Estudos métricos da informação no Brasil

Ely Francina Tannuri de Oliveira · Capítulo 7 de 25

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Estudos métricos da informação no Brasil

2 – Referentes Epistemológicos, Teóricos e Conceituais dos Estudos Métricos da Informação

2 – Referentes

Epistemológicos, Teóricos e

Conceituais dos Estudos

Métricos da Informação

Em que se fundamenta e se define o escopo dos Estudos Métricos da Informação.

A Epistemologia é considerada o principal suporte de qualquer ciência, já que por meio dela se analisam seus fundamentos, as relações entre teoria e prática, a partir das correntes de pensamento hegemônicas existentes nas diferentes áreas do saber. Tanto o regime conceitual da própria Epistemologia quanto a estrutura adaptativa de seus conceitos a uma ciência específica seriam um trabalho hercúleo, e tratado em poucas laudas, soaria algo imprudente. Nesse sentido, cumpre aqui tão somente elucidar o que se entende por epistemologia e demarcar as linhas desta que figura na Ciência da Informação e depois, em especial, nos Estudos Métricos.

É necessária uma reflexão anterior sobre o que venha a ser Epistemologia antes de se estudar a Epistemologia da Ciência da Informação. Para tanto, buscou-se a fundamentação teórica na obra de “Introdução ao pensamento epistemológico”, de Japiassú (1992), que pondera, de forma sucinta, sobre as diversas concepções que o termo foi adquirindo na literatura filosófica e científica.

Para o autor, “por epistemologia […] podemos considerar o estudo metódico e reflexivo do saber, de sua organização, de sua formação, de seu desenvolvimento, de seu funcionamento e de seus produtos intelectuais” (JAPIASSÚ, 1992, p. 16). Assim, cabe à epistemologia refletir tanto sobre a teoria quanto a sobre a prática das ciências, desde seu início, estruturação, formação e progresso, contribuindo para a consolidação do domínio científico.

É importante destacar que o pensamento epistemológico busca aporte em quatro disciplinas, a saber: a Filosofia das Ciências, que tem a função de discutir “como a ciência é possível” (1992, p. 30) ou o campo da pesquisa filosófica que estuda os fundamentos, pressupostos e implicações filosóficas da ciência; a “História das Ciências, que constitui parte essencial para a epistemologia: ao mesmo tempo que discute a finalidade da ciência, analisa seu caminhar, seus processos de desenvolvimento e também sobre aquilo que a interessa e procura estudar, a construção do conhecimento de uma época dentro do seu próprio contexto “(1992, p. 33); a Psicologia das Ciências, que é encarregada de responder à questão de “como crescem os conhecimentos” (p. 33) e foi influenciada por Piaget, considerada disciplina nova; a Sociologia do Conhecimento, a quarta disciplina, que se propõe a estudar a produção do conhecimento – aqui o conhecimento considerado como construção social inserido em um contexto sociocultural – “tanto sob o ponto de vista lógico quanto linguístico, sociológico, ideológico, ou seja, na ótica interdisciplinar” (1992, p. 33).

Japiassú desenvolve o conceito de epistemologia dando ênfase aos aportes não positivistas. Para o autor, a epistemologia deve ser compreendida como teoria do conhecimento, conhecimento este tratado como processo dinâmico, não mais como estado, como era tido pela corrente epistemológica do empirismo lógico. Por esta razão, o autor elege as correntes epistemológicas genéticas de Piaget, histórica de Bacherlard, racionalista-crítica de Popper e arqueológica de Foucault, “como posições filosóficas que se preocupam “com a história da ciência, com a história da inteligência, com a arqueologia das ciências e com as relações da ciência com a sociedade” (1992, p. 11), deixando de lado a inflexibilidade, o rigor metodológico, das ciências positivas, […] reduzindo todo conteúdo do conhecimento às determinações observáveis, de modo a […] obter confirmação somente pela realidade” (1992, p. 87). Essa corrente apregoa que em qualquer hipótese deve haver sempre uma referência à experiência. Desse modo, a “linguagem metodológica torna-se […] o instrumento fundamental da filosofia, sobretudo em sua forma válida, isto é, na forma de teoria da ciência” (1992, p. 88).

