Entre o corpo e a consciência: a metapsicologia freudiana
Capítulo VI - Vida e morte na metapsicologia freudiana: uma reavaliação do segundo dualismo pulsional
Capítulo VI - Vida e morte na
metapsicologia freudiana: uma
reavaliação do segundo dualismo
pulsional
Introdução
Em Além do princípio do prazer (1920), Freud introduz, como se sabe, a hipótese do segundo dualismo pulsional. Até então, ele sustentara a existência de uma dualidade entre as pulsões de autoconservação e as pulsões sexuais, a qual já vinha há algum tempo sendo questionada, principalmente desde a formulação do conceito de narcisismo. Em 1920, as pulsões sexuais e as pulsões de autoconservação passam definitivamente a fazer parte da mesma classe de pulsões – as pulsões de vida – e Freud estabelece uma nova oposição entre estas e as pulsões de morte.
Ernest Jones,198 entre outros, comenta que, apesar do grande prestígio de que Freud gozava entre os psicanalistas, poucos aceitaram de imediato as novas teses apresentadas em Além do princípio do prazer. O conceito de pulsão de morte, em particular, desencadeou grandes polêmicas nos meios psicanalíticos. Monzani observa que “as reações frente ao texto foram díspares, porém a maioria delas tinha uma tônica comum: um certo ‘arrepio teórico’,
um certo mal-estar e uma reação francamente negativa”.199 O próprio Ernest Jones, além de Fenichel, Reich, Brun entre outros, manifestaram-se claramente contrários à hipótese da pulsão de morte. Essa reação de parte dos psicanalistas diante da formulação desse conceito mostra que eles o viam como algo totalmente novo introduzido por Freud em 1920, cuja consistência com o restante de sua teoria não parecia clara, muito menos sua justificação ou necessidade teórica. Tratar-se-ia, como diz Monzani, de um deslize, de uma idiossincrasia freudiana ou de uma tendência filosófica e metafísica que, em essência, seria alheia à psicanálise. Posições semelhantes podem ser encontradas em autores bem mais recentes. Por exemplo, Laplanche observa:
Das grandes compulsões do pensamento, que ressurgem
periodicamente na criação freudiana, a pulsão de morte é o
produto mais claro e talvez o que reúne todas elas. (…) Tem
origem aqui um desenvolvimento absolutamente novo, situado
fora de todas as trajetórias previsíveis: fora das continuidades
dos escritos metapsicológicos de 1915 e de seu sistema que
parecia bem próximo de uma reformulação; em divergência
também com relação ao questionamento proposto para o
“narcisismo”, já que não se tratava tanto de consolidar este
último, mas de enfraquecê-lo.200
Neste capítulo, procuramos, em primeiro lugar, retomar os argumentos desenvolvidos por Freud em Além do princípio do prazer (1920) para introduzir os conceitos de pulsão de vida e pulsão de morte e, em seguida, discutir algumas ideias desenvolvidas em textos metapsicológicos subsequentes. Trata-se de argumentar que, tendo-se em vista o desenvolvimento da teoria metapsicológica desde o Projeto de uma psicologia (1895/1950), a pulsão de morte, ao contrário de representar uma ideia nova e estranha à teoria até então desenvolvida, parece consistir na explicitação de algo que, de uma forma ou de outra, esteve presente de maneira implícita em todo o percurso teórico de Freud; em outra palavras, que se trata de um conceito que vem responder a uma necessidade interna da metapsicologia, tal como esta se constitui desde seus princípios. Um dos poucos autores a reconhecer essa solidariedade é Sulloway, que a vincula ao fundamento biológico proposto por Freud para suas teses psicológicas e para quem “sua teoria da pulsão de morte tem uma lógica perfeitamente racional em
seus próprios termos psicobiológicos”.201
Já o conceito de Eros ou pulsão de vida não costuma ser objeto de grandes contestações, nem receber tanta atenção dos comentadores de Freud. No entanto, quando se considera o detalhe das teorizações que se inauguram em 1920, a hipótese de que haveria pulsões de vida que se opusessem às de morte não parece se harmonizar facilmente com a teorização empreendida por Freud, permitindo sugerir-se que talvez não haja um lugar garantido para a mesma no sistema freudiano. Em outras palavras, quando se reflete sobre as teses desenvolvidas em Além do princípio do prazer e em outros trabalhos metapsicológicos, fica difícil escapar à impressão de que, para Freud, uma tendência para a morte está por trás de todos os fenômenos vitais, inclusive daqueles que aparentemente trabalham no sentido da preservação da vida. Dada essa solidariedade que assim se percebe entre a pulsão de morte e os fundamentos do conhecimento psicanalítico, tal como concebidos por Freud, não seria possível, consistentemente, recusar esse conceito e aderir ainda ao referencial freudiano, como ocorreu tanto
na sua recepção inicial quanto posteriormente.202
A pulsão de morte
Em Além do princípio do prazer (1920), Freud formula a hipótese de que haveria um funcionamento no aparelho psíquico que antecederia aquele regido pelo princípio do prazer, ou seja, um funcionamento que consistiria em uma “compulsão à repetição” e que teria como função ligar a excitação que chegasse ao aparelho psíquico, sendo condição para que o princípio do prazer se tornasse o princípio dominante. Ao refletir sobre a relação existente entre a compulsão à repetição e a atividade pulsional, Freud chega ao conceito de pulsão de morte. Ele conclui que a compulsão à repetição deve ser um caráter universal das pulsões:
Parece, então, que a pulsão é um ímpeto inerente à vida
orgânica para restaurar um estado de coisas anterior que o ser
vivo foi obrigado a abandonar sob a pressão de forças externas
perturbadoras; isto é, ela é um tipo de elasticidade orgânica ou,
para dizê-lo de outra maneira, a expressão da inércia inerente à
vida orgânica.203
Nesse momento, Freud parece estar ampliando a noção de pulsão em relação a suas formulações anteriores. Até então, a pulsão havia sido concebida como a expressão psíquica dos estímulos endógenos ou como a própria estimulação endógena na medida em que esta se expressa no psíquico: nos artigos metapsicológicos publicados entre os anos de 1915 e 1917, ele define a pulsão de ambas as maneiras, ao mesmo tempo em que oscila entre as
duas. 204 Seja como for, a pulsão vinha sendo caracterizada como um conceito que dizia respeito exclusivamente ao aparelho psíquico. Mas, em Além do princípio do prazer, ela passa a ser um conceito mais abrangente, que não se limita mais ao psíquico, e sim diz respeito à totalidade do ser vivo: Freud a define, na passagem acima, como um esforço “inerente à vida orgânica” para retornar a um estado anterior. Portanto, a pulsão torna-se uma exigência ou uma tendência inerente ao ser vivo – uma tendência que é, essencialmente, uma “compulsão à repetição”. Ela não mais se restringe a um processo ou mecanismo exclusivo da vida mental, mas é caracterizada como algo muito anterior ao surgimento desta última, ou seja, como esse esforço, que surge com a própria vida, de reproduzir uma condição anterior, mais recuada no tempo e mais primordial.
