Estudos métricos da informação no Brasil
1 – Marcos Históricos da Ciência da Informação
1 – Marcos Históricos da
Ciência da Informação
Um resgate histórico da Ciência da Informação.
Este capítulo traz um breve histórico da Ciência da Informação e como ela se constituiu desde seus primórdios. Evidenciam-se os principais momentos de sua história, desde o início da produção dos registros dos conhecimentos, passando pelas diferentes fases, com os primeiros movimentos dos Bibliófilos, que se dedicavam à elaboração de simples listas dos livros existentes. Assim, a Bibliografia, a Documentação e a Biblioteconomia são apresentadas em sua abordagem histórica e conceitual, vindo depois o desenvolvimento da Arquivologia e Museologia, que acabaram por constituir a Ciência da Informação, alinhada à percepção da dimensão estratégica da informação científica para o desenvolvimento tecnológico. Ainda que o objeto da Ciência da Informação seja a Informação Científica, considera-se sua abrangência em todo e qualquer tipo de informação usada ou passível de uso por pessoas em suas atividades.
Entre as subáreas da Ciência da Informação, entre outras, inserem-se os Estudos Métricos. Destacam-se seus principais momentos históricos, apresenta-se uma retrospectiva conceitual sobre Estudos Métricos, seu desenvolvimento, suas subáreas e conceituações consideradas mais relevantes, até os dias atuais.
1.1 História e Inserção dos Estudos
Métricos na Área de Ciência da
Informação
A Biblioteca Real de Alexandria, considerada uma das maiores bibliotecas do mundo antigo, desenvolveu-se sob o patrocínio da dinastia de Ptolomeu, que governou o Egito, de 305 a 30 A.C., e sobreviveu até a Idade Média, quando foi destruída por um incêndio de causas controversas.
Considerada por sua quantidade de volumes, reflexo de sua potência cultural, os bibliotecários da Biblioteca Real de Alexandria começam a contar os volumes de papiros, livros e documentos, fascinados por conhecerem o número de documentos, por entenderem que a mera contagem se tratava de uma competência cultural. Assim, relacionava-se quantidade de livros com quantidade de conhecimento.
A ato de produzir registros dos conhecimentos deu origem à cultura humana. É com essa ação que surgiram os documentos, os manuscritos literários, registros administrativos, selos, mapas e esculturas e instituições dedicadas a salvaguardá-los, não com a preocupação de disseminação, mas somente como guardiões da cultura. No período do Renascimento, a ênfase dada à criação e às produções humanas fizeram crescer o interesse pela salvaguarda desses registros e surgem os primeiros tratados e manuais sobre os acervos de arquivos, bibliotecas e museus (ARAÚJO, 2014).
A produção de livros na Europa se fez mais intensa, desde a invenção da imprensa, no séc. XV. Surgiram nessa época as primeiras bibliografias produzidas por bibliófilos. Estas eram meras listas dos livros existentes sobre algum tema, em bibliotecas de uma região, de um país ou de vários países. O principal objetivo era inventariar a produção intelectual humana, expressa em diferentes livros e manuscritos existentes nas bibliotecas, com o único objetivo de preservação. Contudo, a tarefa de produção de bibliografias demandou um trabalho de descrição dos livros e, nesse sentido, a Bibliografia aproximava-se da Biblioteconomia – das regras dessa descrição. Assim, Biblioteconomia e Bibliografia foram se desenvolvendo em direção às construções teóricas, ao longo dos séculos, e entre elas não se desenvolveu uma distinção significativa (ARAÚJO, 2014).
Com a transição da Idade Média em direção à Modernidade, surgem novos tratados e manuais voltados para as regras de condução das instituições destinadas a guardar esses acervos. Esse processo avança e no século XIX há uma grande ênfase na sistematização das regras de tratamento técnico destes acervos. Surgem as áreas de Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia, como ciências relacionadas com aos procedimentos técnicos de tratamento dos documentos. Consolidam-se como disciplinas, encontrando-se nelas as nascentes da Ciência da Informação. Fica a questão: Qual destas três áreas – Arquivologia, Museologia ou Biblioteconomia –, cuja relação é mais antiga, tem a ver com Ciência da Informação? (ARAÚJO, 2014).
Neste século, ocorreram algumas mudanças relativas às formas de se descrever e organizar os documentos impressos, devido ao aumento da quantidade e importância dos periódicos científicos e da crescente produção de livros.
Em 1958, organizou-se a I Conferência Internacional de Bibliografia. Foi criado, a seguir, o Instituto Internacional de Bibliografia (IIB), onde se estabeleceu, em nível mundial, uma espécie de “inventário” de toda a produção humana de conhecimento registrado. Para tanto, construiu-se um Repertório Bibliográfico Universal, padronizaram-se as formas de tratamento técnico dos registros, com as fichas catalográficas e a Classificação Decimal Universal, ratificando-se o diálogo intenso com a área de Biblioteconomia, que forneceu as principais bases e elementos para a Bibliografia.
