Efeitos do Hipnotismo
Os Mesmos e Elvira
Elvira (entrando).—Estás aqui, Gertrudes, preciso fallar-te. (a Simplicio). Vae lá para dentro.
Simplicio.—Sim, senhora, (ap.) Vou ver se apanho o sol. (Sae)
Elvira.—Sou muito infeliz, Gertrudes.
Gertrudes.—Seu pae continua a teimar no casamento com o pupillo?
Elvira.—E ainda mais, agora como anda com a mania do hypnotismo, quer á viva força hypnotisar-nos a todos, e mandou vir o Felisberto para aqui passar as férias. Diz elle, que, como esse rapaz é estudante ha de perceber alguma coisa de hypnotismo e poderá illucidal-o sobre o modo de nos hypnotisar.
Gertrudes.—O patrão tem macaquinhos no sotão!
Elvira.—Por mais que eu lhe diga que não amo esse rapaz, teima sempre em que hei de casar com elle.
Gertrudes.—E que ha de a menina fazer?
Elvira.—Era isso mesmo que eu vinha perguntar-te. Tu que me és tão dedicada, has de descobrir um meio de me livrar d'esse maldito Felisberto.
Gertrudes.—Eu?... (pensando) Ah! já sei! Diga-me uma coisa, o sr. Felisberto julga que a menina o ama e annue ao casamento, não é verdade?
Elvira.—Sim, porque meu pae é quem dita as cartas e tem-me obrigado a dizer sempre o que não sinto e que o meu coração repelle.
Gertrudes.—Muito bem, n'esse caso, está tudo remediado...
Elvira.—O quê, tens alguma ideia?
Gertrudes.—Mas uma ideia de alto lá com ella!
Elvira.—Dize, dize depressa.
Gertrudes.—O pupillo de seu pae chega breve a Lisboa?
Elvira.—Hoje mesmo, no comboyo das 9 horas.
Gertrudes.—Perfeitamente, trata-se em primeiro logar de conseguir que seja eu a primeira pessoa com quem elle falle.
Elvira.—E depois?
Gertrudes.—E depois... é simples. Como elle é bastante simplorio, apesar de ser estudante, eu facilmente o convencerei, que para se tornar mais agradavel aos olhos do seu tutor, deve mostrar-se muito entendido na sciencia do hypnotismo e dizer mesmo que é capaz de hypnotisar a menina...
Elvira (com susto).—A mim?
Gertrudes—Sim, a menina ou qualquer outra pessoa.
Elvira.—Mas não comprehendo...
Gertrudes.—É facil. O patrão fica muito contente com esta confissão, visto que actualmente todo elle é hypnotismo. Ha de pedir ao pupillo que proceda a uma experiencia. Elle, ainda aconselhado por mim, escolhe de preferencia a menina para a experiencia.
Elvira.—Mas, eu...
Gertrudes.—Presta-se a isso, depois de mostrar uma certa hesitação. Elle começa a fazer uns certos gatimanhos... a menina adormece, elle julga que isto é para agradar ao sr. Venceslau...
Elvira.—Mas...
Gertrudes.—Qual mas, nem meio mas; depois a menina continua a dormir... a fingir, já se sabe... e não acorda nem á mão de Deus Padre. O sr. Felisberto vê-se em maus lençoes para conseguir tornal-a a si, a menina não cede... ainda mesmo que elle a assopre... dorme sempre... O patrão impacienta-se. Eu começo a fazer uma lamuria de mil diabos:—ai! a minha rica menina que fica hypnotisada para sempre! O patrão grita. O pupillo de seu pae arranca os cabellos... E quando todos estão no cumulo do desespero...
Elvira—Que fazes tu?...
Gertrudes.—Que faço?... Salvo a situação lembrando o sr. Anacleto, que é só quem póde salvar a menina, fazendo-a acordar...
Elvira.—E Anacleto?...
Gertrudes.—O sr. Anacleto estará de combinação comigo e virá logo que o chamem, mostrando-se, é claro, um sabio em hypnotismo, depreciando o mais possivel o tal sr. Felisberto... E, feito o milagre... porque a menina acordará logo que o sr. Anacleto lhe ordene... o patrão ha de necessariamente consentir no seu casamento com aquelle que a menina ama... repellindo com indignação o tal hypnotisador das duzias!...
Elvira.—Oh! mas isso tudo é muito arriscado... E se meu pae descobre que o illudimos?
Gertrudes.—Qual descobre, respondo pelo bom resultado de tudo.
Elvira.—Vê lá, Gertrudes, em que te mettes?...