Mas – pergunta-se Freud em Além do princípio do prazer – qual seria esse estado anterior e originário ao qual toda pulsão aspiraria enfim retornar? Qual seria, em outras palavras, a meta final de toda a vida? E sua resposta é “que a meta de toda a vida é a morte e, olhando para trás, que as coisas inanimadas existiram antes das
coisas vivas”. 205 Desde sua origem, portanto, a vida possuiria uma tendência a retornar ao estado inorgânico. Ora, regressar ao inorgânico significa livrar-se de toda a excitação e de todas as formas de tensão, ou seja, é alcançar a morte. Se estendermos esse princípio ao aparelho psíquico, chegamos à hipótese de que a tendência primordial que governa esse aparelho é uma inclinação a eliminar toda a excitação. Com essas considerações, Freud dá mostras de estar resgatando o “princípio de inércia” formulado no Projeto de uma psicologia (1895/1950). Ali, Freud propusera que a tendência primária do aparelho seria livrar-se de toda a excitação e que, assim sendo, as excitações que originariamente chegassem ao aparelho seriam todas eliminadas pela via mais direta possível: a descarga reflexa. Contudo, a impossibilidade de suprimir a excitação proveniente do interior do corpo por meio de movimentos reflexos – como, por exemplo, no caso da fome, em que uma ação específica para obter alimento teria que ser executada sobre o mundo – imporia uma primeira modificação ao princípio de inércia: o aparelho neuronal seria levado a reter uma certa quantidade mínima de excitação para que as ações necessárias para a satisfação da necessidade de alimento e de outras necessidades corporais pudessem ser executadas. Assim, o princípio de inércia daria lugar a uma “tendência à constância”, que não se oporia a ele, mas antes atuaria em seu favor, criando condições para que a estimulação de origem endógena fosse, de fato, eficientemente descarregada.
No capítulo 7 de A interpretação dos sonhos (1900), embora Freud não volte a falar explicitamente em um “princípio de inércia”, ele retoma claramente a ideia de que o aparelho psíquico, em sua origem, apresentaria uma tendência para descarregar a excitação da forma mais direta possível, mas que essa tendência acabaria sendo modificada devido à necessidade de anular também a estimulação de origem endógena:
(…) no início, os esforços do aparelho foram direcionados para
manter-se tanto quanto possível livre de estímulos;
consequentemente, sua primeira estrutura seguiu o plano de
um aparelho reflexo, de tal modo que qualquer excitação
sensorial que incidisse sobre ele pudesse ser prontamente
descarregada ao longo da via motora. Mas as exigências da
vida interferem com essa função simples, e é a elas, então, que
o aparelho deve o ímpeto para seu desenvolvimento
posterior.206
Nos artigos metapsicológicos de 1915, Freud retorna a essa hipótese sobre a tendência originária do aparelho. Em Pulsões e seus destinos, por exemplo, ele afirma:
(…) o sistema nervoso é um aparelho que tem a função de
livrar-se dos estímulos que o atingem, ou de reduzi-los ao nível
mais baixo possível; ou que, se isso fosse viável, manter-se-ia
numa condição de ausência total de estimulação.207
Portanto, desde o Projeto de uma psicologia, foi parte integrante da teoria do aparelho psíquico a hipótese de que a tendência primordial que o governaria seria a de eliminar toda a excitação e cancelar qualquer aumento da mesma. No entanto, em Além do princípio do prazer, Freud explicita algo que até então permanecera apenas implícito: a tendência primordial à descarga máxima da excitação é a expressão de uma tendência para a morte. Como observa
Monzani, 208 com a introdução da noção de pulsão de morte, Freud coloca em primeiro plano algo que esteve sempre presente em toda a teoria desde o Projeto de uma psicologia, de forma mais ou menos implícita.
No Projeto, contudo, a tendência à inércia era concebida como um princípio que regia somente a atividade nervosa e psíquica. Em 1920, Freud o coloca como algo inerente à própria vida como um todo: quando a vida se originou, com ela teria surgido uma tendência a retornar ao estado anterior de ausência total de estimulação, ou seja, ao estado inanimado. Dito de outro modo, quando as propriedades da vida foram suscitadas na matéria inanimada, teria surgido igualmente a primeira pulsão: a de regressar ao inanimado. Na origem, especula Freud, morrer devia ter sido fácil: apenas um curto caminho vital teria que ser percorrido e, por isso, a vida deveria ter sido criada e recriada inúmeras vezes. No entanto, as alterações surgidas nas condições externas teriam imposto à substância viva desvios cada vez maiores do seu caminho vital originário: os estímulos externos seriam, assim, os responsáveis pelo fato de que os processos vitais se tivessem tornado progressivamente mais complexos. As hipóteses recapituladas até aqui conduzem, portanto, à ideia de que a morte é uma tendência primordial da vida e de que a manutenção da vida teria resultado, em última instância, de fatores externos à mesma. Seria legítimo, assim, postular a existência de uma pulsão de morte, porém não haveria elementos, ainda, que permitissem falar de uma pulsão de vida. Pelo que foi visto, não haveria, até esse ponto, nada que sugerisse um esforço inerente ao orgânico de se manter no estado animado, ou seja, um impulso interno para a preservação da vida.
Mas e as pulsões de autoconservação? Elas não se opõem à suposição de que a atividade pulsional estaria a serviço apenas da morte? – pergunta-se Freud. Sua resposta é, a princípio, negativa: tendo em vista a hipótese da pulsão de morte, as pulsões de autoconservação seriam apenas pulsões parciais destinadas a assegurar o caminho até a morte peculiar a cada organismo. Sob certo aspecto, essas ideias também já estavam pressupostas desde o Projeto: segundo a teoria lá desenvolvida, haveria uma tendência originária para eliminar toda a excitação pela via mais direta possível – isto é, por meio de respostas motoras reflexas –, mas essa forma primária de reação não seria capaz de propiciar a cessação da excitação endógena. A eliminação desta última só seria possível mediante uma ação específica sobre o mundo, a qual teria como primeira condição que o aparelho aprendesse a tolerar um certo nível de excitação que o capacitasse a se empenhar em processos mais complexos do que a simples resposta reflexa. Deste modo, todo esse processo – que, em última instância, sempre aspirou apenas à descarga total mais eficaz da excitação – acabaria por preservar a vida. Essa vida que permanece e se desenvolve, contudo, não seria nada mais do que um rodeio que se interporia no decorrer de um caminho que sempre teve como objetivo último conduzir à máxima eliminação possível dos estímulos e satisfazer assim a exigência expressa, de 1920 em diante, pelo conceito de pulsão de morte.
