Da feminilidade oitocentista
Capítulo 4
ENTRE A FICÇÃO E A CONSTRUÇÃO
DE UM PADRÃO FEMININO
– E nós somos então...
– Ora... nós?... nós somos o que eles querem que
nós sejamos... (Macedo, s.d., p.228)
Preocupação em ser útil e agradável, desejo de contribuir para a instrução, vontade de transmitir valores morais, essas foram algu-mas questões caras ao romance oitocentista brasileiro. Mas nossos literatos ocuparam-se também de outras questões: o tipo social feminino, por exemplo, foi bastante explorado por boa parte da produção literária brasileira do século XIX, quase sempre lançando mão de parâmetros homogêneos de feminilidade. Nossos escritores foram bastante minuciosos na composição de suas personagens, descrevendo desde a “natureza” da mulher, até pormenores sutis de seu comportamento, passando por sua aparência, suas principais ocupações, suas doenças etc. Retrataram, também, aspectos diver-sos da história de vida de suas protagonistas, todas em idade de ca-sar-se e à espera de um grande amor, todas especialmente bonitas, dotadas de diversas prendas e com espírito cultivado – o que servia para distingui-las quando não possuíssem um bom dote, ainda que, costumeiramente, as empobrecidas do universo ficcional brasileiro sejam não raras vezes surpreendidas com uma herança volumosa de um parente até então ignorado.
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Quanto à personalidade das moças da ficção, a variação é tão tênue que mal se pode diferenciar o perfil de uma personagem do perfil de outra, embora umas poucas apresentem lá a sua singulari-dade – Carolina (Macedo, 1971), por exemplo, pode ser lembrada por suas travessuras, Aurélia (Alencar, 1967), por sua inteligência viva e brilhante; Emília (Alencar, s.d.), por sua inflexibilidade. Todas, invariavelmente, têm altivez de caráter e comportamento recatado, muitas vezes em contraposição a personagens secundá-rias, marcadas por certa frivolidade de costumes. Ainda quando desonradas, as personagens centrais são, de certa forma, desculpa-bilizadas pelas circunstâncias e preservam sua inocência de espírito, como no caso de Lúcia (Alencar, 1992), Mariana (Macedo, s.d.) e Maria do Carmo (Caminha, 1998) – a primeira, prostitui-se para salvar a família atingida pela epidemia de febre amarela de 1850; as duas últimas, seduzidas por pervertidos em razão de sua inexperi-ência. Todas as três conservaram certa magnanimidade de espírito e passaram a vida corroídas pelo remorso de terem mal procedido.
Além de conferir certa nobreza de caráter a suas protagonistas, os romancistas brasileiros, como mencionamos, também se preo-cuparam em esmiuçar as disposições psicológicas de suas persona-gens. Valendo-se da ideia de “natureza feminina”, isto é, valendo-se daquilo que, na compreensão dos escritores, seriam suas caracterís-ticas intrínsecas e invariantes, os romancistas locais não cansaram de destacar, por exemplo, o quão frágil física e psicologicamente era a mulher. “Sua compleição é fraca e delicada” (Macedo, 1981, p.37) disse sobre Honorina o narrador do romance O moço loiro; Emília, no romance Diva, é descrita como dona de uma “natureza frágil, tí-mida e melindrosa” (Alencar, s.d., p.55) em A viuvinha, o narrador anota que as mulheres choram a todo momento, sendo as lágrimas um sinal de sua fraqueza. No diálogo entre Celina e Mariquinha, em Os dois amores, uma diz à outra: “Dizem que somos fracas e frá-geis [...] mesmo com esta nossa fraqueza, nós poderíamos, apesar de tudo, valer muito [...]” (Macedo, s.d., p.228).
O personagem Barbosa, do romance A carne, quando se dá conta de que estava preso “nos laços de uma paixão”, exaspera-se:
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“conhecia a fundo a natureza, a organização caprichosa, neurótica, inconstante, ilógica, falha absurda, da fêmea da espécie; conhecia a mulher, [...] conhecia lhe o cérebro fraco” (Ribeiro, 1938, p.256). Já a empenhada sogra Olímpia, constata o seguinte em seu “manus-crito” que reflete sobre a felicidade conjugal.
A mulher, creiam todos, sente prazer em reconhecer-se passiva,
em ver em si um ente fraco e por isso mesmo digno de respeito goza
com sentir indispensável o apoio moral e físico do homem a quem
se entregou toda inteira, toda confiante, de olhos fechados. [...] As
romanas antigas, talvez se divertissem menos, porém deviam ser
muito mais felizes no interior do lar do que nossas esposas moder-
nas. (Azevedo, 1973, p.50)
Exemplos não faltam para expressar a reincidência de um mesmo ponto de vista, a saber: a mulher tem uma “natureza” mais suscetível, mais fraca e mais dada a assuntos do coração do que o homem.
Mas a diferenciação entre os gêneros não parou aí e os escrito-res enunciaram-nas das maneiras as mais diversas. Na divisão de papéis sociais de acordo com o sexo, por exemplo, a mulher devia resguardar-se ao ambiente doméstico e frequentar lugares públi-cos somente em situação de lazer, mas nunca desacompanhadas, é claro, pois isso logo levantaria suspeita sobre sua reputação. Dentro de casa, cenário mais frequente dos episódios romanescos, o “belo sexo” poderia ocupar-se de diversas distrações: a costura, o borda-do e as cantigas ao piano. Para algumas, a “vida traduzia-se em ler romance”, outras gostavam de aparecer mimosas e elegantes na ja-nela ou dedicar-se aos cuidados com as flores. Há, também, as que recebiam aulas de francês, desenho ou aritmética ou as que, para ajudar no sustento, tinham de trabalhar fazendo doces, costurando ou dando aulas particulares. Em suma, ocupavam-se de vários afa-zeres, conquanto não fossem “pesados demais para cabeça femini-na” (Assis, 2004, p.54).
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Em sociedade, as opções oferecidas pela corte ficcional am-pliavam o repertório de lazer das moças casadoiras. Elas podiam entreter-se com as inúmeras peças teatrais encenadas nos teatros fluminenses, comprar teteias francesas nas famosas lojas da Rua do Ouvidor, apreciar o frescor das sombras no Passeio Público ou mesmo participar de saraus ou bailes oferecidos por algum conhe-cido. Para termos uma ideia do “lufa-lufa” da Corte Imperial das páginas dos romances, observemos a rotina da senhora Aurélia Camargo:
Os teatros e os bailes não lhe bastavam; as noites em que não
tinha convite, ou não havia espetáculo, improvisava uma partida
que em animação e alegria, não invejava as mais lindas funções
da corte. Tinha a arte de reunir em sua casa as formosuras flu-
minenses. Gostava de rodear-se dessa corte de belezas. Os dias,
destinava-os para as visitas da Rua do Ouvidor, e os piqueniques
no Jardim da Tijuca [...]. (Alencar, 1967, p.187)
Em todas essas ocasiões, as moças encontravam a oportunidade de “agradar”, como constata o narrador de O moço loiro: “enquan-to o político se bate no parlamento, e nas antessalas de palácio, o diplomata nos brilhantes salões; o literato no prelo; os artistas nas exposições” (Macedo, 1981, p.70), as mulheres “pelejam” no tea-tro, no passeio ou na noite de sarau numa disputa que opõe “seda a seda”, “joia a joia”, pela satisfação de ser a mais graciosa da noite.
