Diários (1909-1912)
Terceiro caderno
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
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8/11/11. A tarde inteira com o doutor por causa da fábrica.178
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A moça que olhava calmamente em volta apenas por andar de braço dado com seu amante.
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A secretária do escritório de Karl lembrou-me a atriz que fez o papel de
Manette Salomon179 no Odéon, em Paris, há um ano e meio. Pelo menos quando estava sentada. Um busto mole, mais largo que alto, comprimido por um tecido lanoso. Um rosto largo até a boca, mas então se estreitando rapidamente. Num penteado liso, cachos naturais negligenciados. Zelo e calma num corpo forte. A lembrança se fortaleceu, conforme percebo agora, também pelo fato de ela trabalhar firmemente (em sua máquina de escrever, as varetas – sistema Oliver – voavam como as agulhas de tricô nos velhos tempos), também andar para cá e para lá, porém mal pronunciar algumas palavras durante uma meia hora, como se segurasse Manette Salomon dentro de si.
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Enquanto aguardava no escritório do doutor, olhei para uma das secretárias e pensei sobre o quanto era difícil registrar seu rosto mesmo durante a contemplação. Causava embaraço, em especial, a relação entre um penteado saliente, estendido em volta da cabeça quase na mesma largura, com o nariz reto que parecia longo demais na maior parte do tempo. Quando a moça, que lia um documento, virou-se de modo mais acentuado, quase fui surpreendido pela observação de que com minhas reflexões eu permanecera mais estranho a ela do que se tivesse roçado meu mindinho em sua saia.
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Quando, ao ler o contrato em voz alta, o doutor chegou a um trecho que tratava de minha possível futura mulher e dos possíveis filhos, percebi diante de mim uma mesa com duas cadeiras grandes e uma menor à sua volta. Ao pensar que jamais serei capaz de ocupar essas ou quaisquer outras três cadeiras com minha pessoa, minha mulher e meu filho, fui acometido por um desejo desde o início tão desesperado por essa felicidade que, em meio a essa atividade excitada, fiz ao doutor a única pergunta que restara durante a longa leitura, pergunta que revelou imediatamente minha completa incompreensão de uma grande parte recém-lida do contrato.
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O resto da despedida: em Pipes, por me sentir oprimido por ele, percebi sobretudo as pontas fendidas e marcadas por salpicos escuros de seus dentes. Por fim, tive uma meia ideia. “Por que viajar tão longe num trem até Nuremberg?”, perguntei, “por que não fazer uma ou duas apresentações numa estação intermediária menor?” “O senhor conhece uma estação dessas?”, perguntou a sra. Tschissik, nem de longe de modo tão ríspido quanto escrevo, obrigando-me assim a encará-la. Todo o seu corpo visível acima da mesa, toda a redondez dos ombros, das costas e do peito era mole, apesar de sua estrutura ossuda, quase tosca, ao vestir roupas europeias no palco. Ridiculamente, mencionei Pilsen. Na mesa ao lado, frequentadores assíduos mencionaram muito sensatamente Teplitz. O sr. Tschissik, que só confia em empreendimentos pequenos, era favorável a qualquer estação intermediária, a sra. Tschissik também, sem que conversassem muito entre si; além disso, ela pergunta em torno pelos preços das passagens, eles disseram
várias vezes: seria suficiente se recebêssemos para o nosso 180 parnusse . A filha esfrega a bochecha no braço da mãe; ela certamente não o sente, mas, entre os adultos, existe a convicção infantil de que nada pode acontecer a um filho quando está com seus pais, mesmo quando são atores mambembes, e que as preocupações reais não se encontram tão próximas da terra, e sim apenas à altura do rosto dos adultos. Fui muito favorável a Teplitz, pois
poderia dar-lhes uma carta de recomendação para o dr. Polaček181 e assim interceder em favor da sra. Tschissik. Com a oposição de Pipes, que fez ele mesmo os papeizinhos com as três cidades possíveis e conduziu o sorteio com vivacidade, Teplitz foi escolhida pela terceira vez. Fui até a mesa ao lado e, nervoso, escrevi a carta de recomendação. Com o pretexto de que teria de ir para casa a fim de encontrar o endereço exato do doutor P., que, aliás, não era necessário, e que tampouco sabiam lá em casa, despedi-me. Acanhadamente, enquanto Löwy se preparava para me acompanhar, brinquei com a mão da mulher e o queixo de sua filha.
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9/11/11. Sonhei anteontem: tudo é teatro, ora estou no alto da galeria, ora no palco, uma moça de quem gostei há alguns meses participava da apresentação, estendia seu corpo flexível ao se segurar, assustada, ao encosto de uma cadeira; da galeria, apontei para a moça, que representava um papel masculino e não agradou a meu acompanhante. Num dos atos, o cenário era tão grande que não se via mais coisa alguma, nada de palco, nada de plateia, nada de escuridão, nada de luzes da ribalta; todos os espectadores estavam, isto sim, em grandes grupos sobre o palco, que representava o Altstädter
Ring182 183 , provavelmente visto da embocadura da Niklasstrasse. Embora, em consequência disso, na verdade não se devesse ver a praça diante do
relógio da Câmara Municipal e o Kleiner Ring184, era possível, mediante breves giros e lentas oscilações do chão do palco, abarcar o Kleiner Ring, por exemplo, a partir do palácio Kinsky. Isso não tinha finalidade alguma, a não ser, porventura, mostrar todo o cenário, visto que afinal ele já estava aí com tal perfeição e que seria uma lástima digna de choro não ver algo desse cenário, que, como sem dúvida eu estava consciente, era o mais belo cenário de toda a Terra e de todos os tempos. A iluminação era determinada por nuvens escuras, outonais. A luz do sol abatido brilhava distraidamente nesta ou naquela vidraça pintada do lado sudeste da praça. Como tudo estava em tamanho natural e construído sem se trair no menor detalhe, produzia uma impressão comovente que algumas das folhas das janelas fossem abertas e fechadas pelo vento moderado, sem que, devido à grande altura dos prédios, se ouvisse som algum. A praça era fortemente inclinada, o calçamento era quase preto, a Teinkirche estava em seu lugar, mas diante dela havia um pequeno castelo imperial em cujo pátio estavam reunidos, em grande ordem, todos os monumentos que normalmente se encontravam na praça: o pilar de Maria, a antiga fonte em frente à Câmara Municipal, que eu mesmo nunca vi, a fonte em frente à Niklaskirche e uma cerca de pranchas construída agora
em volta das escavações para o monumento a Hus.185 Foram encenadas – muitas vezes se esquece na plateia que se trata de apenas uma encenação, ainda mais nesse palco e nesses bastidores – uma festa imperial e uma revolução. A revolução era tão grande, com multidões gigantescas mandadas para cima e para baixo pela praça, como provavelmente jamais ocorrera em Praga; evidentemente, fora deslocada para Praga apenas devido ao cenário, enquanto seu verdadeiro lugar era Paris. De início, nada se via da festa, de qualquer forma a corte havia partido para uma festa, nesse meio-tempo irrompera a revolução, o povo invadira o castelo, eu mesmo corria sobre as saliências das fontes no pátio rumo a campo aberto, e estavam cuidando para
que a corte não pudesse retornar ao castelo. Então vieram da Eisengasse186 os veículos da corte, numa velocidade tal que já tiveram de frear longe da entrada do castelo e deslizar sobre o calçamento com as rodas travadas. Eram veículos como os que vemos em festas populares e procissões, sobre os quais se colocam quadros vivos, ou seja, eram planos, envoltos por uma guirlanda de flores, e do chão desses veículos pendia em volta um pano colorido que cobria as rodas. Tanto mais as pessoas se deram conta do horror que significava sua pressa. Eles foram puxados como que inconscientemente pelos cavalos, que se empinaram diante da entrada, num arco que ia da Eisengasse ao castelo. Nesse instante, muitas pessoas passavam correndo por mim até a praça, em sua maioria espectadores que eu conhecia da rua e que talvez tivessem chegado nesse exato momento. Entre eles também estava uma moça conhecida, mas não sei quem; ao lado dela ia um jovem elegante com um capote amarelo-castanho de quadriculado fino, a mão direita metida fundo no bolso. Dirigiam-se à Niklasstrasse. A partir desse momento, não vi mais nada.
