(Des)encontros trabalho-família: quem fica quando o trabalhador parte

Palavras finais: o fechamento (aberto) do livro

Palavras finais: o fechamento (aberto)

do livro

 

E a história humana não se desenrola apenas nos campos de

batalha e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola

também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de

subúrbios, nas casas de jogo, nos prostíbulos, nos colégios,

nas ruínas, nos namoros de esquina. Disso quis eu fazer a

minha poesia, dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida

obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição

à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as

pessoas e as coisas que não têm voz.

(Gullar, 1997, p. 5)

Ao estudarmos o cenário de vida dos barrageiros e seus familiares, visando compreender os encontros e desencontros das instituições trabalho e família, em primeiro lugar foi necessário reconhecer que um empreendimento hidrelétrico não gera apenas impacto social e ambiental, seja para a população desalojada, como a ribeirinha, seja para uma área de um ecossistema atingido. Um processo de desenraizamento, violência e rupturas socioafetivas – sob a égide da racionalidade do capital – estende-se também aos trabalhadores desses empreendimentos e de seu núcleo familiar.

Vimos, com Duarte (2009), Ribeiro (2002), Froelich (2001) e Nova (2000), que a desterritorialização principiada por esses projetos integram um ideário desenvolvimentista e de progresso que acabava por ocultar o avesso dessa história: trabalhadores e familiares constrangidos a se mudar ou permanecer em uma localidade por exigência do trabalho e do não trabalho (vivência do desemprego e da ameaça deste nos períodos de reestruturação e pós-privatização), acrescida a uma rígida disciplina laboral.

Com o material narrativo apresentado ao leitor, pudemos ter acesso a uma versão da história pouco falada e até mesmo encoberta por uma versão “oficial”, voltada para a exaltação dessas obras, tidas como símbolos portentosos da modernidade. Isso fez com que essa realidade fosse mais bem compreendida em sua complexidade e paradoxos, entretanto, demanda novos estudos e pesquisas que envolvam outras áreas de conhecimento a fim de ponderar sobre as diferentes repercussões socioambiental, político-ideológica, subjetiva e cultural.

Ao debruçarmo-nos sobre esse tema de pesquisa, pudemos verificar no material narrativo e bibliográfico a pluralidade dos modos de ser-trabalhar-viver dos barrageiros e seus familiares. Compreender sua realidade material e imaterial exigiu considerar a diversidade das condições de trabalho, de moradia, de relações sociais e subjetivas. Em seus respectivos enredo familiar e trajetória social, delinearam-se histórias de vida cujos nós sociopsíquicos permitiram conceder visibilidade às distintas temporalidades, espaços e relações que imprimiram diferentes matizes de significados aos (des) encontros trabalho-família. Estes possuíam variabilidade conforme a modalidade de vínculo estabelecida com o trabalho, os membros familiares, o local de moradia, os lugares de procedência, os sentidos da distância e os projetos de vida.

A temporalidade das narrativas expressou o tríplice presente da existência, do tempo que se torna humano ao ser narrado. O trabalho de historicidade, contido no ato narrativo, permitiu resgatar um passado, que traz marcas no presente, e examinar o tempo atual, que incute sonhos em um futuro não distanciado, mas almejado ao propiciar elaborações e no qual possa haver lugar para o desejo ser concretizado.

O olhar e a escuta que dispensamos ao processo narrativo permitiram apreendermos seu papel interventivo ao conferir aos nossos narradores um reapoderamento da história pelo narrar, logo, novas formas de assumir o presente e antecipar o futuro, sem dispensar a apreciação do passado.

As recorrentes migrações laborais que mobilizaram e imobilizaram essas famílias tiveram como principais momentos de crise a partida e a chegada. Tanto uma quanto outra fizeram os sujeitos sociais encararem o cenário de vida perdido, posicionando-os em um horizonte a ser conhecido, ampliado e reconstruído. Vivências singulares, capazes de desenraizar como também promover novos enraizamentos. As principais formas identificadas desse processo paradoxal de ganhos e perdas, de encontros e desencontros é viver a migração como algo “bom” e “ruim”, expresso em seus relatos. Ao mesmo tempo que a mobilidade permite explorar e descobrir novos modos de vida, traz desagregação e perdas.

