Europa
2. À sombra do império
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À sombra do império
Uma arte que a Europa nunca teve a oportunidade de aprender desde que
tomou consciência de ser Europa (ou seja, desde que estabeleceu suas
ambições como padrões que deveriam ser seguidos em sua própria prática e
que os outros deveriam ser persuadidos a adotar) foi a de viver à sombra de
um poder maior do que ela, mais ambicioso e criativo em seu esforço por
transformar as suas ambições em padrões para a prática de todos os outros,
e assim também de sustentar esses padrões importados/impostos segundo a
sua própria prática, como o modelo a ser seguido.
A Europa nunca tinha enfrentado a ameaça de ser conquistada por outro
continente – e nunca tinha sido olhada de cima e difamada como potência
de segunda classe, obrigada a jurar obediência a um império estrangeiro e
se fazer aceitar por uma força a qual tem pouca esperança de apaziguar,
pacificar ou converter aos seus costumes –, muito menos de submeter-se e
subordinar-se aos seus desígnios. A Europa nunca tinha vivido com uma
deprimente consciência de sua própria inferioridade e com a experiência de
ser obrigada a observar padrões de vida defendidos e praticados por outros,
de lutar para ajustar e adaptar as suas ações a esses padrões, a emular
formas de vida estranhas e/ou a se adequar a elas, posicionando as suas
formas de vida ao nível delas. Entre as numerosas habilidades adquiridas
pela Europa, aquelas exigidas por essas contingências estavam
conspicuamente ausentes.
Uma situação que exige essas habilidades pegou a Europa despreparada
por seu passado histórico e por sua antiga concepção da ordem global como uma pax europeana e da humanidade como o produto final da progressiva
universalização do modo de vida europeu. Quando Donald Rumsfeld,
secretário de Defesa dos Estados Unidos, fala com desdém da “velha
Europa” (o que significa uma Europa que já ultrapassou o seu tempo de
vida, que foi ultrapassada e deixada para trás, uma Europa obsoleta e
antiquada, um fóssil de eras remotas), o objeto de sua ironia e
ridicularização é uma Europa apegada às lembranças de seu passado de
glórias, que ainda deseja ser o primeiro violino e se recusa a aceitar um
papel secundário, e que se ilude imaginando ainda ser capaz de instruir os
flautistas e lhes dar o tom.
Em sua análise aguda e profunda (citada anteriormente) do choque entre
os “valores europeus” (leia-se: as preferências e os critérios de avaliação
europeus, historicamente formados e enraizados) e os “interesses
americanos”, Vladislav Inozemtsev e Ekaterina Kuznetsova mencionam
algumas opiniões autorizadas ou influentes que articulam as premissas não
explicitadas por Rumsfeld no seu veredicto. “Os Estados Unidos têm a
supremacia nos quatro domínios decisivos do poder global: em termos
militares, econômicos … tecnológicos e culturais … É a combinação dos
quatro que faz dos Estados Unidos a única superpotência de abrangência
global”, nas palavras de Zbigniew Brzezinski.1 Henry Kissinger se arrisca a
ir além: “Na aurora do novo milênio, os Estados Unidos gozam de uma
proeminência que não tem rival sequer entre os maiores impérios do
passado.”2 Joseph S. Nye Jr. faz coro: “Desde Roma, nenhuma nação ficou
tão acima das outras.”3 Em seu estudo amplamente debatido, Robert Kagan
endossa essa visão: “Pelos padrões históricos, o poder militar dos Estados
Unidos no pós-Guerra Fria, particularmente a sua capacidade de projetar
esse poder a todos os cantos do globo, é algo sem precedentes.”4
Tal como o crepúsculo da hegemonia européia pegou a Europa de
surpresa, a súbita elevação dos Estados Unidos à posição de única
superpotência e de incontestada (ao menos realisticamente) hegemonia
mundial pegou os líderes políticos e formadores de opinião americanos
despreparados. Não seria possível esperar que respostas estratégicas
racionais, profundamente refletidas e cuidadosamente ponderadas, a uma
súbita e imprevista mudança de rumo, fossem construídas da noite para o
dia. O que costuma seguir-se a um trauma como esse é uma série tortuosa e
inconsistente de arrancos e solavancos confusos e desconcertantes, “reações
corajosas”, improvisos ad hoc e jogos arriscados. É muito cedo, portanto, para se pronunciar sobre a natureza do novo império americano, fazer
generalizações a respeito da sua estratégia e do seu impacto sobre a situação
do planeta, e ainda menos oportuno prognosticar as suas futuras reviravoltas
e a forma pela qual acabará se assentando – se é que isso vai acontecer. Por
ora, o comportamento do império é um dos principais fatores – talvez o
principal – dessa incerteza encapsulada pela primeira vez (exatamente
quando os Estados Unidos se viram sozinhos num campo de batalha do qual
a superpotência oponente havia desertado) por Kenneth Jowitt, e mais
recentemente por Tzvetan Todorov, na noção de “Nova Desordem
Mundial”.
Michael Mann captura a disposição com que tal comportamento é
percebido por aqueles que se percebem vivendo num playground imperial –
ou seja, por todo este confuso planeta. Os Estados Unidos, diz ele, são
vistos como “um monstro perturbado, disforme, tropeçando
desajeitadamente através do mundo. Ele é bem intencionado. Pretende
difundir a ordem e a benevolência, mas em vez disso cria a desordem e a
violência.”5 Talvez se possa captar ainda melhor a atual mistura de
apreensão e confusão recorrendo-se à imagem de um “elefante numa loja de
porcelanas”: a força do elefante é mais significativa para o destino das
porcelanas do que as suas intenções – se é que ele tem uma intenção
específica e tenta concretizá-la de forma coerente.
De modo alternativo, poderíamos repetir com Arnold Toynbee (em seu
programa de rádio de 14 de julho de 1954): “Os Estados Unidos são um
cachorro grande e amistoso dentro de uma sala muito pequena. Cada vez
que ele sacode o rabo derruba uma cadeira.”
