Escuta crítica: formação docente em Letras
Apresentação
O curso de Letras Licenciatura em Inglês e Literaturas de Língua Inglesa a distância da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) é relativamente recente. Enquanto seu irmão presencial completa em 2017, 57 anos, a primeira turma a distância ocorreu entre 2011 e 2015. As discussões sobre sua implantação iniciaram dois anos antes, em 2009, quando as universidades brasileiras foram convidadas pelo governo federal a responder ao Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica Pública (Parfor), dentro da Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação Básica. O curso foi, então, uma resposta da UFU a esse convite.
A novidade da modalidade de educação e a primeira experiência formativa num curso completo de Letras a distância nos convocam, professores que atuaram no curso e que atuarão em outras turmas, a refletir sobre diferentes aspectos e dimensões da formação docente em Letras – tanto a que almejamos poder constituir junto aos nossos alunos nas práticas diárias de sala de aula, quanto, ao mesmo tempo, a que é a nossa, como professores sempre em (trans)formação. No curso e para ele, aprendemos e refletimos sobre interações a distância, produzimos materiais escritos e mídias, observamos e discutimos com alunos e professores tutores questões sobre língua, linguagem, texto, sociedade e humanidade em fóruns, chats, wikis e outras atividades virtuais. Essa aprendizagem foi acontecendo com a própria prática e a partir de discussões em conjunto, da equipe, em constantes reuniões de avaliação sobre as disciplinas, tarefas e o currículo e num exercício dialógico inevitável com as práticas e discussões sobre o curso presencial.
Muito do que refletimos nessas reuniões ganhou espaço também dentro dos nossos grupos de pesquisa, formando objetos e temas de pesquisa em nossos projetos individuais e nos projetos orientados em nível de Mestrado e Doutorado, e segue sendo
publicado em livros e revistas especializadas1. E muito também do que gostaríamos de ter discutido mais com nossos alunos e colegas merece ter espaço. Conforme concluímos em nossas últimas avaliações, já ao fim do curso a distância, gostaríamos de poder prolongar nossos diálogos entre nós, equipe, e entre nós e nossos alunos, pois foi com esses diálogos firmados ao longo do curso que uma escuta particular, de uma equipe e para processos de aprendizagem não somente a distância, mas em Letras, foi acontecendo. Esse desejo de continuar, portanto, não se relaciona a uma sensação de falta nos conteúdos ou práticas passadas, mas a uma vontade de falar mais: dado o fim da primeira turma a distância, o sentido de unidade e finalização de um percurso mistura-se, então, com o desejo de manter esse diálogo e de expandir e dar voz ao que foi sendo discutido. Esta coletânea apresenta, assim, textos sobre assuntos que surgiram como demandas de reflexão aos autores durante sua atuação ou em sua preparação para atuação no curso a distância. São textos sobre e para a formação em Letras, seja ela presencial ou a distância, pois, como compreendemos, há um ponto da formação em que as modalidades se fundem, quando o que discutimos é um posicionamento crítico frente às línguas e literaturas, frente à relação docência e sociedade.
Escuta crítica, título desta coletânea, refere-se, portanto, àquilo que é parte da prática de sala de aula de cada professor e se relaciona às suas experiências, e que integra o exercício teórico-epistemológico, intelectual que realiza como pesquisador. Escutar o que lhe retorna sobre seus materiais, suas aulas e na relação com outras disciplinas e entre os cursos presencial e a distância, e transformar essa escuta em um tema de interesse para a escrita – foi esse o convite que fizemos aos nossos autores: O que de sua escuta grita como uma demanda de mais discussão para a formação em Letras?
O intuito não é, todavia, esgotar, mas ampliar o debate em torno de diferentes assuntos, aprofundar o diálogo, trazendo algumas inquietações que foram provocadas pelas vozes que se deixaram (des)velar no encontro com o(s) outro(s). Trata-se, pois, de escuta crítica no sentido de contemplar a formação docente como (des)contínuo processo de tomadas de posição frente ao objeto que se ensinaaprende, sempre por meio da interação. Escutar o que incomoda, perturba, clama por sentido e que só se percebe na alteridade. Escutar e propor mudanças com base nessas inquietações da prática docente. O termo crítico aqui refere-se menos a uma vertente teórica ou a linha epistemológica, e mais a um posicionamento frente à experiência de ouvir, que tem por efeito refletir.