Desde essa perspectiva, as pulsões de autoconservação apenas aparentemente teriam como objetivo a preservação da vida; na verdade, também elas estariam a serviço da pulsão de morte. Como a supressão da excitação endógena não seria possível pela via reflexa, impor-se-ia um adiamento da descarga e a aprendizagem de certos caminhos de eliminação, o que teria como resultado uma permanência maior no estado animado. No Projeto, Freud afirmara que o desamparo inicial do organismo era a “mola pulsional” de todo o desenvolvimento psíquico; mas esse desenvolvimento psíquico só teria ocorrido porque, devido ao estado de desamparo originário, o organismo não seria capaz de alcançar, sem certas inibições e novas aprendizagens, a meta da eliminação total da excitação. Nesse sentido, por trás de todo o desenvolvimento psíquico, parece sempre ter estado presente o objetivo primário de retornar ao estado originário de ausência total de estimulação.
Em Além do princípio do prazer, Freud conclui, num primeiro momento, que o quadro dos fenômenos vitais consistiria apenas em um rodeio para alcançar a forma de morte peculiar a cada organismo: o que se apresenta, num primeiro momento, como um esforço por manter-se na vida – isto é, a manifestação das pulsões de autoconservação – não passaria de uma tendência fixada ao longo do desenvolvimento filogenético que leva cada organismo a percorrer certo ciclo vital, certa sucessão de etapas num determinado período de tempo. É isso que Freud expressa ao afirmar que o organismo só quer morrer à sua maneira, o que o leva à conclusão de que as manifestações das pulsões de autoconservação podem ser conciliadas com a hipótese da pulsão de morte. Mas há, pelo menos, um elemento da atividade pulsional que parece escapar a essa tendência à morte: o conjunto formado pelas pulsões sexuais. Freud tenta, a partir delas, justificar por que ainda é possível se falar em uma dualidade pulsional.
A pulsão de vida
De início, em Além do princípio do prazer, o que Freud alega escapar à tendência geral para a morte não é a atividade das pulsões sexuais como um todo, mas apenas a das células germinativas. Assim, pelo menos à primeira vista, apenas a atividade sexual com fins de reprodução – portanto, só uma pequena parte das atividades impulsionadas pelas pulsões sexuais, como Freud insiste desde 1905 nos Três ensaios – se oporia, de fato, à pulsão de morte. Mais adiante, no entanto, ele acaba por concluir que há algo que permite afirmar que todas as pulsões sexuais atuariam a favor da preservação da vida e contra a tendência de retorno ao inanimado.
Freud afirma, a princípio, que as pulsões sexuais assegurariam a união entre duas células germinativas: elas seriam, assim, as verdadeiras pulsões de vida e se oporiam às pulsões de morte. Dessa forma:
É como se a vida do organismo se movesse num ritmo
vacilante. Um grupo de pulsões empurra para frente, de modo a
atingir o objetivo final da vida o mais rapidamente possível;
mas, quando um estágio particular desse avanço tenha sido
alcançado, o outro grupo empurra para trás até certo ponto,
para fazer um novo começo e, assim, prolongar a jornada.209
Freud pensa circunscrever, com essas considerações, algo que escaparia à pulsão de morte: a fusão de duas células germinativas, que seria assegurada ou impelida pelas pulsões sexuais. Com isso, poderia ser estabelecida uma oposição entre as pulsões de morte – que até aqui parecem incluir também as pulsões de autoconservação – e as pulsões sexuais, que seriam as verdadeiras pulsões de vida. Chegando até esse ponto, contudo, a seguinte questão se coloca: se a pulsão em geral é definida como um esforço de retornar a um estado anterior que é inerente ao orgânico, a compulsão à repetição seria a manifestação pura de toda pulsão, e não apenas da pulsão de morte. Mas, nesse caso, é preciso esclarecer exatamente o que as pulsões sexuais repetem; em outras palavras, qual é o estado mais primitivo e originário ao qual elas aspirariam retornar. As pulsões de morte, como se viu, visariam regressar ao estado inanimado. Com a própria origem da vida, teria se formado esse impulso para retornar ao estado anterior de ausência de vida. Mas, e a pulsão de vida? A que estado anterior ela aspiraria retornar? Para tentar encontrar uma resposta para essa pergunta, Freud propõe uma outra: o que a reprodução sexual – ou mesmo o acoplamento de dois protistas para intercâmbio de material genético, sua precursora na história da vida – aspiraria repetir?
Ele tenta encontrar uma pista para solucionar essa questão em suas incursões pela biologia. Haveria dados indicando que a cópula entre dois protistas – a precursora da reprodução sexual dos animais superiores – tivesse um efeito rejuvenescedor sobre ambos os participantes. Além disso, outras formas de estimulação possuiriam esse mesmo efeito sobre o organismo: se, por exemplo, a composição do líquido nutritivo em que o organismo subsiste fosse alterada e renovada, isso teria sobre o mesmo um efeito rejuvenescedor equivalente ao da cópula. Ao contrário, se os protistas são deixados a viver entre seus próprios resíduos, eles vão progressivamente degenerando. Dessas observações seria possível tirar a seguinte conclusão: o que, de fato, possui a capacidade de renovar a vida é o aumento da estimulação e, portanto, não apenas a fusão de duas células germinativas para o surgimento de um novo ser vivo que trabalharia no sentido contrário ao da tendência para a morte, mas também o aumento da estimulação produzido pelo contato entre dois corpos ou por outras formas de estimulação. Desde essa perspectiva, seria possível identificar, não apenas na atividade sexual que conduz à fusão entre duas células germinativas, mas também nas manifestações sexuais em geral, alguma coisa que se oporia à morte: a promoção do contato entre dois corpos, que produziria um aumento da estimulação que incide sobre o organismo. Freud chega, assim, à seguinte conclusão:
Poderíamos supor que as pulsões de vida ou pulsões sexuais,
que estão ativas em cada célula, tomam as outras células como
seus objetos, que elas parcialmente neutralizam as pulsões de
morte (isto é, os processos produzidos por elas) nessas células
e, assim, preservam a sua vida.210
A constatação de que o aumento da estimulação fortalece a vida está totalmente de acordo com a suposição de Freud de que o processo vital leva, por razões internas, à nivelação das tensões químicas. Diante disso, pode-se assumir que a pulsão de morte trabalharia no sentido da diminuição da excitação, e a pulsão de vida no sentido do seu incremento. Podemos, no entanto, perguntarmo-nos: as pulsões sexuais não visariam, elas também, em última instância, a descarga da excitação? O contato entre dois corpos não seria apenas uma meta intermediária da pulsão sexual, isto é, uma etapa do processo impulsionado por esta, cujo objetivo final continuaria sendo a descarga da excitação? A definição de pulsão que Freud apresenta nos Três ensaios sobre uma teoria da sexualidade (1905) e no artigo metapsicológico Pulsões e seus destinos (1915) parece permitir esse questionamento. Nesses textos, Freud argumenta que toda pulsão tem uma “meta”, um “objeto” e uma “fonte” e que “a meta [Ziel] de uma pulsão é, em todos os casos, a satisfação, a qual só pode ser obtida pela
remoção do estado de estimulação na fonte da pulsão”. 211 Assim, o cancelamento da excitação seria a verdadeira meta de toda a pulsão, embora os caminhos que levem a ela possam ser os mais variados, argumenta Freud. Tendo em vista essa definição, a promoção do contato entre dois corpos, que acabaria fortalecendo a vida, parece ser apenas uma consequência secundária de um processo impulsionado, ao fim e ao cabo, pela meta de descarregar a excitação, ou seja, uma espécie de efeito colateral de um processo que também visaria, por fim, a morte.
