
Províncias da Nação Brasileira.13
O CCPS e o Cedi obtiveram êxito na consolidação de alianças com organizações de diversas partes do país e, para este vínculo entre os aparelhos chauvinistas ser estabelecido, a filiação em diversas organizações por um mesmo militante apresentou-se como um caminho próspero. Marcelo Mendez foi um exemplo do ativista que buscou construir este intercâmbio entre as associações em questão
O marco oficial do início do Cedi foi a realização de uma missa
no dia 16 de junho de 2001, celebrada por Padre Crispim –
afilhado de Plínio Salgado e um constante defensor da causa
integralista, assim como da memória de seu padrinho. Na
celebração da missa, entre os participantes havia integrantes
do Círculo Monárquico e do Movimento MV-Brasil e, durante a
celebração, houve a entronização de Nossa Senhora de
Fátima, padroeira da TFP, tomada também como padroeira do
Cedi, o que explicita a busca pela formação de uma rede de
colaboração entre as organizações. (Caldeira Neto, 2011, p.97)
Na edição de fevereiro de 2001, o Informativo Cedi publicou um artigo de primeira página sobre o encontro de Marcelo Mendez com o príncipe d. Antônio de Orleans intitulado: “Presidente do Cedi se encontra com o príncipe D. Antônio de Orleans e Bragança, descendente de D. Pedro II”.
No dia 11 de janeiro de 2001, o presidente do Cedi teve a grata
satisfação de se encontrar e travar contato com sua alteza
Imperial e Real, príncipe d. Antônio de Orleans e Bragança, que
vem a ser o segundo da linha sucessória da Coroa Imperial
Brasileira, na eventualidade de um ressurgimento monárquico
no Brasil. Sua alteza veio presidir a missa de sétimo dia de uma
grande amiga sua d. Sônia Maria Crispim, que falecida
recentemente, descobriu-se que ela vinha a ser prima do padre
integralista Afonso Crispim, motivo pelo qual a Santa Missa foi
realizada na Paróquia de Santo André, no RJ, participaram o
prof. Oto de Alencar Sá Pereira, o secretário do Círculo, Bruno
Cerqueira, a senhora Maria da Glória N. Souza, além do sr.
Marcelo Mendez, já citado. Ao término da missa, desenvolveu-
se uma roda de conversas em torno de sua alteza, que com
satisfação foi informado do ardor monárquico do senhor padre e
de sua família, desde tempos idos.14
Na mesma edição, foi apresentado o anúncio do lançamento do
“Manifesto Integralista 2001”. 15
O lançamento do “Manifesto Integralista de 2001” foi uma evidência importante da busca de rearticulação em nível nacional dos militantes em questão e seu conteúdo apresenta a defesa do Estado Integral e da proposta de organização corporativa denominada “Democracia Orgânica”.
Em artigo crítico sobre a questão dos skinheads, os dirigentes do Cedi, manifestaram sua opinião sobre o tema no texto intitulado “É dos carecas que gostamos menos!”. Este artigo repercutiu em polêmica, o Cedi recebeu críticas através de carta enviada por uma organização skinhead, publicada no boletim Alerta, como será
apontado no próximo capítulo.16
As relações entre os herdeiros do Sigma e outros partidos nacionalistas também ocorreram, sendo o Partido da Reedificação da Ordem Nacional (Prona) uma organização de apoio explícito dos integralistas. A relação entre ambos pode ser evidenciada no artigo “Presidente do Cedi assiste à palestra do Dr. Enéas Carneiro, presidente do Prona”:
No último dia 26 de junho, uma segunda-feira, o companheiro
Marcelo Mendez, acompanhado do companheiro Murilo César
Luis Alves, tiveram a grata satisfação de escutar uma palestra
proferida pelo presidente do Prona, dr. Enéas Ferreira Carneiro,
que tratou sobre a privatização-doação da Vale do Rio Doce,
feita pelo governo entreguista de FHC. A palestra foi realizada
no auditório da Associação dos Diplomados pela Escola
Superior de Guerra, seção da ADESG-RJ, que teve a
presidência dos trabalhos feita pelo grande nacionalista e
patriota prof. Marcos Coimbra, que teve também a iniciativa de
convidar o presidente do Cedi, com quem tem travado profícuos
e fecundos contatos por e-mails, trocando impressões sobre o
nacionalismo ou a falta dele, na nossa nação. A palestra
também contou com a participação do ex-deputado federal
Ricardo Maranhão, que também fez uma excedente
explanação. Cabe registrar que o senador Roberto Saturnino
Braga foi convidado para o evento, mas por motivos de
trabalhos no Congresso não pôde comparecer. Ao término da
palestra, o presidente do Cedi conversou com dr. Enéas,
marcando com ele uma entrevista para breve.17
As ações dos integralistas contemporâneos foram sendo propaladas pelas suas estratégias de propaganda e as ações de rearticulação ganharam até destaque em alguns jornais brasileiros de grande circulação. Esses elementos foram constatados em análise de matéria do Jornal do Brasil, que publicou um artigo em outubro de 2001 tratando da reorganização das atividades dos militantes do Sigma:
