Da feminilidade oitocentista

Elisa Maria Verona · Capítulo 4 de 8

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Da feminilidade oitocentista

Parte II

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PARADIGMAS DO ROMANCE BRASILEIRO

NO SÉCULO XIX E PROIBIÇÕES EM TORNO

DE SUA LEITURA

 

De todas as formas várias as mais cultivadas

atualmente no Brasil são o romance e a poesia

lírica; a mais apreciada é o romance, como aliás

acontece em toda parte, creio eu. [...] Não se fa-

zem aqui livros de filosofia, de linguística, de

crítica histórica, de alta política, e outros assim,

que em alheios países acham fácil acolhimento e

boa extração; raras são aqui essas obras e escasso

o mercado delas. O romance pode-se dizer que

domina quase exclusivamente. Não há nisto mo-

tivo de admiração nem de censura, tratando-se

de um país que apenas entra na primeira moci-

dade, e esta ainda não nutrida de sólidos estudos.

Isto não é de desmerecer o romance, obra d’arte

como qualquer outra, e que exige da parte do es-

critor qualidades de boa nota.

(O Novo Mundo, Nova York, 1873 in Assis,

1955, p.136)

Antes mesmo que os literatos nacionais se lançassem à escrita do romance genuinamente brasileiro, a prosa de ficção já se valia de alguns meios de divulgação e de um conjunto, ainda que parco, de leitores. Nomes como os de Lesage, Chateaubriand, Defoe, Fielding, 66 ELISA MARIA VERONA

já constavam em anúncios da Gazeta do Rio de Janeiro desde iní-cios do século XIX, prática essa que se intensificou após a década de 20, sobretudo em função do decreto de 28 de agosto de 1821, o qual determinou o fim da censura. Até essa data, o controle sobre a circulação de impressos era exercido pela Mesa do Desembargo do Paço, a qual cabia zelar pela religião, moral e bons costumes. Obras que representassem uma ameaça à tranquilidade pública deveriam ser vetadas.

No entanto, apesar do esforço português para conter a dissemi-nação de obras consideradas “perigosas”, elas podiam ser encon-tradas em bibliotecas brasileiras desde meados do século XVIII, principalmente em razão da vigilância ineficaz dos funcionários das alfândegas. Dentre essas obras, achavam-se também roman-ces, os quais certamente contribuíram para a propagação de ideias que colocavam em causa, simultaneamente, princípios de ordem religiosa e política. No levantamento de romances remetidos de Portugal para o Brasil, entre 1769 e 1815, organizado por Luiz Carlos Villalta,1 constam obras como As aventuras de Telêmaco, de Fénelon, D. Quixote de La Mancha, de Cervantes, Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, Histoire de Gil Blás, de Lesage, Pamella Andrews, de Richardson, entre outras. Muito provavelmente todas elas foram submetidas à apreciação dos censores lusitanos – para fins de im-pressão, comercialização ou exportação.

Além do comércio ultramarino, a instalação da Impressão Régia no Rio de Janeiro, logo depois do desembarque da corte lusitana, também prestou um importante papel na difusão do romance em terras brasileiras. Na verdade, não se trata de romances no sentido que atribuímos hoje ao termo, mas de pequenas novelas, contos morais ou versões resumidas de obras francesas e inglesas. Esses livros geralmente curtos, em alguns casos simples folhetos, con-

1 Para organizar esse levantamento, o autor consultou listas de livros submeti-

dos a exame pelos tribunais censórios portugueses. Essas listas, como pontua o autor, revelam apenas uma parte da circulação livreira, ou seja, a que se realizou de forma legal e cujos registros foram preservados. Cf. Villalta, 2005, 161-81.

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tavam histórias de amor e de sofrimento quase sempre finalizadas com a punição do vilão, seguida de uma advertência, implícita ou explícita, de ordem moral. São exemplos dessas publicações: O diabo coxo, A filósofa por amor, A choupana índia, História de dois amantes, Paulo e Virgínia, O amor ofendido, entre outras; em mui-tos casos, o intento pedagógico dessas obras é explicitado logo de início, em seus prefácios – vejamos três exemplos que elucidam esse ponto. Em Paulo e Virgínia (1811, s.p.), o autor expressa da seguinte forma seus propósitos:

Nesta pequena obra propus-me grandes desígnios. [...] O meu

intento era combinar com a beleza da natureza entre os trópicos, a

beleza moral de uma pequena sociedade. Propus-me igualmente

patentear com toda a evidência algumas grandes verdades, e entre

outras a seguinte: que a nossa felicidade está em viver segundo a

natureza e a virtude.

A novela O combate das paixões (1816, p.A9) é antecedida por explicação semelhante à contida em Paulo e Virgínia:

A história de Olímpia, inda que breve, contém em si muita

moral; porque sem ofender a honestidade, o que é raro nas obras

desse gênero, pinta com viveza os desatinos de que é capaz o cora-

ção humano, quando as paixões enfurecidas transcendem os limites

da razão.

O autor de A filósofa por amor (1811, p.3-5) prolonga-se um pouco mais na exposição das “utilidades” da prosa ficcional, e é mais categórico na reflexão acerca dos “deveres” a serem observa-dos pelos escritores – acompanhemos:

Acha-se tão geralmente espalhado o gosto das novelas, que este

gênero de obra chegou a ser uma espécie necessária, e os autores

contraíram para com o público a obrigação de diverti-lo com esta

classe de produção, e renová-la com frequência. [...] No número 68 ELISA MARIA VERONA

dessas obras há, não obstante, algumas que contém uma moral

excelente, e das quais se pode tirar toda a utilidade possível. [...]

