Entre o corpo e a consciência: a metapsicologia freudiana

Capítulo V - Um retorno às origens da metapsicologia: o caso da compulsão à repetição

Capítulo V - Um retorno às origens da

metapsicologia: o caso da compulsão

à repetição

 

Introdução

Muito já se disse sobre o modo como as teses metapsicológicas mais importantes encontram-se prefiguradas no manuscrito do Projeto de uma psicologia (1895), mas nem sempre o estatuto dessa persistência é plenamente explicitado, como tampouco o grau de literalidade com que Freud adere a certas de suas concepções iniciais, principalmente quando estão em questão os grandes momentos de inovação e de suposta ruptura nas teorizações subsequentes. Este trabalho propõe-se a fazer uma contribuição bastante específica a essa discussão, restrita ao tema da compulsão à repetição – conceito introduzido formalmente por Freud em Além do princípio do prazer (1920) – com o intuito de colaborar para o problema mais amplo da gênese das concepções metapsicológicas fundamentais. Contudo, algumas observações sobre o movimento geral da obra freudiana que conduz, no início dos anos 1920, a uma retomada de algumas teses iniciais serão apresentadas no final, a título de conclusão e de sugestão de linhas de reflexão a serem exploradas em trabalhos subsequentes.

No Projeto de uma psicologia, Freud estabelece como princípio fundamental e originário da atividade nervosa o “princípio de

inércia”, 166 segundo o qual a tendência originária do aparelho neuronal seria libertar-se de toda e qualquer quantidade de excitação. Contudo, o princípio de inércia estaria fadado, desde o início, a ser substituído ou modificado, devido à sua incapacidade de promover a descarga eficiente da excitação proveniente do interior do corpo. A estimulação endógena imporia uma modificação à tendência primária para a inércia, a saber, a sua substituição pela tendência a manter a quantidade neuronal constante, no nível mínimo indispensável. A tendência à constância, no entanto, não se oporia ao princípio da inércia. Ao contrário, agiria na mesma direção que este, permitindo que a quantidade endógena fosse, de fato, eliminada e que as necessidades orgânicas fossem satisfeitas. As sensações de prazer e desprazer corresponderiam, respectivamente, à diminuição e ao aumento do nível de excitação no aparelho. Freud sugere uma identificação entre a tendência primária à inércia e a tendência da vida psíquica para “evitar o desprazer”, mas não chega a estabelecer conclusivamente essa identidade.

Apenas no capítulo 7 de A interpretação dos sonhos, Freud introduz a hipótese de um “princípio do desprazer” que, posteriormente, será rebatizado como “princípio do prazer”. Segundo o que é proposto nesse momento, o sistema inconsciente seria regido exclusivamente pelo princípio do desprazer, enquanto o pré-consciente seria regido pelo que, em Formulações sobre os dois princípios dos

acontecimentos psíquicos 167 , Freud chamou de “princípio de realidade”. Essas hipóteses do capítulo 7 sobre a relação entre o sistema inconsciente e o princípio do desprazer, por um lado, e entre o pré-consciente e o princípio de realidade, por outro, são mantidas inalteradas nos artigos metapsicológicos de 1915. Mas, em Além do princípio do prazer, Freud introduz a tese de que o funcionamento psíquico regido pelo princípio do prazer não seria o mais originário, devendo haver outro que o antecedesse, o qual seria regido pela “compulsão à repetição”. Essa seria a ideia central desse texto, como o próprio título o indica, consistindo na principal novidade por ele trazida à teoria psicanalítica. Não obstante, procuramos argumentar aqui que esse funcionamento psíquico que está “além do princípio do prazer” só representa uma novidade em relação à teoria do aparelho psíquico que toma forma a partir de A interpretação dos sonhos e que a ideia de uma atividade psíquica originária regida pela compulsão à repetição já estava presente no Projeto. Tendo este texto em vista, podemos perceber que, em 1920, Freud resgata esta e outras hipóteses antigas, que haviam sido deixadas temporariamente de lado na primeira tópica freudiana, por razões que terão que ser discutidas adiante.

 

Processo primário, dor e desprazer no Projeto

A modificação do princípio de inércia originário deve-se então, de acordo com as teses do Projeto, ao fato de que a quantidade endógena, ao contrário da exógena, não pode ser plenamente descarregada por meio de movimentos reflexos, que não seriam capazes de fazer cessar a recepção da quantidade, por não haver “fuga de estímulo” possível diante de excitações de origem somática. Para fazer cessarem os estímulos endógenos, seria necessária uma “ação específica” (busca de alimento, no caso da fome, por exemplo), cuja execução teria como condição a retenção de certo montante de quantidade no aparelho, com o que o princípio regulador da atividade nervosa passa a ser a tendência a manter essa quantidade constante no nível mais baixo possível. A tendência à constância, como vimos, não se oporia ao princípio da inércia; ao contrário, atuaria em favor deste, permitindo que a quantidade endógena fosse mais eficientemente eliminada. As sensações conscientes de prazer e desprazer corresponderiam às variações das intensidades de excitação no aparelho – ou seja, de seu estado de tensão interna – para menos ou para mais, respectivamente. O aumento da excitação acima de certo nível produziria desprazer, e a sua diminuição abaixo de certo nível produziria as sensações de prazer. Entre ambos, haveria um nível intermediário, que possibilitaria o surgimento das qualidades sensoriais. Em vista disso, Freud sugere haver certa identidade entre a tendência primária à inércia e a tendência da vida psíquica para evitar o desprazer: “Como nos é certamente conhecida uma tendência da vida psíquica para evitar desprazer, estamos tentados

a identificá-la com a tendência primária para a inércia”.168

Os conceitos de “processo primário” e de “processo secundário” recebem também sua primeira formulação no Projeto. O processo primário consistiria em um tipo de funcionamento guiado exclusivamente pelo princípio de inércia, isto é, anterior ao surgimento da tendência à constância. Seria um processo no qual

toda a excitação seguiria pela via mais bem facilitada,169 sem sofrer nenhum tipo de inibição ou redirecionamento. Esse funcionamento primário poderia perfeitamente conduzir à reativação de representações que, mesmo em sua origem, produziram apenas desprazer, o que ocorreria, sobretudo, nos processos derivados da vivência de dor.

