Entre o corpo e a consciência: a metapsicologia freudiana

Capítulo IV - Corpo e significação na metapsicologia freudiana: das origens à linguagem de órgão esquizofrênica

Capítulo IV - Corpo e significação na

metapsicologia freudiana: das origens

à linguagem de órgão esquizofrênica

 

Introdução

Pode-se dizer que a relação entre corpo e linguagem é um problema rigorosamente inaugural na psicanálise freudiana, a partir do momento em que Freud se pergunta como e por que um tratamento verbal – uma “talking cure” – pode ser eficaz na cura de sintomas somáticos, tais como os que se apresentam na histeria. Na medida em que essa cura passa essencialmente pela elucidação do sentido desses sintomas, o problema da significação se acrescenta naturalmente àquele das relações entre corpo e linguagem na teoria freudiana. Talvez uma das expressões utilizadas por Freud que ilustre de forma mais exemplar essa relação é a de “linguagem de órgão” (Organsprache), empregada em 1915 para descrever uma das características mais chamativas da linguagem esquizofrênica, a saber, sua referência direta e imediata ao corpo e às sensações que

dele provêm. De fato, no artigo metapsicológico 135 O inconsciente ,

Freud apresenta a hipótese de que o “sistema inconsciente” é constituído pelas representações que nunca foram ou que, devido à repressão, deixaram de ser associadas a palavras. Essas representações são chamadas de “representações de coisa” (Sachvorstellungen). O pré-consciente seria constituído pelas “representações de objeto” (Objektvorstellungen), as quais consistiriam nas representações de coisa associadas às “representações de palavra” (Wortvorstellungen) correspondentes. Freud caracteriza, a partir disso, a linguagem esquizofrênica como uma linguagem em que o vínculo com as representações de coisa está ausente e, além disso, como uma linguagem que se refere predominantemente ao corporal. Nesse texto de 1915, no entanto, ele não esclarece qual seria a relação entre essas duas características da alteração de linguagem presente na esquizofrenia. O objetivo deste capítulo é mostrar que algumas hipóteses apresentadas por Freud em dois de seus primeiros textos,

Sobre a concepção das afasias136 137 e Projeto de uma psicologia ,

tornam mais compreensível essa relação e nos permitem compreender que, na verdade, a alteração da linguagem na esquizofrenia consiste em uma retomada daquilo que seria o significado originário das palavras. A partir disso, é possível verificar como certas concepções iniciais de Freud sobre o problema da significação em geral – e sobre as significações da linguagem em particular – se fazem presentes e estão pressupostas nas explicações fornecidas, a partir de elaborações metapsicológicas mais tardias, a respeito das características de certos fenômenos patológicos. Seria possível ilustrar, assim, o modo como, em Freud, a reflexão metapsicológica fundamenta a abordagem clínica e como esta última, por sua vez, pode justificar a primeira, na medida em que demonstra a sua aplicabilidade na elucidação de mecanismos psicológicos específicos. Ao mesmo tempo, pode-se documentar, com um exemplo concreto, como questões iniciais são constantemente retomadas em novos patamares de elaboração teórica ao longo da obra de Freud, de modo que os diversos momentos da evolução de seu pensamento são capazes de iluminar-se reciprocamente, tanto de forma prospectiva quanto retrospectiva.

 

A alteração da linguagem na esquizofrenia

Ao longo dos artigos metapsicológicos de 1915, Freud se pergunta, em diversos momentos, em que consistiria, afinal, a diferença entre uma representação consciente e uma inconsciente e o que acontece efetivamente quando uma representação passa de um estado a outro. Ele se pergunta, enfim, se esta passagem corresponderia a uma distinção “tópica” – isto é, se haveria duas inscrições de uma mesma representação em dois lugares psíquicos distintos – ou se corresponderia a uma distinção “funcional”, o que significaria que tal diferenciação corresponde a dois modos de ocupação diferentes de uma mesma representação. Freud dá mostras, em algumas passagens, da disposição de aderir a essa segunda hipótese, mas acaba optando definitivamente por uma terceira, na última seção do artigo metapsicológico sobre o inconsciente. Essa terceira hipótese, na verdade, não exclui a segunda – a da distinção funcional –, mas a complementa e especifica. Nesse texto, ele conclui, a partir da

observação das neuroses narcísicas, 138 que, enquanto a representação de objeto consciente abrange a representação de coisa mais a representação de palavra correspondente, a representação inconsciente se restringe apenas à representação de coisa. Diz Freud:

(…) acreditamos saber agora onde reside a diferença entre uma

representação consciente e uma inconsciente. Elas não são,

como acreditávamos, diversas transcrições do mesmo conteúdo

em lugares psíquicos diferentes, nem diversos estados

funcionais de ocupação no mesmo lugar; a representação

consciente abrange a representação de coisa mais a

representação de palavra correspondente, e a inconsciente é a

representação de coisa somente. O sistema Icc contém as

ocupações de coisa dos objetos, que são as ocupações de

coisa primárias e genuínas; o sistema Prcc nasce quando essa

representação de coisa é sobreocupada pelo enlace com as

representações de palavra que lhe correspondem.139

Segundo Freud, essa sobreocupação da representação de coisa, decorrente da associação desta última com a palavra, é que faria com que a excitação em estado livre fosse ligada, levando assim à substituição do processo primário pelo secundário. Por isso, as representações de coisa que não fossem associadas a palavras permaneceriam insuscetíveis de se tornarem conscientes e continuariam regidas pelo processo primário, enquanto aquelas que fossem associadas a palavras se tornariam suscetíveis de consciência e passariam a integrar os processos psíquicos secundários. As primeiras constituiriam o sistema inconsciente, e as segundas, junto com as palavras a elas associadas, constituiriam o sistema pré-consciente. A distinção entre representações pré-conscientes e inconscientes seria, portanto, uma distinção entre dois modos de ocupação de uma mesma representação, uma vez que a representação de coisa, ao ser sobreocupada pela palavra – ou seja, ao ter sua excitação ligada – passaria a fazer parte do pré-consciente. Mas ela não se limitaria a isso, pois a representação pré-consciente possuiria um componente a mais que a inconsciente: a própria representação de palavra. Essa hipótese de que é a associação com a palavra que torna possível a consciência de uma

representação já estava presente no 140 Projeto de uma psicologia e

no capítulo 7 de 141 A interpretação dos sonhos . Desde aquele primeiro texto, já era possível inferir que as representações insuscetíveis de consciência são aquelas que não chegam a ser associadas a palavras ou que, devido à repressão, têm o seu vínculo com a palavra bloqueado. Em O inconsciente, Freud estaria apenas reapresentando essa hipótese de forma mais explícita.

