Continuação do Portugal enfermo por vicios e abusos

José Daniel Rodrigues da Costa · Capítulo 2 de 2

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Continuação do Portugal enfermo por vicios e abusos

Portugal Enfermo Pelos Vicios, e Abusos.

PORTUGAL ENFERMO PELOS

VICIOS, E ABUSOS.

 

Não sou Poeta de palavras crespas,

Com que alguns dão picadas, como

vespas:

E no zunzum de termos exquisitos,

Só fazem o zunido dos mosquitos

Não escrevo por cifra, nem por cetra,

Nem sei fallar, senão ao pé da letra.

Do Autor.

 

Portugal, Portugal, não te conheço?

Vives esmorecido, e eu esmoreço,

Vendo-te com achaque tão profundo,

Que pouco já figuras neste mundo:

Perdeste toda a tua bizarria;

As familias perdêrão a alegria;

Todos andam de caras tristes, serias,

Não ouço senão prantos de miserias:

Ficarás só com casas, mas sem gente;{2} Pois muitos, de paixão, já vão morrendo; Porque com a desgraça não podendo,

Caloteão, mendigão, degenerão,

E só na morte o seu descanço esperão.

Não se encontra em ti outro desafogo,

Que não seja o do jôgo, jôgo, jôgo,

Que he onde inda apparece algum dinheiro, E já se faz officio de Banqueiro:

Nelle se encartão mais os ajudantes,

Socios olheiros, sempre vigilantes:

Qual rapaz, que nas terras põe gaiola,

Onde passaro mestre desenrola

Agradavel gorgeio, com que chama,

E as aves novas faz cahir na trama

Das varas enviscadas da costella:

Assim subtil Banqueiro arma a esparrella, Sendo passaro mestre, que appresenta

De moedas em cruzios mais de oitenta,

Que estão chamando ao visco os coitadinhos, Os quaes lhe vão cair, pobres patinhos!

Que quando o caso em sortes bem não corra, O seu, e alheio vai tudo á desforra.

Hoje em qualquer função por essas sallas, Depois do chá, escutão-se estas fallas:

A Senhora quer Ronda, ou quer Banquinha? Vão se chegando a mãi, tia, e sobrinha,

E por desgraça (aqui fique entre nós)

Té para a Ronda vão mesmo as avós:{3} Quegilando o que tem cartas na mão,

Que a primeira inda deo, segunda não:

E se por hum acaso deo segunda,

Era vez de a pespegar recebe tunda;

Porque succede ás vezes, cousa rara,

Recolher inda menos que parára,

E attribue logo ao córte da velhinha

Ser a sorte com elle tão mesquinha.

Em outra sala estão tafues armados

De copos novos, grozas de bons dados:

Treze primeiro que oito, barro, topo:

Levou trez onças de ouro, passa o copo.

Busca para o passar qualquer aresto,

Que o parceiro não quer jogo de resto.

Dinheiro só se vê nestes combates,

E em cartuxos nas lojas dos rebates:

Ou seja em Baptizado, ou Casamento,

Função d'annos, ou outro ajuntamento,

Com outra qualquer cousa não se atina,

Vai-se seguindo sempre esta rutina;

Té depois de hum enterro huns enojados Em casa do defunto os vi sentados

Jogando o Voltarete com franqueza,

Para se distrahir mais a tristeza.

Esta a paixão, que he hoje dominante,

E nisto he que a função se faz brilhante,

Sendo do Alcorão que no outro dia{4} Se murmure de quem nella perdia,

Dizendo-se: Fulano perdeo munto!

Cento e tantos mil reis tinha elle junto,

Em menos de huma hora, mas virou,

Perdeo o ganho, e a bolça despejou.

Hum Fulano de tal, que appareceo,

Esse quanto puxou tudo perdeo.

Cento e tantas moedas lá disserão,

Fóra cincoenta mais, que se não derão.

Aonde, Portugal, estão sumidos

Teus entretenimentos divertidos!

Aonde estão as Arias, as Modinhas,

Os Quartetos, que ao cravo sempre tinhas? Os graves Minuetes bem dançados,

Pelas regras da Dança executados!

E no intrevallo a Dama mais discreta,

Dando o Mote engenhoso ao bom Poeta

Que em Sonetos, e Decimas galantes,

Parecião as horas huns instantes.

Estão divertimentos tão luzidos

A baralhos de cartas reduzidos;

Mas se julgas que nisso te confortas,

Verás que o jogo te ha de pôr por portas.

Portugal, Portugal! não te conheço!

De te vêr nesse estado desfaleço!

Quanto mais faltas vejo de dinheiro,{5} Mais vejo pôr-se o luxo de poleiro!

Até nos tratamentos tenho visto

Cousas, que fazem rir no meio disto.

Ninguem—Vossa Mercê—quer hoje em dia, Hão de dar-lhe por força Senhoria:

E por maior nobreza, e mais decencia,

Já puxa a Senhoria huma Excellencia.

Tem este desacordo muita gente,

Mesmo sem nada ter com que a sustente: Sem rendas, nem brazôes, tudo devendo, Desta aura popular se vão mantendo;

E a quem nesta mania assim se ceva,

Ninguem lhe vá lembrar Adão, e Eva.

E que direi dos Dons? parecem praga! Em qualquer parte o Dom nasce, e propaga. Ha Dons já muito velhos, outros novos, Além dos Dons, que estão inda nos ovos: E se a menina em prendas se affamou,

O Dom sahe logo á luz, não se gorou.

Eu vejo pais ás filhas embutindo

A escolha de Convento, persuadindo

Que passa vida santa, e descançada

Quem vive no Mosteiro clausurada.

E caminhando vão por este trilho,

Para que boa casa fique ao filho,

Fazendo professar as innocentes

Com festas, e visitas de parentes.{6} Em quanto os pais são vivos bem vai tudo, As mezadas se cobrão a miudo;

Vive huma Freira em paz com alegria;

Conformando-se hum dia, e outro dia.

Mas em morrendo os pais tudo vai mal,

Nem pelo São João, nem no Natal

Se faz á pobre Freira pagamento,

Té ficar em total esquecimento;

Que o irmão, das mezadas incumbido,

Cuida só em fazer o seu partido:

Destroe a casa toda, como louco,

Que para nutrir vicios tudo he pouco;

Fica a mizera Freira mendigando

Pelas outras, que estão tambem penando. Repetindo escrever a quem conhece,

Té vêr quem de seu mal se compadece.

Aqui temos os grandes beneficios,

Que os pais fazem com estes sacrificios, Obrigando a Clausura, e Profissão

Quem nunca teve aquella vocação;

Sem ver que só acceita a Divindade

Esta vida abraçada por vontade;

Que huma Freira, por força alli metida,

A maldizer-se leva sempre a vida.

E armou-se rede tal com este dolo,

Para se regalar hum filho tolo,

Que estraga tudo, sem de si ter dó,

Ficando todos pobres, como Jó.{7}

Eu vejo as circunstancias malignadas,

As origens dos ganhos estagnadas,

Os generos subindo, nós descendo,

Ora tristes chorando, ora gemendo.

Precisa-se dinheiro, não o temos;

E por desgraça nossa até já vemos

Os meios de o haver difficultosos.

Mas entretanto os homens viciosos

Não querem conhecer esta diff'rença:

Não ha flagello alheio, que os convença

A regular a vida de outro modo;

Não se apartão d'aquelle mesmo engodo; O mal encaminhado continúa,

Gastando o que não tem, que he balda sua. Deixa a mulher sem pão, filhos sem fato; E a moça desfrutando hum grande trato;

Sem vêr que huma mulher deshonestada Não tem caracter firme, he descarada;

Pois basta a causa ser, como he sabido,

Da mulher viver mal com seu marido.

Estas loucas ruina são do homem,

Que quantos reaes tem tudo lhe comem; E porque para tanto não tem rendas,

De ladrão mui subtil nos mostra as prendas: Qual fogo, que devora quanto apanha,

Com o que não he seu tambem se amanha; E quando se descobre, e se receia,

Ou quebra, ou foge, ou vai a huma cadeia.{8} O que joga, e que em jogos passa a vida, Joga sem conta, pezo, nem medida;

O que se trata bem, e dá jantares,

Em funções tudo vai por esses ares;

O que tem outros vicios adoptado,

Porque nelles está habituado,

Nutrillos he o seu mais bello vinho,

Nem o tempo lhe ensina outro caminho;

Não ha destes hum só, que se contenha, Antes nestas despezas mais se empenha; E não sabendo donde lhe hão de vir,

Como quer ás basofias acudir,

Fingindo que a escacez lhe não faz mossa, E que inda tem dinheiro, com que possa

Ostentar o que d'antes ostentava,

O remate he furtar, pois não o cava.