Uma saída criativa que os nossos narradores construíram foi fazer uso da própria polissemia do trabalho, geradora de contradições que faz o labor ser vivido em sua positividade e negatividade (humaniza e desumaniza). Ou seja, os membros familiares concentraram um projeto de vida comum em torno do trabalho do barrageiro, uma via estratégica de os manter reunidos mesmo estando imersos na distância físico-geográfica. Nessa premissa, a família adquiriu uma função enraizadora para seus membros, e o sentido do trabalho, em sua negatividade, pôde gerar rastros de positividade quando os narradores fizeram uso do labor como uma atividade que futuramente viria lhes proporcionar a realização de projetos, inclusive os que remetessem ao seio familiar. Esse projeto permitiu elaborar dois recursos para vivenciar essa conjuntura. No primeiro, a família torna-se um lugar existencial e simbólico, de referência, logo, de territorialização. Assume um locus existencial para se contrapor a despedaçamento dos sentidos, à perda das referências geográficas e afetivo-sociais. No segundo, enquanto função enraizadora, permite ao ser humano uma superfície a enraizar sua existência coletiva, comunicar suas experiências e conservar os tesouros do passado referentes à sua história de vida – além de propiciar antecipações de um futuro.

Todavia, como havíamos sinalizado, essa estratégia não está livre de paradoxos, pois a construção de sentidos, além de ser permanente, não impediu a imersão em um sofrimento ético-político, cuja principal dificuldade é poder localizar e combater as causas vinculadas às transformações perversas no universo do trabalho que, por sua vez, impelem a vivências migratórias que beiram à errância ao sobrepor o tempo do trabalho sobre o tempo da vida.

Para compreender melhor isso, vejamos algumas condições promotoras do deslocamento e da permanência, que sofreram uma paulatina deterioração em seus recursos materiais e imateriais, nos seguintes aspectos: 1 - o desaparecimento das vilas que garantiam tanto a moradia para o trabalhador e sua família quanto um convívio oportunizador da tessitura de novas relações desse grupo social, sujeito a constantes mobilidades; 2- as condições de migração tornaram-se precárias por não haver recursos (ou estes serem ínfimos) para as mudanças posteriores, como também por não possibilitarem a caracterização de um vínculo de trabalho a longo prazo; 3- as instituições capazes de integrar os trabalhadores e seus entes familiares foram desmontadas, desaparecendo serviços de suporte até então garantidos pela empresa e/ou pelo Estado; 4- o campo de negociação do trabalhador em relação à empresa tornou-se excepcionalmente frágil, pois a possibilidade de deliberar conjuntamente sobre quando, como e quem mudar não é mais relevante; 5- a família passa a não integrar mais esse projeto de vivência cotidiana conjunta (tanto para a empresa como para o trabalhador), pois acompanhá-lo tornou-se algo dispendioso e até mesmo inviável quando condições de trabalho e permanência (fosse na empresa, fosse na cidade de moradia) reduziram-se a curto prazo e tornaram-se desconhecidas.

Como visto, as transformações no mundo do trabalho – rastros da negatividade – pronunciadas pela racionalidade econômica neoliberal, desarraigaram de modo abrupto o cenário existencial dessa unidade socioprofissional, conferindo parcos espaços de sociabilidade, de construção de vínculos e tempo de elaboração do luto, pois o curto prazo passou a ser infligido à extensão da vida humana.

Tempo esse que se tornou comprimido nos prazos a serem cumpridos e incertos em suas possibilidades garantidoras de manutenção da atividade produtiva (mesmo estando aposentado), o que interferiu diretamente no atributo narrativo, capaz de comunicar experiências e de elaborar um modo de vida conhecido para dar espaço a um novo a ser ponderado e reinventado. Dificuldades experimentadas concomitantemente no universo do trabalho e na busca de um lugar na família, fosse para quem partiu, fosse para quem ficou.

Os paradoxos da busca por esses lugares de vida no trabalho e na família se manifestaram em cisões na vivência de gênero, no estranhamento provocado pela distância (capaz de fragilizar vínculos), no deslocamento de papéis assumidos no seio familiar e no desamparo diante de um futuro desconhecido e incerto.

Contudo, como mencionamos, para contrapor essa realidade, as famílias de barrageiros acionaram recursos no próprio trabalho – rastros da positividade –, ultrapassando essa categoria como simples meio de se manter financeiramente. Vemos desse modo a polissemia do trabalho e os processos de subjetivação por ele veiculados ao construir ao seu redor significações do projeto familiar, dos arranjos familiais (a fim de suprir a ausência do chefe de família) e dos vínculos sociais outrora estabelecidos nas relações de vizinhança e de comunidade no período dos núcleos residenciais de barrageiros.