A dor consistiria na irrupção de grandes quantidades na direção do

sistema ψ – a parte do aparelho responsável pela memória 170 – como consequência da ruptura dos dispositivos de proteção do sistema contra quantidades exógenas (segundo Freud, as próprias terminações sensoriais). A dor produziria, em primeiro lugar, um grande aumento no nível da excitação em ψ, sentido como desprazer; em segundo, uma inclinação para a eliminação dessa excitação e, em terceiro, uma facilitação entre esses caminhos de eliminação e a representação do objeto que provocou a dor (o “objeto hostil”). Uma vez ocorrida essa vivência de dor, novas

ocupações ( 171 Besetzungen ) da representação do objeto hostil produziriam “afeto” (quantidade oriunda de descargas somáticas, desencadeadas pelo que Freud denomina “neurônios-chave”) e uma nova inclinação para a eliminação, a qual é chamada de “defesa primária”. Ou seja, quando a representação do objeto hostil fosse ocupada novamente, a partir da percepção ou pelo decurso dos processos associativos, haveria uma liberação de quantidade no aparelho, a qual geraria desprazer e um esforço para a desocupação da representação do objeto hostil. Assim como a vivência de satisfação teria como consequência psíquica o surgimento dos “estados de desejo”, que inicialmente conduziria à alucinação e a uma descarga motora ineficaz, a vivência de dor teria como consequência o surgimento do afeto, cujo protótipo são os estados de angústia. Esse tipo de funcionamento no qual toda a excitação segue automaticamente pela via mais bem facilitada – tendo como consequências alucinação e desamparo, por um lado, ou afeto e defesa automática excessiva, por outro – é o que Freud chama no Projeto de “processo primário”:

A ocupação de desejo até a alucinação, o total desenvolvimento

de desprazer que traz consigo o dispêndio total de defesa

designamos como processos psíquicos primários; em

contrapartida, todos os processos que são possibilitados

apenas por uma boa ocupação do eu e que são uma

moderação dos apresentados acima designamos como

processos psíquicos secundários 172 .

O processo secundário surgiria a partir da inibição e do direcionamento do processo primário pelo “eu”. Com as repetições das alucinações primárias de desejo e a consequente frustração e desamparo, o eu aprenderia a não mais ocupar tão intensamente a representação do objeto de desejo e as representações de movimento a ela associadas (ou seja, a não executar a ação ineficaz, como a sucção do vazio, por exemplo, no caso paradigmático da fome do recém-nascido). Como consequência, certo nível de quantidade seria retido no núcleo do sistema ψ (ao qual corresponde, funcionalmente, o núcleo do eu). Isto é, parte da excitação poderia permanecer, a partir daí, em estado ligado. Com esse armazenamento de quantidade, o curso associativo seria parcialmente inibido e não mais seguiria unicamente pelas vias mais bem facilitadas: Freud argumenta que a quantidade retida no eu poderia ser empregada em “ocupações laterais” que modificassem o curso dos processos associativos e impedissem a ocorrência daqueles que resultaram em desprazer. A partir de então, a alucinação de desejo, a ocupação da representação hostil e a defesa automática excessiva poderiam vir a ser inibidos.

A inibição da alucinação de desejo e da descarga motora seria condicionada biologicamente pelo desprazer: Freud postula uma lei biológica – ou seja, uma tendência fixada filogeneticamente, à qual também denomina “defesa primária” – segundo a qual, caminhos que conduzem ao desprazer deixam de ser percorridos. Haveria, assim, nesse caso, uma inibição inicial, determinada por essa tendência biológica, que seria depois assumida pelo eu, a partir do momento em que essa instância se constituísse e permitisse a ocorrência dos processos secundários. Já a inibição da ocupação intensa da representação do objeto hostil seria um processo gradual, que pressuporia o estabelecimento da excitação em estado ligado. A razão dessa diferença não é muito explícita no texto e sua discussão envolve uma série de pressupostos teóricos do Projeto, que apenas podemos esboçar aqui. Eis o problema, tal qual Freud o formula:

Poder-se-ia perguntar por que essa defesa de pensamento não

se dirigiu contra a recordação ainda capaz de afeto. Só que aí,

podemos supor, a segunda regra biológica ergueu-se contra

ela, a qual exigiria atenção onde se apresentasse um signo de

realidade e a recordação indomada fosse ainda capaz de forçar

signos de qualidade reais.173

O que essa passagem propõe é que uma segunda lei biológica – a

da atenção 174 – se teria sobreposto à primeira. As primeiras reaparições da representação hostil seriam alucinatórias e, portanto, produziriam “signos de qualidade reais”. Diante de tais signos, a regra da atenção falaria mais alto que a da defesa. Essa explicação de Freud não parece resolver o problema, pois as primeiras repetições da representação de desejo seriam também alucinatórias. Talvez a diferença decorresse do fato das facilitações estabelecidas pela vivência de dor serem bem maiores que as decorrentes da vivência de satisfação, devido à intensidade das quantidades envolvidas. Além disso, o desprazer acompanha inevitavelmente a alucinação de desejo, incapaz de suprimir o fluxo contínuo da quantidade oriunda da necessidade orgânica, de modo que, de acordo com a primeira lei, esse caminho é abandonado e a alucinação cessa. Ao contrário, a defesa reflexa é, em princípio, eficiente na eliminação do desprazer e na inibição da descarga afetiva, de modo que sua inibição não pode ser automaticamente desencadeada pela primeira lei biológica. Seja como for, o domínio, por parte do eu, dos processos primários que resultam da vivência de dor surge como mais problemático que o domínio daqueles que resultam da vivência de satisfação, o que faz com que Freud retome essa questão na terceira parte do Projeto.

Freud observa aí que o pensamento, entre outras coisas, pode conduzir ao desprazer, devido à ocupação de representações que pertenceram à vivência de dor, donde resulta que:

Caso se acompanhe o destino de tais percepções enquanto

imagens de recordação, nota-se assim que as primeiras

repetições sempre despertam ainda tanto afeto como também

desprazer, até que, com o tempo, tal capacidade se perde.

Simultaneamente efetua-se com elas outra modificação. Elas

retinham inicialmente o caráter de qualidades sensoriais;

quando elas não mais são capazes de afeto, perdem também

isto e tornam-se semelhantes a outras imagens de

recordação.175

Trata-se, nesse caso, de “recordações ainda indomadas”, segundo a expressão freudiana, ou seja, recordações ainda não submetidas à regulação por parte do eu. Mas, então, pergunta-se Freud, o que acontece com essas recordações capazes de afeto até que elas sejam “domadas”? A resposta é que o eu precisa ainda obter poder sobre elas, isto é, essas representações precisam ser submetidas a uma Bindung (ligação) por parte do eu, precisam ser integradas nos circuitos neuronais que o constituem. Como elas originaram-se de vivências de dor, essa ligação seria mais trabalhosa para o eu do que a ligação das demais representações:

Como traços de vivências de dor, elas (conforme nossa

suposição sobre a dor) foram ocupadas a partir de Qs φ muito

grandes e adquiriram uma facilitação muito intensa para

liberação de desprazer e de afeto. É preciso uma ligação

repetida e particularmente grande a partir do eu, até que essa

facilitação para o desprazer seja contrabalançada.176

Isso significa, então, que o eu inicialmente não teria condições de impedir a ocupação de tais representações ou mesmo de inibi-las parcialmente. Apenas gradualmente ele iria adquirindo poder sobre elas, por meio de repetidas tentativas de ligá-las. Antes que isso acontecesse, não seria possível impedir nem inibir sua recordação, tampouco a liberação de desprazer resultante. Depois de ligadas, a ocupação dessas representações se limitaria a um mínimo, que permitisse somente sinalizar ao curso do processo associativo que aquele caminho conduz ao desprazer e deve ser evitado:

Antes de tudo, quando ocorre o trauma (vivência de dor) em

uma época em que já existe um eu – os primeiros deles

escapam completamente ao eu – ocorre uma liberação de

desprazer, mas, ao mesmo tempo, o eu também está ativo para

criar ocupações laterais. Se a ocupação de recordação se

repetir, também se repete o desprazer, só que também as

facilitações do eu já existentes, e a experiência mostra que, em

uma segunda vez, a liberação diminui, até que, em uma

repetição posterior, a intensidade se reduz a um sinal aceitável

para o eu.177

Assim, se, na primeira parte do Projeto, Freud descreve a vivência de dor com suas consequências e estabelece que, a partir de certo momento, o eu passa a inibir a ocupação da representação do objeto hostil, na terceira parte desse mesmo texto, ele procura esclarecer como isso poderia ocorrer. Tratar-se-ia de um processo gradual e, até que esse processo tivesse sido completado – ou seja, até que essas representações tivessem sido “domadas” – não seria possível evitar a sua ocupação. Com isso, Freud admite, no Projeto – e, mais especificamente, na sua terceira parte –, a hipótese de que há processos primários no aparelho que fazem retornar representações que, mesmo em sua origem, foram desprazerosas. Dito de outro modo, está claramente formulada, nesse texto, a ideia de um processo repetitivo que continua ocorrendo enquanto essas representações ainda não tenham sido ligadas. A questão que permanece, agora, é: pode-se dizer que esse processo estaria “para além do princípio do prazer”? Para responder essa questão é necessário retornarmos ao conceito de princípio do prazer e à sua relação com os processos psíquicos primários e secundários.

 

O princípio do prazer Estritamente falando, Freud não se refere, no Projeto, a um “princípio do prazer”. No início do texto, ele define o “princípio de inércia” e, adiante, diz tão somente que “está tentado” a identificar a tendência da vida psíquica a evitar o desprazer com a tendência inicial à inércia. Se partirmos da hipótese de que essa identificação está mesmo pressuposta pela teoria, então teríamos que reconhecer que o funcionamento repetitivo que antecede a ligação da representação, conforme descrito acima, não está para além do princípio do prazer. Tal como foi definido, o princípio de inércia, em sua forma originária, aspiraria a libertar-se da quantidade pela via mais direta possível; num funcionamento por ele regido, a quantidade sempre tramitaria pelo caminho mais bem facilitado. Contudo, o caminho mais bem facilitado, em algumas ocasiões, poderia acabar levando ao desprazer, como é o caso das primeiras alucinações de desejo e das primeiras ocupações do objeto hostil após a vivência de dor. Mas, mesmo nesses casos, o processo associativo estaria sendo guiado pelo princípio de inércia, pois é justamente a tendência a buscar a via mais direta possível de descarga da quantidade que faz com que a ocupação prossiga pelo caminho mais bem facilitado, o que conduz a essas consequências. Como esse processo guiado unicamente pela tendência à inércia acaba levando ao desprazer, dá-se uma mudança nessa tendência originária. Primeiramente, o aparelho aprende – ou seja, é condicionado pela primeira regra biológica – a não ocupar tão intensamente as representações associadas à vivência de satisfação, o que tem como consequência o armazenamento de certo nível de quantidade. Com isso, a tendência primária à inércia estaria sendo substituída pela tendência à constância. Mas, mesmo após ter sido estabelecida essa modificação, processos primários relacionados à vivência de dor ainda continuariam a ocorrer, enquanto as recordações hostis permanecessem, como diz Freud, “indomadas”.

Deste modo, retornando à questão anteriormente colocada, o processo repetitivo descrito no Projeto não estaria para além da tendência a evitar o desprazer a que Freud se refere neste texto, se consideramos que esta pode ser identificada ao princípio de inércia. Mas a noção de princípio do prazer é cabalmente formulada, de fato, apenas no capítulo 7 de A interpretação dos sonhos. Portanto, é em relação a essa formulação que devemos buscar compreender a hipótese de que haveria um funcionamento que antecedesse aquele regido pelo princípio do prazer.

No capítulo 7, embora não fale textualmente em um “princípio de inércia” e nem em uma “tendência à constância”, Freud parece manter hipóteses muito semelhantes às do Projeto. Na seção C, ele afirma que:

(…) o aparelho seguiu primeiramente o empenho de se manter

o mais possível livre de estímulos e, por isso, assumiu, em sua

primeira construção, o esquema do aparelho reflexo, que lhe

permitia eliminar prontamente, por vias motoras, uma excitação

sensível que o alcançasse a partir do exterior. Mas a urgência

da vida ( 178 Not des Lebens ) perturba essa função simples (…).

Haveria, então, uma tendência inicial a descarregar a excitação pela via reflexa, a qual seria modificada pela necessidade de fazer cessar a estimulação endógena, tal como fora proposto em 1895. Mas, apenas na seção E do capítulo 7, Freud fala em um “princípio do desprazer”. Em primeiro lugar, ele diz que o decurso da excitação dentro do aparelho psíquico é regulado automaticamente pelas percepções de prazer e desprazer. Mais adiante, ele afirma que há um “princípio do desprazer” que exerce essa regulação. O processo primário – que corresponderia ao sistema inconsciente – seria aquele regulado exclusivamente pelo princípio do desprazer. Devido à necessidade de lidar com as excitações endógenas, surgiria um segundo tipo de funcionamento: o processo secundário, que corresponderia topicamente ao sistema pré-consciente. O processo primário, assim como no Projeto, seria o processo dirigido para a livre descarga da excitação – isto é, nele a quantidade se encontraria em estado “livre” –, ao passo que o processo secundário seria aquele no qual a excitação se encontraria em “estado ligado”. Freud volta a mencionar o que, no Projeto, fora chamado de vivência de dor, com o objetivo de esclarecer a regulação que o princípio do desprazer exerceria sobre o processo secundário. Inicialmente, ele retoma as mesmas hipóteses do Projeto:

Suponha-se que sobre o aparelho primitivo atue um estímulo

perceptivo que seja a fonte de uma excitação de dor. Seguir-se-

ão exteriorizações motoras desordenadas até que uma delas

livre o aparelho da percepção e, ao mesmo tempo, da dor, e

esta será repetida imediatamente a cada reaparição da

percepção (algo assim como um movimento de fuga), até que a

percepção desapareça outra vez. Mas aqui não restaria

nenhuma inclinação para reocupar (wiederzubesetzen),

alucinatoriamente ou de outra maneira, a percepção da fonte de

dor. Pelo contrário, persistiria no aparelho primário a inclinação

para abandonar a imagem mnêmica penosa, assim que ela

fosse, de algum modo, evocada, porque o transbordar de sua

excitação até a percepção provocaria desprazer (mais

exatamente, começaria a provocá-lo).179

Essa descrição é muito semelhante à descrição da vivência de dor no Projeto. Mas, no capítulo 7 – assim como, posteriormente, nos artigos metapsicológicos –, não é mais mencionada a hipótese de que, como consequência da vivência de dor, surgiria um funcionamento primário no aparelho que produziria afeto e defesa automática excessiva, o qual seria modificado gradualmente a partir de repetidas tentativas de ligar a excitação que ocupasse as representações hostis. Desaparece, assim, a ideia de que há um tipo de funcionamento primário no aparelho que conduza à reativação de representações desprazerosas, um funcionamento que não poderia ser evitado enquanto as representações não sejam ligadas. Parece estar implicitamente presente a ideia de que mesmo os processos psíquicos primários possuiriam desde o início a capacidade de inibir a ocupação de representações que conduzem ao desprazer, seja qual for a sua origem. Portanto, o que seria, no Projeto, uma aquisição secundária no modo de tratar as consequências da vivência de dor, passa a ser, no capítulo 7, algo que faz parte do funcionamento psíquico desde sua origem. Isso se torna mais claro com a conclusão a que Freud chega logo em seguida: “Em consequência do princípio de desprazer, o primeiro sistema ψ é assim totalmente incapaz de incluir algo desagradável na concatenação do pensamento. O sistema não pode fazer outra

coisa a não ser desejar”. 180

No processo primário, tal como este é concebido no capítulo 7, parece que as representações relacionadas à vivência de dor seriam completa e espontaneamente excluídas dos processos associativos. Nada mais é dito a respeito da fase em que as representações permaneceriam “indomadas” e do esforço necessário para ligá-las. O processo secundário – ao qual corresponde o sistema pré-consciente –, ao contrário dos processos primários, poderia incluir representações desprazerosas entre suas associações, pois esse sistema, diz Freud, “ocupa uma recordação de tal forma que inibe o escoamento a partir dela e, portanto, também o escoamento – comparável a uma inervação motora – em

direção ao desenvolvimento de desprazer”. 181

No capítulo 7, portanto, a situação é a seguinte: haveria um funcionamento primário do qual estariam excluídas, por definição, todas as representações desprazerosas; e haveria um funcionamento secundário que poderia ter acesso a elas, pois sua forma de ocupação (Besetzung) inibiria a liberação de desprazer. Esse processo primário, segundo Freud, seria regulado exclusivamente pelo princípio de desprazer; já no processo secundário, o princípio reitor consistiria em uma modificação do princípio de desprazer, que será chamada, em 1911, de “princípio de realidade”, quando então o primeiro passa enfim a ser denominado “princípio do prazer”. Assim, no capítulo 7, um funcionamento regido exclusivamente pelo princípio do desprazer é um funcionamento no qual, desde o início, a reocupação de representações que conduzem à liberação de desprazer pode ser evitada, de forma que estas fiquem excluídas do curso do processo associativo. Contudo, é difícil pensar como isso seria possível, tendo em vista o funcionamento do aparelho descrito no Projeto, que não parece ter-se modificado aqui, pelo menos quanto à relação entre processo primário e quantidade em estado livre, por um lado, e entre processo secundário e o estado ligado, por outro. Como conciliar, nesse contexto, a ideia de quantidade em estado livre e a possibilidade de evitar caminhos bem facilitados? Freud, porém, passa completamente ao largo dessas questões no capítulo 7.

Podemos verificar, portanto, que, com relação a esse ponto, tudo se passa como se apenas as consequências da vivência de satisfação fossem mantidas na teoria nesse momento: Freud deixa de lado as consequências iniciais e os processos primários relativos à vivência de dor. Só o processo primário relacionado à vivência de satisfação parecer ser explicitamente considerado: o processo primário do capítulo 7, diferentemente daquele do Projeto, não “pode fazer outra coisa a não ser desejar”. É como se apenas a vivência de satisfação fosse mantida como a vivência originária na estruturação dos processos do aparelho. É contra esse pano de fundo que podemos considerar o tipo de funcionamento mental que Freud propõe, em 1920, como estando “além do princípio do prazer”.

 

O “além” do princípio do prazer

Freud inicia seu texto de 1920, recapitulando suas hipóteses sobre o princípio do prazer:

Na teoria psicanalítica, supomos sem hesitação que o decurso

dos processos mentais seja regulado automaticamente pelo

princípio do prazer, ou seja, acreditamos que ele seja, em todos

os casos, incitado por uma tensão desprazerosa e, então, tome

tal direção que seu resultado final coincida com um

rebaixamento dessa tensão e, portanto, com uma evitação do

desprazer ou uma produção de prazer.182

Ele retoma as noções de princípio do prazer e de processo primário, tal como estas haviam sido formuladas no capítulo 7:

Sabemos que o princípio do prazer é próprio de um modo de

trabalho primário do aparelho psíquico, que é desde o início

inapto e ainda perigoso em alto grau para a autopreservação do

organismo em meio às dificuldades do mundo exterior. Sob a

influência das pulsões de autoconservação do eu, ele é

substituído pelo princípio de realidade, que, sem renunciar ao

propósito de uma obtenção final de prazer, no entanto exige e

consegue o adiamento da satisfação, a desistência de diversas

possibilidades de alcançá-la e a tolerância temporária do

desprazer no longo rodeio para o prazer.183

Após retomar essas hipóteses, Freud levanta a questão da legitimidade de se supor que o princípio do prazer reja soberano todos os processos psíquicos. Ele argumenta que alguns processos, como é ilustrado pelo exemplo dos sintomas neuróticos, acabam gerando desprazer, mas trata-se, nesses casos, de uma busca de satisfação por parte do inconsciente, que resulta em algo desprazeroso para o pré-consciente. Haveria também o desprazer que o processo secundário aprende a tolerar, em obediência ao princípio de realidade, na espera por uma satisfação real e, ainda, o que Freud denomina “desprazer de percepção”, que se origina quer da percepção de uma insatisfação pulsional, quer de um objeto externo penoso ou sentido como perigoso. Esses casos não contradizem o império do princípio do prazer, mas, entre os fatos assim mencionados, há alguns que talvez possam fornecer novos dados, como é o caso do perigo de origem externa: “a investigação da reação psíquica diante do perigo exterior pode fornecer novo

material e colocar novas questões sobre o problema aqui tratado” 184 – como Freud afirma no final da primeira parte do texto, reconhecendo que a reação do aparelho psíquico frente a um perigo externo talvez imponha uma modificação à hipótese de que o princípio do prazer impere sobre todos os processos mentais. Ele acabará concluindo, no final da terceira parte de Além do princípio do prazer, que é legítimo supor a existência de um funcionamento que anteceda a vigência do princípio do prazer e que seja condição para que este passe a vigorar. Examinemos, então, quais são as evidências que lhe permitem chegar a essa conclusão.