Mas a beleza que de fato era destacada pelos romancistas não era esta relacionada a enfeites e a olhares e sorrisos meticulosamente estudados – o que valorizavam, de fato, era a discrição e o natu-ral recato de damas pouco dadas aos artificialismos das “reuniões buliçosas”. Justamente para esses atributos é que atenta José de Alencar, ao descrever sua viuvinha: “Essa extrema simplicidade era o maior realce da sua beleza deslumbrante. Uma joia, uma flor, um laço de fita, em vez de enfeitá-la, ocultariam uma das mil graças e mil perfeições que a natureza se esmerara em criar nela” (Alencar, 1953, p.124).
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A vida em sociedade é, no geral, descrita por seu aspecto ine-briante – ela faz o delírio das moças, mas, ao mesmo tempo, é “o altar em que a elas se adora e o labirinto em que elas se perdem” (Macedo, s.d., p.11). Essa e outras advertências tentavam chamar atenção para os excessos de vida mundana, aos quais os escritores atribuíam certo afrouxamento nos costumes. As meninas acos-tumadas desde muito novas ao galanteio de sala tornavam-se, de acordo com os romancistas, mais frívolas e volúveis, “perdiam cedo o casto perfume”. Foi o que aconteceu, em Os dois amores, com a bela Mariana, enchendo de preocupações o pai extremoso. Acom-panhemos o trecho da narrativa no qual Macedo (ibidem, p.168) explora essa questão:
A beleza de Mariana encheu de orgulho o coração de seu pai nos
primeiros anos, pouco depois porém essa mesma beleza começou-
-lhe a ser origem de sérios cuidados; quando ele chegou a notar
que sua filha, vaidosa de seus encantos, embriagada com o incenso
de mil lisonjas, procurava ganhar escravos em todas sociedades
onde aparecia, não desanimava nem preferia nenhum perdida-
mente o galanteio... o galanteio, que é quase sempre um obstáculo
para a felicidade das moças, e uma recordação desagradável, que às
vezes, já em muito nobre posição, as faz corar diante de um homem
que vem visitar seu marido. Então Anacleto desamava a beleza de
Mariana, quisera antes vê-la cem anos menos bela, contanto que
fosse cem vezes mais discreta.
Em outro romance de Macedo, encontramos a loureira Juliana, também “embriagada pelo incenso sedutor” desses encontros so-ciais: de volta ao “seio ardente do mundo elegante”, depois de um ano de luto pela morte do pai,
As sociedades abriram em par suas portas à nova e esplêndida
beleza que vinha encantá-las; os turíbulos da adulação queimaram
incenso embriagador aos pés da donzela; a sensualidade civilizada
derramou no coração da menina o seu ativíssimo veneno misturado 92 ELISA MARIA VERONA
com o mel suave e deleitoso das mais odorosas flores. (Macedo,
1945, p.496)
Nesse sentido, a oposição entre mulheres educadas nos salões, aos “raios da galanteria”, e mulheres preservadas da lisonja “dessas reuniões perigosas, onde reina uma febre de vaidade tão fatal”, é usualmente estabelecida nos romances. Em Diva, a acanhada Emí-lia é comparada a sua prima Julinha, habituada desde muito nova a frequentar os bailes que a mãe promovia e nos quais se deixava ena-morar por quantos pretendentes a requestassem. Em O moço loiro, a educação que recebera a romântica Honorina, “criada longe do bulício da sociedade” e crescida “na solidão, como uma flor, pura, inocente, cheia de deleitosas fragrâncias” (Macedo, 1981, p.35) é contrastada à educação de sua amiga Raquel, que aprendera a reco-nhecer os perigos da sociedade desde tenros anos e tornara-se, por isso, bastante racional e insensível. Em A normalista, o padrinho de Maria do Carmo vê com desconfiança a amizade entre sua afilhada e a vizinha Lídia, conhecida por sua fama de grande namoradeira – “não havia na cidade rapazola mais ou menos elegante, caixeiro de loja e modas que não se gabasse de a ter beijado” (Caminha, 1998, p.52). Havia mesmo quem afirmasse que já não era moça, acusação que, para o período, era a pior difamação para uma mulher.
Mas os contrapontos não se restringiram apenas aos perfis dos personagens, nossos romancistas também exploraram outros pares dicotômicos e puseram em cena as mudanças por que passavam a capital do Império, comparando o campo e a cidade, o passado e o presente etc. Pretendiam com isso chamar atenção do leitor para a influência do desenvolvimento urbano e do progresso técnico sob os hábitos dos indivíduos, influência nem sempre vista com bons olhos.
No diálogo dos estudantes Leopoldo e Augusto, por exemplo, no romance A moreninha, o primeiro estende-se em sua explicação sobre as diferenças entre “roceiras” e “cidadoas” – vale a pena re-produzi-lo, apesar do tamanho, pela quantidade de contrastes que são estabelecidos, os quais sugerem que a moça criada longe dos
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prazeres da corte não possui a volubilidade atribuída à mulher dos centros mais urbanizados.
A moça da corte escreve e vive comovida sempre por sensa-
ções novas e brilhantes, por objetos que se multiplicam e se reno-
vam a todo momento, por prazeres e distrações que se precipitam;
ainda contra a vontade, tudo a obriga a ser volúvel: se chega a janela
um instante só, que variedade de sensações! [...] tem o baile e sua
atmosfera de lisonjas e mentiras, onde ela se acostuma a fingir o
que não sente, a ouvir frases de amor a todas as horas, a mudar de
galanteador em cada contradança; depois, tem o teatro, onde com
óculos fitos em seu rosto parecem estar dizendo – és bela! – E assim
enchendo-a de orgulho e muitas vezes de vaidade; finalmente, ela
se faz por força e por costume tão inconstante como a sociedade em
que vive, tão mutável como a moda dos vestidos. Quereis agora ver
o que se passa com uma moça da roça? Ali está ela na solidão de
seus campos, talvez menos alegre, porém, certamente, mais livre;
sua alma é todos os dias tocada dos mesmos objetos [...] Assim,
ela se acostuma a ver e amar um único objeto; seu espírito, quando
concebe uma ideia, não a deixa mais, abraça-a, anima-a, vive eterno
com ela; sua alma quando chega a amar, é para nunca mais esquecer,
é para viver e morrer por aquele que ama. (Macedo, 1971, p.100)
Especificamente sobre a vida na capital do Império, também afirmou o personagem Emiliano, no romance O filho do pescador.
