(Des)encontros trabalho-família: quem fica quando o trabalhador parte

Daniele Almeida Duarte · Capítulo 4 de 6 · parte 1/4

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(Des)encontros trabalho-família: quem fica quando o trabalhador parte

3 - Os modos de ser-trabalhar-viver dos barrageiros e seus familiares

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

3 – Os modos de ser-trabalhar-viver

dos barrageiros e seus familiares

 

[...] viver é um rasgar-se e remendar-se.

(Rosa, 1985, p.88)

Para nos aproximarmos do horizonte dos narradores, os dois subtítulos seguintes estão organizados de maneira a contemplar a narrativa em suas singularidades e generalidades. A seção “Narrativas da família Topázio, Citrino e Safira” teve como objetivo a discussão da produção narrativa das respectivas famílias e seus principais temas de análise identificados. Na última seção “As narrativas em diálogo: generalidades e singularidades”, realizamos conversações entre os diferentes horizontes narrativos para que pudéssemos ponderar sobre os aspectos heterogêneos e homogêneos que compõem o universo sociopsíquico dos barrageiros. Nesses termos, visamos explicitar as diversidades, as singularidades e os aspectos gerais que se destacaram nas narrativas que vieram ao mundo.

Os narradores

Apresentamos abaixo o quadro das três famílias e informações gerais para que o leitor possa conhecê-las, situando a composição

familiar e as cidades de trabalho do barrageiro1.

Quadro 3 – Apresentação dos narradores.

Família Topázio

Membros familiares - Jonas (barrageiro

aposentado) é casado com

Sara, pais de 3 (três) filhas:

Flor, Raquel e Débora.

Narradores - Jonas (barrageiro);

- Sara (esposa);

- Raquel (filha);

- Débora (filha).

Estados/hidrelétricas- Morou nos estados de São

de trabalho do Paulo, Mato Grosso do Sul,

barrageiro Mato Grosso, Santa Catarina,

Paraná e Rio de Janeiro.

Trabalhou em pelo menos 6

(seis) hidrelétricas e

posteriormente em construção

de ferrovias.

Família Citrino

Membros familiares- Davi (barrageiro aposentado

que continua a trabalhar no

mesmo ramo) é casado com

Lia, pais de 3 (três) filhos:

Mateus, Lucas e Janine.

Narradores - Davi (barrageiro);

- Lia (esposa).- Davi

(barrageiro);

- Lia (esposa).

Estados/hidrelétricas- Morou nos estados de São

de trabalho do Paulo, Mato Grosso, Paraná e

barrageiro Santa Catarina. Trabalhou em

pelo menos 6 (seis)

hidrelétricas.

Família Safira

Membros familiares - Thiago (barrageiro

aposentado que trabalha em

outro ramo) é casado com

Ana, pais de 3 (três) filhos:

Alberto, Alfredo e Júnior.

Narradores - Thiago (barrageiro);

- Ana (esposa).

Estados/hidrelétricas- Morou nos estados de Minas

de trabalho do Gerais, São Paulo e Paraná.

barrageiro Trabalhou em pelo menos 4

(quatro) hidrelétricas.

 

Narrativas das famílias Topázio, Citrino e Safira

Família Topázio

Notas iniciais

Atualmente, parte da família Topázio vive junta, mas isso não foi sempre assim. Moram hoje na mesma casa Jonas, Sara e Raquel. As outras duas filhas casaram-se e foram residir em estados nas regiões Sudeste e Sul.

O trabalho em barragens, ao mesmo tempo que os aproximou, distanciou-os. Ser barrageiro lhes trouxe condições de fundar uma família, constituir um casamento e ter três filhas. Porém, também propiciou afastamento e vidas momentaneamente separadas, em cidades distintas, o que trouxe marcas indeléveis na convivência atual, cujas expressões afetivo-relacionais ainda exalam perdas, rancores e fragilidades. A (de)(re)composição nos arranjos familiares ao longo de sua história e trajetória permitiu a assunção de outros papéis para além da centralidade da figura paterna. A função do pai provedor, fulgurado de autoridade e centro das decisões desse grupo, tem partilha proeminente com a segunda filha, Raquel, quem assume as responsabilidades de administrar a renda, construir a casa e deliberar os destinos do grupo perante as situações experienciadas em meio às mudanças de cidade, de trabalho e do próprio seio familiar.

Nas narrativas da família Topázio, percebemos como se operaram os vínculos sociopsíquicos, os (des)encontros gerados entre trabalho e família e como estes puderam se organizar material e imaterialmente para lidar com esses cenários. Tratam-se dos denominados “nós interprocessuais”, constituídos no estreito encontro entre as vivências pessoal, familiar e social (Pagès, 1986, apud Carreteiro, 2003). Conceito da psicossociologia que, de modo semelhante, Gaulejac (2006) denomina “nó sociopsíquico” para se referir aos fenômenos que se constituem no entrecruzamento social e psíquico.

Em face disso, a família resplandece como um grupo social dinâmico, repleto de vivacidade, haja vista que as experiências concernentes aos referidos cenários estão sendo elaboradas psiquicamente, de modo singular e grupal.

A família Topázio vive agora uma recomposição familiar com o retorno do pai, aposentado e com missão cumprida: construir a sua casa própria. Porém, a família encontrada por ele não é a mesma família anterior. Os papéis estão sendo profundamente rearranjados. No momento, a filha procura abdicar da posição de “responsável” para que seu pai assuma a de chefe de família ou provedor.

Imersa a um estranhamento, a figura materna, por sua vez, experimenta o tríplice retorno do cônjuge: o marido que trabalhava distante; o pai que estava fora; e o esposo aposentado. Um tempo e um lugar a ser recompostos para se constituir uma (nova) relação.

Demonstraremos, por meio das migrações – ocasionadas por transferências (pela mesma empresa), por nova contratação e por desemprego –, os modos de ser-trabalhar-viver que a família construiu e teve desconstruídos. Apontaremos nessas as principais transições que a família sofreu, o que interferiu de modo direto em sua existência social e subjetiva.

Observamos que, em cada lugar onde o lar foi construído, uma simbolização diferenciada pôde ascender, o que figura uma moldura existencial, expressa nas particularidades tempo-espaço-relacionais. Cada localidade, onde a família morou junta, trouxe reminiscências e afetos diversos. Contudo, é na cidade em que mais tempo moraram, localizada no Paraná, durante dezoito anos, que está a fonte de sabores e dissabores que os fez renunciar desejos e projetos de vida até então almejados. Essa saída os faz lembrar, com prazer e pesar, a aurora da vida em família, na infância e juventude das filhas, propiciadas por meio do trabalho de seu pai no Bambu. É revivida a decadência dos planos e a sensação de um lugar que, até então, parecia próximo a um “paraíso perdido”.