Cada família buscou elaborar seus quadros de vida (em constante transformação) de maneira que novos encontros entre trabalho e família pudessem ser forjados para superar os desencontros sofridos. Isso denota uma singular capacidade dessa unidade social de engendrar diferentes arranjos familiares, tais como as peças de um caleidoscópio em movimento.

Entretanto, tais arranjos se reportaram muitas vezes a mudanças que tenderam a conservar os mesmos papéis e funções, como o trabalho reprodutivo focado na mulher e o produtivo, no homem. O desafio de cada uma dessas famílias seria poder reinventar uma nova disposição com seus entes onde uma horizontalidade partilhada e mais igualitária pudesse ser experimentada entre os seus membros.

O que queremos dizer com isso? A dinamicidade dos arranjos familiares deu-se no movimento dos papéis e das funções, ora mantendo a tradicional figura patriarcal, ora afastando-se dela. Porém, mesmo que esses deslocamentos fossem feitos, não identificamos uma ruptura capaz de sobrepor o caráter centralizador na figura masculina enquanto definidora dos rumos e da provisão familiar. Isso porque os espaços do compartilhar das decisões, dos cuidados, da educação e da gestão doméstica, embora se concentrassem na mulher, mantinham ao redor do gênero masculino a posição decisória principal, mesmo estando esse cônjuge/pai a distância. Tal saída permite inferir que essa configuração familiar centrada no homem foi um meio encontrado para não romper com essa tradicional divisão de gênero e correr o risco de uma cisão familiar – em alguns momentos mais fragilizada por sofrer o processo migratório.

Mesmo assim, a instância familiar é dinâmica, pois se trata de uma instituição (possui caráter histórico e vincula-se a distintos jogos de poder) passível de ressignificação e de um constante rearranjar. Vimos nas famílias Topázio, Citrino e Safira essa reconfiguração em andamento com o retorno do barrageiro para casa. Independentemente da sua volta efetivada ou iminente, percebemos nessas famílias um processo de reaproximação, de uma relação face a face que busca lidar com o estranhamento provocado pela distância em seus modos de ser-trabalhar-viver.

Seus membros vivenciam uma atividade de elaboração, muitas vezes marcada por crises relacionais. Contudo, estas podem ser entendidas como uma oportunidade de se redescobrir e se reinventar em seus vínculos afetivos, em seus papéis e funções, quem sabe, modos mais compartilhados e igualados em suas demandas singulares a serem expostas e negociadas.

Em nosso tripé teórico-conceitual, apreciamos a categoria dos barrageiros e suas famílias imersa em uma trajetória socioprofissional com inúmeras situações de enlaces e desenlaces. Percebemos que a fragilização dos vínculos, dentro e fora do labor, deu-se prioritariamente pelas transformações no contexto de trabalho neoliberal, como apontamos ao longo do livro. Assim sendo, a monocultura temporal, expressa pelo tempo do mercador, imprimiu uma heterorritmia, cadenciando vidas ao tom das cifras calculistas do lucro.

Disso decorre a necessidade de debatermos a privatização para além de sua natureza jurídico-econômica a fim de ponderarmos sobre os impactos humanos em termos psicossociais, políticos e ideológicos em andamento. Examinarmos, de modo mais abrangente e aprofundado, a transformação ensejada nas relações dos agentes produtivos (iniciativa privada – neoliberal) com a sociedade. Percurso necessário para desvelarmos os efeitos nefastos da destituição do cidadão para ascensão do consumidor, dominado pelo poder gerencialista.

Gaulejac (2007) é categórico, em sua minuciosa análise do perverso poder gerencialista que culmina na fragmentação social e no sofrimento psíquico, ao demonstrar o confronto instaurado entre o tempo do capital versus o tempo da vida. O que isso significa? A sociedade ocidental, que mede o tempo em função do mercador (o coeficiente do capital representado pelo dinheiro), tornou a vivência temporal abstrata e aprisionadora. Calcula-se o tempo em função dos prazos, das metas e dos planejamentos do capital que almejam apenas o lucro. Tempo esse descolado do tempo de vida propriamente humano.