Sem embargo, há novelas imorais [...] – mas não se deve pronun-

ciar anátema contra todas as novelas; há algumas que merecem de

ser lidas, porque são úteis aos leitores. Pintar aos costumes, fazer

amar os bons e aborrecer os maus é o dever de um escritor. Infeliz

daquele que o não cumpre.

Virtude, moral, utilidade, dever, já eram questões caras à prosa

europeia, passaram também a ter grande peso no processo de apro-priação de modelos executado por nossos primeiros ficcionistas.

Entre esse momento inicial da prosa de ficção no Brasil e a pu-blicação das bem acolhidas obras de Machado de Assis, Aluísio de Azevedo ou Júlia Lopes de Almeida, nas últimas décadas do Oitocentos, assistiu-se ao desenvolvimento de um “romance brasi-leiro”, que passou a contar com uma produção praticamente inin-terrupta de obras e com um grupo coeso e renovável de escritores, reunidos em torno de alguns propósitos partilhados por boa parte dos letrados do período.

Nos capítulos anteriores, vimos como tais propósitos foram vei-culados por periódicos e por trabalhos acadêmicos produzidos pela corporação médica, documentos que, guardadas suas singularida-des, ajudaram a delinear desde modelos de condutas para a mulher até modelos de instituições sociais para o país – questões que, na verdade, se entrecruzavam. Tais propósitos também motivaram inúmeras iniciativas socioculturais, algumas já mencionadas, como a ampliação do sistema educacional ou do número de livreiros. Em meados do século, o Rio já apresentava um traço mais requintado e também podia oferecer a seus moradores e visitantes, amantes das letras, variadas opções de acesso aos artigos impressos. Gabi-netes de leitura, livreiros, associações, saraus literários, imprensa periódica, são inúmeros os fatores que propiciaram o alargamento da produção e consumo dos conteúdos impressos e contribuíram decisivamente para uma maior familiaridade dos cariocas com a cultura letrada. Fatores esses que também estimularam os litera-

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tos nacionais a escreverem suas primeiras linhas na ficção, já que agora podiam contar com mecanismos de divulgação para suas obras e com uma recepção, mesmo que rala, da crítica e do público. Destaque-se nesse processo de formação da prosa de ficção no país o papel desempenhado pela imprensa. Foi ela a grande aliada da prosa de ficção neste período, divulgando anúncios de lançamentos de livros, críticas e, até mesmo, textos romanescos propriamente ditos, romances de folhetim, que ganharam um espaço reservado nos rodapés dos jornais.

Inúmeras são as condições que fizeram do romance um gênero tão apreciado e que o levaram a dominar quase exclusivamente a cena cultural brasileira durante o século XIX. Tamanha repercussão não pode, porém, ser atribuída somente aos variados mecanismos de divulgação que o gênero desfrutou no período. A ideia de missão que orientou os escritores brasileiros – senso de dever a partir do qual se delinearam alguns preceitos literários para o gênero que garantiram sua ampla aceitação – tem, sem dúvida, uma palavra a dizer nesse processo de consagração. Tal como detectamos entre a classe política, entre os periodistas e entre os médicos, também entre os literatos a preocupação em contribuir para o desenvolvi-mento da nação, para a construção de uma civilização e, sobretudo, para a instrução dos habitantes marcou forte presença.

Tais grupos, cada um a sua maneira, partilharam princípios comuns que conduziram suas atuações, daí a existência de um projeto literário que coincide com os desejos de engrandecimento moral da população e articula-se à busca pelo progresso científico e industrial, ao desejo de instaurar no país instituições sociais mais modernas e às discussões em torno da introdução de reformas po-líticas mais ou menos liberalizantes. Para os letrados do período, a literatura era tida como um indicador fundamental do estágio de determinada sociedade, como salienta o precursor do romantismo brasileiro, Gonçalves de Magalhães (in Coutinho, 1974, p.12), em 1836, em seu conhecido artigo Discurso sobre a história da literatura no Brasil, publicado pela Niterói, Revista Brasiliense: 70 ELISA MARIA VERONA

A literatura de um povo é o desenvolvimento do que ele tem de

mais sublime nas ideias, de mais filosófico no pensamento, de mais

heroico na moral, e de mais belo na natureza; é o quadro animado de

suas virtudes e de suas paixões, o despertador de sua glória e o reflexo

progressivo de sua inteligência; e quando esse povo, ou essa geração,

desaparece da superfície da terra com todas com todas as suas insti-

tuições, crenças e costumes, escapa a literatura aos rigores do tempo

para anunciar ‘as gerações futuras qual fora o caráter e a importância

do povo, do qual é ela o único representante na posteridade.

Daí o esforço de nossos primeiros românticos no sentido de inventar uma tradição literária, de indicar origens, estabelecer pres-supostos e oferecer modelos que pudessem orientar a escrita au-tenticamente brasileira. Aliás, o critério da nacionalidade pode ser considerado o mais relevante para a literatura do século XIX – bus-cava-se no campo das letras a emancipação que já fora conquistada no campo político. O pontapé fundamental para essa tomada de consciência havia sido dado pelo denominado grupo fluminense e sua respectiva publicação Niterói, Revista Brasiliense de Ciências, Letras e Artes, de 1836. Gonçalves de Magalhães, Araújo Porto Alegre, Pereira da Silva e Torres Homem podem ser considerados os principais teorizadores das transformações em curso na lite-ratura brasileira, seguidos por Santiago Nunes Ribeiro, Joaquim Norberto de Sousa e Silva, José de Alencar, Machado de Assis e outros nomes mais proeminentes, nomes cujos escritos críticos são imprescindíveis para a compreensão dos rumos que tomaria a pro-dução ficcional brasileira no século em questão.