Podemos somente levantar hipoteticamente essas questões, porque, embora haja elementos nos textos que as autorizem, Freud não chega de fato a formulá-las explicitamente. Seja como for, permanece em aberto, em Além do princípio do prazer, a questão sobre qual seria o estado originário a que as pulsões de vida aspirariam retornar. Os dados biológicos invocados por Freud não permitem uma resposta concludente para essa questão, embora forneçam uma pista para esclarecê-la: se as pulsões sexuais tivessem mesmo como finalidade primordial promover o contato entre dois corpos, o estado originário ao qual elas aspirariam regressar deveria ser um estado de fusão entre os mesmos. Uma vez que esse estado deve ser tão originário quanto aquele aspirado pela pulsão de morte, se é que ambas as pulsões devem estar presentes desde a origem da vida e serem igualmente primordiais, a conclusão a que essas considerações conduzem é: a substância inanimada, ao tornar-se animada, se dividiu em várias partes, as quais, desde então, passaram a almejar reunir-se novamente. Com a vida, teria surgido tanto uma tendência para retornar ao inanimado – a pulsão de morte –, quanto uma outra, para retornar ao estado anterior de coesão indiferenciada – a pulsão de vida. Embora esse seja o caminho para o qual as hipóteses de Freud o conduzem, ele reconhece que não parece haver nada na biologia que forneça apoio adequado para essas suposições. Diante dessa situação, Freud levanta a questão:
Devemos seguir a sugestão que nos foi dada pelo poeta-filósofo
e arriscarmos a hipótese de que a substância viva, na época do
seu surgimento, foi rompida em pequenas partículas que, desde
então, se esforçam por reunir-se através das pulsões sexuais?
Que essas pulsões, nas quais a afinidade química da matéria
inanimada persistiu, gradualmente teve êxito, à medida que se
desenvolvia através do reino dos protistas, em superar as
dificuldades postas no caminho desse esforço por um ambiente
carregado de estímulos perigosos – estímulos que a
compeliram a formar uma camada cortical protetora? Que
esses fragmentos estilhaçados de substância viva atingiram,
dessa maneira, uma condição multicelular e, finalmente,
transferiram o impulso para reunirem-se, na sua forma mais
concentrada, para as células germinais? – Mas aqui, eu penso,
chegou a hora de parar.212
Haveria na filosofia – Freud menciona a seguir a teoria mítica que Platão faz Aristófanes desenvolver no Banquete – ideias que fornecem exatamente aquilo que está sendo procurado, isto é, que permitem derivar a pulsão sexual da necessidade de restabelecer um estado anterior, mais primitivo. Contudo, trata-se apenas de sugestões e metáforas e não há como encontrar apoio científico para essa hipótese. Quanto ao texto de 1920, é preciso reconhecer que a questão acima – a pergunta a respeito de qual seria o estado originário ao qual também as pulsões de vida aspirariam regressar – é apenas formulada, mas deixada em aberto, sem uma resposta definida.
A partir dessas hipóteses e considerações desenvolvidas por Freud, podemos, então, levantar as seguintes questões: se a finalidade primária das pulsões de vida fosse retornar a um estado originário de fusão, essa finalidade não seria também a morte, uma vez que esse estado de fusão originária seria igualmente o estado inanimado? O estado assim visado não seria o estado de total ausência de tensão e, portanto, de vida? O fato do contato entre dois corpos promover o aumento da estimulação, tendo como consequência o fortalecimento da vida, não seria uma consequência secundária e, nesse sentido, a pulsão sexual não seria também, ao fim e ao cabo, uma pulsão de morte? Durante todo o texto Além do princípio do prazer, ficamos com a impressão de que, por mais que Freud se esforce em conceder às pulsões de vida o mesmo status que a pulsão de morte, parece difícil escapar à conclusão de que a morte estaria por trás de todos os fenômenos vitais.