Essa partida trouxe não somente novos deslocamentos espaciais e relacionais, mas também o avistar de outras possibilidades de vida. Momento de recobrar o desejo e rearranjar os vínculos familiais. Percebem, não sem conflitos e tensões, que a família continua a ser construída para além da casa própria, do trabalho e das barragens.

Enredo familiar e trajetória social: da construção de barragem à edificação da família

Em 1963, com 18 anos de idade e solteiro, Jonas começa a trabalhar em um dos maiores empreendimentos de UHE do estado de São Paulo. Mecânico de máquinas pesadas (tratores, carregadeiras, motorniveladoras e caminhões), envolvidas na construção de hidrelétricas, passa a integrar a equipe de empreiteiras contratadas para o início da obra. Posteriormente atua em outra UHE, durante oito anos, localizada no rio Paranapanema, região fronteiriça entre o estado do Paraná e o de São Paulo. Reside no estado paulista, nesse período, quando conhece Sara, com quem se casa em 1970.

É transferido para uma UHE no centro-sul do Paraná. Casado e com duas filhas nascidas, mudam-se e permanecem dois anos nessa região. É a primeira mudança que a família experiencia, junta, sendo também a primeira de Sara, que nunca havia saído da cidade natal, no estado paulista. Sua narrativa, capaz de nomear um encontro amoroso, ocorrido no contexto das barragens – onde um baiano (Jonas) conhece uma paulista (Sara) –, também faz reportar a uma vida que o jovem casal estava por desbravar em outros territórios, típica de um barrageiro: “Barragem é uma vida assim que eles não ficam sempre em um lugar só. Mora um tempo num lugar, depois outro tempo em outro. Com esse meio de tempo eles conhecem pessoas” (Sara).

Embora se casar com um barrageiro, em suas palavras, tenha sido um “privilégio”, por oportunizar conhecer vários lugares e pessoas, a mudança para longe de sua família extensa, distante da cidade onde viveu e cresceu, traz-lhe apreensão e sofrimento, pois nunca havia se desgarrado desse entorno geográfico-afetivo: “Eu nunca tinha mudado. Longe da família eu sofri bastante, mas eu não podia deixar o marido porque nós ficamos juntos, graças a Deus” (Sara). Acompanhar o marido era imperativo para si, pois casar significava estar junto, inclusive geograficamente.

Esse sentimento é reiterado quando Jonas não integra mais a empreiteira em que prestava serviço na obra do centro-sul do Paraná e, desempregado por seis meses, busca outro trabalho – o que o leva a outra região do estado paranaense, a princípio. O casal vivencia a distância pela primeira vez. Sara (grávida) e as duas filhas (crianças) retornam para o estado de São Paulo (a cidade de origem de Sara) nesse período, enquanto Jonas busca uma nova colocação profissional. Essa primeira separação provoca tristeza: “Nossa! Eu chorava de saudade! Tinha um lado que a gente não podia ser separado, né?” (Sara).

Jonas inicia um novo contrato, em uma empreiteira, que prestava serviço para o Bambu. Ao acertar uma casa (destinada aos funcionários desse empreendimento), traz a família do estado paulista e deslocam-se para o Paraguai porque no Brasil, especificamente na vila residencial destinada aos trabalhadores de Bambu, não havia casa disponível, uma vez que a vila estava em construção. Durante dois anos moram no Paraguai até se deslocarem para a cidade do Paraná, na vila I.

No Paraná, nessa vila, Sara e as filhas moram dezoito anos. Para os membros familiares, em uníssono, foi o tempo áureo da vida deles, pois, enquanto houve contrato de trabalho com Bambu, tiveram disponíveis moradia, escola, assistência à saúde, eventos, esportes, lazer e relações de vizinhança – tudo no circuito instaurado por Bambu. Trabalho e família se sobrepunham nos moldes dessa empresa.

Por sua vez, Jonas mora e trabalha nessa cidade do Paraná durante doze anos e meio, especialmente enquanto seu contrato via empreiteira perdura com o Bambu. Findado seu ofício na obra de Bambu, é desligado. Tenta trabalho local sem sucesso e passa a atuar na construção de estrada de ferro, período que principia inúmeras mudanças conforme a duração dos empreendimentos. Aposenta-se em 1995, porém, continua a trabalhar para construir a casa própria.

A época que permanece trabalhando fora, distante do grupo familiar, não é sofrível apenas para as mulheres de sua família, mas também para Jonas. Seu retorno para casa é pontual e espaçado, regressa apenas uma vez por mês e em um fim de semana. Diversas vezes fica mais de um mês sem voltar para seu núcleo familiar. Sobre isso nos diz com um tom de resignação, ao ponderar a respeito do contexto vivenciado, pelo qual não via outra possibilidade a não ser esperar o tempo passar, assim como a situação. Aspecto que encontramos também na dissertação (Duarte, 2009), quando os trabalhadores diziam ser um “mal necessário”, uma circunstância a ser superada. Nas palavras de Jonas, o período distante da família por causa do trabalho é aquele em que “a gente precisa fazer isso, até acostuma. É ruim, mas acostuma. A vida é essa, a gente acostumava [...] com isso vivia e trabalhava. Passava o tempo”. Embora tenha participado do processo de construção de seis barragens, ora identifica-se com a imagem do barrageiro, ora não se identifica por não estar envolvido diretamente com a instalação de turbinas e equipamentos afins, bem como com a operação e a manutenção das UHEs. Sua função, enquanto mecânico de máquinas pesadas e no serviço de terraplanagem, concentra-se nas etapas de edificação inicial que requerem o manejo e reparos de máquinas que prepararam o terreno e o começo da obra. Nesses termos, no seu discurso transparece um caráter identificatório, colado ao barrageiro, pela via migratória, ou seja, o trabalhador de barragens que prepara o terreno, finaliza sua função e parte para outro empreendimento dessa natureza, sucessivamente.

De barragem em barragem, de casa em casa...

Os Topázio assinalam que família de barrageiro aprende a não ser muito apegada com o lugar e as coisas. Espécie de um senso prático que se desenvolve para evitar o desencadear de maiores sofrimentos: “Se tem que fazer, vamos fazer logo!”, afirma Raquel ao recordar uma situação de mudança iminente.