Portugal, Portugal! não te conheço!

Cada vez mais de ti me compadeço!

Eu vejo humas familias tolineiras,

Que nunca em suas casas são festeiras;

Ajustão as funções botando a idéa

A terem meza posta em casa alhêa.

Rio-se muito, bastante se brincou;

A familia da casa he que o pagou.

A noite foi da vespera perdida,

Só para se acudir com tanta lida

As massas, aos recheios, aos guizados,{9} A depenar as aves, aos assados:

As criadinhas postas aos fogões,

Padecendo depois constipações,

Que todas trabalhárão na officina,

Para prompta se pôr a pappa fina.

Quando o dono da casa sente a asneira,

Já não póde sahir da ratoeira;

Mas he bem bom que assim fique ensinado, Para vir a ser mais acautelado,

E fugir dos ajustes puxativos,

Feitos por certos genios logrativos,

Promptos para banquetes, onde os ha,

Porém que em suas casas só dão chá.

Eu vejo certos homens costumados

A mostrarem-se muito desvairados;

A cousa alguma prestão attenção;

Nas cousas de maior ponderação

Com chufas, e risadas só respondem,

E ás vezes muita asneira nisto escondem; Por systema, por vicio, ou por maldade

Fogem de conversar com seriedade:

De todas as perguntas fazem mofa,

Só por tratarem tudo de galhofa;

Deixando os dependentes mais afflictos,

Por verem termos taes tão esquisitos:

Sujeitão-se, calando, os que dependem,

Mas ficão em jejum no que pertendem.{10} Homens assim não são muito seguros,

Que trazem a cabeça sempre a juros.

Cuidado lhes não dá o alheio int'resse,

Pobre de quem depende, e quem padece.

Eu vejo muitas casas de partidas,

Que são com as dos doudos parecidas.

Vem entrando co' a noite os assignantes, Passão em conversar breves instantes.

A Prima conta á Prima o máo successo

De huma esperta gatinha côr de gesso,

Com malhas no focinho, e no costado,

Que fazem o animal muito engraçado:

Relata o muito amor, que ella lhe tem,

Enlevada naquelle bom desdem.

Sahe d'alli logo Dona Presumida,

Meia tafulla, meia convertida,

(Que ao certo ninguem sabe inda entendella, Se ella he que deixa o mundo, ou elle a ella) E diz que tem por cousa do demonio

Haver homem, que fuja ao Matrimonio.

Como a materia he vasta, vai durando,

Huns mettendo-a em questões, outros mofando. Chega o chá co' as fatias transparentes,

Que lhes ficão pegadas pelos dentes.

Assim se passa aquelle bocadinho,

Té que as bancas se põem para o joguinho. Então he que a criada da cozinha{11} Desenferruja a lingoa co' a vizinha;

Então he que outra á porta do jardim

De seus amores vai tratar o fim:

E a velha Preta á chaminé, qual mono,

Sempre a cabecear, pôdre de somno;

Porque os donos da casa divertidos,

Da Partida tirar querem partidos.

Nada os póde fazer deixar o jôgo,

Só vindo-lhes dizer que em casa ha fogo; E em quanto se entretem com este aresto, Fica á vontade da familia o resto;

Que por isso da casa mal guardada

Se tem visto fugir filha, ou criada;

Ou succeder a alguma rapariga

O que a decencia manda que eu não diga.

Muita cautela, e não facilidades,

Evita nas familias novidades;

Porque donas de casa não previstas,

Que não sabem deitar por tudo vistas,

Sem determinação, amanho, e zelo,

Hão de achar muito roubo, e desmazelo:

Nos armarios mil cousas estruidas,

As casas int'riores nem varridas,

Sobejos de comer dentro do cobre,

Por se não dar de esmola a tempo ao pobre: Sem duração a roupa, nem aceio,

As lingoas das criadas sem ter freio;

Pouco, e pouco a dispensa dizimada;{12} Louça fina escondida por quebrada;

E os vexados maridos com prudencia,

Dizendo lá comsigo: Ora paciencia!

Porque se ralhão, são insupportaveis,

Se fechão tudo, são huns miseraveis,

Se trombudos, são mal encaminhados,

Se castigão, são homens mal criados;

Ellas querem sómente andar nas palmas, E os maridos, que peção para as Almas;

Com tanto que ande Sempre a bolsa aberta, Que he quando com marido bom se acerta. Conheço que ha familias de bom porte;

Não he nestas que assenta este meu corte: Nem ás outras tambem me determino

Levando nesta critica destino.

Atiro estes meus botes não pequenos,

Porque o mundo tem disto mais, ou menos.

Eu vejo huns homens ricos suffocados,

Té da sombra dos mais desconfiados,

Que vão, por ver se fica bem segura,

Mil vezes apalpar a fechadura

Da burra, que n'hum lado tem da cama,

Temendo da familia alguma trama;

E homens taes, afogados em riquezas,

Raras vezes se lembrão da pobreza;

Havendo casas tão necessitadas,

Nunca por elles são remediadas:{13} Por mais ouro, que tenhão, que lhes sobre, He raro quando dão dez reis a hum pobre. Hum só rasgo não tem de caridade

Para a triste viuva, ou orfandade.

Não sei que contas fazem homens taes

Ajuntando, e escondendo os cabedaes!

Morrem té sem fazerem testamento,

Espirando n'hum trato o mais nojento,

Depois de vida sórdida, e mesquinha,

Que nem mandão comprar huma gallinha. E vão-se deste mundo rebolindo,

Em quanto delles fica o mundo rindo:

Acabão supportando aquella surra,

Botando sempre os olhos para a burra.

Ora descance em paz, senhor defunto;

Cá fica quem lhe espalhe o que tem junto!

Eu vejo certos homens systematicos,

Que em tudo quanto pensão são fanaticos: Cada falla he o estrondo de huma bomba, Até parecem ter de porco tromba;

Fallão pouco, e não gostão de ouvir nada, Tudo quanto se diz tudo os enfada.

Hum Cavalheiro deste paladar

Na loja de hum barbeiro foi entrar.

O mestre fez-lhe a barba in continente,

Mas no muito fallar impertinente.

Feita a barba, o soturno Cavalheiro{14} Disse ao tal fallador mestre barbeiro:

Pois que o vejo verboso em novidades,

E em discursos de varias qualidades,

Queira dizer-me, que saber preciso,

Qual he o animal de mais juizo?

Que era o boi, respondeo o mestre prompto. Isso somente expressa hum homem tonto, Lhe disse o cavalheiro, e não cuidava

Que huma resposta avêssa assim me dava. Tornou-lhe o mestre: he o cão ao dono grato. Tambem não acertou por mentecapto,

Lhe disse o Cavalheiro, ouça-me attento, Para tirar d'aqui hum documento.

O bode he o animal nada ignorante,

Porque sendo de barbas abundante,

Tendo-as compridas, nunca as quiz fazer, Sómente por barbeiros não soffrer.

Assim ficou o mestre corrigido,

Para ser em fallar mais comedido.

Portugal, Portugal! não te conheço!

E quanto tu padeces, eu padeço!

Pois te vejo mais triste do que o dia

De envernosa estação! Quem tal diria!

Andas debilitado, empobrecido,

Saudoso, sem descanço, e esmorecido!

O teu Xavier de Mattos bem fallou,

No galante Soneto, que traçou,{15} Quando disse com arte, e natureza,

Que da soturna imagem da tristeza

Era hum retrato vivo, e verdadeiro

Qualquer homem de bem sem ter dinheiro; Cuja falta tem feito no presente

A ruina fatal de tanta gente.

Mas no meio de quanto se padece,

Hum genio creador nos apparece,

Que por nossa fortuna nos offerta.

Huma bem importante descuberta:

E bem se deixa ver no raro invento

O quanto póde hum homem de talento.

De bons engenhos nasce a emulação,

Com que se aperfeiçôa huma nação.

Receba parabens toda a Cidade

De huma cousa de tanta utilidade.

Não supponhão que he plano, ou são maneiras D'a ferrugem tirar ás oliveiras:

Não cuidem que he fazer dar direcção

Hum viajante aerio ao seu Balão:

Nem deve presumir tambem o povo

Que tem de guarda-quedas molde novo:

Este invento os perigos acautela,

Mas em substancia he cousa mui singela. Agora me parece estar ouvindo

O Leitor curioso serio, ou rindo,

Dizer-me ou assentado, ou posto em pé:

Basta de franja, acabe, diga o que he!{16} Ora eu o satisfaço: Ha hum Fulano

Dos que vestem casaca de bom panno,

Que por idéa sua, e risco seu

Para huma tenaz o molde deu.

