Chronica d'El-Rei D. Affonso III

Rui de Pina · Capítulo 16 de 34

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Chronica d'El-Rei D. Affonso III

Capitulo X

 

Como o Mestre tornou a cercar Paderne, e o tomou, e do

fundamento que houve para El-Rei D. Affonso de Portugal haver para si o Reino do Algarve, e se intitular delle, e com que obrigação

lhe foi dado

 

Tanto que o Mestre pôs em Silves suas gentes, que a

guardassem, e defendessem, e a proveo das outras cousas que a ella eram necessarias, se partio, e tornou a poer o cerco que

alevantara de sobre Paderne, e porque logo os Mouros se não quizeram dar a bom partido que lhe cometiam, elle os combateo, e

por força tomou a Villa e o alcacere sem os receber a concordia, nem algum partido de piedade, antes por dous bons Cavalleiros que

lhe ali mataram da Ordem, mandou que todolos Mouros da Villa andassem, como andaram á espada, e a gente desta Villa de

Paderne, cujos grandes edeficios ainda parecem, alguns dizem, por sua má disposição se mudou depois á Villa de Albofeira, que o

Mestre Daviz depois tomou como adiante vai, e atraz deixei apontado.

Como a Conquista do Algarve que primeiramente fez D. Payo

Correa Mestre de San-Tiago de Castella, por nação e linhagem Portuguez, foram em dous tempos, a saber, em tempo del-Rei D.

Fernando de Castella, e depois em tempo del-Rei Dom Affonso seu filho, e agora declaro que os Lugares, que até qui se ganharam pelo

dito Mestre foram em tempo del-Rei Dom Fernando, e antes da tomada, e cerco de Sevilha, porque claramente consta, que este

Mestre de San-Tiago era com El-Rei ao tomar della, e para tal feito foi havido, e estimado por mui principal, e para feitos darmas mui

asinado, e estes Lugares do Algarve estiveram da mão do Mestre á obediencia del-Rei Dom Fernando até o tempo del-Rei Dom Affonso

seu filho, que como Reinou teve grande afeição ao dito Mestre, e lhe deu de si muita parte, e o mandou tornar ao Algarve, para nelle

estar por segurança dos Lugares que ganhara, porque ainda nelles havia muitos dos Mouros. E neste tempo era já cazado este Rei

Dom Affonso Conde de Bolonha com a Rainha Dona Breatiz, filha do dito Rei Dom Affonso de Castella, e a maneira porque depois seu

marido, e ella houveram este Reino do Algarve é a seguinte.

 

El-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, sendo assi cazado com a filha del-Rei de Castella, sabendo que o Mestre de San-Tiago tinha

ganhado dos Mouros as ditas Villas, e Lugares do Reino do Algarve, que eram da conquista, e Senhorio de Castella, e estavam pela

parte do Campo Dourique mui conjuntos ao Reino de Portugal, e vendo que contra os Mouros Despanha já não tinham livre alguma

propria conquista dezejando acrecentar em seu Reino, e em sua honra, e assi por ter em que servir a Deos em semelhante guerra

piadosa, dezejou para si esta terra, sobre a qual falou com a Rainha Dona Breatiz sua molher, e sendo ambos em um dezejo e tenção

conformes, ella por seu prazer, e por concelho de seu marido, foi logo a El-Rei D. Affonso de Castella, seu pai, que estava em Toledo, a qual elle recebeo com muita honra, e alegria, porque como

aigumas vezes já dice sempre por palavras, e obras, elle mostrou que lhe tinha muito amor, e grande dezejo de lhe fazer bem, e

havendo depois tempo, e lugar para o cazo conveniente, a Rainha com as palavras, e rezões que seu dezejo e necessidade lhe

aprezentaram, dice a seu pai a cauza principal de sua ida, pedindo-lhe muito por mercê, em nome del-Rei seu marido, e seu, que désse

a elles, e a seus netos, que cada dia creciam a Conquista do Reino do Algarve, e assi os Lugares, que por o Mestre de San-Tiago eram

já nelle tomados, e porque o Reino de Portugal, que tinham, era para elles muito pequeno, e a este tempo o Ifante Dom Diniz, que a

poz seu padre Reinou, e assi outros Ifantes seus filhos já eram nacidos, e os Lugares de riba Dodiana, e de riba de Coa, ainda não

eram de Portugal; porque depois se houveram, como nesta Coronica, e na del-Rei Dom Diniz ao diante se dirá.

 

Deste requerimento prouve muito a El-Rei Dom Affonso, que por

Reaes condições que muitos lhe entrepetraram a vaidades, e desordenada cobiça de gloria foi o mais nobre Rei de Castella, e

querendo em todo satisfazer á Rainha sua filha, lhe mandou logo passar sua Carta patente, e selada de seu selo de chumbo, por a

qual fez solenne, e firme doação ao dito Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, seu genro, e ao Ifante D. Diniz seu filho, e a todolos filhos,

e filhas que delles decendessem para sempre do Reino do Algarve com seu inteiro Senhorio, e com todolos Lugares delles ganhados, e

por ganhar, com tal condição que o sobredito Rei de Portugal, e seus filhos, fossem obrigados a dar de ajuda ao dito Rei Dom

Affonso de Castella em sua vida sómente cincoenta Cavalleiros, quando lhos requeressem, contra todolos Reis Despanha, e além

desta doação El-Rei de Castella mandou fazer outras Cartas para o Mestre Dom Payo Correa, e para outros grandes Cavalleiros, que com elle andavam no Algarve, porque lhe notificou esta doação, que

tinha feita, e lhes mandou que a comprissem, e porque El-Rei Dom Affonso folgava com a vista, e conversação da Rainha sua filha pola

grande afeição que a ella tinha não lhe deu lugar que logo se tornasse a Portugal como ella quizera, pelo qual elle mandou as

sobreditas Provisões a El-Rei Dom Affonso seu marido, que como as recebeo alegre com tamanha, e tão honrada, e tão dezejada

doação, notificou tudo ao Mestre Dom Payo Correa, a que desso prouve muito, porque tinham antre si muito conhecimento, e grande

amizade.

 

E El-Rei se intitulou logo de primeiramente Rei de Portugal, e do Algarve, e ao Escudo dos cinco Escudos de Portugal, que seu

bisavô El-Rei Dom Affonso Anriques primeiro tomou, e trouxe elle por titolo, e posse deste Reino em adeo Orla, e borladura dos

Castellos douro em campo vermelho, como depois até gora sempre os Reis de Portugal trouxeram, e trazem, segundo atraz brevemente

dice.