Com esses elementos, Freud formula uma explicação metapsicológica para a alteração da linguagem na esquizofrenia, na última parte do artigo metapsicológico sobre o inconsciente. Na fase inicial dessa forma de patologia mental, haveria uma retirada da ocupação, tanto das representações de objeto conscientes e pré-conscientes quanto das representações de coisa inconscientes (ao contrário da repressão que atua na neurose, a qual atinge apenas o vínculo entre a representação de coisa e a representação de palavra). O sistema inconsciente e o sistema pré-consciente seriam ambos desocupados em tudo que dissesse respeito ao campo dos objetos, e a ocupação retirada seria direcionada ao eu, o que teria como consequência a restauração de um estado de narcisismo primitivo. Numa segunda etapa da doença, o eu se esforçaria em retomar as ocupações de objeto e o faria ocupando primeiramente as representações de palavra para, por meio destas, tentar alcançar novamente as representações de coisa. Quando se trata da esquizofrenia, nessa fase da doença – em que as representações de palavra estariam ocupadas, mas as representações de coisa não –, a referência aos órgãos e às inervações corporais passaria para o primeiro plano na expressão da linguagem. Esta passaria a se referir, de forma muito mais incisiva e direta, ao corpo, se tornaria uma “linguagem de órgão” ou uma “linguagem hipocondríaca”, como diz Freud. Além disso, na esquizofrenia, em vez da linguagem ser regida pelo processo secundário, como ocorre no funcionamento psíquico normal, ela estaria submetida ao processo psíquico primário, de modo que as representações de palavra se comportam como representações de coisa. Em suma, as duas principais alterações da linguagem que caracterizam a esquizofrenia seriam a referência ao corpo próprio e a submissão ao processo psíquico primário.

Freud menciona o exemplo de um caso de esquizofrenia que lhe havia sido relatado pelo médico vienense Victor Tausk, no qual se manifesta claramente essa peculiaridade da linguagem esquizofrênica. Uma paciente de Tausk, levada à sua clínica após uma desavença com seu amante, se queixava: “Os olhos não estão

direitos, estão torcidos (verdreht)” 142 . Em seguida, a própria paciente esclarecera essa sua afirmação, expondo uma série de reprovações contra o amante: ele era um hipócrita, um simulador (Augenverdreher, literalmente, um torcedor de olhos), ele torceu os seus olhos e, agora, ela tem os olhos torcidos; esses já não são mais seus olhos, ela vê o mundo agora com outros olhos, etc. Transparece aí a ausência da ocupação das representações de coisa e a referência da linguagem ao corporal: a rejeição do objeto de amor se exprime, na linguagem, por uma série de recriminações que, por sua vez, dão a razão de ser das sensações corporais que se impõem à paciente. Mas a relação entre esses dois fatos não pode ser inteiramente compreendida apenas a partir desse texto de 1915: embora Freud procure relacionar essas alterações de linguagem à regressão narcísica que constitui o mecanismo da esquizofrenia, ele não dá nenhuma indicação de por que essa regressão deveria fazer do corpo a referência essencial da linguagem esquizofrênica. Dito de outro modo, é preciso ainda elucidar a questão de por que a desocupação das representações de coisa inconscientes (as ocupações de objeto “originárias e genuínas”, como Freud as designa) deve conduzir à “linguagem de órgão” própria dessa afecção. Restaria por explicar, além disso, a relação entre esta linguagem de órgão e a ocupação regressiva e narcísica do eu, que constitui o mecanismo básico de toda a classe das neuroses narcísicas. Estas questões, no entanto, como já observamos acima, parecem poder ser esclarecidas a partir de dois textos inaugurais do pensamento freudiano: Sobre a concepção das afasias, de 1891, e Projeto de uma psicologia, de 1895. Vejamos, então, o que Freud desenvolve nesses textos que nos permite compreender melhor a perturbação da linguagem na esquizofrenia e os demais problemas teóricos a ela relacionados.

 

A origem dos conceitos de representação de

palavra e representação de objeto

Em 143 Sobre a concepção das afasias , os conceitos de

“representação de palavra” e “representação de objeto”144 aparecem pela primeira vez na obra freudiana. Em seus textos posteriores, esses conceitos são retomados várias vezes, mas Freud não os define com a mesma minúcia com que o faz nesse trabalho. Em 1891, ele é levado a formular um conceito de representação que se distancia em vários aspectos daquele que predominava na psicologia e na neurologia da época. Em suma, o que Freud realiza é uma revisão crítica de algumas das principais hipóteses vigentes sobre a neurologia e a patologia da linguagem, a qual acaba implicando também em uma crítica das concepções psicológicas a elas subjacentes e na formulação de um novo conceito de representação, com o qual ele passa a operar a partir

de então.145

Segundo o que Freud propõe em 1891, toda representação seria o correlato psíquico de um processo cortical associativo, o qual corresponderia ao último estágio da reorganização da informação sensorial proveniente do mundo externo. Com essa hipótese, ele recusa a ideia, então predominante, de acordo com a qual a representação seria o correlato de um engrama (uma alteração morfológica hipotética do tecido cerebral produzida pela recepção de estímulos) ou de um conjunto de engramas corticais, os quais estariam contidos cada um em uma célula nervosa singular e seriam constituídos passivamente, a partir da projeção sobre o córtex da excitação sensorial que alcançasse a periferia do sistema nervoso. Freud formula a hipótese de que a excitação sensorial sofre uma série de reordenações sucessivas, ao longo do percurso que a conduziria da medula ao córtex, reordenações estas que seriam determinadas por fatores funcionais do sistema nervoso. No córtex, elas dariam origem a um processo associativo, e este processo seria o correlato neural de uma representação. Portanto, em vez de ser algo estático – uma cópia de alguma coisa no mundo –, a representação seria sempre o correspondente dinâmico dessa coisa, que a recria segundo os princípios de organização próprios à função nervosa.