O movimento nacionalista criado por Plínio Salgado nos anos
30 está ganhando novos adeptos, em pleno século 21. No
último dia 5, os camisa verdes da velha guarda integralista se
uniram à nova geração de jovens simpatizantes, num encontro
no Rio para celebrar os 69 anos da fundação da Ação
Integralista (AIB). Aos 35 anos, formado em administração,
Marcelo Santos Mendez, que é solteiro e caixa de um
restaurante da orla de Copacabana, foi quem organizou o
encontro. Mendez, que tem um Sigma – símbolo semelhante à
suástica nazista tatuado no corpo –, é porta-voz do integralismo
no Rio, doutrina que nos anos 30 se inspirava no fascismo
italiano e encontrava eco nos setores mais conservadores da
sociedade, como a hierarquia militar – na Marinha em particular
– e no alto Clero. [...] Mendez reconhece que a confusão entre
a nova geração de integralistas e os movimentos neo-nazistas –
ou skinheads, no exterior – é inevitável, mas nega sua
influência na filosofia integralista. (Absalão, 2001)
O artigo também foi interessante, pois evidenciou como Marcelo Mendez sentia-se contrariado com a aproximação de skinheads nas atividades do Centro de Estudos e Debates Integralistas e do Centro Cultural Plínio Salgado. O líder do Cedi negou ao referido jornal a participação de skinheads na organização integralista liderada por ele, mas admitiu que outros grupos integralistas aceitavam os denominados “carecas” em seus quadros.
Na entrevista do Jornal do Brasil também foi noticiado que o Cedi, segundo Marcelo, já possuía representação em nove cidades.
A reportagem inclusive forneceu importantes informações sobre a reorganização integralista naquele período, apresentando também dados sobre os conflitos existentes entre as antigas e as novas lideranças, como por exemplo, o ponto de vista de militantes da velha guarda integralista que discordaram das pretensões políticas de Marcelo Mendez e opunham-se ao retorno do partido integralista, como afirmou o militante Arnóbio Bezerra. Através do Jornal do Brasil, na referida reportagem, ficou ainda evidenciada a aproximação entre militantes do integralismo e do Partido da Reedificação da Ordem Nacional (Prona).
O jornal paulista O Estado de S.Paulo, de 8 de outubro de 2001, também publicou artigo em que destacava a atuação dos integralistas na busca de condições para reorganizar o seu movimento, sendo a internet uma ferramenta estratégica para o objetivo proposto. O artigo foi publicado com o título: “Ação Integralista ainda vive com ajuda da internet”:
Rio – Movimento nacionalista fundado em 1932, por Plínio
Salgado, sob influência do nazi-fascismo europeu, o
integralismo sobrevive. Na sexta-feira à noite, em um prédio
obscuro na Tijuca, na zona norte do Rio, cerca de 30 pessoas
se reuniram para comemorar os 69 anos de criação da Ação
Integralista Brasileira, hoje convertida no Movimento
Integralista. O figurino, com poucas modificações, permanece,
saído diretamente dos anos 30. As botas, os quepes e o Sigma
(que está para o integralismo como a suástica para o nazismo)
atado ao braço deixaram de existir, mas a camisa verde está lá.
O Sigma, agora mais discreto, aparece em prendedores de
gravatas, pretas, como as calças e os sapatos. Só falta a
saudação anauê, que costumavam fazer com o braço direito
esticado. Engana-se, porém, quem pensa que a antiga doutrina
atrai só saudosistas e remanescentes do auge do integralismo,
época em que os “camisas verdes” chegaram a ser 1 milhão.
Ao lado das cabeças brancas, jovens simpatizantes afirmam os
valores da doutrina. Adequados, ao seu modo, aos novos
tempos, os integralistas veem na Internet o grande instrumento
para a divulgação de suas ideias. “Em dois anos no ar, nossa
página já recebeu 8.600 acessos”, relata Marcelo Mendez, de
36 anos, que é também monarquista e pertence à organização
Tradição, Família e Propriedade (TFP). Mendez se refere ao
site do Centro de Estudos e Debates Integralistas (Cedi), do
qual é fundador. Vestido a caráter, é ele quem faz o papel de
mestre de cerimônias na reunião, apresentando palestras e
anunciando as músicas que serão ouvidas. Todas as
solenidades do Cedi são abertas com a execução do Hino
Nacional, seguido pelo hino dos integralistas e pelo hino de
Nossa Senhora de Fátima, a padroeira. (Moraes, 2001)
A internet como estratégia de atuação política foi rapidamente absorvida pela militância integralista brasileira e as novas determinações possibilitadas pela tecnologia representaram uma atualização dos métodos de organização e mobilização dos militantes integralistas que se adaptaram rapidamente às novas ferramentas disponibilizadas pelas tecnologias de informação e comunicação.
