Estudos métricos da informação no Brasil
Introdução: O Contexto dos Estudos Métricos na Ciência da Informação no Brasil
Introdução:
O Contexto dos Estudos
Métricos na Ciência da
Informação no Brasil
Onde se apresenta e se trata o tema desse livro.
No Brasil, a produção científica, fruto da história das políticas científicas e do contexto sociocultural, concentra-se nas universidades públicas, o que a coloca no centro das políticas nacionais de ciência e tecnologia. Vários estudos têm mostrado o crescimento expressivo da ciência brasileira, particularmente nos últimos 25 anos.
Dentre esses estudos, citam-se os de Glänzel, Leta e Thjis (2006) ao destacarem que a Ciência, no Brasil, só pode ser compreendida no contexto latino-americano. Como resultados, o Brasil tem provado ser o líder na região nos últimos anos, e sua comunidade científica é caracterizada por intensa colaboração internacional com o ambiente geopolítico, e com o Norte da América e Europa, de forma menos intensa.
Os dados coletados no Portal Scimago Journal & Country Rank
(SJR) 1, em agosto de 2016, mostram que o Brasil, no período de 1996 até 2015, é o líder da América Latina, sendo responsável, por aproximadamente 48% da produção científica do continente latino americano.
O desenvolvimento de infraestrutura tecnológica e a expansão da comunidade acadêmica brasileira são acontecimentos recentes, segundo os estudos realizados por Leta, Glänzel e Thijs (2006)-parte 2. Nesta pesquisa destacam que esse processo foi iniciado formalmente na década de 1950, quando as agências de financiamento público foram fundadas e começaram a apoiar atividades de pesquisa. A partir da década de 1970, as políticas públicas científicas estavam focadas na formação de recursos humanos. Isto resultou na expansão dos programas de pós-graduação e do número de bolsas concedidas aos estudantes brasileiros de pós-graduação, o que incentivou a pesquisa e alavancou a produção científica.
O crescimento da ciência em âmbito mundial e, alinhando-se a este, o crescimento da ciência no Brasil, geraram a necessidade de metodologias e procedimentos pertinentes para avaliar o ascendente incremento da produção científica. Estes estudos, constituem-se interesses de pesquisas, para os estudiosos provenientes de diferentes áreas da ciência que desenvolvem estudos sobre a informação, a literatura científica, tecnológia, avaliação da atividade científica, para subsídiar políticas públicas de avaliação e incentivo ao desenvolvimento da ciência e tecnologia. Portanto a mensuração e avaliação da atividade científica é atividade de pesquisa necessária a qualquer campo. Este recurso não é original da pesquisa em Ciência da Informação atual, mas seu resultado é subsídio para a pesquisa científica.
Para tanto, as metodologias, tanto quantitativas quanto qualitativas, como as demais que utilizam estas duas abordagens de forma simultanea, passam a ser foco de interesse de pesquisadores, especialmente a partir de 1970, quando a hegemonia dos números, em pesquisa, deixa de existir. Começam a ganhar forças, tanto na França quanto nos Estados Unidos, as críticas feitas à pesquisa quantitativa nos campos da Psicologia e Sociologia (MUELLER, 2007). Desenvolvem-se as metodologias qualitativas, tais como método da observação, método histórico, pesquisa-ação, pesquisa exploratória, análise do discurso, análise de redes sociais, entre outras.
Hoje, os métodos quantitativos em Ciência da Informação constituem o conjunto de conhecimentos relacionados à avaliação da informação e da ciência produzida, fundamentam-se na sociologia da ciência e utilizam-se de quantificações, com procedimentos advindos de outras áreas, como a matemática e estatística, bem como computação. São vistos diferentemente quando interpretados somente pela ótica eminentemente positivista, onde os números eram vistos de forma isolada do contexto onde emergiram. Avaliar a produção científica nas diversas áreas do conhecimento, significa visualizar o comportamento da ciência, a partir de indicadores bibliométricos, por meio de análises epistemológicas, históricas e sociais, do contexto onde nasceram. Os números não valem por si só, mas a partir da análise do contexto de origem.
Os Estudos Métricos da Informação de vertente quantitativa desenvolveram-se a partir da Bibliometria, tendo na Informetria sua maior amplitude. A maioria dos artigos que adota o termo Estudos Métricos é de autoria de pesquisadores da Ibero-América, especialmente de Cuba, Espanha e Brasil e, com menor frequência, artigos advindos de pesquisadores da Índia, Estados Unidos e Hungria. No Brasil, alguns autores apontam que os termos Bibliometria, Metrias da Informação, Estudos Bibliométricos ou Estudos Métricos da Informação são considerados sinônimos. Qualquer que seja a terminologia adotada, os pesquisadores incluem nelas as seguintes subáreas: Bibliometria, Cientometria, Webmetria, Patentometria, Altmetria e Informetria (a mais ampla).