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Schiller, em algum lugar: o principal (ou algo parecido) é “transformar o
afeto em caráter”187
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11/11/11, sábado. Ontem, a tarde inteira na casa de Max. Estabelecida a
sequência dos ensaios para 188 Schönheit hässlicher Bilder . Não tenho uma boa sensação. Mas é justamente então que Max mais gosta de mim, ou pelo menos é o que me parece, pois então tenho uma consciência bastante clara de meu escasso mérito. Não, ele realmente gosta mais de mim. Ele também quer incluir meu Brescia no livro. Tudo o que há de bom em mim resiste a isso. Ele queria que tivesse ido hoje com ele para Brünn. Tudo o que há de ruim e fraco em mim me deteve. Pois não posso acreditar que amanhã eu realmente vá escrever algo bom.
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As moças firmemente envoltas por seus aventais de trabalho, em especial
por trás. Uma delas na Löwy & Winterberg189, hoje de manhã, em quem as abas do avental fechado apenas no traseiro não se separavam como de hábito, mas se sobrepunham, de modo que estava embrulhada como um bebê em suas fraldas. Impressão sensual, como também sempre recebi inconscientemente dos bebês de fraldas, tão apertados em suas fraldas e camas e amarrados com laços como que para a satisfação de um prazer.
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Numa entrevista norte-americana sobre sua viagem pela Boêmia, Edison disse que, em sua opinião, o desenvolvimento relativamente elevado da Boêmia (há ruas largas nos subúrbios, jardinzinhos diante das casas, ao viajar pelo país veem-se fábricas sendo construídas) repousa no fato de a emigração dos tchecos para a América ser tão grande e de os poucos que de lá retornam
trazerem consigo novas aspirações.190
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Tão logo reconheço de alguma maneira que não faço caso de males cuja eliminação caberia realmente só a mim (por exemplo, a vida extremamente
contente de minha irmã casada191, desoladora de meu ponto de vista), perco por um instante a sensibilidade dos músculos de meus braços.
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Tentarei reunir pouco a pouco tudo o que há de indubitável em mim, depois o que merece confiança, em seguida tudo o que é possível etc. Indubitável em mim é a avidez por livros. Não propriamente de possuí-los ou lê-los, mas muito mais de vê-los, convencer-me de sua existência na vitrine de um livreiro. Se em algum lugar há vários exemplares do mesmo livro, alegro-me com cada um deles. É como se essa avidez viesse do estômago, como se fosse um apetite desencaminhado. Os livros que possuo me alegram menos; em compensação, os livros de minhas irmãs já me alegram mais. O desejo de possuí-los é incomparavelmente menor, quase inexistente.
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12/11/11, domingo. Ontem, conférence de Richepin, “La légende de
Napoléon 192 ” [A lenda de Napoleão], na Rudolphinum. Bastante vazia. Como que para testar os modos do conferencista, há um grande piano colocado no caminho da portinha de entrada até a mesa de conferências. O conferencista entra, quer, com o olhar dirigido ao público, ir até sua mesa pelo caminho mais curto, por isso se aproxima demais do piano, espanta-se, recua e o contorna suavemente, sem olhar mais para o público. No entusiasmo do encerramento de sua fala e em meio aos grandes aplausos, ele naturalmente já esqueceu há muito do piano, visto que este não se fez ouvir durante a conferência; as mãos sobre o peito, ele quer dar as costas ao público o mais tarde possível, por isso dá alguns passos elegantes para o lado, naturalmente se choca um pouco contra o piano e precisa, na ponta dos pés, curvar um pouco as costas antes de chegar outra vez em terreno livre. Isso, pelo menos, foi o que Richepin fez. – Um cinquentão grande e forte, com cintura. O penteado rigidamente revolto de Daudet, por exemplo, é apertado bem firme contra o crânio sem ser destruído. Como em todos os velhos meridionais que têm um nariz grosso e o correspondente rosto largo, enrugado, de cujas narinas pode sair um ar forte como se passasse por focinhos de cavalo, e diante dos quais se sabe exatamente que esse é o estado final de seu rosto, impossível de ultrapassar, mas que ainda durará muito tempo, seu rosto também me lembrou o de uma velha italiana por trás de uma barba que no entanto cresceu de maneira muito natural. – A cor cinza-clara, recém-pintada, do estrado da orquestra erguendo-se atrás dele desconcertava no início. O cabelo branco se colava, por assim dizer, a essa cor e não admitia nenhum contorno. Quando ele inclinava a cabeça para trás, a cor entrava em movimento, a cabeça dele quase afundava nela. Apenas por volta da metade da conferência, quando a atenção se concentrou totalmente, a perturbação cessou, em especial quando ele, ao recitar, levantou-se com o grande corpo vestido de preto e, com mãos arqueadas, conduziu os versos e afugentou a cor cinza. – No início, agiu de um modo que chegou a ser constrangedor, tantas eram as reverências que fazia para todos os lados. No relato sobre um soldado napoleônico que ainda conhecera e que tivera cinquenta e sete ferimentos, ele observou que só um grande colorista como seu amigo