[...] ela (sua mãe) estava, pois, no Rio de Janeiro, principal cidade
do Brasil, onde uma extrema beleza, mais em que nenhuma outra
parte, está exposta; onde a sedução tem uma linguagem mais elo-
quente; onde a lisonja emprega um estilo mais florido, e onde o
vício tem atrativos mais poderosos! (Sousa, 1997, p.140)
Enquanto o ambiente urbano é marcado pelo ritmo acelera-do de mudanças, as quais acabavam por imprimir nos indivíduos uma sensação de instabilidade decorrente das constantes alterações 94 ELISA MARIA VERONA
vivenciadas pelo cenário citadino, o presente é assinalado como tempo de dissolução de valores e desarranjo moral. Alguns perso-nagens de mais idade dão mostra de grande saudosismo, em falas que também abordam as ditas conquistas da civilização apenas por seu aspecto negativo. É o caso de Dona Amância Souselas, no ro-mance O mulato – vejamos a descrição do narrador sobre a repulsa da velha com relação ao progresso:
– No seu tempo, dizia ela com azedume, as meninas tinham
a sua tarefa de costura para tantas horas, a haviam de pôr pr’ali o
trabalho! se o acabavam mais cedo, iam descansar?... Boas! Des-
manchavam, minha senhora! desmanchavam para fazer de novo! E
hoje?... perguntava, dando um pulinho, com as mãos nas ilhargas
– hoje é o maquiavelismo da máquina de costura! Dá-se uma tarefa
grande e é só “zuc-zuc-zuc!” e está pronto o serviço! E daí, vai a
sirigaita pôr-se de leitura nos jornais, tomar conta do romance ou
então vai para a indecência do piano!
E jurava que filha sua não havia de aprender semelhante instru-
mento, porque as desavergonhadas só queriam aquilo para melhor
conversar com os namorados, sem que os outros dessem pela pati-
faria! (Azevedo, 1975, p.83)
Num outro diálogo, agora entre Ema e sua neta Honorina, a avó demonstra seu aborrecimento com os novos costumes desse “século pervertido” – tudo mudara, discorre ela, enquanto “os meninos deixaram de aprender a rezar para ler periódicos, e discutir presu-midos direitos do homem”,
[...] as moças desprezaram os véus da modéstia, e a vida sosse-
gada da solidão, para ir, com o rosto bem a mostra, e carregadas de
adornos e de modas indecentes, dançar em saraus, onde a licença
e o desregramento tomaram o nome de civilização e de progresso.
(Macedo, 1981, p.51)
Mas houve também quem percebesse nova fisionomia da capi-tal imperial com um entusiasmo que destoava do tom apresentado
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pelos personagens acima – vejamos, por exemplo, um trecho do romance A família agulha, romance que combina a comicidade com uma pitada de ironia.
Eis-nos em pleno século de eletricidade, de máquinas america-
nas, de Alcazar e de notas falsas! A mantilha, a beatice, a ingenui-
dade e o chapéu alto desapareceram completamente nas ondas tem-
pestuosas da moda parisiense. O homem artificial tomou o lugar do
homem da natureza; o figurino sucedeu à criatura, e há hoje quem
duvide até da existência de Adão e do episódio do pecado original.
(Guimarães Júnior, 1987, p.176)
A reincidência dos argumentos utilizados pelos romancistas não parece ser aleatória; como intelectuais bastante atentos à necessi-dade de concorrer para o desenvolvimento da nação e de contribuir com a instrução e moralização da população, nossos romancistas acreditaram que somente o intenso processo de urbanização não seria suficiente para conferir um aspecto civilizado à corte. Havia mais a ser feito pelo melhoramento social e a mulher tinha um im-portante papel a desempenhar nessa tarefa – cabia-lhe, por exem-plo, a função intransferível de gerar descendentes sadios e pruden-tes, observadores dos bons modelos de conduta.
A mulher esteve no centro das atenções em razão, sobretudo, das novas possibilidades sociais que se lhe abriram, possibilidades que alargavam o cenário de sua existência, mas que também exigiam novos modos de controle. Se o acesso das mulheres às ocasiões de lazer representava uma face do processo de modernização, também tornava patente, de acordo com nossos escritores, a inevitabilidade de uma formação moral baseada em princípios mais tradicionais. Do contrário, as moças poderiam ser influenciadas pelo efeito das lisonjas recebidas nos salões ou, mesmo, serem seduzidas por pares mais experientes.
Mas os romancistas não se limitaram à mera exposição dos danos acarretados pela “vida ruidosa e dissoluta das capitais”; preocupavam-se, sobretudo, em indicar as formas para se remediar 96 ELISA MARIA VERONA
as consequências negativas da participação cada vez maior da mu-lher nesses novos espaços sociais. E nesse ponto, foram unânimes em suas opiniões: todos atribuíam à má educação a culpa pelo des-tino infeliz das moças desviantes dos romances. Entenda-se aqui destino infeliz como aquele no qual a mulher deixa, por motivos variados, de constituir família. Ilustram tal unanimidade diversas histórias contadas nos romances, das quais são expressivas as de Laura (Sousa, 1997) e Lúcia (Alencar, 1992). A primeira, com sua lista grande de erros, em que consta desde um rapto até a assassi-natos, acaba por recolher-se a um convento. Seu filho, refletindo sobre a miséria moral da mãe, constata:
Minha mãe tem sido bem criminosa, não o neguemos; é uma
mulher cuja educação foi pouco, ou para melhor dizer, de nenhum
modo curada: de tenra idade perdeu seu pai, e tendo treze anos
abandonou a casa paterna: este crime foi o originário de todos os
seus crimes, que mais tarde deveriam segui-la; este crime com dor
digo, foi do meu desgraçado pai! [...] (Sousa, 1997, p.139)
Emiliano atribui parte da responsabilidade dos delitos de sua mãe aos pais dela, por terem se descuidado de sua educação, mas também ao homem que a seduziu e depois a abandonou. Na con-cepção do moço, a mulher, por ser “fraca”, estaria mais sujeita aos “crimes que nascem de sua fraqueza” e, portanto, caberia ao homem, “sendo mais forte e devendo ser mais pensador”, fazê-la desistir de iniciativas reprováveis, “pintar-lhe todo o horror” das “negras ações” e mostrar-lhe as consequências negativas das atitu-des baixas.