Nesse texto sobre as afasias, Freud mantém a identificação do psíquico com o consciente; ele sustenta que o fisiológico e o psíquico são “concomitantes dependentes” – noção esta formulada pelo neurologista inglês Hughlings Jackson – e que todo evento psíquico é, por definição, consciente. Dessa forma, tanto a representação de palavra como a representação de objeto seriam sempre conscientes. Mas em que consistiriam tais representações?

Segundo Freud, a representação de palavra consistiria em um complexo associativo constituído por elementos acústicos, visuais, quirocinestésicos (imagens dos movimentos da escrita) e glossocinestésicos (imagens dos movimentos da fala). A primeira imagem a se constituir seria a acústica; em seguida, a imagem glossocinestésica (da fala); depois, a visual e, por último, a quirocinestésica (da escrita). Todas essas imagens se associariam à imagem acústica e por intermédio da imagem acústica. Por isso, todas as atividades da linguagem dependeriam, ao menos inicialmente, dessa imagem, que desempenharia uma função organizadora crucial na gênese da representação de palavra. Essa hipótese sobre a representação de palavra – esclarece Freud – foi desenvolvida a partir da observação das diversas maneiras pelas quais a linguagem se desintegra em decorrência de lesões orgânicas que afetam a área da linguagem no cérebro e das indicações que estas podem fornecer sobre o processo de aquisição das capacidades linguísticas.

A representação de objeto – que, como dissemos, corresponde ao que é chamado de “representação de coisa” no artigo metapsicológico sobre o inconsciente – consistiria também em um complexo associativo, mas este complexo não seria composto apenas por representações acústicas, visuais e cinestésicas, como a representação de palavra: outros tipos de imagens (olfativas, táteis, etc.) poderiam também integrá-lo. Além de ser constituída por uma variedade maior de elementos sensoriais, a representação de objeto, ao contrário da representação de palavra, consistiria num complexo associativo aberto, isto é, um complexo sempre capaz de receber o acréscimo de novos elementos. Uma vez que as imagens acústicas, visuais e cinestésicas de uma determinada palavra se constituíssem e se associassem, não poderia haver, segundo Freud, novos elementos a serem acrescentados àquela representação. Dito de outro modo, novas representações de palavra poderiam constituir-se e associar-se às anteriores, mas não seria possível que percepções diferentes da mesma palavra viessem a ser experienciadas. É nesse sentido que Freud afirma que a palavra, ao contrário do objeto, forma um “complexo associativo fechado”. Já com relação à representação de um objeto específico, sempre haveria a possibilidade de que, por exemplo, percepções visuais de diferentes ângulos e perfis ou percepções tácteis de suas diferentes partes fossem experienciadas e, assim, acrescentassem novos elementos à representação. Essa possibilidade permanente de virmos a ter novas impressões sensoriais de um mesmo objeto é o que, segundo Freud, nos levaria a crer que os objetos externos existem independentes de nós. Freud apoia esta última hipótese nas concepções de Stuart Mill. Em sua monografia sobre as afasias, ele diz:

A própria representação de objeto é também um complexo de

associações composto por representações visuais, acústicas,

tácteis, cinestésicas e outras. Segundo o ensinamento da

filosofia, a representação de objeto não contém outra coisa; a

aparência de uma “coisa”, cujas “propriedades” nos são

transmitidas por nossos sentidos, se origina somente do fato de

que, ao enumerar as impressões sensoriais percebidas desde

um objeto, deixamos aberta a possibilidade de que uma larga

série de novas impressões sensoriais se acrescente à cadeia

de associações (J. S. Mill).146

A representação de palavra se associaria à representação de objeto sempre por meio do elemento acústico da primeira e, normalmente, a partir do elemento visual da segunda. Freud afirma que, ao menos no caso dos substantivos, é a representação de objeto que atribui significado à representação de palavra. Contudo, em 1891, ele não chega a formular nenhuma hipótese sobre como as representações de objeto adquiririam seu significado. No entanto, no Projeto de uma psicologia – escrito em 1895, mas publicado postumamente em 1950 – essa questão começa a ser retrabalhada e mais bem esclarecida. O passo seguinte, portanto, é verificar o que Freud diz aí sobre o surgimento do significado das representações de objeto.

 

O significado originário das palavras e dos

objetos

No Projeto de uma psicologia, Freud deixa de identificar o psíquico com o consciente. A consciência passa a ser pensada como algo restrito em relação ao campo da representação e como algo posterior em relação à constituição desta última. Freud identifica, então, o psíquico inconsciente com os processos nervosos que, em Sobre a concepção das afasias, eram considerados como sendo os concomitantes fisiológicos do psíquico e, assim, a representação, em vez de ser concebida como o concomitante psíquico de um processo cortical associativo, passa a corresponder ao próprio processo cortical, naquilo em que este admite uma descrição funcional a partir de categorias psicológicas. A consciência seria algo que acompanharia apenas uma pequena parte desse processo associativo que constituiria a representação.

Freud retoma a noção de representação de palavra, no Projeto, para explicar a possibilidade da rememoração de uma representação. De acordo com o que ele aí propõe, antes da constituição das associações linguísticas – tanto das associações que vinculam palavra e objeto quanto das que constituem a própria representação de palavra –, as representações de objeto não poderiam ser rememoradas: elas permaneceriam insuscetíveis de se tornarem conscientes pela via do pensamento normal. Com exceção da percepção, apenas por meio da alucinação os objetos poderiam se tornar conscientes. A associação com a palavra é que tornaria as representações de objeto suscetíveis de consciência pela via comum do pensamento. Freud argumenta que, uma vez que a consciência depende do despertar de “signos de qualidade” – os quais surgiriam a partir das percepções, isto é, a partir das ocupações do aparelho por excitações exógenas –, para que uma representação ocupada desde o interior do aparelho pudesse se tornar consciente num processo de rememoração seria preciso que uma percepção fosse produzida junto com a ocupação dessa representação. Ele, então, conclui que é a imagem cinestésica da representação de palavra que torna isso possível, pois a ocupação de tal imagem conduz a uma inervação motora, por mínima que seja, a qual, como todo movimento, produziria uma percepção. Quando a ocupação da representação de objeto seguisse para a imagem acústica da palavra e desta para sua imagem cinestésica, uma percepção seria produzida e, consequentemente, seria emitido um signo de qualidade associado à ocupação da totalidade desse complexo. Dessa forma, as representações de objeto poderiam ser rememoradas por intermédio das associações linguísticas:

(…) se as imagens de recordação forem tais que uma corrente

parcial possa ir de uma delas para as imagens acústicas e para

as imagens motoras da palavra, então, a ocupação das

imagens de recordação é acompanhada de notícias de

eliminação, que são os signos de qualidade, e que, em

consequência, também são signos de consciência da

recordação.147

Em Sobre a concepção das afasias, como vimos, Freud afirmara que as representações de objeto é que atribuem significado às palavras – aos substantivos, pelo menos –, mas ele não considera o problema de como as primeiras adquiririam seu significado. É no Projeto que essa questão é abordada e que uma hipótese explicativa é proposta: a de que, originariamente, para compreender o sentido de uma representação de origem externa, é necessário rastreá-la até uma ocupação corporal. Na fase inicial do que Freud aí designa como “juízo” – isto é, do processo de reconhecimento dos objetos pela comparação entre objetos percebidos e rememorados –, este se empenharia em rastrear as percepções de origem exógena até ocupações oriundas do próprio corpo. Tal processo consistiria, portanto, em uma tentativa de encontrar um caminho que levasse das representações de objeto constituídas no sistema de memória do aparelho neuronal (o que Freud denomina o sistema ψ do manto) pela excitação proveniente do sistema perceptivo (sistema φ) até ocupações originadas na parte do sistema de memória que estaria em contato direto com o interior do corpo (o chamado sistema ψ do núcleo). Diz Freud:

O julgar – mais tarde, um meio para reconhecer o objeto que

talvez tenha importância prática – é, assim, em sua origem, um

processo associativo entre ocupações oriundas do exterior e

ocupações provenientes do próprio corpo, uma identificação

entre notícias ou ocupações de 148 φ e de dentro.

Essa relação proposta por Freud entre uma representação de objeto e uma sensação corporal representada no núcleo do sistema ψ, que lhe conferiria primariamente seu significado, se explica pelo papel que a teoria desenvolvida no Projeto de uma psicologia atribui às duas vivências fundamentais – a vivência de satisfação e a vivência de dor – na estruturação dos processos psíquicos, dos quais constituem as duas ordens de motivação fundamentais. Em outras palavras, todo processo de pensamento é, na origem, um processo voltado para o encontro (ou reencontro) do objeto de satisfação – o objeto cuja percepção assinalou o início da vivência de satisfação e cuja representação constitui-se desde então em objeto de desejo – e para a evitação do objeto hostil – aquele cuja percepção assinalou o início da vivência de dor e que se constituiu, desde então, em objeto da defesa psíquica. Deste modo, “objeto de desejo” e “objeto hostil” são as duas significações originárias de qualquer representação de objeto, das quais qualquer outra significação deve

derivar.149 O critério para atribuir-lhe uma ou outra depende de que sensação corporal associada à percepção – e, secundariamente, à rememoração – da representação seja prazerosa ou desprazerosa. Mais precisamente, depende de que o surgimento do objeto tenha assinalado o fim ou o início de um estado percebido como desprazeroso.

Na verdade, as coisas são um pouco mais complicadas, pois Freud reconhece que, de início, o pensamento não pode incluir

representações desprazerosas. 150 O encontro com uma representação pertencente à série que se origina na representação do objeto hostil ocasionaria uma liberação de afeto (desprazer) que apenas sinalizaria para o pensamento que aquele não é um caminho para reencontrar o objeto de desejo e que o processo associativo deve tomar outra direção. Esses desvios impostos ao pensar pelo cruzamento com as séries psíquicas derivadas da representação do objeto hostil configuram o que Freud chama de “perturbação do pensamento pelo afeto” que, quando se tratar dos derivados deste tipo específico de representação hostil que constitui o trauma psíquico, terá um papel importante na explicação da neurose que Freud extrai dessas considerações psicológicas mais gerais. Apenas o surgimento da linguagem e o surgimento do sistema de associações que a vincula às representações de objeto permitirão que o pensamento possa operar com representações que remetam a experiências desprazerosas. Em outras palavras, apenas a linguagem irá permitir que o pensamento confira significado às representações hostis, concepção na qual podemos localizar um dos fundamentos metapsicológicos da cura psicanalítica e, talvez, as origens do conceito de elaboração (Bearbeitung ou Durcharbeitung) com que Freud trabalhará posteriormente. Se, em sua origem, portanto, as representações de objeto adquirem significado a partir da sua associação com representações corporais (as representações dos estados internos do organismo, como Freud sustenta no Projeto) e se as representações de palavra adquirem significado a partir da sua associação com os objetos (tal como consta no ensaio sobre as afasias), pode-se inferir que, ao denotarem objetos, as palavras, em última instância, denotam sensações corporais. Assim, na esquizofrenia, quando as palavras passam a se referir diretamente ao corporal, elas estão, na verdade, resgatando o sentido originário das palavras. E isso ocorre justamente devido à retirada da ocupação das representações de coisa, à regressão narcísica que caracteriza esta afecção psíquica. Na ausência do elo intermediário entre as palavras e as sensações corporais – isto é, das representações de coisa –, o vínculo entre as palavras e o corporal torna-se direto. As palavras passam a denotar diretamente as sensações corporais e, dessa forma, o sentido originário das palavras volta a transparecer.