Mucha193, ali presente, conseguiria imitar a variedade de cores no torso daquele homem. – Notei que fico cada vez mais comovido por pessoas no alto de um tablado. Não pensava em minhas dores e preocupações. Eu estava espremido no canto esquerdo de minha poltrona, mas, na verdade, estava espremido na conferência, as mãos reunidas entre os joelhos. Senti um efeito de Richepin sobre mim como deve ter sentido Salomão quando levava mocinhas para a cama. Tive até uma ligeira visão de Napoleão, que, numa fantasia sistemática, também saía pela portinha de entrada, embora bem pudesse ter saído da madeira do estrado ou do órgão. Ele oprimia a sala inteira, que, nesses instantes, estava repleta. Por mais próximo que na verdade dele estivesse, jamais tive dúvida, ou teria na realidade, quanto a seu efeito. Talvez tivesse percebido cada traço ridículo de seu traje, como também em Richepin, mas essa percepção não me teria perturbado. Em compensação, como eu era frio quando criança! Desejava frequentemente ser confrontado com o imperador para mostrar-lhe sua falta de efeito. E isso não era coragem, apenas frieza. – Ele recitava poemas como se fossem discursos na câmara. Batia na mesa como espectador impotente de batalhas, com braços balouçantes e estendidos abria uma ruela para as tropas através da sala, só gritava empereur [imperador] com o braço levantado, convertido em estandarte, e, numa repetição desse grito, realmente lhe dava o eco de um exército gritando abaixo, na planície. Numa descrição de batalha, um pezinho bateu no chão em algum lugar, as pessoas procuraram com os olhos e viram que era seu pé, que se atrevera muito pouco. Mas isso não o atrapalhou. –
Quando leu “ 194 Die Grenadiere ”, que reverenciava de modo especial, numa tradução de Gérard de Nerval, os aplausos foram os mais fracos. – Em sua juventude, o túmulo de Napoleão era aberto uma vez ao ano e o rosto embalsamado era mostrado aos inválidos, levados em cortejo diante dele, rosto que era mais uma visão de horror que de admiração, pois estava balofo e esverdeado; por isso, essa abertura do túmulo foi suspensa mais tarde. Mas Richepin ainda viu o rosto no braço de seu tio-avô, que servira na África e para quem o comandante mandara expressamente abrir o túmulo. – Ele anuncia e comenta bem antes um poema que pretende recitar (ele tem uma memória infalível, que, na verdade, sempre precisa existir em temperamentos fortes), sob essas palavras os versos futuros já produzem um pequeno terremoto; no primeiro poema, ele disse inclusive que iria apresentá-lo com todo o seu ardor. E assim foi. – Então, no último poema, um crescendo em que ele entra sorrateiramente nos versos (versos de Victor Hugo), levanta-se devagar, não se senta mais mesmo após recitá-los, apanha e conserva os grandes movimentos recitativos com a última força de sua prosa. Termina jurando que mesmo depois de mil anos cada partícula de seu cadáver, caso tenha consciência, estará pronta para seguir o chamado de Napoleão. – A língua francesa, ofegante com suas válvulas de escape sucedendo-se rapidamente, resistiu mesmo às mais simplórias improvisações, não se rompeu sequer quando ele falou com frequência dos poetas que embelezam a vida cotidiana, de sua fantasia (olhos fechados) como sendo a de um poeta, de suas alucinações (olhos arregalados, involuntariamente dirigidos para a lonjura) como sendo as de um poeta etc. Nisso ele também ocultava às vezes os olhos e os revelava lentamente afastando um dedo após o outro. – Ele serviu, seu tio serviu na África, seu avô serviu sob Napoleão, cantou inclusive dois versos de uma canção de guerra. – 13/11/11. E esse homem, conforme fiquei sabendo hoje, tem 62 anos.
14/11/11, terça-feira. Ontem na casa de Max, que retornou de sua leitura pública em Brünn.
À tarde, ao adormecer. Como se a rígida abóbada craniana, que envolve o crânio indolor, tivesse se retraído mais profundamente ao interior e deixado uma parte do cérebro de fora, no livre jogo das luzes e músculos.
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Despertar numa fria manhã de outono com luz amarelada. Atravessar a janela quase fechada e, ainda diante das vidraças, antes de cair, pairar, os braços abertos, com a barriga arqueada e as pernas dobradas para trás, como as figuras de proa dos navios de tempos antigos.
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Antes de adormecer. Parece tão duro ser solteiro, implorar por aceitação quando se é velho e, mal conservando a dignidade, se quer passar uma noite com pessoas, levar sua comida para casa numa só mão, não poder esperar ninguém preguiçosamente com confiança serena, apenas presentear alguém com esforço ou irritação, despedir-se diante do portão do prédio, nunca poder se precipitar escada acima com sua mulher, estar doente e ter apenas o consolo da vista de sua janela quando se consegue ficar sentado, ter em seu quarto apenas portas laterais que levam a apartamentos desconhecidos, sentir a estranheza dos próprios parentes, de quem só se pode permanecer amigo pelo expediente do casamento, primeiro pelo casamento de seus pais, e então, quando o efeito deste se dissipa, pelo seu próprio casamento, ter de admirar filhos alheios e não poder repetir sem cessar: eu não tenho filhos, e, visto que família alguma cresce com a pessoa, ter uma sensação imutável da idade, imitar na aparência e no comportamento um ou dois solteiros de suas lembranças de juventude. Tudo isso é verdadeiro, só que aí se comete facilmente o erro de espalhar de tal maneira diante de si os sofrimentos futuros que o olhar precisa ir muito além deles e não retorna mais, enquanto na realidade, afinal, a própria pessoa estará aí parada hoje e mais tarde, com um corpo real e uma cabeça real, ou seja, também com uma testa para nela
bater com a mão.195
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Tentar agora um esboço de introdução para 196 Richard und Samuel .
