Escuta crítica: formação docente em Letras
Capítulo 8 - Gênero, raça e poder na literatura
Capítulo 8
Gênero, raça e poder na
literatura
Flávia A. R. Benfatti
Partindo de narrativas que problematizam questões de gênero, raça e poder, discutem-se essas temáticas em nível de graduação a fim de promover diálogos que instigam os graduandos a refletirem, com responsabilidade, ética e respeito acerca das diferenças sexuais, raciais, étnicas, religiosas, dentre outras, na medida em que se ampliam os debates desses temas nas mais variadas disciplinas por todo o território nacional. Tais discussões visam enfocar o papel da literatura como um instrumento de estímulo ao pensamento crítico e à “emancipação intelectual”, nas palavras de Rancière (2004), já que ela é capaz de uma ação transformadora tanto no âmbito pessoal quanto educacional. Para tanto, nos valemos de duas narrativas que servem como exemplo para ponto de partida das discussões acima propostas, são elas As Traças (2005), da brasileira Cassandra Rios, e The Twelve Tribes of Hattie (2012), da norte-americana Ayana Mattis.
O romance As Traças, de Cassandra Rios, trata de uma excitante história de amor, desejo, atração e fixação de uma jovem estudante de 17 anos, Andréa, por sua professora de História, Berenice, uma mulher altamente sedutora e dominadora. Tal fixação leva a garota ao extremo da paixão a ponto de se imaginar, em delírios, muitas vezes sob efeito de barbitúricos, como seria a relação sexual entre ambas, com descrições picantes de teor pornográfico, até que a tão esperada aproximação corporal acontece, o que a leva ao deleite e à prática sadomasoquista.
O romance ainda mostra que as relações lésbicas caracterizam, de forma significativa, o contexto escolar, já que há várias alunas lésbicas como também professoras. Assim, criam-se espaços íntimos equidistantes da tradição heterossexual nos quais a autora problematiza o conceito de gênero, na medida em que conduz o leitor ao universo feminino lésbico, cujas relações de poder se dão nesse contexto. No entanto, o postulado da heterossexualidade como norma dominante no seio das sociedades não deixa de atravancar os comportamentos de algumas personagens femininas em uma luta conflituosa para romper com o paradigma heteronormativo.
Segundo Butler (2003, p. 55),
Se a sexualidade é construída culturalmente no interior das relações de
poder existentes, então a postulação de uma sexualidade normativa que
esteja “antes”, “fora” ou “além” do poder constitui uma impossibilidade
cultural e um sonho politicamente impraticável, que adia a tarefa concreta e
contemporânea de repensar as possibilidades subversivas da sexualidade e
da identidade nos próprios termos do poder.
No romance em questão, essa tarefa de se pensar outras possibilidades de subversão da categoria sexual dominante existe, na proposta da autora, ao inserir as relações lésbicas no contexto escolar e promover diálogo respeitoso, não sem algumas doses de conflito, nesse ambiente, entre os personagens homo e hétero.
No excerto a seguir, a personagem protagonista, Andréa, em uma conversa com a amiga Bárbara (interessada em Andréa) instiga a personagem a confessar sua homossexualidade. No entanto, Andréa, no início da narrativa, hesita em tecer comentários a respeito de sua sexualidade. De fato, ela esconde de si mesma porque está construindo sua identidade sexual, tentando entender as mudanças que estão ocorrendo em sua vida em função da paixão avassaladora pela professora:
Andréa desdenhou, a voz fugindo sem conseguir retê-la, calar, como gostaria
de fazer tudo o que Bárbara dissesse, mas reconheceu que havia muitos eus
dentro dela que não conhecia ainda, e um deles manifestava-se na
curiosidade disfarçada em ironia:
– Por que, ela é sua? Sai com ela? (“referindo-se à Berenice”)
– Saía. Às vezes, ela dá bola.
– Então me responda, quando você percebeu que era assim? (“Bárbara
pergunta”) Atravessaram a avenida. Andréa mordiscou os lábios. Olhou para
o rosto atento de Bárbara. Ela estava displicente, espontânea, natural.
Respondeu:
– Eu não percebi: eu senti. Você percebeu ou sentiu?