A nova concepção de arte defendida por esses intelectuais com-binou-se muito bem com determinadas demandas socioculturais pós-independência. Neste momento literário fundador, quando os literatos assumiram um dever claro de afirmar a brasilidade de suas obras, o encontro entre os anseios da intelectualidade brasileira e as propostas nacionalistas do movimento literário romântico foi, em suma, bastante oportuno. Recorramos uma vez mais a Magalhães (in Coutinho, 1974, p.22) e a seu importante ensaio:

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No começo do século atual, com as mudanças e reformas que

tem experimentado o Brasil, novo aspecto apresenta a sua litera-

tura. Uma só ideia absorve todos os pensamentos, uma ideia até

então quase desconhecida; é a ideia de pátria; ela domina tudo, e

tudo se faz por ela, ou em seu nome. Independência, liberdade,

instituições sociais, reformas políticas necessárias em uma nova

Nação, tais são os objetos que ocupam as inteligências, que atraem

a atenção de todos, e os únicos que ao povo interessam.

A produção literária durante o século XIX pode ser entendi-da como um dos lados de um polígono, fator imprescindível para a construção de uma nação civilizada, tal como as contribuições oferecidas por outros ramos do conhecimento. O campo literário deveria integrar-se às conquistas científicas, técnicas, políticas, econômicas e morais para que o homem pudesse continuar “em sua marcha indefinida derrubando as barreiras que se lhe opõem em cada século” (Minerva Brasiliense apud Ribeiro, 2001, p.16). Nesse sentido, nossos literatos atribuíram a si próprios o papel de “apósto-los da palavra”, verdadeiros “operários incumbidos de polir o talhe e as feições da individualidade que se vai esboçando no viver de um povo” (José de Alencar apud Coutinho, 1974, p.122). Em suas reflexões sobre a tarefa de escritor interpõem-se otimismo, impa-ciência e desilusão, perfil de quem busca acomodar o ímpeto peda-gógico a uma inevitável frustração diante dos entraves a tal projeto.

Dentre os itens que estes homens priorizaram para estabelecer o valor literário de uma obra, a função civilizadora foi uma das mais requisitadas. Além de procurar “vestir-se com as cores do país” (Assis, 1955, p.129) as manifestações literárias do pensamento de-veriam concorrer para a instrução e correção dos costumes, para a inibição dos vícios e o enobrecimento humano. Em ensaio de 1844, publicado no periódico Minerva Brasiliense, o Dr. Lapa (apud Ri-beiro, 2001, p.229) sintetiza da seguinte maneira algumas vanta-gens e proveitos que as letras poderiam proporcionar aos homens:

As letras formam o coração e o espírito; elas ensinam como

conhecer e apreciar os encantos e doçuras da virtude [...]. Em todos 72 ELISA MARIA VERONA

os países e em todas as épocas da vida as letras recreiam e descan-

sam agradavelmente o espírito do homem; instruem e formam a

mocidade; deleitam e aformoseiam a vida na velhice [...].

Nesses termos, a prosa, seja por sua melhor “flexibilidade de expressão” em relação ao verso, seja por sua maior acessibilidade ao público leigo ou pouco especializado, tornou-se um gênero bastan-te apreciado e cultivado no meio cultural oitocentista. Pode-se dizer que o aumento da produção ficcional foi paralelo ao próprio esforço para a legitimação do gênero entre os círculos letrados, esforço esse que contou com a imprensa periódica como um canal privilegiado para o debate crítico. Nas antologias literárias e compêndios es-colares, textos que expressam um saber oficializado, a inserção do romance foi bem posterior, o que denota certa restrição a essa forma literária, restrição que se foi dissipando na segunda metade do XIX. Mas se nos colégios a entrada do romance nos currícu-los das disciplinas literárias foi relativamente tardia, nos jornais e revistas, veículos de comunicação caracterizados por sua efeme-ridade, ele constituía assunto praticamente cotidiano. Metáforas não faltaram para designá-lo, indo de “pintura dos costumes” a “alimento de fácil digestão”; “antídoto” ou “saboroso mel” à “taça de deletério veneno” – definições que por si mesmas antecipam algumas opiniões críticas com relação ao gênero. Estas, apesar de suas particularidades, versaram sobre temas constantes e, sem dú-vidas, acabaram por conferir, cada qual a seu modo, determinadas atribuições aos romancistas. Ou seja, direta ou indiretamente, aos literatos do século XIX foram prescritas certas regras que deveriam contemplar na realização de suas obras, regras que, com o tempo, acabaram por ser incorporadas pelos próprios autores. Da mesma forma como procediam alguns autores europeus das primeiras no-velas publicadas pela Impressão Régia, os romancistas brasileiros também se habituaram a expressar, nos prefácios de suas obras, determinadas preocupações que os motivavam a escrever, o que nos permite avaliar alguma repercussão que a crítica literária possa ter desempenhado nas escolhas efetuadas pelos escritores.

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Numa das primeiras novelas produzidas no Brasil, intitu-lada Statira e Zoroastes, assim se pronuncia o autor Lucas José d’Alvarenga (1826, p.xvi):

Não sendo a novela senão um discurso inventado para a ins-

trução dos homens debaixo da alegoria de uma ação, pareceu-me

este meio o mais conveniente para aproveitar a oportunidade de dar

algumas ideias de moral [...], misturando agradavelmente o “utile

dulci”, que recomenda Horácio.