Freud menciona, em primeiro lugar, o caso dos sonhos nas neuroses traumáticas, sonhos que reconduzem os enfermos à situação traumática, fazendo-os despertar aterrorizados. A única maneira de conciliá-los com a hipótese de que todo sonho é uma realização de desejo seria atribuindo-os a “enigmáticas tendências masoquistas do eu”: ao contrário dos sonhos de angústia (ou pesadelos) – em que o desprazer provém da iminência da realização do desejo inconsciente reprimido e pode, assim, ser reconciliado como o princípio do prazer –, não parece ser possível, de outra forma, conciliar os sonhos traumáticos com a meta universal da realização de desejo. Sem tirar mais conclusões dessa observação, Freud passa a discorrer a respeito dos jogos infantis. As crianças repetem nos jogos inúmeras situações por elas vivenciadas, algumas das quais – como no caso da célebre brincadeira do carretel aí descrita – podem consistir em experiências desprazerosas (a ausência da mãe, no exemplo narrado por Freud). Freud, então, levanta a questão: “Fica-se, assim, na dúvida de se o ímpeto de elaborar psiquicamente algo impressionante, de se apossar totalmente disso, pode exteriorizar-se de maneira primária e

independente do princípio do prazer”.185

A resposta oferecida, nesse momento, é que, apenas com base no estudo dos jogos infantis, não é possível sustentar essa conclusão, uma vez que, ainda sob a égide do princípio do prazer, haveria meios suficientes para converter em objeto de recordação e elaboração psíquica o que é, em si mesmo, desprazeroso. Assim, mesmo os jogos infantis que repetem situações desagradáveis poderiam ser pensados como estando sob o domínio do princípio do prazer: a repetição de experiências desprazerosas nos jogos infantis pode ser vista, por exemplo, como uma tentativa de se apoderar da situação, de vivenciar de forma ativa algo que, antes, foi vivido de forma apenas passiva. Nesse ponto, Freud volta-se, então, para o fenômeno da transferência.

Ao falar a respeito da transferência, ele usa pela primeira vez o termo compulsão à repetição (Wiederholungszwang): experiências reprimidas, das quais o enfermo não pode se recordar, acabam sendo repetidas como vivências atuais na situação analítica, após a repressão ter sido um pouco atenuada. Assim, a compulsão à repetição – que se manifesta aqui como transferência – é inicialmente apresentada como uma manifestação do reprimido inconsciente. A repressão, assim como a resistência que depois se opõe ao retorno do reprimido, é uma operação executada pelo eu. Tanto a repressão como a resistência podem ser compreendidas como estando a serviço do princípio do prazer: elas têm como finalidade evitar o desprazer que seria despertado se as representações reprimidas fossem liberadas e tivessem acesso à consciência. Portanto, a oposição à recordação, levada a cabo pela resistência, parece estar totalmente a serviço do princípio do prazer. Mas e a compulsão à repetição – pergunta-se Freud –, é possível conciliá-la com tal princípio?

Segundo ele, algumas repetições transferenciais seriam facilmente conciliáveis com o princípio do prazer, a saber, aquelas cuja satisfação representa um prazer para o sistema inconsciente e, ao mesmo tempo, um desprazer para o pré-consciente. Mas haveria outras que não podem ser compreendidas dessa forma:

O fato novo e digno de nota que nós agora temos que

descrever é que a compulsão à repetição também traz de volta

aquelas vivências do passado que não contêm nenhuma

possibilidade de prazer, que tampouco naquele tempo puderam

trazer satisfações, nem mesmo das moções pulsionais desde

então reprimidas.186

Os neuróticos repetem, assim, experiências afetivas que, mesmo quando ocorreram no passado, produziram apenas desprazer. Trata-se de pulsões que estavam destinadas a conduzir à satisfação, mas cuja ação produziu somente desprazer. Apesar de tais experiências terem fracassado em sua meta original, uma compulsão impõe sua repetição. Essa mesma compulsão à repetição dos neuróticos pode ser encontrada na vida de pessoas normais, nos fenômenos chamados por Freud de “compulsão de destino”. Esses dois fenômenos – a repetição transferencial de situações que, mesmo em sua origem, levaram apenas ao desprazer e as compulsões de destino – parecem tornar legítima a suposição de que existe na vida psíquica uma compulsão à repetição, que opera para além do princípio do prazer:

Em vista dessas observações feitas a partir do comportamento

na transferência e partir do destino dos seres humanos,

devemos ter coragem de supor que existe realmente na vida

psíquica uma compulsão à repetição que se sobrepõe ao

princípio do prazer. Nós também nos inclinaremos, agora, a

relacionarmos a essa compulsão os sonhos dos que padecem

de neurose traumática e o impulso para o jogo da criança.187

Deste modo, após mencionar os sonhos traumáticos e os jogos infantis, sem extrair deles a conclusão de que é possível supor um funcionamento independente do princípio do prazer, Freud chega a dois fenômenos que parecem tornar legítima tal suposição e permitem reinterpretar retroativamente aqueles considerados em

primeiro lugar. Na verdade, como observa Monzani,188 nenhum desses fenômenos tomados isoladamente permite a introdução dessa dimensão “além do princípio do prazer”, mas apenas o arranjo formado por eles e o modo como colaboram na justificação dessa hipótese.

Apenas em raros casos, argumenta Freud, a compulsão à repetição se manifesta em estado puro, sem a interferência de outros motivos. Na maior parte dos casos, satisfação pulsional (no sentido de obtenção de prazer) e compulsão à repetição estão em íntima relação. O caso menos duvidoso e mais próximo de uma manifestação pura da compulsão à repetição seria o do sonho traumático, observa Freud. Mas, mesmo nos demais fenômenos, diz ele, há muitas coisas não explicadas que tornam legítima a introdução dessa nova hipótese e “resta o suficiente para justificar a hipótese da compulsão à repetição, e esta nos parece mais originária, mais elementar, mais pulsional que o princípio do prazer

que é por ela afastado”.189 Uma vez estabelecido que haja uma compulsão à repetição que estaria para além do princípio do prazer, Freud aponta para a necessidade de esclarecer qual seria a função dessa compulsão, em que condições ela aflora e que relação há entre ela e o princípio do prazer.