Eu a vi, a qual era fabricada

De hum poído metal, obra aceada:

Hum destes ferros de encrespar cabello

He mesmo o da tenaz fiel modelo.

De curioso eu, que o traste via,

Logo quiz indagar de que servia?

Disse-me o inventor que fora feito

Por servir a quem fuma de proveito:

Que o lume no sigarro mais atura,

Huma vez que a tenaz he que o segura;

Que faz esta invenção perder os medos

Aos sigarristas de queimar os dedos;

Que os Mouros tem cachimbos de huma vara, Que a tenaz he aceio, e moda rara.

Agora se descobrem novas minas,

Com outras invenções mais genuinas;

Já temos hum moinho de vapor,

Que o de vento não móe talvez melhor.

De vapor hão de haver carros tambem:

Nas seges eu espero o mesmo trem.

Se a cousa for feliz, e se pegar,

Muitas cousas havemos de poupar!

Os machos, desta sorte, escusos são,{17} Hão de ficar em bestas de ceirão

Não terão preço a palha, nem cevada.

Se chego a ver tal maquina ultimada,

Affectando de grande personagem,

Protesto sempre andar de carruagem.

Grande cousa ha de ser, se se inventar

O modo do vapor nos sustentar!

Despeço-me de açougues, e Ribeira,

E digo adeos á Praça da Figueira.

He tudo isto bem bom; mas o peior

He faltar o dinheiro no melhor!

E assim como nas Caldas toda a gente

Se anda sempre queixando de doente,

Nós aqui com a mesma singeleza,

Só ouvimos clamores de pobreza:

Molestia, que amofina, e que faz tedio,

Que nem nas Caldas póde achar remedio. Luxo, e mais luxo, pôdres, e mais pôdres, Tudo cheio de vento, como os ôdres!

Ha huns homens sagazes de tal sorte,

Que desfrutarem muito he o seu forte;

Pois no ramo, em que lidão, e em que estão, Não deixão escapar occasião:

Vão-se enchendo, e fazendo caramunha, Só para que ninguem lhes veja a unha:

Mostrão-se mui zelosos com systemas,

Mas tem sempre o seu ovo duas gemas.{18} E aqui fica a razão verificada

De huns virem a ter tudo, e outros nada!

A huns tudo lhes vai bater á porta;

Outros não passão já da cepa torta!

Isto mesmo succede a mais de mil,

E eu comparo estas cousas a hum funil.

O que póde beber pelo bocal,

Sacia-se, e não vai de todo mal;

E quem pelo canudo sorve o vinho,

Tira quinhão, porém muito mesquinho.

Portugal, Portugal! o que bem pensa,

Tem encontrado em ti grande diff'rença!

Perdeste em alguns homens a verdade,

Que dava sempre tom á sociedade.

Em poucas partes ha palavra firme,

E não falta com que isto se confirme.

A minha Musa de apontar se izenta,

Melhor o ha de applicar quem o exp'rimenta. Eu admiro nos homens hoje em dia

De tocar os extremos a mania!

Que ou perdularios gastão quanto tem,

Fazendo mal a si, e aos outros bem;

Ou tão mesquinhos são, tão acanhados,

Que nem bons dias dão, por serem dados. Pouco briosos são, faltos de acções,

Remoques não lhes fazem vexações:

Nada querem, que custe hum só vintem,{19} Só o que he de tolã lhes sabe bem.

Não querem acertar n'hum meio termo;

Estes, e outros que taes te pôem enfermo. Os homens de algum dia praticavão

A boa educação que os Pais lhes davão; Mas hoje alguns modernos estou vendo,

Que logrativos vão o tempo enchendo,

Porque o que de espertezas mais se jacta, Engana aquelle mesmo com quem trata.

Tem-se hoje descuberto novos trilhos;

Nem ha filhos por pais, nem pais por filhos: Não vejo senão genios desiguaes;

Usão todos de termos mui geraes:

Verbi gratia, Desejo-lhe prestar;

Se precisar de mim, ha de me achar;

Conheça que sou sempre seu amigo;

Em tudo o que eu puder, conte comigo.

Tudo palavras ocas, sem substancia,

Ditas sem fé, com arte, e sem constancia.

Tambem vejo alguns homens em balanças Navegando no mar só de esperanças:

Figurões, que povôão este mundo,

Mas tem os fundos seus todos no fundo.

Abalrôão co'a gente empavezados,

Em quanto se não mostrão naufragados; Depois são qual a uva já passada,

Que mostra baga, e pelle, e çumo nada.{20} Portugal, tu tens tido alguma gente,

Que se tem feito a si, e a ti doente.

Muita especulação vejo eu fazer,

Que em lugar de lucrar, bota a perder;

Pois de ter perda certa não se izenta

Quem para tirar dez dispende oitenta.

Portugal, Portugal! não te conheço!

Que me fazes tristeza te confesso!

Homens ha mais nocivos do que a peste, E senhoras tambem de genio agreste:

Enfadão-se com todos, e com tudo,

E parece que o fazem por estudo!

Não cessão de ralhar, e de moer

As familias, por dar-lhes que soffrer:

Trazem a casa toda em labyrintho,

Pela condição aspera, que pinto.

Tambem homens encontro de tal modo,

Que assentão que he já seu o mundo todo; Humas caras, que estão sempre estanhadas, Que ou riem muito, ou são embuziadas.

Com condições assim não ha quem possa, A reprehensão não vexa, nem faz mossa.

Isto nasce dos mimos, que lhes dão

Nas faltas da primeira educação.

Vejo huns homens tambem affeminados, No gesto, e no fallar muito affectados,{21} Todos sentimentaes, cheios de nicas,

Que algum dia chamavão-se Maricas;

Mas assentárão hoje bons engenhos,

Que devião chamar-se homens gamenhos. A origem deste nome bem se aponta

N'hum caso jovial, que ahi se conta.

E são recommendaveis taes figuras

Nos tregeitos, e vãs caricaturas;

Té mastigão fazendo muito mômo

O cheiroso Indiano cardamômo,

O qual trazem na boca largas horas,

Para terem bom bafo entre as senhoras;

Nem perdoão ao seu mestre barbeiro

A dedada de banha de bom cheiro.

E já houve hum, que tendo a irmã de parto, E entrando casualmente no seu quarto,

O cheiro da tal banha muito activo

Da pobre endoudecer foi o motivo.

Antes do Terremoto se munião

De pastilhas de cheiro, que trazião,

Em pivete, e em almiscar enfrascados,

Parecião de alcorce ser formados.

Destas verdades não se escandalizem,

Que ainda ha velhos vivos, que isto dizem. Então erão faceiras, e casquilhos

No principio da moda dos polvilhos;

Pelos tempos vierão a peraltas,

Mas hoje são tafues, e alguns com faltas:{22} Os quaes agora tem por maravilha

A barriga apertarem co' huma cilha,

Enfivelada com tal arte, e geito,

Que a barriga se encolha, e altêe o peito;

Porque querem mostrar que podem ter

Perfeitos patriotismos de mulher. Que errei esta palavra não se pense;

Pois vem na biblioteca Tafulense

Com pitéo, com pinóia, com chalaça, Cucanha, mujangué, Caurím, que embaça E para o peito ter maior altura,

E mostrar o que querem na figura,

Dão aos seus alfaiates a matraca

De almofadar as bandas da casaca.

Ora em trazerem cilha acho razão,

Visto haver ferradura por tacão!

São estas invenções todas de fóra,

Nós somos de outros reinos firme escora. Os mais aprestes elles virão vindo,

Pois que as outras nações ficão-se rindo, Mandando engodos taes a Portugal

Por sommas de dinheiro em bom metal.

Tomára persuadir aos que usão disto

Que usassem o que a muitos tenho visto: Nas modas meio termo, e na despeza,

E nada de emendar a natureza.

Deixemos que hum tal sestro as Damas tomem; Que a perfeição do homem he ser homem,{23} E não trazer pescoço almofadado,

Tingir cabello já esbranquiçado,

Ou pôr grande chinó da côr da amora

Co' as bellezas mui brancas, e de fóra,

Como vejo aos que são de meia idade

Filhos só do amor proprio, e da vaidade:

Com outros desacordos deste lote,

Que de certo não falta quem os note.