Primeiro versus segundo dualismo pulsional
Como comentamos acima, Freud em Além do princípio do prazer coloca inicialmente as pulsões de autoconservação como se incluindo entre as pulsões de morte. Haveria, então, uma oposição entre pulsão de autoconservação e pulsão sexual: as primeiras serviriam à morte, e as segundas serviriam à vida. Mas os fenômenos relacionados ao narcisismo já haviam mostrado a dificuldade de se manter uma oposição nítida entre pulsões de autoconservação e pulsões sexuais. Há já algum tempo, Freud havia percebido que o eu teria que ser o reservatório genuíno e originário da libido, que ele, portanto, faria parte do conjunto dos objetos sexuais, o que torna necessário reconhecer que uma parte das pulsões do eu é de natureza libidinal. Assim, num segundo momento, ainda em Além do princípio do prazer, Freud trata de corrigir a primeira hipótese, segundo a qual as pulsões de autoconservação seriam pulsões de morte:
Mas é cada vez mais necessário, para nós, enfatizar o caráter
libidinal das pulsões de autopreservação, agora que estamos
arriscando um passo adiante e reconhecendo a pulsão sexual
como o Eros, o preservador de todas as coisas, além de derivar
a libido narcísica do eu dos estoques de libido por meio dos
quais as células do soma são ligadas umas às outras. Mas
deparamo-nos agora, repentinamente, com outra questão. Se
as pulsões de autopreservação são também de natureza
libidinal, talvez não existam outras pulsões, a não ser as
libidinais?213
Se as pulsões de autoconservação são também pulsões libidinais, então que lugar restaria para as pulsões de morte? O dualismo pulsional deveria ser deixado de lado? Como sabemos, Freud não aceita, de forma alguma, essa consequência. Ele argumenta que deve ser mantida a hipótese de que haveria no interior do eu outras pulsões além das libidinais, mesmo que não seja possível identificá-las, e sugere que talvez a agressividade possa ser considerada como uma manifestação da pulsão de morte, de forma que haveria, assim, uma oposição pulsional entre amor e ódio. Essa oposição já havia sido proposta em 1915 como uma das grandes polaridades psíquicas, mas em termos distintos, já que, ali, o ódio era uma manifestação das pulsões de autoconservação. No entanto, essa hipótese de que a agressividade seria uma das manifestações das pulsões de morte apresenta uma série de complicações, entre outros motivos porque, como Freud mesmo reconhece, há uma estreita relação entre a sexualidade e a agressividade.
Mas atentemos, antes, para outro aspecto do problema. O conceito de narcisismo, como se viu, impôs uma identificação, pelo menos parcial, entre pulsões de autoconservação e pulsões sexuais – e, num primeiro momento, em Além do princípio do prazer, Freud argumenta que as pulsões de autoconservação são também pulsões de morte. Na verdade, desde o Projeto, fora estabelecido que o desenvolvimento e a preservação do organismo eram consequência da impossibilidade de se alcançar a eliminação da excitação endógena pela via reflexa. Portanto, o que resulta na manutenção e no progresso da vida teria tido sempre, como meta final, a eliminação total da tensão psíquica e vital, forçando a conclusão de que as pulsões de autoconservação estariam, enfim, a serviço da morte. A vida, como diz Freud, consistiria apenas num rodeio ou num desvio no caminho para a morte. Mas, como vimos, a oposição entre pulsões sexuais e pulsões de autoconservação não pode ser sustentada integralmente: ao menos parte destas últimas revelaram-se também como pulsões libidinais. Então, há dois fatores a considerar: por um lado, o fato de que as pulsões de autoconservação sejam perfeitamente conciliáveis com a hipótese da pulsão de morte e com a meta que lhe é atribuída. Aliás, a ideia de que a atividade das pulsões de autoconservação apenas secundariamente acabaria conservando a vida parece ser uma consequência necessária da hipótese de que haveria uma tendência primordial e universal do organismo para o cancelamento de todas as tensões. Dessa forma, o impulso primário que estaria por trás das pulsões de autoconservação seria também um impulso para a morte. Por outro lado, contudo, não é possível sustentar integralmente a oposição entre pulsões sexuais e pulsões de autoconservação: ao menos uma parte destas últimas seria também de natureza sexual. Diante disso, Freud deixa de lado a aproximação antes estabelecida entre pulsões de autoconservação e pulsões de morte e propõe que as primeiras deveriam contar-se, na verdade, entre as pulsões de vida. Mas não há como esquecer que nada parece contradizer que as pulsões de autoconservação estejam também a serviço da tendência para a morte, que estas procurem atingi-la por um caminho mais longo e tortuoso que se identifica com a própria história da vida. Dessa forma, não seria legítima a conclusão de que ao menos parte das pulsões sexuais sejam também pulsões de morte? Em outras palavras, a sexualização das pulsões de autoconservação não parece contaminar as pulsões sexuais com a meta da pulsão de morte em última instância?
Vemos assim que a dualidade entre pulsões de vida e de morte de forma alguma é algo facilmente justificável. Mas Freud mantém esse novo dualismo pulsional, a despeito da dificuldade de encontrar justificativas suficientes para o mesmo. Ao se perguntar se a hipótese da pulsão de morte não deveria ser descartada, ele responde:
A tendência dominante da vida mental – e, talvez, da vida
nervosa em geral – é o esforço para reduzir, para manter
constante ou para remover tensões internas devidas aos
estímulos (o ‘princípio de Nirvana’, para emprestar um termo a
Barbara Low) – uma tendência que encontra expressão no
princípio do prazer; e reconhecermos esse fato é uma de
nossas razões mais fortes para acreditar na existência das
pulsões de morte.214
O conceito de pulsão de morte seguir-se-ia necessariamente da hipótese dessa tendência originária da vida psíquica – desse “princípio de Nirvana”, tal como Freud o denomina em 1920. Lembremos do que Freud afirma ao propor a noção de princípio de inércia no Projeto: ele diz ali que as observações clínico-patológicas – em especial, os fatos relacionados à histeria e à compulsão – sugeriram a concepção da excitação nervosa como quantidade em fluxo e, a partir dessa consideração, foi possível estabelecer o princípio de inércia como o princípio fundamental da atividade nervosa. Como argumentamos, a hipótese da pulsão de morte parece ser implicada pela tendência originária do aparelho a descarregar toda a excitação. Se, conforme o que Freud diz no Projeto, os fatos clínicos levaram à suposição dessa tendência fundamental do sistema nervoso, então a noção de pulsão de morte também estaria ancorada em fatos clínicos e, portanto, haveria justificativas empíricas para mantê-la.
As pulsões de vida, embora produzindo manifestações mais visíveis, parecem mais difíceis de serem justificadas do que as pulsões de morte, tendo em vista as premissas mais fundamentais da teoria freudiana. A única evidência de algo que pareça seguramente estar em oposição à morte é a fusão das células germinativas. Contudo, o desenvolvimento relativamente tardio da reprodução sexuada compromete o caráter originário a ser atribuído às pulsões de vida, e a suposição de que a meta originária das pulsões sexuais seria a tendência à união entre dois corpos e de que só em um momento posterior tal tendência teria sido transferida para as células germinativas já parece atenuar um pouco a oposição entre pulsões de vida e de morte estabelecida com base nessas considerações. Como argumentamos, é possível fazer a suposição de que a promoção do contato entre dois corpos seja, afinal, uma consequência da busca da descarga da excitação sexual: essa descarga seria, assim, a meta primária das pulsões sexuais, o que, de novo, diluiria a oposição entre pulsões de morte e de vida que Freud pretende estabelecer.