Nesta coletânea, trazemos, portanto, ao leitor esses textos de escuta/escrita. Eles focam temas variados sobre e para a formação para a docência na área de Letras no Brasil. São artigos que problematizam a complexidade da linguagem, do sujeito, da sociedade, das epistemologias e métodos de pesquisa e que lançam luz à complexidade da formação presencial ou a distância. Os capítulos, autorados por diferentes pesquisadores, estão organizados em duplas, por assim dizer, que versam sobre temas comuns entre si. São artigos que mesclam análises, discussões teóricas e experiências de sala de aula por diferentes perspectivas.
Os dois primeiros capítulos discutem aspectos relacionados mais particularmente à aprendizagem e ao aprendiz de línguas estrangeiras, tocando nas questões da autonomia e da produção
oral em língua inglesa. Os Capítulos 3 e 4 apresentam reflexões sobre a função e a posição docente de línguas, discutindo os temas da identidade do professor de línguas e da ética no ensino de língua
inglesa. Os Capítulos 5 e 6 discutem formas de ensinar línguas e apresentam propostas que podem contribuir para a produção dos alunos em língua materna e língua estrangeira, respectivamente: um se baseia na teoria da Gramática do Design Visual, colocada em prática na sala de aula, e o outro se apoia na Teoria Sociocultural para reconceitualizar o feedback num curso de Letras a distância.
Os Capítulos 7 e 8 finalizam a coletânea trazendo discussões sobre o ensino de literatura em língua inglesa – o primeiro discute o tema da viagem e a perspectiva pós-colonialista, e o segundo retoma a
questão da ética, presente no Capítulo 4, e da emancipação e do pensamento crítico que podem surgir no trabalho docente com textos literários. Esses capítulos cobrem um pouco do que são as inquietações dos autores em suas posições como pesquisadores, leitores críticos e professores de futuros docentes.
No Capítulo 1, em Revisitando o conceito de autonomia:
(im)possíveis diálogos no ensino-aprendizagem de línguas
estrangeiras, Cristiane Carvalho de Paula Brito e Maria de Fátima Fonseca Guilherme abordam um tema tão caro quanto frequente na sala de aula de cursos de nível superior e de cursos a distância: a autonomia. As autoras iniciam com uma retomada do que tem sido discutido e teorizado sobre o assunto desde a década de 70 do século XX para depois problematizar o conceito por uma perspectiva discursiva de linguagem. Por tal perspectiva, levam em conta o postulado do sujeito constituído por e na linguagem, cindido e de desejo e que difere do sujeito cartesiano. As autoras deslocam a discussão sobre a autonomia do aprendiz de língua estrangeira de um sentido de estabelecimento de objetivos de aprendizagem e de responsabilidade e controle sobre o que se aprende para propor a autonomia como discurso, que se potencializa, sobretudo, no contexto da educação a distância. Funcionando como regime de verdade, defendem as autoras, o discurso da autonomia abafa as questões relacionadas à incompletude e à alteridade do sujeito e que são intrínsecas a todo processo de linguagem. É um deslocamento teórico precioso que dá o tom de problematização que todos os textos nesta coletânea trazem.
No Capítulo 2, sob o título Prática de oralidade em língua inglesa
como língua estrangeira num curso de Letras a distância, Simone Tiemi Hashiguti parte de dois questionamentos de alunos ingressantes em um curso de Letras Inglês a distância para discorrer sobre o tema da produção oral em língua inglesa como língua estrangeira e sobre a questão da prática de aprendizagem da língua a distância. A autora enfatiza a urgência pessoal em discorrer sobre esses temas e suas relações a partir de sua atuação como coordenadora do curso suas perpcepções, e expõe, pelo olhar como pesquisadora, aspectos que se referem às condições históricas de enunciação da língua inglesa no Brasil e à condição específica do curso de ser a distância e com a presença de computadores. Hashiguti propõe desatar o sentido de medo de falar inglês, tão frequentemente mencionado pelos alunos do curso e por alunos brasileiros em geral, e também o sentido de um estranhamento frente a modalidade a distância. Sua discussão também segue uma perspectiva discursiva de linguagem, e conceitos como o de memória discursiva e jogos de antecipação fundamentam suas considerações. A autora baseia-se também na análise de diferentes tipos em que o sentido do medo de falar inglês se repete.