A primeira migração conjunta dessa família consistiu na saída da hidrelétrica do norte do Paraná para outra do centro-sul desse estado, acontecimento marcante porque foi a primeira cidade em que não havia ninguém da família materna: “Era só a gente” (Raquel).

Não foi apenas a mudança em relação ao núcleo extenso da família que trouxe estranhamento, mas também o clima local, bastante distinto do de origem. Essa cena na vida deles permitiu um revigorar de lembranças que deixou rastros capazes de serem reavidos ao compartilharem esse período. Superfície sobre a qual puderam deixar as marcas de sua passagem por meio de recordações da casa que os reunia, do Natal que passavam juntos, das guloseimas que saboreavam e dos afazeres diários no âmbito doméstico.

Uma “região muito fria [...] geada bem forte, chegava a nevar. Eu lembro do chão bem branquinho quando minha irmã ia para a escola, que ficava marcada as pegadas dela no gelo” (Raquel). Esse horizonte continua a ser revelado:

É a minha recordação do centro-sul do Paraná. O centro-sul do

Paraná era a casa sem muro, era o gelo no chão, o presépio

que se movimentava. O vendedor de algodão-doce que

passava nas casas, fazendo o algodão-doce na hora. Eu

sempre pedia para minha mãe comprar e tinha que ficar

guardado o da minha irmã para quando ela voltasse da escola!

(risos). E eu ficava dando voltas ao redor do armário, [olhando]

o [algodão-doce] dela que não podia comer. Então, as minhas

lembranças do centro-sul do Paraná foram essas. (Raquel, grifo

nosso)

Juntos, foram capazes de lembrar com detalhes o cotidiano: o extraordinário frio, a torneira que congelava a água para lavar roupa, a vestimenta no varal que endurecia e a lagoa que congelava. A família descreveu com minúcias sua primeira aventura em um lugar distante: uma casa de madeira trançada, pequenina e sem muros, em uma vila onde havia muitas casas coloridas. Nas palavras de Jonas, muitos “peões” moravam lá, um lugar simples e rústico, porém repleto de lembranças acolhedoras, que iam do algodão-doce ao aconchego do cobertor e do calor familiar que aqueciam os dias frios, conforme relata Sara: “Quando chegavam em casa, aconchegava todo mundo. Todo mundo dormia, se cobria e não passava frio”. Nesse momento os comentários da família dispararam como um turbilhão de lembranças. Rememoraram as brincadeiras realizadas, a descoberta de uma nova paisagem e a tessitura de outro cotidiano.

A permanência da família Topázio foi interrompida no centro-sul do Paraná quando Jonas foi demitido e procurou um novo trabalho que os levaria para além do território brasileiro. Mudaram-se para o Paraguai ao integrar a empreiteira prestadora de serviços para o Bambu.

Morar no Paraguai foi uma permanência que se manifestou em partes. Parte do tempo, parte do espaço, parte da relação, parte da liberdade, parte dos investimentos afetivo-relacional e financeiro. Residiam lá, mas não viviam a cidade em seus recursos além do da moradia. De modo literal, moravam apenas na casa paraguaia, pois a vida deles estava organizada para ser vivida na escola, no hospital, no supermercado, no trabalho e nas demais relações e instituições que fossem brasileiras.

A parte negativa é essa. No Paraguai não tinha muita liberdade.

A gente morava ali... A única coisa que eu me lembro era o

quintal da minha casa. Alguma coisa... um lugar... tinha uma

quadra de esportes, a gente ia patinar às vezes, quando tinha

alguém para cuidar. E o quintal da minha casa. A gente não

podia brincar na rua com liberdade. Não podia... não usava

médico do Paraguai, não usava mercado, nada do Paraguai. A

gente só morava ali. O restante a gente morava no Brasil,

estudava no Brasil. Ia ao médico no Brasil. Qualquer coisa que

precisava ia ao Paraná e não no Paraguai. (Raquel, grifo

nosso).

Interessante notar que as próprias crianças paraguaias que estudavam na escola paga pelo Bambu, no Paraná, conversavam prioritariamente em português, sendo esta também a língua de escolarização. Essa vivência em partes fez que experimentassem também parcelas de proximidade com o idioma, a cultura e a sociabilidade desse povo. Fronteiras demarcadas pelas instituições que Bambu dispôs aos seus trabalhadores e familiares, gerando aproximação e distanciamento:

É uma parte dessa coisa de ser uma usina na fronteira, porque

eu fiz muitos amigos paraguaios. No meu recreio, por exemplo,

eu fazia muita amizade e passava com alguns paraguaios. No

segundo grau, por exemplo, eu tenho amigos até hoje que são

paraguaios que eu conheci no colégio. [...] Só que hoje, meu

espanhol, apesar de eu morar na fronteira, não foi muito bom,

por quê? Porque quando a gente morava lá e tinha contato com

o idioma a gente entendia muito bem o espanhol, mas por ter

amigos paraguaios ainda, eu entendia muito bem o espanhol

por ouvir, ter aquela familiaridade com a sonoridade do idioma,

só que eu não falava o espanhol. Eu respondia em português

porque eles estavam no meu país. A nossa aula era em

português e tudo mais. [...] No recreio elas perguntavam em

espanhol e eu respondia em português. Então, a gente interagia

dessa maneira. Desde criança era desse jeito. Hoje eu falo

espanhol. O fato de ter morado na fronteira me ajudou muito

com o meu espanhol, mas eu tive que aprender a falar

espanhol depois. [...] Você vai ao Paraguai fala em português.

As pessoas te entendem por ser fronteira. Então, no Brasil, a

gente entedia, mas não falava. (Raquel).

Vemos isso se estender nos espaços laborais constituídos na empresa de fronteira, binacional, quando Jonas trabalhou com paraguaios e com quem também se comunicava somente em português:

No serviço tinha amizade com eles [paraguaios]. Mas eles

falavam com a gente em português. Entre eles falavam em

guarani. Eu nunca pude aprender o guarani. Eu nunca

consegui. Trabalhei uns dez anos juntos, no Paraguai, e nunca

consegui aprender o guarani. O mais difícil era isso.

Ao se mudarem para a vila no Paraná, ao ter liberada a casa, depois de dois anos de morada no Paraguai, juntaram-se aos outros trabalhadores e seus familiares brasileiros. A vida foi percebida em sua plenitude, sendo um período tido como tranquilo e regozijante para os Topázio. Um estado de contentamento, expresso no morar, no trabalhar e no viver.