No romance O filho do pescador, que é considerado por vários autores o primeiro romance brasileiro, Teixeira e Sousa também ex-põem algumas de suas intenções: “Conto-vos, pois, uma história que me hão contado. Escrevo para agradar-vos; junto aos meus escritos o quanto posso de moral, para que vos sejam úteis; junto-lhes as belezas da literatura, para que vos deleitem” (Sousa, 1997, p.3). Na advertência a seu romance Maricota e o Padre Chico, de 1871, João Salomé Queiroga (apud Coutinho, 1974, p.260) escreve o seguinte:

Maricota e o Padre Chico não é um escrito de imaginação sim-

plesmente; é um fato histórico, autenticado por uma lenda em

verso, que ainda hoje cantam os barqueiros do Rio de S. Francisco.

[...] Desgraçadamente, porém, o fato é real, e Oxalá não se reprodu-

zisse ainda hoje entre nós. A fantasia, portanto, poucas vezes entra

nessa narração sempre singela.

Os tipos existiram, existiram, existem e hão de existir por muito

tempo, até que a civilização futura faça desaparecer uns, melhore

outros, e conserve alguns. Não se leve a mal a pintura dos caracteres

perigosos. Acato reverente como devo os dogmas religiosos.

As máximas que segui são as seguintes: – Amor à virtude e aver-

são ao crime. – Conhecer o mal para evitá-lo ou combatê-lo. – Por

em sua nudez o hipócrita e o celerado.

A intenção pedagógica dos escritores é bastante evidenciada nas passagens acima; em todas se manifesta o desejo de instruir 74 ELISA MARIA VERONA

agradavelmente o leitor e o de, sobretudo, contribuir para seu aperfeiçoamento moral. Para tanto, alguns prosadores oitocen-tistas valeram-se do recurso de apoiar a narrativa em documen-tos como manuscritos, cartas, diários, depoimentos etc., os quais conferiam, segundo os autores, maior autenticidade aos episódios descritos. Em vários textos, também se encontram afirmativas do tipo: “A história é verdadeira; e a narração vem de pessoa que re-cebeu diretamente, e em circunstância que ignoro, a confidência dos principais autores desse drama curioso”; (Alencar, 1967, p.11) “envio-lhe outro perfil de mulher, tirado ao vivo, como o primeiro” (Alencar, s.d., p.5), “é uma história curiosa a que lhe vou contar, minha prima, mas é uma história, e não um romance” (Alencar, 1953, p.17) “mas eu narro, não invento” (Assis, 1866), “estudo ou romance, isto é simplesmente um livro de verdades” (Assis, 1865, p.3) – frases dispersas que denotam a intenção de verossimilhança, a qual deveria abarcar desde a exposição dos ambientes até a análise dos tipos, tirados ao vivo da sociedade: “Todos os tipos que nele fiz mover-se, e não sei se viver, encontrei-os na vida social, não só fluminense, não só brasileira, mas de todos os países” (Magalhães, 1974, p.27).

Um exemplo disso que se acaba de afirmar pode ser encontrado no romance de Lúcio Mendonça – O marido da adúltera – todo ele composto por meio de diversas cartas escritas por diferentes narra-dores, endereçadas à redação do jornal Colombo. Na primeira delas, Laura de M., suposta escritora, relata que pretende dissipar todo mistério romanesco de sua narrativa e acrescenta as motivações que a levaram a tornar público seu depoimento:

[...] esta narração fiel de um grande infortúnio obscuro, que matou

um homem honesto em plena mocidade e amortalhou para sempre

na viuvez mais desgraçada a triste mulher que sou eu, pode ser

lição proveitosa a algumas outras, que meditem o meu caso infeliz e

verdadeiro, e reflitam que todo o mal me veio, a mim e aos que dele

mais sofreram, de uma educação corruptora e falsa. (Mendonça,

1974, p.27)

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Mas a discussão acerca da veracidade dos romances não se res-tringiu a prefácios, advertências, notas prévias ou comentários crí-ticos redigidos pelos literatos; mesmo no interior dos textos ficcio-nais essas questões foram apresentadas, como se pode constatar pelo romance Os dois amores, de Joaquim Manuel de Macedo (s.d., p.242), em um diálogo estabelecido entre as personagens Celina e Mariquinhas, iniciado pela primeira:

– Escrevi o que se tem passado comigo...

– A história do teu amor?...

– Sim...

– Um romance?!

– Não... uma verdade.

– Como não? ... pensas que romances são mentiras?... – Tenho certeza disso.

– Neste ponto estás muito atrasada, D. Celina; os romances têm

sempre uma verdade por base. O maior trabalho dos romancistas

consiste em desfigurar essa verdade de tal modo que os contem-

porâneos não cheguem a dar os verdadeiros nomes de batismo às

personagens que aí figuram.

Muito provavelmente, ao utilizarem dessas estratégias, os lite-ratos buscavam melhor persuadir seus leitores de que as fatalidades romanescas podiam bem equivaler a fatalidades reais e demonstrar, com maior convicção, o quanto se deveria observar pela retidão dos comportamentos.