A Patentometria é mais recente e a Altmetria é a última a surgir. Apesar de cada uma dessas temáticas de estudo apresentar objetos e especificidades próprios, de modo geral, elas são usualmente chamadas de Estudos Bibliométricos ou Estudos Métricos da Informaçao pela comunidade científica. Optou-se pela expressão Estudos Métricos por se entender que a expressão “Estudos” é de maior amplitude e mais abrangente que a expressão “Metrias”, que, utilizada de forma isolada, significa mensurações, pesos e medidas, portanto, com sentido mais restrito e técnico.
Os Estados Unidos, Rússia, Bélgica, Holanda e Espanha, entre outros, são os países precursores destes estudos.
No início dos anos de 1980, segundo Glänzel (2003), esses estudos apresentaram um aumento acelerado em âmbito mundial,
quando evoluem para uma disciplina científica distinta 2, com um perfil específico de investigação, em seus vários subcampos e as correspondentes estruturas de comunicação científica, em função principalmente da disponibilidade de grandes bases de dados bibliográficas e o rápido desenvolvimento da Informática, com o advento da Internet, computação e tecnologias.
Tais adventos comportaram-se como marcos na história dos Estudos Métricos da Informação. Registrou-se, a partir de então, um renovado e crescente interesse pelos seus procedimentos e abordagens. A evolução narrada passou a permitir o tratamento de grande quantidade de dados aumentando a racionalidade nas tomadas de decisões em políticas científicas e em Planejamento, Ciência e Tecnologia.
No Brasil, os estudos para a análise e avaliação da ciência produzida nas diferentes áreas do conhecimento, em âmbito regional, nacional e internacional, foram influenciados pelo aumento da produção científica, a partir do início da década de 1970, e em decorrência, especialmente, do desenvolvimento do ensino superior. Aliado ao desenvolvimento tecnológico e às mudanças socioeconômicas, essa causa influenciou fortemente os programas institucionais em todas as áreas da ciência, pois a expansão dos cursos de graduação estimulou a criação dos de pós-graduação, quase inexistentes, e estes aumentaram a demanda por pesquisas. O Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação-IBBD, atual Instituto Brasileiro de Informação Científica e Tecnológica (IBICT), iniciou os primeiros estudos bibliométricos.
A partir dos anos de 1990, registra-se um grande avanço em análises que envolvem as metodologias quantitativas, à luz de novos paradigmas epistemológicos que serão desenvolvidos em capítulo próximo, além de políticas que subsidiaram pesquisas e impulsionaram a construção do conhecimento na área. Os processos de avaliação da CAPES-Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior –, relativos aos procedimentos, às questões de mensuração e avaliação da ciência, exigiram aperfeiçoamento e critérios mais rigorosos, que, por sua vez, geraram a necessidade de novas pesquisas para a criação de indicadores que pudessem avaliar com maior presteza a ciência em seus diferentes campos.
Neste contexto, a produção científica na temática Estudos Métricos da Informação cresceu significativamente em âmbito nacional e internacional (MENEGHINI; PACKER, 2010), tendo como principais focos de estudos a análise da produção científica, os pesquisadores, a colaboração entre eles, o impacto causado por meio de citações, a média de citações, a obsolescência e outros indicadores, tais como a inserção na ciência produzida pelos países
periféricos 3 na ciência mainstream, a fim de se avaliar a contribuição dos países em desenvolvimento para a ciência internacional.
Segundo esse estudo, o número de publicações em Estudos Métricos cresceu 13 vezes no período de 1990 a 2006, bastante acima do crescimento da ciência brasileira, no geral, que foi de 5,6 vezes, alinhando-se ao crescimento da ciência mundial, também neste tema. Porém, apesar desse incremento de pesquisas, os autores apontam, nesta época, a baixa presença dos profissionais da área de Ciência da Informação nestes estudos.
Este livro propõe-se a analisar os rumos das pesquisas em Estudos Métricos da Informação no Brasil, no âmbito das diferentes áreas das ciências e, especialmente, o papel desempenhado pelos pesquisadores, profissionais no que tange às contribuições para a ciência brasileira e para a ciência internacional nesta temática.