A força da superpotência americana é mesmo espantosa: pelo orçamento
federal dos Estados Unidos para 2003, os gastos militares desse país
representavam 40 por cento do total de gastos com armamentos em todo o
mundo. “Eles excedem os gastos combinados dos 24 países seguintes e são
25 vezes maiores do que a soma dos gastos de todos os sete ‘Estados párias’
identificados pelos Estados Unidos como os seus inimigos.”6 Essa maciça
acumulação de armas, da qual nenhum outro país se aproxima, muito menos
iguala, coloca os Estados Unidos numa posição inexpugnável do ponto de
vista militar. Em conseqüência, como aponta Michael Ignatieff, os Estados
Unidos “são a única nação que policia o mundo por meio de quatro
comandos militares globais; mantêm mais de um milhão de homens e
mulheres em armas nos quatro continentes, emprega grupos de porta-aviões em estado de vigilância em todos os oceanos, garante a sobrevivência de
países que vão de Israel à Coréia do Sul”.7
A força coercitiva é o único recurso que os Estados Unidos podem
utilizar a qualquer momento, sem retardo indevido e do qual podem estar
seguros: as armas à disposição são sem dúvida inigualáveis e inimitáveis
por quem quer que seja em todo o planeta. A capacidade das armas (como
se pode utilizá-las e em que tipo de serviço elas são eficientes – ou seja,
inquestionavelmente superiores) determina os possíveis usos. E assim a
primeira reação à crise (em seu significado original, hipocrático, de um
momento que exige decisão e ação) é a guerra. E, como Montesquieu
sabidamente concluiu de seu mergulho na história do Império Romano, um
império fundado pela guerra tem de se manter pela guerra.
Um império pode escolher as guerras que pretende travar (embora não
possa optar por abster-se de escolher uma guerra para travar), mas as suas
opções tendem a ser determinadas pelas armas que possui. Foi o que
Tzvetan Todorov descobriu na recente decisão americana de lançar uma
guerra contra o Iraque apesar do que deve ter sido óbvio para todos os
envolvidos – que bombardear e invadir o Iraque não tornaria mais próximo
o objetivo manifesto de aniquilar o terrorismo, obviamente um fenômeno
supranacional e extraterritorial. “A guerra contra o terrorismo não é uma
tarefa fácil – exige paciência e tenacidade. A guerra contra o Iraque foi
comparativamente fácil, bastava bombardear o país a ser esmagado sob a
pressão de uma potência infinitamente superior.”8
Todorov assinala que a causa latente – mas, ao que se espera, racional –
da guerra do Iraque era difícil, talvez até impossível, de localizar. Quando
não testemunham raciocínio inepto, falta de imaginação ou falhas grosseiras
de cálculo e avaliação dos responsáveis pelo planejamento, as explicações
dadas ao público são ditadas principalmente por considerações de RP:
Saddam Hussein e Osama Bin Laden eram inimigos jurados, não
colaboradores, e o Iraque não possuía armas de destruição em massa.
Mesmo a explicação corrente entre os que fazem campanha contra a guerra
(de que a verdadeira razão na escolha do Iraque como alvo foi o desejo de
se apossar do segundo maior suprimento de petróleo do planeta) dá pouco
crédito à racionalidade dos que a planejaram: “A guerra em si custa caro
demais, a ocupação que ela provoca é desastrosa e todos os benefícios
derivados do preço do petróleo são anulados antecipadamente pelos gastos
militares.”9
Da mesma forma, a suposição de que a recente concentração de forças
militares americanas no Oriente Médio (Afeganistão, Iraque, possivelmente
Irã, Síria e Arábia Saudita, para não falar da expansão, sub-reptícia mas
enérgica, da presença militar americana nas antigas repúblicas soviéticas da
Ásia) é, como David Harvey afirma sucintamente, “apenas em função do
petróleo”10 não pode ser descartada com facilidade. Como Harvey assinala,
“desde 1980 mais ou menos, a taxa de exploração das reservas de petróleo
tem excedido a taxa de descobertas [de novas reservas]. O petróleo está se
tornando cada vez mais escasso.” A maioria dos suprimentos de petróleo
existentes provavelmente se esgotará de todo dentro de mais ou menos 10 a
20 anos. Só os campos do Oriente Médio é que prometem durar mais meio
século. Quem tiver o controle das últimas reservas num planeta cada vez
mais sedento por combustível e dependente do petróleo pode ter esperanças
de se tornar um verdadeiro manda-chuva na política mundial e banqueiro do
jogo da economia global – durante tanto tempo quanto a imaginação dos
administradores do capital pode alcançar. “O que poderia ser melhor para os
Estados Unidos para evitar a competição e garantir a sua posição
hegemônica do que o controle do preço, das condições e da distribuição de
recursos econômicos-chave, sobre os quais essa competição se baseia?”
Trata-se, na verdade, de uma questão puramente retórica.
Da mesma forma, podemos ainda argumentar que a própria tentativa de
buscar e articular uma explicação para a guerra nos afasta da verdade já
revelada por Montesquieu. Não há uma causa racional para a guerra, e ela
não precisa de causas racionais. Ser capaz de conduzir uma guerra de
acordo com a sua vontade resume toda a racionalidade de que necessita (ou
pode dispor) a sobrevivência do império. O império baseia a sua hegemonia
nos estoques superiores, sempre crescentes e tecnicamente aperfeiçoados de
armas sofisticadas que podem ser usadas apenas da forma como o foram no
Iraque. E um elemento racional do conjunto de raciocínios que levaram ao
lançamento de mísseis inteligentes contra o Iraque pode ser a percepção de
que, para manter a sua posição imperial, o império deve, vez por outra,
exibir as suas armas em público de modo espetacular – e portanto
convincente.
Tais exibições deveriam provavelmente repetir-se com regularidade se o
poder “realmente existente” do império fosse de uma enormidade tão sem
precedentes quanto Brzezinski, Kissinger e seus colegas afirmam que é: tão
infinito a ponto de minimizar as limitações que perturbaram e acabaram por derrubar os impérios do passado. Mas não parece ser o caso. A atual
variedade americana de império dificilmente se iguala à soma de poderes
dos centros imperiais da era colonial – e, em última instância, o que conta é
a soma de poderes da dominação imperial. A fraqueza essencial do império
americano, embora não a única, deriva do fato de ter se formado nos anos
finais da era colonial, ou talvez mesmo postumamente, depois dela haver
terminado.