O mecanismo da esquizofrenia é concebido por Freud como uma

versão exacerbada da conversão histérica,151 mas, ao contrário dos sintomas histéricos, os sintomas esquizofrênicos não apresentam um caráter simbólico ou de formação substitutiva. Na histeria, as ocupações das representações de coisa persistem; é o vínculo destas com palavras que se encontra inacessível e é nisso em que consiste a repressão. Os sintomas conversivos surgem, então, no lugar das palavras ausentes, isto é, surgem como símbolos das representações de coisa reprimidas, no sentido em que Freud, na segunda parte do Projeto, fala de uma formação patológica de símbolos na neurose e do sintoma como um símbolo do trauma, mas um símbolo do qual o sujeito perdeu a referência da coisa que ele simboliza. É justamente essa intermediação da coisa que não existe na esquizofrenia e, nessas circunstâncias, as palavras passam a se referir diretamente ao corporal. Nesse caso, não há relação simbólica, as palavras manifestam diretamente o seu significado originário: encontram-se, por assim dizer, “literalizadas” e são tratadas como coisas. Seu significado, como fica claro então, está sempre, em última instância, relacionado ao corporal. Essa relação originária entre a linguagem e as sensações corporais é afirmada também por Gabbi Junior, que observa como ela se manifesta também nos sonhos. Após comentar a mesma passagem dos Estudos sobre a histeria mencionada abaixo, o autor acrescenta:

Freud sugere, assim, um momento na constituição das palavras

em que elas tinham um sentido literal, ou seja, correspondiam

literalmente a uma sensação corporal. (…) No sonho, como há

um retorno a um estado primitivo do aparelho psíquico, as

noções de objeto e de palavra retomam sua correspondência

mais direta. Durante a vigília, as noções de palavras são

transcrições que se tornaram tão metafóricas das sensações

corporais, que não nos damos conta dessas características.152

Observe-se que a descrição do sonho como fenômeno narcísico no

Complemento metapsicológico à teoria do sonho153 reforça a ideia de que essas concepções estão pressupostas na explicação das alterações de linguagem esquizofrênicas. Freud explicita essa ideia ao discutir, nos Estudos sobre a histeria, o papel da linguagem na sintomatologia histérica, naquilo em que ela aí se assemelha, mutatis mutandis, ao que ocorre na esquizofrenia. Ele afirma, por exemplo, ao se referir ao caso de Cäcilie, apresentado no fim do relato do caso de Elizabeth von R.:

Ao tomar literalmente a expressão linguística, ao sentir o

“espinho no coração” ou a “bofetada”, após uma desfeita

tomada como um evento real, a histérica não está tomando

liberdades com palavras, mas voltando a animar as sensações

às quais a expressão linguística deve sua justificação (…).

Todas essas sensações e inervações pertencem à “expressão

das emoções”, que, como Darwin nos ensinou, consiste em

operações originariamente significativas e apropriadas; por

mais que hoje se encontrem, na maioria dos casos, debilitadas,

a tal ponto que sua expressão linguística nos parece uma

transcrição figurada, é muito provável que tudo isto,

antigamente, fosse entendido literalmente. A histeria acerta

quando restabelece para suas inervações mais intensas o

sentido originário da palavra.154

Então, ao passar a se referir ao corporal, a linguagem esquizofrênica estaria resgatando o significado originário das palavras, o qual permanece velado no funcionamento psíquico normal. Sendo assim, não é a patologia que atribui um sentido figurado às palavras; ao contrário, ela restabelece o sentido literal destas, o qual se encontra obscurecido nos processos psíquicos normais do estado de vigília. Estes sim acabam atribuindo um sentido figurado às palavras, na medida em que novos elos das séries associativas se intercalam e tornam cada vez mais distante a denotação originária da representação psíquica das sensações corporais.

 

O obscurecimento do significado originário das

palavras no funcionamento psíquico normal

A forma como Freud concebe o processo de constituição das representações em Sobre a concepção das afasias fornece-nos uma pista para compreendermos por que, no funcionamento psíquico normal, esse significado originário das palavras e dos objetos permanece oculto e por que sua relação com o corpo torna-se indireta. Freud formula sua hipótese sobre o processo de constituição da linguagem, nesse texto, em oposição a uma hipótese sustentada pelo neurologista alemão Theodor Meynert. Segundo Meynert, a aquisição da linguagem consistiria em um processo de expansão topográfica. Haveria no córtex “lacunas funcionais” – ou seja, áreas desprovidas de função –, as quais iriam sendo preenchidas pelas imagens linguísticas no decorrer da aquisição da linguagem. Dessa forma, os correlatos neurofisiológicos das palavras possuiriam cada um uma localização independente no córtex; com isso, os processos associativos seriam secundários e dependeriam da localização. Freud procura demonstrar que essas hipóteses de Meynert são insustentáveis, argumentando que o modo como a linguagem se desintegra nas patologias orgânicas do sistema nervoso – isto é, nas afasias – não é compatível com essas concepções sobre o processo de aprendizagem e aquisição da linguagem. Se a hipótese de Meynert fosse correta, seria possível, no caso de uma lesão na área da linguagem, que apenas as representações localizadas na região da lesão fossem prejudicadas, enquanto todas as demais permanecessem intactas e, com elas, os processos dos quais participam. Seria possível, por exemplo, que a língua materna fosse prejudicada e uma aprendida posteriormente permanecesse intacta ou que uma afasia sensorial (incapacidade de compreender a linguagem ouvida) ocorresse sem nenhum prejuízo da expressão pela fala. Mas isso nunca ocorre, observa Freud, como foi notado pelos próprios pesquisadores que sustentam essas ideias. A desintegração da linguagem, devido às alterações orgânicas do sistema nervoso, sempre produz uma “regressão funcional” que resulta num distúrbio global da atividade nervosa. Os elementos da linguagem sempre são prejudicados na ordem dos mais recentes para os mais antigos ou dos menos usados para os mais usados. Uma língua posteriormente aprendida sempre é afetada antes que a materna, a não ser que a primeira tenha sido mais utilizada que a segunda, exemplifica Freud.

