Espero Alguém

Carpinejar · Capítulo 58 de 102

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Espero Alguém

A primeira mulher

 

Eu descobri o momento em que eu me apaixonei por uma mulher.

A primeira mulher.

As mulheres em uma única mulher.

Era uma menina. E eu era um menino.

Até os dez anos, não me interessava pelo universo feminino: na escola, guris de um lado jogavam futebol e bolita, meninas do outro pulavam corda e brincavam de Cinco Marias. Havia um internato no sangue separando os sexos. As rodas andavam em dois clubes, do Bolinha e da Luluzinha, em segregação total.

Se alguém perguntava para mim se tinha namorada, fazia careta, expressão de nojo, soltava um “nunca”, resmungava “Eca”. Só queria brigar e suar e não compreendia qual a graça que as colegas encontravam em trocar corações e adesivos no caderno.

Mas Gisele me mostrou o que significava amar. Eu não quis saber de outra coisa ao longo dos meus 40 anos. De verdade. Assim como tem gente que escolhe ser médico, engenheiro, advogado, jornalista, escolhi amar naquele momento. Amar é minha profissão. Vou morrer sem me aposentar. Vou morrer devendo palavras.

A cena fundadora teve de palco a sorveteria Ilhabela, no bairro Petrópolis, na esquina com o colégio Santo Inês.

Gisele me convidou para tomar uma casquinha. Chocolate e morango misturados.

Eu ia dizendo não, mas ela tirou do bolso uma cédula adulta, digna de carteira de pai, que dava para comprar uma tarde ininterrupta de doce.

Sentei com ela, tenso, frente a frente, nas cadeiras de plástico.

Eu lambia o meu sorvete, ela lambia o dela.

Natural numa tarde de 30 graus, o sorvete começou a derreter aos lados, sobre os dedos.

Ela ia me avisando onde escorria.

— Aqui!

— Rápido, mais embaixo.

Eu ria, feliz de ser cuidado, feliz que ela reparava em minhas unhas, feliz que ela me protegia.

Passei a avisá-la também.

— Vira, vira, tá descendo!

— Agora, ali!

Ela ria, igualmente animada com nossa cumplicidade, eu já cuidava dos seus cuidados, cuidava sendo cuidado.

Não poderia existir maior demonstração de amizade do que apontar onde o sorvete deslizava, antecipar o pensamento, adivinhar o gesto.

Divertíamos com as descrições.

Olhei seu rosto de um jeito diferente. Como antes olhava uma partida de futebol.

Com o mesmo nervosismo. Aquele jeito encabulado, de quem encara sua boca mais do que os olhos e furta um beijo com a respiração.

Quando atravessamos a Protásio Alves, ela correu puxando minha mão.

Eu atravessei minha vida naquela rua.