Freud reconhece, em Além do princípio do prazer, que esse novo dualismo pulsional aí proposto não apresenta o mesmo grau de certeza que os passos anteriores do desenvolvimento de sua teoria das pulsões. Algumas hipóteses desenvolvidas em textos posteriores parecem tornar ainda mais problemática a manutenção da dualidade que distingue as pulsões de morte e as de vida e reforçar a impressão de que não há, de fato, uma oposição clara entre essas duas classes de pulsões.
O dualismo pulsional após Além do princípio do
prazer
Em O problema econômico do masoquismo (1924), Freud estabelece, de forma bastante clara, qual seria a relação entre os vários princípios que governam a atividade psíquica e, também, qual a relação entre esses princípios e as duas classes de pulsões propostas em 1920. Em Além do princípio do prazer, ele diferenciara entre o princípio de prazer – que teria como condição a ligação da excitação – e o princípio de Nirvana. Este último seria anterior ao primeiro, uma vez que o princípio do prazer só entraria em ação após a ligação da excitação resultante dos processos determinados pela compulsão à repetição. Freud argumentara também, em 1920, que o princípio do prazer seria uma “tendência” a serviço de uma “função” (o princípio de Nirvana) e que ambos participariam da aspiração mais universal de todo ser vivo de voltar para trás, até o repouso do mundo inorgânico. Em suma, ambos os princípios estariam mais ou menos diretamente a serviço das pulsões de morte. Em O eu e o isso (1923), contudo, Freud não distingue tão claramente o princípio do prazer e o de Nirvana, mas trata-os como se fossem um único e mesmo princípio. Em O problema econômico do masoquismo, no entanto, ele argumenta que é preciso voltar a diferenciá-los e procura esclarecer qual seria a relação existente entre eles:
Seja lá como for, devemos perceber que o princípio de Nirvana,
pertencendo como pertence à pulsão de morte, experimentou
uma modificação nos organismos vivos, através da qual ele se
tornou o princípio do prazer; e devemos, daqui em diante, evitar
considerar os dois princípios como um só. Não é difícil, se
cuidamos de seguir essa linha de pensamento, adivinhar qual
poder foi a fonte da modificação. Só pode ter sido a pulsão de
vida, a libido, que, assim, ao lado da pulsão de morte,
apoderou-se de uma parcela da regulação dos processos da
vida. Dessa forma, obtemos um pequeno, mas interessante
conjunto de conexões. O ‘princípio de Nirvana’ expressa a
tendência da pulsão de morte; o ‘princípio do prazer’ representa
as exigências da libido; e a modificação deste último princípio, o
‘princípio de realidade’, representa a influência do mundo
externo.215
Haveria, então, um princípio originário – o princípio de Nirvana – que estaria diretamente a serviço das pulsões de morte. A pulsão de vida imporia uma modificação a esse princípio, fazendo surgir o princípio do prazer, e o mundo externo imporia ainda uma segunda modificação, dando origem ao princípio de realidade. Freud esclarece, a seguir, que nenhum desses princípios é totalmente destituído ou cancelado pelos outros. Todos continuam ativos, às vezes de forma pacífica, às vezes de forma conflituosa. Mas essa relação estabelecida por Freud entre os vários princípios propostos e as respectivas pulsões parece implicar claramente a precedência da pulsão de morte sobre a pulsão de vida: os processos psíquicos originariamente seriam governados pelo princípio de Nirvana, que estaria “diretamente” a serviço da pulsão de morte. A pulsão de vida entraria em ação em um momento posterior, o que teria como consequência a modificação do princípio de Nirvana e sua transformação no princípio de prazer. Se isso for verdade, a pulsão de morte deve ser considerada como mais originária do que a pulsão de vida, com o que a simetria entre as duas classes de pulsões não mais pode ser sustentada. Além disso, em Além do princípio do prazer, Freud afirmara claramente que o princípio do prazer estaria, assim como o de Nirvana, a serviço da pulsão de morte. Para que houvesse, de fato, uma oposição entre as duas classes de pulsões, o princípio do prazer não poderia ser pensado dessa maneira, pois isso coloca as pulsões de vida, no máximo, como resultando de uma modificação secundária das pulsões de morte, e não como um princípio independente e igualmente originário.
No Esboço de psicanálise (1938), Freud parece reforçar ainda mais essa ideia da anterioridade da pulsão de morte em relação à de vida, ao recusar a hipótese, que havia sido sustentada em Além do princípio do prazer, de que toda a pulsão teria um caráter regressivo. Na segunda parte desse texto, ele volta a falar sobre o novo dualismo pulsional, mas agora acaba por negar a possibilidade de atribuir um caráter conservador também para as pulsões de vida. De início, ele parece retomar a hipótese de que toda pulsão seria de natureza conservadora, apenas reafirmando o que havia sido proposto em 1920:
As forças que supomos existirem por trás das tensões
causadas pelas necessidades do isso são chamadas pulsões.
Elas representam as exigências somáticas sobre a mente.
Embora sejam a causa última de toda atividade, elas são de
natureza conservadora; o estado, seja ele qual for, que um
organismo tenha atingido dá origem a uma tendência para
restabelecer esse estado, tão logo ele tenha sido
abandonado.216
Contudo, logo em seguida, Freud argumenta que essa natureza conservadora, na verdade, pode apenas ser uma característica das pulsões de morte: não seria possível atribuí-la também às pulsões de vida, uma vez que isso implicaria supor que a substância viva fora dividida com o surgimento da vida e, a partir de então, passou a aspirar regressar ao estado de unidade anterior:
Se presumirmos que as coisas vivas vieram depois que as
inanimadas e surgiram a partir delas, então a pulsão de morte é
compatível com a fórmula que propusemos, segundo a qual as
pulsões tendem a retornar a um estado anterior. No caso do
Eros (ou a pulsão do amor), nós não podemos aplicar essa
fórmula. Fazê-lo seria pressupor que a substância viva foi,
alguma vez, uma unidade que tivesse sido depois rompida e
estivesse agora se esforçando pela reunião.217
Nada que se conheça corresponde a isso na história da substância viva – admite Freud – e, portanto, não haveria justificativa para se atribuir esse caráter conservador também às pulsões de vida. Que implicações essa conclusão traz para a teoria?