Mediante alguma acusação de imoralidade, os escritores pro-curavam defender suas obras com certa veemência. No prefácio de Flor de sangue, romance de 1897, Valentim Magalhães defende-se antecipadamente das críticas que poderia vir a receber com relação à moralidade de sua obra – “conheço o ambiente em que vivo e prefiro ir ao encontro das principais objeções que ao meu romance prevejo serão feitas, e, sobretudo, a relativa à moralidade” (Maga-lhães, 1974, p.28). O autor mostra-se adepto de um estilo literário que acredita ser menos convencional, segundo o qual a vida deve 76 ELISA MARIA VERONA

ser apresentada tal como é, com as lições subjacentes a cada ato. Prefigurando o possível leitor para sua obra – pessoas já maduras capazes de uma análise cônscia – Magalhães afirma que um livro é moral quando conduz o ledor a reflexões sobre a vida moral e arremata:

Hão de acusar-me de haver feito um livro que não pode ser lido

por donzelas e meninos. Não me defendo; ao contrário, confesso

que não daria este romance a ler à minha filha, como o não dou à

minha irmã nem a meus filhos; mas romances sinceros e verdadei-

ros, isto é, honestos e morais, não se escrevem para serem lidos por

donzelas e donzéis. (ibidem, p.28)

Também veemente foi a reação de José de Alencar à proibição de sua peça teatral Asas de um anjo. Antes de explicar quase dida-ticamente que mesmo o exemplo de uma personagem como Ca-rolina, menina pobre que se corrompe pela imagem do luxo, pode carregar um ensinamento moral, o autor justifica da seguinte forma porque resolveu se contrapor publicamente à censura:

Não é o despeito que me obriga a quebrar o silêncio, e trazer à

imprensa uma discussão literária; não posso ressentir-me de um

fato que concorrerá para dar voga, embora efêmera, ao meu livro;

mas prezo-me de respeitar a moral pública, não só nas minhas pala-

vras, como nas minhas ações; e custar-me-ia muito deixar pesar

sobre mim uma suspeita injusta. Eis a única razão por que discuto

[...]. (in Coutinho, 1974, p.95)

Essa preocupação em inscrever as obras numa perspectiva pe-dagógica pode ser percebida em inúmeras explicações, dispersas pelos próprios textos ficcionais, como nos casos de Teixeira e Sousa ou Queiroga, ou formuladas posteriormente mediante alguma rea-ção negativa da crítica, como no caso de José de Alencar. Pode-se afirmar que a crítica literária oitocentista – um conjunto de noções compostas tanto das teorias literárias e estéticas quanto da apli-

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cação das mesmas na obra – oscilou entre dois pontos de vistas bastante corriqueiros: um que conferia ao romance grande mérito por instruir agradavelmente a seus leitores e outro que o depreciava justamente por pintar de forma tão viva certos “vícios”. Cabe notar que esse paradoxo foi também apresentado nos próprios textos ficcionais, já que os autores, além de observarem em suas obras os parâmetros dos bons modos, utilizaram, muitas vezes, o recurso de indicar a suas leitoras outros livros que possuíssem o mesmo perfil e reprovar a leitura de romances que contrariassem os modelos da boa moral. Exemplo de tal procedimento encontramos num trecho do romance A normalista e quem toma a palavra é o personagem Berreto, preceptor da Escola Normal.

E continuou a falar com a loquacidade de um sacerdote a pre-

gar moral, explicando a vida e os costumes dos selvagens da Nova

Zelândia, citando Júlio Verne, cujas obras recomendava às norma-

listas como um “precioso tesouro de conhecimentos úteis e agradá-

veis”. – Lessem J. Verne nas horas de ócio; era sempre melhor do

que perder tempo com leituras sem proveito, muitas vezes impró-

prias para uma moça de família [...].

– Eu estou certo, dizia o Berreto, convicto, de que as senhoras

não leem livros obscenos, mas refiro-me a estes romances senti-

mentais que as moças geralmente gostam de ler, umas historiazi-

nhas fúteis de amores galantes, que não significam absolutamente

coisa alguma e só servem para transtornar o espírito às incautas...

Aposto em como quase todas as senhoras conhecem a Dama das

camélias, a Lucíola...

– ... Entretanto, rigorosamente, são péssimos exemplos... Tomou um gole de água e continuando:

– Nada! As moças devem ler somente o grande Júlio Verne, o

propagandista das ciências. Comprem a Viagem ao centro da terra,

Os filhos do capitão Grant e tantos outros romances úteis, e encon-

trarão neles alta soma de ensinamentos valiosos, de conhecimentos

práticos. (Caminha, 1998, p.113)

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Houve histórias nas quais os escritores não se limitaram a sim-plesmente apontar os livros que poderiam “transtornar o espírito” das donzelas, mas foram, sim, mais minuciosos na descrição das consequências provocadas pelas leituras de tais obras. No romance O anjo das donzelas, publicado em folhetins semanais pelo Jornal das Famílias, no ano de 1864, Machado de Assis conta a história da menina Cecília, que sofrera um “estrago moral” em função da leitura constante de novelas nas quais o amor só era apresentado por seu aspecto “perigoso” e por seus maus resultados. “A pobre mocinha tomou ao pé da letra o que lera” – a impressão que causa-ra em seu espírito as tragédias de amor narradas pela ficção leva-ram-na a determinar que jamais exporia seu coração a semelhan-tes catástrofes. Acompanhemos a narrativa de Machado de Assis (1864, p.1), justamente no ponto em que o autor desdobra o quão decisivas determinadas leituras poderiam ser em certas épocas da vida:

Cecília lê um romance. É o centésimo que lê depois que saiu do

colégio, e não saiu há muito tempo. Tem quinze anos. Quinze anos!

É a idade das primeiras palpitações, a idade dos sonhos, a idade

das ilusões amorosas, [...]. Que lê ela? Daqui depende o presente

e o futuro. Pode ser uma página de lição, pode ser uma gota de

veneno. Quem sabe? Não há ali a porta um índex onde se indiquem

os livros defesos e os lícitos. Tudo entra, bom ou mal, edificante ou

corruptor, Paulo e Virgínia ou Fanny.