Segundo a investigação de Caldeira Neto (2011) os resultados de sua pesquisa também corroboraram com a interpretação aqui defendida sobre o papel da internet nas novas formas de socialização e mobilização política entre os atuais militantes:
Ainda no ano de 1999, o Cedi estabeleceu um marco nas
estratégias de divulgação e disseminação, estratégia esta que
posteriormente seria maciçamente utilizada por outros grupos
neointegralistas: a inauguração de seu website, no dia 1º de
setembro daquele ano. A iniciativa de construir um site para o
integralismo veio como forma de diminuir um grande problema:
a falta de espaços – e meios – de divulgação do integralismo (à
maneira militante, evidentemente), pois além da questão da
dificuldade de aceitação da população de uma ideologia
autoritária aos moldes do integralismo, os neointegralistas
tinham poucas verbas para poder financiar a consolidação de
estratégias de disseminação. Os custos elevados eram sem
dúvida um entrave nesta questão, fosse para financiar uma
imprensa própria ou mesmo para “alugar” espaço em diversos
setores de mídia existente. (Caldeira Neto, 2011, p.98)
Os meios eletrônicos de comunicação através dos primeiros sites não proporcionaram, entretanto, o abandono dos canais impressos de informação e, em conjunto com os sites, tornaram-se os principais meios de divulgação, formação e obtenção de novos integrantes:
No entanto, a falta de unidade preponderante no
neointegralismo não significava a ausência de materiais
escritos. Ao contrário disto, a continuidade da existência de
boletins e jornais, assim como o surgimento de novos materiais
do tipo, garantia a existência da ideia [de] que ainda havia
integralistas dispostos a atuar e divulgar os ideais do
movimento. O Cedi, por exemplo, tinha um boletim (Informativo
Cedi), editado por Arcy Lopes Estrella. De acordo com Márcia
Carneiro, Arcy Estrella era um dos maiores – senão o maior –
responsável pelas publicações neointegralistas durante a
década de 1990. Além do boletim do CEDI, Estrella editava os
jornais Alerta, o Idade Nova, o Avante, o Quarta Humanidade e
o Ofensiva, fato este que auxiliava em consolidar ainda mais a
figura de Estrella como uma das lideranças dos integralistas e
também uma “ponte” entre novos e velhos militantes. [...] Desta
maneira, a inserção do integralismo na internet tornara-se
bastante atrativa. A presença do site do Cedi (que, na época,
constava no endereço <http://www.integralismo.org/>) na
internet determinava este como autêntico porta-voz do
integralismo na rede. Possibilitava, desta maneira, o contato e
troca de informações entre militantes das mais distantes
localidades [...]. (Caldeira Neto, 2011, p.99)
O Centro de Estudos e Debates Integralistas e o Centro Cultural Plínio Salgado obtiveram êxito em se articular com organizações políticas chauvinistas representadas por aparelhos de diferentes regiões do país, através do contato iniciado com grupos simpáticos ao integralismo na década de 1980 e 1990, como o Centro de Estudos Históricos e Políticos (CEHP), fundado em Santos (SP), em 1998. As referências sobre o CEHP foram constatas nas informações obtidas nos boletins, jornais e sites, que serão analisados no próximo capítulo.
