Entre o corpo e a consciência: a metapsicologia freudiana
Capítulo III - A teoria freudiana da consciência no Projeto de uma psicologia e suas implicações metapsicológicas
Capítulo III - A teoria freudiana da
consciência no Projeto de uma
psicologia e suas implicações
metapsicológicas
Introdução
Como se sabe, no Projeto de uma psicologia, redigido por Freud em 1895, vários conceitos freudianos aparecem pela primeira vez e recebem ali um primeiro esboço de definição; contudo, além disso, algumas das questões desenvolvidas nesse manuscrito não voltam depois a receber na obra de Freud um tratamento tão sistemático. Esse é o caso, entre outros, do conceito de consciência, que é alvo de uma ampla reflexão no Projeto – na verdade, a mais extensa e minuciosa de toda a obra freudiana. Daí que o retorno às concepções apresentadas em 1895 seja essencial para qualquer esforço de circunscrever o alcance do que a obra de Freud possa conter em termos de uma teoria da consciência e para um mínimo delineamento de seu perfil. O objetivo deste trabalho é, então, recuperar o sentido da noção de consciência formulada por Freud na sua obra inicial e discutir algumas das suas implicações para a avaliação de sua abordagem posterior no interior do projeto metapsicológico, tal como se encontra formulado em Freud. Tendo isso em vista, as considerações que se seguem constam de: 1) uma exposição geral, ainda que esquemática, das principais noções que compõem a teoria psicológica apresentada por Freud no Projeto, que formam o pano de fundo contra o qual o conceito de consciência pode ser abordado; 2) uma exposição e discussão da concepção de consciência aí desenvolvida; 3) alguns comentários – mais exploratórios do que conclusivos – sobre certos desdobramentos dessa concepção no âmbito da reflexão metapsicológica posterior.
O aparelho neuronal
É necessário, então, partir de uma breve exposição geral das teses do Projeto, tendo em vista apenas os objetivos do presente trabalho. A proposta inicial do Projeto é fornecer uma psicologia que siga os parâmetros das ciências naturais, segundo a qual os processos psíquicos normais e patológicos seriam explicados a partir de dois postulados principais: a “quantidade” (Q) e o “neurônio” (N). Freud desenvolve a ideia de um “aparelho neuronal”, cujo funcionamento e estrutura seriam determinados, inicialmente, pelo “princípio de inércia”, isto é, por uma tendência a descarregar toda a quantidade que o alcançasse. O objetivo declarado é explicar todos os processos psíquicos mecanicamente, mas, em algumas ocasiões, na impossibilidade de cumprir essa meta, Freud recorre a justificativas biológicas. O trabalho se estrutura, então, em torno dessas duas perspectivas, que podemos designar como o ponto de vista mecânico e o ponto de vista biológico. Freud estabelece uma espécie de diretriz metodológica que concede primazia ao ponto de vista mecânico; em outras palavras, que requer que se procure, tanto quanto possível, fornecer explicações mecânicas para os fenômenos sob análise e, apenas na medida em que isso se revelar inviável, recorrer a considerações biológicas.
O primeiro pilar da teoria – a noção de quantidade – é definido como algo que diferencia a atividade do repouso e que está submetido às leis gerais do movimento. A natureza dessa quantidade, contudo, não é especificada. Há afirmações, no Projeto e em outros textos da
mesma época 104 que permitem supor que Freud atribuísse uma natureza elétrica à quantidade; esta é a interpretação de Pribram &
Gill 105 106 que, neste ponto, discordam frontalmente de Strachey. Mas, em outras passagens, Freud parece trabalhar com uma concepção mais hidráulica da quantidade, valendo-se de uma linguagem que está mais próxima, pelo menos metaforicamente, da mecânica dos fluidos, de modo que a questão permanece indecidida. O segundo postulado principal – o neurônio – é concebido como a unidade material do sistema nervoso. Os neurônios seriam, por hipótese, estruturalmente idênticos, anatomicamente independentes uns dos outros e entrariam em contato entre si por mediação de tecido não neuronal. Eles receberiam quantidade através dos prolongamentos celulares (dendritos) e a emitiram através dos cilindros de eixo (axônios). Deste modo, sua estrutura estaria de acordo com a tendência fundamental do aparelho, pois favoreceria a descarga da quantidade, funcionando como um sistema reflexo em miniatura.
A tendência primordial do aparelho seria anular todo o aumento quantitativo, isto é, manter o nível de quantidade no interior do aparelho idêntico a zero. Esta pode ser entendida como uma tendência a evitar o desprazer, pois Freud identifica o aumento da excitação com o desprazer e a sua diminuição com o prazer. O surgimento da quantidade endógena – decorrente das urgentes necessidades vitais (Not des Lebens) – imporia, contudo, uma modificação a essa tendência primária. Se o sistema recebesse apenas quantidade de origem exógena, seria possível, pelo menos em princípio e por meio de movimentos reflexos, descarregá-la totalmente e, além disso, manter o aparelho afastado de todo aumento quantitativo, mediante uma “fuga de estímulo”. Mas um sistema orgânico, além de quantidade exógena, receberia também quantidade endógena (somática), e esta não poderia ser unicamente suprimida por meio do mecanismo reflexo: embora os movimentos reflexos funcionem como um meio de descarga para a quantidade endógena, eles não são capazes de colocar o organismo fora do alcance da fonte de estimulação, como podem fazê-lo em relação à quantidade exógena – ou seja, eles não permitem, nesse caso, a fuga de estímulo. A anulação de uma fonte interna de estimulação dependeria de uma atuação mais complexa sobre o mundo, como, por exemplo, a obtenção de alimento, no caso da fome. Seria necessário o que Freud chama de uma “ação específica” para que a estimulação endógena pudesse cessar. Devido à sua complexidade, a execução dessa ação teria como primeira condição um acúmulo de quantidade no aparelho, o que imporia uma modificação na sua tendência fundamental: ao invés de manter o nível de quantidade igual a zero, a tendência dominante passaria a ser mantê-lo constante no nível mínimo necessário. Freud atribui ao aparelho uma “função primária”, que é a de eliminar toda a quantidade recebida, e uma “função secundária”, que é a de fazer cessar a recepção de estímulos. Com relação à quantidade exógena, ambas podem ser cumpridas de forma reflexa (descarga motora e fuga de estímulo). Com relação à quantidade endógena, apenas a função primária pode ser assim realizada (toda ação elimina quantidade). A impossibilidade de cumprir de forma reflexa a função secundária, quando se trata das quantidades endógenas, vai motivar todas as modificações que Freud introduz no esquema inicial governado pela inércia neuronal. De certa forma, pode-se considerar boa parte do desenvolvimento posterior do funcionamento neuropsíquico descrito no Projeto como efeito ou resultado da necessidade de lidar adequadamente com a excitação somática. Como Freud afirma que esta só pode ser resolvida através de uma “ação específica” – que requer a orientação do organismo no meio externo, uma ação sobre o mesmo teleologicamente orientada, etc. (basta pensar no processo de busca e obtenção de alimento, por exemplo) – pode-se considerar esses desenvolvimentos subsequentes como o progressivo estabelecimento das condições sob as quais a ação específica pode ser satisfatoriamente realizada, das quais a passagem da inércia à constância constitui apenas o primeiro momento. Em suma, o princípio de inércia daria lugar a uma “tendência à constância”, mas esta última não se oporia ao primeiro; ao contrário, atuaria, no final das contas, a seu favor, permitindo que a quantidade endógena fosse, de fato, descarregada adequadamente ou com o máximo de eficiência.