Se apenas as pulsões de morte aspirassem ao retorno a um estado anterior, a compulsão à repetição teria que ser uma característica tão somente das pulsões de morte e não, como havia sido sustentado em Além do princípio do prazer, uma característica universal das pulsões. Sendo assim, no funcionamento psíquico originário – isto é, naquele funcionamento regido apenas pelo princípio de Nirvana –, que consistiria em uma compulsão à repetição, apenas a pulsão de morte poderia estar em ação. Dessa forma, a pulsão de morte antecederia o surgimento da pulsão de vida, que entraria em ação apenas em uma etapa posterior do funcionamento do aparelho psíquico. É essa hipótese que Freud parece defender em O problema econômico do masoquismo. Nesse texto, como vimos, ele sustenta que o princípio de Nirvana expressa a tendência da pulsão de morte, ao passo que o princípio de prazer, que consiste numa “modificação” do primeiro, representa as exigências da libido. De acordo com esse ponto de vista, seria preciso supor que a pulsão de morte entra em ação primeiro, sob influxo do princípio de Nirvana, e que, apenas em um segundo momento, a pulsão de vida se manifestaria, dando origem ao princípio do prazer. Tudo isso parece conduzir à hipótese de que a pulsão de morte esteja por trás de todos os processos psíquicos e introduz o problema de por que a vida se teria afirmado a despeito dessa tendência originária para a morte, na ausência de um princípio igualmente originário que se lhe opusesse.
Diante de todas essas dificuldades, é compreensível que Freud relute em admitir essa precedência da pulsão de morte sobre a de vida. No próprio Esboço de psicanálise, apesar de recusar o caráter conservador das pulsões de vida, Freud tenta manter a hipótese de que ambas as pulsões seriam igualmente originárias:
Podemos imaginar um estado inicial no qual toda a energia
disponível do Eros – que, daqui em diante, chamaremos de
‘libido’ – esteja presente no eu-isso ainda indiferenciado e serve
para neutralizar as tendências destrutivas que estão
simultaneamente presentes.218
Parece haver, portanto, um impasse nas próprias bases da teoria. O princípio de Nirvana seria originário e entraria em ação sob o influxo da pulsão de morte. O funcionamento repetitivo seria manifestação apenas da pulsão de morte e antecederia a vigência do princípio do prazer. Este último princípio apenas entraria em ação sob o influxo da pulsão de vida. Mas, se ele resulta da atividade da pulsão de vida e se esta provém de uma modificação do princípio de Nirvana, então a pulsão de morte forçosamente se manifestaria no aparelho psíquico antes que a pulsão de vida. Contudo, Freud quer manter a hipótese dessa espécie de paridade entre ambas as classes de pulsões, que seriam igualmente originárias, a despeito do fato de toda sua argumentação orientar-se no sentido oposto, de modo que essa contradição permanece não resolvida na teoria.
Considerações finais O fato de Freud afirmar, como em O problema econômico do masoquismo, que o princípio do prazer é uma modificação do princípio de Nirvana torna difícil sustentar a existência de uma oposição plena entre as duas classes de pulsões, uma vez que, em Além do princípio do prazer, ele argumentara que o princípio do prazer estaria a serviço da pulsão de morte, tal como o princípio de Nirvana. Para haver uma oposição total entre as duas classes de pulsões, seria necessário haver uma oposição equivalente também entre os dois princípios mencionados, o que entraria em contradição com as hipóteses desenvolvidas por Freud nos trabalhos examinados acima.
Outra hipótese sustentada por Freud que parece atenuar a tese de uma oposição entre as pulsões de vida e de morte é a de que as pulsões sexuais teriam a finalidade de promover o contato entre dois corpos. Tendo em vista as definições anteriores de pulsão, que foram elaboradas tendo como modelo as pulsões sexuais, a meta destas últimas seria, efetivamente, promover a descarga da excitação sexual, e o aumento da estimulação resultante do contato entre os corpos consistiria em uma consequência secundária de um processo cujo objetivo último teria sempre sido a eliminação da tensão e que, por isso, estaria também, de certa forma, em consonância com a meta atribuída à pulsão de morte. Portanto, para ser possível sustentar a hipótese de que a finalidade “primária” das pulsões sexuais seria promover o contato entre os corpos – o que faria delas pulsões “de vida” – seria necessária uma reformulação do próprio conceito de pulsão sexual.
Outro impasse que permanece na teoria diz respeito ao fato de que as pulsões de autoconservação são totalmente conciliáveis com a hipótese da pulsão de morte, como Freud explicitamente afirmou. Na verdade, pelo menos no caso paradigmático da fome, parece haver uma afinidade muito maior da pulsão de autoconservação com a pulsão de morte do que com a pulsão de vida: se o que preserva a vida é o aumento da estimulação, no caso da fome, ao menos, como foi estabelecido desde o Projeto, a conservação de uma constante de excitação é apenas um meio para um fim que, nesse caso, é a supressão do estímulo endógeno, a qual, levada ao extremo, coincidiria com a supressão da própria vida.
Procuramos, por isso, argumentar que a hipótese do segundo dualismo pulsional, desde sua primeira formulação em 1920, não parece se encaixar facilmente na metapsicologia freudiana. Fica-se com a impressão, já desde Além do princípio do prazer – e ainda mais nos textos posteriores –, de que, por mais que Freud se esforce em manter a oposição entre as pulsões de vida e as de morte, ele não consegue fundamentá-la ou justificá-la de modo plenamente convincente ou satisfatório. Apesar de sua recepção reservada e de ter sido considerado o ponto mais problemático do período final da reflexão metapsicológica freudiana, é o conceito de pulsão de morte que aparece como uma necessidade interna da teoria, logicamente derivável de seus termos, inclusive aqueles mais amplamente aceitos. Ao contrário, não parece haver aí um lugar natural para a pulsão de vida: esta parece ser uma hipótese que Freud introduz e reluta fortemente em abandonar, mas que, na verdade, permanece sempre como uma espécie de corpo estranho na teoria.
Essa assimetria entre as categorias que formam a segunda dualidade pulsional freudiana coloca, então, em primeiro plano, a pulsão de morte, e não a de vida (ou Eros): embora esta última categoria supostamente englobe as que formavam a dualidade anterior – as pulsões sexuais e as de autoconservação –, a formulação do conceito de pulsão de morte parece consistir mais numa “redefinição” das mesmas do que na proposição (ou na descoberta) de um terceiro grupo de pulsões que se oporia, então, ao par por elas formado e agora rebatizado como pulsões de vida. Essa redefinição enfatizaria o caráter mortífero da pulsão como um todo – uma ênfase que, longe de ser uma ideia nova, na verdade explicita uma propriedade fundamental da pulsão, derivada logicamente de seu próprio conceito, mas que teria permanecido
apenas subentendida até 1920. Em outro trabalho,219 procuramos mostrar que o mesmo se aplica ao conceito de compulsão à repetição, implicitamente formulado desde os primórdios do pensamento de Freud e apenas cabalmente explicitado em 1920. Como o conceito de pulsão de morte em Além do princípio do prazer é, de certo modo, “deduzido” do conceito de compulsão à repetição, não é de se surpreender que ele também traduza uma ideia já presente na metapsicologia freudiana anterior.
