Epidemiologia, serviços e tecnologias em saúde

Maurício Lima Barreto · Capítulo 14 de 17

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Epidemiologia, serviços e tecnologias em saúde

13 Epidemiologia da violência em locais de trabalho nos EUA

13 Epidemiologia da violência em

locais de trabalho nos EUA *

 

Dana P. Loonis

Introdução

Os programas para a proteção da saúde dos trabalhadores nos Estados Unidos têm, historicamente, focalizado exposição química e riscos associados à maquinaria industrial. Normas nacionais específicas desenvolvidas e reforçadas pela Occupational Safety and Health Administration (OSHA) estão, de fato, preocupadas quase exclusivamente com produtos químicos, detritos e radiação (Corn, 1992), enquanto muitos elementos prejudiciais que aumentam o risco de danos têm sido deixados para o controle voluntário por parte da indústria, ou regulados, caso a caso, a partir de regras gerais da Occupational Safety and Health Act. Pesquisas em epidemiologia ocupacional vêm, de modo similar, focalizando o câncer e outras doenças crônicas de longa latência, dando pouca atenção às injúrias até os anos 80.

De acordo com essa história, revelou-se uma surpresa para a comunidade da saúde ocupacional dos EUA aprender que ser assassinado no emprego constitui um sério problema na área. Pelo menos em dois estudos epidemiológicos pioneiros acerca de danos fatais ocupacionais, publicados nos início dos anos 80, mencionaram-se as mortes de trabalho causadas por homicídios, além dos habituais riscos de quedas, problemas com maquinaria e veículos motorizados (Baker et al., 1982; MMWR, 1985). Todavia, a percepção de que a violência é uma questão da saúde ocupacional chamou a atenção de muitos pesquisadores, inicialmente em decorrência de dois artigos publicados na edição de outubro de 1987 do American Journal of Public Health (Davis, 1987; Kraus, 1987). Estes artigos apresentam pesquisas sobre dados de mortalidade da Califórnia e do Texas, no final dos anos 70 e no início dos 80, mostrando um risco substancial de ser assassinado no trabalho, entre homens e mulheres envolvidos na venda de mercadorias e serviços ao público. Entre os homens, graves riscos se concentravam especialmente em diversos grupos profissionais de tamanho reduzido, incluindo motoristas de táxi, policiais e guardas. No editorial em que foram apresentados os trabalhos, sinalizou-se a importância dos riscos, observando-se que as taxas referentes aos assassinatos de motoristas de táxi eram mais elevadas do que as encontradas entre prisioneiros, um grupo incontestavelmente de alto risco (Dietz & Baker, 1987). Esses primeiros artigos também expressaram a magnitude potencial do problema em termos de números absolutos de trabalhadores afetados. No Texas, assaltos violentos constituíram a principal causa de morte de mulheres trabalhadoras e, também, uma das principais causas entre os homens (Davis, Honchar & Suarez, 1987; MMWR, 1985); padrões similares também foram observados em Maryland (Baker et al., 1982).

Quando sugerimos discutir os referidos artigos no nosso seminário semanal de Epidemiologia Ocupacional na Universidade da Carolina do Norte, pouco depois que ambos foram publicados, o grupo considerou as descobertas curiosidades interessantes, mas duvidou da real importância delas na saúde dos trabalhadores e, especialmente, da relação delas com as preocupações habituais da 'academia' quanto à epidemiologia ocupacional. Naquele momento, estávamos concentrados no estudo do câncer entre vários grupos dc trabalhadores industriais e no desenvolvimento de métodos estatísticos para a análise de dados dos estudos das doenças crônicas. Nosso departamento era conhecido por seus estudos de câncer entre os que trabalham com borracha, asbesto e energia nuclear, mas poucos de nós tinham atribuído aos danos ocupacionais - muito menos aos assassinatos - mais do que uma reflexão passageira como objeto de pesquisa séria.

