Da feminilidade oitocentista
Parte I · 1 A mulher e seu lugar social na sociedade
SUMÁRIO
Introdução 9
Parte I
1 A mulher e seu lugar social na sociedade
carioca oitocentista 15
2 O discurso médico e a construção da ideia
de sexo frágil 43
Parte II
3 Paradigmas do romance brasileiro no século XIX
e proibições em torno de sua leitura 65
4 Entre a ficção e a construção de um padrão
feminino 87
Considerações finais 111
Referências bibliográficas 115
INTRODUÇÃO
O Rio de Janeiro passou por transformações significativas no decorrer do século XIX. Inicialmente desencadeadas pela insta-lação da corte lusitana, em 1808, tais transformações adquiriram maior consistência na medida em que a situação do Estado Imperial brasileiro tornou-se mais estável – e isso se deu, como consta da historiografia, sobretudo durante o Segundo Reinado. Em meados do século, o carioca já podia contar com ruas calçadas, iluminação a gás, bondes, linha de vapores; também podia gozar de variadas opções de lazer, como teatros, bailes, centros comerciais, passeios públicos, entre outros. Em suma, a cidade conheceu um intenso processo de urbanização que repercutiu decisivamente nos hábitos e costumes de seus moradores – a cada dia mais familiarizados com os padrões europeus, sobretudo franceses, de civilidade.
Esse esforço contínuo de conferir à capital do Império um as-pecto mais moderno veio acompanhado de igual disposição para a tarefa de instruir seus moradores, sobretudo por parte de uma elite letrada formada em universidades brasileiras ou europeias, que passou a desempenhar um papel importantíssimo na elabo-ração e consolidação das recentes instituições pátrias. Na ótica da intelectualidade oitocentista, a instrução constituía um aspec-to indispensável para o aprimoramento social, peça fundamental 10 ELISA MARIA VERONA
para o desenvolvimento de uma nação civilizada. Por isso, muitos deles – políticos, jornalistas, médicos, literatos – centraram a aten-ção neste que julgavam ser um dos mais importantes componentes do progresso.
A situação da mulher não passou alheia a essa série de modi-ficações. Pouco a pouco, a carioca abastada assimilou novos cos-tumes, abandonou certa reclusão que havia predominado em seu cotidiano, procurou vestir-se com maior apuro, portar-se com mais elegância e aperfeiçoar suas prendas de espírito, ou seja, buscou adaptar-se às novas circunstâncias socioculturais que decorreram do processo crescente de europeização do gosto.
Essa pesquisa focaliza justamente os impactos dessas mudan-ças sociais ocorridas no Rio de Janeiro nos tempos de D. Pedro II sobre a condição da mulher. Durante o reinado do segundo Pedro, ao mesmo tempo que se alargou a paisagem social de muita iaiá brasileira, papéis mais tradicionais atribuídos à mulher foram re-colocados, e isso porque a mulher tinha – e esta é a hipótese central desta pesquisa – um papel a desempenhar no novo ambiente social que surgia.
A trajetória escolhida para mapear a emergência desta “nova mulher” foi a seguinte: no primeiro capítulo, tentamos situar o pro-jeto que visava à instrução dos habitantes dentro de um conjunto mais amplo de ações, ações intimamente relacionadas com a pró-pria construção do Estado Imperial brasileiro. Lançando mão de um variado leque de documentos (textos de viajantes, periódicos, decretos, pronunciamentos políticos etc.), buscamos abordar como essa elite letrada percebia as contínuas metamorfoses urbanas e que intervenções procurava aí promover, sobretudo no que tange à mo-ralização da população. Nesse ponto é que a mulher ganha destaque em nossa análise. O que se esperava dela nessa nova configuração social, é a pergunta que procuramos responder.