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15/11/11. Ontem à noite, já com um pressentimento, puxei o cobertor da cama, deitei-me e tornei-me outra vez consciente de todas as minhas capacidades, como se as segurasse na mão; elas apertavam meu peito, inflamavam-me a cabeça, repeti por um momento para me consolar sobre o fato de não me levantar para trabalhar: isso não pode ser saudável, isso não pode ser saudável, e quis puxar o sono sobre minha cabeça com intenção quase visível. Pensava sempre num boné com viseira que, para me proteger, pressionava contra minha testa com mão forte. Quanto perdi ontem, como o sangue se apertava na cabeça estreita, capaz de tudo, e só retida por forças imprescindíveis para meu mero viver e que são aqui desperdiçadas.
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Certo é que tudo o que inventei de antemão, mesmo com um bom sentimento, palavra por palavra, ou inclusive apenas de passagem, mas com palavras expressas, parece na escrivaninha, na tentativa de escrevê-lo, seco, às avessas, imóvel, adverso a todo o ambiente, medroso, mas sobretudo lacunar, embora nada tenha sido esquecido da invenção original. Naturalmente, isso se deve em grande parte ao fato de, livre de papel, só inventar coisas boas no momento da exaltação, que mais temo do que anseio, por mais que o anseie, mas então a abundância é tão grande que tenho de renunciar, que, às cegas, portanto, pegue apenas ao acaso, da corrente, aos punhados, de modo que essa aquisição, na escrita ponderada, não é nada comparada com a abundância na qual ela vivia, é incapaz de trazer para cá essa abundância e, por isso, é ruim e perturbadora, pois atrai inutilmente.
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16/11/11. Hoje ao meio-dia, antes de adormecer – mas não adormeci de modo algum –, jazia sobre mim o tronco de uma mulher de cera. Seu rosto estava inclinado sobre o meu, seu antebraço esquerdo pressionava meu peito.
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Três noites sem dormir; à menor tentativa de fazer alguma coisa, logo no fim de minha força.
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De um velho caderno de notas: “Agora à noite, depois de ter estudado desde as seis horas da manhã, notei como minha mão esquerda, já fazia
algum tempo, envolvia por compaixão os dedos da direita”.197
18/11/11. Ontem na fábrica.198 Voltei de bonde, sentei-me num canto com as pernas estendidas, vi pessoas lá fora, lâmpadas acesas nas lojas, os muros dos viadutos que atravessávamos, costas e rostos repetidamente, uma estrada que se derivava da rua comercial do subúrbio e nada tinha de humano senão pessoas indo para casa, as luzes elétricas cortantes, marcadas a fogo na escuridão, do pátio da estação ferroviária, chaminés baixas de uma fábrica de gás estreitando-se consideravelmente até a ponta, um cartaz da apresentação
em turnê de uma cantora, De Treville199, que tateia pelas paredes até uma ruela nas adjacências dos cemitérios, de onde voltou comigo, do frio dos campos, até o calor doméstico da cidade. Aceitamos cidades estranhas como um fato, seus moradores vivem nelas sem decifrar nosso modo de vida, assim como não podemos decifrar o seu, precisamos comparar, não podemos evitá-lo, mas bem sabemos que isso não tem qualquer valor moral e nem sequer psicológico, por fim também podemos renunciar muitas vezes à comparação, visto que a diferença grande demais nas condições de vida nos dispensa disso. No entanto, é verdade que os subúrbios de nossa cidade natal também nos são estranhos, mas aí comparações têm valor, um passeio de meia hora pode nos mostrá-lo repetidamente; aí, em parte no interior de nossa cidade, em parte na margem pobre, escura, sulcada como um grande desfiladeiro, as pessoas vivem, embora todas tenham um círculo tão grande de interesses comuns, como nenhum outro grupo de pessoas fora da cidade. Por isso, sempre entro no subúrbio com um sentimento misto de medo, de abandono, de compaixão, de curiosidade, de orgulho, de alegria de viajar e de masculinidade, retornando com bem-estar, seriedade e calma; especialmente de Žižkov.
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19/11/11, domingo
Sonho: no teatro. Representação de Das weite Land [O vasto país], de
Schnitzler, em adaptação de Utitz.200 Estou sentado bem à frente num banco, acredito estar sentado no primeiro, até que finalmente se verifica que é o segundo. O encosto do banco está voltado para o palco, de maneira que se pode ver comodamente a plateia, mas o palco apenas depois de um giro. O autor está em algum lugar nas proximidades, não consigo conter meu juízo negativo sobre a peça, que evidentemente já conheço, mas acrescento, em compensação, que o terceiro ato deve ser engraçado. Com esse “deve” quero dizer que eu, quando se fala das partes boas, não conheço a peça e preciso me apoiar no que ouvi dizerem; por isso repito mais uma vez essa observação, não só para mim, porém sem receber atenção dos outros. Em volta de mim há uma grande aglomeração, todos parecem ter vindo com suas roupas de inverno e por isso preenchem os lugares exageradamente. Pessoas a meu lado e atrás de mim, que não vejo, dirigem-me suas arengas, mostram-me recém-chegados, mencionam os nomes, chamam minha atenção de modo particular para um casal que se espreme entre uma fileira de poltronas, pois a mulher tem um rosto amarelo-escuro, masculino, narigudo e, além disso, até onde se pode ver na aglomeração de onde sobressai sua cabeça, usa roupas masculinas; ao meu lado, curiosamente livre, está o ator Löwy, porém muito diferente do real, fazendo discursos agitados nos quais se repete a palavra
principium 201 ; espero constantemente a expressão tertium comparationis, ela
não surge. Num camarote do segundo balcão, na verdade apenas num canto da galeria, à direita a partir do palco, que ali se junta aos camarotes, está