– Acho que as duas coisas, foi instintivo. Percebi que estava olhando pra
mulher, em vez de olhar pra homem. E como você analisou o que sentiu?
– Eu não analisei; entendi, e depois que entendi foi que analisei. (Rios, 2005,
p. 65).
Conforme Adrienne Rich (1996, p. 135, tradução minha), “a existência lésbica sugere tanto o fato da presença histórica das lésbicas quanto nossa contínua criação de significado daquela
existência”95. É dessa forma que Andréa constrói, dia a dia, o significado de sua existência lésbica até se entregar, primeiro à Bárbara e, finalmente, à sua amada Berenice em meio a conflitos, perturbações mentais e sentimento de culpa.
No trecho a seguir, o narrador onisciente intruso revela ao leitor a mente conturbada da protagonista diante da realidade que se descortina:
Era uma vergonha o que fizera. Masturbara-se. Amara o próprio corpo num
delírio doentio, como uma débil mental, imaginando que estava sendo
possuída, estuprada. Por Berenice. Por Berenice?! Como? Ideias absurdas,
pensamentos incríveis criavam cenas na sua mente alucinada. (Rios, 2005,
p. 85).
Tomada por emoções fortes e contraditórias, a adolescente segue seu caminho na tentativa de descobrir-se e viver uma vida verdadeira sem esconder o que é. No trecho a seguir, a protagonista tenta se convencer de que ser lésbica é algo “normal”, mas percebe que seu “background” familiar e social pesa na postura que quer assumir travando uma luta entre seu “eu” mais autêntico e a sociedade da qual é fruto:
Somente uma mulher poderia despertar nela a magia do amor.
Por quê? Procurara explicações em leituras e não se contentara com
nenhuma. Chegara a rir, como se fosse uma sumidade no estudo do visado
problema do homossexualismo […] Podia entender muito bem e estabelecer
que, assim como existem depravações e anomalias entre os heterossexuais,
haveria também entre homossexuais […] Entre os heterossexuais, destacava
os bissexuais com lástima, os depravados, os masoquistas, os sádicos e
tantas outras degenerações. Mas se sentir essencialmente, genuinamente
homossexual, lésbica, era lindo, puro, normal. NORMAL. Ela pensava que a
força da palavra sobressaía como se em negrito de sua mente.
O amor! Não era desejo, nem simplesmente um sentimento de querer bem;
era uma mistura de tudo, de mel e veneno, de fel e açúcar, de lágrima e riso,
de sol e frio, o gelo do arrepio que a cortava toda por dentro, sentindo a
presença de Berenice. Para ela, ser lésbica era lindo! Temia. Sofria, mas
achava lindo. Gostava de ser assim. (Rios, 2005, p.82, grifo da autora).
Butler (1993, p. 59, tradução minha) afirma que
Cada indivíduo é limitado não só pelo que é difícil de imaginar, mas pelo que
radicalmente permanece impensável: no âmbito da sexualidade, essas
restrições incluem o impensável desejo radical por algo diferente, a não
tolerância radical de desejar algo diferente, a ausência de certos desejos, a
compulsão repetitiva de outros, o permanente repúdio de algumas
possibilidades sexuais, pânico, atração obsessiva e a ligação entre
sexualidade e dor.96
Nesse sentido, o “fantasma da heterossexualidade compulsória” ronda a personagem que, em um esforço de pensar o impensável e sentir o que teme sentir, acaba sendo compelida a pensar em anomalias (por desejar diferente, como pontua Butler) ao mesmo tempo em que se sente feliz por possuir esse desejo. Assim, uma gama de sentimentos contraditórios e conflituosos toma conta de Andréa em um vai e vem de questionamentos acerca de seus sentimentos e ações.
Todavia, em um crescendo na narrativa, a protagonista, aos poucos, passa a construir sua identidade lésbica e a se aceitar como é devido à grande paixão que a move. Seus desejos e delírios seguem até o momento em que o ato sexual entre ambas é consumado e então se entregam à paixão:
Realizava o impensado, e aquilo não era um simulacro, acontecia mesmo.