Noutro romance que também explora o tema da vitimização das mulheres pela sociedade corruptora, têm-se o caso de Lúcia, uma mulher privada desde nova da “felicidade daquelas que tem uma família”. A menina teve de arrastar-se “ao mais profundo abismo da depravação” por falta de meios para ajudar a família que se en-contrava doente, mas foi expulsa de casa pelo pai quando este soube da origem do dinheiro. Apesar de tamanha infelicidade, Lúcia con-
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segue preservar os “germes da virtude em seu coração”, o que lhe causa imensa dor e uma vergonha profunda, sentindo-se indigna do homem que amava. Ou seja, se tivesse encontrado outras formas de contornar a situação de sua família e se não vivesse numa sociedade “corruptora” como a do Rio de Janeiro, Lúcia não cairia em estado tão deplorável.
Menos trágica é a história de Aurélia Camargo (Alencar, 1967), que também possuía, antes de ser surpreendida por uma heran-ça inesperada, uma difícil situação financeira. Num dos muitos e ofensivos diálogos que estabelece com Fernando Seixas, seu mari-do, a heroína descreve seu passado nos seguintes termos:
O recato é o mais puro véu de uma senhora. Feliz aquela que
vive à sombra do zelo materno e só a deixa pelo doce abrigo do
amor santificado. Sua virtude tem como esta flor a tez imaculada, e
o perfume vivo. Essa ventura não me tocou; achei-me só no mundo,
sem amparo, sem guia, sem conselho, obrigada a abrir o caminho
da vida, através de um mundo desconhecido. Desde muito cedo
vi-me exposta às suspeitas, às insolências e às vis paixões; habituei-
-me para lutar com essa sociedade, que me aterra, a envolver-me na
minha altivez, desde que não tinha para guardar-me o desvelo de
uma mãe ou de um esposo. (ibidem, p.233)
Aurélia possuía, no entanto, associada ao natural recato, uma perspicácia incomum à maioria das moças e, mesmo enfrentando sozinha muitos perigos, encontrou meios de reestruturar sua vida.
Em oposição a essas três personagens, Laura, Lúcia e Auré-lia – que nasceram em famílias desestruturadas e desprovidas de recursos, e receberam, do ponto de vista dos escritores, uma edu-cação descuidada – encontra-se a caprichosa Eugênia (Assis, 2004), menina de boas posses e centro das atenções do pai, extremamente zeloso. Sua educação, contudo, também deixou a desejar, mas por motivos completamente diferentes dos das três moças anteriores. No caso de Eugênia, foi o excesso de zelo e a complacência paterna que a tornou “caprichosa, rebelde e superficial e frívola”. O “tu-98 ELISA MARIA VERONA
multo exterior da vida” a fascinava: “a modista a desmamou; uma contradança foi a sua primeira comunhão” (ibidem, p.84), comenta com ironia o narrador:
Caprichosa, rebelde, superficial, Eugênia não teve a fortuna de
ver emendados os defeitos; antes foi a educação que lhos deu. Dos
lábios de Camargo nunca saiu uma expressão corretiva; nenhum
de seus atos revelou esse procedimento vigilante e diretor, que é
a nobre atribuição da paternidade. Se a índole da filha fosse má, a
cumplicidade do pai fá-la-ia péssima. (ibidem, p.84)
Outra menina educada de maneira inapropriada com relação aos padrões ideais previstos nos romances foi Lenita, do romance A carne (Ribeiro, 1938, p.10).
Leitura, escrita, gramática, aritmética, álgebra, geometria; geo-
grafia; história, francês, espanhol, natação; equitação; ginástica,
música, em tudo isso Lopes Mattoso exercitou a filha, porque em
tudo era perito: com ela leu os clássicos portugueses, os autores
estrangeiros de melhor nota, e tudo quanto havia de mais seleto na
literatura do tempo.
A menina recebera “instrução acima do vulgar”, mas em razão disto, já com vinte e dois anos, permanecia solteira e não se interes-sava pelos pretendentes, pois achava que não estavam à altura de seus conhecimentos. Esta situação levou Lopes Mattoso a reavaliar seu modo de educar a filha – estava quase convencido de que errara muito, dera-lhe conhecimentos acima da “bitola comum” e acredi-tava que a isso se devia o isolamento de Lenita.
Uma vez conhecidos alguns exemplos de educação que, segun-do nossos romancistas, apresentavam perigosas falhas e os tipos de pais que deixavam de cumprir a “nobre atribuição” de bem edu-car seus filhos, ora pecando pelas faltas, ora pelos excessos, veja-mos, finalmente, quais elementos teriam de compor a “verdadeira educação”.
DA FEMINILIDADE OITOCENTISTA 99
Pai e mãe deveriam, com bastante afeto, ensinar aos filhos, desde criança, as virtudes morais, ou seja, aquelas baseadas na tradição religiosa, tais como, bondade, honra, simplicidade, fidelidade, aus-teridade e gratidão. Também deveriam afastá-lo dos vícios que pu-dessem corrompê-los e dos perigos existentes nos grandes centros urbanos, onde a febre da boêmia proporciona alegrias efêmeras, mas logo arrasta o indivíduo para a desordem. Especialmente na menina, deveriam incentivar a meiguice e o recato, características extremamente vinculadas, nas páginas dos romances, à feminilida-de. Força e fraqueza, inteligência e beleza, dignidade e inocência, carreira pública e prendas domésticas, muitos são os polos utili-zados pelos escritores para contrapor o masculino ao feminino. E como os homens estão mais próximos da razão e as mulheres da emoção, era mister que recebessem educação diferenciada. Tal dis-tinção é explorada com minúcia por Aluísio Azevedo, no romance Livro de uma sogra. Ao recordar-se de seus dezoito anos, idade com que se casara, a personagem Olímpia resume da seguinte forma as qualidades apresentadas por seu marido e por ela própria, qua-lidades essas que a seu ver são suficientes para constituir um par “simétrico” e assegurar um casamento “equilibrado”.
Éramos ambos de boa família, ambos muito bem relacionados,
ambos sadios, ambos até bonitos. Ele – médico, inteligente, traba-
lhador, conservando intacto um patrimônio de quarenta contos,
que herdara ainda criança; gênio feliz, costumes irrepreensíveis,
nada de vícios perigosos e nada de paixões de qualquer gênero [...].
