(Des)encontros trabalho-família: quem fica quando o trabalhador parte
Prólogo
De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava
sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a
certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da
interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de
dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura
um encontro.
(Sabino, 1981, p.154)
Falar como se originou este livro requer, em primeiro lugar, traçar uma breve trajetória da autora antes de expormos a dos narradores aqui presentes. Para isso, circunstanciaremos de modo breve aspectos que oportunizaram a construção deste livro de maneira que possamos compreender a redação como algo que ultrapassa a fixação da escrita. Convidamos o leitor a percorrer conosco, nestas primeiras páginas, o caminho autobiográfico que trilhamos como vias abertas para chegarmos à biografia de outros narradores.
A narradora pesquisadora ou a pesquisadora
narradora?
Essa é uma questão que não deve ser vista separadamente! Versemos sobre ela de modo breve para entrevermos que ao se construir uma modalidade de texto também se produz o autor. Diante disso, o universo narrativo não reporta apenas aos dos participantes que integraram a pesquisa de doutorado que originou este livro. Há que se narrar tanto o processo investigativo, que compôs essa trama, quanto a nós mesmos – por isso o uso da primeira pessoa do singular combinada com a primeira pessoa do plural nesta seção.
Algo se torna objeto de estudo, um problema sujeito ao exercício compreensivo-interpretativo, por diversos motivos. No nosso caso,
compreender as formas de ser-trabalhar-viver1 2 de barrageiros tem a ver diretamente com a minha história de vida. É preciso situar o leitor sobre as tramas aqui entrelaçadas. São as histórias dos familiares de barrageiros que de certo modo fazem reverberar as minhas – as da narradora pesquisadora. Esse tema fez-se interesse de pesquisa por remeter à minha implicação direta nesse universo.
Por reconhecer isso e ser pesquisadora que trabalha com narrativas, tive de narrar a minha pesquisa e seus contornos teórico-conceituais, sem deixar de circunstanciar parte da minha história – tive de me tornar pesquisadora narradora.
Comecei, ainda em tenra idade, contando às pessoas com quem convivi, as minhas andanças. Muitos esquecem que mudar de cidade não é apenas deixar sua antiga casa para ocupar outra até então desconhecida. É preciso rearranjar os móveis, os objetos, os novos espaços e as relações. Necessitamos encontrar outra disposição para nossos afetos porque nessas idas e vindas estamos intensamente conjugando perdas e ganhos, esquecimentos e
lembranças, pois sofremos o processo de quassação3 e de enraizamento.
Mudar de cidade é mais que mudar de casa. Trocamos de escolas, amigos, sotaques, arquiteturas, paisagens, altitudes e longitudes, cheiros, histórias, mitos, ritos, árvores, insetos, animais, comidas, costumes, gírias, título de eleitor, número de telefone, voltagem, comprovante de residência, de roupa (há lugares mais frios ou quentes). O gosto da água não é o mesmo e já tive dores de barriga por comer e beber coisas cujos nomes nem sabia! O odor do ar, a cor do céu e o tom da terra também diferem incrivelmente.
Eu não tinha dimensão de como este Brasil era grande e como sua gente era diversa até passar por diferentes estados e localidades. Isso me fez enxergar um horizonte mais amplo que o meu. Passei a entender o que era o cerrado, para além dos livros de geografia, o que era uma colonização ucraniano-polonesa, ítalo-alemã, bem como a influência indígena e afrodescendente que constituem as histórias dos “Brasis”. Vi, quase no quintal da minha casa, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) aquecer-se no pontal do Paranapanema. Topei com a diferença gritante da agricultura familiar com a da monocultura e o latifúndio. Experimentei a escola particular do centro da cidade até a escola pública de periferia em uma localidade sem pavimentação asfáltica. Nesses lugares, com pessoas e coisas inomináveis, tive de aprender a apegar-me e a desapegar-me. Diversas vezes me emocionei, ao chegar e ao partir, por não querer morar no novo lugar tampouco por não desejar sair dele.