Em Constituição identitária e pós-modernidade: ressonâncias de
um debate com professores em formação, Carla Nunes Vieira Tavares, Sybele Macedo e Maíra Lopes Almeida fundamentam-se em estudos culturais pós estruturalistas e na psicanálise para discutir, também de uma perspectiva discursiva de linguagem, o tema da identidade do professor na contemporaneidade. As autoras adentram nas teorias pós modernas e pós estruturalistas para explicar os efeitos da subjetividade na constituição identitária e apontar como a questão identitária e mesmo a noção de sujeito se constituem, elas mesmas, na confluência de mudanças histórico-sociais e de saber com fundamento na modernidade. As autoras lançam mão de conceitos como pulsão, inconsciente, identificação e subjetividade para conduzir a primeira parte do texto e explicitar a relação identidade e subjetividade. No que concerne à formação docente, elas retomam uma prática de sala de aula, realizada com alunos de um curso de Letras, fazendo visível, dessa forma, como as questões discutidas na seção anterior foram formuladas ou instigadas na discussão de um filme. Elas apontam como, ao mobilizarem esses conceitos e leituras na discussão, e ao se confrontarem com a história do filme, que também trata do universo escolar, os alunos encontraram momentos de tensão, incertezas e desconstruções que dizem justamente dos traços identitários particulares de cada um.
No capítulo intitulado Letramento crítico no ensino de inglês: em
busca de uma ética contemporânea, William Mineo Tagata problematiza o conceito de ética no mundo contemporâneo. Recusando a noção do senso comum de ética como conjunto de regras de caráter moral, o autor, em diálogo com Foucault, Bakhtin, Barad, Menezes de Souza, Pennycook, dentre outros estudiosos, a concebe do ponto de vista da alteridade, da dialogia, da diferença, do conflito, do inacabamento. Tagata discute ainda a importância desse conceito para os estudos em Linguística Aplicada e defende o ensino de inglês na perspectiva do letramento crítico como possibilidade de se trabalhar a linguagem de forma a produzir “sujeitos-no-discurso”, os quais questionam os sentidos hegemônicos e as interpretações únicas e assumem sua responsabilidade pela interpretação e transformação do mundo em que vivem.
Maria Aparecida Resende Ottoni e Conceição Maria Alves de
Araújo Guisardi, em Contribuições da gramática do design visual
para o ensino de gêneros multimodais, explicitam os princípios das abordagens sociossemiótica de gênero e sociodiscursiva, além dos preceitos teórico-metodológicos da Gramática do Design Visual (GDV) para apresentar uma proposta de ensino do gênero charge. Em sua análise e proposta, as autoras trabalham a potencialidade de manifestações semióticas em articulação com o ensino de um gênero e ressaltam a contribuição da GDV, teoria ainda pouco explorada no Brasil, no sentido de propiciar uma prática docente socialmente relevante. O estudo de Ottoni e Guisardi auxilia o professor em formação a contemplar a relação teoria-prática no que se refere à perspectiva dos multiletramentos, fornecendo-lhe ferramentas para desenvolver um ensino de línguas que almeje a transformação social ao conceber os sujeitos (e, consequentemente, suas práticas de linguagem) como histórica e politicamente situados.
Em Mediação pedagógica: o papel dos professores tutores no
fornecimento de feedback em um Curso de Letras-Inglês EaD, Fernanda Costa Ribas reflete sobre o conceito de mediação pedagógica e feedback a partir de suas experiências como coordenadora de tutores e professora conteudista, em uma Licenciatura em LetrasInglês a distância. A autora propõe uma nova compreensão e conceito de feedback, por ela elaborada, para tarefas de produção em língua inglesa em fóruns de discussão virtuais. Ribas elenca o feedback coletivo, interativo e o feedback individual, avaliativo, como diferentes formas de promover a interação no ciberespaço e contemplar as especificidades que esse contexto impõe. A discussão levantada por Ribas enseja a problematização das práticas de feedback no desenvolvimento do ensino-aprendizagem de uma língua estrangeira, apontando encaminhamentos para futuras pesquisas.