Eu, pelo meu lado, inocente e pura, educada sob os mais auste-
ros exemplos da moral e virtude, tendo feito minha aprendizagem
doméstica sem prejuízo dos meus pequenos dotes sociais; sabendo
coser, como sabendo bordar; dirigir o serviço dos criados, gover-
nar uma casa, como sabendo tocar piano, receber visitas e dançar
uma valsa; e mais: tinha boa ortografia, alguma leitura, que não era
composta só de maus romances, um pouco de francês, um pouco de
inglês, um pouco de desenho, sessenta contos de dote, princípios
religiosos bem regulados, caráter sereno, temperamento garantido 100 ELISA MARIA VERONA
por hereditariedade natural, seguros hábitos de asseio, alinho gosto
no vestir [...]. Eis como nós éramos os dois. E eu – meiga e delicada;
e meu marido – extremoso e forte. (Azevedo, 1973, p.23)
Olímpia ainda completa, mais adiante, que “justamente dessa desigualdade”, “desse contraste de aptidões físicas e morais”, da “variedade de competências” derivava a harmonia do casal. A igualdade entre ambos poderia ser “bonita” se não fosse “impossí-vel” e “inconveniente” (ibidem, p.48).
Em poucas palavras, homem e mulher deveriam ser preparados para o desempenho de suas respectivas funções sociais, dentre as quais o casamento, seguido necessariamente da procriação, repre-sentava a principal realização na vida de ambos. Enquanto não che-gava à idade de se casar, enquanto não se transformava em “esposa, para cuidar na constância de seu marido”, enquanto não era mãe, “para entregar-se toda inteira ao cuidado de seus filhos”, a menina podia pensar nos vestidos de suas bonecas, no romance que estava lendo, na música que pretendia cantar no próximo sarau ou nos enfeites para o próximo baile. Mas, chegado o momento adequado, teria de entregar-se a seu esposo e dedicar-se à felicidade conjugal e à educação de seus filhos – “convinha não passar dos vinte anos” (Azevedo, s. d., p.54.) alerta Dr. Lobão, no romance O homem, por-que “o útero, conforme Platão, é uma besta que quer a todo custo conceber no momento oportuno; se lho não permitem – dana!” (ibidem, p.98).
Menos fisiológico e mais “sociológico” foram os comentários acerca do solteirismo de Mariana. Tinha 24 anos e “ainda” estava sem marido; “coitada!”, diziam alguns, “é preciso cuidares de ca-sar-te, estás te fazendo velha!”, diziam outros (Macedo, s.d., p.28). No romance A normalista, o narrador exclama sobre a personagem Lídia Campelo, a poucos dias de se casar: “A Campelinho não cabia em si de contentamento; pudera! Ia enfim ver-se livre do perigo de ficar para tia” (Caminha, 1998, p.141). A mãe de Aurélia Camargo, igualmente, incomodava-se com a reclusão da filha e nessas oca-siões sempre dizia: “O que me aflige é não ver-te casada” (Alencar,
DA FEMINILIDADE OITOCENTISTA 101
1967, p.90). O desenvolvimento pleno da sociedade, segundo a lógica dos romancistas, dependeria da difusão e do reconhecimento dos valores da família, calcada nos sólidos preceitos matrimoniais. “É loucura quebrar de chofre o que é produto de uma evolução de milhares de séculos. A sociedade tem razão: ela assenta sobre a família, e a família assenta sobre o casamento”, assevera o narrador do romance A carne (Ribeiro, 1938, p.245). Por isso as “solteiro-nas” não eram vistas com bons olhos e por isso também se criticava os rapazes dados à vida ruidosa e suas “aventuras picantes” – afinal, nada, segundo os romances, poderia ser mais reconfortante que o doce aconchego doméstico.
É justamente essa conclusão a que chegou o personagem Gre-gório, no romance Girândola de amores, depois de comparar dois ritmos de vida opostos – o do casado e o do celibatário – e de consi-derar os prazeres proporcionados por cada um deles:
Comparai os dois sentidos. De um lado o desafeiçoado pân-
dego, que vive au jour le jour, comprando fôlego a fôlego a sua vida
inútil e egoísta; de outro lado o trabalhador modesto, que mou-
reja durante o dia para prover a subsistência da mulher que ama
e dos filhinhos que à noite o esperam. Um vai aos teatros, bebe,
ri, galanteia as mulheres, mas volta para a cama do hotel em que
mora ou da amante que lhe pertence na ocasião, com o corpo can-
sado e gasto e a alma desconfortada e fria. Tudo lhe causa aborre-
cimento, tudo o enche de tédio: os amigos, os prazeres e o próprio
vício. [...] Enquanto o outro, o burro de carga, aquele que durante
o dia, em vez de gastar, ganhou; aquele que devia ao chegar à noite
sentir-se cansado e indisposto, esse entra em casa quase sempre
cantarolando e sempre sorrindo; abraça a mulher, beija os filhos,
afaga o cão, dá uma vista de olhos pelo jardim e assenta-se ao lado
dos seus para cear, feliz, confortado, fortalecido pela dignidade do
seu esforço, abençoado por aqueles que vivem de sua atividade
e do seu amor, e afinal deita-se a dormir, tranquilamente, com o
coração despreocupado, o sangue fresco e a consciência lisonjeada.
(Azevedo, 1960, p.41)
102 ELISA MARIA VERONA
Note-se que toda exposição procura enfocar os prazeres munda-nos por seu aspecto passageiro, ilusório e degradante, e a vida respon-sável em família por seus benefícios e recompensas – todas as consi-derações pesam a favor do casamento e da geração de descendentes.
Convém observar que, mesmo depois de casados, o casal deveria continuar respeitando as convenções conjugais, cooperando, dessa forma, para a felicidade da família. E nesse sentido os romancistas demarcaram com bastante precisão as obrigações de cada um para a harmonia doméstica. É a sogra Olímpia quem novamente nos fala de alguns requisitos esperados do “bom marido”:
Ter ou obter meios para a regulada subsistência familiar; não
perturbar nunca a paz burguesa do lar; atrair a casa, de vez em
quando, amigos sérios e respeitadores dos princípios estabeleci-
dos; promover partidas de dança, em que a mulher se divirta, em
que as filhas, se já estiverem desenvolvidas, possam namorar para
obter marido; não faltar nunca ao lado da esposa com o provimento
sexual de que ela, conforme o seu temperamento, careça para o
seu bem estar e perfeita sinergia do organismo; [...] E mais: o bom
marido deve recolher-se à casa sempre cedo; não sair para o passeio
ou para o teatro sem levar a família; evitar a convivência mundana
com todo o indivíduo que for popular e apontado a dedo. (Azevedo,
1973, p.49)
Além disso, a empenhada sogra ainda acrescenta que os atos e ações do “bom marido” devem ser tão constantes como um pêndu-lo de relógio – “Da casa para o trabalho, do trabalho para casa” – e a maior recompensa por toda essa dedicação encontraria o “bom marido” na felicidade de ser pai.
