Estudos métricos da informação no Brasil

Ely Francina Tannuri de Oliveira · Capítulo 9 de 25

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Estudos métricos da informação no Brasil

2.2 Indicadores de Produção e Colaboração Científica

pelas comunidades de diferentes países1.

Sintetizando, no âmbito internacional da Ciência da Informação, a Análise de Domínio (A.D.) vem sendo tradicionalmente trabalhada em termos teóricos e aplicada por Hjørland e Albrechtsen (1995), Hjørland (2002a, 2004), Tennis (2003), Smiraglia (2011a), Capurro (2003), dentre outros. Constitui relevante abordagem para caracterização e avaliação da ciência, especialmente os EMI, na medida em que permite identificar as condições pelas quais o conhecimento científico se constrói, se dissemina e se socializa.

A teoria desenvolvida por Hjørland não se consolidou como um paradigma na Ciência da Informação, no entanto tem se destacado como um dos mais abrangentes por suas diversas abordagens, que, combinadas entre si, conduzem à visão real e consistente do domínio de uma área. A avaliação da produção científica por meio de estudos bibliométricos é uma abordagem que vem ganhando espaço em estudos de diferentes áreas, sendo utilizada para fundamentar os diversos tipos de avaliação de trabalhos científicos e constituindo um dos critérios utilizados pelos governos e órgãos multinacionais, como a Unesco ou a Organização Mundial da Saúde, para decidir como direcionar os recursos destinados à pesquisa e ao desenvolvimento.

 

2.2 Indicadores de Produção e

Colaboração Científica

As análises e avaliações que auxiliam o mapeamento e a visualização das atividades e produções científicas de um grupo, campo de conhecimento ou país vêm aumentando progressivamente. Esse incremento decorre do interesse de pesquisadores, órgãos governamentais e multinacionais por estudos que possam subsidiar tomadas de decisões para o direcionamento de recursos para a pesquisa, de forma a traçar políticas públicas ou institucionais de desenvolvimento científico e tecnológico (OLIVEIRA; GRÁCIO, 2009b).

A produção científica vem sendo cada vez mais analisada, especialmente nas últimas décadas. Entretanto os estudos de produção científica enfrentam desafios, considerando que a produção científica participa do sistema social que é a ciência, cuja função é disseminar conhecimentos e reconhecer autores de trabalhos relevantes para o desenvolvimento de novas idéias em diferentes campos (MACIAS-CHAPULA, 1998, p.136).

A produção científica indexada em bases de dados reconhecidas mundialmente, como a Web of Science, tem sido exaustivamente avaliada por pesquisadores de diversos países, em especial pelas nações mainstream, uma vez que as principais ferramentas disponíveis para a maioria dos estudos de produção científica procedem dessas bases. No entanto Oliveira e Grácio (2009a) ressaltam que é mais difícil delinear a situação da produção científica de países considerados periféricos, como o Brasil, devido à predominância de revistas internacionais indexadas nestas bases,quer na WoS ou Scopus.

Ratificando as questões apontadas pela Análise de Domínio (A.D.), Spinak (1998) observa que a atividade científica deve ser analisada e interpretada no próprio contexto, uma vez que as avaliações de produção científica são sensíveis ao contexto social, econômico e histórico da sociedade que a produz.

Destaque-se que não há uma escala absoluta de mensuração da produção científica ou da utilização de indicadores de impacto, estando estes indicadores bibliométricos articulados com todos os outros indicadores dos organismos sociais, nacionais e locais. Os índices sociais e econômicos, tais como o PIB (Per capita), é considerado por muitos estudiosos como o mais importante de todos os indicadores econômicos, na medida em que expressa numericamente as condições do comportamento da economia de uma determinada localidade. O IDH (índice de desenvolvimento humano) também se destaca como outro índice.

A análise da produção científica de um país, de uma região ou instituição científica envolve um amplo conjunto de indicadores bibliométricos, que se agrupam em indicadores de produção, indicadores de citação e indicadores de ligação (OKUBO, 1997; SPINAK, 1998; NARIN; OLIVASTRO; STEVENS, 1994; CALLON; COURTIAL; PENAN,1993). Entre os diversos aspectos analisados, os indicadores evidenciam os pesquisadores, as instituições, as temáticas, as áreas do conhecimento, os países mais férteis ou mais produtivos, assim como a frente de pesquisa de um campo de conhecimento, as redes de colaboração entre cientistas, grupos, instituições ou países e as redes de citação ou cocitação.

Neste livro, são analisadas, em âmbito nacional: a produção científica da ANCIB no grupo de trabalho GT7 dos ENANCIBs, denominado Produção e Comunicação da Informação em CT&I, no período de 2003 até 2011; a produção científica nos Encontros Brasileiros de Bibliometria e Cientometria (EBBCs), no período de 2008 até 2012. Em âmbito internacional, são analisados os artigos com autorias e/ou coautorias de pesquisadores brasileiros, encontradas na base de dados Scopus, na temática EMI, de 2003 até 2011. Para tanto, utilizam-se os indicadores bibliométricos de produção, de ligação e citação (FAPESP, 2005), a partir dos quais se sinaliza o que é mais importante ou significativo dentro de um campo ou contexto científico, por meio da análise das tendências. Evidencia-se o referencial teórico-epistemológico dominante na área, as relações existentes, de modo que os EMI constituem um dos instrumentos metodológicos consistentes para a visualização do comportamento da ciência em um dado campo.