Algo curioso na história da minha família era como mudávamos de casa, de modo reincidente. Não sei o que acontecia, mas, ao alugarmos uma nova casa na cidade, os proprietários resolviam vendê-la em menos de um ano de moradia. A título de exemplo, em um ano e meio, em uma única cidade, morei em quatro casas diferentes. Como se não bastasse mudar de cidade, mudava de casas em uma mesma cidade! Nossa casa possuía decoração variável e multicolorida, além de móveis quebrados e riscados a cada nova mudança. Isso porque havia casas com móveis embutidos, outras, não. Dessa forma, cada móvel tinha uma história e uma procedência diferente.
Contarei onde nasci e por onde passei até chegar a Maringá (PR), de onde escrevo. Com meu pai barrageiro, nasci e morei em Ilha Solteira (SP) (nessa época a cidade era distrito de Pereira Barreto). Depois, em Birigui e Teodoro Sampaio (SP), em Maringá e Porecatu (PR), Ourinhos (SP), Xanxerê (SC), Catalão (GO), Cassilândia (MS). Sem a minha família, fui para Assis (SP) (fui morar sozinha e foi o único lugar em que eu sabia que ficaria ao menos cinco anos por causa da universidade), Irati e Maringá, (PR) (única cidade para onde retornei e onde pude reencontrar parte da minha família).
Quando criança, em meio às mudanças, lembro-me de algo estratégico, elaborado por meus pais. Uma coisa apenas, em meio às bagunças, não poderia desaparecer: a caixa de brinquedos. São várias as recordações, em meio às outras caixas, das brincadeiras que fazíamos eu e minha irmã. Engraçado também como as coisas podem sumir e se multiplicar em fragmentos infindáveis quando estão encaixotadas! Certas coisas se extraviaram e nunca mais as encontramos, bem como o contrário.
Penso que uma das sensações mais desconfortáveis, ao chegar a um novo lugar, era poder me assentar nele. Torná-lo familiar, seguro e receptivo para mim mesma. Não me refiro a uma casa luxuosa ou ostensiva, mas a um canto no mundo em que você possa chamá-lo de seu e permita ser minimamente acolhedor. Um lugar onde você possa criar sentimento de pertencimento e identificação. Diferentemente da minha cachorra, eu não poderia levar uma casinha e apenas ter o trabalho de posicioná-la diante de uma vista aprazível e protegida – embora até os cães necessitem farejar cantos e frestas para torná-los seus.
A rotina é desarranjada. Você não sabe mais os atalhos nem faz o tradicional trajeto de volta para casa, seja para desviar do trânsito, seja dos buracos e cachorros brabos que estão no meio do caminho. Trata-se de uma rede de relações materiais e imateriais que você tem de reconstituir praticamente do zero e que atravessa todo o seu cotidiano: que dia passa o coletor de lixo? A que horas vem o carteiro? Quem será o professor ou o aluno? Quais são meus colegas de trabalho? Quem é a minha vizinhança? Qual padaria e supermercado são bons? Qual médico ou hospital é confiável? Onde podemos nos divertir com lazer e arte? Qual lugar é seguro ou perigoso? As pessoas são receptivas ou fechadas?
Em princípio, as perguntas são maiores que as respostas, mas eram elas que, de modo tácito, organizavam nosso lugar a ser ocupado
naquele pedacinho do cosmos. A territorialidade4 é construída assim, aos poucos e com o tempo. Não há como antecipá-la e ninguém pode fazê-la plenamente por nós. Todavia, esse processo está permeado de novas descobertas, de aprendizagens e revelações. Descobrimos não apenas nosso país, com suas pessoas e lugares, mas a nós mesmos.
Disso surgiu meu interesse singular por ouvir histórias, especialmente as de outros barrageiros. Como eles viviam e significavam essa conjectura marcada pela mobilidade?
Isso fez com que, no contexto deste livro, a minha história saísse de cena (ela vai para os bastidores) para deixar protagonizar a dos trabalhadores e seus familiares de barragem. Não se trata de histórias similares, a minha e a dos participantes da pesquisa, pois a significação da existência é singular. Entram em cena os narradores, cujas produções narrativas distintas são anunciadas de posições diferentes, lugares outros e direções diversas de modo a conferir rumos e sentidos únicos ao curso de suas vidas. É o encontro da subjetividade com o socius que remeteu a um fenômeno recorrente no Brasil: o setor hidrelétrico que empregou e desempregou inúmeras pessoas. E, ao conferir (ou não) trabalho a elas, o percurso de suas vidas foi delineado por condições sociais, econômicas, culturais e políticas, específicas ao período histórico do Brasil vivenciado.