Com base nas questões apresentadas e considerando a importância dos Estudos Métricos da Informação, ao oferecerem subsídios teórico-metodológicos para que grupos, instituições ou países avaliem sua produção, o presente estudo pretende responder as seguintes questões:
A que se prestam os Estudos Métricosda Informação? Quem são os grandes produtores quer pesquisadores ou instituições, no tema no Brasil? Em torno de quais temas as comunidades de pesquisadores dialogam e fazem interlocução? Qual o impacto que produzem em âmbito local e internacional? Quais parcerias e colaborações formam entre si e quais os principais canais de disseminação desta área? Quais são os interlocutores brasileiros que contribuem para a ciência mainstream, isto é, para a ciência dos primeiro mundo? Qual o espaço ocupado pelos profissionais da Informação? São questões que deverão ser elucidadas no transcorrer e final deste estudo.
Em sua apresentação e análise de dados, a partir das questões propostas, este livro analisa a comunidade dos pesquisadores pertencentes à área de Estudos Métricos da Informação, no Brasil, por meio de abordagens bibliométricas, a partir de três universos significativos e relevantes: o GT7 da ANCIB-Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação,-denominado Produção e Comunicação da Informação em CT&I, em seu grupo de trabalho denominado GT7; os Encontros Brasileiros de Bibliometria e Cientometria, (EBBCs); e as publicações de pesquisadores brasileiros em bases de dados internacionais (Scopus), com vistas a avaliar a extensão da internacionalização do conhecimento produzido. Toda a análise está compreendida no período de 2003 a 2011.
Destacam-se, em âmbito nacional, os autores e as instituições mais produtivas e as temáticas mais presentes, por meio dos indicadores de produção, em dois dos universos apresentados: os oito ENANCIBs, que ocorreram no período de 2003 até 2011; o 1°, 2° e 3° EBBCs, que ocorreram em 2008, 2010 e 2012, respectivamente; e dos indicadores de citação e cocitação.
Em âmbito internacional, registra-se a presença de pesquisadores brasileiros na base Scopus, com a finalidade de se compreender a contribuição da ciência produzida, no Brasil, no tema em questão para a ciência internacional, por meio da identificação dos pesquisadores e instituições mais produtivas, temáticas mais destacadas e dos pesquisadores mais citados, delineando-se as redes de coautoria e a inserção dos mesmos na produção científica mundial.
Tendo em vista os conjuntos de pesquisadores provenientes dos dois eventos nacionais – GT7 da ANCIB e EBBCs –, como também o universo internacional relativo à presença dos pesquisadores brasileiros na base Scopus – estudados em sua produção e impacto –, agrupa-se o conjunto total de pesquisadores segundo similaridades relativas a essas duas variáveis, por meio de clusters, utilizando a análise multivariada. Isso permitirá verificar a presença simultânea dos pesquisadores nas duas instâncias, nacional e internacional, evidenciando os pesquisadores de destaque.
Os registros de estudos realizados chamam a atenção para a quase inexistência de trabalhos teóricos e metodológicos, que evidenciam o estágio atual dos Estudos Métricos da Informação, no Brasil, e a inserção desta temática na Ciência da Informação, deixando o tema à deriva. O assunto é tratado em artigos, porém constata-se a ausência quase total de livros. O fato de a especificidade desta área não ser suficientemente reconhecida, estes são justamente os motivos para que trabalhos como estes, sejam realizados e publicados, por terem como nascente a pesquisa e a docência da autora.
Os estudos de Meneghini e Packer (2010), mencionados anteriormente, alertaram para a baixa presença de pesquisadores advindos da área de Ciência da Informação na temática Estudos Métricos. Nesta pesquisa, os autores mostraram que apenas ¼ dos pesquisadores que publicam na temática provém da área de Ciência da Informação e os demais se distribuem pelas grandes áreas de humanas/administração, biologia/biomédicas, saúde e exatas. A participação discreta de pesquisadores advindos da Ciência da Informação na área de Estudos Métricos da Informação foi um dos motivos que mais instigaram o estudo ora proposto.
Soma-se à questão anterior o fato de o 1° EBBC, realizado em setembro de 2008, registrar baixa presença de pesquisadores advindos da área de Ciência da Informação, embora alguns tenham participado da organização do evento e proferido palestras.