Os indicadores básicos de produção são constituídos pela contagem do número de publicações do pesquisador, grupo de pesquisadores, instituição ou país e objetivam refletir seu impacto junto à comunidade científica à qual pertencem, dando visibilidade àqueles mais produtivos e às temáticas mais destacadas de uma área do conhecimento.

Os 2 indicadores de ligação, baseados na coocorrência de autoria ou de citações ou de palavras, são utilizados para mapeamento e construção da rede de colaboração científica entre os pesquisadores, instituições ou países.

As temáticas apresentadas, tanto nos eventos nacionais quanto nas pesquisas das bases de dados Scopus, refletem os temas relevantes abordados. Sob a luz da A.D., o conjunto das temáticas da literatura de determinada área, originário do grupo de pesquisadores que participam da área em questão, proporciona o estudo da comunidade discursiva e do papel que ela desempenha na ciência e reflete o universo conceitual quanto à linguagem e pensamento da comunidade em questão.

A colaboração científica acontece por meio da interlocução efetivada entre autores ou instituições, supõe uma consociação de hipóteses e objetivos centrais de um projeto, o estabelecimento de uma divisão de trabalho, a interação entre os investigadores, o compartilhamento de informações e a coordenação destas diferentes relações do investimento conjunto (OLMEDA GÓMEZ; PERIANEZ-RODRIGUEZ; OVALLE-PERANDONES, 2008). Neste contexto, a análise de colaboração científica é empregada para identificar e mapear a cooperação regional, nacional ou internacional.

Segundo Balancieri et al. (2005, p.2), “a colaboração científica oferece uma fonte de apoio para melhorar o resultado e maximizar o potencial da produção científica”, uma vez que amplia as possibilidades de abordagens e ferramentas, promovendo uma rede na qual os colaboradores se relacionam.

Katz e Martin (1997) apontam a coautoria como indicador da atividade de colaboração científica e apresentam algumas de suas vantagens: constitui-se de dados objetivos, podendo ser ratificada por estudos de outros pesquisadores e representa uma metodologia acessível e amigável para quantificar a colaboração. As pesquisas indicam que a coautoria incrementa a produção científica e a visibilidade do país, que consequentemente ocasionou um acréscimo de iniciativas governamentais, no sentido de incentivar o comportamento colaborativo dos pesquisadores.

Atualmente, alguns estudos voltam-se para as relações existentes entre produtividade científica e coautoria científica. Entre eles, destaquem-se os estudos de Eaton et al. (1999), que apontam a forte relação entre o número de coautores e a produtividade científica, sinalizando que os grupos produtores com maior número de coautores tendem a publicar mais artigos.

Neste contexto, a análise de coautoria reflete um rol possível de intercâmbios e trocas entre os pesquisadores e constitui um procedimento significativo, sendo medida pelo número de publicações em colaboração entre autores, instituições ou países e empregada para identificar e mapear a cooperação regional, nacional ou internacional, além de identificar a circulação do conhecimento e das novas ideias dentro do grupo.

Price (1965) comprovou empiricamente que a década de 1960 marca o início dos estudos de coautoria como medida de colaboração entre grupos de pesquisadores, instituições ou países. Nesse período, observou-se que a colaboração científica se inicia nas relações entre orientador e orientando e, especialmente, no âmbito dos “colégios invisíveis”.

A colaboração na ciência desperta interesse em âmbito internacional: em janeiro de 2000, foi instituída em Berlin a rede mundial de pesquisa sobre esta temática denominada “Collaboration in Science and in Technology-COLLNET (VANZ; STUMPF, 2010a).

Para Capurro (2003), na perspectiva de Análise de Domínio (A.D.), adquire especial destaque o estudo das conexões, ligações e associações que ocorrem na comunidade discursiva, em suas diferentes perspectivas, pontos de vista, aproximações ou polêmicas, ou nas comunidades de usuários nas diferentes áreas do conhecimento. Assim, as redes de coautorias apresentadas mostram as comunidades que se formam em função das temáticas similares e próximas trabalhadas pelos pesquisadores, nos dois eventos nacionais estudados e na base Scopus, por meio das ligações e associações entre os grupos. Em síntese, a análise de coautorias possibilita descrever e retratar a estrutura de um grupo, que pode ser representada por uma rede colaborativa.

Entre os diferentes procedimentos usados para análise de rede de colaboração, Hannemann e Riddle (2005) apresentam a rede egocêntrica (“ego”) e a rede “ego” com conexões amigas. A rede egocêntrica parte de um “nó” específico, ou “conjuto de nós”, e, a partir das conexões deste, ela é traçada. Tanto a rede “ego” quanto a rede “ego com conexões amigas” consistem em selecionar os atores e identificar a totalidade daqueles que pertencem à rede. No primeiro caso, não se estabelecem as conexões entre os demais pares, mas na rede “ego com conexões amigas” se identificam todas as conexões existentes entre os atores. Estas são chamadas também redes egocêntricas interconectadas. As sub-redes, seja com conexões amigas ou simplesmente “ego”, determinam as comunidades que se formam em função de referentes teóricos comuns, temáticas próximas ou relações de coautorias.