Espero Alguém
Gerúndio
Durante meses, falei que estava me separando. Para me acostumar. O gerúndio um dia acontece.
Não me acostumei, confidencio a você o que experimento, talvez para ter maior clareza sobre o que me machuca.
As alegrias não são mais como deveriam. As tristezas não são mais como deveriam.
Não consigo encerrar uma como a outra.
A tristeza não tem fundo. Tristeza é quando não temos mais fundo. Procuro desidratar, espernear, rastejar dentro do sangue, ser um réptil de pele grossa, deixar a barba a esmo, esmagar os travesseiros com um misto de soluço, tosse e socos dos olhos, mas sempre sobra dor para o dia seguinte. Por mais que me esforce em terminá-la — resta uma angústia inédita, uma angústia inesperada, que parte de uma vivência simples como frequentar um parque ou atravessar uma rua conhecida. Não é um parque qualquer, é onde a ex-mulher me acompanhava. Não é uma rua qualquer, é onde atravessávamos de mãos dadas.
Nunca sei quando vai doer — isso é o que mais dói.
A dor é mais uma morte em mim. Não me separei de uma esposa, eu me separei do que eu era com ela. São duas separações ao mesmo tempo.
Não duvido que o excesso de sensibilidade me torne insensível. Estou tão vulnerável que não sinto nada.
O riso é também pela metade. O riso hepático, mais uma contração facial do que uma respiração desembaraçada. Aceno com a cabeça, não é mais aquele salto felino dos dentes. Meu sim virou um não simpático, com a leve inclinação dos lábios. Não abro, nem fecho: respiro pela boca.
Perdi mais do que a sinalização de qual era a mão esquerda com a aliança. Ainda não sei o que perdi. Amanheço e percebo que perdi mais uma coisa. Tudo me engravida e eu perco. Perco muitas crianças em cada lembrança.
Observo o apartamento que já não é meu, como se o último ano estivesse para ser alugado. Sou um hóspede com memória de morador, o impulso de tocar o que não me pertence. O conjunto de peças de demolição que compramos, a manta vermelha para cobrir o sofá, a poltrona para leitura, o tapete que nos obrigou a adiar as férias. Quando assumimos o imóvel, contávamos com apenas um colchão, raras estantes e um abajur trincado. Lembro o quanto custou a superfície de nossa paz. Controlo-me para não arrumar as venezianas e pintar as paredes. Ela vai reparar que não resisti e troquei as lâmpadas do lustre do quarto. Deduzi que precisava de luz para dormir. A verdade é que não sou mais daqui, sequer de outro lugar. Se não tenho para onde voltar, não tenho para onde ir.