Como e por que as desigualdades sociais fazem mal à saúde

Considerações finais

 

A redução das desigualdades sociais em saúde não é uma tarefa fácil, e nem sempre as boas intenções resultam em intervenções com o impacto esperado. Como afirma Fernando Lolas, diretor do programa de bioética da Organización Panamericana de la Salud (OPS) e professor da Universidade do Chile,

embora cada indivíduo separadamente não possa conseguir ou garantir a equidade, valor que se realiza e aperfeiçoa no coletivo, pode não obstante reconhecer e estimular sua manifestação (...) e assim encontrará um sentido para ser feliz, de ordem superior e distinto daquele que nos dá a satisfação de nossas próprias necessidades.

Reconhecer as desigualdades sociais em saúde, buscar compreender os processos que as produzem e identificar os diferentes aspectos que estabelecem a mediação entre os processos macrossociais e o perfil epidemiológico dos diferentes grupos sociais é uma condição indispensável para que seja possível buscar formas de enfrentamento, sejam elas no âmbito das políticas públicas, sejam elas no âmbito da vida cotidiana.

A epidemiologia é apenas uma das disciplinas do campo da saúde coletiva a se preocupar com a temática das desigualdades sociais. Há diversas abordagens dessa mesma temática no âmbito das ciências sociais em saúde e também relativas ao financiamento e à organização dos serviços de saúde.

A confluência desses saberes de distintas fontes, aliada ao imperativo ético de buscar a construção de uma sociedade mais justa, na qual os indivíduos não sejam inferiorizados em função de qualquer diferença que apresentem em relação à norma, pode resultar em maior comprometimento dos profissionais da saúde coletiva com a formulação e implementação de políticas de saúde mais equânimes.

Há inúmeros desafios relacionados com a questão das desigualdades sociais em saúde. Em primeiro lugar, podemos assinalar o desafio, no plano teórico, de formular explicações consistentes para os dados empíricos obtidos em nossas pesquisas. Em segundo lugar, podemos mencionar o desafio metodológico. Todas as categorias de análise utilizadas no estudo das desigualdades sociais em saúde – classe social, estratificação ocupacional, educacional ou de renda, etnia, gênero – necessitam permanente desenvolvimento conceitual e aprimoramento em sua operacionalização para utilização em pesquisas empíricas.

Ainda enfocando desafios relacionados com a produção de conhecimentos, constata-se a necessidade de desenvolver indicadores apropriados, seja para mensurar os fenômenos sociais, seja para mensurar os resultados deles sobre a saúde, bem como de elaborar técnicas de análise estatística capazes de refletir a complexidade e a estrutura hierárquica desses processos.

No âmbito das práticas, os desafios são ainda maiores em decorrência da natural limitação do campo de atuação do setor saúde. Evidentemente, a superação das desigualdades sociais em saúde requer um conjunto de políticas e processos de transformação social que vão muito além do escopo de atuação do setor. No entanto, é possível iniciar pela própria política de saúde, a transformação necessária visando pelo menos a minorar os efeitos danosos da desigualdade gerada na organização social.

A implementação e o aprimoramento contínuo do SUS, com o fim de tornar realidade os princípios da universalidade, integralidade e equidade, fazem parte deste esforço para minorar as desigualdades sociais em saúde

Como cidadãos, entretanto, outras frentes de luta podem-se abrir com o objetivo de repudiar todas as formas de preconceito e discriminação. A atuação política – desde o plano cotidiano até o exercício do direito do voto, na escolha de dirigentes comprometidos com princípios verdadeiramente democráticos e de respeito às diferenças, e que considerem inaceitável o perpetuar das enormes desigualdades sociais na população brasileira – também é uma forma de tentar realizar o ideal expresso na citação de Fernando Lolas com a qual iniciamos estas considerações finais.