No romance A viúva Simões, de Júlia Lopes de Almeida (1895, p.18), o personagem Rosas, ao remoer sobre a fuga de sua ex-mu-lher, estabelece algumas relações entre tal episódio e certos hábitos cultivados pela menina durante a juventude:

A pobrezinha tinha sido uma cabeça tonta e bonita. Passara

a mocidade a ler novelas dos jornais e a fazer crochê à janela da

casa do pai, em São Cristóvão. Montepin lançou-lhe no espírito a

semente da inveja das fidalgas loiras, de mãos de cetim e olhos de

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veludo turquesa. O crochê dava-lhe tempo para remoer mental-

mente cenas de amor adúltero deslizadas nos parques alumbrados

de castelos provincianos.

Se não era possível controlar a imaginação das moças, que se controlassem, ao menos, suas leituras – era essa, grosso modo, a perspectiva defendida pelos escritores. Na verdade, essas opiniões extrapolaram os círculos literários e se dissiparam por diversos gru-pos sociais. Mesmo entre os textos médicos ou entre uma coluna e outra dos periódicos femininos se podem colher juízos sobre o ro-mance, juízos que, no entanto, quase sempre reforçam o argumento depreciativo.

A título de exemplo, retomemos dois documentos já abordados nos capítulos anteriores para entender melhor essa questão. Acerca de alguns cuidados a serem observados pela mulher grávida, Dr. Monteiro Barros (1845, p.27) acrescenta a seguinte recomendação:

A leitura de obras licenciosas e de romances é um péssimo

recurso, que de ordinário procuram as mulheres para desenfado

de suas fadigas; além de estragarem o moral e de corrompê-lo, o

romance tem o inconveniente de exagerar certos sentimentos, pela

pintura viva de grandes rasgos de heroísmo e de paixões. Se as pes-

soas sensatas, acostumadas a ver as coisas debaixo de um ponto de

vista justo, razoável e exato, sentem muitas vezes fortes emoções

com semelhantes leituras, o que não deverá suceder a uma mulher

fraca e sensível, que por um instinto natural já é propensa a tudo

exagerar? Existindo tão íntima relação entre mãe e feto, é claro, que

tudo quanto tender a perturbar as suas funções orgânicas, deve do

mesmo modo impressionar a este último; e pois temos, que a leitura

de semelhantes obras deve ser proscritas pelas mulheres pejadas

que quiserem ver seus filhos sãos e fortes.

Já Sallustio, o informado cronista de Novo Correio das Modas, ao noticiar a tradução para o português de uma biografia de Cristó-vão Colombo, apresenta o seguinte parecer:

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É uma ideia útil a que presidiu a reprodução desta biografia

daquele fecundíssimo escritor francês, que deleitando instrui e

civiliza o público, cansado já de tanto romance quando não per-

nicioso para os costumes e para a moral, inútil ao menos para o

aperfeiçoamento da sociedade e do coração humano. (Jornal Novo

Correio...,1854)

Opiniões que corroboram o inflamado apelo de Padre Lopes Gama (apud Augusti, 2006, p.93), nas páginas do periódico per-nambucano O Carapuceiro, contra esses livros que considera uma verdadeira “peste da literatura”:

Em que se há de entreter esta santinha a noite inteira? Oh, essa

é boa! E para que se compuseram as Mil e uma noites, os Mil e um

quartos de hora, as Adelaides, o Menino da selva, as Joaninhas, e

tantas novelas, cuja nomenclatura talvez exceda às bibliotecas do

Vaticano e do Escorial? Em ler esses bons mestres de moral, na

aquisição dessas ideias eróticas entretém-se a menina (muito pro-

veitosamente) até meia-noite, hora da ceia, e daí para a cama. Em

que se ocupa esta senhora toda a sua vida? Em nada. Pois não sabe

coser, nem bordar, nem remendar? Nada disto: nunca tais grosse-

rias lhe ensinaram.

Exemplos não faltam para indicar que a maioria dos letrados tinha alguma observação pronta acerca da leitura de tais livros; le-trados, quase todos, engajados em atividades relacionadas à “difu-são das luzes” e preocupados com as consequências funestas que a disseminação indistinta de romances poderia acarretar nas “susce-tíveis” leitoras. Acompanhemos mais uma ou duas opiniões sobre o tema saídas da pena de intelectuais coetâneos. Na seção mosaico, de dezembro de 1864, do conhecido Jornal das Famílias, a colunista Maria Amália (apud Bastos, 2002, p.189) afirma:

Não é debalde que muitas vezes eu tenho erguido nestas páginas

um protesto solene contra esse gênero de instrução que tanto se vul-

DA FEMINILIDADE OITOCENTISTA 81

gariza entre nossas famílias. O romance moderno, o romance dessa

escola que se apraz em endossar os vícios e em sustentar como mais

peregrinas as teses mais absurdas, são flagelos que se lançam no

seio da sociedade. E de fato, qual o bom senso que não repugna esse

realismo de Madame Bovary, essa febre de Fernanda, de Dumas;

das cortesãs, de Balzac; de Jacques e Valentina, de Mme. Jorge

Sand? Eu quisera que por uma vez se abolissem esses livros peri-

gosos das mãos inexperientes, esses filhos daninhos que tanto cor-

rompem a alma, como corrompem também o coração. Eu poderia

demonstrar com fatos quanto mal essa literatura febril das paixões

tem causado com seus desregramentos.