É ao pensar sobre como o aparelho psíquico pode reagir à irrupção de excitações muito intensas (o “trauma psíquico”) que Freud pensa ter encontrado uma resposta para essas questões assim levantadas. Com a noção de trauma, tal como a emprega em 1920, Freud está, em muitos aspectos, retomando o conceito de vivência de dor do Projeto. O trauma resultaria da falha dos mecanismos destinados a proteger o aparelho de excitações muito intensas; nesse caso, não seria mais possível evitar que este fosse inundado por grandes volumes de estímulo e, nessas condições, sua tarefa mais urgente passaria a ser “dominar o estímulo, ligar psiquicamente as magnitudes de estímulo que irromperam, para

conduzi-los então à sua tramitação”.190 A vivência de dor – que, no Projeto, correspondia ao que agora Freud chama de trauma – passa a consistir no desprazer decorrente da ruptura da proteção antiestímulo do aparelho em um ponto específico. Diante da dor, seria produzida uma enorme contraocupação, na qual se empenhariam excitações oriundas dos outros sistemas, tendo como resultado um rebaixamento geral de toda a operação psíquica. Essa contraocupação teria como objetivo “ligar” a excitação que produz desprazer. Resta saber se essa operação que ele designa como “ligação” (Bindung) continua sendo pensada por Freud da mesma forma que em seus primeiros trabalhos. A seguinte afirmação parece indicar que sim: “Talvez possamos dar margem à suposição de que a ‘ligação’ da energia que aflui para dentro do aparelho psíquico consista em um translado do estado livremente fluente até

o estado de repouso”.191

Mediante essas considerações, Freud pode responder a questão a respeito da função da atividade psíquica regida pela compulsão à repetição e da relação deste funcionamento com aquele regido pelo princípio do prazer. Para que o princípio do prazer pudesse iniciar seu domínio, haveria uma tarefa prévia a ser realizada: transpor a excitação do estado livre para estado ligado, ou seja, dominá-la, submetê-la a outro regime de funcionamento e de circulação. Os processos regidos pela compulsão à repetição teriam, assim, a função de ligar a excitação; só após essa ligação, o princípio do prazer poderia passar a vigorar. Com isso, Freud pensa chegar a “uma perspectiva sobre uma função do aparelho psíquico que, sem contradizer o princípio do prazer, é, contudo, independente dele e parece mais originária que o propósito de obter prazer e evitar

desprazer”.192

Freud conclui, então, que a realização de desejo é a função do sonho sob o domínio do princípio do prazer e que, se há um funcionamento que o antecede e é dele independente, deve haver, por conseguinte, também sonhos regidos por esse funcionamento prévio, isto é, sonhos que visam adquirir controle sobre estímulos e representações. Enquanto as representações permanecessem “indomadas”, não seria possível evitar sua ocupação, mesmo que esta levasse ao desprazer; apenas após terem suas excitações ligadas, sua ocupação poderia ser inibida, e essa ligação só seria possível depois de repetidas tentativas. Voltamos, portanto, às ideias que constam na terceira parte do Projeto, conforme foi revisado acima.

Os fenômenos que levam Freud a concluir que é necessário supor um funcionamento que anteceda o princípio do prazer são principalmente aqueles que retomam situações que, mesmo em sua origem, foram desprazerosas. Freud retorna, assim, ao que no Projeto fora descrito dentro da série de consequências da vivência de dor, e isso é justamente o que havia sido deixado de lado do capítulo 7 de A interpretação dos sonhos em diante. No Projeto, estava claramente formulada a ideia de que a reocupação das representações hostis e a liberação de desprazer decorrente disso não podiam ser evitadas enquanto o eu não adquirisse domínio sobre essas representações, isto é, enquanto sua quantidade não fosse ligada: tal domínio seria obtido apenas após sucessivas tentativas por parte do eu de ligar essas excitações. É exatamente esse processo intercalado entre a vivência de dor e a possibilidade de inibir a ocupação das representações hostis que havia sido deixado de lado a partir do capítulo 7 e que agora é retomado em Além do princípio do prazer. E é ele que vai explicar qual pode ser a função de um processo que anteceda o princípio do prazer.

O conceito de processo primário, com isso, volta a ser pensado da mesma forma como o era no Projeto. Desde o capítulo 7, o processo primário seria regido “exclusivamente pelo princípio do prazer” e isso significava que tal processo seria incapaz de incluir representações desprazerosas entre suas associações. Essa capacidade surgiria somente no processo secundário. Pensando nessa forma de conceber o princípio do prazer, de fato, é preciso admitir que o funcionamento regido pela compulsão à repetição se situa “além” do mesmo. Mas não se situaria “além do princípio do prazer”, se esse fosse identificado com o princípio de inércia do Projeto, isto é, se por princípio do prazer se entendesse a tendência do aparelho a descarregar sua excitação da forma mais direta possível.

A seguinte afirmação de Freud no capítulo 7 deixara claro que apenas a vivência de satisfação e suas consequências permaneciam na teoria do aparelho psíquico apresentada em 1900: “uma operação do sistema Icc é tal que não conhece nenhuma outra meta em seu trabalho que a realização de desejo, nem dispõe de

nenhumas outras forças além das moções de desejo”.193 Não havia mais ali, portanto, como conceber processos primários que levassem à produção de afeto, uma vez que a vivência de dor e suas consequências tinham sido postas de lado nesse momento da teoria para serem retomadas apenas a partir 1920.

 

Considerações finais

Monzani 194 argumenta que, com a introdução do conceito de pulsão de morte, Freud explicita algo que, desde o Projeto e ao longo de toda sua obra, esteve presente de forma implícita na teoria: ao introduzir essa noção em Além do princípio do prazer, ele teria apenas conferido um direito de cidadania manifesto a algo que

sempre aí esteve presente. Figueiredo, 195 por exemplo, considera um equívoco colocar o problema do dualismo pulsional, renovado com a formulação do conceito de pulsão de morte, como a questão central de Além do princípio do prazer. De fato, na medida em que a compulsão à repetição é colocada como a característica definidora da exigência pulsional enquanto tal, esse dualismo só pode ser construído sobre a base comum dada por esse caráter conservador e, no limite, mortífero que está sendo atribuído à pulsão como um todo. Fica claro, de resto, que a dualidade pulsional proposta em 1920 não é da mesma natureza que a anterior, na qual se tratava de duas classes de pulsões (sexuais e de autoconservação), derivadas de um fundamento biológico distinto (as funções de conservação da espécie e do indivíduo, respectivamente). A oposição entre pulsões de vida e de morte, ao contrário, parece caracterizar dois aspectos antagônicos da exigência pulsional como um todo, fundamentada numa tensão inerente à vida, que se estabelece entre uma tendência à complexidade e à organização e outra tendência à eliminação da tensão e a retornar ao inanimado. Toda pulsão particular seria, assim, simultaneamente, pulsão de vida e de morte, conforme o aspecto sob o qual se a considera (embora algumas possam manifestar mais claramente um desses dois aspectos, como a relação entre a agressividade e a pulsão de morte, por exemplo). Freud insiste, de fato, em diversas ocasiões, em que essas pulsões nunca se manifestam sob uma forma pura, mas sempre mescladas em alguma medida. A segunda teoria pulsional, portanto, afirmaria uma dualidade inscrita na própria natureza da pulsão, e não uma diferença entre classes de pulsões distintas.