Com base nessas observações e na crítica do modo como a noção de “lacunas funcionais” foi inferida, Freud conclui que a aquisição da linguagem deve consistir em um processo de “sobreassociação” (Superassoziation). Todas as representações de palavra se estabelecem na mesma área: na área da linguagem (Sprachegebiet), concebida como uma região cortical homogênea, onde tudo que ocorre é determinado pelas relações entre os processos, e não mais por diferenciações anatômicas. Essas representações associam-se umas às outras – ou melhor, se sobreassociam, na medida em que, segundo esse conceito, cada novo elemento acrescentado à cadeia associativa produz uma alteração na significação funcional do todo. Uma vez que as representações se sobreassociam, várias séries associativas se constituiriam, possuindo, como um todo, a mesma significação originária, a qual no entanto, seria progressivamente encoberta pelas reordenações posteriores. Dessa maneira, para chegarmos ao significado primordial das palavras, seria preciso percorrer a série associativa no sentido inverso ao de sua constituição, até se alcançar a representação de objeto que elas originariamente nomeiam e, a partir desta, a representação corporal que estaria na

base de toda a cadeia associativa. 155

Freud se refere às representações de coisa do inconsciente, no artigo metapsicológico sobre o inconsciente, como as “ocupações

de objeto primárias e genuínas”.156 Essas ocupações primárias e genuínas talvez sejam aquelas correspondentes às representações de coisa primárias, mais diretamente ligadas ao corporal, as quais constituiriam a base das cadeias associativas. Podemos imaginar que, ao longo do processo de sobreassociação, o significado das palavras vai-se modificando, devido à influência dos novos vínculos associativos que se estabelecem, de maneira que esse significado originário, relacionado ao corporal, se dilui e permanece irreconhecível no processo psíquico normal, apenas voltando à tona, de forma particularmente visível, nos sonhos e em algumas das patologias psíquicas, como a histeria e a esquizofrenia, destacadas especialmente por Freud.

 

Considerações finais

Esses dois textos freudianos iniciais – o Projeto e o ensaio sobre as afasias – nos permitem, portanto, compreender por que, na esquizofrenia, a desocupação das representações-coisa tem como consequência que a linguagem se torne “linguagem de órgão”, como diz Freud em O inconsciente. Esses textos esclarecem por que, na ausência das representações de coisa, as palavras passam a denotar sensações corporais e nos esclarecem também que essa referência ao corporal não é algo arbitrário ou acidental, mas sim uma retomada do sentido originário das palavras, o qual permanece oculto na normalidade, devido, provavelmente, à série de associações posteriores que vem sobrepor-se àquelas associações primordiais. Dessa forma, podemos compreender não apenas como a patologia retoma o significado originário das palavras, mas também por que esse significado originário é obscurecido no funcionamento psíquico normal.

Embora essas observações apontem para a permanência, em sua obra posterior, das concepções iniciais de Freud sobre a natureza e a significação da linguagem, uma série de questões fica ainda em aberto sobre o sentido destas últimas e precisam ser mencionadas aqui, ainda que a título muito preliminar e como sugestão para desenvolvimentos futuros. Dois problemas se destacam: em primeiro lugar, o da relação entre essa regressão funcional da linguagem onírica e psicótica a uma denotação da representação psíquica de sensações corporais e o caráter narcísico do sonho e das psicoses; em segundo, se a teoria da significação que podemos encontrar em Freud efetivamente se restringe a essa concepção denotativa e, nesse sentido, nominalista que se pôde constatar até agora.

O primeiro ponto coloca em questão o sentido do conceito de eu na metapsicologia freudiana, já que o narcisismo secundário do sono e da psicose significa um retorno das ocupações de objeto para o eu. A pergunta é por que esse retraimento deve-se fazer acompanhar de um retorno das significações originariamente corporais da linguagem. Trata-se de uma pergunta cuja resposta não pode deixar de levar em conta que, para Freud, o eu é, antes de tudo – e, talvez, sobretudo –, um eu corporal. Sabemos que o conceito de eu é essencial desde os primórdios da teoria freudiana das neuroses, no papel de polo defensivo do conflito neurótico. Ele recebe uma primeira formulação metapsicológica nas páginas do Projeto de uma psicologia, para depois desaparecer da tópica freudiana até o aparecimento da teoria estrutural do aparelho psíquico em O eu e o isso, impulsionado pelo desenvolvimento da teoria do narcisismo

que o coloca de novo no centro da reflexão metapsicológica. 157 Nessa sua formulação inicial, o eu é definido como se constituindo a partir da ocupação constante dos neurônios nucleares por quantidades endógenas resultantes das diversas operações metabólicas do organismo. Assim, quando Freud se pergunta quais fatores são necessários para modificar os processos primários da alucinação de desejo e da defesa reflexa, ele reconhece que é necessário postular uma organização psíquica ainda não descrita, mas pressuposta na abordagem anterior desses processos, daí concluindo:

Essa organização chama-se o “eu” e pode facilmente ser

apresentada pela consideração de que, com regularidade, se

repete a recepção de Qn’s endógenas em determinados

neurônios (do núcleo) e de que o efeito de facilitação

decorrente daí resulta em um grupo neuronal cuja ocupação é

constante e correspondente, portanto, ao portador do

armazenamento exigido pela função secundária.158

O eu do Projeto é, assim, na origem, um eu corporal, resultante da representação psíquica dos processos somáticos no núcleo do sistema ψ, que forma sua parte constante à qual vêm se acrescentar partes variáveis, a partir do momento em que o eu passa a incluir seletivamente em si certas representações de objeto de origem externa que se formam no manto desse mesmo sistema, com exclusão de outras. São esses processos que, em 1923, Freud descreverá como: 1) a constituição do eu a partir do isso (Es) pelo contato com a realidade e 2) repressão, respectivamente. De fato, embora a reabilitação do conceito a partir da proposição da teoria do narcisismo não tenha feito referência explícita à natureza corpórea originária do eu, essa característica é explicitamente reconhecida no momento em que o eu é oficialmente reintegrado à tópica freudiana, em 1923. Quando, em O eu e o isso, Freud está empenhado em afirmar a origem do eu a partir da percepção – em outras palavras, a partir do contato entre o isso (Es) e a realidade –, ele observa como o corpo próprio é, ele mesmo, uma fonte de percepções internas e externas, participando por isso decisivamente da gênese do eu. Uma vez introduzido, esse fator complementar é imediatamente trazido para o primeiro plano: “O eu é, antes de tudo, um eu corporal; ele não é apenas um ser de superfície, mas sim, ele

mesmo, a projeção de uma superfície”. 159 E, a seguir, em uma nota de rodapé acrescentada à edição inglesa:

Isto é, o eu é, em última instância, derivado de sensações

corporais, principalmente daquelas provenientes da superfície

do corpo. Ele deve ser considerado, então, como a projeção

mental da superfície do corpo, além de representar, como vimos

acima, a superfície do aparelho psíquico.160

Mais adiante ainda, Freud acrescenta: “É como se, deste modo, nos fosse demonstrado o que dissemos há pouco sobre o eu consciente:

que ele é, antes de tudo, um eu-corpo ( 161 ein Körper-Ich )”. Essa afirmação abre uma via para que se possa pensar a relação entre a natureza originariamente corporal do eu e o surgimento da consciência. Um ponto de vista semelhante, embora desenvolvido sem nenhuma referência explícita a Freud, pode ser encontrado no livro de António Damásio sobre o problema da consciência, se pudermos aproximar o que ele chama de self do eu freudiano:

Cheguei à conclusão de que o organismo, conforme

representado no interior do cérebro, é um provável precursor

biológico daquilo que finalmente se torna o elusivo sentido do

self. As raízes profundas do self complexo, que abrange a

identidade e a individualidade, encontram-se no conjunto de

mecanismos cerebrais que, de modo contínuo e inconsciente

mantém o estado corporal dentro dos limites estreitos e na

relativa estabilidade requeridos para a sobrevivência. Esses

mecanismos representam continuamente, de modo

inconsciente, o estado do corpo vivo, em suas numerosas

dimensões. Denomino proto-self o estado de atividade no

conjunto desses mecanismos, o precursor inconsciente dos

níveis do self que aparecem em nossa mente como os

protagonistas conscientes da consciência: self central e self

autobiográfico.162

Daí que a retração narcísica das ocupações dos objetos para o eu resulte em que a linguagem torne a denotar diretamente as representações do corpo e de suas afecções, na medida em que é exatamente nisso que consiste o núcleo do eu para o qual as ocupações psíquicas são direcionadas nos estados narcísicos.

Dessa maneira, seria possível conciliar e integrar numa formulação conceitual única as diversas características atribuídas por Freud à esquizofrenia em 1915: o abandono das ocupações objetais, a ocupação narcísica do eu e o ressurgimento das significações literalmente corporais na Organsprache esquizofrênica.

O segundo ponto – isto é, se a teoria freudiana se limita a pensar a origem das significações da linguagem numa operação denotativa de nomeação de objetos – requer uma elaboração mais extensa e será abordado muito preliminarmente aqui, com o único intuito de

apontar algumas direções de reflexão. Gabbi Junior,163 de fato, considera que, da teoria dos nomes de Stuart Mill, Freud teria retido tão somente sua concepção sobre as funções denotativas da linguagem, desconsiderando a possibilidade de que as palavras possam também significar conotativamente. Isso significaria uma recusa em incluir as propriedades dos objetos no elenco das coisas nomeáveis ou, em sentido inverso, uma recusa de que os adjetivos possam ser considerados como nomes. Seria esse o sentido da afirmação de Freud, em Sobre a concepção das afasias, de que a palavra adquire seu significado através de sua ligação com a representação de objeto, “pelo menos se limitamos nossa

consideração aos substantivos”. 164 Mas talvez essa afirmação possa ser interpretada numa outra direção, a saber, que a restrição colocada por Freud quer dizer que a relação da representação de objeto com a representação de palavra que a nomeia é apenas uma parte do problema da significação (o que se refere à significação dos substantivos), de modo que os demais aspectos do problema devam ser resolvidos de outras maneiras. Estas maneiras não são explicitadas, mas talvez possam ser inferidas do modo como a linguagem e a representação em geral são tratadas em outras partes da obra de Freud.

A ideia que propomos aqui – a título de conclusão e como um programa para futuras investigações – é que a operação pela qual a representação de palavra se vincula à representação de objeto (a nomeação propriamente dita) talvez seja apenas a parte mais visível do processo de constituição da significação, a “ponta do iceberg”, por assim dizer. Contudo, ela pressuporia toda uma série diferente de operações que aí permanecem implícitas, mas que poderiam ser explicitadas a partir de desenvolvimentos teóricos encontráveis nesse e em outros trabalhos de Freud. Provisoriamente, poderíamos caracterizar essas operações como sendo as seguintes:

1) O processo de constituição da representação de palavra, descrito por Freud em Sobre a concepção das afasias, quando analisa o processo de aquisição da linguagem, tendo por eixo o conceito de sobreassociação, e no Projeto de uma psicologia, quando discorre sobre a função secundária de comunicação que adquire o choro reflexo do recém-nascido, a importância que a partir daí adquire a imitação da fala do próximo, entre outras questões.

2) O processo de constituição da representação de objeto, delineado já no ensaio sobre as afasias e desenvolvido, do Projeto em diante, em quase todos os momentos em que o problema do objeto se coloca, aí incluído o modo como a representação adquire primariamente sua significação mediante a conexão com as sensações corporais e o que Freud depois chamará de representantes de pulsão.

3) O estabelecimento das relações das representações de palavra entre si, ou seja, o regime das relações formais da linguagem e da organização desta como um sistema, que talvez nunca tenha sido problematizado explicitamente por Freud, mas parece pressuposto no modo como ele explora as relações verbais em suas análises de lapsos, chistes, sintomas e sonhos. É claro que, para reconhecer a importância desse aspecto, não é necessário transformar Freud num protoestruturalista, como já se ressalvou acima.

4) O estabelecimento das relações das representações de objeto entre si, em outras palavras, os princípios que presidem à formação das associações de objeto, já mencionadas em Sobre a concepção das afasias. De certa forma, todos os princípios associativos (simultaneidade, contiguidade, causalidade, etc.) que regem a formação dos diversos sistemas mnêmicos com que Freud opera de 1896 em diante podem ser considerados como modos de constituição das relações entre representações de objeto.