O aparelho neuronal seria composto de três sistemas distintos de neurônios: o sistema φ, cuja função seria receber a quantidade oriunda da periferia do sistema nervoso e transmiti-la, enfraquecida e fracionada, ao sistema vizinho ψ; o sistema ψ, que seria um sistema de memória em que se formariam as representações; e o sistema ω, que consistiria na base material da consciência. Tais sistemas não se diferenciariam uns dos outros devido à estrutura dos neurônios que os compõem – uma vez que Freud trabalha com a hipótese de que todos os neurônios são estruturalmente idênticos –, mas sim devido ao modo distinto de ação da quantidade e os níveis de intensidade da mesma em cada um deles. Entre os neurônios, haveria “barreiras de contato”, as quais ofereceriam certa resistência à passagem da excitação de um neurônio para outro, fazendo com que apenas as quantidades cuja intensidade fosse superior à da resistência dessas barreiras conseguissem passagem. Quando isto ocorresse, a barreira de contato seria “facilitada”, fazendo com que, numa segunda ocupação dos neurônios correspondentes, a resistência encontrada fosse menor. A facilitação diferenciada das barreiras de contato faria com que se constituíssem caminhos preferenciais no interior do aparelho, os quais possibilitariam a memória; em outras palavras, a possibilidade da memória é representada pela capacidade do sistema de fazer percorrer novamente um caminho anteriormente percorrido.
Uma vez que Freud opera, no Projeto, com uma concepção da representação como um processo cortical dinâmico, a possibilidade da memória – isto é, da conservação e do ressurgimento da representação – se define como a possibilidade de repetição de um processo, isto é, de que certo caminho ou circuito neuronal seja preferencialmente percorrido em detrimento de outros. É essa possibilidade que Freud procura justificar com os conceitos de “barreira de contato” e de “facilitação”. Mas apenas no sistema ψ as barreiras de contato seriam capazes de oferecer resistência à passagem da excitação; no sistema φ, as quantidades recebidas possuiriam intensidade superior à da resistência das barreiras de contato e, por isso, nesse sistema, tais barreiras encontrar-se-iam total e homogeneamente facilitadas, não exercendo, assim, nenhuma função; o sistema φ seria, por isso, completamente permeável à quantidade. Já em ψ – que receberia quantidade exógena via φ –, as ocupações seriam menos intensas, devido ao fato de que a estrutura ramificada de φ faria com que a corrente excitatória se distribuísse por diversos caminhos, passando a ψ em vários pontos (sem contar a possibilidade de que uma parte da quantidade recebida em φ seja descarregada pela via motora, diminuindo assim ainda mais o montante que é transferido a ψ). Portanto, em vez de ser ocupado muito intensamente em um ponto, o sistema de memória seria ocupado em vários pontos, com uma
intensidade proporcionalmente menor.107
A quantidade que alcançasse ψ possuiria intensidade inferior à da resistência das barreiras de contato e, por isso, para conseguir passagem, uma mesma barreira teria que ser ocupada a partir de dois ou mais neurônios simultaneamente, o que faria com que se constituíssem ali caminhos diferenciados, além de garantir que essa diferenciação seja determinada, pelo menos em parte, pela experiência (de percepções simultâneas ou da simultaneidade entre uma percepção externa e uma sensação corporal, por exemplo). Um grupo de neurônios ocupados cujas barreiras de contato estivessem facilitadas entre si constituiria uma representação. Na ausência da ocupação, a representação continuaria existindo potencialmente, dado que as facilitações assegurariam a possibilidade de recorrência do mesmo processo, isto é, assegurariam a possibilidade do ressurgimento da representação.
O sistema ψ, no entanto, seria ocupado também a partir do interior do organismo, pois estaria diretamente ligado a este e, por esse motivo, Freud é levado a dividir o sistema ψ em dois: “ψ do manto”, que receberia quantidade exógena via φ, e “ψ do núcleo”, que receberia quantidade endógena diretamente do interior do organismo. O modo de ação da quantidade endógena seria diferente do modo de ação da quantidade exógena: as quantidades endógenas seriam muito pouco intensas e, para conseguir facilitar as barreiras de contato que separam ψ do manto do interior do organismo, elas teriam que se somar progressivamente. Quando conseguissem ingressar em ψ do núcleo, elas alcançariam uma expressão psíquica, ou seja, dariam origem a representações. No que diz respeito às minúcias da interpretação do texto do Projeto, pode haver certa controvérsia quanto ao lugar onde se dá a expressão psíquica dos estímulos somáticos. É claro que a plena expressão psíquica das quantidades endógenas só se dá quando os processos do núcleo se associam com as representações de objeto e, depois, com as representações de palavra que se constituem em ψ do manto. Contudo, a primeira e mais originária expressão psíquica do somático se dá já com a ocupação do núcleo, uma vez que ψ é o sistema de representação do aparelho neuronal e ψ do núcleo é, evidentemente, uma parte deste sistema. De certo modo, os processos do núcleo podem ser aproximados do que Freud depois denominou representante de pulsão (Triebrepräsentanz) – ou, mais precisamente, ao componente representacional do representante de pulsão (o outro componente é o afeto) – tal como estas noções são desenvolvidas nos artigos metapsicológicos de 1915.
O conjunto de ocupações de ψ do núcleo constituiria a base do “eu”. Este seria o portador do armazenamento de quantidade necessário para a satisfação das necessidades vitais, quantidade esta que seria por ele utilizada para direcionar os processos associativos, de modo que estes pudessem fornecer as condições necessárias para a ação específica adequada e impedissem a produção de desprazer. O eu atuaria através de “ocupações laterais”, isto é, ocupando os neurônios adjacentes aos ocupados a partir de φ e deslocando, assim, o curso da corrente excitatória: Freud estabelece, no Projeto, o princípio de que a simultaneidade equivale à facilitação, ou seja, uma barreira de contato entre dois neurônios simultaneamente ocupados seria mais prontamente facilitada, porque a quantidade age sobre ela desde duas direções ao mesmo tempo. O eu teria acesso a todas as facilitações de ψ do manto e, por isso, seria formado por uma parte constante – as ocupações do núcleo – e uma parte variável – as ocupações ocasionais ou variáveis do manto, que teriam por finalidade (ou resultado) alterar ali o curso associativo. Segundo Freud, a quantidade do eu estaria em “estado ligado”, ou seja, na passagem da excitação de um neurônio para outro, parte dela seria retida no primeiro, de modo que os neurônios permaneceriam sempre ocupados em alguma medida. A excitação em estado ligado, no entanto, só passaria a existir após a inibição do modo de associação primário, o qual se caracterizaria pelo livre fluxo da quantidade pelos neurônios, sem a retenção de nenhuma parte da excitação. Essa inibição seria inicialmente condicionada pelo que Freud considera ser uma regra biológica, que ele denomina “defesa primária”. Segundo essa regra, a ocupação de representações ou de séries de representações que gerem desprazer tende a ser evitada, sendo que essa tendência seria inata e teria sido estabelecida filogeneticamente. Esse condicionamento ocorreria devido ao desprazer produzido nos processos psíquicos primários que decorrem do que Freud chama de “vivência de satisfação”, vivência esta que seria estruturante do modo de funcionamento normal do aparelho.
Vejamos como a vivência de satisfação e suas consequências são descritas por Freud. Na primeira vez em que o recém-nascido sentisse fome – isto é, na primeira ocupação de ψ do núcleo –, tal fato levaria a respostas reflexas, como o grito, o choro e a agitação motora, as quais consistem na única forma de eliminação da quantidade que o bebê possui. Essas reações, embora não sejam capazes de eliminar o desprazer, uma vez que a fonte interna de estimulação não seria cancelada, funcionariam como um meio de comunicação entre a criança e o adulto, pois faria com que este atentasse para o estado de carência do recém-nascido. Quando o adulto executasse a ação específica que a criança é incapaz de realizar por si só – por exemplo, quando a mãe oferecesse o seio à criança – os movimentos necessários para a alimentação poderiam ser executados por meio de ações reflexas (a sucção, por exemplo) e, assim, a recepção de estímulos internos cessaria, fazendo com que o desprazer desaparecesse.