Os impérios governados pela Europa podiam variar – de gigantes
prostrados sobre os quais o sol nunca se punha até minúsculos e
insignificantes enclaves, bases militares e entrepostos comerciais
ultramarinos. Como havia vários impérios verdadeiros e um número
variado e indefinido de aspirantes a impérios, os Estados europeus que os
governavam podem ter agido como se participassem de um jogo de soma
zero, convencidos de que qualquer avanço de um determinado império
colonial levaria inevitavelmente não apenas à redução territorial de um
outro, mas também a um enfraquecimento fundamental. Essa era, contudo,
uma visão míope e estreita, profundamente distinta daquelas construídas
pelos que estavam do lado receptor da expansão colonial européia. Da
perspectiva destes, os ganhos coloniais de um país europeu se
acrescentavam à força máxima do empreendimento colonialista. Da mesma
forma que a perspectiva européia juntou a variedade multicolorida de
formas de vida não européias numa imagem seriamente truncada e achatada
do “Oriente”, a variegada experiência dos povos não europeus expostos a
muitos e diversos regimes e estratégias dos colonizadores tendeu a ser
misturada, mexida e condensada numa única e homogênea noção
denominada “Ocidente”. Aos olhos dos países já invadidos ou vivendo sob
a ameaça de invasão, as conquistas territoriais realizadas por qualquer um
dos grandes e pequenos impérios centrados na Europa reforçavam a crença
na incontestável e invencível superioridade do “Ocidente”. Direta ou
indiretamente, esta aumentava a credibilidade da noção de uma força
unificada e coordenada apresentada pelo outro lado da linha de confronto.
Uma crença que pareceria enigmática e desnorteante aos europeus
confinados em conflitos internos apaixonados e freqüentemente sangrentos
e engajados em guerras recorrentes – mutuamente destrutivas, civis, mesmo
que travadas num palco de âmbito mundial. Aos olhos do “resto do
mundo”, o grupo de macro e microimpérios europeus se misturava e
transformava num único e poderoso Império mundial do “homem branco” – de modo algum inferior, em termos de poder, à atual superpotência
americana, se é que não a superava.
As declarações de Brzezinski, Kissinger e similares sobre o volume e
força sem precedentes da dominação americana sobre o resto do mundo
derivam sua rationale da ausência de outros impérios e unidades político-
militares com aspirações a – e a capacidade de – realizar os esforços
necessários à construção de um império, de competidores buscando o
mesmo jogo e perseguindo os mesmos troféus. Com efeito, os Estados
Unidos estão, e provavelmente continuarão por longo tempo, sozinhos no
campo – o único elefante na loja de porcelanas planetária. Não há outros
candidatos – capazes e dispostos, para não dizer viáveis – ao papel de
império mundial. Isso não significa, porém, que os poderes do novo império
sejam menos restritos do que a soma dos poderes do imperialismo ocidental
de outrora – muito menos que ele goze da ilimitada liberdade de ação que
renitentemente faltou ao Ocidente no auge da colonização imperialista. É
bem possível que o oposto seja verdadeiro, ou transpire a sê-lo, dadas as
profundas mudanças que tiveram lugar em termos da condição do mundo e
das chances de efetiva intervenção nos assuntos mundiais desde o período
de pico do “velho imperialismo”.
Para começar, a reivindicação americana de hegemonia planetária chega
depois que todos os impérios previamente estabelecidos foram, um a um,
enfrentados, desmantelados, forçados a se retirar ou pressionados a
implodir. Essa experiência acumulada de resistência anticolonialista
protelada e finalmente efetiva solapou o mito, coletivamente construído e
galvanizado, da invencibilidade do Ocidente e do “Homem Branco”. “O
Ocidente”, do qual o exército americano é agora não apenas o mais
poderoso, mas talvez o único braço militar e o único músculo
permanentemente flexionado, não parece mais irresistível. Sua
vulnerabilidade é do conhecimento de todos, sua superioridade eterna nada
mais é que uma conclusão precipitada, e a resistência não parece mais
desesperada.
A era de expansão territorial, invasão, anexação e colonização das terras
invadidas definitivamente chegou ao fim, apesar de esporádicos soluços de
memória ou “reações atrevidas” mal calculadas ou impensadas. O poder
não é mais avaliado pelo tamanho do território administrado. As terras
ocupadas passaram da coluna de créditos para a de débitos, um fardo
inconveniente a ser evitado. Em nossa atual era do pós-espaço (ou do “espaço-velocidade”, para usar o termo de Paul Virilio), a conquista de
terras estrangeiras e as aquisições territoriais de maneira geral não são mais
apostas de guerra – “o último a permanecer no campo de batalha”
raramente é o vencedor. Os lavores e os custos de arrumar a bagunça e
remover ou neutralizar os detritos tóxicos deixados pela ação militar são
prazerosamente “terceirizados” aos vencidos. Na verdade, receber essa
tarefa insalubre e pouco invejável é a derradeira prova da derrota.
A ocupação territorial, se concretizada, é vista por todos os lados como
um evento temporário. Para os vencedores, é mais uma necessidade
desagradável do que uma questão de escolha prudente e deliberada –
aborrecimento temporário, anomalia, medida de emergência que só deve
durar até que se restaure a “normalidade” e se desligue o sinal de alerta. A
estratégia preferida do conflito armado é “bater e fugir”: colocar o inimigo
fora de ação e assim colocar os recursos que ele possuía a serviço do
vitorioso, ao mesmo tempo evitando qualquer engajamento de longo prazo
na administração quotidiana dos problemas da terra devastada e de sua
população destituída de poder. Se a palavra “império” vier a ser empregada
nessas condições radicalmente transformadas, marcadas por mudanças
fundamentais na natureza do jogo de poder e nas suas apostas e estratégias,
só deve ser usada, como aconselhou Jacques Derrida, sabendo-se que ela o
é sous rature – na plena consciência de que foi afastada de seu significado
convencional.
“Deve ser”, porém, não significa que será. As chances são contrárias.