parado um terceiro filho qualquer da família Kisch202, por trás de sua mãe, que está sentada, e fala para o teatro, vestindo um belo casaco imperial cujas abas estão abertas. As falas de Löwy têm uma relação com essa fala. Entre outras coisas, Kisch aponta para um lugar bem no alto da cortina e diz que lá está o Kisch alemão, referindo-se a meu colega de escola que estudou germanística. Quando a cortina se abre, o teatro começa a escurecer e Kisch desapareceria de um modo ou de outro, ele vai, para tornar isso mais claro, para o alto da galeria e então sai, mais uma vez todos os braços, casacos e pernas muito abertos. O palco é um pouco mais baixo do que a plateia, as pessoas olham para baixo, o queixo no encosto. O cenário consiste principalmente de duas colunas grossas e baixas no meio do palco. Representa-se um banquete, no qual tomam parte moças e rapazes. Vejo pouco, pois ainda que no começo da peça muitas pessoas fossem embora, justamente dos primeiros bancos, ao que parece para trás do palco, as moças restantes encobrem a vista com grandes chapéus achatados, na maioria azuis, que se movem para cá e para lá ao longo de todo o comprimento do banco. No entanto, vejo no palco de modo especialmente claro um menino de dez a quinze anos. Ele tem cabelo seco, dividido, cortado reto. Não sabe sequer colocar o guardanapo corretamente sobre as coxas, precisa olhar atentamente para baixo com esse fim e, segundo dizem, representa um bon vivant nessa peça. Devido a essa observação, não tenho mais grande confiança nesse teatro. O grupo no palco aguarda agora diversos recém-chegados que descem das primeiras fileiras da plateia ao palco. Mas a peça tampouco foi bem ensaiada. Assim, acaba de chegar uma atriz chamada Hackelberg, e um ator, reclinado em sua poltrona, aborda-a mundanamente com “Hackel...”, então percebe o erro e se corrige. Em seguida chega uma moça que conheço (seu nome é Frankel, acho eu), passa sobre o encosto justamente no meu lugar, suas costas estão inteiramente nuas ao fazê-lo, a pele não está muito limpa, acima do quadril direito há inclusive uma parte arranhada, arroxeada, do tamanho de uma maçaneta. Mas, quando se volta sobre o palco e fica ali parada de rosto limpo, ela atua muito bem. Agora um cavaleiro cantante deve se aproximar a galope de longe, um piano simula o bater dos cascos, ouve-se o canto tempestuoso que se aproxima, por fim também vejo o cantor, que, para dar ao canto o crescendo natural de quem se aproxima às pressas, corre no alto ao longo da galeria até o palco. Mas ele ainda não chegou ao palco e nem ao fim da canção, e, no entanto, já ofereceu o máximo de pressa e de canto gritado, o piano também já não pode imitar de modo mais claro os cascos batendo nas pedras. Por isso ambos desistem, e o cantor se aproxima com uma canção serena, só que se apequena tanto que apenas sua cabeça sobressai acima da balaustrada da galeria, de modo que não o vemos tão nitidamente. Com isso termina o primeiro ato, mas a cortina não desce, o teatro também permanece às escuras. No palco há dois críticos sentados no chão escrevendo com as costas apoiadas no cenário. Um dramaturgo ou diretor de cavanhaque loiro salta para o palco, ainda em pleno ar estende uma das mãos para dar uma ordem; na outra mão leva um cacho de uvas, que antes estava num prato de frutas do banquete, e vai comendo-o. Outra vez voltado para a plateia, vejo que está iluminada por simples lanternas de petróleo, que, como nas ruas, estão colocadas sobre simples candelabros, e agora, naturalmente, ardem apenas de modo bem fraco. De repente, a causa pode ser o petróleo impuro ou um ponto estragado do pavio, a luz jorra de uma dessas lanternas e faíscas descem em largas rajadas sobre os espectadores, que são impossíveis de desenredar ao olhar e formam uma massa negra como terra. Então um senhor se ergue dessa massa, como que anda sobre ela aproximando-se da lanterna, quer evidentemente colocar a coisa em ordem, mas primeiro ergue o olhar para a lanterna, fica por um momento parado dessa maneira a seu lado e, como nada acontece, volta calmamente ao seu lugar, no qual afunda. (Confundo-me com ele e abaixo a cabeça no negrume.)
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Eu e Max devemos mesmo ser fundamentalmente diferentes. Por mais que admire seus escritos quando estão diante de mim como um todo inacessível à minha intervenção e à de qualquer outro, como hoje mesmo uma série de pequenas resenhas literárias, cada frase que ele escreve para Richard und Samuel está ligada a uma concessão relutante de minha parte que sinto dolorosamente até minhas profundezas. Pelo menos hoje.
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Hoje à noite estive outra vez cheio de capacidade medrosamente contida.
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20/11/11. Sonho com um quadro, supostamente de Ingres. As moças no
bosque em mil espelhos 203 , ou, na verdade: As virgens etc. Num agrupamento parecido e aereamente traçado como nas cortinas dos teatros, havia à direita do quadro um grupo mais compacto, à esquerda elas estavam sentadas ou deitadas sobre um imenso galho ou fita voadora ou pairando por força própria numa cadeia que se elevava lentamente em direção ao céu. E agora elas não se refletiam apenas na direção do espectador, mas também para longe dele, tornaram-se mais indistintas e variadas, o que o olho perdeu em detalhes ganhou em abundância. À frente, porém, havia uma moça nua não influenciada pelos reflexos, apoiada numa perna só, com o quadril saliente. Aqui cabia admirar a arte de desenhar de Ingres, apenas achei, na verdade com satisfação, que nessa moça sobrara nudez real demais, também para o tato. De uma parte encoberta por ela, emanava um lampejo de luz amarela e pálida.
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Certa é minha relutância a antíteses. É verdade que elas vêm de modo inesperado, mas não surpreendem, pois sempre estiveram disponíveis, bem próximas; quando foram inconscientes, só o foram em sua orla mais externa. É verdade que geram solidez, plenitude, completude, mas apenas como uma
figura na roda da vida204; perseguimos em círculo nossa pequena ideia. Por mais diferentes que possam ser, elas carecem de nuances, crescem sob nossa mão como que inchadas pela água, com a perspectiva inicial do ilimitado e com um tamanho por fim mediano, sempre igual. Elas se enrolam, não podem ser estendidas, não oferecem nenhum ponto de apoio, são buracos na madeira, são uma corrida estagnada, atraem, como mostrei, antíteses sobre si. Quem dera atraíssem todas sobre si e para sempre.
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Para o drama205: a maneira como certa vez à noite o professor de inglês
Weiss206, com os ombros eretos, as mãos firmemente nos bolsos, com o sobretudo amarelado distendido em pregas, passa correndo na Wenzelsplatz sobre o leito da rua com passos enérgicos, rente ao bonde ainda parado mas que já toca sua campainha. Afastando-se de nós.
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E. Anna!