É essa experiência que é chamada por Freud de “vivência de satisfação”. Como consequência dessa vivência, três coisas ocorreriam em ψ: em primeiro lugar, o desprazer decorrente da ocupação do núcleo de ψ cessaria; em segundo lugar, constituir-se-ia uma representação do objeto externo, cuja percepção fora simultânea à experiência de satisfação; e, em terceiro, formar-se-ia uma representação do movimento reflexo executado (para Freud, todos os movimentos dariam origem a excitações sensoriais que constituiriam imagens ou representações de movimento em ψ; a posterior ocupação seletiva dessas representações por parte do eu tornaria possível a execução dos movimentos voluntários, embora para isso se exija ainda a colaboração da consciência ou, em outros termos, dos processos ω). Entre essas duas representações de ψ do manto (a de objeto e a de movimento) e os neurônios nucleares se estabeleceria uma facilitação, devido ao fato das primeiras se terem constituído simultaneamente à ocupação de ψ do núcleo. Uma vez estabelecidas essas facilitações, quando o estado de excitação no núcleo reaparecesse, o processo excitatório seguiria o caminho por elas definido e ocuparia a representação de ψ do manto.
Esta tendência para ocupar as representações de objeto em ψ do manto é o que Freud chama de “desejo”: o desejo seria, assim, uma tendência para ocupar a representação de um objeto, e a ocupação dessa representação consistiria em uma “realização de desejo”. Na segunda ocorrência do processo (a fome, no exemplo dado), não haveria apenas uma necessidade, mas também um desejo, uma vez que o estado de carência já se teria associado à representação de um objeto, e a operação psíquica resultante, então, visaria especificamente a sua ocupação. Nesse caso, não havendo nenhuma inibição, a ocupação da representação de objeto devido à animação de desejo seria muito intensa, de modo que seriam
despertados os chamados “signos de qualidade”,108 como se se tratasse de uma percepção externa, ou seja, ocorreria uma alucinação. Em consequência dessa alucinação, a ação reflexa – no caso, a sucção – seria executada e, nessas condições, provocaria uma frustração: o recém-nascido se encontraria, assim, num estado de “desamparo”.
Dessa forma, para a sobrevivência do indivíduo, seria necessário haver uma alteração nessa tendência primária do processo associativo de seguir unicamente o caminho mais bem facilitado, de forma que a representação de desejo não fosse mais tão intensamente ocupada e, assim, permitisse ao eu diferenciar entre uma rememoração e uma percepção e, com isso, evitasse a ocupação das representações de movimento na ausência do objeto na realidade. Em suma, para a sobrevivência do indivíduo seria necessária a substituição do modo primário de funcionamento do aparelho – do “processo primário”, que se caracterizaria pelo fluxo livre da quantidade através dos neurônios – por um modo mais evoluído de funcionamento – pelo “processo secundário”, que se caracterizaria pela retenção de uma parte da quantidade nos neurônios. Freud explica a inibição do processo primário a partir do que ele chama de “primeira regra biológica” – “defesa primária” –, que consistiria numa tendência a não ocupar as representações que geram desprazer, como vimos acima. Como, no ressurgimento da fome após a vivência primária de satisfação, a ocupação muito intensa da representação desejada e das imagens motoras a ela associadas provocaria uma intensificação do desprazer, a defesa primária faria com que o eu, primeiro, não mais ocupasse as representações de movimento constituídas na vivência de satisfação e, depois, faria com que ele não mais ocupasse a representação do objeto de desejo tão intensamente. Assim, os signos de qualidade não seriam mais fornecidos na ausência do objeto na realidade e, então, quando surgissem, eles atuariam como um sinal de que o objeto desejado está presente e de que os movimentos necessários para a obtenção da satisfação podem ser executados com uma boa chance de sucesso. O desamparo, com isso, poderia ser superado. Desse modo, o condicionamento do eu pela primeira regra biológica conduziria à inibição do processo primário, marcando, assim, a passagem para o secundário, a qual coincidiria com a substituição da tendência à inércia pela tendência à constância. Essa inibição faria com que certa quantidade fosse retida no núcleo, passando de energia livre à ligada e assegurando, dessa forma, a manutenção da reserva necessária para que o eu pudesse influenciar os processos associativos, de modo a evitar a produção de desprazer e a propiciar a satisfação das necessidades vitais.
Haveria, como foi dito, um terceiro sistema de neurônios – o “sistema ω” – que estaria relacionado com a consciência. Mas, antes de analisarmos as características desse sistema, é necessário ainda esclarecer como a relação da consciência com os demais processos psíquicos é pensada no Projeto.
A relação entre mente e consciência no Projeto No Projeto, Freud estende a noção de psíquico em relação à de consciência. No texto Sobre a concepção das afasias (1891), ele havia mantido a identificação entre o psíquico e o consciente e, nos textos sobre as neuroses do período entre 1891 e 1895, embora reconheça ser necessário atribuir os sintomas neuróticos a processos inconscientes, ele não chega a afirmar cabalmente que esses processos sejam de natureza psíquica. No Projeto, pela primeira vez, a possibilidade de um psíquico inconsciente é claramente admitida:
Temos tratado os processos psíquicos como algo que poderia
carecer deste conhecimento através da consciência, que existe
independente de tal consciência (…). Se não nos deixarmos
desconcertar por isso, segue-se dessa pressuposição que a
consciência não proporciona conhecimento nem completo, nem
confiável dos processos neuronais; estes últimos têm que ser
considerados, antes de tudo e em toda sua extensão, como
inconscientes e têm que ser inferidos como as outras coisas
naturais.109
A consciência é concebida como algo paralelo a apenas uma parte dos processos psíquicos inconscientes. Os processos que ocorressem no sistema ω teriam concomitantes conscientes, ao contrário dos demais. Ao comentar a relação da sua concepção da consciência com relação a outras teorias, Freud afirma:
Segundo uma teoria mecanicista avançada, a consciência é um
mero acessório dos processos fisiológico-psíquicos, cuja
supressão não alteraria nada no decurso psíquico. Segundo
outra doutrina, a consciência é o lado subjetivo de todo
acontecimento psíquico, portanto inseparável do processo
anímico fisiológico. Entre ambas situa-se a doutrina aqui
desenvolvida. Consciência é, aqui, o lado subjetivo de uma
parte dos processos físicos no sistema nervoso – isto é, dos
processos ω – e a supressão da consciência não deixa
inalterada o acontecimento psíquico, mas inclui em si a
supressão da contribuição de ω.110
Freud considera que os processos psíquicos inconscientes sejam processos nervosos e que, por isso, eles podem e devem ser abordados de uma perspectiva científico-naturalista. Por isso, como consiste em processos físicos envolvendo partículas materiais (neurônios) e quantidades, o psíquico inconsciente estaria dentro do campo da ciência natural. Já o psíquico consciente, ao que tudo indica, estaria excluído desse campo:
Até aqui, não se levou em conta para nada que toda teoria
psicológica, além das (auβer den) operações do lado científico-
naturalista, tem ainda que satisfazer uma grande exigência. Ela
deve explicar-nos aquilo que conhecemos, da forma mais
enigmática, através de nossa “consciência” (…).111
A afirmação de que os fenômenos conscientes caem fora do campo das “operações do lado científico-naturalista” sugere que está sendo atribuída a esses fenômenos uma natureza distinta dos demais processos psíquicos. Isso teria como consequência a proposição de uma cisão dentro do campo da psicologia entre uma psicologia do inconsciente – que seria uma ciência natural – e uma teoria da consciência – que requereria outra espécie de abordagem, a qual, contudo, não é especificada. Esta ideia é retomada mais claramente ainda por Freud no Esboço de psicanálise de 1938. Nesse texto, ele retoma a ideia de concomitância entre o psíquico consciente e o inconsciente:
(…) esses processos conscientes não formam séries sem
lacunas, fechadas em si mesmas, de modo que não haveria
alternativa a não ser adotar a suposição de certos processos
físicos ou somáticos concomitantes do psíquico, aos quais
parece necessário atribuir uma perfeição maior do que às séries
psíquicas, pois alguns deles têm processos conscientes
paralelos e outros não. Isso sugere pôr a ênfase, em psicologia,
sobre esses processos somáticos, reconhecer neles o psíquico
genuíno e buscar uma apreciação diversa para os processos
conscientes 112 .