Em Cartas sobre a educação de Cora, escritas por José Lino Cou-tinho (apud Reis, 2000, p.169) e entregues a preceptora de sua filha, documento que expressa a insatisfação de José Lino com a educação “má e rotineira” que tem recebido as meninas brasileiras, lê-se:

[...] composições, pintando o amor com vivas e brilhantes cores,

como origem inefável de gozos e prazeres, arroja o belo sexo em

um pélago de infortúnios e desgraças: são essas terríveis obras que

pintando o homem e o amante como um anjo, e colocando a feli-

cidade nos seus braços, perde a maior parte das mulheres quando,

por assim dizer, seduzidas se entregam todas ao amor, porque

depois só encontram seres defeituosos e fracos que as abandonam,

ou, pelo menos, não correspondem ao justo a ideia que deles ha-

viam feito.

O autor refere-se, nessa passagem, a romances que classifica como “amatórios”, dentre os quais inclui Madame Bovary e outros de “semelhante natureza” – livros esses que, a seu ver, deveriam ser preteridos em relação a boas obras educação moral. Nas cartas, José Lino também expressa e defende que só a partir de uma formação bem conduzida desde criança se pode colher os frutos desejados: “cultiva, rega a jovem planta antes que morra: seus frutos dar-lhe--ão um dia alegria” (ibidem, p.152).

82 ELISA MARIA VERONA

Certamente, toda essa discussão dialoga com a ampla difusão da prosa de ficção entre os brasileiros no Oitocentos, difusão que contou com a contribuição do projeto literário romântico, mas que também foi estimulada por inúmeras traduções do romance folhetim francês, de muito boa receptividade entre o público brasileiro. Vimos, no primeiro capítulo, um pouco da influência francesa nos hábitos e costumes dos habitantes da corte imperial, influência desdobrada até mesmo nos hábitos de leitura e possível de ser avaliada pelas incontáveis traduções do “ feuilleton-roman”, por sua frequência praticamente cotidiana nos rodapés dos jornais, pela procura ávida desses textos quando editados e, na maioria das vezes, reeditados em livros. É o caso, por exemplo, dos romances de Eugèné Sue, Ale-xandre Dumas e Ponson du Terrail, todos os três saídos nos rodapés do Jornal do Comércio, periódico com tiragem estimadas em 15 mil exemplares diários durante o período (in Bastos, 2002, p.209).

A discussão acerca da perniciosidade dos romances não passou ao largo dos problemas suscitados pelo acesso irrestrito das mulhe-res a certas obras, dentre as quais o tão afamado folhetim francês. Esse, com suas histórias de amores, desencontros, sofrimentos e aventuras, cativou o público feminino de tal forma que passou a ser associado quase que exclusivamente a essa parcela da comunidade de leitores. Tal associação é sugerida pelos próprios textos ficcio-nais, ao se dirigirem, num tom de conversa informal, a uma suposta leitora. Chegou-se mesmo a cogitar que um jornal não poderia atender às exigências do público se não possuísse em seu rodapé o folhetim e sua “literatura amena e choradeira”, para ser apreciada por esposa, filhas, amigas, vizinhas e demais parentes do assinante – assim, reforçava-se a ideia de que as mulheres eram pouco dadas a assuntos políticos, comerciais ou científicos. No entanto, apesar do sucesso quase indiscutível do gênero, ele suscitava, igualmente, desconfiança, sobretudo por parte dos que gostavam de zelar pelos “bons costumes” e insistiam nas consequências nefastas de certa licenciosidade das fatias folhetinescas.

Os literatos também não se mostraram simpáticos ao verdadei-ro fascínio do público brasileiro pelas novelas francesas. Tal prefe-

DA FEMINILIDADE OITOCENTISTA 83

rência levou nossos romancistas a titubearem entre o gosto do pú-blico, que já havia assimilado o enredo mirabolante dessas novelas – com suas histórias de adultério e suas mulheres desonradas – e as exigências da crítica, na maioria das vezes defensora de um de um papel moralizante para o romance. Machado de Assis, em 1873, no citado Instinto da Nacionalidade, comenta que esses livros de “certa escola francesa”, apesar de bastante lidos entre nós, foram bem--vindos somente como hóspedes e “não se aliaram à família”. No entanto, é certo que não faltaram escritores brasileiros preocupados em “satisfazer a avidez dos leitores de rodapé”: “O gênero huma-no é sempre o mesmo”, comenta-se no edital de 4 de novembro de 1867, do periódico O Arlequim, “atentai para cem pessoas que passam e vereis que duas param em contemplação diante de uma obra de arte e que 98 vão mais adiante extasiar-se com uma tabuleta pintada de vermelho” (apud Meyer, 2005, p.291). Entre o “útil e o fútil”, esse “dândi da literatura” já prefigurava mesmo sua pró-pria leitora, para o infortúnio dos pais e maridos que só viam nele “o perigo!”:

Os momentos rápidos que V. Exa puder furtar ao esplêndido

burburinho dos salões, onde é rainha; os poucos instantes que lhe

deixarem vagos os passeios, as reuniões elegantes, os caprichos irre-

sistíveis da moda soberana, as raras horas, enfim, que lhe dispensar

o mundo delicioso e tentador, de que é V. Exa o mais imponente

ornamento, consagrá-los-á, não é verdade, à leitura fugitiva destes

folhetins inúteis e leves como a folha que o vento leva? (Guimarães

Júnior, 1987, p.22)

O folhetim, portanto, conforme a apreciação de Luis Guimarães Júnior, deveria caracterizar-se pela leveza de conteúdo, primei-ramente por ser um gênero dirigido, no mais das vezes, ao públi-co feminino e, em segundo lugar, porque sua leitura serviria para preencher as horas de distração. Também era bom que não veicu-lasse leituras ofensivas, já que era a “delicada susceptibilidade” da mulher que estava em jogo – o ideal seria apresentar somente uma 84 ELISA MARIA VERONA

“literatura amena” e “choradeira”, para causar prazer e desatar a “sensaborona tristeza”.