Usar os termos sous rature (hábito comum profundamente arraigado na
prática vernácula) é uma conhecida fonte de confusão semântica: infestar os
referentes de “significados fantasmas” persistentes que obscurecem em vez
de esclarecer a compreensão e com muita freqüência estimulam e motivam
padrões de resposta que já foram tentados e testados, mas atualmente são
ultrapassados e inadequados. Talvez os exemplos mais gritantes de
respostas indutoras ao erro sejam aqueles fornecidos pela metrópole do
“império fantasma” (versão atualizada do igualmente fantasmagórico
“Sacro Império Romano”, grosseiramente em desacordo com as realidades
da Idade Média): campanhas improvisadas preparadas ad hoc com pouca ou
nenhuma consulta, no pressuposto de que, na ausência de outros agentes
capazes e/ou desejosos de competir pela hegemonia ecumênica, os Estados
Unidos podem “fazê-lo sozinhos”, desprezando opiniões destituídas do
apoio de arsenais – tal como podem, com impunidade, ignorar até mesmo os arsenais, evidentemente tão inferiores aos seus. Tais campanhas
freqüentemente fracassam. Mais cedo ou mais tarde, a realidade emerge por
detrás da ilusão despedaçada e a lição é aprendida (de maneira dura) –
embora só seja memorizada, em geral, pelo tempo que leva para reabastecer
os arsenais e empurrar o diferencial de armamentos um pouco para a frente.
A frustração invariavelmente reduz o ânimo belicoso no momento em que a
guerra é “vencida” (embora os critérios de vitória sejam irritantemente
vagos numa época em que as guerras são uma continuação não tanto da
política quanto de sua ausência, sendo travadas principalmente porque se
pode continuar a travá-las impunemente) e quando chega a época de
consertar os danos materiais e sociais da ação militar. O império
prossegue/arrasta-se/tropeça de um episódio de guerra para outro aos
trancos e barrancos, e a sua existência quotidiana é pontuada por retiradas e
avanços, embora por poucos períodos de calma e retraimento, se é que
chega a haver algum.
O novo “império” não pode ficar parado. Ele se parece mais com o
vento do que com a rocha – desapareceria no momento em que parasse de
soprar. É esse movimento que conta, não o destino final ou a direção
momentaneamente tomada. Tal como os fantasmas só existem na
modalidade da assombração (os “fantasmas” são interpretações “razoáveis”
quando uma casa está sendo assombrada), o novo “império” persiste sob a
condição de lembrar constantemente ao mundo a sua presença imperial. O
novo “império” não é uma entidade que pudesse ser desenhada num mapa
(a menos que este fosse simplesmente a tomada aérea das campanhas
imperiais atualmente em curso e os seus traçados momentâneos), mas um
modo de ser. As tropas vão e vêm, e não é tanto o poder de sustentação que
mantém o espectro do império pairando sobre o planeta, mas sua irresistível
capacidade de chegar sem convite no momento em que escolhe e sair sem
grande alarde tão rapidamente quanto desejem os generais.
As tropas não chegam de pára-quedas para semear uma nova ordem e
novas regras de coexistência humana. “Mudar o regime”, “depor o ditador”,
“abrir caminho para a democracia” ou “libertar a população” logo mostram
não serem nada mais do que slogans de RP, não importa com que firmeza
(ou sinceridade) os que as empregam para justificar a guerra possam ter
acreditado em sua veracidade. Como John Pilger descobriu ao examinar o
estado de coisas num dos teatros desses conflitos, “dois anos atrás, quando
as bombas começaram a cair, George Bush prometeu ao Afeganistão ‘a generosidade dos Estados Unidos e de seus aliados’. Agora os velhos e
conhecidos déspotas recuperam o poder, o fundamentalismo religioso
renova o seu domínio e as escaramuças militares prosseguem de modo
rotineiro”.11 Tudo caiu da frigideira no fogo. Um relatório da Human Rights
Watch documenta “exército e tropas policiais controladas por déspotas
raptando aldeões impunemente e mantendo-os em prisões clandestinas para
fins de resgate; o estupro generalizado de mulheres, meninas e meninos:
uma rotina de extorsões, roubos e homicídios arbitrários”. Tudo isso feito
“por pistoleiros e déspotas conduzidos ao poder pelos Estados Unidos e
seus parceiros da coalizão após a queda do Talibã em 2001”. Desde outubro
daquele ano, mais de 10 bilhões de dólares foram gastos no Afeganistão,
supostamente para a sua “reconstrução”; mas 80 por cento dessa soma
generosa serviram para bombardear o país e pagar os déspotas. Pilger cita
um alto funcionário do Departamento de Estado que, num encontro privado
realizado ainda em janeiro de 1997, expressava a esperança de que o
Afeganistão se tornasse “um protetorado petrolífero, tal como a Arábia
Saudita”. Quando lhe apontaram que a Arábia Saudita não era uma
democracia e perseguia as mulheres, ele retrucou: “Podemos viver com
isso.”
Desenhar um mapa do império seria também um exercício sem sentido
porque o traço mais conspicuamente “imperial” do seu modo de ser consiste
em ver e tratar o conjunto do planeta, simultânea ou intermitentemente,
como um campo de pastagem potencial e/ou o contêiner de ameaças
explícitas ou ocultas, atuais ou futuras, ao bem-estar da metrópole. As
“relevâncias tópicas” que colocam certas partes do globo sob as luzes da
ribalta, enquanto tornam e mantêm outras partes invisíveis, se alteram
dependendo das atuais definições dos interesses metropolitanos – elas
próprias eminentemente mutantes.
Em contraste com as metrópoles imperiais de outrora, os Estados Unidos
não estão mais interessados em aquisições territoriais e desistiram
ativamente dos engajamentos gerenciais/administrativos fora de suas
fronteiras. Como diz Benjamin R. Barber, os Estados Unidos “piscam e se
voltam para dentro, mirando o além-mar somente para fixar os olhos
malignos nos alvos ‘inimigos’, definidos por uma enganosa guerra contra o
terrorismo e por ‘Estados párias’ quixotescamente selecionados para ficar
no lugar dos terroristas, difíceis de achar e destruir”.12 Vistas da metrópole,
as localizações e as fronteiras das áreas de hinterland ou Lebensraum americanas seguem as mudanças na percepção dos interesses
metropolitanos e das ameaças à segurança da metrópole. Conforme as
fronteiras se alteram, o mesmo ocorre com as áreas amistosas, hostis e
indiferentes do planeta – dos Estados “aliados”, “inimigos” e clientes. O
modo de ser do império solapa o valor e a importância das fronteiras,
enquanto as dispersas escapadas punitivas do exército imperial destroem em
seu alicerce, e continuamente, o pressuposto da soberania territorial de todo
e qualquer Estado.
Curiosamente, não é apenas a soberania territorial dos outros Estados
que é solapada. A metrópole se torna uma “baixa colateral” desse processo,
e essa é outra característica que a diferencia de suas correlativas de outrora.