E que direi de velhos enfeitados,

Que são a hum cêpo bem assemelhados? Assim como eu, que o digo, a quem os annos Feito hum espelho tem de desenganos,

Mas se viuvo estou, e já maduro,

Viuvo ficarei pelo seguro.

Não obstante elles verem-se encolhidos,

De pernas a vergarem carcomidos,

Assim mesmo meninas vão buscar,

Querendo-lhes fazer seu pé d'altar:

Sem se lembrarem que huma franga nova Atira com hum velho para a cova.

Se buscassem dos annos a igualdade,

Inda lhes perdoaria a leviandade;

Mas quererem que as pobres raparigas,

Que por pouco escapárão das bexigas,

Atrás de algum vintem vão á lambugem,

E que morrão de nojo, e de rabugem!

Não posso levar tal á paciencia!{24} Amor isto não he: conveniencia.

Que em casamentos taes bem se conhece Serem ellas escravas do interesse.

Que prazer póde ter muito a seu salvo

A que se liga a hum velho chôcho e calvo? He muito natural mais lhe aborreça,

Se calvo for de quanto ha na cabeça;

Pois velho, que namora, e que se enlaça, Tem a cabeça igual a huma cabaça;

E porque a natureza lhe he avessa,

Se tem dor de vazio he na cabeça.

Coitado! na figura, em que se vê,

Já podião chamar-lhe a morte em pé.

Mas no dia do alegre casamento

Resuscita com tal contentamento,

Que he pena ter o velho, que faz rizo!

Resurreição sem dia de juizo.

Tambem noto que hum velho de algum dia Para a terra curvado he que pendia,

Grossa bengala a corpo hia sustendo,

E sobre as costas a marrã crescendo

Mas parece que a mesma natureza

Nos quer mostrar que nada tem firmeza;

Pois que os velhos, a quem tudo desanda, Andão hoje tombados a huma banda.

Na velhice o estupor se reconcentra,

E não torna a sahir huma vez que entra.{25} Por acaso algum dia se fallava

Que em alguma pessoa estupor dava.

Eu sim me enganarei, mas ajuizo

Que nos vem este grande prejuizo

Do pão, do vinho, do vinagre, e azeite,

Quando generos taes levão enfeite.

E se isto assim não he, porque razão

Só em Lisboa ha tal repitição?

E lá fóra nas Villas, e Cidades

São estas cousas humas raridades?

Porque ha lá menos gente? Não convence; Bem que he mui natural que assim se pense. E hoje até na florida mocidade

Se está vendo huma tal calamidade;

Mas os moços, álem da razão dada,

Tem outra circunstancia mais pezada,

Que he o irem por gosto aos sacrificios,

Para as forças perderem pelos vicios.

São a saude, e o tempo dois objectos

Estimados dos homens circunspectos;

E diz a mocidade que tambem

Estas cousas em grande valor tem:

Porém com appetites, e loucuras

Enxadadas vão dar nas sepulturas.

Hum perdeo a substancia, o outro a côr

Aquelle anda tolhido de huma dor.

E já tantas molestias lhes acodem.{26} Que nem armas, nem letras seguir podem: Sobrevindo-lhes tal debilidade,

Que não podem gozar de longa idade.

Perdem filhos os pais, o Rei vassallos,

Porque a chusma dos vicios vem cortallos. Nelles a mocidade he que se illude

Para estrago do tempo, e da saude:

Preciosidades estas, que perdidas,

Não vemos com que possa o ser suppridas.

Portugal, Portugal! não te conheço!

Do que és, e do que foste não me esqueço! Dos teus usos antigos te tiraste,

E he problema entre nós se melhoraste!

Do que tinhas melhor já te esqueceste,

E o que perder devias não perdeste!

Puzeste cousas mil em confusões

Das modas, que te vêm de outras naçõês: Té desprezas o solido alimento,

E por isso te vejo tão gosmento;

Não tens senão defluxos catarrosos,

Indigestões, topôres perigosos,

Com que continuamente te prantêas,

Fruto de altos jantares, grandes cêas:

Ha cinco, e seis cubertas, e ha pessoa,

Que a hum só prato que seja não perdoa. Hum individuo assim Pai Pai segundo,

He capaz de comer quanto ha no mundo.{27} Fica esmola a pedir quem o supporta:

Tal gente longe vá da minha porta!

Portugal, sê na meza acautelado;

A gula te vai pondo em triste estado:

Já nas cazas de pasto frequentadas,

Já nas mezas dos ricos enfeitadas,

Mostras fastio á sôpa, vaca, arroz,

Só queres fricassés, e fricandoz;

O rosbife, que em sangue inda escorrendo, Os estômagos vai assim perdendo;

Rabiolos, fatia á Prussiana,

Pitéos de toda a casta de chanfana;

Que ha cozinheiro tal, tão delicado,

Que de folhas de parras faz guizado,

Mujangués, varios môlhos, e frituras,

Leite creme, pudins, e outras misturas,

Compotas com as caldas refervidas;

Tudo isto pouco a pouco acaba as vidas. Depois tens nos cafés vastos licôres,

Que alguns até se bebem pelas côres:

Hum porque he côr de roza muito vivo,

Outro o ser côr de goivo faz motivo;

O de cravo, que agita, bem que esquenta, Hum, que se estima de hortelã pimenta;

O licor de canela, o marrasquino,

Licor de ouro tambem que he caro, e fino. Eu inda espero ver licor de cardos,

De alfazema, tomilho, e lirios pardos.{28} Sahe hum Taful d'alli, que he todo braza;

Se tomasse cantharides em casa,

Não julgava ficar assim tão forte;

Quer conservar a vida, e busca a morte.

Se não se emenda disto, anda enganado, Cuida que morre cru, morrendo assado.

Portugal, em mil couzas tens mudado!

Só te vejo aos abusos afferrado!

Por exemplo: jogar-se tanto o entrudo,

Em que se insulta o homem mais sisudo, Com agua, pós, laranjas, pulhas, peças,

Em que aberto se tem tantas cabeças!

Louvo que jantes bem nesses tres dias,

Mas reprovo da cêa as demazias.

Pois comes sem discurso, ou reflexão,

Para teres p'rigoza indigestão!

Tens outro abuso, que he serrar a velha,

Tolice, que não póde ter parelha;

Para andarem por frios, e por lamas

Os homens a fugir das suas camas,

Fazendo levantar, vir á janella,

Para se constipar esta, e aquella,

Que sem juizo algum ama, e criada

Perdem a noite nessa mascarada,

Até que no outro dia a cozinheira

Dá ao demo tão grande babozeira;

Pois não podendo o somno disfarçar,{29} Deixou entrar o caturro no jantar.

E que direi tambem das boas Festas?

Não devo criticar couzas como estas;

Porque trazem motivo mui sagrado,

Com que todo o Christão, bem educado,

Deve ter alegria, e grande gloria

Em trazer taes motivos á memoria.

Mas quizera, encontrando-se as pessoas, Que abraçando-se, dessem Festas boas; E que os que mais pudessem nestes dias, Embora uzassem grandes bizarrias,

Mandando, não Bilhetes de prezente,

Mas sim couzas, que alegrem o olho á gente: Bons perús, porcos, patos, ou perdizes,

Seis gallinhas com doze codornizes,

Tortas, pudins, pasteis, ou pastelões,

Finas broas, gostozos massapões.

Eis-aqui humas Festas de prazer,

Que são de consolar, e agradecer.

Isto prova a amizade ser fiel,

E val mais que tirinhas de papel,

Ou Bilhetes de nomes em cartão,

Que os criados ás vezes nem os dão:

A sege mui fechada á porta chega

A procurar aquelle, que se nega;

E muito digno he de se notar

O que de ambos devemos ajuizar;

No da sege bem he que se supponha{30} Que de dar Boas Festas se envergonha;

Porque vai tão fechado, e tão occulto,

Que parece que teme algum insulto.

E esse, que em caza está, do amigo á espreita, Em não fallar-lhe faz-lhe huma desfeita.

Por isso implicão taes formalidades

Com as bem reguladas amizades.

Dizem que quanto mais se vai vivendo,

Mais couzas, nunca vistas, se vão vendo; Mas eu outro conceito he bem que forme, Que quanto mais se vive, mais se dorme; E dou esta razão, porque supponho

Que viver, e dormir he tudo hum sonho.

Sonho parece quanto vejo, e digo,

Além do quanto fica só comigo.