Ligeiros ou não, os “romances de fancaria” eram rapidamente devorados, mal saídos nas fatias matinais dos periódicos, o que rapidamente levou os escritores brasileiros a se adequarem ao novo suporte. Pelos folhetins, muitos autores nacionais tornaram-se mais conhecidos e muitas obras conseguiram maior alcance – é o caso de Joaquim Manoel de Macedo e José de Alencar, romancis-tas de renome durante o período, os quais tiveram várias de suas obras publicadas nos rodapés das folhas cotidianas. Macedo teve o seu Dois amores editado pelo Correio Mercantil, Rosa, pela revista Guanabara, Vicentina, pela Marmota Fluminense e A namoradeira e Nina, pelo Jornal das Famílias. Alencar publicou Cinco minutos nos rodapés do Correio Mercantil, A viuvinha, no Diário do Rio de Ja-neiro, Sonhos d’ouro, pela República do Rio de Janeiro, entre outros. Posteriormente, algumas dessas obras foram editadas e reeditadas em livros – Cinco minutos e A viuvinha, publicados num mesmo volume, em 1858, foram reeditados em 1865, por exemplo. Ou seja, tal como os folhetinistas franceses, os brasileiros também passaram a desfrutar de boa receptividade dos leitores, o que pode ser presu-mido tanto da produção constante dos escritores quanto das suces-sivas reimpressões de algumas obras. Além disso, muitos de nossos romancistas também foram colaboradores de vários periódicos, para os quais escreviam crônicas, contos ou novelas curtas, seções praticamente obrigatórias, sobretudo, naqueles jornais e revistas dedicados à mulher e à família.

Dentre os literatos de profissão, os comentários a respeito da imoralidade ou não dos romances foram bem mais cautelosos e não direcionados ao gênero como um todo, mas a algumas de suas manifestações. A forma literária em si conquistou, pouco a pouco, o respaldo dos críticos, os quais, no entanto, procuravam pontuar sobre a dignidade literária de cada obra. É o que se pode perceber na apreciação de Joaquim Norberto Sousa e Silva (apud Augusti, 2006, p.105), publicada na revista Guanabara em março de 1855, acerca de um dos romances de Joaquim Manoel de Macedo:

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Em resumo: a Vicentina do nosso amigo e colega é uma compo-

sição que lhe faz muita honra: um romance cuja leitura recomenda-

mos às nossas jovens compatriotas com um poderoso antídoto con-

tra o veneno corrosivo da sociedade em que vivemos. É além disto

um serviço feito a literatura brasileira; naturalizando entre nós o

verdadeiro romance; o romance moral e instrutivo; familiarizando-

-nos com as nossas cenas campestres; ensinando-nos finalmente a

apreciar o que temos.

Acerca de outro livro de Macedo, O culto do dever, há uma crí-tica arguta de Machado de Assis – pincelada de uma “nobre fran-queza”, “sem rodeios nem disfarce” – que, apesar de reconhecer no livro os intuitos morais do autor, “O dever é a primeira e a última palavra do romance”, dirigi duras críticas à impassibilidade dos personagens, à falta de gravidade dos episódios, à incapacidade da narrativa de despertar nos leitores qualquer emoção. Ouçamo-lo:

Debalde se procura o homem no Culto do dever; a pessoa que

narra os acontecimentos daquele romance, e que se diz testemunha

dos fatos, será escrupulosa na exposição de todas as circunstâncias,

mas está longe de ter uma alma, e o leitor chega à última página

com o espírito frio e o coração indiferente. E contudo, não faltam

ao poeta elementos para interessar; o nobre sacrifício de uma moça

que antepõe o interesse de todos ao seu próprio interesse, o coração

da pátria ao seu próprio coração, era um assunto fecundo; o poeta

podia tirar daí páginas deliciosas, situações interessantes. (Assis,

1955, p.64)

Na conclusão deste ensaio, Machado, num esforço no senti-do de angariar adeptos que pudessem contribuir para o progresso da literatura nacional, expõe seu interesse em ver cultivado entre os brasileiros o romance literário, no qual o estudo das paixões humanas se combinasse ao toque delicado e original da poesia. Certamente, a atividade crítica em geral não foi tão construtiva quanto a de Machado de Assis. A quase inexistência de uma crítica 86 ELISA MARIA VERONA

coerente, imbuída do claro propósito de estimular os novos talentos e fornecer-lhes alguns subsídios literários, foi, a propósito, uma queixa constante entre os escritores.

Empecilhos à parte, o romance impôs-se à cena cultural bra-sileira no decorrer do século XIX, e isso não obstante os variados ataques dos incrédulos de suas intenções morais. Por meio desse “grande instrumento de reconstrução social”, os literatos puderam exercer o poder de falar “à numerosa classe dos que sabem ler”, “in-filtrando nela os princípios de moral” e exercendo uma “influência civilizadora” (Magalhães, 1974, p.29). Também puderam estabele-cer com o público feminino relações bastante íntimas, guiando sua leitura com um senso didático muitas vezes excessivo. “Descanse os seus lindos olhos”, que “por agora vou dar o meu ponto final” (Assis, 1955, p.33), escreveu um deles.