Um aspecto que favoreceu isso foi a modalidade de habitação promovida pelo Bambu, as vilas dos trabalhadores, capazes de promover sociabilidades expressas em uma convivência próxima que estabeleciam com a vizinhança. Os amigos, os vizinhos em especial, eram vistos como a família mais perto, posto que muitas pessoas tinham familiares longe e estavam experienciando uma situação similar: o trabalho em hidrelétricas que os levara a um lugar desconhecido. Essa condição favorecia a abertura ao outro numa relação de troca e ajuda mútua, uma solidariedade estabelecida principalmente entre as mulheres e seus filhos, haja vista que os homens trabalhavam na obra e geralmente faziam turnos e contraturnos para atender aos exigentes prazos da construção da UHE.

A chegada foi apresentada como um dos períodos mais difíceis da adaptação. Momento de se deparar com o desconhecido e o incerto, cartografar o território. Lidar com a perda de vínculos sociais, de perscrutar e ser perscrutado pelo outro. Era o desafio de tornar algo hostil e alheio em algo que lhes fosse familiar e afeito. Poder construir um sentimento de pertença e aceitação, tanto por parte do outro quanto de si mesmo. Encontrar meios de tecer um canto seu no mundo.

Nesse sentido, o contexto das vilas de barrageiros foi revivido, por meio das narrativas, como um elo importante para favorecer o processo de adaptação, tal como a chegada à vila no centro-sul do Paraná, como assinala Sara. Sua origem remontava a estadias em cidades pequenas e, ao se deparar com uma cidade maior, assustou-se. No dia a dia ela não podia contar com o marido para auxiliá-la nessa inserção, pois ele trabalhava o dia inteiro. Quem a ajudou a se locomover na “cidade grande”, em busca de autonomia e resolução das atividades domésticas e familiares, foi a sua vizinha: “– Sueli, como é que eu vou aprender a andar aqui nessa cidade? Essa cidade é grande! Uma vez saímos nós duas e ela falou: – É para você aprender a andar aqui!” (Sara).

Ademais, a vila representava um lugar seguro para criar os filhos. Sabia onde podiam estar e, para chamá-los, ao longo da vila, bastava gritar o nome, do quintal de casa. As crianças retornavam, pulando os muros das casas para cortar caminho e dar menos voltas. Era um lugar conhecido que não representava perigo e aversão. As vilas concediam liberdade e movimento, uma infância que Raquel e Débora afirmam ter vivido com intensa liberdade.

O modo de vida retratado em meio às árvores frutíferas, na plantação de mandioca e milho, na criação de galinha, nos quintais e na vivência compartilhada possibilitou firmar laços. São as molduras existenciais (muitas vezes desprezadas) que Gullar (1997) recupera como o locus do desenrolar da história humana e cujos narradores dessa pesquisa conferem a ele consistência e densidade:

Débora: “A vizinha do lado plantava mandioca, milho. Tinha

gente que criava galinha. Daí o meu pai matava. Ganhei várias

galinhas”.

Raquel: “Ganhava um pintinho, crescia e virava aquele galo

gordo. Aquela galinha gorda”.

Débora: “Bem-criada. Meu pai matava. Olha que sofrimento! Eu

não comia”.

Raquel: “Estava dentro da panela!”.

Essa vivência psicossocial parece ter se perdido nas mudanças posteriores da família Topázio, uma vez que as condições de trabalho não se referiam mais às vilas de barrageiros nem ao deslocamento familiar conjunto. Raquel aponta isso da seguinte forma: “É isso que eu falo, eu não sei se isso acontece com a gente depois, de você não se apegar mais com vizinho ou se é a coisa da obra que coloca esse sentimento na gente”. As mudanças posteriores dos Topázio, além de se darem em condições distintas das anteriores, geraram uma permanência mais curta nas cidades conseguintes, o que os faz lembrar com saudosismo dos anos passados, da proximidade entre a vizinhança e dos laços afetivos formados. Cenário de vida distinto dos atuais. Suas narrativas, nesse contexto, resgatam as amizades que permaneceram, as que ainda buscam dar e receber notícias.

O modo de vida, delineado pelas condições de trabalho e moradia, estabelecido no estado paranaense, vila do Bambu, começou a ser desfeito quando a obra foi sendo terminada e os colegas e vizinhos começaram a ir embora. A família expressa os primeiros desencantamentos antes mesmo de sua partida, ao terem de se despedir de seus conhecidos e ao perceberem as modificações dos contratos de trabalho e função, logo, nas transições das formas de trabalhar, relacionar-se e viver em torno do Bambu.

O caráter temporário de algumas profissões, como a do barrageiro, mais o processo de terceirização das UHEs ampliaram esse universo de mudanças, rotatividade e precariedade de vida dos trabalhadores e seus familiares. O barrageiro é uma parcela expressiva de trabalhadores brasileiros que atravessou a privatização, terceirização e desestatização – frutos do modelo econômico neoliberal que o Brasil adotou para esse setor produtivo. Essa categoria profissional submeteu-se à intensificação da migração em que o impacto do neoliberalismo não se deu apenas no remodelamento de sua atividade profissional, mas também em suas relações sociais, subjetivas e afetivas.

É importante lembrar que a migração está impulsionada

igualmente pela influência do mercado de trabalho e pelas

políticas adotadas pelas instâncias governamentais. Além

disso, é preciso atentar para a interferência da economia

mundial, que tanto redesenhou as ações do governo, ao

incentivar o processo de privatização a fim de corresponder ao

programa neoliberal, quanto alterou as condições e relações de

trabalho das empresas que até então eram estatais. Esse

conjunto afetou a vida desses trabalhadores, de sorte a tornar a

migração uma saída para se manterem empregados e

enfrentarem as novas condições de trabalho. (Duarte, 2009,

p.77)

Os Topázio e seu entorno social encontraram na migração um recurso em busca de novos contratos de trabalho. Contudo, essa partida não foi vivida apenas pelo chefe de família, mas por seus membros e seu contexto social, fosse para quem ia ou para quem ficava. Como Jonas e seus familiares viveram isso? Eram vizinhos que chegavam e partiam de modo mais rápido, denotando o caráter temporário e de provisoriedade da permanência e das relações. Esse cenário é expresso em um tom melancólico, ao se lembrarem de que partir doía e produzia falta. Começaram a ver o caminhão de mudança encostar nos arredores e os colegas irem embora – o que conferia materialidade à separação da pessoa com quem desejavam até então dividir a vida.