Freud acrescenta que essa tomada de posição permite tratar pelo menos parte da psicologia como uma ciência natural:
Enquanto a psicologia da consciência nunca saiu daquelas
séries lacunares, que evidentemente dependem de outra coisa,
a concepção segundo a qual o psíquico é, em si, inconsciente
permite configurar a psicologia como uma ciência natural entre
as outras.113
Apesar de considerar a consciência como algo paralelo a uma parte dos processos neuronais, Freud tenta, no Projeto, estabelecer as condições materiais da consciência, ou seja, as características dos processos físicos concomitantes a ela, que tornariam inteligível sua possibilidade. O problema de Freud, aqui, parece ser o mesmo de toda tentativa de tratar a consciência dentro de uma perspectiva materialista: se a consciência é algo distinto dos processos materiais do cérebro – da parte deles que pode ser descrita como psíquica, sobretudo –, ela não é um modo de ser, mas apenas um modo de aparecer das coisas naturais, ela não existe propriamente como um objeto do mundo. O problema todo está em inserir ou conciliar a abordagem desse modo de aparecer da “coisa” psíquica inconsciente com o encaminhamento naturalista que Freud pretende para sua teoria psicológica. Em outras palavras, o estudo da consciência não parece poder ser inteiramente conduzido por uma ciência natural da mente; contudo, de alguma maneira, deve ser compatível com esta. Para tentar dar conta de todas essas questões, Freud reconhece a necessidade de introduzir a hipótese de um terceiro sistema de neurônios – o sistema ω – do qual nos ocuparemos a partir de agora.
O sistema dos neurônios ω
Freud argumenta que é necessário propor um terceiro sistema de neurônios para dar conta da produção das sensações ou das qualidades conscientes, porque, em primeiro lugar, estas não poderiam se originar em ψ, uma vez que este sistema é responsável
pela rememoração, a qual é desprovida de qualidade.114 Elas também não poderiam se originar em φ, porque se sabe que a consciência está relacionada com os níveis mais elevados do sistema nervoso, enquanto φ representa um funcionamento mais primitivo – as respostas reflexas, por exemplo. Elas tampouco poderiam provir diretamente do mundo externo, pois neste haveria apenas massas em movimento. Então, conclui Freud, é preciso postular um terceiro grupo de neurônios – os quais constituiriam o sistema ω – cujos estados de excitação seriam responsáveis pela consciência. Este último sistema estaria conectado diretamente apenas a ψ; portanto, a ordem dos sistemas, a sequência em que normalmente transcorrem os processos, seria: φ > ψ > ω.
As quantidades em ψ seriam, por definição, pouco intensas, de modo que apenas a ocupação simultânea de mais de um neurônio fosse capaz de facilitar as barreiras de contato, ou seja, de modo que esse sistema permanecesse parcialmente impermeável. Uma vez que ω poderia ser ocupado apenas a partir de ψ, a permeabilidade que caracteriza a consciência – isto é, o fato de que o sistema por ela responsável deve, como a percepção, apresentar sempre as mesmas capacidades receptivas, o que tem como condição a ausência de traços permanentes –, essa permeabilidade, enfim, deveria resultar de algo diverso da intensidade da quantidade, pois esta seria ainda menos intensa do que aquela que alcança ψ e, deste modo, seria incapaz de facilitar completamente as barreiras de contato. Esse raciocínio leva Freud a introduzir um novo elemento na teoria:
Vejo apenas uma saída: revisar a suposição fundamental sobre
o decurso de Q’η. Até agora considerei este último apenas
como transferência de Q’η de um neurônio para outro. Mas ele
deve ter ainda um caráter de natureza temporal, pois também
aos outros movimentos de massa do mundo externo a
mecânica dos físicos atribuiu esta característica temporal.
Resumidamente, eu a denomino o período. Assim, suporei que
toda resistência das barreiras de contato vale apenas para a
transferência de Q, mas que o período do movimento neuronal
se propaga sem inibição em todas as direções, como um
processo de indução por assim dizer.115
Assim, os neurônios ω seriam permeáveis ao período, não à quantidade, e a isto se deveria o fato de que o sistema responsável pela consciência opera sem modificar-se de forma permanente, como se requer de um aparato de percepção. Mas apenas o surgimento das qualidades sensoriais dependeria do período; as sensações de prazer e desprazer – que junto com as qualidades sensoriais formariam inicialmente a classe das sensações conscientes – resultariam diretamente da ocupação de ω por quantidade. Segundo Freud, prazer e desprazer seriam consequências, respectivamente, da diminuição e do aumento do nível de quantidade em ω (o qual, por sua vez, reflete o que acontece no restante do aparelho). Haveria um limiar acima do qual a ocupação de ω produziria desprazer e um limiar abaixo do qual ela produziria prazer. Entre esses dois limiares, ω permaneceria sensível ao período e a qualidade sensorial poderia ser percebida:
(…) os neurônios ω, com certa [potência de] ocupação,
apresentam um nível ótimo para receber o período do
movimento neuronal; com uma ocupação mais forte dão como
resultado desprazer; com uma mais fraca, prazer, até que a
capacidade de recepção desaparece com a falta de
ocupação.116
O surgimento das qualidades sensoriais estaria, portanto, estritamente relacionado ao período. Essa hipótese adotada por Freud, no entanto, apresenta alguns problemas que requerem solução – ou, pelo menos, precisam ser reconhecidos e explicitados. Se a afecção dos neurônios pelo período consiste na base material da produção de qualidades sensoriais, por que apenas em ω esta surgiria? Se o período é uma propriedade da quantidade e se esta antes de chegar a ω deve passar necessariamente por φ e por ψ, por que as sensações conscientes não se originam a partir da ocupação desses sistemas? Freud procura responder a essa questão dizendo que o período em ψ é monótono, por isso não haveria ali percepção de qualidades sensoriais, uma vez que estas não dependeriam apenas do período, mas das diferenças ou da variação do mesmo. Ele afirma que essas diferenças no período resultariam do fato dos órgãos sensoriais agirem como filtros, dando passagem apenas para estímulos com períodos específicos e que essa diferença seria transmitida dos órgãos sensoriais para φ, deste para ψ e daí para ω. Sendo assim, um processo que tivesse origem apenas em ψ (a rememoração ou o pensamento, por exemplo) não faria surgir a qualidade sensorial, uma vez que a ausência de diferenças no período da excitação própria deste sistema privaria a qualidade de sua base física. Freud argumenta que a recepção das quantidades endógenas que primariamente ocupam ψ não se dá através de órgãos sensoriais terminais, como acontece com a quantidade exógena. Como são esses órgãos que atuam como filtros para os períodos capazes de ser percebidos em ω, essa é mais uma razão para que processos originados exclusivamente em ψ sejam desprovidos de qualidade. Ao contrário, um processo oriundo da recepção de estímulos externos, que se propagasse de φ para ψ e daí para ω, traria consigo as variações do período que seriam decodificadas em ω como qualidades sensoriais.
Freud diferencia a produção de qualidades sensoriais da percepção consciente dessas qualidades. Para que estas fossem percebidas pelo sujeito, não bastaria o seu surgimento, pois somente quando o eu ocupasse os “signos de qualidade” fornecidos por ω a ψ, uma representação poderia ser conscientemente percebida. Essa hipótese dos signos de qualidade, contudo, é uma das mais obscuras do Projeto. Freud introduz essa noção para explicar como seria possível a discriminação entre uma percepção e uma rememoração. Inicialmente, ele afirma que as representações constituídas em ψ a partir de φ despertariam signos de qualidade e que estes signos permitiriam a diferenciação entre uma representação ocupada por quantidade de origem interna – uma rememoração, por exemplo – e uma representação ocupada por quantidade exógena – uma percepção. Mas, logo após introduzir esta hipótese, ele conclui que os signos de qualidade, em vez de explicarem esta discriminação, explicam a confusão entre essas duas coisas. A confusão entre percepção e rememoração – isto é, a alucinação – resultaria do fato de que, não só no caso de ocupações oriundas de φ, mas também de ocupações muito intensas oriundas de ψ, ω forneceria signos de qualidade. Freud, então, reconhece que é necessário atribuir a distinção acima a outro fator, o que o leva a formular a hipótese de que é o condicionamento do eu pela regra biológica da defesa, como comentamos anteriormente, que permite a discriminação em questão.
