Efeitos do Hipnotismo
FELISBERTO, SIMPLICIO, DEPOIS GERTRUDES (do F.)
FELISBERTO, SIMPLICIO, DEPOIS
GERTRUDES (do F.)
Felisberto (fallando com Simplicio?)—O meu tutor está bom?
Simplicio.—Um pouco hypotismado...
Felisberto.—Hein?
Simplicio.—Olhe, ahi vem a Girtrudes que póde explicar-lhe melhor. (ap.) Eu vou ver se apanho o sol. (sae).
Gertrudes (entra F.)—Olha o sr. Felisberto por cá, então como passou?
Felisberto.—Menos mal.
Gertrudes.—E os seus estudos, bem; approvado nos exames?
Felisberto.—Bem, bem approvado... não... estive quasi a sel-o, mas afinal reprovaram-me.
Gertrudes.—Ih! como o patrão vae ficar zangado comsigo!
Felisberto.—Oh! mas é que eu não lhe digo a verdade, era o que faltava. Para elle me diminuir a mesada ou não me dar a mão da menina Elvira, que eu amo tanto.
Gertrudes.—Pois para conseguir isso tudo, precisa agradar muito ao patrão, aliás é capaz de dar o dito por não dito. E o senhor fica a chuchar no dedo a respeito de noiva...
Felisberto.—Oh! hei de fazer todo o possivel para agradar ao meu tutor. Principiarei por dizer-lhe que fui approvado nos meus exames.
Gertrudes.—Isso não basta, é preciso muito mais.
Felisberto.—Muito mais?
Gertrudes.—Sim, por exemplo: ser hypnotisador.
Felisberto (admirado.)—Hein? Mas que diabo é isso, já ha boccado o Simplicio me disse que o meu tutor estava um pouco hypotismado!... Não percebo nada.
Gertrudes.—Pois o sr. não sabe que está em Lisboa um celebre doutor hespanhol que dá sessões de hypnotismo no salão da Trindade?
Felisberto.—E depois?
Gertrudes.—E depois o sr. Venceslau quiz que nós fossemos com elle assistir ao tal hypnotismo e agora o verás, metteu-se-lhe aquillo na mioleira e não pensa noutra coisa. Já hypnotisou o Simplicio e tambem me quiz hypnotisar a mim, mas eu não consenti...
Felisberto.—Mas que tem o meu casamento com o hypnotismo?
Gertrudes.—Tem tudo. Para agradar ao patrão, precisa mostrar-se hypnotisador, dizer que tem estudado muito sobre isso, que já tem feito experiencias, e que está prompto a fazel-as diante do seu tutor, escolhendo até para objecto das suas experiencias a menina Elvira.
Felisberto.—Pois eu hei de fazer experiencias com a minha noiva, diante do pae?...
Gertrudes.—Assim é preciso... se não quizer ver ir o casamento por agua abaixo...
Felisberto.—Oh! isso, jámais, em tempo algum... E a menina Elvira prestar-se-ha á experiencia?...
Gertrudes.—Se presta... se ella ama-o loucamente...
Felisberto.—Loucamente! Oh! céus! que felicidade!
Gertrudes—E foi ella até que se lembrou da experiencia... O sr. Felisberto mandal-a-ha sentar n'uma cadeira, começará a fixar os seus olhos nos d'ella, a apertar-lhe as mãos, em summa, imitará o melhor possivel um hypnotisador verdadeiro... A menina finge-se adormecida e responderá a tudo que o sr. lhe perguntar.
Felisberto.—E depois?
Gertrudes.—Depois o patrão fica muito contente e trata de casal-os o mais breve possivel para possuir um genro hypnotisador.
Felisberto.—És uma rapariga esperta.
Gertrudes.—Ora, isso são favores.
Felisberto.—Crê que não te has de arrepender em ter concorrido para a minha felicidade. Hei de gratificar-te bem em podendo dispor da herança de meu pae.
Gertrudes.—Eu não trabalho por interesse e só o que desejo é ver a menina Elvira muito feliz. Sinto passos. Talvez seja o patrão. É bom que não nos veja juntos, poderia desconfiar. Eu vou dizer á menina que está tudo combinado, e o sr... hypnotise-a bem...
Felisberto.—Descança, não farei tolice.
Gertrudes.—Até logo. (ap. rindo) É mais tolo do que eu pensava!... (sae D. B.)