Contorcendo-se de dor, gemendo de prazer, apertando-a contra si,
soergueu as pernas e, como se tivesse prática, abraçou-a com a pernas,
auxiliando-a naquele trabalho que a estava matando de gozos sucessivos e
intermináveis porque era Berenice quem a possuía de modo tão
extravagante, antinatural, mas poderosamente emocional e excitante […]
Berenice beijou-lhe o corpo todo, lambeu-a, sugou-a, fez com que ela
sentisse mais e delirou quando Andréa gozou em sua boca […]. (Rios,
2005, p.183, grifos meus).
Percebe-se, na descrição acima, uma cena ardente, de teor pornográfico e masoquista que, conduzida pelo narrador, nos leva a perceber o quão forte é o desejo e o prazer de uma adolescente cuja obsessão pela professora a conduz a uma quase loucura.
Tamara Packard e Melissa Shraibman (1994) comentam sobre a pornografia homo ou hétero como algo a ser praticado pelas mulheres a fim de libertar a sexualidade feminina dos padrões masculinos e romper com as tentativas de silenciá-las:
Nós definimos pornografia lésbica como um material sexualmente explícito
feito por e para mulheres que têm interesse erótico em outras mulheres […]
as lésbicas, as bissexuais e as heterossexuais podem e devem utilizar da
ferramenta pornográfica masculina e reinventá-la com nossos próprios
significados […]. Nós podemos e devemos usar a pornografia para resgatar
e liberar a sexualidade feminina das definições masculinas e opor-nos
diretamente a qualquer tentativa de nos silenciar. (Packard; Shraibman,
1994, p. 302, tradução minha).97
Ainda, nas palavras das teóricas:
A pornografia lésbica fornece um lugar para as lésbicas se reinventarem,
discutirem, re-erotizarem-se, e promoverem a sexualidade lésbica; é um
lugar para desafiar estereótipos negativos, descrever fantasias, explorar
mitos, ir além dos limites das fronteiras sexuais estreitas das mulheres, e
abraçar o poder sexual. (Packard, Shraibman, 1994, p. 314, tradução
minha).98
Tanto no ato sexual entre Andréa e Berenice quanto em suas masturbações, Andréa possui, surpreendentemente, um lado masoquista, pois de menina “virgem”, criada sob os padrões heteronormativos, se transforma em uma mulher segura que quer se reinventar:
– Me bate…tenho vontade de apanhar, que você me machuque, que…me
morda…bate, Berenice, bate…quero chorar de dor….meu corpo arde…
essas cores invadindo meu corpo….invadindo […]
– Louca, minha menina doida…
– Doida, é uma doidura mesmo. Está certo? Doidura? O que é? Por que me
olha e me aperta? Por que não faz logo?
– Fazer o quê?
– Me fode.
[…]
– Me trepa. Não é isso? Me faz. Vá buscar. Põe em mim outra vez. Penetre-
me como naquela vez.
Diferentemente do postulado feito por algumas feministas quanto ao sadomasoquismo como forma de opressão masculina à mulher
dentro das relações heterossexuais, Pat Califia (1996)99, contrariamente, o defende na relação lésbica. Segundo o escritor, o sadomasoquismo não é uma forma de ataque sexual, mas envolve papeis polarizados, sensações intensas e negociação numa relação de confiança entre as partes. Para ele, discursos feministas contrários a essa prática derivam de um gênero de pornografia comercial – o da dominação masculina e a submissão feminina que encorajam a violência contra minorias sexuais, em especial, os sadomasoquistas.
No momento da relação entre Andréa e Berenice, a adolescente então rompe com os taboos que carregava realizando fantasias e fetiches de forma livre e avassaladora, não demonstrando nenhum temor em revelar seus desejos mais profundos. Já Berenice, mulher experiente, que teve relações sexuais com outras professoras e com várias alunas, inclusive de outras gerações, esconde sua atração por mulheres. Dessa forma, toda a força e poder de uma mulher aparentemente decidida, que sabe bem o que quer, camufla sua real identidade perante a sociedade como um todo. Ela possui um namorado e todos comentam que irá se casar, como mostra o trecho a seguir:
Andréa ficou em silêncio por alguns instantes. O que lhe interessava era
saber alguma coisa mais a respeito dela.
