Entre o corpo e a consciência: a metapsicologia freudiana
Introdução - A lacuna empírica e conceitual da psicologia
Introdução
A lacuna empírica e conceitual da psicologia
Em torno de 1896, antes mesmo de cunhar o neologismo “psicanálise” que viria a batizar sua nova disciplina, Freud cria outra palavra para designar o aspecto mais fundamental da teoria psicológica que ele então desenvolvia: “metapsicologia”. Formulada por analogia com a metafísica, esse “além da psicologia” designava, desde as primeiras utilizações do termo na correspondência entre Freud e Fliess, uma teoria psicológica que procurasse ir além da experiência consciente, em busca de seus determinantes e de suas condições de possibilidade – numa palavra, que procurasse abordar aquilo que Freud designaria como “o inconsciente”, o domínio por excelência da investigação psicanalítica. Nada de surpreendente, então, em que Freud viesse, com o tempo, a lhe atribuir um papel central na construção de sua teoria, passando, de 1915 em diante, a designar por metapsicologia o aspecto mais fundamental e estritamente conceitual da psicanálise e, ao mesmo tempo, o mais distante da experiência clínica e dos dados da observação empírica.
Apesar da importância que Freud lhe atribuía, a metapsicologia pareceu a muitos pensadores das correntes pós-freudianas e àqueles que se dedicaram a uma interpretação e a uma crítica filosófica da psicanálise como seu aspecto mais datado, mais devedor a uma concepção de ciência que Freud teria herdado de sua formação médica no século XIX e, por isso, tendo uma relevância questionável para aquilo que a psicanálise tinha-se tornado e, sobretudo, para a novidade epistemológica que ela trazia consigo. A abordagem metapsicológica – com sua ênfase numa teoria das forças psíquicas, dos impulsos (ou pulsões), com seu programa de fundamentar biológica ou neurocientificamente as explicações psicológicas proporcionadas pela aplicação do método psicanalítico – parecia representar o resquício de um naturalismo científico ultrapassado, de um reducionismo fisicalista, de um positivismo, ou fosse lá qual fosse o pecado epistêmico que o crítico em questão desejasse lhe atribuir. Durante boa parte do século XX, a tendência predominante foi aproximar a psicanálise das ciências humanas, onde a prática da interpretação e a explicação do mental através de relações de sentido entre conteúdos e processos conscientes ou inconscientes encontrariam uma epistemologia mais afinada com a sua originalidade. Isso frequentemente resultou numa recusa, implícita ou explícita, da metapsicologia – explícita, por exemplo, em autores como Georges Politzer, George Klein, Merton Gill e Robert Holt; implícita ou, pelo menos, nuançada, por exemplo, na releitura lacaniana de Freud ou na crítica hermenêutica de Paul Ricoeur.
Mais recentemente, no entanto, avaliações mais positivas do projeto metapsicológico freudiano começaram a aparecer. Isso se deveu, em parte, à dissolução do programa neopositivista para a filosofia da ciência, que abriu caminho para uma epistemologia mais pluralista, sob cuja luz a psicanálise podia surgir com um aspecto mais positivo; em parte, também, devido a um resgate da ideia da psicologia como uma ciência natural da mente, promovido, sobretudo, pela constituição do programa de investigação multidisciplinar das chamadas ciências cognitivas e pelo desenvolvimento explosivo das neurociências nas últimas décadas. Nesse novo contexto, o naturalismo científico da metapsicologia freudiana começa a parecer menos anacrônico, e sua problemática específica surge revestida de uma atualidade até certo ponto surpreendente, que começa a ser percebida pelos pesquisadores da área.
Nessa problemática, algumas questões ganham destaque. Em primeiro lugar, o problema das relações do mental com o cerebral ou, num sentido mais amplo, com o corporal – isto é, o famoso problema mente-cérebro ou mente-corpo da filosofia da mente. A metapsicologia, de fato, para Freud, apresenta-se, antes de tudo, como uma teoria dessa relação, o que se manifesta, por exemplo, no destaque concedido à teoria das pulsões (os Triebe freudianos), explicitamente apresentadas como assinalando o lugar da articulação entre o psíquico e o somático e como o instrumento conceitual para a teorização dessa articulação. Por outro lado, Freud sempre foi muito explícito em afirmar que a psicologia deve, forçosamente, ser também uma teoria da consciência, de modo que o problema da relação mente-corpo se complementa também com o problema da relação entre mente e consciência – um problema que apenas recentemente foi plenamente reconhecido no âmbito das ciências da cognição, para as quais, diga-se de passagem, a tese de que a mente é originária e fundamentalmente inconsciente deixou há muito de ser uma novidade. Até seus últimos trabalhos, Freud reconheceu como limites do conhecimento psicológico: 1) o fato de que só temos acesso empírico direto à anatomia do cérebro e à experiência consciente; 2) a insuficiência desse conhecimento, pois, mesmo que fosse possível conhecer o correlato anatômico preciso de cada fenômeno consciente, isso pouco acrescentaria à sua compreensão; 3) a necessidade, portanto, de todo um trabalho conceitual de construção de modelos teóricos sobre o funcionamento cerebral e mental para preencher esse vazio do conhecimento psicológico. O conjunto desses modelos e a forma de teorização que permite elaborá-los é, justamente, o que Freud denominou metapsicologia.