A. (erguendo o olhar) Sim?
E. Vem cá.
A. (passos largos e tranquilos) Que queres?
E. Queria te dizer que já faz algum tempo que estou insatisfeito contigo. A. Ora!
E. Assim é.
A. Então precisas simplesmente me demitir, Emil. E. Tão rápido? E nem perguntas o motivo?
A. Sei qual é.
E. É?
A. Não gostas da comida.
E. (levanta-se rapidamente, falando em voz alta) Estás sabendo que Karl parte esta noite ou não sabes?
A. (interiormente imperturbável) Sei sim, infelizmente ele parte, não precisarias me chamar por isso.
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21/11/11. Minha antiga babá207, de rosto amarelo-escuro, com a borda angulosa do nariz e uma verruga, da qual eu tanto gostava na época, em algum lugar na bochecha, esteve hoje em nossa casa pela segunda vez em pouco tempo para me ver. Da primeira vez eu não estava em casa, desta vez eu queria ser deixado em paz e dormir, mandando dizer que não estava. Por que ela me educou tão mal, afinal eu era obediente, ela mesma o diz agora no
vestíbulo à cozinheira e à empregada208, eu era de índole calma e era comportado. Por que ela não aproveitou isso em meu favor e me preparou um futuro melhor. Ela é casada ou viúva, tem filhos, tem uma linguagem vivaz que não me deixa dormir, pensa que sou um senhor alto e saudável na bela idade de 28 anos, que gosto de recordar minha juventude e realmente sei o que fazer de mim. Mas agora estou aqui deitado no canapé, jogado para fora do mundo com um pontapé, presto atenção no sono que não quer vir e, se vier, só me roçará, minhas articulações estão doloridas de cansaço, meu corpo magro sucumbe tremendo em meio a aflições das quais não pode se tornar claramente consciente, na cabeça há um palpitar espantoso. E aí estão as três mulheres diante da minha porta, uma me elogia tal como fui, duas, tal como sou. A cozinheira diz que irei para o céu logo, isto é, sem qualquer rodeio. Assim será.
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Löwy: um rabino conhecedor do Talmude tinha o princípio, muito do agrado de Deus nesse caso, de não aceitar nada de ninguém, nem sequer um copo d’água. Porém, aconteceu que o maior rabino de sua época quisesse conhecê-lo e, assim, o convidasse para uma ceia. Não era possível recusar o convite de tal homem. Por isso, o primeiro rabino se pôs, triste, a caminho. Mas porque seu princípio era tão forte, uma montanha se interpôs entre os dois rabinos.
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Anna (sentada à mesa, lê o jornal)
Karl (caminha pela sala, tão logo chega à janela fica parado e olha para fora, chegando a abrir, em dado momento, a janela interior)
Anna. Por favor, deixe a janela fechada, está frio.
Karl (fecha a janela). Nossas preocupações são simplesmente diferentes.
22/11/11
Anna. Adotaste um novo costume, Emil, um costume bem repulsivo. Consegues tomar qualquer ninharia como ponto de partida e, com sua ajuda, encontrar em mim uma qualidade ruim.
Karl (esfregando os dedos). Pois não tens consideração, pois és absolutamente incompreensível.
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É certo que um obstáculo capital ao meu progresso é constituído pelo meu estado físico. Com um corpo desses não se consegue nada. Terei de me acostumar à sua falência constante. Devido às últimas noites, em que sonhei de modo selvagem mas nas quais mal dormi alguns momentos, estive sobremaneira desconjuntado esta manhã, não sentia nada senão minha testa, via um estado passavelmente suportável apenas muito além do atual e de bom grado teria me enrolado, de pura disposição à morte, com os arquivos na mão, sobre as placas de cimento do corredor. Meu corpo é longo demais para sua fraqueza, não tem a mínima gordura para produzir um calor propício, para conservar o fogo interno, nenhuma gordura da qual o espírito, ultrapassando sua necessidade diária, pudesse se nutrir sem prejuízo do todo. Como é que esse coração fraco, no qual senti várias pontadas nos últimos tempos, conseguiria impelir o sangue por todo o comprimento dessas pernas? Até o joelho já seria trabalho suficiente, mas é só com força senil que ele irriga as panturrilhas frias. Mas então ele já volta a ser necessário em cima, espera-se por ele enquanto ele se dispersa embaixo. Devido ao comprimento do corpo, tudo é expandido. O que ele poderá realizar, já que mesmo que fosse comprimido talvez tivesse muito pouca força para aquilo que quero alcançar?
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De uma carta de Löwy ao seu pai: se eu for a Varsóvia, andarei entre vocês com minhas roupas europeias como “uma aranha diante dos olhos, como um enlutado entre noivos”.
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Löwy fala sobre um amigo casado que mora em Postin, uma pequena cidade nas proximidades de Varsóvia, e que se sente solitário e, por isso, infeliz com seus interesses progressistas. “Postin é uma cidade grande?” “Deste tamanho”, ele me mostra a palma de sua mão. Ela está coberta por uma luva áspera amarelo-castanha e representa uma região deserta.
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23/11/11. No dia 21, centenário da morte de Kleist209, a família Kleist mandou colocar uma coroa em seu túmulo com a inscrição: “Ao melhor de sua estirpe”
De que estados me torno dependente em razão de meu modo de vida! Esta noite dormi um pouco melhor que na última semana, hoje à tarde até bastante bem, tenho até aquela sonolência que se segue a um sono medianamente bom, razão pela qual receio não conseguir escrever tão bem, sinto como algumas capacidades se retraem mais profundamente em meu interior e estou preparado para todas as surpresas, isto é, já as vejo.
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24/11/11. 210 Schhite (aquele que aprende a arte do abatedor). Peça de
Gordyn.211 Nela, citações do Talmude. Por exemplo: se um grande erudito comete um pecado ao anoitecer ou durante a noite, não se deve mais repreendê-lo por isso pela manhã, pois, em sua erudição, ele próprio certamente já se arrependeu dele; se alguém roubar um boi, deverá devolver dois, se abater o boi roubado, deverá devolver quatro, mas se abater um novilho roubado, deverá devolver apenas três, pois se supõe que foi preciso carregar o novilho, ou seja, fazer um trabalho pesado. Essa suposição determina a punição mesmo quando se levou o novilho comodamente.