Começa-se a visualizar a criação de uma nova disciplina científica: a Documentação. Para os arquivos, os museus, os centros de cultura e demais instituições que guardavam registros humanos, ela seria aquilo que a Bibliografia tinha sido para a Biblioteconomia: prestar-se-ia às instituições que lidavam com o conhecimento registrado, cujo objetivo não era juntar uma coleção, mas guardar um estoque numa determinada instituição. O que a Documentação propôs foi uma outra linha de ação, uma outra frente de trabalho, composta por uma gigantesca rede de registros dos acervos guardados nas instituições. Mais do que “ter” o documento, interessava aos pesquisadores envolvidos com a Documentação promover uma listagem, um registro “onde” poderia estar cada um dos documentos produzidos pelos seres humanos.
Essa mudança de perspectiva foi o ponto inicial da Ciência da Informação, naquilo que alguns pesquisadores dirão tratar-se de um primeiro traço de uma preocupação após a fase de guardiãs da cultura: deixou-se para trás a ideia de criação de uma instituição para guardar o saber.
A Documentação tornou-se uma disciplina científica. A contribuição fundamental foi a elaboração, por Otlet (1934), do conceito de “documento”, significando a totalidade da produção humana registrada das diferentes maneiras, nos mais diversos suportes, a saber: livros, manuscritos, fotografias, pinturas, esculturas, imagens em movimento, registros fonográficos, selos, estampas, atas, entre outros. A legitimação teórica e conceitual da Documentação deu-se primeiro quando o autor, em 1934 publicou o Traité de Documentation.
As relações entre Documentação e Biblioteconomia consolidaram-se por meio de associações, cursos de graduação e de pós-graduação. O caso dos Estados Unidos é exemplar das relações entre as áreas. Desde 1876, foi criada a American Library Association (ALA), havendo logo a cisão de seus componentes, por incompatibilidades teóricas e práticas: por um lado, alguns se voltavam para questões de biblioteca pública, atendimento ao público em geral e o papel educativo da biblioteca; por outro lado, havia aqueles mais preocupados com o atendimento aos estudiosos de áreas específicas do conhecimento, voltadas para a diversificação dos procedimentos e serviços de tratamento técnicos dos documentos, atendendo especialmente às necessidade dos pesquisadores destas áreas.
Em 1908, bibliotecários da segunda tendência saíram da ALA e criaram a Special Libraries Association (SLA); depois, para American Documentation Institute (ADI), seguindo uma tendência internacional de consignar a Documentação como novo campo de atuação. Em 1968, a ADI mudou seu nome para American Society for Information Science (ASIS).
Os conteúdos de Documentação começaram a ser inseridos em currículos de cursos de Biblioteconomia, nas décadas de 1930 a 1960, e a partir de então os conteúdos de Ciência da Informação passaram a ser inseridos nos cursos de Biblioteconomia ou de Biblioteconomia e Documentação.
Alguns pesquisadores de outras áreas – químicos, físicos, engenheiros e outros cientistas – começaram a se dedicar ao trabalho de elaborar índices, resumos, promover canais de disseminação, de forma a otimizar e facilitar as pesquisas de seus pares. Depois de algum tempo, eles começaram a designar a si mesmos cientistas da informação, oriundos de uma nascente pragmática. Embora tenha nascido de uma atividade prática, ao longo dos anos, essa iniciativa foi se direcionando para uma importante institucionalização, primeiro na Inglaterra, com a realização da Royal Society Scientific Information Conference, em 1948, e a criação,em 1958, do Institute of Information Scientist.
Pouco depois, na União Soviética, foi criado o Viniti1, vinculado à Academia de Ciências (ARAÚJO, 2014).
Ainda em 1958, ocorreu nos Estados Unidos a International Conference on Scientific Information. Nesse processo de institucionalização, foi-se firmando a ideia de que a Ciência da Informação era uma ciência dedicada à informação em ciência e tecnologia. Igualmente importante, contudo, foi a preocupação de base dessas ações: não mais a necessidade de se ter a posse dos documentos, mas a prioridade dada à sua circulação, ao seu fluxo e ao atendimento das necessidades dos estudiosos e pesquisadores em sua frente de trabalho.
A partir de então, várias subáreas evoluíram dentro da Ciência da Informação, tais como o estudo da “informação científica e tecnológica” (ICT), estudos em “gestão da informação e do conhecimento” (GIC), “política e economia da informação”, os estudos sobre “representação da informação”, “estudos de usuários da informação”, de “estudos métricos da Informação”. Estes útimos, os Estudos Métricos da Informação ( EMI), que se apresentam, neste livro, como uma subárea da Ciência da Informação.
Os EMI são subsídios para diferentes áreas dos conhecimento, na medida em que se avizinham com elas, ao oferecer conceitos, metodologia, procedimentos e recursos técnicos. Possuem sua identidade e nascente dentro da área de Ciência da Informação (CI), com as três leis clássicas da Bibliometria originando-se dentro dessa área.