 

A situação atual Atitudes em relação ao problema da violência no local de trabalho se alteraram desde 1987. A violência contra trabalhadores é agora reconhecida como importante questão no âmbito da saúde ocupacional. Em 1990, o National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH) promoveu uma conferência sobre homicídios no local de trabalho; em 1993, o instituto lançou um alerta, solicitando dedicação ao tema da prevenção do assassinato no emprego. O estado da Flórida estabeleceu medidas legais visando a reduzir a ameaça de roubo com violência contra trabalhadores em lojas varejistas, e os patrões passaram a externar preocupações crescentes com a segurança, a perda de produtividade e as obrigações legais (Purdy, 1994).

Sabe-se hoje, por meio dos estudos do NIOSH, com base na análise de um novo registro nacional de óbito, que os assassinatos no trabalho constituem a principal causa de acidente fatal entre mulheres trabalhadoras, em âmbito nacional, e a terceira causa principal entre trabalhadores do sexo masculino e no conjunto de trabalhadores (Jenkins et al., 1993). Além disso, o homicídio é a principal causa de morte em alguns setores da indústria que empregam grande número de pessoas, incluindo o comércio de atacado, comércio varejista, finanças, seguros, mercado imobiliário, serviços, transporte, comunicação e administração pública (Jenkins et al., 1993). Em suma, aproximadamente 1 /8 de todas as mortes dos trabalhadores de todas as indústrias é resultante de homicídio (NIOSH, 1993; Jenkins et al., 1993).

Poucos detalhes adicionais podem ser obtidos a partir dos estudos epidemiológicos nacionais e estaduais. Eles descrevem a população de trabalhadores sob risco de assassinato no emprego por idade, sexo, ocupação e ramo da indústria. Nacionalmente, a taxa global de homicídios é três vezes maior entre os homens do que entre as mulheres; as taxas são de, aproximadamente, 1,02 e 0,33 por cem

mil, respectivamente (Tabela 1). No Texas e na Califórnia, todavia, as taxas parecem ser maiores, sendo elas intermediárias na Carolina do Norte; contudo, a razão entre as taxas relativas a homens e mulheres parece ser quase a mesma em todas as áreas estudadas. Não fica claro se as diferenças geográficas nas taxas são reais ou artefatos de dados obtidos a partir de estudos diferentes; a Califórnia e o Sul têm altas taxas de homicídios, mas também é provável que a base de dados obtida a partir dos atestados de óbito do NIOSH deixe de incluir algumas mortes.

Tabela 1 - Taxas de assassinato no local de trabalho de homens

e mulheres nos Estados Unidos (por 100.000)

 

Trabalhadores com mais de 65 anos têm as mais altas taxas de homicídios, com índices de 1,2 e 6,5 por cem mil, entre mulheres e homens, respectivamente (Bell, 1991; NIOSH, 1993). Não há muita informação disponível sobre os riscos de diferentes grupos étnicos, mas, nacionalmente, a taxa de morte por homicídio no trabalho é quase duas vezes maior para os afro-americanos do que para os outros grupos (NIOSH, 1993).

Tanto para homens como para mulheres, as firmas ligadas ao comércio varejista têm as maiores taxas de homicídio. Esse setor industrial responde por 43 % de todos os homicídios no emprego entre mulheres, em 48 estados americanos, durante um período de

seis anos (Bell, 1991). Como se observa na Tabela 2, as taxas de mortalidade por homicídio entre homens no comércio varejista varia de 5,3 a 6,2 por cem mil trabalhadores, em diferentes áreas (Davis, 1987; Davis, Honchar & Suarez, 1987; Kraus, 1987), enquanto as taxas relativas a mulheres no comércio varejista têm-se situado entre 0,92 e 1,9 por cem mil trabalhadores (Bell, 1991; Davis, 1987; Davis, Honchar & Suarez, 1987; Kraus, 1987). Em outros grupos ocupacionais de alto risco estão incluídos motoristas de táxi, outros trabalhadores na área de serviços e transportes e oficiais de segurança pública; as taxas de homicídio desses grupos variam entre dez e quarenta por cem mil em diversas regiões. E também inquestionável que as armas de fogo são utilizadas para cometer a grande maioria desses assassinatos, cerca de 3/4 (NIOSH, 1993).