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Honradez dos maus pensamentos. Ontem à noite me senti especialmente miserável. Meu estômago estava arruinado outra vez, escrevera com dificuldade, ouvira a leitura de Löwy no café (que de início estava silencioso e tivera de ser poupado por nós, mas então se animou e não nos deixou em paz) com esforço, não me parecera valer a pena adentrar meu triste futuro imediato e, desamparado, caminhei pela Ferdinandstrasse. Na embocadura da
Bergstein212 vieram-me novamente os pensamentos no futuro mais distante. Como queria suportá-lo com esse corpo tirado de um quarto de tralhas? No Talmude também consta: um homem sem mulher não é gente. Diante de tais pensamentos, não me restou nessa noite outro auxílio senão dizer-me: “Agora vocês vêm, maus pensamentos, agora porque estou fraco e com o estômago arruinado. Justo agora vocês querem ser pensados de ponta a ponta. Vocês só têm em vista o que lhes faz bem. Tenham vergonha. Venham em outra ocasião, quando eu estiver mais forte. Não explorem meu estado dessa maneira”. E, de fato, sem esperar outras provas, eles recuaram, dispersaram-se devagar e não me perturbaram mais durante o resto de meu passeio, que, naturalmente, não foi demasiado feliz. Mas, ao que parece, eles esqueceram que, se quiserem respeitar todos os meus maus estados, raramente chegará sua vez.
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Devido ao cheiro de gasolina de um automóvel que vinha do teatro, passei a prestar atenção à maneira visível como uma bela vida doméstica (e, por mais que seja iluminada apenas por uma vela, isso está bom antes de ir dormir) aguarda os frequentadores de teatro que vêm em minha direção, os quais, com os últimos gestos, arrumam seus sobretudos e binóculos pendentes, mas como também parecem ter sido mandados do teatro para casa, como personagens secundários diante de quem a cortina desceu pela última vez e por trás de quem se abriram as portas pelas quais entraram orgulhosamente antes do início ou durante o primeiro ato por causa de alguma preocupação ridícula qualquer.
146. Na verdade, Jakob Gordin (1853-1909). A peça é uma elaboração do motivo de Fausto. Os autores mencionados em seguida são Joseph Latteiner, Abraham Michael Scharkansky e Sigmund Feimann.
147. Ver no parágrafo anterior a barra após “o espectador não verá nada”.
148. O jogo de cartas era um hábito de todas as noites na casa dos Kafka.
149. George Bernard Shaw (1856-1950): escritor irlandês. A observação provém do prefácio autobiográfico ao segundo romance de Shaw, The Irrational Knot [O laço irracional], de 1905, publicado em alemão em 1908.
150. Refere-se à encenação da peça Der wilde Mensch [O homem selvagem], em 24 de outubro de 1911.
151. Artigo publicado em 21 de setembro de 1911.
152. Na viagem de agosto/setembro de 1911, Kafka e Brod fizeram uma escala em Zurique, mas suas anotações não fazem referência ao Exército da Salvação.
153. O café Savoy, em que a trupe de Jizchak Löwy representava peças do teatro iídiche.
154. Mitjuden, literalmente “cojudeus”, termo que acentua o pertencimento ao grupo étnico em detrimento da individualidade.
155. O nome da ponte é uma homenagem ao poeta tcheco Svatopluk Čech (1846-1908).
156. Relato de Jizchak Löwy sobre os tanaítas, estudiosos dos séculos I a III cujas doutrinas formam a Mixná, a parte mais importante do Talmude, livro fundamental da religião judaica que contém explicações dos textos jurídicos do Pentateuco. Entre tais estudiosos estavam Akiba ben Josef (cofundador do judaísmo talmúdico), Elisa ben Abuja, Meir (discípulo dos dois anteriores) e Elieser ben Hyrkanos, banido por heterodoxia.
157. Elsa Taussig (1883-1942), futura esposa de Max Brod e com quem este escreveu a novela Weiberwirtschaft [Coisas de mulher].
158. Revista semanal, publicada desde fevereiro de 1911, para a qual contribuíam vários amigos e conhecidos de Kafka.
159. Romance do escritor alemão Wilhelm Schäfer (1868-1952), publicado em 1909.
160. Iídiche: “cabeça-quente doido”.
161. Em relação a esse episódio, Kafka escreveria na Carta ao pai (1919): “Bastava eu ter um pouco de interesse por uma pessoa – o que, afinal, não acontecia com frequência em razão de minha natureza – para já intervires, sem qualquer consideração pelo meu sentimento e sem respeito pelo meu juízo, com xingamento, calúnia e humilhação. Pessoas inocentes e ingênuas, como por exemplo o ator iídiche Löwy, tiveram de pagar por isso”.
162. Heinrich Graetz, Geschichte der Juden. Von den ältesten Zeiten bis auf die Gegenwart [História dos judeus: dos tempos mais antigos até o presente]. Leipzig: Leiner, 1873, vol. 1.
163. A “imitadora de senhores” (ver p. 62). De início, a trupe planejara fazer uma interrupção dos espetáculos no café Savoy de 31 de outubro a 15 de novembro de 1911. O casal Klug partiu no dia 31 de outubro, mas o resto do grupo ainda fez outras apresentações em Praga antes de partir em excursão no dia 6 de novembro.
164. Conforme Sebastian Hensel (Die Familie Mendelssohn. 12 ed. Berlin: Behr, 1904, p. 110), a frase teria sido dita por Fromet Mendelssohn, mulher de Moses Mendelssohn (1729-1786), ao se irritar certa vez com o filho, Abraham, que cantava sem parar o coro da música incidental que Johann Abraham Peter Schulz (1747-1800) compôs em 1785 para a encenação da peça Athalie, do dramaturgo francês Jean Racine (1639-1699), e na qual aparecia a expressão tout l’univers, “todo o universo”.
165. O dono do café Savoy chamava-se Josef Herrmann.
166. Karl Hermann, marido de Gabriele (Elli), a irmã mais velha de Kafka.
167. Ver nota 125.
168. Festa judaica que comemora a fuga dos hebreus do Egito.
169. Tipo de pão produzido sem fermento.
170. Nos dias 3, 4 e 5 de novembro, a trupe iídiche apresentou (sem o casal Klug) a peça Bar-Kochba, de Abraham Goldfaden.
171. Fragmento publicado, com algumas alterações, sob o título “Grosser Lärm” [Grande barulho] na revista Herder-Blätter, vol. 1, n. 4/5, out. 1912, p. 44.
172. Trata-se da elaboração literária de um acidente de trânsito, que Kafka e Brod observaram em Paris, envolvendo um automóvel e um triciclo conduzido por um ajudante de padaria. Ver Kafka, Diários de viagem, viagem de agosto/setembro de 1911, último fragmento.
173. “O ajudante de padaria (...) desce, encontra o automobilista, que também desce, e lhe faz reprimendas, abafadas pelo respeito por um proprietário de automóvel e incitadas pelo medo de seu chefe.”
174. Václav Pokorny, engenheiro da Agência de Seguros contra Acidentes de Trabalho, onde era responsável por tarefas de inspeção e peritagem.