Por um lado, é uma incapacidade de “equilibrar os livros”, na estrutura de
um único Estado, embora amplo, rico e poderoso, que estimula a metrópole
americana a buscar soluções globais para problemas internos, mas
internamente insolúveis (como o fornecimento de energia barata ou os
limites à redundância da mão-de-obra e suas repercussões sociais/políticas
potencialmente devastadoras), e a se engajar, no curso dessa busca, em
ações “imperialistas”. Por outro lado, embora as ações possam ter
motivação política, dificilmente poderiam ser guiadas politicamente. O
espectro de opções políticas é bastante limitado e, como regra, o governo
deve compartilhar o procedimento de escolha dos alvos com poderosas
casas de força econômicas, que não controla (e freqüentemente submete-se
a elas).
“Os Estados-nações estão perdendo cada vez mais as suas capacidades
de ação e a estabilidade de suas identidades coletivas”, observa Jürgen
Habermas. “Há um sentimento incapacitante de que as políticas nacionais
se reduziram ao gerenciamento mais ou menos inteligente de um processo
de adaptação forçada à pressão de sustentar vantagens posicionais
puramente locais.”13 Os governos se reduziram à tática da
Standorkonkurrenz (“competição local”) para seduzir o capital global
livremente flutuante a fluir para dentro e convencê-lo a resistir à tentação de
fazer o inverso.
Se você está procurando uma nítida demonstração do papel de
mascate/mendigo a que os governos se reduziram em seu esforço para
manter seus indivíduos vivos e longe do infortúnio, não precisa mais do que
dar uma olhada no website do Departamento Britânico de Comércio e
Indústria – administrado pelo “Novo Trabalhismo” –, o qual, como Polly Toynbee observou recentemente, “vende a Grã-Bretanha como uma nação
de baixos salários e pouca proteção aos trabalhadores”.14 Lá você vai
verificar que “os custos totais com salários no Reino Unido estão entre os
mais baixos da Europa”, que no Reino Unido “os empregados estão
acostumados pelos patrões a trabalhar duro [sic]”, que “em 2001 a média de
horas de trabalho por semana foi [na Grã-Bretanha] de 45,1 para homens e
40,7 para mulheres”, enquanto “a média na União Européia foi de 40,9 por
semana”, que “a lei britânica não obriga os empregadores a fornecer um
contrato de trabalho escrito” e que esse país “tem a menor taxa de impostos
para empresas entre todos os grandes países industrializados”.
Não são apenas os governos, prejudicados por dirigir Estados menores e
economicamente mais fracos, que têm as mãos atadas. Na ausência de uma
rede verdadeiramente supranacional de instituições políticas e jurídicas
capazes de “regular normativamente” os impulsos caprichosos e muitas
vezes acidentais de um capital que já é supranacional, até o governo da
única superpotência mundial, que se proclama a metrópole de um império
de dimensões planetárias, compartilha os mesmos apuros. Como Richard
Rorty já assinalava em 1996,
O fato central da globalização é que a situação econômica dos cidadãos de um Estado-nação ficou
além do controle das leis desse Estado. As leis de uma nação podiam costumeiramente controlar,
num grau importante e socialmente útil, o movimento do dinheiro dessa nação. Mas agora que o
financiamento de uma empresa comercial é uma questão de constituir um pool global de capital,
de modo que empresas de Belo Horizonte ou Chicago sejam financiadas por dinheiro mantido nas
Ilhas Cayman por déspotas sérvios, gângsteres de Hong Kong e presidentes cleptocratas de
repúblicas africanas, não há como as leis do Brasil ou dos Estados Unidos possam ditar que o
dinheiro ganho num país seja gasto nele, ou que o dinheiro poupado num país nele seja
investido. 15
Quanto ao um por cento de americanos que detêm 40 por cento da
riqueza do país, explica Rorty em outro texto, “os dividendos crescem
tipicamente quando os empregos são exportados de Ohio para o sul da
China e da Carolina do Norte para a Tailândia”.16 Pouco surpreende que
“eles tenham cada vez menos interesse no futuro dos Estados Unidos”. A
idéia de que o que é bom para a General Motors (ou, nesse sentido, para a
Microsoft) é bom para os Estados Unidos não parece mais auto-evidente ou
mesmo digna de crédito, se é que algum dia pareceu. Seguindo Michael
Lind e Edward Luttwak, Rorty prevê uma época em que um quinto da
população americana, sua parcela “profissional” com bom nível de
escolaridade, estará “cumprindo as ordens dos super-ricos internacionais”. Suas lealdades podem muito bem ser depositadas em lugares diferentes
daqueles dos quatro quintos restantes da nação. O déficit democrático, em
constante ampliação em todos os países envolvidos na “competição
locacional”, esperando desesperadamente “enquadrar o círculo” (salvar o
que possa restar de sua legitimidade de governar numa época em que a sua
própria capacidade de influenciar, para não dizer determinar, as condições
de vida de seus cidadãos se enfraquece a cada dia), afeta as metrópoles do
império planetário não menos, se não mais, do que o faz nas periferias mais
distantes ou despossuídas do planeta.
Mike Mormile entrou para a siderúrgica LTV, em Cleveland, Ohio, aos
21 anos de idade. Trinta e dois anos depois, em dezembro de 2002, no dia
em que a LTV se declarou insolvente e convocou os síndicos da massa
falida, ele se tornou redundante, juntamente com outros 56 mil empregados
da companhia (ao todo, 250 mil americanos foram despedidos de
siderúrgicas nos últimos anos).17 Mike Mormile perdeu 65 por cento do seu
fundo de pensão e, da noite para o dia, ele a família ficaram sem seguro de
saúde. As duas empresas remanescentes no ramo da siderurgia, a ISC e a
US Steel, adquiriram por um preço irrisório um pequeno número das que
foram à falência, cortaram pela metade o tempo de trabalho exigido para se
produzir uma tonelada de aço, mas se recusaram a assumir a
responsabilidade pelos direitos obtidos pelos empregados em sua vida de
trabalho. Só um punhado dos antigos trabalhadores conseguiu emprego nas
novas siderúrgicas, muito reduzidas, privadas de seus ativos. O produto
total das siderúrgicas recuperadas é agora consideravelmente inferior ao
nível da demanda americana: o vácuo é preenchido com aço importado de
países em que os trabalhadores recebem muito menos que nos Estados
Unidos e onde a proteção sindical é inexistente ou menos efetiva do que
aquela atualmente garantida pela legislação americana. Leo Gerard,
presidente da United Steelworkers of America, opina que “os Estados
Unidos se tornaram o canal de escoamento da produção excedente da
indústria siderúrgica global”.