Freud teria reconhecido plenamente, então, que esse hiato no conhecimento psicológico, que medeia entre o anatômico e o consciente – isso que, desde os anos 1980, a filosofia da mente designa como o problema da lacuna explicativa (explanatory gap) – é, simultaneamente, empírico e conceitual e para ser ultrapassado, exige tanto um trabalho sistemático de investigação experimental e clínica quanto um esforço igualmente sistemático de elaboração teórica dos resultados dessas investigações. Aí residiria a atualidade de seu posicionamento teórico e epistêmico e o sentido próprio dos conceitos que constituem o cerne da metapsicologia: pulsão, representação, afeto, consciência, a relação entre o qualitativo e o quantitativo, a passagem metodológica da perspectiva da primeira para a da terceira pessoa e vice-versa, e assim por diante.
A avaliação mais positiva e a relativa atualidade da problemática metapsicológica que resultam do contexto dado pela epistemologia atual das ciências da mente justificam assim o trabalho de elucidação e de crítica histórica e conceitual de suas formulações. Foi um trabalho desse tipo que se procurou empreender aqui. Os ensaios reunidos neste livro abordam aspectos particulares e questões específicas da metapsicologia freudiana, cujo sentido geral se procurou caracterizar acima. Esses aspectos dizem respeito, sobretudo, aos principais problemas aí apontados: a natureza do mental, sua relação com os processos cerebrais, a justificação da hipótese do inconsciente, as questões envolvidas na elaboração de uma teoria da consciência e de suas relações com a mente inconsciente, o problema mais amplo das relações entre a mente (consciente ou inconsciente) e o corpo (e não apenas o cérebro), onde entra em cena a dimensão pulsional do psiquismo.
O capítulo I – A metáfora psicológica de Freud: o lugar da neurologia na fundamentação da psicanálise – retoma o problema da relação entre a obra neurológica e a obra psicanalítica de Freud e do grau de continuidade ou de ruptura que é possível estabelecer entre elas. Aborda, em primeiro lugar, as evidências da persistência da referência neurológica no período mais tipicamente psicanalítico da produção freudiana, procurando mostrar que essa referência não é circunstancial ou episódica, mas está sempre relacionada a desenvolvimentos importantes das ideias metapsicológicas. Num segundo momento, são discutidas as passagens em que, supostamente, Freud estaria reiterando o abandono de seu projeto inicial de formular uma teoria neurológica da mente. Procuramos argumentar que Freud reitera nessas passagens tão somente sua recusa da teoria das localizações cerebrais, que data dos primórdios de seu pensamento. A originalidade da psicanálise freudiana não residiria, então, na formulação de uma teoria exclusivamente psicológica da mente, quer consciente, quer inconsciente, mas na construção de modelos teóricos não isomórficos da relação mente-cérebro, que constituem o cerne da teoria do aparelho psíquico, com todas as formulações metapsicológicas a ela relacionadas.
O capítulo II – Possível, viável, real: uma reconstituição da estratégia freudiana para a justificação do inconsciente – parte da constatação de que a justificativa freudiana para sua hipótese central da existência de um inconsciente psíquico é, muitas vezes, reduzida aos seus elementos empíricos ou a um argumento meramente heurístico ou pragmático. Seu objetivo é, primeiramente, discutir a estratégia utilizada por Freud para incorporar o conceito de inconsciente em sua teoria; em segundo lugar, recapitular os argumentos que ele elabora em diversos de seus textos para justificá-lo; e, por fim, reconstruir sistematicamente essa argumentação, procurando evidenciar os aspectos semânticos e conceituais que fornecem o quadro teórico dentro do qual as provas empíricas se inserem, assim como sua convergência com estratégias argumentativas mais contemporâneas, em programas de investigação psicológica que também operam com a hipótese do inconsciente.