Nesse ínterim, a família Topázio – embora se identifique como familiares de barrageiro – menciona ter mudado pouco em relação a outras famílias que conheceram. Todavia, não deixa de trazer com vivacidade os desdobramentos das mudanças deflagradas tanto por seu núcleo familiar quanto por essa categoria profissional.

Os desenlaces da partida deixaram saudade do tempo vivido, do viver-junto e das raízes lançadas em um tempo, espaço e relação. Experimentaram proximidades demonstradas por meio de generosidades e trocas afetivas, expressas nas relações de vizinhança: “Tinha um pastelzinho que eu fazia e ela [vizinha] um bolinho de polvilho. Era só mostrar na janela para mim: ‘Sara! Vem cá!’ Ela [vizinha] trazia. Uma coisa para a outra”. (Sara)

Nas palavras de Sara, foram amizades que beiravam à fraternidade, trocas intersubjetivas, a partir de um contexto de vida marcado pela migração, em que a cumplicidade e o cuidado mútuo – especialmente na rede estabelecida entre as mulheres e os filhos dos barrageiros – podiam reaver a perda e o desamparo em um lugar desconhecido e estranho. A narrativa da família Topázio expressa o valor de amizades que perduraram o período de construção de UHE, atravessando tempo e lugar, cujo sabor anseiam novamente sentir.

As duas faces da mesma moeda: Bambu dentro do trabalho e dentro de casa versus Bambu fora do trabalho e fora de casa

Raquel percebe que, durante o período em que seu pai trabalhou no Bambu, havia apenas uma preocupação instaurada nas relações sociais e afetivas, o trabalho:

Os funcionários só precisavam se preocupar em trabalhar e

manter os mantimentos da casa. O restante o Bambu dava

tudo.Você não pagava aluguel, sua moradia. Não pagava

colégio para os filhos, e o colégio era excelente. O atendimento

médico era excelente. (Raquel)

Vemos esse universo se constituir, centrado no Bambu, dentro e fora de casa, quando os Topázio mudaram-se para o Brasil, na vila do Bambu que, para eles, proporcionava segurança e proteção, liberdade para brincar e se divertir nas ruas com outras crianças. A infância de Raquel e Débora é retratada por atividades lúdicas, como esconde-esconde, andar de bicicleta, de patins, de carrinho de rolimã, realizar passeios por parquinhos e contato com a natureza ao explorar sabores de diferentes frutos da vila. Esse gosto é expresso pelas irmãs ao dizerem não se sentir ameaçadas por nenhuma forma de violência naquele momento. Nem elas e nem seus pais.

Falar das singularidades dessa família é situar seus gostos e desgostos experimentados no contexto trabalho-família. É nomear os encontros e desencontros promovidos por essas instâncias que geram distintos modos de ser e viver. Imagens passadas que marcam suas histórias presentes e esboçam um futuro – o caráter do tríplice presente ricoeuriano, manifestado nessas narrativas. Isso pode ser avistado no discurso de Débora que lembra ainda hoje o gosto da infância e juventude na cidade paranaense:

O gostoso de lá era... era muito cheio, muito arborizado. Tinha

muitas árvores frutíferas. [...] Eu, para ir para a escola, por

exemplo, nessa época do ano... no outono, era mais no outono,

no outono tinha uma casa na esquina que tinha um pé

gigantesco de noz. Noz assim. Antes de chegar à escola eu ia

catando, comendo. E era assim. Forrava, descia. Os carros

esmagavam tudo. Era muito. Não dava conta de consumir. E na

minha casa tinha pé de ameixa vermelha, amarela. Abacate,

laranja. Goiaba vermelha, branca. Na outra casa tinha amora.

Laranja-lima. Nas casas sempre tinham essas frutas. [...] Eu

vivia em árvore, com os amiguinhos. Comendo as frutas. [...] Lá

perto da escola tinha uma coisa que era rara de ver, que

chamava uva japonesa. Eu não sei como era o nome daquilo.

Parece uma raizinha. Você mastiga essa raizinha. Ela é bem

docinha. Então, tinha essas coisas lá. (risos)

Em suas vivências, localizamos gostos que buscam esquecer e outros que desejam sentir novamente. Um sabor ansiado que o tempo não traz mais, pois o gosto reporta a um contexto que permitiu apreciar um modo de vida específico, tal como o rei expressa na narrativa do Omelete de amoras, de Benjamin (2011). A ressonância dessas lembranças no presente nós pudemos observar em dois momentos. No primeiro, as árvores frutíferas que Jonas plantou ao redor da casa atual e defronte à rua – a família nos apresenta os nomes dessas árvores em distintos momentos quando vamos a sua casa realizar a entrevista-narrativa, tornando compreensível a conjuntura desses frutos na vida deles localizadas em um passado não muito distante. E o segundo momento, na narrativa transcrita aqui, em que Raquel, coincidentemente, remete um interesse especial pelo sabor da amora:

Tinha área de muitas árvores frutíferas. Pé de ameixa, de

amora, de limão, de laranja, pela vila. Quando as árvores

davam frutas as crianças ficavam por ali. Eu mesmo era uma

apaixonada pelos pés de amora. Vivia roxa pelos pés de amora.

(Raquel)

Essas narrativas ilustram esse tempo passado que assume uma metáfora do tempo perdido, no qual não se pode retornar pelos meios reais, mas pelas vias abertas do que se faz memorável – instante em que o tempo torna-se humano por assumir a forma narrativa. A dimensão temporal em que podemos nos ver e nos sentir (expondo ações e afetos) torna-se exprimível por meio da linguagem capaz de revelar a experiência do mundo e do compreender que é um modo do ser. É um tempo “cheio” e heterogêneo, repleto de “agoras” que constituem a existência. Um trabalho de historicidade.

Vemos nas narrativas dos Topázio a recuperação do vivido pela via narrativa, em que conflitam o tempo do capital e o da singularidade humana. Tempo recuperado que põe novamente em curso o cenário social e material dos sujeitos em que os processos de subjetivação se instauraram, confrontando e sendo sorvidos. Passemos para mais um trecho da narrativa de Raquel, capaz de explicitar tal aspecto:

E o sabor que eu tinha mais saudade era a farofa do Bambu.

