Efeitos do Hipnotismo
Os Mesmos e Anacleto
Anacleto (entra.)—Onde está a menina Elvira?
Gertrudes.—Ali, n'aquelle fauteuil quasi morta...
Anacleto (correndo a Elvira e tornando-lhe o pulso?)—Ella está mas é hypnotisada... e quem foi o audacioso que a hypnotisou sem ter conhecimento algum d'esta maravilhosa sciencia?
Simplicio.—O audaçacioso foi o sr. Felisberto, (indica-o).
Anacleto.—O sr.?
Felisberto.—Mas eu lhe explico...
Anacleto.—Não admitto explicações... o que o sr. precisava era ir já para o Governo Civil...
Guarda.—E cá estou eu para o acompanhar...
Venceslau.—Asseverou-me que conhecia a fundo a sciencia do hypnotismo!...
Anacleto.—É inacreditavel tanta audacia!...
Felisberto.—Mas, eu, cumpre-me explicar-me...
Anacleto.—Cale-se, senhor, e deixe-me salvar esta infeliz menina que seria victima da sua estupidez... se não me chamam tão depressa...
Venceslau (alegre.)—Não ha então perigo?
Anacleto.—Para mim não existem perigos... Posso fazel-a acordar em eu querendo... basta um pequeno sopro...
Venceslau.—Veja se encontra outro meio, que isso de sôpros não me cheira... (tapa o naris.)
Simplicio.—Pois sim, sim, assopre-a e verá... eu até já a abanei, e ella nada.
Felisberto.—Quem tem a culpa d'isto tudo... é... (vae para indicar Gertrudes.)
Anacleto (interrompendo-o.)—Cale-se, cale-se, se não quer que eu o hypnotise para sempre... como o sr. ia fazendo a esta menina...
Venceslau.—Mas acorde-a, acorde-a, estou ancioso por ouvir minha filha...
Anacleto.—Já vae, já vae, primeiro quero proceder a uma pequena experiencia para provar a esse charlatão que valho muito mais do que elle... (a Elvira) Diga-me, sabe quem a hypnotisou?
Elvira.—Foi um parvo...
Simplicio (dando palmas.)—Muito bem, muito bem...
Felisberto (querendo bater-lhe.)—Ah! atrevido... Mas, sr. Venceslau, repare que estão abusando...
Venceslau.—Cale-se, já se lhe disse...
Simplicio.—Parece que é surdo!...
Guarda.—Talvez seja melhor leval-o até á esquadra...
Anacleto (a Elvira.)—Agora, diga-me, quer casar com o parvo?...
Elvira (fingindo-se assustada.)—Oh! nunca! nunca! Antes morrer!
Anacleto.—É extraordinario o pavor que lhe causa esse alfenim...
Felisberto (correndo para elle.)—Senhor!
Guarda (detendo-o)—Silencio, quando não... (leva a mão á espada?)
Anacleto (a Elvira.)—E com quem quer casar?
Elvira.—Com aquelle que conseguir acordar-me d'este somno invencivel!...
Anacleto (soprando-lhe a cara.) Oh! acorde, então...
Elvira (acordando rapidamente.)—Ah! aonde estou? aonde estou? (todos applaudem Anacleto, menos Felisberto.)
Venceslau.—Nos meus braços, minha filha!... (abraça-a)
Elvira.—Meu pae! meu pae! (vendo Felisberto e fingindo um grande medo) Oh! aquelle homem! aquelle homem quer-me mal...
Felisberto (querendo explicar-se.)—Mas repare que eu...
Elvira (fugindo d'elle.)—Não se chegue, não se chegue...
Venceslau.—Sae d'aqui, sae d'aqui...
Felisberto.—Não sahirei sem uma explicação... Foi essa creada que...
Venceslau.—Não quero explicações...
Simplicio. (com importancia.)—Nós não queremos explicações...
Venceslau. (ao guarda.)—Queira acompanhar esse rapaz ao hotel de Veneza e que lhe arranjem um quarto, aqui tem dinheiro para pagar esta noite, amanhã mando-o outra vez para Coimbra. (dá dinheiro ao guarda)