Tabela 2 - Ocupações e ambientes de trabalho nos Estados

Unidos com altas taxas de homicídio para homens e mulheres

 

Fonte: Compilada de Baker et al. Davis, 1987; Davis, Honchar &

Suarez, 1987; Kraus, 1987; Bell, 1991; NIOSH, 1993; Loomis et al.,

1994.

Sabe-se ainda menos sobre os assaltos não-fatais no trabalho. O National Crime Victimization Survey indica que, a cada ano, quase um milhão de pessoas nos EUA estão sujeitas a crimes violentos no trabalho, incluindo roubo, estupro e agressão, e que esses três atos violentos resultam em quase 160 mil registros anuais desses casos (Bachman, 1994). De modo geral, cerca de 15% de todos os crimes violentos são cometidos contra pessoas que estão trabalhando.

Hales et al. (1988) estudaram tanto homicídios como injúrias ocupacionais não-fatais secundários à violência, utilizando dados de benefícios concedidos aos trabalhadores do estado de Ohio. Aproximadamente 20 % dos requerimentos por injúrias devido à violência foram por homicídios, com taxas de cerca de 6,0 por cem mil para o conjunto de danos e 1,3 por cem mil por homicídio. Todavia, os locais de trabalho associados a riscos elevados foram os mesmos com altas taxas de homicídios e injúrias não-fatais devidos à violência, e similares àqueles observados em estudos anteriores.

Esses estudos de atos de violência não-fatais contra trabalhadores não fornecem informações sobre a distribuição de riscos por sexo e outras características dos trabalhadores. Contudo, os dados do National Crime Victimization Survey sugerem uma diferença entre os agressores que cometeram atos violentos contra mulheres trabalhadoras e os que cometeram atos violentos contra trabalhadores do sexo masculino. As mulheres foram atacadas mais freqüentemente por pessoas que conheciam, enquanto os crimes contra os homens foram cometidos principalmente por estranhos (Bachman, 1994). Além disso, os dados relativos a benefícios concedidos aos trabalhadores do estado de Ohio sugerem que as taxas globais de danos resultantes de violência são menores entre trabalhadores mais idosos, o que se contrapõe aos elevados índices de mortes por homicídios nos locais de trabalho nessa faixa etária (Hales et al., 1988).

Nem as certidões de óbito nem os registros de benefícios concedidos a trabalhadores fornecem qualquer informação sobre as circunstâncias ou causas das mortes de trabalhadores decorrentes de violência; conseqüentemente, quaisquer conclusões fundamentadas em dados são, por ora, especulativas. Com base na análise da natureza das ocupações das vítimas, o NIOSH e diversos pesquisadores observaram que o risco de os trabalhadores se tornarem vítimas da violência parece estar associado à exposição pública, ao intercâmbio de dinheiro, ao trabalho noturno ou em áreas com índices elevados de criminalidade e ao contato pessoal íntimo (NIOSH, 1993; Bell, 1991; Davis, Honchar & Suarez, 1987; Kraus, 1987; Hales et al., 1988). Estas observações têm levado a especulações no sentido de que o roubo é freqüentemente um fator que contribui para o assassinato de trabalhadores, particularmente nos locais de comércio varejista e prestação de serviços (NIOSH, 1993). Além disso, sugeriu-se que eventos que ocorrem durante os assaltos, inclusive a resistência da vítima a solicitações, movimentos repentinos ou a entrada inesperada de um colega de trabalho ou freguês podem influenciar a possibilidade de ocorrer um assassinato (Crow & Erickson, 1987).