A leitura aqui apresentada tende a concordar com essas interpretações e acrescenta que, ao introduzir a noção de compulsão à repetição, Freud tampouco está propondo uma ideia totalmente nova em sua teoria, mas sim retomando certas hipóteses iniciais que haviam sido deixadas de lado a partir do capítulo 7. Com isso, não se pretende certamente sugerir que Além do princípio do prazer apenas repete e explicita hipóteses que estavam presentes já no Projeto e em outros textos metapsicológicos anteriores. Como nos adverte o próprio Monzani, vários conceitos novos são introduzidos, e a reformulação da teoria que Freud empreende nesse momento, e que acaba culminando no texto de 1920 e em O eu e o isso (1923), foi impulsionada, principalmente, por novas evidências obtidas ao longo desse período, entre elas, aquelas que levaram à formulação da teoria do narcisismo.

Mas, ainda assim, talvez seja plausível pensarmos que a reformulação da teoria que se faz necessária e que Freud empreende nos anos 1920 o leva, em medida considerável, a retomar um conjunto de hipóteses iniciais, que estavam presentes no Projeto, mas que não foram desenvolvidas, até esse momento, nas obras freudianas intermediárias. Os passos à frente de Freud, ao mesmo tempo, o levariam, em certo sentido, para trás. Poderíamos, nesses termos, concluir então que, ao introduzir a noção de compulsão à repetição em 1920, Freud retorna às hipóteses do Projeto e que esse retorno o leva para além do princípio do prazer apenas no sentido em que este é pensado no capítulo 7 de A interpretação dos sonhos. O passo além de Freud seria, nesse caso, um retorno às origens da metapsicologia, e o Além do princípio do prazer consistiria num trabalho em que certas teses do Projeto, até então apenas subentendidas nos desenvolvimentos posteriores, começariam a retornar à letra da teorização freudiana e a serem explicitamente tematizadas. Esse é um aspecto do movimento do pensamento de Freud que pode passar facilmente despercebido. Muitos comentadores rigorosos do texto de Freud, mesmo aqueles que empreendem uma análise sistemática de Além do princípio do prazer, nem sempre o levaram em conta. Para darmos apenas um exemplo:

Muito cedo, Freud observou o caráter de repetição dos

comportamentos patológicos. Agora, no entanto, dirige, em

primeiro lugar a atenção expressamente para esses fenômenos

que, até então, tinham sido considerados de forma casual e

interroga-se sobre sua compatibilidade com o princípio de

prazer. A ligação dos processos psíquicos primários com o

motivo de prazer da realização de desejo – antes válida sempre

como algo evidente, como pressuposto sem necessidade de

mais fundamentação – é pela primeira vez questionada 196 . Quais teriam sido as razões que levaram Freud a abandonar provisoriamente algumas de suas convicções iniciais para retomá-las apenas bem mais tardiamente? Essa é uma questão que diz respeito ao movimento geral de construção da obra freudiana e só poderá ser aflorada aqui. Duas ordens de razões podem ser apontadas e dizem respeito ao que ocorre com as formulações metapsicológicas de Freud na passagem do Projeto para A interpretação dos sonhos. Em primeiro lugar, o fundamento metapsicológico da teoria freudiana das neuroses é fortemente redefinido pela constatação de que o reprimido consiste essencialmente de fantasias sexuais infantis (o famoso abandono da teoria da sedução). Essa nova orientação das hipóteses etiológicas de Freud retira a vivência de dor descrita no Projeto da sua condição de modelo normal do trauma neurótico, coloca a repressão do desejo (a consequência psíquica, lembremos, da vivência de satisfação e não da de dor) na origem tanto dos processos patológicos quanto dos normais (cujo paradigma é o sonho) e permite assim a unificação do campo da explicação psicanalítica, pretendida, mas não realizada, no Projeto. A partir de 1900, fica estabelecido que o desejo – e não mais o trauma – é a fonte de todas as motivações psíquicas, sejam elas normais ou patológicas.

Por outro lado, pode-se constatar que o modelo do aparelho psíquico do capítulo 7 se caracteriza por uma forte restrição da problemática abordada em 1895. Tudo se passa como se Freud, diante da impossibilidade de tratar adequadamente a imensa gama de questões levantadas no Projeto, tenha-se concentrado um setor reduzido das mesmas e procurado fornecer deste setor uma abordagem capaz de aprofundar aqueles tópicos cujo desenvolvimento contemplava os problemas mais urgentes da teoria (a múltipla inscrição da memória, o problema da repressão do desejo, a relação da linguagem com os processos secundários, para citar apenas alguns). Desaparecem, assim, da estrutura do aparelho neuronal instâncias que eram absolutamente decisivas para o esquema montado em 1895, das quais cabe destacar o eu e o núcleo do sistema ψ, que ali correspondia à instância pulsional do aparelho. O aparelho de 1900 passa a ser “psíquico” e não mais “neuronal”, porque a tópica do capítulo 7 preserva apenas o sistema ψ do manto do esquema de 1895, justamente aquela em que ocorrem os processos psíquicos resultantes da recepção de estímulos externos. O núcleo e o eu desaparecem da tópica e, embora Freud continue a falar de um sistema de percepção e de consciência (φ e ω na terminologia do Projeto) estes não são mais explicitamente representados na estrutura espacial do aparelho: tornam-se “limites” ou “polos” do mesmo, mas não instâncias propriamente ditas.

A pulsão e o eu apenas retornarão ao primeiro plano da reflexão metapsicológica na esteira dos desenvolvimentos mais importantes do período entre 1900 e 1920: a teoria da sexualidade, da qual o conceito de pulsão constitui a expressão metapsicológica mais significativa, e a teoria do narcisismo, que torna inadiável a elaboração teórica do conceito de eu e precipita a revisão da primeira dualidade pulsional que culminará em 1920, em cujo contexto reaparece a noção de compulsão à repetição, como se procurou mostrar acima. Assim, se o conceito de compulsão à repetição, que demarca o “além do princípio do prazer” que Freud quer aí estabelecer, exprime tanto a necessidade do mental de assimilar em si a ação traumática do mundo externo quanto o que

há de mais essencial na atividade da pulsão,197 é compreensível que ele só possa ser explicitamente reincorporado à teoria no momento em que uma e outra dessas noções foram novamente trazidas para o centro das preocupações metapsicológicas freudianas. Compreendido dessa maneira, ele parece ilustrar exemplarmente esse movimento do pensamento de Freud que, a partir de 1920, como que fecha um ciclo e retoma – em outro nível de elaboração conceitual, com certeza – noções que estiveram presentes no momento mesmo do nascimento da metapsicologia.