Porém vamos a couzas divertidas,

E fallemos de velhas presumidas,

Que algumas ha de tanta affectação,

Que por invencioneiras dão penção.

Huma velha vi eu tão melindroza,

Que fugia do cheiro de huma roza,

Dizendo lhe exaltava logo o flato;

Tão estragado estava aquelle olfato!

Succedeo de vizita ir esta lesma

A caza de outra igual Dona Seresma

A tempo que entrou logo outra vizita

De huma grave Senhora, mui bonita,{31} A qual tinha nas tranças espetada

Huma perfeita roza avermelhada;

E porque ao pé da velha se assentou,

Logo a velha aos arrotos começou,

Dando desta molestia por motivo

Daquella roza o cheiro muito activo:

Foi crescendo a afflicção a mais e mais,

E com afrontamentos grandes ais;

Cahio do canapé torcida toda

Com huma convulsão destas da moda.

Acodio-lhe a Senhora a toda a pressa,

Que trazia a tal roza na cabeça,

Dizendo que era sêca, e que a comprára, Por ser roza de musgo, linda, e rara;

Obra feita por mão de huma Franceza,

Que nas flores imita a Natureza.

Quando a velha ouvio tal, envergonhada, Fingio tornar a si com lã queimada;

E foi então geral a zombaria,

Que fez da dita velha a companhia.

Eis-aqui as molestias, que dão rizo,

E a que se expõem com faltas de juizo

As velhas infundidas em vaidade,

Que querem sempre estar na flor da idade; Que ha velha, que no modo de trajar,

Presume as raparigas desbancar.

Eu vejo raparigas enfeitadas,{32} Rethoricas, porém pouco applicadas,

De orelha palavrinhas apanhando,

Com as quaes aos tafues vão affectando. Huma carta vi eu de huma senhora,

Muito desvanecida de Doutora,

Cuja carta era em verso, e era de amores: Queixas de auzencias, zelos raladores;

Quando só tinha lido a mocetona

As guerras de Alecrim, e Mangerona.

A carta não me lembra até ao fim,

Porém o seu principio vinha assim;

De pungentes receios combatida,

Lembrando-me talvez o ser trahida,

O meu ciume trepido, fervente

Adeja sobre mim avidamente:

Eu desafio a magoa, e a impaciencia

No campo dilatado de huma auzencia,

Ululando, e exprimindo o sentimento,

Que me despenha em grande abatimento:

Anhelando appellar nesta fraqueza

Para o tribunal dubio da fineza.

Que tal foi este parto sem parteira?

Ella chamou-lhe carta, eu chamo asneira. Não critico as Senhoras instruidas

Em bons Autores, e Obras escolhidas,

Que com principios bons de educação{33} Mostrão que tem juizo, e tem lição:

Senhoras ha discretas, que nas fallas

Tomárão muitos homens imitallas.

Tambem não noto aquellas coitadinhas,

Que lidão com dedal, agulha e linhas,

Vivem do bastidor, ou da almofada,

Que essas tempo não tem para mais nada. Só murmuro daquella não sizuda,

Que em trez dias a fórma ás modas muda, Que só cuida do luxo mui garrida,

Da belleza, que tem, desvanecida;

Não lhe importa nem ler, nem trabalhar,

E o que sabe he somente namorar,

De janella esperando os valdevinos,

Feitas huns papagaios femeninos;

Formosuras pasmadas quanto a mim,

Bem proprias para estátuas de jardim.

Portugal, Portugal! não te conheço!

Cada vez te vou vendo mais avêço.

Eu vejo tambem homens presumidos,

Com desvanecimento de instruidos;

Porém he hum saber tão fôfo, e escasso, Que andão a tropeçar a cada passo.

Criticão tudo, nada se respeita,

Sem saber onde tem a mão direita.

Soffrer já mais se póde que a ignorancia

O merito confunda co' a jactancia.{34} A ponto se me está reprezentando

Hum caso, que nos vem aqui frizando:

Nosso insigne Pintor Alexandrino

Fallou ao Preto velho Pai Justino,

Para que lhe caiasse a propriedade

De humas casas, que tinha na Cidade.

Caiou-lhe o Preto a frente muito bem,

E no fim não lhe quiz levar vintem,

Dizendo que hum a outro companheiro

Era desattenção levar dinheiro.

Ora, assim como o preto, muita gente

Sonha em ser grande cousa de repente!

Assentemos que o mundo cada dia

He de doudos extensa enfermaria;

Porque hum ser Mathematico projecta,

Outro insigne Pintor, outro Poeta;

Hum a Musico vai, outro a Letrado,

Outro na Medicina he enfronhado;

Hum he Filósofo, outro he Arquitecto,

Outro quer ser da Lua, e do Sol neto;

E muitos sem principios, nem razão,

Não sabem mostrar mais que presumpção; Pertendendo roubar a fama, e gloria

A quem cançou com livros a memoria.

He tudo enthusiasmo, e parvoice,

Desconcertos nascidos da doudice:

E nas varias manias, que contém,{35} Assenta cada qual que assim vai bem.

Mas se viver por gosto assim pertendem, Que nem já huns aos outros bem se entendem, Vão vivendo, que as cousas deste mundo Humas ficão em cima, outras no fundo;

Porque a razão nos mostra, e nos ensina Que tudo toca a meta, e então declina.

Portugal, Portugal! nao te conheço!

Quanto mais penso em ti, mais esmoreço.

Explicação dos Enigmas, Adivinhações, e Charades do 1.º

 

Folheto, ou primeira Parte desta Obra.

 

O 1.º Enigma he = a letra O = o 2.º = Dedos == o 3.º = Pares de

luvas = a Adivinhação = Figos = a 1.ª Charade = hum Soldado = a 2.ª Charade = hum Caçador =.

{36}

 

Escolher té acertar.

Improvizo do Autor.

Tafueszinhos deste tempo,

Se estado quereis tomar,

Deveis com muito sentido

Escolher té acertar.

Daquella, que rir sem tempo,

E esperta de mais fallar,

Fugir de se lhe dar corda,

Escolher té acertar.

A que de lograr os homens

Com jactancia se gabar,

Nem mais pôr-lhe a vista em cima,

Escolher té acertar.

Rapariga janelleira,

He bom della não fiar,

Namora a muitos, pois quer

Escolher té acertar.

A que ás modas afferrada

A moda não perdoar,

Deixalla, mas logo ir outra

Escolher té acertar.{37}

A que der costura fóra,

E meias a accrescentar,

Deixalla ir pela malha,

Escolher té acertar.

Daquella, que crê em bruxas,

Que se anda sempre a assustar,

Fazer-lhe huma cruz á porta,

Escolher té acertar.

Não vos enleve a menina,

Porque canta, e vai walçar;

Sem tempo, não ha escolha,

Escolher té acertar.

Fingi ter paixão por todas,

Depois huma exceptuar,

Fazei o que ellas vos fazem,

Escolher té acertar.

Mal que a escolha se fizer,

Sem demoras ir cazar,

Mas tomar bem as medidas,

Escolher té acertar.

Qualidades da senhora

Podeis por fóra indagar,

Indagar não dá, nem tira,

Escolher té acertar.{38}

O laço do Matrimonio,

Dado sem se ponderar,

Traz depois sempre a desordem,

Escolher té acertar.

Todos sabem que he melhor

Prevenir do que emendar,

Com brio, honra, e decencia

Escolher té acertar.

Ser amante, e não velhaco,

Prometter, e não faltar,

E para mais segurança

Escolher té acertar.

Os que nada tem de seu,

Nem tem genio de casar,

Desenganem, porque escusão

Escolher té acertar.

Hoje as mulheres não querem

Os maridos sustentar,

Antes tomão por systema

Escolher té acertar.

Donzella, ou viuva rica

Pobretões não vão buscar,

Vão entre os homens chineiros.

Escolher té acertar.{39}

Casamentos com juizo

Poucos vejo effectuar,

Se Amor vai com o interesse

Escolher té acertar.

Formosura, e qualidades

Já ninguem vai disputar,

Se o dinheiro he quem traz tudo,

Escolher té acertar.

Porém siga embora o mundo

Esse modo de pensar,

Ide só honra, e juizo

Escolher té acertar.

Vós deveis sem ambição,

Se tendes com que passar,

Nas honestas, recolhidas

Escolher té acertar.

As ricas devem tambem

Homens de bem amparar,

E nos mais bem comportados

Escolher té acertar.

Se todos isto seguissem,

Melhor se havião de achar;

Mas dinheiro quer dinheiro,

Escolher té acertar.{40}

A final será virtude

Pensões do estado notar,

E depois outro destino

Escolher té acertar.