Por vivermos em uma sociedade centrada no trabalho e modelada pela racionalidade capitalista, a temporalidade imposta à humanidade se fez heterorrítmica porque infligiu uma cadência de ritmos destoantes da vida humana, da natureza e do biológico. A principal consequência disso é produzir rupturas e desligamentos das necessidades fisiológicas e sociopsíquicas da dimensão existencial, desde o tempo de repouso, de alimentação, de envelhecer e lazer até o tempo de elaborar um luto, de construir/sustentar vínculos e manter um cenário de vida.

É preciso rememorar que a relação e a significação estabelecidas do ser humano com o tempo possuem dimensão histórica. Não se reporta a algo dado, mas socialmente constituído ao longo do curso da história, portanto mutável, como Elias (1998) demonstra em sua obra. É importante atentarmos para esse aspecto, pois, se produzimos uma relação tirânica no/com o tempo, podemos nos rever nesse processo (considerando o tempo de vida) e constituir outras possibilidades mais humanas e idiorrítmicas de modo a forjar outros processos civilizatórios e subjetivantes que contraponham aquele que está instituído. Todavia, para mudar, é necessário examinar o tempo (im)posto e seus efeitos.

Vimos um tempo hegemônico de direção única, pois é impositivo e desagregador ao fixar o tempo do trabalho (do mercador) sobre todas as outras necessidades humanas: “A adaptabilidade e flexibilidade são exigidas em mão única: cabe ao homem adaptar-se ao tempo da empresa e não o inverso [...]. É preciso que o tempo seja útil, produtivo e, portanto, ocupado” (Gaulejac, 2007, p.78-79).

Nessa lógica instrumental e produtivista, o indivíduo é compungido a estar disposto a abandonar seu horizonte de vida, seu trabalho, seus lugares, suas relações e seus afetos para se manter “empregável”. Essa é a disritmia nos modos de vida, estabelecida pela racionalidade do capitalismo neoliberal. Poder voltar-se para a dimensão de perdas e ganhos humanos que ultrapassem a lógica financeira está cada vez mais distanciado nessa monocultura. Logo, as discussões e ações que incluam o debate da conquista de garantias, direitos, suportes e redes de apoio estão ausentes da pauta do capital e seu poder gerencialista.

A contemporaneidade, segundo Gaulejac (2007), é de uma guerra econômica, cuja obsessão é o rendimento financeiro. Um poder gerencialista que captura a subjetividade e enreda consigo a trama existencial. Gerencia-se para além dos espaços da fábrica e do escritório. Diante da pressão e das ameaças constantes em um contexto com elevados níveis de desemprego e de um mundo à beira de um colapso, a família também é gerenciada, bem como as relações afetivas e sociais.

Assumir um lugar no trabalho e na família, nessa lógica do capitalismo financeiro, segue essa mesma esteira: a família torna-se uma pequena empresa que consiste em produzir indivíduos empregáveis. Gaulejac (2007) assinala que o casal dispõe seus recursos econômicos, cognitivos, afetivos e relacionais para garantir a ascensão do filho no mercado. A filiação é alvo de maciços investimentos e a atividade produtiva dos cônjuges tem por finalidade garantir o futuro trabalho de seus descendentes. A educação e desenvolvimento de atividades voltam-se para esse fim. De certa forma, vemos essa realidade repercutir no horizonte dos nossos narradores, uma vez que o projeto de trabalho amalgamado ao da família é garantir o sucesso do filho na luta por um lugar no mercado de trabalho. O longo prazo da família foca esse intento ao se planejar para a garantia da educação dos filhos.

Nessa conjuntura, os projetos humanos assentados na intersecção trabalho-família sofrem as reverberações das transições do mundo do trabalho, implodindo o liame do dentro e fora do labor. Suas ressonâncias na vida familiar e doméstica fizeram-se perceptíveis por meio da vivência dos conflitos, mal-estar, anseios, desamparos e (im)possibilidades, manifestados em formas de ser-trabalhar-viver dos barrageiros.

O mundo aberto por essas narrativas, embora se refira a uma categoria profissional específica, a do barrageiro, não deixou de conferir espessura social e histórica aos modos de existir contemporâneos, uma vez que expõe formas de habitar, experienciar o tempo e se relacionar, típicos da atualidade.

Observamos aproximações e distanciamentos acerca dos modos de ser-trabalhar-viver, anunciados por nossos narradores. As especificidades de ser familiar de barrageiro foram engendradas mediante a experiência de construção de recursos e de estratégias que permitissem lidar com as vicissitudes dos contextos sócio-histórico e político-econômico, desencadeados pelas demandas do trabalho e da migração.