O aço é apenas um entre muitos produtos, e a “economia nacional” dos
Estados Unidos (outro termo que deriva o seu atual significado de uma
ficção atuarial sustentada por uma convenção contábil, e não de uma
“totalidade” real, e que portanto só deve ser usado, se é que deve, sous
rature) é apenas uma entre muitas “economias nacionais”. O problema,
porém, é que mesmo o país considerado, que afirma ser e/ou é visto como a metrópole do império mundial, está longe de se garantir contra o impacto
adverso dessas forças econômicas desregulamentadas e em grande medida
extraterritoriais, sem âncora e livremente flutuantes, agora capazes de
desafiar efetivamente toda e qualquer restrição imposta em âmbito local.
Tal como ocorre com outros governos, a administração federal americana
não tem outra opção a não ser engajar-se na Standortkonkurrenz. Tal como
em outros países, as tentativas de atrair e manter esse capital volátil não
podem deixar de ser mornas e vacilantes. Não admira que os êxitos obtidos
sejam ambíguos.
Dito isso, há razões para suspeitar de que a economia americana esteja
ainda pior do que se pode avaliar pela leitura das estatísticas preocupantes
sobre “crescimento econômico”, e particularmente sobre a distribuição da
“riqueza nacional”. A dívida pública americana é exorbitante. Os Estados
Unidos vivem do crédito fornecido pelo resto do mundo (ou dele
extorquido), mas gastam prodigiosamente, incluindo muito dinheiro que
não ganharam. David Harvey calcula que estrangeiros possuam agora um
terço da dívida pública e 18 por cento da dívida das empresas americanas.
Os Estados Unidos “dependem agora de mais de dois bilhões de dólares por
dia em termos de fluxo de investimentos líquidos externos para cobrir o
déficit de conta corrente, que cresce sem parar, com o resto do mundo”.18
Isso, conclui Harvey, “torna a economia americana extraordinariamente
vulnerável à fuga de capitais”. A questão de saber se essa situação,
inimaginável no caso de economias nacionais menores, “comuns”, pode
sustentar-se a longo prazo, e por quanto tempo esse prazo é capaz de
perdurar, é uma variável agourenta e potencialmente cataclísmica na
equação imperial. Também é o que todos estão querendo saber…
Em sua incisiva condenação, que ocupa um livro inteiro, do império
mundial liderado pelos Estados Unidos, Benjamin Barber afirma que a atual
conduta dos líderes americanos (endossada e apoiada pela opinião do
“americano médio”) é uma seqüência lógica do isolacionismo daquele país
um século atrás.
Há, com efeito, um claro elemento de continuidade entre essas duas
posições aparentemente antagônicas: uma espécie de “metapressuposto”
que as coloca apenas como duas variantes da mesma visão de mundo.
Segundo esse pressuposto, os Estados Unidos estão condenados a se basear
nos próprios instintos, seu destino é fazer o que deve ser feito, sozinhos.
Daí o mandamento: os Estados Unidos devem manter distância dos outros, aceitar ajuda quando necessário, mas lembrar que, quando chegar o
momento da verdade e do ajuste de contas, caberá aos americanos, e
unicamente a eles, ganhar a batalha. Os Estados Unidos devem precaver-se
dos amigos falsos, volúveis e inconfiáveis (e a maioria dos amigos é assim)
tanto quanto dos inimigos explícitos – ou talvez mais –, já que não há como
saber por quanto tempo a amizade oferecida, mesmo pelo amigo mais
sincero, continuará em oferta. Preceitos práticos são extraídos desse
mandamento na filosofia de vida americana, dirigidos a todos os níveis da
interação humana – do subtítulo “Não confie em ninguém” de Survivor,
reality show imensamente popular, à insistência de Rumsfeld de que
quaisquer coalizões que os Estados Unidos possam montar tendo em vista
as próximas operações militares devem ser “ad hoc” e permanecer
“flexíveis”, e/ou ao veredicto de George Bush de que “quem não está
conosco está contra nós”.
O unilateralismo americano rima bem com a experiência da história
americana, remodelada em verdades consideradas inquestionáveis pela
simples razão de jamais terem sido submetidas a um questionamento.
Também rima bem com o bom senso do “americano médio”, imune a
dúvidas, já que vacinado contra a tentação de questionar. “O curso desta
nação”, insiste George W. Bush, “não depende das decisões dos outros”19 –
e seria possível desculpar quem pensasse que essas palavras foram
pronunciadas por um presidente anterior, Monroe, e não por alguém que se
proclama o líder mundial. Barber observa que os dois campos da elite
americana (que ele chama de “Águias” e “Corujas”, ambas predadoras, mas
aquelas ousadas, impetuosas e afoitas, enquanto estas são circunspectas,
calculistas e contemporizadoras) “se fixam no direito soberano dos Estados
Unidos, como nação independente, e de seu ‘povo escolhido’, de se
defenderem onde, quando e como preferirem de inimigos que só eles têm o
direito de identificar e definir”.20 De fato, a única diferença entre o
isolacionismo do passado e o unilateralismo do presente é a radical
expansão do espaço no interior do qual os interesses americanos precisam
ser defendidos e onde os Estados Unidos continuam sendo, em última
análise, o protetor solitário – a única potência capaz e desejosa de garantir e
manter seguros os interesses americanos.
Em 29 de junho de 2003, Paul Bremer, administrador americano do
Iraque ocupado, deixava pouco espaço à imaginação e menos ainda à
barganha e à negociação: “Nós dominamos o cenário e vamos … impor a
nossa vontade sobre este país”21 – o pressuposto tácito, ou nem tanto, sendo
que o “nós” que impõe a vontade são aqueles que dominam o cenário, e
“dominar o cenário” é base suficiente para a imposição da vontade. A
afirmação mostrou grande dose de autoconfiança, mas pouco poder de
previsão. Na época em que foi feita, o Iraque estava, nas palavras de Mark
Seddon, “ardendo na guerrilha”, enquanto Bagdá permanecia “um lugar
arruinado e ameaçador onde a nova ‘autoridade provisória da coalizão’ não
pode sequer acender a luz para trabalhar”. Desde então, as luzes dos prédios
do quartel-general podem ter sido acesas, mas não conseguiram iluminar o
futuro do Iraque. A guerrilha está longe de ter se aquietado, com o número
de seus membros se ampliando juntamente com o número de suas vítimas
diretas e colaterais. O grau em que as tropas ocupantes “dominam o
cenário” – se é que dominam – se tornou uma questão a cada dia mais
duvidosa.