Mas o que seriam, afinal, os signos de qualidade? Seriam notícias de eliminação da excitação de ω, segundo a definição proposta por Freud:
(…) uma percepção, segundo minhas pressuposições, sempre
excita ω e produz assim signos de qualidade. Dito de forma
mais precisa, ela excita consciência em ω (consciência de uma
qualidade), e a descarga da excitação ω, [como] toda descarga,
fornecerá uma notícia para ψ, que é justamente o signo de
qualidade.117
Em que consistiria essa eliminação de quantidade por ω? Na descarga de excitação por meio de movimentos:
Se se apresenta a consciência por meio dos neurônios ω, isto
tem várias consequências. Estes neurônios têm que ter uma
descarga, por pequena que ela possa ser, e tem que existir um
caminho para preencher os neurônios ω com Q’η no ínfimo
montante necessário. A descarga vai, como todas, para o lado
da motilidade, no que se deve assinalar que, na circulação
motora, perde-se evidentemente todo caráter qualitativo, toda
especificidade do período.118
Então, se os signos de qualidade são notícias em ψ da eliminação motora da excitação ω, eles só poderiam ser representações de movimento e tais representações não se diferenciariam em nada das demais representações de movimento que se constituem em ψ, pois, como Freud mesmo afirma, na via motora a qualidade desapareceria. Dessa forma, se a consciência de uma representação perceptiva depende da ocupação pelo eu dos signos de qualidade a ela correspondentes e se tais signos são representações de movimento, qual seria a função do sistema ω?
Freud reconhece o caráter problemático dessas ideias formuladas para explicar a base material da consciência e argumenta que isso não representa um impedimento para a continuação da teoria:
Apenas através dessas suposições complicadas e pouco
intuitivas foi-me possível, até agora, incluir os fenômenos da
consciência na estrutura da psicologia quantitativa. Não cabe,
evidentemente, tentar uma explicação sobre como processos
excitatórios nos neurônios ω trazem consigo consciência. Trata-
se apenas de fazer corresponder propriedades da consciência
conhecidas por nós com processos de alteração paralela nos
neurônios ω. Por outro lado, isso não está mal no detalhe.119
A atividade consciente, embora restrita em relação à amplitude total do psiquismo, exerceria um papel na vida psíquica que não poderia ser desprezado (com o que Freud parece se afastar do epifenomenismo): “a supressão da consciência não deixa inalterado o acontecimento psíquico, mas inclui em si a supressão da
contribuição de 120 ω”, diz Freud. Os signos de qualidade fornecidos pelo sistema ω é que tornariam possível tanto o acesso aos objetos necessários para a satisfação das necessidades vitais como a fuga dos objetos que geram desprazer, ou seja, esses signos seriam indispensáveis para a sobrevivência do indivíduo.
Até aqui comentamos apenas o modo como Freud concebe os processos neuronais relacionados à consciência perceptiva, mas haveria ainda uma segunda forma de consciência intermediada pela linguagem, cuja especificidade precisa ser ainda discutida, caso se queira obter um quadro abrangente da concepção freudiana da consciência, tal como se encontra desenvolvida no Projeto.
A relação entre consciência e linguagem Freud atribui, no Projeto, a possibilidade de rememoração de uma representação à sua associação com representações de palavras. Ele argumenta que, uma vez que a consciência depende do despertar de signos de qualidade e que estes últimos provêm de percepções, para que uma representação ocupada pelo eu – logo, a partir de ψ e não de φ – se tornasse consciente seria necessário que, de alguma forma, ela produzisse uma percepção. Ele conclui, então, que um dos componentes da “representação de palavra” – a imagem cinestésica dos movimentos da fala – é o que satisfaria essa condição: como os movimentos produzem percepções, a ocupação da imagem cinestésica da palavra falada levaria à produção de um signo de qualidade e, assim, a “representação de objeto” a ela associada poderia tornar-se consciente.
Freud está retomando aí os conceitos de “representação de palavra” e de “representação de objeto” que haviam sido propostos em Sobre a concepção das afasias, de 1891. A representação de palavra, de acordo com o que Freud propusera neste último texto, seria um complexo constituído por um intrincado processo de associações, no qual estariam presentes quatro elementos: a imagem acústica, a imagem cinestésica da fala – ou glossocinestésica –, a imagem visual e a imagem cinestésica da escrita – ou quirocinestésica. A representação de objeto seria também um complexo associativo constituído por diversos tipos de imagens sensoriais. Ao falar sobre esse tipo de representação, Freud recorre à ideia de Stuart Mill, segundo a qual a representação de um objeto seria um complexo de impressões sensoriais. A ideia de um objeto existente no mundo e independente de nós seria uma crença resultante da “capacidade de expectativa” da mente humana, ou seja, a capacidade de, após ter sensações reais, concebermos que as mesmas sensações possam voltar a ser experienciadas, por nós e por outros, diante de determinadas condições e que outras sensações distintas possam ser sempre acrescentadas às anteriores. Freud propõe que a ligação entre a representação de palavra e a de objeto se daria sempre entre a imagem acústica da primeira e, normalmente, a imagem visual da segunda e propõe também que, ao menos no caso dos substantivos, é a representação de objeto que confere significado à representação de palavra. Observe-se que a operação pela qual a representação de palavra adquire significação é simetricamente contrária àquela pela qual a representação de objeto adquire consciência, ou seja, a palavra adquire significação ao associar-se a um objeto e o objeto pode ser rememorado conscientemente ao associar-se à palavra. Isso abre uma via para que se considere, no pensamento de Freud, a relação entre significação e consciência, sendo talvez possível complementar por aí a problemática e difícil abordagem metapsicológica desta última.
No Projeto, ao se perguntar sobre as condições de possibilidade para que uma representação ocupada pelo eu se torne consciente, Freud recorre, então, a esses conceitos formulados em 1891. Ele formula a hipótese de que, quando a ocupação de uma representação de objeto seguisse para a imagem acústica da palavra e desta para sua imagem cinestésica, seria produzida uma percepção, a qual levaria ao despertar de um signo de qualidade, quando então a representação de objeto poderia se tornar consciente:
(…) se as imagens de recordação forem de um tipo tal que uma
corrente parcial possa ir delas para as imagens acústicas e
para as imagens motoras da palavra, então a ocupação das
imagens de recordação é acompanhada de notícias de
descarga, as quais são signos de qualidade e, com isso,
também signos de cons[ciência] da re[cordação].121
Dessa forma, com a constituição das representações de palavra, os processos que ocorressem em ψ como resultado da ação do eu poderiam alcançar a consciência, surgindo, assim, a possibilidade da rememoração e do pensamento consciente. Portanto, enquanto houvesse apenas representações de objeto em ψ, os processos que aí ocorressem seriam inconscientes, com exceção dos que resultam diretamente de percepções, das representações de eliminações motoras (imagens de movimento) e das alucinações. Em todos esses casos, a consciência seria imediata, ou seja, decorreria única e diretamente das propriedades das percepções ou de processos que operam no sistema como se fossem percepções. Com a linguagem, surgiria uma segunda forma de consciência: uma consciência mediata, isto é, intermediada pelos signos linguísticos. Sendo assim, antes da constituição das associações linguísticas, só seria possível haver pensamento consciente se este consistisse em uma ação. De fato, Freud afirma que o pensamento inicialmente consiste na ocupação de imagens de movimento e, embora ele não afirme explicitamente como o pensamento e a ação chegam a diferenciar-se a partir de certo momento, é possível inferir que o que tornaria isto possível seria a constituição das associações da linguagem, as quais permitiriam que as ações fossem conscientemente rememoradas e, assim, que não fosse mais preciso agir para pensar. Isso abriria caminho para a constituição de formas de pensamento mais complexas e abstratas.