No capítulo 7, Pedro Malard Monteiro traz em Orientalism
everywhere: postcolonial thought in representations of real and
imagined voyages uma reflexão sobre como textos de ficção e de história modelam o que vemos e como vemos. Fundamentando-se nas considerações presentes no livro Orientalismo, de Edward Said, o autor traz exemplos de textos de gêneros variados de agora (por exemplo, um episódio da série de TV Os Simpsons, o filme Turistas e artigos de jornal) e de outras épocas (obras como Odisséia e As Aventuras do Barão de Munchausen, dentre outras) para discutir como a invenção e a fantasia acabam por construir e interferir a forma como imaginamos, entendemos e interpretamos o outro e a nós mesmos na relação com o outro. A distinção entre fantasia e realidade e a relação daquilo que sabemos com o que é imaginado se torna indistinta, por vezes, porque somos afetados pelos textos, reagimos a eles e, de fato, temos efeitos reais no mundo real. O autor sugere que o exercício da leitura crítica, para além de sua realização em áreas de estudo como a crítica literária e os estudos culturais, é uma ferramenta essencial na educação.
No capítulo 8, intitulado Gênero, raça e poder na literatura, Flávia A. R. Benfatti ressalta a importância da literatura para o desenvolvimento do pensamento crítico e para uma formação cidadã pautada na ética e no respeito às diferenças. Para isso, a autora analisa os romances As Traças (2005), de Cassandra Rios, e The Twelve Tribes of Hattie (2012), de Ayana Mathis, a fim de discutir como tais narrativas abrem espaço para que questões de gênero e raça sejam debatidas por licenciandos em Letras e, consequentemente, incorporadas em suas práticas docentes no intuito de promover uma educação que problematize discursos dominantes e se constitua como espaço de agência. Como explicita a autora, gênero e raça são temas que podem ser polêmicos tanto na sala de aula do ensino fundamental como na do ensino superior, e são essenciais. Para Benfatti, os textos literários possibilitam que se abordem tais temas em sala, que eles emerjam como demandas de discussão e que remetam tanto para o âmbito das narrativas quanto para os conhecimentos prévios dos alunos. É uma relação textual, social e de formação que se constitui baseado no efeito do texto literário.
As discussões, teorizações e análises propostas nesses capítulos refletem tanto as inquietações de pesquisa dos autores como o interesse e a atenção do grupo como um todo ao complexo e delicado tema da formação para a docência de línguas no Brasil. Entendemos que a variedade de linhas epistemológicas, objetos e abordagens aqui expostas cartografam um pouco dos trabalhos que vimos, cada um de nós, desenvolvendo em nossos grupos de pesquisa, ao mesmo tempo que expõem nossos posicionamentos e nossas experiências como professores formadores de outros professores, que têm uma agenda comum de discussão. Compreendemos que os temas enfocados nos artigos são alguns dos que surgem como demandas de reflexão a partir de nossas práticas naquilo que é uma mescla dos cursos de Letras presencial e a distância nos quais atuamos. Isto é, apesar das especificidades de cada modalidade, as questões que abordamos em cada um dos artigos são relevantes para alunos e docentes de ambos tipos de cursos.
Simone Tiemi Hashiguti
Cristiane Carvalho de Paula Brito
Fernanda Costa Ribas
Referências
HASHIGUTI, S. T.; BRITO, C. C. P. English learning at a distance: a case study on social-linguistic and digital inclusion. European Scientific Journal. Açores, Kocani e Buenos Aires: v. 3, p. 149-160, 2015.
HASHIGUTI, S. T. Reflexões sobre corpora de pesquisa discursiva e produção oral em aprendizagem de língua inglesa como LE na
modalidade a distância. Domínios de Lingu@Gem, Uberlândia, v. 9, p. 410-423, 2015.
RIBAS, F. C. Formação de professores de língua inglesa a distância: atividades de reflexão em fóruns de discussão. Fórum linguístico, Florianópolis, v. 13, p. 1037-1054, 2016.
TAGATA, W. M. Desenvolvendo o letramento crítico em um módulo de prática de ensino do PARFOR. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, Belo Horizonte, v. 16, n. 2, p. 237-255, 2016.