Deparamo-nos com a típica família nuclear, porém a vimos tal qual um caleidoscópio a volver com o movimentar das peças, gerando distintos arranjos, cuja principal força a gerar impulso foram as exigências do trabalho. Foram elas que dispararam acordos e negociações no âmbito afetivo familiar, designando quem vai e quem fica, geralmente, fixa a família para correr atrás do trabalho. E ficar sem o trabalho, já que esse dificilmente se torna algo fixo, é ficar sem a família. Isso não isentou o risco nem apaziguou os paradoxos da distância familiar e sua possibilidade de dissolução. Aí reside uma das principais contradições, geradoras de (des)encontros trabalho-família, em que distintos recursos materiais e imateriais são acionados para lidar com a elaboração de perdas e reparação dos vínculos – persistindo seus efeitos mesmo depois do retorno do trabalhador para seu núcleo doméstico-familiar.

A partir das referidas considerações, afirmarmos ter sido o campo relacional e cotidiano um ponto de análise fundamental para averiguar os nós sociopsíquicos da intersecção da macro com a micro história, do coletivo e individual, do social e subjetivo. Essa instância da existência é um cruzamento dessas dimensões da vida humana, sobre a qual se voltam os estudos da psicossociologia: “é na vida cotidiana que as transformações ocorrem, na relação e pela relação, e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva” (Carreteiro, 2001, p.107).

Conforme Castro e Araújo (2001), buscamos superar análises cindidas que se voltam de modo reducionista às forças prepotentes das “estruturas” e dos “grandes processos sociais”. Com os referidos autores, reconhecemos o sujeito dotado de originalidade e autonomia, haja vista que os processos sociais não podem regular de modo absoluto a conduta individual, o que permitiu figurar em nosso material analítico as resistências, paradoxos e criações. Ao comportar o que é prosaico, ordinário e rotineiro, o sujeito, em seu cotidiano, percebe oportunizado um espaço para ações criadoras e avista o inesperado, constituintes da arte da existência como uma obra in statu nascendi (Todorov, 1999, p.178).

Nessa dimensão, a história adquire concretude e materialização, especialmente ao requisitar a memória mediante o trabalho narrativo, capaz de evocar as tramas da historicidade. A história, de uma força disforme e distante, passa pelo crivo da singularidade e da rotina. Ali é onde o sujeito pode manipular as coisas, e não somente ser manipulado, e põe em ação seus saberes e desejos.

Conferimos relevo ao território enquanto quadro de vida, como nos diz Milton Santos (2002), ao integrarmos uma leitura sociossubjetiva, articulada à tríade tempo-espaço-relação, cujo cerne foi o cotidiano. Isso nos reporta a Simmel (2005), em seu texto “O estrangeiro”, ao circunstanciar de modo similar esse campo de análise sobre o qual nos detemos: “[...] as relações concernentes ao espaço são, por um lado, apenas, a condição e, por outro, o símbolo das relações entre os seres humanos” (Simmel, 2005, p.265).

Ayres (2008), nas trilhas da hermenêutica, reconhece o cotidiano como esfera de ação e da práxis, das experiências concretas, do vivido, em que se estabelecem relações e interações entre sujeitos, grupos, comunidades e instituições. É o locus existencial em que são concatenados interesses, valores, decisões e saberes. É nas experiências cotidianas que encontramos, mediante a linguagem, a sabedoria prática (phronesis), outra esfera de saber. Abrir-se para elas é conhecer como se processam escolhas, decisões, compreensões perante as vicissitudes e demandas postas para a existência.

Diante disso, vimos que a narrativa, enquanto linguagem, é ato, pois manifestou a singularidade de cada ser social em sua condição e realidade, uma vez que a existência e a experiência se expressam em palavras e ações. Com Lebrun (1998), buscamos não apenas levantar novas questões, mas estarmos abertos a outras respostas, versões da verdade e do vivido: “Sob a História, com H maiúsculo, existem as histórias; sob as venturas ou desventuras, existem narrativas individuais [...]” (Lebrun, 1998, p.50).

Para finalizar, faremos duas últimas considerações. Sobre o sofrimento ético-político e o fechamento aberto desta pesquisa.