5) Finalmente, a associação entre a representação de palavra e a representação de objeto, ou seja, a operação descrita em 1891 no último capítulo do ensaio sobre as afasias. O surgimento desse nexo arremataria todo esse processo, se consideramos a linguagem como princípio formal de organização do sistema pré-consciente e levamos em conta que Freud, em 1915, como vimos, passa a denominar representação de objeto ao complexo formado pela

representação de coisa mais a representação de palavra. 165

Em suma, talvez a consideração das implicações de todas essas operações inter-relacionadas e do modo como concorrem para a constituição de um sistema psíquico capaz de linguagem possa dar um aspecto menos simplista à concepção freudiana da significação e tornar compreensível como, de um conjunto originário de significações corporais, pode-se derivar todas as complexidades do fenômeno linguístico, além de fazer justiça ao uso criativo que a psicanálise freudiana faz da linguagem, tanto na prática terapêutica quanto na explicação dos mais diversos acontecimentos psíquicos, individuais e socioculturais.

 

Referências bibliográficas

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135 Freud ([1915] 1982).

136 Id. (1891).

137 Id. ([1895/1950] 1987).

138 A expressão “neurose narcísica” foi introduzida correlativamente aos primeiros desenvolvimentos sobre o narcisismo e acabou por ser paulatinamente abandonada após a elaboração da segunda tópica, cujos desenvolvimentos permitiram a Freud pensar a patologia em termos de uma oposição entre neuroses e psicoses (esta última categoria incluindo quase tudo anteriormente descrito como neurose narcísica, com exceção da melancolia). Freud descreve quatro modalidades principais de neuroses narcísicas: a paranoia, a esquizofrenia, a melancolia e a confusão alucinatória (SIMANKE, 2009). Nelas, o processo narcísico de desocupação das representações de coisa faria com que as representações de palavra se comportassem como aquelas, explicando assim as peculiaridades da linguagem nessas afecções e evidenciando a importância dessa distinção no estabelecimento das relações entre o inconsciente e o pré-consciente/consciente.

139 Freud ([1915] 1982, p. 160).

140 Id. ([1895/1950] 1987).

141 Id. ([1900] 1982).

142 Id. ([1915] 1982, p. 156).

143 Id. (1891).

144 O que Freud chama de representação de objeto em Sobre a concepção das afasias corresponde ao conceito de representação de coisa mencionado no texto O inconsciente. Nesse texto, como vimos, Freud chama de representação de objeto o par constituído pela representação de palavra e a representação de coisa a ela associada.

145 Para uma visão mais detalhada da crítica que Freud empreende à teoria localizacionista das afasias e de suas consequências para a noção de representação, ver Caropreso (2003).

146 Freud (1891, p. 122).

147 Id. ([1895/1950] 1987, p. 456).

148 Id. ibid., p. 429.

149 Esta é a forma específica como se apresenta em Freud a concepção empirista – que ele, como vimos, compartilha com Stuart Mill –, segundo a qual o que designamos como objeto só pode consistir num conjunto de sensações, cuja correspondência a uma existência real e externa só pode ser resultado de uma inferência ou crença. O utilitarismo de Mill e de outros filósofos também se manifesta aí, na afirmação de que as ações humanas visam sempre, em última instância, à fuga da dor (defesa) ou à busca do prazer (realização de desejo). Ver Gabbi Junior (2003, p. 99).

150 Observe-se que isso diz respeito apenas ao funcionamento inicial do pensamento e, portanto, de um processo secundário, que já pressupõe a ligação da quantidade e a inibição do eu. O processo primário, por sua vez, no modo como as coisas estão colocadas no Projeto e diferentemente da concepção que prevalecerá entre 1900 e 1920, não pode evitar ocupar as representações desprazerosas derivadas da vivência de dor. Ver Caropreso (2005); Caropreso & Simanke (2006); ver também o capítulo 5 deste livro.

151 Simanke (2009).

152 Gabbi Junior (2003, p. 99). Deve ter ficado claro, pelo contexto, que nada disso tem qualquer relação com a conhecida tese lacaniana de que a linguagem psicótica se caracteriza por uma total incapacidade de metáfora (Lacan, 1981, por exemplo). Trata-se, em Lacan, de uma concepção totalmente diferente sobre a natureza da linguagem, e esta nada tem a ver, primariamente, com a significação, nem com a representação e, muito menos, com a nomeação de objetos e sensações corporais. É a linguagem como estrutura formal e como um sistema de operações combinatórias entre significantes “puros” que Lacan vê manifestar-se exemplarmente na literalidade do discurso psicótico.

153 Freud ([1917] 1982).

154 Freud & Breuer ([1895] 1952, p. 250-251).

155 É a esse trabalho que Freud denomina análise psíquica e, depois, psicanálise. O termo ideal dessa análise, mesmo que nunca atingido na prática, seriam as representações corporais que, nos artigos metapsicológicos de 1915, Freud passa a designar como “representantes de pulsão” (Triebrepräsentanzen).

156 Freud ([1915] 1982, p. 160).

157 As razões para esse ostracismo provisório do conceito de eu são várias. Podemos apontar, em primeiro lugar, as dificuldades, à época do Projeto, em formular uma teoria da gênese do eu, que só começaria a tomar sua forma definitiva com a introdução do conceito de narcisismo. Mas também, como se verá a seguir, o eu do Projeto está estreitamente vinculado à dimensão pulsional do psiquismo – à representação psíquica das excitações somáticas no núcleo do sistema ψ – a qual também deixa de ser representada no esquema da tópica a partir de A interpretação dos sonhos, para retornar apenas em 1923, com o conceito de isso (Es).

158 Freud ([1895/1950] 1987, p. 416).

159 Id. ([1923] 1982, p. 294, grifos nossos).

160 Id. ibid., p. 294.

161 Id. ibid., p. 295.

162 Damásio (2000, p. 41-42, grifos do autor).

163 Gabbi Junior (2003, p. 100).

164 Freud (1891, p. 122).

165 Observemos que, para Freud, o problema da significação e o problema da consciência (pelo menos da consciência mediata dos processos internos) são rigorosamente simétricos, se não dois lados de um mesmo problema: se, em Sobre a concepção das afasias, Freud estabelece que o significado depende da relação entre a representação de palavra e a representação de objeto, desde o Projeto em diante, ele irá defender a ideia de que a consciência do pensamento e a rememoração dependem da relação da representação de objeto com as representações de palavra. Não é impossível considerar que significação e consciência como dois aspectos de um mesmo processo ou de uma mesma relação possa se constituir no ponto de partida para uma teoria mais geral da consciência, fundamentada em certas concepções da metapsicologia freudiana.