Em decorrência dessas descobertas, várias recomendações no sentido de fazer com que os trabalhadores estejam mais protegidos contra a violência têm sido propostas pelo National Institute for Ocupational Safety and Health e por associações de comerciantes varejistas, além de oficiais de justiça. Essas recomendações propõem, geralmente, mudanças de natureza 'ambiental' -focalizando principalmente os estabelecimentos de comércio varejista. Como exemplos, podem-se citar: melhorar a iluminação e a visibilidade do local de trabalho; reduzir a quantia de dinheiro à vista; instalar alarmes e cameras de vigilância; instalar barreiras à prova de bala; fechar à noite; e patrulhamento mais freqüente por parte da polícia (NIOSH, 1993). Algumas mudanças comportamentais relativas ao trabalhador têm sido também sugeridas como possíveis intervenções. Elas incluem treinamento dos trabalhadores para resolver conflitos sem violência e não reagir durante o assalto.

A despeito do considerável progresso obtido na última década em relação ao reconhecimento, definição e prevenção da violência contra os trabalhadores, muito está para ser feito. E necessário saber mais sobre as causas de violência contra trabalhadores -especialmente a definição da importância do roubo como fator precipitante. Precisamos entender se as mulheres trabalhadoras são escolhidas como alvo de violência no trabalho, ou se a 'super-representação' delas, dentre as vítimas de homicídios, é simplesmente decorrente da natureza dos seus empregos. Do mesmo modo, deverse-ia saber se os trabalhadores idosos estão sob alto risco de violência no trabalho, na mesma proporção em que estão sob risco de morrer nele. Diversas intervenções voltadas para a prevenção da violência contra trabalhadores têm sido propostas, mas suas bases são bastante especulativas. É necessário desenvolver pesquisa para avaliar as intervenções propostas e também para desenvolver outras.

 

Pesquisas em andamento na carolina do norte

Visando a obter informação epidemiológica para responder a algumas dessas questões, estamos estudando o assassinato no emprego na Carolina do Norte, um grande estado sulista americano de base rural. A primeira fase da pesquisa incluiu um estudo epidemiológico descritivo das mortes de trabalhadores devidas a homicídio, entre 1977 e 1991; a segunda fase, ainda em curso, é um estudo prospectivo caso-controle de assassinatos no local de trabalho. Relatam-se, a seguir, alguns resultados preliminares da primeira fase do estudo.

MÉTODOS

Casos de assassinato ocorridos na ocasião em que a vítima estava no trabalho foram identificados por um sistema estadual de registros médicolegals. Esse sistema fornece uma extensa gama de informações, que incluem as causas de morte, codificadas segundo a a 9 Revisão da Classificação Internacional de Doenças (os códigos de 'causas externas' são utilizados para classificar os danos com morte), descrições das circunstâncias de morte e informação médica e toxicológica. Os dados assim obtidos são superiores em qualidade, abrangência e detalhe aos dados referentes às certidões de óbito habitualmente disponíveis nos cartórios estaduais.

Casos de danos ocupacionais foram selecionados do banco de dados central do escritório do Chief Medical Examiner. Casos médico-legais registrados entre 1º de janeiro de 1977 e 31 de dezembro de 1991 foram considerados elegíveis para o presente estudo caso indicassem que: a causa mortis era. homicídio; o problema que levou à morte ocorreu enquanto o sujeito estava no local de trabalho na Carolina do Norte; e o intervalo entre lesão e morte foi de um ano ou período inferior. Revisaram-se, manualmente, registros em papel de todas as mortes ocorridas, e resumiram-se dados adicionais não disponíveis nos arquivos informatizados.

De modo a permitir o cálculo das taxas de mortalidade, estabeleceramse estimativas da força de trabalho, estratificadas por idade, sexo, raça, ocupação e ramo de atividade, a partir de amostras relativas aos censos nacionais de 1980 e 1990. A população de trabalhadores nos anos 'intercensitários' foi estimado empregando-se um modelo linear, e o número estimado de trabalhadores em cada estrato foi então totalizado por unidade de tempo, de modo a obter uma estimativa do número de pessoas/ano sob risco; as taxas foram estimadas por cem mil trabalhadores/ano. As taxas de mortalidade, ajustadas por idade, foram computadas utilizando-se ajustes diretos, tomando-se como padrão a distribuição de idade de toda a força de trabalho estadual. De modo geral, as taxas de mortalidade ajustadas e não-ajustadas foram idênticas, por isso apenas as taxas mais precisas não-ajustadas serão apresentadas.