O capítulo III – A teoria freudiana da consciência no Projeto de uma psicologia e suas implicações metapsicológicas – analisa o texto freudiano Projeto de uma psicologia, de 1895, em que se encontra exposta uma ampla reflexão sobre o conceito de consciência, a qual, embora apresente algumas dificuldades, permite esclarecer como as relações entre a consciência, a representação e a linguagem eram pensadas por Freud naquele momento. Seu objetivo é circunscrever o sentido da noção de consciência presente no Projeto de uma psicologia e discutir algumas de suas implicações para o modo como a consciência será abordada nos desenvolvimentos posteriores da metapsicologia freudiana.
O capítulo IV – Corpo e significação na metapsicologia freudiana: das origens à linguagem de órgão esquizofrênica – examina o artigo metapsicológico sobre o inconsciente de 1915, no qual, entre outras coisas, Freud formula uma explicação metapsicológica das alterações de linguagem características da esquizofrenia, a qual pode ser complementada por algumas hipóteses apresentadas em dois de seus textos iniciais: Sobre a concepção das afasias, de 1891, e Projeto de uma psicologia, de 1895. Além de esclarecerem o mecanismo subjacente à chamada “linguagem de órgão” (Organsprache) esquizofrênica, esses dois textos nos revelam que a alteração da linguagem, nessa forma de patologia mental, consiste em uma retomada do sentido originário das palavras. O objetivo deste capítulo é, então, discutir de que maneira esses textos inaugurais da obra freudiana aprofundam a explicação metapsicológica da linguagem de órgão esquizofrênica esboçada por Freud em 1915 e, no sentido inverso, como as características das alterações de linguagem próprias da esquizofrenia podem lançar luz sobre as concepções freudianas acerca da natureza e a origem da significação.
O capítulo V – Um retorno às origens da metapsicologia: o caso da compulsão à repetição – propõe-se a mostrar que o conceito de compulsão à repetição, introduzido formalmente na teoria psicanalítica por Freud em Além do princípio do prazer (1920), encontra-se já presente, numa formulação muito próxima, no Projeto de uma psicologia, de 1895, e que seu sentido depende do quadro conceitual que começa a tomar forma naquele momento. Pretende-se, assim, contribuir para a discussão mais geral em torno do problema da gênese das concepções fundamentais da metapsicologia freudiana e exemplificar como o tournant do início dos anos 1920 pode ser melhor compreendido como um retorno a certos aspectos do pensamento inicial de Freud.
Por fim, o capítulo VI – Vida e morte na metapsicologia freudiana: uma reavaliação do segundo dualismo pulsional – propõe-se a recolocar em discussão a hipótese do segundo dualismo pulsional, introduzida por Freud em Além do princípio do prazer (1920), com o objetivo de argumentar que, ao contrário da pulsão de morte – que parece consistir em uma necessidade interna da teoria metapsicológica freudiana desde suas origens –, a hipótese da pulsão de vida, como algo que se opõe à pulsão de morte, não parece poder ser facilmente situada nessa teoria. Trata-se de argumentar, com base nas ideias formuladas em Além do princípio do prazer e em alguns textos metapsicológicos subsequentes, que, apesar de manter até seus últimos trabalhos a hipótese do dualismo pulsional, Freud parece não ter conseguido justificar plenamente a existência de uma oposição e de uma simetria entre as duas classes de pulsões. Seus argumentos parecem sempre conduzir à ideia de que as pulsões de vida teriam que ser consideradas também, em última instância, como pulsões de morte.
Todos esses trabalhos foram efetivamente escritos a quatro mãos pelos autores e tiveram suas primeiras versões publicadas em periódicos acadêmicos. A sua apresentação sob a forma de livro se justifica, em primeiro lugar, para torná-los mais acessíveis a um público maior, uma vez que a psicanálise constitui-se numa área de interesse que extrapola em muito as paredes da academia, sendo utilizada como referência teórica em inúmeras áreas de atuação profissional e educacional (psicologia clínica, psiquiatria, medicina social, neurologia, enfermagem, terapia ocupacional, psicopedagogia, orientação vocacional, psicodiagnóstico e avaliação psicológica, entre outras). Além disso, o formato de livro permite ampliar as análises, detalhá-las, torná-las mais acessíveis e menos técnicas por meio de uma explicação mais minuciosa, o que não é, em geral, permitido pelo formato mais restrito de um artigo, com suas limitações de espaço e exigências de especialização acadêmica. Todos os trabalhos aqui apresentados foram, então, revisados e/ou complementados e ampliados, tendo esses objetivos em vista. O objetivo maior é potencializar e explorar ao máximo os espaços de diálogo e de interlocução interdisciplinar que a psicanálise pode viabilizar, fornecendo uma interpretação sistemática de algumas noções metapsicológicas centrais do pensamento freudiano – justamente aquelas cuja compreensão é mais árdua ao não especialista e cuja complexidade ainda dá margem a mal-entendidos e/ou interpretações divergentes mesmo entre os estudiosos da obra de Freud.