Espero Alguém
Já anoiteceu!
O tempo passa rápido para os outros, não para vocês que estão casando. O tempo está vivo em vocês. Minucioso. Detalhista. Obcecado.
É como ficar o dia inteiro em casa. E, de repente, perceber que anoiteceu.
“Já anoiteceu!” é uma das expressões mais bonitas. Já anoiteceu significa que não controlamos as horas. Já anoiteceu é sinônimo de alegria, de esquecer o que há lá fora por aquilo que carregamos dentro.
Casar é anoitecer. É quase a perguntar: “Como chegamos aqui?”
Eu respondo: Vocês não notaram. Apaixonados, não se preocuparam com a janela. Vocês anoiteceram. Um olhando o outro. Preocupados apenas em um olhar o outro.
Está noite lá fora enquanto é sempre manhã para os dois.
Parece que foi ontem, parece que foi na semana seguinte, parece que acabaram de se encontrar.
O amor torna tudo sempre recente. O mais antigo é também agora.
Lembro de uma história de meu avô. Ele era do interior do estado e visitou os filhos na capital. Perante uma escada rolante, não vacilou, como todos faziam na época. Subiu, desajeitado, cuidando para não enroscar os longos cadarços na esteira movediça.
Seus filhos, espantados com a coragem, logo perguntaram:
— Como você não teve medo?
Ele respondeu de bate-pronto, sem modéstia:
— Ora bolas, nada demais, na viagem de carro eu sou a escada rolante da paisagem.
Quando amamos, não reparamos os degraus; somos a escada.
É certo que todos vão envelhecer, menos ele para ela e ela para ele. Guardarão a imagem intocável da primeira vez que se observaram.
Não vão envelhecer, porque o amor perdoa o tempo. As rugas, os vincos, os cabelos grisalhos, nada disso virá para quem ama. Não virá porque um dia ele olhou para ela e se convenceu: nunca mais vou esquecê-la. Ela olhou para ele e se bastou: nunca mais vou esquecê-lo. E aquele rosto apanhado em segredo — como uma água-forte — é uma espécie de resistência.
Vocês podem esquecer que existiram, nunca que se amaram.
Podem esquecer qualquer coisa, até a si mesmos, mas nunca mais poderão esquecer que se amam.
O rosto de um é a promessa de outro. Quando vocês acariciam suas feições, tocam em palavras. E palavras de amor não podem ser apagadas, nem corrigidas. Palavras são destinos.
Tentem escolher uma única lembrança alegre de vocês. Descobrirão que será difícil selecionar. Não há como escolher, não é que faltem lembranças boas, sobram lembranças boas, e ambos não desejam injustiçar nenhuma delas.
Na verdade, a memória do casal tornou-se uma só recordação. Ininterrupta. Perdas, festas, intimidade, risos, suspiros, brincadeiras, dores, superações, tudo está junto. Misturado.
Quando se ama alguém, ama-se a vida inteira daquela pessoa. Inclusive o que não se viveu.