Enquanto ao homem cabia o papel de provedor, a mulher devia ocupar-se dos misteres domésticos, dirigindo corretamente seus criados, dedicando-se ao aperfeiçoamento de suas prendas e, quan-do mãe, zelando pela educação da criança. Também não podia se es-quecer de agradar a seu esposo, pois, mesmo depois que “o pássaro já está preso” (Macedo, s.d., p.230), ele poderia desinteressar-se e
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“voar”. Portanto, convinha tomar certos cuidados, como não apare-cer desarrumada na frente do marido, com os “cabelos desgrenha-dos” e os “pés nus”, não abandonar o piano e as leituras que “de-leitam o coração” e, muito menos, tratá-lo com mau humor quando ele chegar do trabalho. Devia, em suma, utilizar-se dos mesmos meios para segurar o marido de que se valera quando era solteira.
[...] quando de manhã aparecer-lhe, apareça-lhe penteada, vestida
com simplicidade, mas sem negligência, com seu vestido aper-
tado, fresca, louçã e bela, que, ou me engano muito, ou ganhará um
abraço de seu esposo; gostava ele de ouvi-la cantar?... pois cante
ainda, e cada vez mais aprimore a sua voz. Dava-lhe prazer o piano?
a harpa? ... pois estude novas músicas, e em relação com o gosto do
homem que ama; e converse com ele como antes, meiga e pudi-
bunda, e ao mesmo tempo amorosa; e, finalmente, sem deixar-se
cair no ridículo, obrigue a seu marido a ser ainda seu namorado [...].
(ibidem, p.232)
Como se vê, receitas para o sucesso matrimonial é o que não faltam. Cada escritor encontrou o seu modo de reforçar essa ins-tituição social chamada casamento, abordando-a sempre por suas vantagens. O “casamento é a base de toda sociedade civilizada”, é a mais “nobre de todas as instituições” (Caminha, 1998, p.102). O celibato é, frequentemente, caracterizado por seus incontáveis prejuízos e frustrações, que vão desde o estar só até, no caso das mulheres, a uma doença nervosa, como aconteceu com Magda, protagonista do romance O homem – desde que se convencera da impossibilidade de casar-se com Fernando, a menina adoece pro-gressivamente até que seu quadro de febres, crises nervosas e letar-gia acaba por desencadear a histeria. Na opinião de Dr. Lobão, que acompanhou o caso da pobre enferma, o casamento poderia ajudar a restabelecer o equilíbrio de certos órgãos, que, exacerbados, alte-rariam fatalmente o sistema psíquico da moça. Lobão, porém, acre-ditava que a doença pudesse ter outras causas além da abstinência sexual e expõe a controvérsia em relação à sede dessa disfunção: no 104 ELISA MARIA VERONA
encéfalo ou no útero. Reafirma, no entanto, que no caso de Magda, convinha arranjar-lhe logo um marido que ajudasse a contornar sua “perigosa exaltação nervosa”.
Independentemente da discussão acerca da sede da histeria, a doença não deixou de ser associada, tanto pelos textos médicos, quanto pelos romances, quase exclusivamente a mulheres, aju-dando a reforçar a noção de que a fraqueza e a susceptibilidade seriam caracteres praticamente intrínsecos ao sexo feminino. Le-gitimava-se, também, dessa forma, a ideia de que o casamento, se é importante para o homem, é indispensável para a mulher, pela necessidade que ela tem da proteção desse “ente superior” que toma por marido, que lhe dá “firme garantia à sua fraqueza e ao seu pudor” (Azevedo, 1973, p.44). É Joaquim Manoel de Macedo (1981, p.164) quem explica:
Primeiro felizmente adormecida no doce cativeiro de seus pais,
acorda com um gemido para passar ao de seu tutor, ou se sorri,
recebendo as cadeias que lhe lança seu marido, sujeita desde que
nasce... sujeita até que morre, tem sempre ao pé de si um homem
para pensar, e desejar por ela; para pelo prazer dele medir o seu... é
uma criança, que sempre se vigia... um cego, que se leva pela mão;
ou, ao muito, quando consegue ser amada, uma escrava, que se
prende em um altar, uma divindade que se tem em ferros, e a quem
se dá o nome de senhora!
No romance O mulato (Azevedo, 1975, p.124), encontramos outra reflexão bastante semelhante:
E cismava: “Sim, precisava casar, fazer família, ter um marido,
um homem só dela, que a amasse vigorosamente!” E via-se dona
de casa, com o molho de chaves na cintura – a ralhar, a zelar pelos
interesses do casal, cheia de obrigações, a evitar o que contrariasse
o esposo, a dar as suas ordens para que ele encontrasse o jantar
pronto. E queria fazer-lhe todas as vontades, todos os caprichos –
tornar-se passiva, servi-lo como uma escrava amorosa, dócil, fraca,
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que confessa sua fraqueza, seus medos, sua covardia, satisfeita de
achar-se inferior ao seu homem, feliz por não poder dispensá-lo.
Sujeita, passiva, dócil, fraca, criança, escrava – adjetivos signifi-
cativos para encerrar um modo de ser mulher ou uma concepção de feminino que correspondesse às expectativas sociais determinadas pelos próprios romances – casar e ter filhos. Deitado o “anzol no mar” e fisgado o “peixinho” (Macedo, 1981, p.27), era preciso que tivesse um “bom útero”, “que é tudo na mulher: equivale a um bom cérebro!” (Caminha, 1998, p.307). Ela poderia, então, além de ser a esposa fiel, cheia de virtudes domésticas, completar sua maior mis-são, a de ser mãe. “A grande missão de mulher é a maternidade [...] Uma mãe em regra geral, sabe amar muito, e só cura de seu amor; vive de beijar, de contemplar seu filho” (Macedo, s.d., p.166).
Abundantes são as passagens que exploram a relação entre a mulher e a procriação, todas elas apresentando pontos de vista bas-tante semelhantes. Seja de maneira mais “romanceada”, como em Joaquim Manoel de Macedo, ou de forma mais “objetiva”, como em Aluísio Azevedo, a mulher foi insistentemente vinculada a sua função reprodutiva, e todos os seus interesses deveriam ser canali-zados para o bom exercício dessa missão, missão, aliás, legitimada pelos autores como um destino imposto pelas leis naturais, como se pode perceber na reação da personagem Ana Rosa, do romance O mulato (Azevedo, 1975, p.123), ao abrir um tratado de fisiologia e observar a gravura de uma mulher no momento do parto.