Uma vez que Freud, no Projeto, reconheceu de maneira explícita a natureza originariamente inconsciente do psiquismo, vejamos, agora, as consequências dessas hipóteses formuladas sobre a consciência para a noção de representação inconsciente ou, em outras palavras, como passa a ser pensada, de agora em diante, a questão da relação entre a consciência e a representação.
A relação entre representação e consciência
Para que as representações de objeto pudessem ser rememoradas ou tornadas conscientes, seria então necessário que elas estivessem associadas a uma representação de palavra. Por conseguinte, antes da constituição das associações linguísticas, essas representações seriam inconscientes e, assim, a inconsciência teria que ser a condição originária dessas representações. Com a constituição dessas associações, parte das representações poderia tornar-se consciente, mas provavelmente algumas delas não seriam associadas a palavras, de modo que haveria um grupo de representações que permaneceriam “insuscetíveis de consciência” (bewusstseinsunfähig), conforme o termo utilizado por Breuer nos Estudos sobre a histeria. Outras representações poderiam também permanecer nesse estado, mesmo que chegassem alguma vez a serem associadas a representações de palavras, devido ao bloqueio ou à interrupção dessa associação (pela defesa ou repressão, por exemplo).
Portanto, haveria três tipos de representações inconscientes: 1) aquelas associadas a representações de palavra, mas cujos signos de qualidade não fossem despertados ou não fossem ocupados pelo eu; 2) aquelas que nunca foram associadas a representações de palavra; e 3) aquelas cuja associação com a palavra estivesse impedida ou tivesse sido interrompida. No primeiro caso, embora inconscientes, as representações seriam “suscetíveis de consciência” – mais ou menos o que Freud depois designará como pré-conscientes. No segundo e no terceiro casos, elas seriam “insuscetíveis de consciência”. O último seria o caso das representações reprimidas presentes no processo de produção das neuroses. A representação inconsciente que estaria na origem dos sintomas neuróticos seria uma representação de objeto cuja associação com a representação de palavra estivesse bloqueada, para impedir sua rememoração e a consequente produção de desprazer dela resultante. Como disse Freud em O inconsciente: “A representação não apreendida em palavras (…) fica então para trás,
no interior do inconsciente, como algo reprimido”.122 Dessa forma, já no Projeto, faz-se presente a hipótese de que o inconsciente não
coincide com o reprimido. 123 As representações reprimidas – isto é, essas que tivessem sua associação com a representação de palavra impedida – constituiriam apenas uma parte da totalidade das representações insuscetíveis de consciência, pois aquelas que não chegassem a ser associadas a representações de palavra também não poderiam tornar-se conscientes. Haveria, assim, um grupo de representações que permaneceria insuscetível de consciência, devido ao fato de nunca ter sido associado a representações de palavra, e outro grupo cujo acesso à palavra existiu um dia, mas foi inviabilizado a partir de certo momento.
Em suma, segundo a teoria do Projeto, o campo da consciência seria restrito em relação ao da memória, e apenas uma parte das representações – aquelas que despertassem signos de qualidade e que tivessem esses signos ocupados pelo eu – se tornaria consciente. A consciência seria, então, algo que poderia ou não se acrescentar a uma parte das representações. Antes da constituição das associações linguísticas, não haveria possibilidade de rememoração, a não ser de representações de movimento – ou no caso em que as representações fossem alucinadas, já que a alucinação é pensada por Freud como um caso extremo de
rememoração. 124 Portanto, até então, só haveria consciência imediata, ou seja, resultante diretamente das propriedades da percepção. A constituição das representações de palavra traria consigo a possibilidade de uma segunda forma de consciência – uma consciência mediata – isto é, intermediada pelos signos linguísticos – ou uma consciência “secundária”, como Freud a ela se refere na Carta 52. Como uma parte das representações de objeto, possivelmente, jamais chegaria a ser associada a representações de palavras, poderia haver representações que permanecessem sempre “insuscetíveis de consciência”. Haveria também a possibilidade de outro grupo de representações permanecer nesse estado, não por não ter sido associado a representações de palavras, mas por ter seu vínculo com a palavra bloqueado – este seria o caso das representações reprimidas. No Projeto, portanto, o campo das representações insuscetíveis de consciência não coincide, de forma alguma, com o reprimido.
Esse vínculo estabelecido por Freud entre a consciência e a palavra é retomado nos artigos metapsicológicos de 1915 praticamente no mesmo sentido em que foi proposto em 1895. Embora a tentativa de Freud de explicar as características dos processos materiais correlativos à consciência não tenha obtido pleno êxito, a partir do Projeto é possível compreender como a relação entre a consciência, a representação e a linguagem é teorizada por Freud e como, correlativamente, a noção de representação inconsciente ganha espaço e contornos mais definidos em sua teoria.
O problema da consciência na metapsicologia
freudiana posterior Quais as questões que se colocam sobre o sentido da concepção freudiana da consciência tal como se depreende da apresentação de suas formulações no Projeto? Uma discussão desse tipo não é relevante somente para a compreensão desse texto, mas também do papel que a consciência deve vir a desempenhar na reflexão metapsicológica posterior, não apenas porque algumas de suas bases estão certamente já lançadas em 1895, como também porque, talvez, Freud não tenha, em nenhum outro lugar, discutido com tanto detalhe e profundidade o problema da consciência (a não ser pelo provável artigo metapsicológico sobre a consciência, escrito por volta de 1915 e depois abandonado e perdido).
Uma primeira série de dificuldades parece provir da própria hipótese dos neurônios ω. Esse sistema apresenta uma espécie de exceção ou parêntese no encaminhamento naturalista pretendido por Freud no Projeto: não permite nem mesmo as correlações anatômicas muito gerais estabelecidas para φ e ψ (o sistema perifero-espinal e setores do córtex, respectivamente) e apresenta a capacidade excepcional de reagir e processar o período da excitação e não apenas a sua variação quantitativa. Quando consideramos a hipótese do período, fica patente a dificuldade de sustentar a necessidade da suposição do sistema ω. Primeiro, porque se a qualidade provém do período, ela poderia perfeitamente originar-se em ψ; mesmo que a ocupação própria desse sistema seja “monótona”, como pretende Freud, um processo perceptivo que aí se prolongue deveria, inevitavelmente, introduzir as variações que se traduzem em diferenças qualitativas. Por que a qualidade não se produz em ψ? Aparentemente, devido ao fato de que, aí, a intensidade da quantidade ainda é excessivamente grande para que o sistema seja sensível às diferenças de período, já que acima de certo nível a quantidade traduz-se em sensações de desprazer que como que cegam o sistema para a percepção de qualidades. Mas bastaria supor-se que, mesmo dentro de ψ, o processo excitatório experimenta, como o próprio Freud reconhece, um fracionamento progressivo que acabaria por produzir um nível de Q’η compatível com o surgimento da qualidade. Isso permitiria consolidar a concepção da consciência como paralela a uma parte dos processos psíquicos em si inconscientes que constituem o sistema ψ, e não aos excepcionais processos ω cuja natureza não fica bem esclarecida. Por exemplo, se a questão da permeabilidade exigida pela percepção é satisfatoriamente resolvida pela hipótese do período – ω é permeável ao período, não à quantidade –, fica, no entanto, o problema de como as barreiras de contato são aí facilitadas, de modo a permitir a ocupação mínima do sistema e a descarga motora correspondente, a qual Freud se vê obrigado a admitir, inclusive para poder sustentar a noção de “signos de qualidade”. Em suma, a tese de que o sistema dos neurônios ω constitua a sede dos processos conscientes no âmbito do aparelho neuronal parece obstaculizar a formulação de uma concepção estritamente funcional da consciência que Freud nitidamente persegue em determinados momentos. De fato, uma concepção desse tipo se firma – a partir de A interpretação dos sonhos, por exemplo – à medida que a hipótese do sistema ω se desvanece na teoria. Já na Carta 39, enviada para Fliess pouco depois da redação do Projeto (01.01.1896), o sistema ω aparece como um setor de ψ, justamente aquele setor onde a intensidade dos processos excitatórios torna-se menos intensa:
Os neurônios ω são aqueles neurônios ψ suscetíveis de uma
ocupação quantitativa muito escassa. A coincidência destas
quantidades mínimas com a qualidade fielmente transferida a
elas desde o órgão terminal é, de novo, a condição para a
gênese da consciência.125
Pribram & Gill consideram que, já no Projeto, ω seja considerado como uma parte de ψ: “nossa atenção se concentra primeira numa divisão de ψ que se torna o terceiro tipo de sistema neural descrito no Projeto. A razão imediata para o parcelamento de ψ é a necessidade de um substrato que possa cuidar da qualidade
(…)”. 126 Não nos parece, contudo, haver subsídios, no texto do Projeto, para sustentar essa divisão, a não ser que ψ e ω têm que compartilhar o espaço anatômico do córtex cerebral, que é o que os autores mencionados parecem ter em mente. Mas Freud argumenta claramente no Projeto que é necessário introduzir um terceiro tipo de neurônios, além de φ e ψ, para dar conta do problema da qualidade.