Minhas filhas não caseis.

Improvizo do Autor.

Namoradinhas da moda,

Vede bem o que fazeis,

Com tafues atordoados,

Minhas Filhas não caseis.

Se tomais paixões de amor,

De velhas não morrereis;

Tira amor annos de vida,

Minhas Filhas não caseis.

Todos huns santos se inculcão,

Namorando cinco, e seis,

Em lhes conhecendo a balda,

Minhas Filhas não caseis.{41}

São huns em quanto pertendem,

Depois são hydras crueis,

Como a cobra, a pelle mudão,

Minhas Filhas não caseis.

Destes frangainhos novos,

Ó Filhas, não vos fieis;

Andão sempre dando ás azas,

Minhas Filhas não caseis.

Trazem-vos anneis das feiras

De vintem, e de dez reis,

Porque a mais chegar não podem,

Minhas Filhas não caseis.

De educação, e de genio

He justo vos informeis;

Com homens desconfiados,

Minhas Filhas não caseis.

Entre a guerra dos ciumes

N'hum tormento vivereis;

Meninas, coração livre,

Minhas Filhas não caseis.

Depois da primeira offensa

Segunda não espereis,

Fugi sempre a lograções,

Minhas Filhas não caseis.{42}

Como he raro em Lotarias

Achar a dos dezeseis,

He raro achar bom marido,

Minhas Filhas não caseis.

Não duvido que finezas,

E mil excessos acheis;

Mas são iscas para a rêde,

Minhas Filhas não caseis.

As cartinhas amorozas,

São finezas em papeis,

O papel tudo consente,

Minhas Filhas não caseis.

Por huma verdade só

Mentiras mil soffrereis,

Olho vivo, prevenção,

Minhas Filhas não caseis.

Como Amor cego se pinta,

A mesma queixa tereis,

Se haveis cahir por cegueira,

Minhas Filhas não caseis.

Aturar os pequerruxos,

Do marido os aranzeis,

São cousas, que custão muito!

Minhas Filhas não caseis.{43}

Vós em casa com mil sustos,

Elles por outros quarteis;

Vós em jejum, elles fartos,

Minhas Filhas não caseis.

Casar, e ficar depois,

Como muitas achareis,

Viuvas, pobres, doentes,

Minhas Filhas não caseis.

Os velhos são rabugentos,

Os moços são infieis;

Como ha pouco, onde se escolha,

Minhas Filhas não caseis.

Por sustos, penas, cuidados

O descanco não troqueis,

Solteiras não sois escravas;

Minhas Filhas não caseis.

Rir, brincar, zombar de todos

He bem bom, se isto fazeis,

Não vos enterreis em vida,

Minhas Filhas não caseis.

Vivei libertas, Meninas,

Que contentes vivereis;

Boi solto lambe-se todo,

Minhas Filhas não caseis.{44}

Bem conheço, minhas Filhas,

Que em velhas pouco valeis;

Mas que serve acertar mal?

Minhas Filhas não caseis.

Amor, juizo, e fortuna

He com que acertar deveis;

Isto he bom, mas onde ha disto?

Minhas Filhas não caseis.

Nisto, que digo, vos mostro

O fruto, que tirareis;

Só por trez dias de festa,

Minhas Filhas não caseis.

Abraçai os meus conselhos,

Porque vos não enganeis,

Mandai Amor á tabúa,

Minhas Filhas não caseis.{45}

 

APÓLOGO.

A Gallinha, e os Pardaes.

N'huma reserva de estrume

Gallinha sôfrega andava,

Espalhando com os pés

O deposito, que achava.

Bando de espertos Pardaes

Muito de perto a seguião,

Quanto ella esgaravatava

Elles, famintos, comião:

Neste, naquelle lugar

Andava a triste cançada;

Os Pardaes comião tudo,

A pobre Gallinha nada:

Té que sacudindo as azas,

Virou de repente, e vio

A manada charleadora,

Que áquelle estrume acudio.

Então disse: Está mui bom

Esse modo de viver!

Eu descobrindo, e espalhando,

Para os mais virem comer!

Por certo que estou lograda!

N'outra não torno a cahir:

Donde vir estes golosos

Eu cuidarei de fugir.{46} Hum Pardal de escuro bico

Dos outros sahio á frente,

Que por ser Pardal ja velho,

Se julgava intelligente:

E querendo despicar

Aquella descompostura,

Deo á Gallinha em resposta

Esta sentença madura:

Este lugar, em que andamos,

Não he vedado a ninguem;

Temos a elle o direito,

Que qualquer Gallinha tem:

De mais ha outro motivo;

Quem por espalhar trabalha,

He certo que já não quer

As mesmas cousas, que espalha:

Nós aproveitamos tudo

Fiados nesta razão;

Ninguem he tolo, que deixe

De acceitar o que lhe dão.

A Gallinha envergonhada

Das satisfações, que ouvio,

Deo huma volta em redondo,

E nem mais o bico abrio.

Os que achão dinheiro junto,

Como herdeiros de seus pais,

Fazendas, cópa de prata,

E outros muitos cabedaes;{47} Que espalhão tudo por vicios,

Appetites, e funcções,

Dando cabo do que tem

Com loucas combinações,

Talvez que mais se acautelem,

Se disto se recordarem:

A Gallinha espalha, espalha,

Para os mais se aproveitarem.

 

CONTO EPIGRAMMATICO.

Ha pelas casas das Sortes

Tres Tabellas penduradas

Com attractivas fortunas,

Mas são fortunas pintadas.

Tem por cima Premios grandes,

Que se chamão de cabeça;

Por baixo os mais diminutos,

Em que a gente nada int'ressa.

Entrou na loja um Laponio,

Querendo Sortes comprar,

Metteo prompto a mão na caixa

A rir muito, e a perguntar:

Diga-me senhor caixeiro,

Porque saber me convem,

Se esses Premios de cabeça

Todos esta caixa tem?{48} Respondeo hum dos que estavão

Arrumados ao balcão:

Descance; que os de cabeça

Todos nessa caixa estão:

Cabeça he que nós não temos

Em vir sentar-nos n'hum banco

A trocarmos o dinheiro

Por iscas de papel branco.

 

CONTO

Do Sabio por imaginação.

Certo Rapaz de Provincia

A Lisboa veio dar,

O qual não sabia ler,

Nem escrever, nem contar.

Para ganhar o sustento

Pôz-se a servir hum Letrado,

Esperto, prompto, e fiel,

Mostrando-se hum bom criado.

De tres a tres mezes o Amo

Por costume lhe dizia:

Esfrega-me essas estantes,

Limpa-me essa Livraria.{49} Ajuntou alguns vintens,

E a sua patria buscou,

Onde se estabeleceo

Com fazendas que comprou.

Lá na Botica da terra

Elle hia as noites passar

Com o Cura, e mais pessoas,

Que alli vinhão palestrar.

N'huma noite huma questão

Se moveo co'hum Estudante,

Em que elle se foi metter

Por atrevido e ignorante.

Instava sem reflexão

Dizendo: He que me faltava;

Se por ter aberto livros

Vossa Mercê me encovava.

Eu tambem Livros abri,

Lidei com discreta gente;

Não jugue o senhor novato

Que acha em mim algum demente.

O estudante, que sabia

Que o tal servíra hum Letrado,

Querendo-o desmascarar,

Lhe respondeo enjoado:

Eu sei que livros abrio,

Mas diz gente verdadeira,

Que abria livros alheios,

Para tirar-lhe a poeira{50} Eis como alguns impostores

De sabios querem ter fama,

Lendo só rostos de Livros,

Nada fruto, e tudo rama.

Não estudão, nem se canção;

Querem que a sabedoria

Se pegue, bem como a febre

Em tempo de epidemia.

 

CONTO EPIGRAMMATICO.

Havia hum homem sagaz,

E bastante indagador;

Sempre das vidas alhêas

Queria ser sabedor.

Por conseguir o seu fim

Valia-se de mil modos,

Louvando, ou dizendo mal

Sabia tudo de todos:

Com perguntas, e rodeios

Botava a rede em cautela:

Quem conversava com elle

Por força cahia nella.

Adoeceo gravemente;

E hum Medico foi chamado,

Que da lingoa deste enfermo

Vivia escandalizado:{51} Receitou-lhe hum vomitorio,

Mas com elle não lançou;

Repetio segunda dose,

Igualmente se frustrou;

Até que o Medico disse:

Pasmo do caso presente!

