Espero Alguém
Tal mães, tal filho
TAL MÃE, TAL FILHO
Não é simples conhecer os próprios defeitos. Humildade depende de dupla audácia, primeiro se descobrir, depois se aceitar.
Mantive uma atitude lamentável ao longo da vida (percebi tarde demais, quando o triste hábito já pertencia ao caráter). Minha mulher foi a vítima. Maltratei sua generosidade e explorei sua paciência.
Telefonava para a mãe e entregava o fone para a companheira. De supetão.
Ela não pediu para falar com ninguém. Estava feliz: cozinhando, forrando as gavetas, podando as flores.
Eu entregava sem olhar:
— O que é?
— É minha mãe…
A esposa pegava o gancho, deduzindo que a sogra queria conversar com ela, mas não, eu apenas forcei o encontro das vozes. E a sogra jurava que ela tinha alguma intenção, mas não, tampouco houve interesse.
Eu criava um mal-estar diplomático. O telefone negro bicaria a orelha delicada e inocente da esposa horas a fio.
Eu nem recriminava meu gesto, não me desculpava, considerava normal repassar adiante o problema, afinal o alívio sempre ocupa o lugar da verdade.
Não sabia dizer tchau à mãe e transferia minha incompetência. Não era capaz de cortá-la, com medo da chantagem materna, do jogo sujo, do revanchismo familiar “eu te criei para agora me abandonar”.
Telefonar para a mãe correspondia a sair outra vez de casa, justificar toda escolha pessoal, profissional, amorosa e se arrepender das decisões da adolescência.
Até porque mãe italiana não cumprimenta, questiona. Não é um “tudo bem?” normalzinho, mas um fatídico “está tudo bem mesmo?”, de quem já recebeu informações privilegiadas.
Até porque mãe italiana faz suspense da fofoca, liga para estranhamente anunciar que não pode contar algo.
Até porque mãe italiana só começa um novo assunto depois de realizar retrospectiva do que foi dito.
Até porque mãe italiana não aceita ser interrompida, e aproveita a culpa para testar o amor do filho. É tentar desligar que choraminga desgraças. Ela é que deve se despedir senão desanda a inventariar maldições.
— Você não me ouve, nunca me escuta até o fim, não respeita os mais velhos, ainda vai me pôr no asilo!
Em desespero, eu largava o aparelho de qualquer jeito e desaparecia. O que nunca havia descoberto é que minha mãe passava o telefone para meu pai terminar a conversa com minha mulher.