– Afinal, ela é casada ou está noiva ainda?
– Está noiva, de outro. Ela e Freitas romperam. Um arquiteto, Arthur.
Prometeu ir com ele, qualquer noite, jantar lá em casa […]. (Rios, 2005, p.
108).
Por conseguinte, Butler (2003) afirma que
Não ter o reconhecimento social como heterossexual efetivo é perder uma
identidade social possível em troca de uma que é radicalmente menos
sancionada. O impensável está assim plenamente dentro da cultura, mas é
plenamente excluído da cultura dominante. (Butler, 2003, p. 117).
Talvez seja exatamente isso que Berenice teme – perder sua identidade social e, sendo ela uma professora conceituada, assumir sua identidade lésbica pode acarretar problemas que a personagem queira evitar.
Simone de Beauvoir afirma (1980, p. 483), em o Segundo Sexo, que “o certo é que até aqui as possibilidades da mulher foram sufocadas e perdidas para a humanidade e que já é tempo, em seu interesse e no de todos, de deixá-la enfim correr todos os riscos, tentar a sorte.”
Berenice, de fato, não é capaz, como Andréa, de correr riscos, de se reinventar e enfrentar o sistema heteronormativo. Andréa, por sua vez, mostra-se forte e decidida em um crescendo na narrativa que a transforma em uma verdadeira guerreira lutando para ser feliz e viver um grande amor. Berenice, no final da narrativa, faz uma comparação entre ela e Andréa alegando que ambas são duas traças. Embora Andréa negue a comparação, Berenice atesta “sinto-me como a traça que se esconde entre as costuras dos livros para, no fim, morrer esmagada entre suas páginas” (Rios, 2005, p. 226).
The Twelve Tribes of Hattie (2013), de Ayana Mathis, narra a história de uma mulher negra, Hattie, que se muda da Geórgia (sul dos EUA) para a Filadélfia (norte) em busca de melhores condições de vida e dignidade, após fugir com sua mãe e irmãs, de uma violenta política racial que assassinou seu pai. Na Filadélfia, Hattie tem os seus dois primeiros filhos, gêmeos, aos dezesseis anos. Nesse momento sentese feliz e otimista; no entanto, os gêmeos morrem de pneumonia e todos os seus sonhos se desfazem.
Levando uma vida de miséria e privações com um marido que mente, trapaceia e a trai, perambulando de bar em bar todas as noites, Hattie cria nove filhos e uma neta (os dois primeiros, gêmeos, morrem ainda bebês) e sua vida se resume em dar de comer e vestir aos filhos, não sobrando mais espaço para sentimentos de amor e afeto. Em função disso, torna-se uma mulher rude, mas de forte personalidade, que não se deixa abater pelas vicissitudes, mantendo-se firme no propósito de alimentar e vestir sua prole. O romance refere-se aos seus doze descendentes e suas vidas privadas que tomam rumos diferentes, cada qual lutando pela sobrevivência. A autora, ao nos apresentar cada descendente em uma série de narrativas interligadas, discute gênero, sexo, religião, poder, discriminação, traição e culpa, como se observa nos excertos que se seguem.
Este primeiro, traz o conflito da homossexualidade de um dos filhos de Hattie:
Lafayette aproximou-se dele no banco. Passou os dedos na nuca de Floyd.
A respiração estava acelerada, porém estável. Enfiou a mão dentro da
camisa de Floyd […] a mão fria do garoto esquentou no peito de Floyd […] O
suor de Floyd e de Lafayette se misturou às gotas de chuva e escorreu pela
pele dos dois. Floyd não conseguia deixar de olhar o pênis de Lafayette
pendurado entre as coxas. (Mathis, 2014, p. 28-29).100
O trecho apresenta Floyd em uma relação homoerótica, mas, logo adiante há todo um questionamento a respeito do fato dele ter se interessado verdadeiramente por um homem e busca, em diálogo com Lafayette, entender o que está acontecendo consigo. Cogita a possibilidade de ficarem juntos em uma relação estável, contudo, afirma que ninguém pode desconfiar disso, ou seja, não quer mostrar seus sentimentos para a sociedade. Segundo o psicanalista norteamericano Goldberg (1981), ao homem não é dada permissão para demonstrar seus sentimentos livremente, portanto, o que ele demonstra ser por fora é, muitas vezes, uma fachada do que seria por dentro, ou seja, ele se controla por meio da negação de si mesmo. Assumir-se e assumir seus sentimentos por alguém do mesmo sexo, para o personagem, pode causar-lhe transtornos, já que é um homem público – Floyd é músico.