Pensa na farofa boa de soja. Por causa dos nutrientes da soja,

com carne, tinha... eu não sei te dizer se era carne de boi ou se

era carne de soja. Eu só sei que tinha um negócio muito bom lá

dentro. Era farofa de soja. Eu sei que nunca mais na minha vida

eu vou comer com aquele gosto, vou sentir aquele sabor. E até

quando eu saí do colégio, depois voltei para visitar o Paraná, já

tinha mudado de lá, eu tentei entrar no colégio na sexta-feira

para comer a farofa de novo. Porque assim, eu morria de

vontade de comer, porque era muito boa. O leite eu dispensava,

não gostava do leite de soja. Mas a farofa, quando eu não

levava o copinho, eles distribuíam a farofa, até uma certa idade.

Até o ginásio, se eu não me engano, ou até o primário, e eu não

tinha mais direito à farofa, eu sabia que pavilhão era o primário,

por exemplo. Eu ia lá, com papel de caderno, feito um cone,

com uma cara de coitadinha para a inspetora, para ela poder

me dar porque eu não era mais da turma que recebia farofa.

Mas eles davam, sempre tinha... Sempre que você aparecia lá

com o papel elas já sabiam que era criança e elas davam para

a gente. Uma delícia... (Raquel, grifo nosso)

Vemos essa lembrança ressoar com nitidez no tempo presente. Mas um olhar cuidadoso também permite visualizar o controle e inserção capilar que o Bambu tinha sobre as famílias. Dentro e fora de casa. Isso se constituía em uma teia bem articulada nos espaços de sociabilidade geridos por ela: casa, clube, escola, trabalho, eventos etc.

No espaço escolar, vemos a regulação alimentar, a “boa” nutrição da época, como podemos assinalar com a soja no leite e na farofa distribuídos para os alunos. Havia também o acompanhamento dentário (do flúor aos agendamentos com dentistas que atendiam nos espaços da escola, podendo a criança ir sozinha ou acompanhada de seus pais). Além da concepção de ser a melhor escola da cidade, particular e custeada pelo Bambu, o disciplinamento dos alunos imiscuía-se nos espaços sociais gerenciados pelo Bambu. Podia-se acionar diretamente o pai (trabalhador no Bambu), da escola. Um imaginário que amedrontava os alunos:

Ainda sobre o colégio a gente não tinha somente o ensino bom,

no sentido de contratar bons professores, e tal, e até controlar

bem a vida dos estudantes porque eles podiam chamar, falar

com o pai na obra. Esse era o grande medo de todo mundo. O

terror dos alunos era alguém comunicar com o pai no Bambu.

Isso às vezes, em casos extremos, acontecia. Tipo, o aluno não

entrava na linha, tinha como ter comunicação direta com o pai

na obra. Isso era uma vergonha para qualquer pai. Então, o

aluno tratava de entrar na linha, se não, isso podia acontecer.

(Raquel)

Mais adiante, sobre os processos de subjetivação instaurados pelo Bambu, vemos a relação classista instaurada nas condições de urbanização e habitação de suas vilas. Ainda crianças, sem compreender com nitidez, Débora e Raquel se recordam do caráter segmentário que ordenava os espaços e as relações não apenas de trabalho, mas também de moradia e estudo: o Bambu “separava trabalhadores” (Débora). A vila III, na narrativa dos Topázio, era para quem estava destinado à limpeza e conservação, eram casas simples e um colégio à parte, de porte menor. Já a vila II, preparada para os engenheiros, possuía estrito controle da entrada e saída. Havia uma guarita para selecionar quem era autorizado a integrar aquele espaço, o qual era planejado no estilo americano. A vila I, por sua vez, onde morou a família Topázio, reunia uma diversidade maior e tinha casas mais comuns, embora também se diferenciasse em categorias e níveis de conforto conforme o cargo exercido.

Os moradores das vilas I e II estudavam no mesmo colégio. Débora, embora tenha estudado com pessoas da vila II, afirma nunca ter ido a essa localidade, pois não tinha nenhuma amiga mais próxima que pudesse visitar, sendo uma convivência restrita ao colégio. Já a vila III pôde conhecer por meio de amigos de sua mãe que frequentavam a mesma igreja. Quando ia à vila III, chamava-lhe a atenção as condições diferenciadas das casas que pareciam, aos seus olhos, serem de isopor, um material similar ao amianto, formando um galpão arredondado. Eram casas mais simples e de menor valor, comparadas ao padrão do restante da vila.

Bambu definia os espaços de lazer e festividades. Havia clubes que promoviam confraternizações e eventos diversos, dando cestas de Natal e presentes, promovendo colônias de férias e viagens. Os centros comunitários, localizados nas vilas, eram instalações que forneciam aulas de pintura, argila, ginástica olímpica, música etc. Além disso, a estrutura da vila continha parques (escorregadores, balanços), quadras de basquete, vôlei, tênis e campo de areia para usufruto de seus moradores.

Os encontros entre trabalho e família também se refletiam na sobreposição de outros espaços, como acontecimentos que marcavam esses grupos sociais e a própria cidade. Bambu tornou-se um mito em sua época, especialmente no período da construção, por ser considerada a maior usina hidrelétrica do mundo. O porte de suas instalações, a contratação de mão de obra e de equipamentos eram presenciados com admiração e grandiosidade, por exemplo, com a chegada da turbina. A chegada de uma primeira turbina parava o trânsito da cidade, tanto pelo avantajado tamanho quanto pelo que ela representava no imaginário brasileiro: “Era gigante”, como diz Débora. Um caminhão que se locomovia a 20 km/h por não haver outra maneira de transportar uma peça daquela magnitude.

A família nos conta com orgulho o fato de participarem diretamente desse acontecido na história do país e não somente por testemunhar esse fato em sua vida:

Ia gente atrás do caminhão. A viagem um pouco parava, até o

caminhão passar um trecho. Não sei se eles desviavam, não

sei o que acontecia que o trânsito não andava. Parava

literalmente porque o caminhão quase não andava e era muito

grande. Cada uma das peças das turbinas foi transportada

assim, imagina? Nem sei de onde que vinha. De onde vinha?

Onde era construído aquilo? Eu sei que a gente ficava assim...

sabe? É muito grande! É muito grande! [...] a gente viu.

Chegava à cidade: – Pai, chegou, chegou! Ia aquela galera ver

transportar. Aí eles iam ver... faziam o maior estudo para ver por

onde era melhor passar para não interromper o fluxo de carros

da cidade. Era o maior acontecimento a chegada das peças.