Não vomitar quem tem feito

Vomitar a tanta gente!

E pois que o meu vomitorio

Nada, ou pouco lhe aproveita,

Se quer vomitar, amigo,

Use da sua receita.

 

CONTO

Do Homem, e o Macaco.

Hum Capitão de Navios

Trouxe do Brazil hum Mono

De condição vingativo,

Mas fagueiro com seu dono.

O dono estimava-o muito,

E o Macaco o conhecia;

Disto dava o bruto provas

Nas festas, que lhe fazia.{52} Trepava por elle a cima,

Catava-o de quando em quando,

Punha-lhe a mão pela cara,

De roda delle pulando.

Ao animal finalmente

So lhe faltava fallar;

Tendo o dono ao pé de si,

O seu forte era brincar.

Vio o Macaco huma vez

Seu dono matar hum gallo;

Pilhou-o fóra de caza,

Tentou tambem imitallo:

Entrou pela capoeira

Com huma faca na mão,

Foi matando tudo a eito,

E atirando para o chão.

Vindo o dono para casa,

E achando tal mortandade,

Esconjurou o Macaco,

Mais a sua habilidade;

Mas passando-lhe a paixão,

Co' hum páo o ameaçou,

Deo-lhe huma leve pancada,

E com dó delle ficou.

O bruto, que não perdeo

A pancada da lembrança,

Mesmo á bruta não deixou

De tomar delle vingança;{53} E pilhando no outro dia

O dono ao pé descuidado,

Botou-lhe com dentes, e unhas

A cara abaixo de hum lado.

Quem dissera que por tempos

Se mostrasse tão cruel

Hum bruto, que parecia

Tão submisso, e tão fiel!

Ha duas moralidades,

Que d'aqui se hão de tirar:

A primeira he que nos brutos

Ninguem se deve fiar:

A segunda de que ha homens

De huma apparente bondade;

São huns, e parecem outros

Por manha, e sagacidade.

 

APÓLOGO.

A Pulga, e o Mosquito.

N'huma noite de Verão,

E de bastante calor,

Encontrou-se co' hum Mosquito

A Pulga n'hum cobertor:{54} Cumprimentárão-se muito

Co' a politica devida;

E disse a Pulga ao Mosquito:

Ando aqui desfalecida;

De vossa mercê me queixo,

Que do sustento me priva;

Estou tisica, e esfalfada,

Não sei como já sou viva:

Ando por cima de leitos,

Ando nas camas de chão;

Vem vossa mercê tocando,

Começa a minha afflicção;

Se dou alguma picada,

He sempre em sustos, e medos;

Porque temo de cahir

Na ratoeira dos dedos.

N'hum individuo, que dorme,

He onde janto, onde ceio;

Mas não me presta o que como,

Pelo meu justo receio:

Se lhe chupo n'huma perna

Sempre com cinco sentidos,

Vem logo a sua trombeta

Metter-se-lhe nos ouvidos.

Acorda o que está dormindo,

Dando a cantiga ao diabo;

Se me sente, põe-me o dedo,

E entre as unhas me dá cabo.{55} Por tanto quero pedir-lhe

Tenha de mim compaixão;

Que toque á gente acordada,

Porém á que dorme não.

Ó filha, disse o Mosquito,

Eu tambem soffro, e padeço;

Pois levo ás vezes boléos,

Que da vida me despeço.

Dão bofetadas em si

Os que andão comigo em guerra;

E se me apanhão no lance,

Atirão comigo a terra.

Os desastres que me conta,

Por certo me mettem dó;

Mas he preciso tambem

Que não queira comer só.

Nestes termos, minha rica,

A vontade lhe farei;

Que engorde, e que viva farta,

He que eu muito estimarei.

Despedirão-se hum do outro:

E o Mosquito atraiçoado

Não fez nada do que disse,

Que he traidor dissimulado.

Perseguia a toda a gente;

A quem dormia acordava,

Por emulação á Pulga

Fazia o que costumava.{56} A Pulguinha muito afouta,

Vendo hum homem a dormir,

Ferrou-se-lhe no cachaço,

Sem lhe lembrar o fugir.

O Mosquito pelos olhos

A zunir muito, e a morder,

Acordou o homem da sesta,

Para a Pulga surprender:

Que, coitadinha! espirou,

Acabando o seu flagello,

Entalada entre o sobrado,

E entre a sola de hum chinelo.

Daqui colligir se deve

Que quando a vingança cega,

Quasi sempre hum malfeitor

O seu semelhante entrega.

 

APÓLOGO.

O Burro, e a Ratazana.

Estava hum Burro comendo

Á noite a sua ração,

E huma velha Ratazana

Quiz ter com elle quinhão.{57} Disse-lhe o Burro: Malvada,

Vai a outro sitio comer:

Não basta a ração ser pouca?

Mais pequena a vens fazer?

Respondeo-lhe a Ratazana:

Por hoje licença dá;

Que por estes oito dias

Prometto de não vir cá:

Eu sei mui bem que teu dono

Hum grande queijo comprou;

Espreitei onde o metteo,

E á manhã com elle dou:

Hei de fartar-me á vontade,

Roendo-lho muito bem:

Sei que a vizinha debaixo

Bolos n'huma cópa tem:

O criado, que te trata,

Tem lá n'huma parteleira

Hum grande monte de cebo

Junto dentro de huma ceira:

Lá pelas aguas furtadas

Já atinei co' huns buracos

Para saltar n'hum pombal,

E chupar pombos dos cacos.

Á vista das descubertas,

Que já hoje tenho feito,

Espero passar sem fome,

Com subtileza, e com geito,{58} Foi tasquinhando a ração

Naquella doce esperança,

Co'a imaginada fartura

Sempre posta na lembrança.

Do Burro se despedio

Com affago, e cortezia;

E foi de rabo estendido

Para a cova, em que vivia.

Porém lá pela alta noite

Tornou depois a sahir,

E foi-se por certo atalho

Nas casas introduzir.

Andou em busca do queijo,

Porém já o não achou

No sitio, que imaginava,

Onde d'antes se guardou.

Voltou-se ao primeiro andar

Para os bolos da vizinha,

Basculhou a copa toda,

E nem hum só bolo tinha.

Cançada, raivosa, e triste

Ao quarto do moço veio;

E porque estava acordado,

Entrou com algum receio.

Saltou para a parteleira

Com o cebo no sentido;

Mas no dia antecedente

O tinha o moço vendido.{59} A sahida deste quarto

Empreza foi arriscada;

Por se safar tão ligeira,

Não mammou huma arrochada.

Lá por outros escaninhos

Ao telhado caminhou,

Só para entrar no pombal,

Onde outras vezes entrou.

Mal que se pilhou de dentro,

Vio huns ninheiros mais baxos,

Ficou-lhe o olho luzindo

Co' o sentido nos borrachos.

O dono, que de outros ratos

Se via mais perseguido,

Pôz-lhe armada ratoeira

Com petisco appetecido.

Foi então que a Ratazana,

Não se podendo conter,

Cheirou-lhe a isca por fóra,

Quiz entrar dentro, e comer.

Deo voltas, metteo focinho;

Mas á dentada primeira

Ficou a pobre engasgada

Nos ferros da ratoeira.

Quanto esperava falhou,

E por mais infausta sorte,

Toda a alegria passada

Acabou nas mãos da morte.{60}

CONTO EPIGRAMMATICO.

Hum Author compunha hum livro,

Livros velhos folheando:

Perguntou-lhe hum seu collega:

Que estás ahi procurando?

Respondeo: Como não ha

Livro algum que tão máo seja

Que não tenha alguma cousa

Boa, que se note, e veja:

De cada hum tiro hum pouco.

Disto hum novo livro ageito

Ficando de cousas boas

Formado hum livro perfeito.

Desta lição eu quisera

Que os homens se aproveitassem,

De cada hum imitando

As virtudes, que lhe achassem.

O homem, que isto fizesse,

Hum grande brazão teria;

Ficava sendo hum compôsto,

Que ao Mundo exemplo daria.{61}

 

APOLOGO.

O Saloio, e huma Sorte de papel.

Vendo nas casas das Sortes

Premio de oitenta mil reis,

Foi hum Saloio comprar

Oito tostões de papeis:

E tudo desembrulhando

Hum Premio só não achou,

Repetio dobrando a dóze,

Da mesma sorte ficou:

Foi comprando mais e mais,

Quanto comprava perdia,

Gastou dezoito mil reis,

E delles nem bóia via.

Raivoso se foi á caixa,

Dizendo: Forte castigo!