A seguir, Six, um outro filho de Hattie, torna-se reverendo e, por acreditar que faz bons sermões movido por intuição divina, dádiva concedida em função de sua saúde frágil (possui queimaduras por todo o corpo e, com isso, tornou-se uma figura feia), aproveita da situação para ganhar a vida e atrair mulheres, tanto como fiéis religiosas ou para ter relações sexuais com elas, exercendo o seu poder de convencimento:
Six rememorou a primeira vez que a tinha visto, com seu vestido amarelo
molhado colado às coxas. Enfiou a mão debaixo da saia dela. A pele era
macia como a luz da primavera. Os músculos das coxas ondulavam sob
seus dedos quando ela tirou o vestido e abriu as pernas para ele. (Mathis,
2014, p. 71).101
Segundo Foucault (1999) poder e religião vitalizam as práticas discursivas maximizando as relações de dominação e subalternidade, relegando aos menos favorecidos um sentimento de impotência arraigado ao seu subconsciente. Six envolve, com sua boa retórica, os menos favorecidos, fazendo-os acreditar que opera milagres (usa sua própria mazela para convencer os fiéis), além de conseguir sensibilizar as mulheres que, após recuperadas de algum mal físico, em um ímpeto de gratidão, acabam se envolvendo com ele, das formas citadas acima (como fiéis à sua religião ouvindo seus sermões e pagando o dízimo ou se entregando aos prazeres sexuais).
Neste outro trecho, temos o exemplo de uma cena de discriminação racial quando a irmã de Hattie e o marido partem da Geórgia para a Filadélfia com o intuito de buscar uma das filhas de Hattie para que ambos a criem. No caminho, param para fazer um lanche e se sentam em um banco. Nesse momento, alguns homens brancos aproximam-se e começam a insultá-los e os expulsam do local alegando que ali não era lugar para negros. O casal sai do local humilhado, como cordeirinhos obedientes nas mãos dos empoderados brancos:
– Vocês não sabem que no estado da Virgínia nós guardamos os melhores
lugares para os brancos? Acham que construímos esse belo banco para
vocês sentarem? – Fez uma pausa. – De onde vocês são? […]
[…]
Vocês pagam impostos? […] O grandalhão pôs a mão no peito de Benny e
empurrou. Benny cambaleou mas não caiu […]
– Sim sinhô – sim sinhô. – Sim, sinhô, pagamos nossos impostos.
– Bom, agora vocês vão ter que pagar outro. Agora vão embora antes que
eu mude de ideia.
Pearl apoiou as mãos na mesa e começou a se levantar. Parou ao perceber
que teria de passar a perna direita por cima do banco e aquele lixo branco ia
ver o tornozelo dela. Não conseguiu se mexer […]
O grandalhão falou:
– Sua patroa quer ficar aqui.
Todos deram risada. (Mathis, 2014, p. 111-112). 102
Diante disso, Hooks (1996) afirma que “nós precisamos seriamente falar sobre o fim do racismo se nós quisermos ver um
fim para o ódio”. A supremacia branca é assustadora”103 (Hooks, 1996, p. 30, tradução minha). Ou seja, o ódio branco faz com que eles exerçam seu poder deliberadamente sobre os negros subalternizados, ficando suas vozes por longos séculos e até os dias de hoje, ainda obliteradas.