Tanto é que os funcionários mesmo ficavam superansiosos ao

chegar. (Raquel)

Todo esse período é memorável com saudosismo. A narrativa da família expressa uma fase confiante de suas vidas que lhes permitiu vivenciar as relações e os afetos de modo mais protegido, seguros uns dos outros. Sem preocupação com moradia, escola, saúde, desemprego e contas para pagar.

Dava todo o suporte que a gente precisava. O Bambu supria. A

melhor época da nossa vida, como família, eu acho.

Principalmente nessa questão financeira de não se preocupar

com essas coisas. Porque a gente foi conhecer o que era ter

um plano de saúde depois que o meu pai saiu do Bambu. Eu fui

saber o que era pagar um colégio no meu último ano. Meus

pais, simplesmente, não se preocupavam com isso. (Raquel)

Todavia, isso gerou consequências, pois uma contradição, instalada nesse período, manifestou-se posteriormente, fazendo-os ponderar que o tempo vivido (na dimensão do aqui e agora) ocultou o tempo em longo prazo. Um Bambu que estava por descartar seus cuidados, quando o trabalhador e sua família não lhe dissessem mais respeito, posto que não haveria mais um contrato de trabalho que a ela se vinculassem:

Isso nem foi muito bom. Porque o que acontece? Algumas

famílias tinham essa visão de que um dia eu vou sair do Bambu

e eu vou precisar de grana para pagar essas coisas. E na

minha casa não aconteceu muito isso. Meu pai deixava a minha

mãe tomar conta do dinheiro da família. E ela não pensava

muito nisso. Não pensava: “Vamos aproveitar enquanto a gente

não paga aluguel, guardar dinheiro, para quando a gente sair

do Bambu a gente tem o dinheiro guardado para ter a nossa

casa”. Então, assim, o lado ruim da minha [vida] no Bambu... da

nossa família no Bambu, foi esse desligamento de todo conforto

que a gente tinha. Porque foi a última usina que o meu pai

trabalhou que dava esse tipo de conforto para o funcionário.

Essas usinas que vieram depois não eram mais hidrelétricas.

Ele trabalhou em uma hidrelétrica e depois firmas que não eram

mais usinas. Eles não davam esse suporte para as famílias.

(Raquel)

Uma redoma que se desfez de modo brusco com os términos de contratos e demissões. A vivência do desemprego, a retomada da casa por parte do Bambu, a não liberação para venda mais a partida do pai, chefe de família, para lugares longínquos e incertos afetaram profundamente a vida dos Topázio.

As condições e relações de trabalho foram alteradas de modo proeminente depois de Bambu, tornando-se precárias e desprotegidas (flexibilizadas em termos trabalhistas e frágeis em questões assistenciais). Além de Jonas trabalhar apenas em mais uma hidrelétrica em Santa Catarina, depois de Bambu, ele e sua categoria profissional já não dispunham de vilas para os trabalhadores nem eram empresas estatais para quem prestava serviço. Ele passou a integrar frentes de trabalho temporárias e volantes em empreendimentos envolvidos na construção de estradas de ferro – deixou de residir em vilas com a família e passou a morar em alojamentos e repúblicas próximas aos canteiros de obras.

Todavia, desde a época de finalização da construção de Bambu, enquanto adolescentes, Débora e Raquel percebiam transformações surgirem em seus modos de vida, advindos da terceirização e da demissão que se instauravam nesses empreendimentos. Começaram a ver amigos partir.

Essa mudança começou a alterar a vida dentro e fora do Bambu, logo, dentro e fora da família. O meio social e a subjetividade explicitam essas transições sociais, econômicas e políticas. O que era seguro e protegido começava a se desfazer: o policiamento e as rondas da vila foram cortados, os serviços de limpeza e conservação cessaram (gramas aparadas e veneno contra mosquitos em geral e os transmissores da dengue não aconteciam mais). A vila começou a ficar abandonada, marginalizada e depredada (inclusive seus antigos moradores). Seria essa uma estratégia do Bambu para que seus moradores indesejáveis não permanecessem mais ali? Histórias de violência e assalto começaram a ser vividas, o que até aquele momento não fazia parte da vida deles.

O discurso da família reverbera que não estava por se perder apenas o mundo do trabalho, mas também seu modo de vida, uma ameaça a sua existência. Passaram a viver a insegurança e a perda iminente da casa. Um desamparo em diversas dimensões da existência social e subjetiva foi vivido: a perda do trabalho, da moradia, da escola, do cuidado à saúde, do lazer, dos passeios, das assistências até então conferidas pelo Bambu. A cadência narrativa da família muda e dificuldades de pessoas próximas conseguirem trabalho são relatadas.

Um testemunho de quem pôde viver o auge e a decadência da vida desenhada pelo Bambu: “A gente viu o processo do começo até entender o que era uma crise” (Débora). Era a face do Bambu que deu e tirou. Contradições vividas nos espaços de moradia e trabalho do Bambu: emprego-desemprego, moradia-despejo, união-separação familiar.

O centro executivo e comunitário, que havia sido o lugar no qual o Papai Noel chegava de helicóptero e distribuía balas e doces para as crianças, passou a ser o ponto de manifestações e protestos para o direito à moradia, ou seja, a luta para conseguir a liberação da venda das casas. Um movimento encabeçado principalmente pelas mulheres, que se revezavam 24 horas no local para demarcar a defesa do direito de moradia. As reminiscências desse lugar são ambíguas: um dia puderam escorregar de papelão nesse gramado, brincadeiras pueris e despreocupadas, outro dia compartilharam o medo e a insegurança de ter a vida escorrendo pelas mãos nesse mesmo gramado. Cenário que gerou transformações, fosse para quem partiu, para quem chegou, fosse até mesmo para aqueles que permaneceram. Bambu e seu entorno não seriam mais os mesmos em suas promessas amplas de desenvolvimento, progresso e prosperidade.

O universo do Bambu principiava o esmaecer na vida dessas pessoas. Perdeu o viço que possuía: “Época do Bambu, que ele estava se desfazendo. Foi a parte que eu mais sofri [...]” (Débora). Desfizeram-se sonhos, desejos, moradas, famílias, trabalhos, amizades etc.

Durante o tempo de Bambu, a família estava organizada ao redor do pai. O trabalhador incansável, que chegava tarde muitas vezes, mas era aguardado com ternura pela família para fazer a refeição em grupo. As crianças recolhidas para casa, de banho tomado, à espera para recepcionar o pai. Depois disso, poder dormir, acordar cedo e ir à escola. Um evento que marcava a rotina doméstica e familiar, representando o “todo mundo ali” (Débora).