A proposta de realizar um estudo sobre o atual cenário da produção na área Estudos Métricos da Informação, no Brasil, tendo como fonte de dados as três instâncias arroladas, justifica-se pela possibilidade de se comparar os indicadores de produção, colaboração, impacto e visibilidade no contexto das três instâncias, que, apesar de voltadas para o mesmo objeto de estudo-Estudos Métricos da Informação –, são de naturezas diferentes. Nos três universos, o ponto de partida são estudos empíricos, a partir de dados quantitativos, porém cada um deles com a sua especificidade própria.
Apesar dos Estudos Métricos da Informação terem caráter aplicado às diversas áreas, a Bibliometria nasceu no contexto da área de Biblioteconomia e Documentação, como deverá ser pontuado em seu histórico, no próximo capítulo. Destaca-se, no entanto, a pouca relevância dada pela área em apreço às questões relativas à avaliação da produção científica e ainda, um distanciamento considerável das questões que envolvem números, quantificações e suas análises. A Bibliometria e Documentação inserem-se na grande área das Ciências Sociais e Aplicadas, com currículos que priorizaram disciplinas de humanidades e pesquisas voltadas, de forma hegemônica, para metodologias qualitativas, até meados da década de 1990.
Tomou-se os trabalhos dos oito últimos ENANCIBs, em seu grupo de trabalho denominado GT-7 (Produção e Comunicação da Informação em Ciência, Tecnologia & Inovação ) de 2003 até 2011, pelo fato de considerar-se um recorte de tempo representativo do panorama atual das pesquisas no tema, além de que, a partir de 2003, no V ENANCIB, em Belo Horizonte-MG, os anais passaram a ser disponibilizados em suporte digital (CD-ROM). Tanto os ENANCBs, como os EBBCs apresentam uma massa documental crescente e representativa da produção científica na temática, especialmente pelos pesquisadores que pertencem aos Programas de Pós-Graduação, mais especialmente no caso dos ENANCIBs, evento específico deste segmento da Pós-Graduação.
Quanto aos EBBCs, evento recente na área, foi possível estudá-los somente em relação à produção, temáticas e colaboração, com os dados até então disponibilizados.
Utilizou-se a base de dados Scopus por ser completa, entendendose que viabilizaria o estudo em questão, bem como o SCImago Journal & Country Ranking, portal que inclui os periódicos científicos e indicadores dos países desenvolvidos a partir das informações contidas no Scopus ®banco de dados (Elsevier BV), que fornecem indicadores usados para avaliar e analisar os domínios científicos.
O livro constitui-se desta introdução, em que se apresenta o tema, objeto da pesquisa, uma explanação sobre produção científica e tecnológica no Brasil, justificando a relevância necessidade da pesquisa.
O primeiro capítulo apresenta importantes marcos históricos da Ciência da Informação, desde os seus primórdios e a inserção dos estudos métricos na Ciência da Informação.
Apresenta-se no segundo capítulo as bases epistemológicas, teóricas e conceituais dos Estudos Métricos, as questões referentes à Análise de Domínio, os conceitos de Produção e Colaboração Científica, de Impacto e Visibilidade.
A seguir, no terceiro capítulo abordam-se as questões de internacionalização da pesquisa em Estudos Métricos da Informação.
O quarto capítulo apresenta o percurso metodológico trilhado, na mesma ordem em que os dados foram apresentados.
O quinto capítulo apresenta os dados e os analisa, no âmbito dos ENANCIBs e dos EBBCs, em relação à produção, às temáticas, às redes colaborativas, utilizando o Cosseno de Salton (Cs) para normalização e calculando-se os indicadores de redes com as respectivas análises. Depois, apresentam-se os indicadores de impacto relativos ao GT7 e rede de cocitação, também com os valores normalizados para o Cosseno de Salton (Ss) e analisados os indicadores da rede de cocitação. Ainda neste capítulo, foram apresentados os pesquisadores mais produtivos, presentes na base de dados Scopus, suas temáticas, rede colaborativa, indicadores de rede, bem como os indicadores de impacto e os periódicos que veicularam essas produções.
Por fim, no sexto capítulo, dando um fechamento aos dados relativos às variáveis de produção (GT7, EBBCs e Scopus) e impacto (GT7 e base Scopus), apresentam-se os agrupamentos (clusters) que foram analisados segundo a similaridade e homogeneidade interna e dessemelhança entre os grupos.
Nas conclusões, procura-se sintetizar os resultados encontrados, com conclusões e considerações finais. Espera-se que a análise e a avaliação da temática Estudos Métricos da Informação ofereçam subsídios teóricos e metodológicos para os rumos que tomarão esta área, no Brasil.