Todo o ser se lhe revolucionou; o sangue gritava-lhe, recla-
mando o pão do amor; seu organismo inteiro protestava irritado
contra a ociosidade. E ela então sentiu bem nítida a responsabili-
dade dos seus deveres de mulher perante a natureza, compreendeu
o seu destino de ternura e sacrifícios, percebeu que viera ao mundo
ser mãe; concluiu que a própria natureza lhe impunha, como lei
indefectível, a missão sagrada de procriar muitos filhos, sãos, boni-
tos, alimentados com seu leite, que seria bom e abundante, e que
faria deles um punhado de homens inteligentes e fortes.
106 ELISA MARIA VERONA
Maternidade, casamento, inferioridade feminina etc., foram temas bastante explorados pela prosa de ficção do Oitocentos, ou melhor, foram temas praticamente obrigatórios nas tramas que tinham como pano de fundo o cenário urbano. Formulando frases bastante parecidas quanto à “natureza” da mulher, os romancis-tas contribuíram para que a figura feminina correspondesse, pelo menos em suas histórias, a um determinado padrão muito bem de-finido: fraca, sensível, esposa e mãe, foram quase nulas as variantes desse conjunto.
Associada a essa pintura detalhada do tipo feminino, os roman-ces também veicularam inúmeras lições morais, preocupados que estavam os prosadores oitocentistas com a instrução de suas “amá-veis leitoras”. Ainda “não tínhamos compreendido o importante papel da mulher na civilização” (Caminha, 1998, p.312), nossa “educação doméstica” continua “detestável” e “nossos costumes” são de um “povo analfabeto”, tais sentenças, comuns aos romances do Oitocentos, explicam porque os escritores brasileiros adotaram, ao longo do século XIX, uma espécie de compromisso com a edu-cação feminina.
A afirmação de valores morais, de forma mais ou menos explí-cita, foi “pedra de toque” em todas as histórias. De simples indi-cações literárias a grandes exemplos de virtude, a prosa de ficção oitocentista é sempre recheada de “nobres ensinamentos”, ainda quando descreve acontecimentos imorais e criminosos – a descri-ções dessa ordem seguiam, invariavelmente, reflexões instrutivas e bem ponderadas sobre as causas e as consequências de tal ou qual incidente. Dessa maneira procede Teixeira e Sousa, por exemplo, em seu romance O filho do pescador (Souza, 1997, p.57), ao longo do qual o autor menciona, repetidas vezes, sua preocupação em escre-ver uma “história moral”, mesmo descrevendo crimes e adultérios:
No meio dos mais horrorosos crimes há sempre um lado de
moralidade; conhecê-la esta em estudá-los. Estudemos, pois, os
crimes, não em si próprios, mas em seus resultados e em sua ori-
gem; então um véu rasgar-se-á diante de nossos olhos, e esse cubo
DA FEMINILIDADE OITOCENTISTA 107
apresentara ao nosso exame uma face bem diversa daquela que
antes observávamos. No fim de tudo, notemos que os prêmios e
castigos andam sempre de envolta com os bens e com os males.
Enquanto alguns escritores optavam por abolir as reticências que, convencionalmente, se sobrepunham à narração de situações indecorosas, outros eram bem mais cautelosos na exposição de cir-cunstâncias imorais. José de Alencar preferiu arriscar-se à descrição literal de uma “ocasião difícil” a lançar ali alguns pontos, que, a seu ver, só iriam “aguçar a curiosidade” do leitor. “Com efeito, a reticência não é a hipocrisia do livro, como a hipocrisia não é a reticência da sociedade?” (Alencar, 1992, p.39), questiona a certa altura de sua explanação. Descer a crueza dos fatos significava, para o autor, demonstrar o quanto a decência pública havia sido omissa e o quanto a moral literária também havia se esquivado de encarar algumas questões delicadas da sociedade fluminense. Por isso, opta por retratar a vida da prostituta Lúcia em seus aspectos mais repro-váveis, desdobrando, sobretudo, as razões que levaram a persona-gem a uma condição tão torpe. E Alencar o faz com a consciência tranquila, como denota o uso da seguinte metáfora: “A borboleta esvoaça sem pousar entre as flores venenosas, por mais brilhantes que sejam; e procura o pólen no cálice da violeta e de outras plantas humildes e rasteiras. O espírito da moça é a borboleta; o seu instinto a castidade” (ibidem, p.39). Era preciso, pois, na visão do autor, conhecer a “flor venenosa” para saber distingui-la das outras – a menina resguardada em sua pureza jamais seria tocada por exem-plos reprováveis, que só serviriam para “fixar” ainda melhor em seu coração as belas virtudes e suas nobres recompensas.
Utilizando também a alegoria do veneno camuflado sob a apa-rência de bonitas flores, Joaquim Manuel de Macedo aborda a ques-tão do suicídio, em romance que tenta chamar atenção para a falta de uma bem dosada educação religiosa na formação da mocidade de ambos os sexos. O veneno das flores conta a história de Juliana, me-nina que “foi o que a educação a tinha feito” – caprichosa, altiva, te-merária e vaidosa – e que tudo esperava do mundo e nada esperava 108 ELISA MARIA VERONA
do céu. Desde muito nova seus pais não lhe remediaram os defeitos, antes, contribuíram para acentuá-los; moça feita, “as sociedades abriram em par suas portas” e Juliana tomou gosto em ver-se incen-sada e adorada, em estar sempre cercada por lisonjeiros e submissos cortesãos e em sempre triunfar diante de suas rivais. É então que conhece Jorge de Almeida, moço acostumado à vida tumultuosa e desregrada, e apaixona-se. Daí por diante segue o desfecho previ-sível: Jorge de Almeida, incapaz de respeitar a família que o recebe e a honra da mulher pura que o ama, seduz Juliana, abandona-a e casa-se com outra; Juliana, grávida, fica exposta à vergonha pública e, não suportando destino tão infeliz, mata-se. Pedagogicamente exemplar é o trecho do romance no qual o narrador expõe o repúdio social sofrido pela personagem após sua desonra:
As sociedades a enxotavam do seu meio com a injúria, que nem
mais procuravam disfarçar.
Os pais e as mães tinham recomendado às suas filhas que fugis-
sem da companhia de Juliana.
Os mancebos atreviam-se a olhá-la de um modo que equivalia
a um insulto.
E a infeliz recuara diante dessa manifestação terrível e não tor-
nando mais a aparecer no mundo das festas e dos prazeres, escondia
a sua vergonha no interior do lar doméstico.
Juliana recebia o castigo de uma grave falta. Uma sociedade
moralizada, que se respeita e que se estima, não pode receber a
mulher que se deixou seduzir, pondo-a em contato com as donzelas
e com as senhoras honestas, cercando-as dos mesmos respeitos. A
distinção entre umas e outras é o justo prêmio devido à virtude.