RESULTADOS

Um total de 355 mortes de trabalhadores por assassinato foram registradas durante os 15 anos do período de estudo, o que representa uma taxa de 0,8 homicídio por cem mil trabalhadores/ano. A maioria das vítimas (63%) foi de homens de

etnia euroamericana (Tabela 3). Contudo, a taxa de fatalidade foi maior entre os homens afro-americanos e mais baixa entre as mulheres brancas, com taxas de 1,6 e 0,3 por cem mil

trabalhadores/ano, respectivamente (Tabela 1). Como em outras áreas, as taxas experimentavam incremento com a idade.

Tabela 3 - Descrição das vítimas de homicídio no local de

trabalho. Carolina do Norte -1977-1991

 

Fonte: Compilada de Baker et al. Davis, 1987; Davis, Honchar &

Suarez, 1987; Kraus, 1987; Bell, 1991; NIOSH, 1993; Loomis et al.,

1994.

O número de mortes durante horas noturnas e nos fins de semana foi mais elevado do que em outros momentos do dia e em outros dias da semana, em contraste com as lesões ocupacionais fatais. Todavia, esse padrão é similar àquele relativo aos demais homicídios. Armas de fogo foram utilizadas em 3/ 4 de todos os homicídios de trabalhadores, e a grande maioria das armas eram revólveres.

O maior número de vítimas tinha ocupações relacionadas a vendas e administração e compunha-se de empregados em estabelecimentos que vendiam comida ou outras mercadorias

(Tabela 4). Mas estes não foram os grupos que experimentaram as mais altas taxas de homicídios. Motoristas de táxi e guardas particulares apresentaram os riscos mais elevados, seguidos pelos trabalhadores empregados em vários tipos de negócios varejistas e

oficiais de polícia (Tabela 2).

Tabela 4 - Locais de trabalho onde ocorrem homicídios

 

Os resultados inéditos mais significativos estavam relacionados às circunstâncias nas quais os trabalhadores foram assassinados

(Tabela 3). Mais da metade de todos os homicídios (60%) tinham relação com roubo, como sugerido por estudos anteriores. Porém, outra proporção relevante, de cerca de 20% dos casos, resultou de conflitos entre o trabalhador e outra pessoa. Esses padrões se repetiram de modo quase idêntico para homens e mulheres. Além disso, 7% das vítimas (todas homens) eram oficiais de justiça mortos no cumprimento do dever, além de outras 40 mortes (11%) secundárias a outras circunstâncias, ou circunstâncias desconhecidas.

Os homicídios relacionados a roubo ocorreram com maior freqüência no comércio varejista (67%). A maior proporção desses homicídios (39%) teve lugar em pequenos armazéns, e as vítimas de modo geral possuíam ou dirigiam tais negócios, ou vendiam mercadorias ou serviços ao público. Homicídios relacionados a conflitos ocorreram em grande variedade de lugares, incluindo fábricas, fazendas e escritórios, e as vítimas tinham diversas ocupações. O tipo de arma usada pelo assaltante também variava entre os diversos tipos de incidentes, observando-se um predomínio pouco expressivo de armas de fogo nos eventos relacionados a conflitos ou atividades, passíveis de apenação, relativas a roubo.