Tirou mais seis tostões dellas,

Que era o que tinha comsigo:

Tambem lhe sahírão brancas,

E o homem desesperou;

Mas a ultima entre os dedos

Deste modo lhe fallou:

Saloio, quem quer que sejas,

Toma do mundo lição,

Todas as cousas pintadas

Como parecem não são;{62} Não te illudas com os Premios,

Que he natural o falharem,

E nesse engodo emmagreces,

Para os outros engordarem:

Se o acaso der hum Premio,

Põe logo no pensamento,

Que para hum só ser feliz,

São desgraçados hum cento:

O que tira tres moedas,

Já veio vinte deixar,

E se inda não as largou,

He isca para as largar.

O que tira tres tostões,

Fica de nós muito amigo,

Sem ver que deixou o porco,

E leva a corda comsigo.

Os prudentes conceituão

Ser tudo isto huma Tragedia,

Que os felizes nestas casas

São como os Reis de comedia.

E porque em lojas de Sortes

Não gastes nem hum vintem,

Huns conselhos vou a dar-te,

Com os quaes te acharás bem.

Nao olhes para as Tabellas,

Nem os mais vejas jogar,

Que se algum tem sorte em preto,

A ambição te vai tentar;{63} Olha sim, para a dinheiro,

Que está perdido no chão

Em sortes desembrulhadas

Da porta até ao balcão.

O Saloio respondeo:

Teu desengano me embaça,

Se se promettem fortunas

Onde se encontra a desgraça.

Á vista disto he razão

Que este vicio em mim se quebre,

Fugirei de toda a casa,

Que vende gato por lebre.{64}

 

Vindo ás mãos do Author huma Quadra bastantemente

conceituosa, tentou glosala pelo seguinte modo:

 

QUADRA.

Dois Entes regem o mundo

Doce Amor, e Morte impía,

A Morte co' a fouce corta

Quanto Amor semêa, e cria.

GLOSA.

1.

Logo que foi construida

Esta Maquina brilhante,

Não falhou hum só instante

Na conta, pezo, e medida:

Nem podia ser falida

Obra de hum Saber profundo;

He seu creador segundo

O Tempo, que não faz pausa,

Por mando da Eterna Causa

Dois Entes regem o mundo{65}

2.

Hum he Amor, outro a Morte,

Cada qual com fortaleza,

Entre alegria, e tristeza,

Mudão dos Mortaes a sorte:

No que hum faz outro dá córte,

Que a desordem desafia,

Disputão de noite, e dia,

A qual mais poder encerra,

Andão sempre em viva guerra

Doce Amor, e Morte impía,

3.

Nesta horrorosa campanha

Não faz figura a Razão,

Nem ha capitulação

(O que já se não estranha)

Tudo de terror se banha,

He immensa a gente morta;

E por mais que Amor a exhorta,

Sem respeito ás creaturas,

Searas verdes, maduras

A Morte co' a fouce corta{66}

4.

Quando a paixão se declara

De Amor entre dois amantes,

Porque não fiquem triunfantes,

A Morte vê se os separa:

Como he das vidas avara,

Em suffocallas porfia;

De balde Amor a vigia,

Que a Morte, que tudo extingue,

Trabalha porque não vingue

Quanto Amor semêa, e cria.{67}

 

Quadra, que mandou huma Senhora ao Author (talvez sem

reflectir) com muito empenho, para que lha glosasse; sendo assás bem difficultosa, pelo veneno do tempo que tem comsigo, etc.

 

QUADRA.

Não sigas, Bella, os caprichos,

Que os Mortaes tem fabricado;

Segue as Leis da Natureza,

Felicita hum desgraçado.

 

GLOSA.

1.

Bella Nize, o Creador,

Que o Mundo fez, e governa,

Que com Providencia eterna

He, e foi de tudo Author,

He em quem devemos pôr

Os nossos desejos fixos;

De genios que estão perfixos,

Com a maior impiedade,

Em negar esta verdade

Não sigas, Bella, os caprichos.{68}

2.

Dar a todos a entender

Por Fabula Ceo, e Inferno;

Que não ha castigo eterno;

Que nem premio póde haver;

Que ha só nascer, e morrer

Sem lembrança de peccado,

Bem como bruto esfaimado,

Eis a perversa doutrina,

Só para nossa ruina,

Que os Mortaes tem fabricado.

3.

Quem na Pia do Baptismo

As luzes da Fé recebe,

O bom caracter concebe

No Gremio do Christianismo:

Não temer penas do Abismo

He ser de Lucifer preza

Na Religião firmeza

He quanto todos convem

Inculto Gentio he quem

Segue as Leis da Natureza,{69}

4.

Ó Deos Eterno! he possivel

Que o Christão, que tu creaste,

Dos teus preceitos se afaste,

Á tua voz insensivel!

Sua pena era infallivel

Por ter a Lei quebrantado;

Mas o teu Poder sagrado

Fallando-lhe ao coração,

O salve da escravidão;

Felicita hum desgraçado.{70}

 

CHARADE.

Guarda a primeira e segunda

Dos rigores da estação,

E guarda a terceira as duas

Por amor, e gratidão:

As tres conchegão seu dono,

Seja de inverno, ou verão.

 

CHARADE.

Não quer demora a primeira,

A segunda he contra a fome,

Separadas não tem bocca,

Ambas juntas muita toca,

Muita gente tem, que come.

 

CHARADE.

He criminosa a primeira,

E aos crimes, que commetteo

Logo a segunda, e terceira

Justa sentença lhes deo;

Porém juntando-se as trez

Entrão em tanta harmonia,

Que o mal, que a primeira fez,

Torna-se em grande alegria.{71}

 

CHARADE.

A primeira diz aonde,

Esta, e segunda cultiva,

Evita a terceira o pó,

E de precipicios priva:

Primeira, e ultima afflige,

Nutre segunda, e primeira:

Ha nas quintas, e fazendas

A segunda co' a terceira:

O bom commodo dos homens

Nas tres syllabas se encerra

Em couza, que serve muito

Na paz, e tambem na guerra.

 

CHARADE.

Da primeira, e segunda se gosta,

Que he onde se chora, se folga, e se ri:

Na segunda, e terceira apparece

O aspecto da gente por bom, ou ruim;

A segunda, e terceira dá nome

A huma alta serra do nosso paiz;

Mas se as três ajuntarmos, veremos

Hum peixe saltante na praia a cahir.{72}

ADIVINHAÇÃO.

 

Eu visito toda a casa,

E co' a gente desespero,

Como com ElRei á meza

Daquelles pratos, que quero;

Seja a Dama a mais formosa,

Mais pobre, ou mais abastada,

Mesmo diante de todos

Por mim ha de ser beijada;

Ando sempre em viva guerra,

Vivo entre muito inimigo;

Mas sendo debil de forças,

Só póde o tempo comigo.

 

ADIVINHAÇÃO.

Não tenho sete cabeças,

Co' a que tenho me governo,

Meu rosto não tem feitio,

Até sou da côr do Inferno:

Pareço no meu sustento

Nascer no Signo de Aquario;

E a minha condição he

Semelhante á do usurario;

Morro de huma ingratidão,

Que me faz ser infeliz;

Pois dão-me a morte por paga

Do beneficio, que fiz.{73}

Significação das Charades, e Adivinhações deste Folheto.

 

= ecraeb = amõacar = ãzoccaa = sgausgenua = alacvo = oapaj =

osacm =

 

A Significação destas Xarades, e Adivinhações aqui vão não por

sua ordem, e até cada huma de per si com as letras trocadas, para maior confusão, e gosto de quem as adivinhar: cujos nomes escolherá para os appropriar, e collocar onde pertencerem, visto não haver outro Folheto, em que se explique, por ser este o ultimo desta Obra, que torno a advertir se deve encadernar com a primeira Parte, e com o Poema do Balão aos Habitantes da Lua; que fica hum Livro divertido.

Tudo se vende nas lojas: de Francisco Xavier de Carvalho

defronte da rua de S. Francisco da Cidade; de Antonio Manoel Polycarpo da Silva junto ao Senado; de Antonio Xavier Moreira da Impressão Regia debaixo da Arcada; de João Henriques no principio da rua Augusta, de Antonio Pedro na rua do Ouro; de Luiz José de Carvalho aos Paulistas; e em Belém na loja da Viuva de José Tiburcio. Custa este Folheto 240; a primeira Parte outro tanto; e o Balão 160.

Notas de transcrição:

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro impresso em 1820.

Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em particular quanto à acentuação.

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