Em um momento na trama, Hattie trai o marido e sai de casa com o amante levando uma filha bebê, fruto desse relacionamento. A protagonista se cansa de seu cotidiano de cuidar de filhos, da casa e de um marido que não a apoia e ainda que gasta os poucos centavos que possuem em bebidas, cigarros e mulheres. Ao partir, ela deixa um bilhete ao cônjuge:
O nome dele é Lawrence Bernard. Só estou dizendo para o caso de
acontecer alguma coisa com as crianças e você precisar me localizar. Estou
indo para Baltimore. Volto depois para buscar meus filhos. Mandei todos ao
parque. Pode deixar recados para mim com Marion. (Mathis, 2014, p. 93). 104
Entretanto, no meio do caminho, resolve retornar porque sente culpa em deixar os outros filhos que ainda precisam muito dela, além de perceber que o amante não iria oferecer uma boa vida a ela, já que era viciado em jogos.
A seguir, temos dois exemplos de como a hegemonia branca interfere na visão que alguns negros têm de sua própria raça. No primeiro, o marido de Hattie a condena por estar indo embora com o amante, tratando-o como “preto desqualificado”. Todavia, como homem, August, o marido, pode ter as amantes que quiser, usufruir a liberdade que almeja e ainda maltratar a esposa:
A casa estava em silêncio […] Hattie devia estar na estrada a essa hora,
pensou August […] Hattie pretendia buscar as crianças assim que se
estabelecesse. August a xingou quando ela disse isso. Falou que poria fogo
na casa, mas não deixaria nenhum filho ir morar com ela e um preto
desqualificado. (Mathis, 2014, p. 85).105
No segundo, a mulher negra, tal qual a branca, nesse caso, sofre represália quando trai. Ao homem (branco ou negro) é dado o privilégio de trair sem ser execrado, o que não ocorre com a mulher. Na passagem que segue, o filho de Hattie, Six, ouve insulto de um garoto com relação à sua mãe:
Sua mãe, Hattie é uma puta – disse Avery, vendo seu livro afundar na água
enlameada. Usou o primeiro nome dela. Disse que tinha visto a mãe dele
beijando um homem na esquina em plena luz do dia, e que os vizinhos
estavam falando que ela virara uma mulher fácil porque August não valia
merda nenhuma. (Mathis, 2014, p. 67).106
Assim, Hooks (1996) afirma que os desafios de enfrentamento do sexismo e preconceitos étnico-raciais corroboram a construção de subjetividades massacradas ao longo de discursos dominantes da hegemonia branca, que acabam sendo reproduzidos dentro das relações de poder nas comunidades negras em questão. Esses preconceitos são tratados na obra, tanto com relação ao sexismo (o homem em situação de privilégio com relação à mulher) tanto com relação à classe social. Os negros ricos discriminam os negros pobres e esses últimos sofrem dobrado por sua condição inferiorizada, de ser negro e pobre. A situação piora quando a autora ainda traz uma personagem do romance que é mulher, negra e pobre. Caso de Alice, filha de Hattie. Ela é casada com um médico negro e rico e é absolutamente infeliz e discriminada pela alta sociedade negra.
Como se pôde constatar por meio de breve análise de ambos os romances, eles instigam uma boa discussão acerca dos temas propostos e foram escolhidos, especialmente, por tratar de escrita feminina e de temáticas femininas a fim de levantar questionamentos em salas de aulas de literatura sobre a situação histórica e cultural das mulheres, tanto como escritoras quanto como foco das narrativas. Pretende-se, com essas obras, estimular profundas discussões e reflexões, especialmente, quando se trata de se pensar as mulheres negras e lésbicas, tidas como “invisíveis” pelas sociedades ao longo de nossa história. Spivak (2014) relata sobre a problemática da questão “mulher” que ela chama de “a mulher subalterna” seja pela opressão de cor, classe ou gênero e que, apesar dos esforços de muitas ciências como, citadas por ela, a Antropologia e a Sociologia, para a construção de uma consciência antissexista, “a mulher subalterna continuará tão muda como sempre esteve” (Spivak, 2014, p. 112).
Portanto, questões de gênero (envolvendo a sexualidade), raça e poder são levantadas e problematizadas nas discussões que se propõe. O aluno de graduação, ao se deparar com obras literárias que tratam desses assuntos, sente-se mais apto a emitir sua opinião com relação à essas questões, embasados por teorias que discutem essas temáticas, considerando ainda os contextos das narrativas, bem como o pré-conhecimento dos discentes com relação aos temas.