175. O artigo de Brod “Eine Jargonbühne in Prag” [Um palco iídiche em Praga] fora publicado em 27 de outubro de 1911, uma semana antes da encenação, no jornal Prager Tagblatt.
176. Hugo Bergmann (1883-1975), amigo de juventude de Kafka e ex-colega de escola, era um dos líderes da associação sionista Bar-Kochba. “Bar Kochba” (“filho das estrelas”, em hebraico) era o cognome de Simon bar Koseba, líder da última rebelião judaica contra os romanos na Palestina (132-135).
177. Nome alemão de Brno, a então capital do margraviato da Morávia, parte do Império Austro-Húngaro que hoje pertence ao território da República Tcheca.
178. Ver nota 69.
179. Peça de Edmond de Goncourt que Kafka assistiu no Théâtre de l’Odéon, em 15 de outubro de 1910.
180. Iídiche: “sustento”.
181. Josef Polaček (1874-1943), enteado de um tio de Kafka, Filip Kafka (1846-1914), era um membro ativo da comunidade judaica de Teplitz, estância termal no noroeste da Boêmia.
182. Praça da parte velha de Praga em cujo no 2 a família Kafka morou de junho de 1889 a setembro de 1896 e onde também fica a maior parte das edificações que aparecem no sonho: o palácio Kinsky, que abrigou uma escola frequentada por Kafka, a Câmara Municipal com seu relógio astronômico, bem como duas igrejas, a Teinkirche e a Niklaskirche com sua fonte. No meio da praça ficava a Mariensäule, o “pilar de Maria”, substituído pelo monumento a Hus, inaugurado em 1915. A antiga fonte diante da Câmara Municipal, que Kafka devia conhecer de gravuras, fora demolida nos anos 60 do século XIX.
183. Rua de Praga em cujo no 36 a família Kafka morou a partir de junho de 1907.
184. Outra praça de Praga, não muito distante do Altstädter Ring e bem menor que este.
185. Jan Hus (1369-1415): reformador tcheco, precursor do luteranismo, queimado na fogueira como herege por difundir as doutrinas do teólogo inglês John Wycliff (1320-1384), que se opunha ao papado, à venda de indulgências e à adoração de imagens.
186. Rua de Praga.
187. Do ensaio de Friedrich Schiller “Über den Zusammenhang der tierischen Natur des Menschen mit seiner geistigen” [Sobre a relação da natureza animal do homem com sua natureza espiritual]: “Se o afeto transformado em habilidade se torna caráter duradouro, então esses traços consensuais da máquina também são gravados mais profundamente; eles ficam, se estou autorizado a emprestar a palavra do patologista, deuteropaticamente para trás e por fim se tornam orgânicos”. “Deuteropatia” é qualquer doença secundária a outra.
188. O livro de Max Brod Über die Schönheit hässlicher Bilder. Ein Vademecum für Romantiker [Sobre a beleza das imagens feias: um vade-mécum para românticos] foi publicado em maio de 1913 pela editora Kurt Wolff, de Leipzig. Brod pretendia incluir nele também um texto de Kafka, “Die Aeroplane in Brescia” [Os aeroplanos em Bréscia], que acabou sendo cortado pelo editor.
189. Madeireira; ver nota 86.
190. A entrevista do inventor norte-americano Thomas Alva Edison ao correspondente nova-iorquino do jornal vienense Neues Wiener Tagblatt foi reproduzida pelo periódico praguense Prager Tagblatt em 5 de novembro de 1911.
191. Gabriele (Elli), a irmã mais velha de Kafka.
192. Künstlerhaus Rudolphinum (Casa de artistas Rudolphinum). Jean Richepin (1849-1926): poeta francês.
193. Alfons Maria Mucha (1860-1939), pintor, ilustrador e artesão nascido em Eibenschütz, na Morávia.
194. “Os granadeiros”, poema de Heinrich Heine (1797-1856) incluído no Buch der Lieder [Livro das canções]. Foi traduzido ao francês [Les deux Grenadiers], na verdade, por Edouard Grenier.
195. Fragmento incluído no primeiro livro de Kafka, Betrachtung [Contemplação], de 1912, sob o título “Das Unglück des Junggesellen” [A infelicidade do solteiro].
196. Ver nota 143.
197. Conforme Max Brod, refere-se aos estudos preparatórios para as provas aplicadas pelo Estado aos estudantes de direito ao concluírem o curso universitário.
198. A Fábrica Praguense de Asbesto Hermann & Cia., localizada no subúrbio praguense de Žižkov; ver nota 69.
199. A cantora francesa Yvonne de Tréville apresentou-se em Praga em novembro de 1910 e fevereiro de 1911.
200. Arthur Schnitzler (1862-1931): escritor austríaco, afim a Sigmund Freud em seu interesse pelo inconsciente. A tragicomédia Das weite Land foi encenada em Praga nos dias 30 de outubro e 18 de novembro de 1911. Emil Utitz (1883-1956): professor de filosofia, foi colega de escola de Kafka.
201. O terceiro da comparação, isto é, o elemento comum entre dois assuntos ou objetos diferentes.
202. Essa família praguense tinha cinco filhos; o mais velho, Paul (1883-1944), que era chamado de “Kisch alemão” devido às cores do grupo estudantil de que fazia parte e às suas simpatias pela Alemanha, havia sido colega de Kafka na escola.
203. Trata-se, provavelmente, do quadro L’Age d’or [A idade do ouro], do pintor francês Jean-A.-D. Ingres (1780-1867).
204. Cilindro giratório com figuras desenhadas em sua superfície interna que, observadas por uma fenda, transmitem a impressão de movimento. Também chamado “estroboscópio”, foi um precursor do cinema.
205. Kafka pretendia escrever uma peça de teatro; o fragmento de diálogo que segue e o da página 219 seriam parte dela.
206. Emil Weis, amigo e parente distante de Max Brod.
207. Visto que Kafka teve várias babás, a falta de maiores informações não permite identificar de quem se trata.
208. Marie Werner, que trabalhou muitos anos para a família Kafka.
209. O escritor alemão Heinrich von Kleist (1777-1811) suicidou-se em Berlim às margens do lago Wannsee.
210. Isto é, a arte de abater animais segundo o rito judaico.
211. Jakob Gordin (1853-1909), que Kafka também já chamou anteriormente de “Gordon”.
212. Rua transversal à Ferdinandstrasse, um dos bulevares de Praga.