Barrageiro muda de cidade. Barrageiro busca felicidade. Barrageiro confronta a realidade. Faz isso ao desbravar lugares, gentes, histórias outras. É o estranho que chega aonde muitas pessoas não saberão de onde ele era e nem para que veio. Talvez possa ser alguém que venha a se familiarizar, apegar-se temporariamente àquele povo e local, mas que possivelmente terá de partir mais uma vez, com ou sem a família.
Eu, enquanto filha de barrageiro, constitui-me no movimento. Não há apego à terra natal, onde morei somente meus seis primeiros anos de vida. Também não tenho amigos com quem possa compartilhar minha história de infância e adolescência, em um único lugar. Meus avós eram de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, gostavam da família ao redor. Nunca morei lá, mas, mesmo assim, eles não deixaram de sonhar que um dia ficaríamos por ali. A única coisa em que eu pensava, quando meus avós pediam para meus pais residirem mais perto, era: há barragem aqui? Entendia de modo pueril que barragem estava para trabalho assim como trabalho estava para barragem. Na fala dos narradores vi que eles também compreendiam isso, ao rememorarem sua infância e temerem o desemprego de seus pais.
No início dos anos 1980 eu não tinha idade nem clareza suficientes do que era uma empresa estatal, mas sabia dizer desde criança o que era morar em uma vila de barrageiros e onde papai trabalhava – sempre visitávamos as novas usinas onde ele atuaria, além de ouvir suas detalhadas explicações de como gerar energia hidrelétrica. Sabia também deslocar-me sozinha pelas ruas da cidade desde os três anos de idade, mamãe ficava de cabelos em pé! Compreendia que papai (o barrageiro, chefe de família) fazia parte do sindicato e integrava a luta dessa classe (hoje, entendo melhor isso).
Os anos se passaram, eu tornei-me adolescente, passei a estranhar e temer uma coisa até então inimaginável: o que sucederá com os meus amigos, comigo e meus familiares com essa tal de privatização? O que querem esses estadunidenses que aqui vieram para se tornarem proprietários de nosso rio, de nossa água, fauna e flora como também de nós mesmos, de homens e mulheres que vendem sua força de trabalho a eles, bem como da energia gerada pelos rios tupiniquins?
Não sabia responder bem, mas percebia algumas transformações dentro e fora de casa, como o fato de o assunto dos sindicatos não aparecer mais com tanta frequência nas prosas familiares e com conhecidos. Lembro-me com nitidez de meus colegas, com quem estudava, contarem para mim que seus pais foram demitidos, o que me deixava pasma e aborrecida. Esse era o início dos anos 1990, quando comecei a viver o neoliberalismo na mesa de casa, ao
brincar de bets5 na rua com a criançada e no caminho da escola, mesmo sem saber seus preceitos ideológicos.
A partir desse período de demissões em série, eu já não morava mais nas vilas. Não havia mais clubes nem confraternizações entre colegas de trabalho dos meus pais e a vizinhança. As casas já haviam sido vendidas, assim como pousadas, escolas, ambulatórios e estabelecimentos diversos da empresa. Papai alguns anos depois foi despedido e vivenciamos outro contexto: o desemprego e, posteriormente, um novo trabalho em uma empresa privada. A instabilidade era a palavra da vez. Continuávamos a mudar de cidade, dessa vez não era pelo fato de papai ser transferido pela mesma empresa.
Os anos avançaram, o novo milênio havia chegado. Após trabalhar em diversos empreendimentos, trocar de empresas, papai se aposentou e retornamos pela primeira vez a um lugar em que havíamos morado porque 14 anos antes nos encantamos com o local. Mas as nossas lembranças como familiares de barrageiro continuam a cintilar. Tal como os narradores deste livro, que se recordam de suas casas, lugares e vizinhança, também rememoro minha vivência. Em especial, das vilas onde podíamos brincar livremente pelas ruas. Percorrer casas e gramados vizinhos. Escalar árvores, pegar várias frutas, cuidar de animais e “chupar o melzinho das flores”.