Com relação à sexualidade, assunto polêmico dentro das discussões de gênero, Louro (2013, p. 137) afirma que essa é tratada em sala de aula com uma série de dualismos tais como: “saudável/doentio, normal/anormal (ou desviante), hete-rossexual/homossexual, próprio/impróprio, benéfico/nocivo etc.” e que isso se dá devido à organização da família nuclear constituída por um casal heterossexual e filhos.
A teórica trata da escola na qual nossos alunos irão atuar, mas isso não é diferente no ensino superior. A meu ver, romper com esses dualismos e a visão etnocêntrica não é tarefa fácil, já que fomos criados dentro dessa forma dual e imperialista de ver o mundo. Não obstante, devemos ir além dessa visão restrita discutindo novas epistemologias com os graduandos para que eles, por sua vez, possam, criticamente, debatê-las em suas aulas, sejam elas de literatura, língua ou qualquer outra disciplina que venham a ministrar. Além disso, a autora também menciona que as questões do feminismo radical que corrobora o patriarcalismo, trazem “uma arrogante e generalizante visão branca, heterossexual, ocidental e de classe média presente nas teorizações” (Louro, 2013, p. 160). Ela então acredita que a recente crítica feita pelas mulheres negras e lésbicas com relação à essa visão seja importante para os desafios de se tomar a mulher marginalizada como objeto de estudo para que se construa uma nova epistemologia feminista, entendendo “feminista” como um novo trabalho de investigação das lacunas ainda existentes na compreensão do “ser mulher” e sua posição no mundo.
Nessa acepção, os nossos universitários devem estar preparados para os novos desafios que encontrarão ao se depararem com as salas de aula do ensino fundamental e médio, já que a escola é atravessada pelos gêneros, de acordo com Louro (2013). Desse modo, os educandos, na medida em que entendem seu papel social como futuros educadores e de como a literatura pode ajudá-los no processo de emancipação intelectual, eles serão capazes de agência. É essa emancipação intelectual um dos pilares para que a transformação pessoal e educacional ocorra.
Biesta (2008) trata, interessantemente, de uma nova lógica de emancipação, não a lógica moderna em que o emancipado cria dependência do emancipador. O teórico afirma que
A nova emancipação não mais se pauta numa relação de dependência. As
pessoas não precisam esperar até que seus emancipadores as digam que
elas podem se mover; elas podem fazer o movimento aqui e agora. Isso
também mostra que a nova emancipação começa a partir do pressuposto de BIESTA, Gert. The education-socialization conundrum or “Who is afraid of education? Utbildning & Demokrati journal. UK: University of Stirling, 2007. v. 16, n. 3, p. 25-36.
igualdade, em que todo mundo é considerado capaz de fazer a mudança.
(Biesta, 2008, p. 175, tradução minha).107
Corroborando Biesta, Rancière (2011, p. 13, tradução minha) acrescenta que
A emancipação começa quando desafiamos a oposição entre ver e agir;
quando nós entendemos que fatos auto evidentes que estruturam as
relações entre dizer, ver e fazer, eles próprios pertencem à estrutura de
dominação e subjeção. 108
Dessa forma, o processo de emancipação intelectual nos moldes contemporâneos, apresenta outro desafio para os educadores em nível de graduação na medida em que deve haver um cuidado ainda maior para que o emancipado possa compreender e internalizar as complexas relações entre igualdade, diferença e as relações de dominação e sujeição dentro das discussões de gênero, raça, poder, etnia, religião e outros.
Nessa perspectiva, faz-se imprescindível que os debates sobre gênero, raça, poder, identidade e temas correlacionados sejam exaustivamente debatidos para que se possa acabar com os (pré)conceitos em todos os sentidos, e para que os graduandos estejam suficientemente embasados e aptos a discutir esses temas em suas aulas porque, segundo Biesta (2007), a educação refere-se à formação dos seres humanos e ao modo como encontram seu lugar no mundo. Acredito que a literatura tem o papel fundamental de proporcionar o encontro de si consigo mesmo, de si com o mundo e de abrir nossos olhos para entendermos quais funções devemos desempenhar enquanto cidadãos críticos e corroborar uma formação de qualidade e libertadora.
Referências
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