Com Sawaia (2010), debatemos que o sofrimento ético-político, além de se referir ao sofrer existencial em suas dimensões físicas e afetivas, é evitável do ponto de vista social e histórico, posto que se trata de uma imposição social, oriunda da racionalidade econômica do capital sobre sujeitos que ocupam posições sociais específicas. No caso do barrageiro, na lógica neoliberal, vemos uma imposição de um tempo de trabalho sobre o de vida, gerador de esfacelamento social, preconceito, injustiça e falta de dignidade. Esse panorama se agrava ao restringir o campo da experiência comunicável, a potência criadora e o apoderamento da realidade. Logo, a subjugação de pessoas ao torná-las impotentes para resistir, gozar da liberdade e da felicitação social.

Isso não significa isentar os afetos, como a alegria e a tristeza, mas fazer de ambos um caminho de contraposição e exame da realidade na gênese do seu sofrimento, não se reduzindo ao âmbito relacional familiar ou individualista. Tampouco significa abolir todas as formas de incerteza e insegurança, dimensões do existir, mas poder lidar com estas, ao entretecer laços sociais e firmar vínculos de pertencimento sem autoritarismo e subjugação, tal qual faz o tempo da monocultura do capital sobre o tempo da vida.

A desconstituição dos espaços de sociabilidade, de reciprocidade e de solidariedade fragilizou essa categoria socioprofissional. O grande receio desses familiares de barrageiros é não garantir meios de sustento financeiro ao lar e ter impossibilitada a proteção de seus filhos. Portanto, de não conseguirem angariar recursos para educação e inclusão social e profissional de seus descendentes.

Nesse viés, debruçar-se sobre o social sem dispensar a subjetividade e toda a experiência humana atrelada ao afeto, é podermos reencontrar modos de não perder a singularidade ao mesmo tempo que podemos nos ligar ao outro. Reaver a experiência comunicável, do narrador benjaminiano, capaz de qualificar as relações humanas e dimensionar o que é “bom” ou “ruim”, o que evitar e do que não abrir mão. Olhar para nós mesmos sem dispensar a ação coletiva. Seja no espaço familiar, no campo social, seja no trabalho. Urge uma necessidade de refundarmos processos democráticos e sociais na contemporaneidade para resgatarmos dispositivos de coletividade e participação que têm sido massacrados e deslegitimados pelo mercador.

Resgatar a experiência de uma distância que não quebre o afeto nem recaia em uma visão ensimesmada, restritiva da potência do viver-junto que Barthes (2003) nos convidava a pensar. Poder usufruir da ternura em termos éticos e políticos. Aprender a pensar os nós sociopsíquicos como vias a serem percorridas com a finalidade de reconhecer os afetos e as subjetividades, não apenas na dimensão da brandura e da felicitação, mas também da tristeza e do sofrer da condição humana. Seria poder vivê-los, nomeá-los e negociá-los de modo legítimo no campo social, inclusive do trabalho e da família.

Um viver-junto no trabalho e na família a ser construído e experimentado em relações capazes de conjugar singularidades. Compor com distintas idiorritmias um ritmo coletivo, que não mais sobrepuje de modo degradante o tempo da vida. Avistando isso, poderíamos viver-junto o tempo, espaço e as relações, em um tríplice presente a ser narrado em outra lógica que não fosse exclusivamente a do dinheiro nem a da monocultura do capital.

Enfim, se nos delongamos até aqui, foi porque tivemos de lidar com o infindável trabalho de interpretação do mundo do texto, portanto, da existência humana. Sendo assim, não esgotamos perguntas e respostas tampouco o tema de pesquisa. As questões abriram-se, assim como nosso horizonte que, apenas ao ser percorrido, pôde ser avistado em sua amplitude. Tal como Ricoeur (2008), deparamo-nos com a interpretação que não é um saber absoluto, pois, ao desvendarmos o texto, avistamos um mundo a ser continuamente aberto e (re)descoberto.

Esperamos, assim, neste fechamento aberto do livro, expandir o convite para que outras narrativas desse tema possam continuar a ser construídas e compreendidas nos campos da ciência e do vivido. Continuar narrando, tal como Sherazade, seria um meio profícuo de manter a vida, sobreviver à perversidade lançada no universo laboral nos moldes neoliberal e de ponderar sobre os (des)encontros trabalho-família. Meio esse de recusar o aviltar da vida humana. Para tanto, insistimos, é preciso continuar a narrar, seja o conhecimento, seja a vida. Há muitas histórias (ainda) não narradas a virem e serem recebidas no mundo, conferindo voz e desvelando outras versões da realidade.