(Macedo, 1945, p.519)
Discussões menos embaraçosas, mas igualmente morais, foram estabelecidas por outros livros. Se nos romances O filho do pesca-dor, Lucíola e O veneno das flores toca-se em questões censuráveis socialmente – homicídio, adultério, prostituição e suicídio –, outros não deixam de prestar importante contributo ao mapeamento de
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certos desvios de conduta que, se não acarretam consequências tão graves, são igualmente reprováveis: “dos mais simples casos se pode recolher lição”, lembra Macedo (s.d., p.8). Mentira, infâmia, interesse, falsidade, chantagem, são somente alguns dos perigo-sos vícios apresentados pelas peripécias romanescas, por meio de personagens menos atentos aos bons modelos de comportamento, personagens que, todavia, sempre recebiam a devida punição por seus erros.
Não há véu bastante denso para esconder de todo os delitos.
Tarde ou cedo... tudo se descobre; e muitas vezes um homem que
cometeu um crime abominável, e que se julga impune, porque
acredita que todos ignoram a ação nefanda que praticou, vai pas-
sando pela multidão com a cabeça levantada, sem saber que outro
está apontando para ele e dizendo: “Ali vai um malvado!” (Macedo,
s.d., p.370)
Ainda quando uma falta permanecesse em sigilo e não fosse submetida à reprovação pública, havia que se temer a punição divina, pois a essa, sim, nunca se pode escapar: “O juiz severo, justo e onipotente castiga lá... Em sua infinita sabedoria – ele sabe como. – Nós, míseros insetos diante dele, não podemos compreen-der esse castigar da onipotência” (ibidem, p.360).
Idealizadores de uma sociedade “civilizada”, os prosadores oi-tocentistas não pouparam esforços nesse projeto de moralização dos habitantes, corroborado por parte substantiva da elite letrada: fizeram de seus romances verdadeiros repositórios de papéis sociais e modelos de conduta esperados para os indivíduos. Esperavam, enfim, concorrer para a difícil tarefa de instruir a população, incu-tir-lhe hábitos ordeiros e dóceis, para que se consumasse a constru-ção de um Estado calcado em sólidos preceitos morais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Jornalistas, médicos, literatos, vimos, ao menos em parte, no de-correr dos quatro capítulos desse livro, como cada um desses mem-bros da elite letrada brasileira buscou, no decorrer do século XIX, contribuir para a tarefa de propagar a ilustração e, consequente-mente, cooperar na difusão de princípios morais. A crença de que a instrução constitui elemento vital nas sociedades modernas e é con-dição primeira de qualquer progresso marcou o pensamento desses intelectuais, que também pretendiam, por meio de suas atuações, concorrer para a diminuição dos vícios e para a propagação das virtudes entre a população. A mulher esteve no centro das atenções desses escritores; sobretudo, em função dessa preocupação com a moralização dos indivíduos, ou seja, enquanto primeira mestra do homem a mulher deveria possuir condições mínimas para propor-cionar a seus filhos uma formação baseada em bons princípios.
À primeira vista, os gêneros documentais abordados pode-riam parecer de ordem muito diversa e, até mesmo, incompatíveis, porém, a análise destes indicou o quão semelhantes eram em seus propósitos e argumentos.
Na avaliação das consequências da urbanização sob os hábitos femininos, por exemplo, textos médicos, jornalísticos e literários tentaram enfatizar que, se o acesso das mulheres aos novos círculos 112 ELISA MARIA VERONA
de sociabilidade não fosse muito bem controlado, poderia se tornar um empecilho à realização de suas principais missões: o casamento e a maternidade. Levada pelo “turbilhão dos festins arrebatado-res”, arrastada pelas “ondas tempestuosas da moda parisiense”, a mulher estaria mais sujeita às armadilhas dos prazeres mundanos. A vida em sociedade poderia, inclusive, prejudicar o temperamento das donzelas, excitando seu sistema nervoso, de acordo com os mé-dicos, tornando-as mais instáveis, segundo os romances. A mulher fora do lar era, conforme uma das metáforas utilizadas, como a rosa tirada da roseira, logo perderia a frescura e a beleza vistosa.
Acerca dos paradigmas de feminilidade, o padrão frágil, sen-sível, intelectualmente inferior foi o que prevaleceu, tanto nos trabalhos acadêmicos, quanto nos romances. Tiranizada por sua sensibilidade, demandando sempre os cuidados de um protetor, as mulheres foram descritas, científica ou romanescamente – se é que há efetivamente diferença – como seres passivos.
Outro tópico praticamente obrigatório na documentação con-sultada foi o referente à educação. Muitos foram os aspectos abor-dados dessa temática. Primeiramente, os textos enfocavam a im-portância de se cuidar da educação de ambos os sexos, oferecendo alguns modelos e apresentando condutas a serem incentivadas. Em seguida, refletiam sobre a função educadora da mulher e sobre a importância do bom desempenho dessa função para o progresso so-cial. Quanto à educação feminina, recomendavam certa prudência nos estímulos intelectuais – os excessos desses estímulos poderiam concorrer para o desajuste social das moças e, até mesmo, para uma disfunção nervosa.
Acerca da instituição casamento, esses letrados também mani-festaram as mesmas opiniões – o celibato era sempre descrito por seus diversos prejuízos e a vida em família por suas imensuráveis vantagens. A união pelo matrimônio, assim como a boa educação, representavam, na ótica oitocentista, meios profiláticos na inibição da desordem e dos vícios.
Mas, fixada a norma, literatos e médicos não se esqueceram de demarcar, com bastante precisão, alguns desvios, seguidos de seus
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prováveis danos. Nos textos médicos, tudo que fugia ao padrão comportamental previamente estipulado era associado a algum tipo de patologia – vimos, por exemplo, os recursos utilizados pela medicina mental na definição de novas estratégias de controle. Já nos romances produzidos no século XIX, textos nos quais preva-lecem os enredos morais e cujos personagens podem ser divididos, basicamente, em dois grupos – os modelares e os desviantes –, os vícios sociais sempre recebiam a devida sentença: para a virtude, a recompensa, para os crimes, o castigo.
Na verdade, médicos e literatos, guardadas as devidas singulari-dades de suas profissões, foram agentes sociais empenhados numa missão comum – seja em nome da saúde, seja em nome do bem estar público, tentavam demonstrar o que se paga por transgredir a norma. Loucos nos hospícios; leituras licenciosas, censuradas; histéricas, prostitutas, “desonradas”, fadadas à infelicidade. Trata-mento para os desvios e punição para os delitos, “é como se as fanta-sias de carcereiro e verdugos tivessem guiado, até agora, a educação do gênero humano” (Nietzsche, 1974, p.169).