Eu e minha irmã sempre tivemos apreço por animais. Nos lugares em que morávamos, adotávamos e acolhíamos inúmeros bichos: gatos e cachorros. Estes aprendiam a se mudar conosco e a conviver uns com os outros. Outro aspecto que me faz rememorar esse contexto são as árvores e as plantas. Eu e meu pai costumávamos plantar árvores praticamente em todas as casas em que morávamos. Em especial, lembro-me de quando eu plantei um girassol. Consegui pegar, com muito custo, um pé na última rua da vila em que eu morava, pus na cestinha da minha bicicleta e pedalei até chegar a casa e, com cuidado, tirar a planta. Infelizmente, o talo quebrou perto de casa. Mesmo assim, plantei. Entre esse girassol e as outras plantas, o que acontecia era não os vermos crescer e se tornarem frondosos, mas me sentia consolada ao pensar que algo importante eu havia deixado naquela terra e que outras coisas poderiam continuar germinando.
Certa vez, ao conhecer pessoas que pouco tinham mudado de cidade e queriam saber quem eu era e de onde eu vinha (que quase sempre confundiam procedência com local de nascença e não consideravam o último lugar de moradia), senti-me constrangida por não poder dar uma resposta que permitisse conhecer quem era a minha família ou mesmo identificar um único lugar do qual adviera. Essa pergunta trazia-me uma impressão de que eu não possuía referências, lugar ou raízes – visto que uma tradicional questão costuma ser feita em algumas cidades para identificá-lo: de que família você é?
Mas foram essas repetidas indagações que me fizeram perceber que eu não era desprovida de referências, lugar ou raízes. Não era o nome de uma ilustre família daquela localidade que me conferia dignidade ou notoriedade na dimensão do existir, mas a
multiplicidade e os rizomas 6 que se espalhavam pelas trajetórias e travessias que me identificavam, sendo capaz a um só tempo de me situarem e nomearem! Dei-me conta de que podia falar de muitas cidades, pessoas, costumes, sotaques, árvores, comidas, bebidas e tradições das mais diversas possíveis. Era capaz de localizar pessoas e espaços em um recorte de tempo suficiente para torná-los parte significativa da minha vida, seja ela rememorada ou com quem convivi. Nas palavras do poeta, seria: “mas o que perdeu de exato de outra forma recupera: que hoje qualquer coisa de um traz da outra sua atmosfera” (Melo Neto, 2009, p.111).
Das pessoas às paisagens, aprendi o que é estar em terra estranha sem deixar de criar um pertencimento, mesmo que passageiro. Isso me fez sentir cedo que partir dói, perder é falta e que com o vazio a gente convive. Sendo assim, tornei-me uma “cartógrafa” amadora, sem temer o movimento, mas apreciando o que ele dava e me tirava. Só sabe disso quem estiver andando, pois, diante do não saber da possibilidade de um retorno, aprende-se a apreciar a paisagem e os encontros, de modo único.
E, por gostar de histórias e fazer delas objeto de pesquisa, foi intenso ouvir as narrações e registrá-las. Enquanto estive com esses narradores, que a mim confiaram suas vidas, pude perceber a história do Brasil se desenrolando e tomando corpo por meio de suas singularidades. Dei-me conta de que as usinas hidrelétricas não foram construídas apenas por mãos de homens, mas indiretamente por mulheres, crianças, relações de vizinhança, galinhas, cachorros e afetos. Entendi que a narrativa, enquanto método, é mais do que registrar e analisar cientificamente essa produção social e desejante. É também afetar e ser afetado, interpretar e ser interpretado.
Enquanto narradora na abertura deste livro, posso fazer análise de implicação e registrar que muitos narradores receberam-me quando não somente me interessei por suas histórias, mas também quando compartilhei a minha. Quando ao perguntar acerca da sua trajetória, eles puderam interpelar a minha e, ao fazerem isso, um bom início de conversa confirmou o que nos identificava: ser barrageiro.
A produção narrativa, contida neste estudo, para mim foi densa, não foi fácil produzi-la nem abraçá-la. Foi preciso me defrontar com o desejo de (não) saber e de (não) conhecer. Ter de lidar com os afetos que pulsam com dor e paixão ao rever a história vivida e a desejada. Por isso, fiz-me narradora com esses narradores. Continuo a interpretar a minha história junto a deles. Todavia, entrego este enredo pesquisado ao leitor para também continuar a interpretar comigo os (des) encontros trabalho-família a partir das narrativas de familiares de trabalhadores migrantes do setor de produção de energia hidrelétrica.