No segundo capítulo, procuramos analisar como a medicina for-jou seu espaço na sociedade carioca oitocentista e de que meios se valeu para se legitimar como um saber portador da verdade acerca da saúde dos indivíduos e propositor de uma série de novas estra-
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tégias de intervenção e controle social. Duas questões foram mais relevantes nesse ponto do texto: como os textos médicos do século XIX descreveram a mulher, ou seja, quais parâmetros de feminili-dade esses profissionais utilizaram? A partir dessa definição, como definem os papéis sociais a serem desempenhados por ela no novo ambiente social?
Nos dois últimos capítulos, tem lugar uma análise mais detida de como a literatura também prestou importante contributo nesse processo de construção de uma nação “mais civilizada”, como gos-tavam os oitocentistas. Tal como os médicos, os jornalistas, os diri-gentes políticos, nossos literatos também manifestaram o desejo de propagar as luzes e cooperar para a diminuição dos vícios sociais, e o fizeram, sobretudo, por meio do romance, gênero caracterizado por maior flexibilidade de expressão, que crescentemente, ao longo do século, caiu no gosto do público. Abordamos desde os fatores que propiciaram o alargamento da produção e consumo dos conteúdos impressos até as principais tendências da crítica literária, uma críti-ca, como veremos, sempre bastante preocupada com a transmissão de ensinamentos morais por meio da literatura.
Encerramos o livro com um mergulho na produção romanesca oitocentista, no qual se procurou recolher descrições de tipos femi-ninos e de seu ambiente social. Tentamos também estabelecer al-guns contrapontos entre as perspectivas médicas e literárias, princi-palmente com relação aos papéis sociais esperados da mulher e a sua importância no novo cenário social que se compunha. Em suma, a escrita do livro norteou-se por dois eixos fundamentais: o primeiro, relacionado à tentativa de demonstrar alguns princípios partilhados pela elite letrada oitocentista; o segundo, vinculado às novas fun-ções atribuídas à mulher nesse contexto de muitas mudanças.
Este livro é resultado da pesquisa de mestrado desenvolvida junto ao Programa de pós-graduação em História da Unesp, cam-pus Franca, sob a orientação do professor Jean Marcel Carvalho França, e contou com o apoio Capes. Gostaria de agradecer imen-samente a todos que me apoiaram ou que contribuíram para meu amadurecimento intelectual. Dentre essas pessoas estão o professor 12 ELISA MARIA VERONA
Jean Marcel Carvalho França, meu orientador e principal incen-tivador, pessoa que me ajudou a confiar um pouco mais em mim mesma, a professora Tânia Regina de Luca, pela presença generosa e estimuladora em minhas bancas de qualificação e defesa, a profes-sora Mary Del Priori, por sua espontaneidade tão rara no ambiente acadêmico e a professora Susani Silveira Lemos França, por ter me apresentado a tantos autores excelentes. Também não posso deixar de mencionar os amigos da pós-graduação e da graduação, dentre os quais estão Lilian Martins de Lima, Kátia Michelan, An-tonio Carlos Reis, Aline Pagotto, Vanessa Dias, Claudia Francisco, Lucas Putinato, Luciana Parzewsky, Saymon Justo, Paulo Olivei-ra, Soraia Russo, Camila Condilo e Elaine Narcizo, e aos amigos de mais tempo, que, por sorte, ainda fazem parte da minha vida: Natalia Terassi, Fernanda Padilha, Sofia Lopes, Mayra Ishikawa e Daniela Santos. Agradecimentos especiais a minha família, em especial à Isabel de Onófrio e Maria Blás, por saberem sorrir para a vida, e a Edvaldo Verona, meu querido pai, pessoa sempre disposta a investir mais um ano em minha carreira. À Bartira Figueiredo, por compartilhar seu dia adia com o meu.
Este livro é dedicado à memória de minha mãe, Neusa Verona, uma mulher que teve muito daquela “Maria” que Milton Nasci-mento canta na canção e que soube me ensinar a ter apreço pela cultura.