Débora confere densidade a esse momento, ao sentir a saída do pai de casa, quando ele não trabalhava mais no Bambu e passou a fazer inúmeras viagens ao atuar na construção de ferrovias. A rotina foi marcada por um estranhamento, uma perda que assumia concretude na ausência do pai nesse cotidiano. Momento de rupturas dos vínculos sociais, como a escola. Sair de uma escola particular para uma pública causou dificuldades para Débora, tanto por ser um contexto novo quanto por dar início à saída do espaço protegido da vila (o colégio custeado pelo Bambu, até então, localizava-se nessas mediações). Uma quebra de vínculos gradativa.

Quando perguntada o que era o Bambu, Débora reponde com eloquência ter sido uma mãe, quem conferia toda assistência. Preocupava-se com o funcionário e a sua família, isentando-os do pagamento do aluguel, água, luz e colégio. Proporcionava segurança e cuidado. Um contexto em que o pai podia trabalhar tranquilamente, sabendo que a família estava segura e confortável.

Embora a vivência que tiveram em Bambu e o que ela proporcionou em termos de qualidade e padrão de vida fossem únicos em sua trajetória, estavam cientes de que, ao saírem de lá, as coisas mudariam drasticamente, o que gerou um intenso receio de perder esse modo de vida conhecido. Esse dia chegou quando Jonas foi demitido e a casa da vila foi solicitada pelo Bambu. Contudo, por ser um momento de conclusão da UHE, os moradores (trabalhadores e ex-trabalhadores do Bambu) dessas localidades estavam informados de que as casas seriam disponibilizadas em breve para venda – direito que muitos deles não conseguiram alcançar.

A pretensão de ficar na casa da vila de Bambu não deu certo. Pleitearam o direito de compra, mas não obtiveram êxito. Um tempo depois que partiram do Paraná, as casas foram finalmente liberadas. O desejo de ter permanecido lá, além de lograr o direito de compra, seria manter um “porto seguro” em meio ao desconhecido que estavam por enfrentar: mudanças de trabalho, saída da figura paterna, perda dos benefícios e assistências proporcionadas pela empresa, afastamento do convívio com amigos e mesmo com os próprios familiares. Após saírem, com uma ordem de despejo constantemente renegociada, mudaram-se para uma cidade do Paraná, próxima à família de Sara, e recomeçaram sua vida com base em outras relações que, para além do labor, eram também da ordem dos afetos e desafios novos enquanto indivíduos singulares e enquanto família.

Esse Bambu, de que estiveram tão próximos de dentro de casa (no espaço das vilas e seu entorno educacional, de saúde e assistencial) até fora de casa (o trabalho), tornou-se cada vez mais distante. A proximidade de outrora se dava através de filmes educativos sobre a obra, transmitidos no colégio, até os passeios e visitas à hidrelétrica em construção. Após isso, Bambu, para eles, tornou-se um ponto turístico. Um cenário de quem esteve tão próximo, em suas imediações, passou a ser um lugar estranhado cujo passe de entrada seria um bilhete a ser pago na condição de visitante. Um imponente empreendimento, então aberto aos olhos do público e dos estrangeiros, quase estranho para quem um dia fez parte desse lugar.

Raquel narra esse processo de construção (do qual o pai participou) com o de desligamento, finalização da obra e terceirizações. Do grande contingente de trabalhadores, mobilizado para esse empreendimento, restou apenas o da manutenção e operação, uma equipe enxuta. Em outro momento, a fala de Raquel exala mais uma vez o paradoxo encerrado nesse universo, onde fica uma deixa:

Mas o Bambu é muito bonito, para quem gosta de arquitetura e

engenharia e tal. Fica impressionadíssimo. Fica com vontade

de chorar porque é realmente muito perfeito. E para mim é

legal. Quero ir lá visitar. Eu preciso me libertar disso, sério.

Preciso me libertar dessa mágoa do Bambu. [...]. Sabe aquela

coisa dentro de você? É impossível em qualquer pessoa,

qualquer ser humano, qualquer filho que teve um pai que

trabalhou no Bambu, pisar lá e não pensar: meu Deus! Meu pai

ajudou a construir isso aqui! Tem a mão do meu pai nisso aqui.

Imagina o tanto de grana que gera isso aqui. Imagina tudo...

vem muita gente estrangeira para a cidade do Paraná só para

visitar Bambu. Muita gente estrangeira vai para a cidade do

Paraná só para... O primeiro interesse não é as cataratas, o

primeiro é o Bambu para quem trabalha nessa área. (Raquel,

grifo nosso)

Um ranço desse gosto deixado pelo Bambu persiste. É aquele lugar que conferiu uma existência rememorada com alegria, proteção e segurança ao mesmo passo que gerou tristeza, desamparo e incerteza. Um paradoxo que habita as lembranças dessa família. Porém, os Topázio continuam a elaborar no presente essa conjuntura passada na vida deles. Estão desvendando outros sentidos dessa vivência e experimentando outras formas de existência – em um futuro próximo.

(Des)encontros trabalho-família: da água represada às comportas abertas

A narração da família Topázio estava cadenciada por reminiscências que transcorriam dos lugares vividos, dos trabalhos provados, das relações estabelecidas, do cotidiano encadeado e dos afetos despertados. No imbricar dessas dimensões, visualizamos o entrelaçar psicossocial em que pudemos notar o sofrimento social atravessar o contexto de vida dos membros dessa família. Em princípio, seus entes, não se assustavam em demasia quando havia a possibilidade de mudança de cidades, enquanto podia ir toda a família, e um vínculo de trabalho fosse avistado. Ensejo para conhecer um lugar diferente, a ser descoberto e vivido na companhia uns dos outros. Em sua trajetória, o que passou a amedrontá-los, nas palavras de Raquel, a ponto de gerar pavor e tristeza, era o “facão na obra”. Facão significa demissão, ter de reduzir a mão de obra e incorrer no desemprego.

O medo de o pai ficar sem trabalho comparecia nas lembranças desde a tenra infância. Assunto presente dentro de casa, anunciado para e pela família, vindo a mobilizar principalmente as mulheres. Mãe e as filhas buscavam formas de lidar com essa ameaça por meio da crença e do diálogo familiar, capazes de expressar o desejo e a esperança de não passar pelo temido desemprego, significado de dificuldades, privações e desamparo:

Continuar: parte 2 de 4