Finalmente, compartilho com você, leitor, minha atual situação. Como docente de uma instituição pública de ensino superior, na condição de funcionária concursada, jamais havia avistado um longo prazo em minha vida, tanto de contrato de trabalho como de moradia em uma cidade. É um misto de estranhamento com alvoroço. Percebi que eu era o tipo de pessoa que não conseguia mais parar e que assumidamente gostava de andar a fim de conhecer incansavelmente pessoas, histórias e lugares. Constituí-me subjetivamente no movimento e não tenho pretensão de abandonar essa condição. A única diferença, agora, é que tenho para onde voltar e dosar quando ir e vir sem correr o risco de perder meu lugar no canto do mundo. E nesse meu lugar, há coisas preciosas para mim: trabalho, família, amigos, casa, cachorros e plantas.
Feito isso, sinto-me autorizada a compartilhar com você, leitor, não apenas parte do meu universo aqui narrado, mas também o de pessoas desconhecidas que desbravaram Brasil afora e adentro na construção tanto de barragens como de suas vidas.
O profissional da memória
Passeando presente dela
pelas ruas de Sevilha,
imaginou injetar-se
lembranças, como vacina,
para quando fosse dali
poder voltar a habitá-las,
uma e outras, e duplamente,
a mulher, ruas e praças.
Assim, foi entretecendo
entre ela e Sevilha fios
de memória, para tê-las
num só e ambíguo tecido;
foi-se injetando a presença
a seu lado numa casa,
seu íntimo numa viela,
sua face numa fachada.
Mas, desconvivendo delas,
longe da vida e do corpo,
viu que a tela da lembrança
se foi puindo pouco a pouco;
já não lembrava do que
se injetou em tal esquina,
que fonte o lembrava dela,
que gesto dela, qual rima.
A lembrança foi perdendo
a trama exata tecida
até um sépia diluído
de fotografia antiga.
Mas o que perdeu de exato
de outra forma recupera:
que hoje qualquer coisa de um
traz da outra sua atmosfera.
(João Cabral de Melo Neto, 2009)
1 Essa expressão, originariamente, é utilizada por Batista e Codo (2007) ao debaterem as novas lógicas de trabalho e tempo que geram distintos processos de subjetivação.
2 Os trabalhadores do setor de produção de energia hidrelétrica também são conhecidos pelo termo barrageiros, pois estão envolvidos, direta e indiretamente, com a construção de barragens que servem para formar o reservatório de água, necessário para a produção de energia elétrica.
3 A quassação consiste em procedimentos que visam reduzir as cascas e as raízes a fragmentos para extrair-lhes os princípios ativos.
4 Parte específica da dimensão espacial onde ocorre a interação entre os seres humanos, um registro mediado pelo espaço e pelo tempo. Para cada tipo de territorialidade haverá um correspondente específico de temporalidade, a qual poderá coexistir e se expressar por meio das diferenças, das desigualdades, das relações e exercícios de poder: “a territorialidade pode ser definida como conjunto de relações que se originam num sistema tridimensional sociedade-espaço-tempo” (BECKER, 1993, apud ALBAGLI, 2004, p. 30), o que vem configurar formas de afetos e relações simbólicas, fundamentais para a subjetividade.
5 Jogo de rua, também conhecido como taco, tacobol, betcha ou casinha. Esse jogo nas vilas onde cresci era muito comum. O material suficiente para dar início à partida podia ser encontrado por nós mesmos na lixeira mais próxima: latas de óleo, cabo de vassoura ou latinhas em geral e pedaços de madeira que servissem como taco.
6 Esse conceito na Filosofia da Diferença foi inspirado na terminologia provinda da botânica. Distinguindo-se da noção de raiz, que possui uma estrutura central, o rizoma possui multiplicidade e heterogeneidade, fazendo com que seja capaz de produzir raiz, talo ou ramo independente de sua localização na planta. Isso se dá porque o rizoma pode conectar um ponto a qualquer outro. Nesses termos, a bifurcação, a imprevisibilidade e o ineditismo da produção de vida e do pensamento não se atêm a um ponto de origem, primordial ou essencial. Tal conceito propicia a experimentação advinda das incessantes possibilidades de conexão e dimensões, mesmo com as rupturas, pois estas geram outras vias mediante as linhas rizomáticas (Ramos e Meimes, s.d.).