Cabe enfatizar duas consequências que decorrem dessas constatações. A primeira é que seria preciso reconhecer que, por trás do novo dualismo pulsional, insinua-se uma espécie de monismo, no qual toda pulsão se apresenta, em última instância, como uma pulsão de morte. Não deixa de ser curioso que Freud reencontre, pela via da especulação biológica, a mesma conclusão polemicamente proposta por Lacan, a partir de uma ampla revisão da psicanálise freudiana que recorreu, como se sabe, sobretudo aos instrumentos teóricos oferecidos pelas ciências humanas – antropologia e linguística principalmente – e pela filosofia:
O sujeito falante tem o privilégio de revelar o sentido mortífero
desse órgão [histérico] e, através disso, sua relação com a
sexualidade. Isso porque o significante como tal, barrando por
intenção primeira o sujeito, nele faz penetrar o sentido da
morte. (A letra mata, mas só ficamos sabendo disso pela
própria letra). Por isso é que toda pulsão é virtualmente pulsão
de morte 220 .
A segunda consequência diz respeito à necessidade de repensar o
sentido do novo dualismo proposto por Freud. Diversos autores 221 já apontaram como o problema do dualismo não é o problema central de Além do princípio do prazer e, por extensão, da segunda teoria pulsional freudiana. De fato, dada a assimetria e a precedência concedida à pulsão de morte e o modo como a compulsão à repetição é colocada como a característica definidora da exigência pulsional enquanto tal, esse dualismo só pode ser construído sobre a base comum dada por esse caráter conservador e, no limite, mortífero atribuído à pulsão como um todo. Fica claro, por isso, que a dualidade pulsional proposta em 1920 não pode ser da mesma natureza que a anterior, na qual se tratava de duas classes de pulsões (sexuais e de autoconservação) derivadas de um fundamento biológico distinto (as funções de conservação da espécie e do indivíduo, respectivamente). A oposição entre pulsões de vida e de morte, ao contrário, parece caracterizar dois aspectos antagônicos da exigência pulsional em geral, fundamentada numa tensão inerente à vida, que se estabelece entre uma tendência à complexidade e à organização e outra tendência à eliminação da tensão e a retornar ao inanimado. É possível, assim, especificar melhor a tese de que todo a pulsão seria pulsão de morte: toda pulsão particular seria, simultaneamente, pulsão de vida e de morte, conforme o aspecto sob o qual é considerada, embora algumas possam manifestar mais claramente um desses dois aspectos, como, por exemplo, a relação entre a agressividade e a pulsão de morte, por um lado, e entre sexualidade e pulsão de vida, por outro. Freud insiste, de fato, em diversas ocasiões, que essas pulsões nunca se manifestariam sob uma forma pura, mas sempre mescladas em alguma medida. A segunda teoria pulsional, portanto, configuraria uma dualidade inscrita na própria natureza da pulsão, e não, estritamente falando, uma diferença entre classes de pulsões biologicamente distintas.
Não parece ser possível, dada a solidariedade do conceito com o restante do corpo da teoria, consistentemente aceitar a metapsicologia freudiana e recusar a pulsão de morte: Sulloway, em sua análise da obra de Freud, insistiu muito enfática e rigorosamente no quanto “sua concepção da pulsão de morte foi um tour de force lógico que raramente foi compreendido na sua
perspectiva intelectual própria”.222 Mas qual seria o problema com esse conceito? Será que ele consistiria, de fato, apenas numa fantasia especulativa e num contrassenso científico, que “contradiz
todos os princípios biológicos”?223 Afinal, as ideias da existência de
uma base instintiva para a agressividade224 e de que a morte do organismo está, de certa maneira, programada geneticamente – sendo que essa programação evoluiu por seleção natural como
qualquer outra característica orgânica225 – estão longe de serem heterodoxas no campo da investigação biológica contemporânea,
inclusive nos meios darwinistas ou neodarwinistas.226 Essas são questões que não poderiam ser desenvolvidas aqui, mas que são mencionadas apenas a título de sugestão de que, talvez, a plena apreciação do alcance desse tipo de formulação freudiana – do conceito de pulsão de morte em particular – exija ainda um trabalho de integração e fundamentação biológica da psicanálise, cuja necessidade, principalmente no que diz respeito à teoria das pulsões, o próprio Freud não se cansou de afirmar.
Referências bibliográficas
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199 Monzani (1989, p. 147).
200 Laplanche ([1970] 1985, p. 112).
201 Sulloway ([1979] 1992, p. 395).
202 Yorke ([1986] 1988, por exemplo).
203 Freud ([1920] 1975, p. 36).
204 Strachey ([1957] 1975).
205 Freud ([1920] 1975, p. 38).
206 Id. ([1900] 1975, p. 565).
207 Id. ([1915] 1975, p. 120).
208 Monzani (1989).
209 Freud ([1920] 1975, p. 40-41).
210 Id. ibid., p. 50.
211 Id. ([1915] 1975, p. 122).
212 Id. ([1920] 1975, p. 58).
213 Id. ibid., p. 52.
214 Id. ibid., p. 55-56.
215 Id. ([1924] 1975, p. 160).
216 Id. ([1938/1940] 1975, p. 148).
217 Id. ibid., p. 148-149.
218 Id. ibid., p. 149-150.
219 Caropreso & Simanke (2006). Ver também o capítulo 5 deste livro.
220 Lacan (1966, p. 848, grifos nossos).
221 Figueiredo (1999) e Lifton (1976 apud SULLOWAY, [1979] 1992) por exemplo.
222 Sulloway ([1979] 1992, p. 408-409).
223 Brun (1953 apud SULLOWAY, [1979] 1992).
224 Lorenz ([1963] 1969).
225 Medawar (1957); Dawkins ([1976] 1979).
226 Em um trabalho ainda em preparo e complementar a este, versando sobre a possibilidade da fundamentação biológica da teoria freudiana das pulsões, procuraremos mostrar, entre outras coisas, que a hipótese da pulsão de vida – com todas as suas dificuldades teóricas – resulta, entre outras coisas, de uma persistência da referência lamarckista na reflexão metapsicológica freudiana, enquanto a pulsão de morte apresenta uma afinidade muito maior com a perspectiva darwinista e pode ser mais facilmente reconstruída nesses termos. Nesse sentido, a pulsão de morte seria mais “moderna” que a pulsão de vida, estando mais próxima do que é admitido pela biologia contemporânea, ao contrário do que parecem crer muitos de seus críticos, inclusive dentro do campo psicanalítico.
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Fátima Caropreso
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