Em relação aos estudos sobre questões epistemológicas para a Ciência da Informação, torna-se fundamental a informação, em função de sua recente consolidação como ciência e da complexidade do seu objeto de estudo. O autor Capurro (2003) destaca que algumas mudanças paradigmáticas do século XX deixaram vestígios na História da Ciência da Informação. O autor em questão aprofunda-se em três paradigmas epistemológicos predominantes na Ciência da Informação, a saber: o paradigma físico, o cognitivo e o social, simplificando as proposições e princípios de cada paradigma.

Segundo Thomas Kuhn (1970), a “palavra paradigma indica — do grego paradeigma = exemplar, mostrar (déiknumi) uma coisa com referência (para) a outra — o paradigma é um modelo que nos permite ver uma coisa em analogia a outra”.

Como toda analogia, chega o momento em que seus limites são evidentes e ela se esgota em si mesmo, produzindo então uma crise ou, como no caso de teorias científicas, uma revolução científica“, na qual se passa da situação de “ciência normal“ a um período “revolucionário“ e, em seguida, a novo paradigma. De forma simples, paradigmas são modelos, referências, que tendem a se exaurir ao entrarem em crise, optando-se por novas teorias que respondam às novas indagações.

Capurro (2003) menciona alguns paradigmas epistemológicos que influenciaram a ciência da informação, tais como: hermenêutica, semiótica, construtivismo, racionalismo crítico, entre outros. O autor destaca e aprofunda três paradigmas da CI. O paradigma físico associado à área de Teoria Matemática da Informação, cuja principal preocupação é a transmissão da informação, isto é, a informação é tratada apenas como sinais elétricos. Verifica-se que o paradigma físico é todo baseado na perspectiva epistemológica do Empirismo Lógico.

Já o paradigma cognitivo está relacionado com as interações entre a informação e o sujeito individual. Percebe-se aqui, a influência da Epistemologia genética de Piaget (cognitivista) e Epistemologia de Popper.

Por fim, o paradigma social, que propõe a estender os estudos das interações entre a informação e o indivíduo, para a informação e um contexto histórico e social. Aqui se observa a influência de Bachelard e Foucault. Antes de Capurro, Saracevic (1996) destaca que, em função das mudanças de contexto histórico, os conceitos passaram a focalizar as relações entre informação e sociedade, rompendo com as restritas relações que ocorriam no informação e processo, bem como informação e indivíduo. Em outras palavras, os conceitos passavam a focalizar as relações entre a informação antes voltada para o processo, depois para o indivíduo e por último para a sociedade.

O social e o contexto passam a ser no paradigma social o core epistêmico, em que ocorre um ponto de inflexão em relação ao paradigma cognitivo, vigente até então, voltado especialmente para o indivíduo.

A partir daqui pode-se situar o referencial epistemológico dos Estudos Métricos da Informação. À luz do paradigma social, as quantificações criticadas até então, vistas de forma isolada, como valores em si, sem contextualização em relação ao real de onde surgiram, se situam na fusão entre hermenêutica e a teoria crítica, que proporcionam um marco epistemológico possível para esta subárea da Ciência da informação. Os grupos e as comunidades que compartilham conhecimentos e objetivos comuns funcionam como referentes da pesquisa em Estudos Métricos da Informação. O caráter quantificável e experimental não anula seu precípuo interesse pela coletividade, mas dá segurança cognitiva para a argumentação científica desta.

A hermenêutica cuida de interpretar e explicar um texto ou discurso por meio de duas vertentes: a epistemológica, com a interpretação de textos; e a ontológica, que se remete para a interpretação de uma realidade. A teoria crítica, inspirada na Escola de Frankfurt, reinterpretou a teoria marxista original, evidenciando que o conhecimento se constitui na realidade e não através da reprodução de conceitos. Tanto na hermenêutica como na teoria crítica, a ênfase é dada para a realidade, para o contexto, para o social. Ambas as correntes – a hermenêutica e a teoria crítica – proporcionam um marco epistemológico para a área de Ciência da Informação (BENOÎT, 2002) e fundamentam as questões de Estudos Métricos da Informação dentro da perspectiva do paradigma social e amparando-se nos campos epistemológicos da Filosofia da Ciência, História da Ciência, Psicologia das Ciências e Sociologia do Conhecimento, tal como enunciados por Japiassú. Com essa contextualização, a atividade de pesquisa nos Estudos Métricos da Informação passa a fazer sentido a partir da Ciência da Informação, que envolve o conhecimento apurado do movimento da informação nas comunidades discursivas.