 

Referências bibliográficas FIGUEIREDO, L. C. Palavras cruzadas entre Freud e Ferenczi. São Paulo: Escuta, 1999.

FREUD, S. [1895/1950]. Entwurf einer psychologie. In: ______. Gesammelte werke: nachtragsband. Frankfurt: Fischer, 1987. p. 387-477.

______. [1900]. Die traumdeutung. In: ______. Studienausgabe. Frankfurt: Fischer, 1982. v. 2.

______. [1911]. Formulierungen über die zwei prinzipien des psychischen geschehens. In: ______. Studienausgabe. Frankfurt: Fischer, 1982. v. 3, p. 13-24.

______. [1920]. Jenseits des lustprinzips. In: ______. Studienausgabe. Frankfurt: Fischer, 1982. v. 3, p. 213-272.

GABBI JUNIOR, O. F. Notas sobre mecanicismo e teleologia: a pulsão de morte. In: KIMMERLE, G. Denegação e retorno: uma leitura metodológica de “Para além do princípio de prazer” de Freud. Piracicaba: Editora da UNIMEP, 2000. p. v-xxiii.

GARCIA-ROZA, L. A. [1986]. Acaso e repetição em psicanálise: uma introdução à teoria das pulsões. 4. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

KIMMERLE, G. Denegação e retorno: uma leitura metodológica de “Para além do princípio de prazer” de Freud. Piracicaba: Editora da Unimep, 2000.

MONZANI, L. R. Freud: o movimento de um pensamento. Campinas: Editora da UNICAMP, 1989.

166 Cabe esclarecer, de saída, que a aproximação proposta aqui não implica afirmar, como às vezes se faz, que o princípio de inércia do Projeto é simplesmente uma prefiguração do conceito de pulsão de morte introduzido em Além do princípio do prazer. De fato, os dois conceitos são formulados a partir de considerações totalmente diversas: o princípio de inércia, no contexto de uma descrição estritamente mecânica do organismo e das funções neurais e psíquicas; a pulsão de morte, no âmbito de uma especulação biológica que procura inscrever a tendência a uma anulação absoluta de qualquer estado de tensão na própria lógica da vida.

167 Freud ([1911] 1982).

168 Id. ([1895/1950] 1987, p. 404, grifos do autor).

169 O conceito de facilitação (Bahnung) designa, no Projeto, o fato de que a resistência de condução nas conexões entre os neurônios (barreiras de contato) diminui em função do fluxo de quantidade que a atravessa. É, pois, um fator puramente mecânico de determinação do curso dos processos nervosos (que tendem a seguir a via de menor resistência), como é exigido pela própria noção de princípio de inércia.

170 Freud distingue três subsistemas principais no aparelho neuronal descrito no Projeto: φ, o sistema que recebe as excitações exteriores, responsável pela resposta reflexa e pelos aspectos puramente físicos da percepção; ψ, o sistema de memória, cujo “núcleo” recebe quantidade diretamente do interior do organismo e cujo “manto” a recebe atenuada e indiretamente do mundo externo, através de φ; e ω, o sistema responsável pela percepção consciente.

171 Optamos por traduzir Besetzung como “ocupação” em vez de “investimento”, como é mais comum em português, por isso tornar mais claras as concepções neuropsicológicas do Projeto e dos textos iniciais de Freud. Por uma questão de coerência, mantivemos essa opção ao longo de todo o texto e nos demais trabalhos que compõem este livro.

172 Freud ([1895/1950] 1987, p. 422, grifos do autor).

173 Id. ibid., p. 472.

174 A lei biológica da atenção proposta por Freud enuncia que o eu tem uma tendência inata a ocupar percepções; em outras palavras, a direcionar uma parte do fluxo da quantidade para os circuitos neuronais onde ocorrem os processos que têm origem na recepção de estímulos externos. As duas leis biológicas são complementares: a primeira (a da defesa primária) afirma que caminhos que conduzem ao desprazer tendem a ser abandonados; a segunda (a da atenção) a complementa, enunciando que uma parte da quantidade retirada desses caminhos direciona-se para a percepção (outra parte acumula-se no núcleo e fornece as condições econômicas para a formação do eu). Ela precisa ser formulada porque esta canalização para a percepção não é uma consequência necessária da primeira lei; tampouco a atenção inicial à percepção pode ser explicada por uma intencionalidade primitiva do eu, cujo processo de formação só tem início a partir dessas mesmas condições.

175 Freud ([1895/1950] 1987, p. 470).

176 Id. ibid., p. 471, grifos nossos.

177 Id. ibid., p. 450, grifos nossos.

178 Id. ([1900] 1982, p. 538).

179 Id. ibid., p. 569-570.

180 Id. ibid., p. 570.

181 Id. ibid., p. 570.

182 Id. ([1920] 1982, p. 217).

183 Id. ibid., p. 219-220, grifos do autor.

184 Id. ibid., p. 221.

185 Id. ibid., p. 226.

186 Id. ibid., p. 230.

187 Id. ibid., p. 232.

188 Monzani (1989, p. 155).

189 Freud ([1920] 1982, p. 233).

190 Id. ibid., p. 239.

191 Id. ibid., p. 241.

192 Id. ibid., p. 242.

193 Id. ([1900] 1982, p. 541).

194 Monzani (1989).

195 Figueiredo (1999).

196 Kimmerle (2000, p. 44, grifos nossos). Gabbi Junior (2000) não deixa de apontar como Kimmerle não leva em conta a vivência de dor do Projeto em sua análise do texto de 1920.

197 Freud não só estabelece o vínculo entre pulsão e repetição, como aproxima ambas da noção de inércia, peça-chave da teoria exposta no Projeto: “Uma pulsão seria, portanto, um ímpeto, inerente ao orgânico vivo, para a reprodução de um estado anterior que o ser vivo teve que abandonar sob a influência de forças perturbadoras externas, um tipo de elasticidade orgânica ou, se se quiser, a exteriorização da inércia na vida orgânica” (Freud, [1920] 1982, p. 36, grifos nossos). Para um exame geral das relações entre a compulsão à repetição e a teoria das pulsões, ver Garcia-Roza ([1986] 1993).