Uma evidência do esforço destes aparelhos em articularem-se pode ser analisada através do exemplo da propaganda do denominado “Primeiro Encontro Nacionalista de Santos, SP” publicada no boletim Alerta do CCPS. O evento reuniu em janeiro de 2000 organizações como a Casa Plínio Salgado e a Ação Nacional, de São Paulo, capital; Centro Cultural Plínio Salgado, Centro de Estudos e Debates Integralistas, do Rio de Janeiro; Centro Cívico Cultural Auriverde, de Niterói; Centro de Estudos Políticos, Teológicos e
Culturais, de Brasília; Centro de Estudos Ludovico Teixeira.18 O CEHP organizou um ano depois mais um encontro de organizações nacionalistas, denominado “Congresso Unionista” realizado na cidade de Santos (SP). Este evento resultou na proposta de uma frente organizada de ação política de grupos nacionalistas, a Frente Pátria Unida (FPU):
É somente nos últimos anos da década de 1990 que começam
a surgir iniciativas que buscavam dar sobrevida ao movimento,
muitas destas organizadas por novos militantes. Uma destas
iniciativas foi o Centro de Estudos Históricos e Políticos (CEHP)
que, de acordo com Rogério Lustosa Victor, fora um “núcleo
nacionalista” fundado em 1998 na cidade de Santos (SP). As
atividades iniciais do grupo se resumiam a reuniões de leituras
de textos de Plínio Salgado e Gustavo Barroso. Após certo
tempo, o grupo ampliou a atuação para outras localidades: São
Paulo, Ribeirão Preto (SP), Rio de Janeiro e Goiânia. Após esta
ampliação de atuação, o grupo realizou um congresso intitulado
“I Congresso Unionista”, realizado em 2001 na cidade de
Santos, no qual participaram militantes de diversos grupos
nacionalistas (cerca de 60 participantes, de sete estados
brasileiros). Um dos resultados do evento fora a determinação
da criação de uma organização de ação política: a Frente Pátria
Unida (FPU). A FPU estaria destinada, portanto, à ação política,
enquanto o CEHP tornar-se-ia a base cultural e ideológica do
movimento, ambas com ideologia integralista. O grupo e evento
foram noticiados na imprensa local, apresentados como “a TFP
do Século XXI”. (Caldeira Neto, 2011, p.95)
As tentativas de rearticulação de um movimento unificado receberam grandes contribuições de adeptos de São Paulo e Rio de Janeiro, como apontado. Estes exerceram nesse sentido um papel fundamental no restabelecimento de articulações entre novos e velhos militantes. Segundo Carneiro (2007):
Na segunda metade da década de 1990, Arcy manteve viva a
ideia de união do movimento, organizando em sua caderneta a
rede de contato dos que defendiam a permanência da memória
integralista, desde velhos a novíssimos militantes. Alguns
grupos nacionalistas, mas não necessariamente seguidores
diretos do integralismo também frequentavam o Centro Cultural
Plínio Salgado. Alguns deles pertencem ao movimento
“Carecas do Rio”. Atualmente, este grupo mantém estreita
ligação com o movimento, considerando-se parte dele, mas
com certa independência em relação aos três grupos mais
expressivos, a Frente Integralista Brasileira (FIB), o Movimento
Integralista Linearista do Brasil (MIL-B) e a Ação Integralista
Revolucionária (AIR). [...] O apadrinhamento da velha militância
daria aos “novos” a necessária ligação física com o pensamento
de Salgado. Os debates principais juntamente se davam e
ainda se dão sobre o modo de reorganização do movimento.
Alguns apoiam a reorganização como partido, outros defendem
que a essência integralista é antipartidária, pois a existência de
partido faz parte da essência da democracia liberal que
abominam. Assim sendo, o novo integralismo, atualmente, é
composto de diversas correntes multiplicadas de norte a sul do
país, principalmente sudeste e sul, que buscam legitimar a
autorreferência de verdadeiro herdeiro do integralismo.
(Carneiro, 2007, p.151-3)
A partir principalmente da década de 1990, a intensificação dos contatos e os encontros entre grupos nacionalistas reunidos pela iniciativa dos integralistas proporcionaram uma nova conjuntura de relativo crescimento destas organizações, e a proposta de novos Congressos Nacionais para buscar centralizar os núcleos espalhados pelo país encontrou êxito a partir da primeira década do século XXI.
5.2 Os novos Congressos Nacionais Integralistas
e a gênese e rupturas entre os aparelhos do
Sigma: Frente Integralista Brasileira (FIB)
A questão e o debate sobre reorganização dos grupos herdeiros do Sigma em nível nacional motivou os militantes a organizarem em 2004 um encontro denominado “Congresso Integralista para o
século XXI”. 19 Naquele evento foi fundado o efêmero Movimento Integralista Brasileiro (MIB), com o objetivo de projetar novamente a organização no cenário político nacional. Porém, após o congresso, os militantes descobriram que também já existia um registro de uma organização com o mesmo nome de Movimento Integralista Brasileiro e que o registro havia sido efetuado por Anésio Lara Campos. Assim, o maior resultado do encontro de 2004, que era a organização de uma nova associação do Sigma com pretensões de atuação em nível nacional, foi frustrado, não possibilitando a união dos militantes como pretendido. Ao menos não com o nome escolhido. Pois Anésio Lara poderia querer exercer a autoridade da posse do registro da sigla para aplicar a autoridade de seus pontos de vista sem o consenso das demais lideranças (Caldeira Neto, 2011, p.153-4).