A ideia de um sistema próprio para os processos conscientes reaparecerá depois, de forma modificada, como o “sistema percepção-consciência” da tópica psíquica freudiana, mas, então, a ausência da referência neuronal, pelo menos de forma explícita, permitirá a Freud um considerável grau de omissão quanto à sua estrutura e sua organização, contribuindo para encobrir as dificuldades aqui apontadas. Observemos, ainda, que a ideia de um sistema neuronal específico, a cujos processos a experiência consciente apenas corresponde, faz obstáculo a que a hipótese do período adquira uma significação mais original e, inclusive, afinada com as investigações contemporâneas sobre as bases neurais da consciência. De fato, Smith aponta como, de maneira até certo ponto surpreendente, a noção de período antecipa a hipótese Crick-Koch. Esta enuncia que, por sua natureza, a experiência consciente (na percepção visual, que é o caso especificamente estudado pelos autores) tem que ser instanciada por um grande número de regiões cerebrais coordenadas e atuando, momentaneamente, como uma unidade, o que faz surgir a questão sobre qual fator realiza essa sincronização (o chamado “binding problem”, o problema da ligação). Como solução para esse problema, eles propõem a hipótese de que os diversos circuitos de neurônios envolvidos disparam, durante certo período de tempo, numa mesma faixa de
frequência, que oscilaria entre 35-75 Hz. 127 Essa hipótese aponta para uma concepção emergentista da consciência, que consistiria numa propriedade emergente que se acrescentaria aos processos mentais como resultado dessa sincronização. Mas essa leitura é flagrantemente incompatível com a ideia de que haja uma sede no cérebro para os processos conscientes, ou seja, o sistema dos
neurônios ω.128
Por outro lado, a distinção freudiana entre uma consciência imediata da percepção e uma consciência do pensamento mediada pela linguagem pode prestar-se a alguns mal-entendidos. Quando Freud afirma que, ao contrário do pensamento, a percepção traz consigo a qualidade, tendo, portanto, um acesso imediato à consciência, trata-se somente de ressaltar que, nesse caso, não é necessária a intervenção de nenhum fator externo à percepção para que ela possa fazer-se consciente, enquanto o pensamento, que inicialmente transita apenas entre representações de objeto e imagens de movimento, requer a intervenção da linguagem para tanto. Mas a percepção não é, ela própria, um processo imediato, no sentido de que aquilo que é apreendido pela consciência seja um efeito direto ou exclusivo das propriedades do objeto externo, de modo que seja uma espécie de cópia do mesmo que se reproduz na experiência perceptiva. De fato, toda a reflexão freudiana sobre essas questões, desde seu passo inaugural em Sobre a concepção das afasias, caminha na direção contrária dessa ideia, tendo pensado a constituição das representações como resultado de uma série de reorganizações dos processos neurais, que vai da recepção do estímulo sensorial num extremo ao surgimento de um fenômeno psíquico consciente no outro (a formulação do conceito de um inconsciente psíquico no Projeto apenas atribuiu uma natureza mental a algumas etapas intermediárias deste processo). Assim, nesse caso – outro caso seria a consciência das sensações de prazer e desprazer e, mais genericamente, a dos afetos e sentimentos – a consciência seria consciência de uma representação em si inconsciente e, quando se trata da percepção, a qualidade que torna essa consciência possível é inerente ao processo e, portanto, pode ser dita “imediata”, mas a formação da representação não é, ela mesma, imediata, no sentido de que não resulta diretamente da impressão externa.
Essa perspectiva é reforçada quando, após o Projeto, Freud empreende o desdobramento do sistema ψ numa série de subsistemas definidos por diferentes princípios de organização, o que irá culminar no modelo espacialmente orientado de A interpretação dos sonhos. A concepção jacksoniana de uma atividade neural estruturada numa série de sistemas e modos de organização hierarquicamente superpostos, que vai do mais arcaico, simples e rígido ao mais evoluído, complexo e flexível, é transposta por Freud para a própria organização interna da atividade cortical, ou seja, para aquilo que, do ponto de vista psicológico, pode ser descrito como representações. A partir daí, o processo psíquico deixa definitivamente de ser o concomitante do último elo da cadeia dos processos neurais e passa a ser concebido como, digamos, todo o último andar da estrutura desses processos, divisível, por sua vez, numa sequência de sistemas que descrevem as formas de organização do material representacional, sistemas constituídos ao longo do desenvolvimento do indivíduo, progressivamente mais
complexos, mais evoluídos (no sentido ontogenético),129 até que, no extremo dessa arquitetura neuropsicológica, tornem-se possíveis o pensamento e a percepção conscientes e o movimento voluntário. Dessa maneira, a consciência deixa de ser um sistema dotado de características próprias e exclusivas – o sistema ω do Projeto –, para se converter em uma propriedade que se acrescenta aos processos neuropsíquicos a partir de certa etapa e de certo grau de sua organização, de sua complexidade e de sua evolução (onto e filogenética). Essa tendência se acentuará quando, com a dissolução da noção de um sistema inconsciente na passagem para a segunda tópica, Freud passar a referir-se a “inconsciente” e “consciente” como qualidades psíquicas, ou seja, como propriedades dos processos, mas não mais, necessariamente, como classes de processos homogêneos relacionados a sistemas psíquicos específicos. Quanto à percepção, observe-se que, desde A interpretação dos sonhos, fica claro, pela própria estrutura do aparelho, que o estímulo recebido pela extremidade perceptiva do mesmo, deve atravessá-lo na sua integridade, ser submetido a toda a série de transcrições e reorganizações, antes que possa se tornar consciente na extremidade oposta. Talvez o indicador mais nítido de como Freud pensa a percepção consciente como sendo possibilitada apenas por esse processo complexo de organização do material sensorial bruto seja o modo como ele aplica o conceito
de 130 elaboração secundária , não apenas à alucinação onírica, mas à atividade perceptiva como um todo:
A culminação do processo do sonho dá-se quando o conteúdo
de pensamento – regressivamente transformado e retrabalhado
como uma fantasia de desejo – se torna consciente como
percepção sensorial, com o que experimenta a elaboração
secundária à qual todo conteúdo perceptivo é submetido 131 .
Que o conteúdo perceptivo como um todo esteja submetido à elaboração secundária já havia sido, mais explicitamente ainda, reconhecido por Freud na Traumdeutung:
Nosso pensamento desperto (pré-consciente) se comporta
diante de um material perceptivo qualquer exatamente como a
função em questão [a elaboração secundária] diante do
conteúdo do sonho. Compete-lhe, certamente, colocar em
ordem esse material, estabelecer relações e adequá-lo à
expectativa de uma concatenação inteligível.132
Em suma, a consciência da percepção depende, tanto quanto qualquer outro processo, da organização do material segundo os princípios que regem a edificação das instâncias do aparelho psíquico, muito embora Freud não tenha alcançado a formulação de uma teoria plenamente satisfatória do Bewuβtwerden (o tornar-se consciente), restando ainda uma ampla lacuna na explicação de como os processos psíquicos acedem à consciência e, no limite, na elaboração de um conceito plenamente definido desta última.