Embora a proporção de mortes resultantes de conflitos tenha sido essencialmente a mesma para homens e mulheres, a natureza das conflitos foi muito variada. Conflitos que resultaram na morte de homens estavam mais freqüentemente relacionados ao trabalho

(Tabela 3). Por outro lado, a maioria dos conflitos com vítimas do sexo feminino era doméstica, e a violência era cometida por marido ou outros parceiros masculinos. Havia relacionamento anterior entre agressores e vítimas em 143 casos (40%). A maioria dos homicídios relacionados a roubos em ambos os sexos era cometida por estranhos, enquanto os agressores em mortes secundárias a conflitos eram mais diversificados. Muitos dos agressores de vítimas do sexo feminino eram maridos ou parceiros; nenhum dos homens mortos em conflitos foi atacado por esposas ou parceiras, mas, em alguns casos, a vítima e o agressor tinham envolvimento com a mesma mulher. Ataques a homens foram perpetrados com maior freqüência por colegas de trabalho (incluindo empregados e empregadores) ou clientes, mas alguns dos agressores eram conhecidos mas não colegas de trabalho ou membros da família

(Tabela 4).

 

Discussão Nosso estudo referente a 15 anos de homicídios de trabalhadores na Carolina do Norte demonstrou que a violência no local de trabalho não é um problema novo, mesmo em um estado sulista de base rural. Como em outras regiões, o problema é preocupante. Dispondo de informações acerca das circunstâncias dos homicídios em local de trabalho, dado não disponível nos estudos anteriores, fomos também capazes de avaliar mais diretamente a teoria segundo a qual a violência é resultado de roubo ou tentativa de roubo. Os resultados confirmam que roubo é de fato importante, estando relacionado a mais da metade dos homicídios contra trabalhadores. Porém, nossos achados relativos a trabalhadores mortos em conflitos mostram que o problema tem outras dimensões que se estendem tanto à esfera pessoal e familiar quanto ao local de trabalho.

As medidas propostas como intervenções para prevenir os trabalhadores de sofrerem injúria em decorrência da violência têm, grosso modo, focalizado lojas e restaurantes. Seu intento aparente é tornar esses lugares alvos menos atraentes para o roubo e proteger os trabalhadores de injúrias caso aconteçam os roubos. Essas metas seriam alcançadas através de mudanças físicas nos locais de trabalho ou modificações nos regulamentos relativos a horários de trabalho, procedimentos e comportamentos dos empregados. A despeito da relativa novidade da questão, essas propostas representam medidas clássicas em segurança ocupacional, nas quais se prioriza a mudança do desenho e da organização do local de trabalho ou o comportamento do trabalhador.

Embora não reste dúvida de que essas medidas parecem razoáveis e mostram-se de alguma valia, elas não têm sido avaliadas como meios de deter o roubo ou a violência. Por isso, não se sabe em que medida poderão prevenir injúrias perpetradas contra os trabalhadores e mortes.

Além do mais, não é provável que medidas tais como instalação de cofres e melhor iluminação ou redução do dinheiro à vista previnam a violência decorrente de conflitos, mesmo no comércio. Medidas de diferentes naturezas são provavelmente necessárias também em locais de trabalho cuja função não envolve venda para o público.

A prevenção de muitos, se não da maioria, dos assassinatos de trabalhadores provavelmente exige medidas sociais mais amplas, para além da tradicional abrangência das intervenções em segurança ocupacional. Discussões relativas a esse nível de prevenção têm estado inteiramente ausentes da agenda de segurança ocupacional. Uma restrição drástica no acesso a revólveres ou qualquer tipo de pistola é uma medida que parece essencial a toda tentativa séria no sentido de obter uma redução no número de mortes e danos graves secundários à violência no local de trabalho e alhures. Intervenções destinadas a prevenir a violência contra mulheres por parte de seus parceiros poderia prevenir igualmente mortes entre trabalhadores, assim como entre as mulheres de modo geral. Para além de intervenções dessa natureza, situam-se os esforços mais amplos relativos às causas sociais fundamentais de roubo e violência interpessoal. Esse território pode ser pouco familiar aos profissionais que lidam com a questão da saúde ocupacional, mas demonstra o fato inescapável de que eventos no ambiente de trabalho têm vínculos estreitos com questões da sociedade como um todo.

 

Referências bibliográficas

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* Tradução: Ronaldo A. de Souza & Francisco Inácio Bastos