Mas que relevância tem o “domínio do cenário” para as preocupações
atuais do infeliz imperador?
Jacques Derrida articula o problema que agora se tornou um truísmo: em
nosso planeta globalizado, os terroristas não travam uma “guerra”, e a idéia
de “guerra contra o terrorismo” é uma alegoria distante e enganosa ou um
conceito sem significado.22 O terrorismo global (e globalmente concebido,
nascido e criado) contemporâneo não se encaixa em nenhum dos três tipos
de conflitos que Carl Schmitt, apenas meio século atrás, considerava
trivialmente como uma classificação exaustiva da guerra: guerra entre
Estados, guerra civil e guerra partisan (guerrilha). Na atividade terrorista, o
elo entre violência e território foi praticamente rompido.
Jürgen Habermas vai um passo além. Tendo admitido que o termo
guerra pôde ser usado pelos líderes americanos por ser menos vulnerável à
contestação do que as suas alternativas, ele considera a sua adoção um erro
grave do ponto de vista tanto “normativo” quanto “pragmático”. O uso do
termo “guerra” é um erro do ponto de vista normativo porque eleva
criminosos ao nível de soldados inimigos, mas também do ponto de vista
pragmático porque “é impossível travar uma guerra (já que é isso que se
deve fazer para preservar o significado do termo, independentemente de sua
definição) contra uma ‘rede’ cuja identificação é problemática”.23
Podemos acrescentar: reagir ao terrorismo “travando uma guerra”, pelo
menos da forma como até agora se empreendeu a série de atos
sumariamente chamados por esse nome, não é uma “continuação da política” da parte dos que declaram e conduzem o conflito. A questão é que,
afinal de contas (novamente citando Barber), o terror tem mais sucesso em
suas promessas do que naquilo que ele realmente consegue, e assim
transforma os esforços para se defender dele em sua principal ferramenta …
O terrorista pode ficar sentado numa caverna da montanha ou numa favela
de Karachi e observar os seus inimigos se autodestruírem, em função do
medo inicial que ele semeou com um único e singular ato de terror ou com
um punhado de ameaças em seqüência bem planejada …24
Pela opinião comum, o objetivo supremo dos terroristas é paralisar e
incapacitar um inimigo perante o qual eles são muito fracos para enfrentar
numa batalha aberta – aguilhoando e manobrando esse inimigo para mantê-
lo num estado permanente de insegurança e medo. As armas que os
terroristas possuem ou podem obter pareceriam risivelmente primitivas caso
fossem apresentadas numa feira de armamentos ao lado da mais alta
tecnologia e do estado-da-arte dos dispositivos saídos dos depósitos e
laboratórios de pesquisa e desenvolvimento da superpotência militar. Os
terroristas, porém, gozam de uma enorme vantagem sobre as armas mais
poderosas e seus usuários: podem utilizar os recursos da superpotência – os
seus numerosos sistemas de atendimento público e seus ubíquos
instrumentos de segurança, inigualáveis quando se trata de plantar e cultivar
uma mentalidade de “fortaleza sitiada” – para ajudá-los em sua estratégia de
semear o medo e garantir o seu sucesso.
E os terroristas, diferentemente de grandes batalhões com armamentos
pesados, podem mover-se com rapidez, sub-repticiamente e sem alarme.
Nessa arte, não têm rival – e então é a vez de a superpotência sonhar, em
vão, em igualar a agilidade do outro. Réplicas fiéis da nova elite
globetrotter e do capital extraterritorial que essa elite representa, os
terroristas não precisam de colunas de suprimentos desajeitadas, volumosas
e inconvenientes que poderiam reduzir a sua liberdade de movimento. Não
podem ser detidos por militares travando guerras territoriais, tal como as
finanças globais não podem ser controladas nem atrasadas por políticos
buscando desesperadamente assentar o seu poder de agir numa soberania
territorialmente definida. As tentativas de apresentar o exército terrorista
como se consistisse em colunas marchando de um lado para outro em bases
militares fortificadas são ao mesmo tempo vis e lamentavelmente
ineficazes.
Queiram ou não, as potências imperiais devem tentar igualar o “modo
terrorista”, embora os meios dos quais os terroristas dispõem lhes estejam
barrados. Por essa razão, não podem se dar ao luxo de parar de tentar, não
importa quão fúteis – já que inconclusas – tendam a se mostrar as suas
tentativas. Sentem-se obrigadas a investir cada vez mais e literalmente “pôr
mais dinheiro a perder”. Nas palavras de Barber, os Estados Unidos “devem
estender continuamente o compasso do seu poder para preservar o que já
possuem, e assim, quase por definição, estão sempre acima da sua
capacidade”.25
Embora dramáticos, espetaculares e eminentemente “foto-oportunos”, os
esporádicos e esparsos atos terroristas – ainda que multiplicados na
consciência do público pelos alarmes, muito mais numerosos, repetitivos e
crescentemente regulares, dos setores de inteligência, de que outros virão –
representam apenas um sintoma da “terra de fronteira” global onde tudo
pode acontecer e nada pode ser feito de uma vez por todas, onde as regras
são feitas apenas para ser quebradas, onde a tática de “bater e fugir” é o
único modo de ação eficaz, e onde os que dominam essas artes detêm o
poder supremo (quer dizer, até serem superados pelos seus ávidos e
inteligentes graduandos). Nessa “terra de fronteira”, estabelecida pela
desregulamentação e emancipação maciças da economia capitalista, em
relação às antigas restrições locais (leia-se: impostas pelo Estado-nação), o
aumento da produção e a privação violenta (na linguagem de Harvey26)
caminham de mãos dadas, e muitas vezes é difícil distingui-los.
Na terminologia de Harvey, o capital global se reproduz, assim como
reproduz as condições para a sua auto-reprodução contínua, apresentando
como principal arma a “acumulação pela privação”– ou seja, “a criação
periódica, em algum lugar do planeta, de um estoque de ativos
desvalorizados que podem ser postos a funcionar lucrativamente em favor
dos excedentes de capital, carentes de oportunidades em outros lugares”27.