Com efeito, de ponta a ponta de sua obra, desde o momento mesmo em que rompeu com a identificação entre o psíquico e o consciente de que se vangloriará depois, a consciência converte-se em um problema para a metapsicologia edificada por Freud, talvez até mesmo num problema insolúvel, pelo menos nos termos em que se encontra ali formulado. No Projeto, Freud abre a seção sobre a consciência reconhecendo a lacuna explicativa que se estende entre esta e as hipóteses neuropsicológicas construídas para justificá-la: “Não se pode naturalmente tentar dar uma explicação sobre como processos excitatórios nos neurônios ω trazem consigo a
consciência”. 133 No outro extremo de sua obra, no Esboço de psicanálise (1938), podemos ler:
O ponto de partida para essa indagação é dado pelo fato da
consciência, fato incomparável, que desafia toda tentativa de
explicá-lo e descrevê-lo. E, no entanto, quando se fala de
consciência, sabe-se de maneira imediata o que se quer dizer
com isso.134
Essa passagem pode ser considerada uma espécie de reconhecimento final dos impasses a que chegou o encaminhamento dado por Freud ao problema da consciência. A aposta numa psicologia naturalista – a única aceitável segundo o ideário epistemológico freudiano – pareceu esbarrar na impossibilidade de uma naturalização da consciência, a qual, no entanto, contradiz a determinação de que uma psicologia completa deve, obrigatoriamente, dela se ocupar. Não há, enfim, uma metapsicologia freudiana da consciência, a não ser talvez como um programa de investigação ainda consideravelmente indefinido, restando decidir se a impossibilidade de sua abordagem nesses termos é definitiva ou provisória. É dessa impossibilidade que deve se ocupar qualquer avaliação dos limites da metapsicologia freudiana sobre este tópico específico, se se quiser medir a eficácia de sua estratégia explicativa segundo seus próprios parâmetros e, ao mesmo tempo, criar condições para vislumbrar o caminho pelo qual os impasses que se opõem à formulação de uma concepção naturalista da consciência poderiam ser superados. O fato de Freud ter ficado, na melhor das hipóteses, a meio caminho no cumprimento desse programa, contudo, não chega a ser particularmente desabonador. A via para a consecução desses objetivos e para a superação desses impasses, no que se refere à consciência, é uma coisa que o desenvolvimento contemporâneo da psicologia e mesmo o das chamadas ciências cognitivas – o mais amplo e aparentemente bem-sucedido projeto de naturalização do mental – está longe de ter demonstrado de forma inequívoca.
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104 Freud ([1894] 1952, por exemplo).
105 Pribram & Gill (1976).
106 Strachey (1998).
107 Aqui teríamos uma primeira explicação, mecânica e topográfica, da relação inversa entre intensidade e complexidade que parece se impor na concepção freudiana do aparelho neuronal ou psíquico. Mais adiante, como se verá, Freud insistirá que a consciência depende, entre outras coisas, da diminuição da intensidade dos processos no sistema ψ. Pode-se, talvez, inferir daí que ela dependa igualmente de um aumento concomitante da complexidade da organização desses processos.
108 Os signos de qualidade tornariam possível a consciência de uma representação. Voltaremos a essa questão adiante, na discussão da concepção de consciência presente no Projeto.
109 Freud ([1895/1950] 1987, p. 400).
110 Id. ibid., p. 404.
111 Id. ibid., p. 400, grifos nossos.
112 Id. ([1938] 1998, p. 156, grifos nossos).
113 Id. ibid., p. 156.
114 Freud fala aqui da qualidade sensorial, especificamente, e utiliza sua ausência na rememoração como argumento para recusar aos processos ψ o papel de concomitantes da experiência consciente. Mais tarde terá que se haver com o problema de que a rememoração, como qualquer forma de consciência, pressupõe alguma espécie de qualidade, cujo surgimento será então creditado à linguagem.
115 Freud ([1895/1950] 1987, p. 402).
116 Id. ibid., p. 405.
117 Id. ibid., p. 451.
118 Id. ibid., p. 404.
119 Id. ibid., p. 403.
120 Id. ibid., p. 404.
121 Id. ibid., p. 456.
122 Id. ([1915] 1982, p. 160).
123 No Projeto estão presentes, pelo menos em esboço, uma teoria da dimensão pulsional do psíquico (a representação da estimulação endógena em ψ do núcleo) e uma psicologia dos processos do eu, em que ambos aparecem como originariamente inconscientes, de modo que o inconsciente está longe de coincidir com o reprimido. A tópica exposta em A interpretação dos sonhos (1900) caracteriza-se por uma ampla restrição da problemática abarcada pelo Projeto, em que, entre outras coisas, a pulsão e o eu deixam de encontrar uma representação explícita no modelo do aparelho psíquico ali proposto. Desde esse ponto de vista, a tópica apresentada em O eu e o isso (1923) distingue-se pela retomada e pela reintegração na teoria do aparelho psíquico de pelo menos uma parte das questões postas entre parênteses após o Projeto – a instância pulsional (o isso, das Es), o eu e seu desdobramento narcísico (o ideal do eu), que originaria depois o supereu (das Über-Ich).
124 Simanke (2009).
125 Freud ([1895/1950] 1987, p. 437, grifos nossos).
126 Pribram & Gill (1976, p. 81, grifos nossos).
127 Smith (1999, p. 543-544).
128 Em outro lugar (Simanke, 2006), argumentamos que é possível uma interpretação emergentista da concepção freudiana do psiquismo, a partir das teses desenvolvidas em Sobre a concepção das afasias (Freud, 1891). Lembremos ainda que o trabalho seminal de Crick & Koch (1990) contribuiu decisivamente para recolocar a investigação da consciência na agenda da neurociência contemporânea, de onde, na visão de Freud, pode-se dizer que ela nunca deveria ter saído.
129 Para Hughlings Jackson ([1884] 1958), a estrutura dos centros nervosos estende-se da periferia sensório-motora ao córtex e reflete a evolução filogenética que torna possíveis processos que vão do puro reflexo, num extremo, ao pensamento consciente, o movimento voluntário e a linguagem proposicional, no outro. Jackson emprega a noção de representação (representation) – de que Freud lança mão em Sobre a concepção das afasias, opondo-a à projeção de Meynert – para designar a relação entre os diversos níveis de processos (ele fala de uma representação, de uma re-representação e de uma re-re-representação dos mesmos). Freud transpõe essa noção, a partir da Carta 52, para a relação entre os sistemas psíquicos, como que a reforçar a ideia de que a representação não é a cópia de um objeto, mas o último estágio de um processo de reorganização dos dados sensoriais oriundos da periferia do sistema nervoso. Pode-se dizer que, com isso, Repräsentation (o termo empregado em Afasias para traduzir o conceito de Jackson) e Vorstellung se identificam em parte ou, pelo menos, que a segunda passa a ser um caso particular da primeira, correspondendo ao nível mais evoluído de organização dos processos nervosos.
130 A elaboração secundária (sekundäre Bearbeitung) é a última etapa do trabalho do sonho, que introduz um mínimo de coerência no material onírico, de modo que ele possa ser rememorado conscientemente durante a vigília e posto sob a forma do relato verbal. É, por assim dizer, uma adaptação parcial dos processos do sonho às formas do pensamento consciente (ou pré-consciente), organizadas pela linguagem.
131 Freud ([1917] 1982, p. 186, grifos nossos).
132 Id. ([1900] 1982, p. 480).
133 Id. ([1895/1950] 1987, p. 403, grifos nossos).
134 Id. ([1938] 1998, p. 155, grifos nossos).