Na época da crise financeira asiática de 1997-8, por exemplo, a combinação
de “depreciação maciça, liberalização financeira estimulada pelo FMI e
recuperação facilitada por essa mesma instituição” levou, como afirmaram
R. Wade e F. Veneroso, à “maior transferência, em tempos de paz, de ativos
de proprietários domésticos a estrangeiros realizada no mundo nos últimos
50 anos”.28
O capital e os militares seguem táticas marcadamente similares do tipo
“bater e fugir”. Terras até então “virgens” (do ponto de vista de marketing), ou tipos de mercadorias que nunca tinham sido incluídos na circulação de
mercado e recebido um valor de troca (serviços e propriedades públicas
fornecidos e administrados pelo Estado, recursos anteriormente
invendáveis, como água, estoque genético, produtos intelectuais ou até
tradições e memórias históricas), são agora transformados em alvos da
“mercantilização”. São privadas de seus ativos, os lucros dos acionistas são
temporariamente inflados, depois do que o capital se move rapidamente
para outros prados ainda não utilizados como campos de pastagem,
deixando atrás de si as massas de expropriados – o “resto humano” do
último capítulo da história do desenvolvimento capitalista.
Enquanto, no caso das escaramuças militares, a substância da tática do
“bater e fugir” é escapar às responsabilidades pelos danos perpetrados no
curso da ação e suas conseqüências, no caso do capital o princípio é evitar a
responsabilidade pelas conseqüências da privação – pelas incontáveis vidas
destituídas dos meios de sobrevivência e auto-reprodução, e portanto
virtualmente incapazes de reagir à exploração da mão-de-obra
“emancipada” nos termos do capital. Em ambos os casos, a arma mais letal
em poder dos atacantes é a liberdade e a velocidade de movimentos: a sua
capacidade de fugir do campo de batalha no momento em que todos os
espólios tiverem sido recolhidos e todos os ativos apropriados, quando a
possibilidade de destruição “criativa” tiver se esgotado, deixando a tarefa de
“recolher os dejetos” para os habitantes “locais”, derrotados e destituídos. O
perigo verossímil da fuga de capitais é o principal fator que sujeita o capital
humano “libertado” – agora incapacitado e afastado da ação produtiva
capaz de lhe garantir a subsistência – à mercantilização e à exploração.
Uma “terra de fronteira” tem uma expectativa de vida estritamente
limitada, a menos que se expanda de modo extensivo e intensivo. Na tática
de “bater e fugir”, o império que transforma o planeta numa terra de
fronteira busca a fórmula mágica de sua própria sobrevivência. Há uma
retroalimentação recíproca entre as condições da terra de fronteira e o
capitalismo da era da globalização.
O “novo império” existe nos domínios de uma terra de fronteira. É o
único lugar onde pode respirar livremente, o único espaço onde lhe é
possível ressuscitar momentaneamente as suas condições de sobrevivência
e reabastecer as fontes de sua vitalidade.
“É hora de parar de fingir que europeus e americanos têm uma visão
comum do mundo, ou até que ocupam o mesmo mundo” – esse é, relembremos, o veredicto de Robert Kagan, membro do Carnegie
Endowment for International Peace. Os europeus, diz ele, “acreditam estar
caminhando para além do poder, na direção de um mundo auto-sustentado
de leis e regras, de negociação e cooperação transnacionais” – enquanto os
Estados Unidos “permanecem enredados na história, exercendo o poder no
anárquico mundo hobbesiano em que as regras internacionais não são
confiáveis e onde a segurança e a promoção da ordem liberal ainda
dependem da posse e do uso do poderio militar”.29
De repente, a Europa se viu numa posição desconhecida – sem
precedentes, inexplorada, não mapeada. Após séculos de satisfeita imersão
na bellum omnium contra omnes [guerra de todos contra todos] hobbesiana,
quase sempre (mas não exclusivamente) fora de suas fronteiras, a Europa
agora se compraz na aceitação do modelo kantiano da paz eterna. A ironia é
ter chegado a esse ponto num planeta hobbesiano baseado na rejeição
daquele modelo e cujas raízes colaborou em muito para fincar.
Pelo olhar e pela prática da Europa de hoje, a máxima do “manda quem
pode” não é mais aceitável – mas os céticos zombariam da afirmação de
que o velho continente perdeu a credibilidade aos olhos dos europeus
simplesmente por ter deixado de ser uma arma em suas mãos. Enfraquecida
e relegada a um status secundário e dependente, a Europa não pode lutar
pelo que acredita ser certo com base no seu poder atual, amplamente
inadequado. Por trás do argumento de Kagan se esconde a crença de que a
realidade de um mundo hobbesiano é um bônus bem-vindo e a primeira
preferência dos que se podem dar a esse luxo, os fortes e poderosos.
Enquanto isso, o sonho kantiano de paz eterna é um consolo para os fracos
ou uma desculpa para os fracassados e exauridos – exatamente o tipo de
opinião que se esperaria ser concebida, promovida e corroborada
diariamente numa terra de fronteira.
Poder-se-ia afirmar em favor de Kagan que ele dificilmente tenta ocultar
essa opinião, mesmo que não chegue a articulá-la de maneira explícita. No
mesmo viés, ele vai ao ponto de assinalar que a Europa só pode ter esses
sonhos por cortesia dos Estados Unidos, que assumiram a tarefa de fazer do
mundo hobbesiano um lugar receptivo à habitação humana. “A ordem
kantiana da Europa depende da utilização do poder pelos Estados Unidos
segundo regras hobbesianas.”
Étienne Balibar oferece um comentário altamente esclarecedor sobre o
retrato que Kagan faz da atual situação da Europa, pintado com a paleta dos interesses imperiais americanos:
Não creio que esteja distorcendo o significado da análise de Kagan se disser, resumindo: a posição
dos “europeus”, expressando algo como uma religião da lei, é ao mesmo tempo destituída de
poder (“quantas divisões, Europa?”, poderíamos indagar, fazendo eco a Stalin) e ilegítima (já que
disfarça uma regressão histórica como progresso moral, representando a sua real fraqueza como
uma força imaginária). Por fim, é autodestrutiva, já que solapa as capacidades de defesa das
democracias ocidentais … Decididamente, não são os Estados Unidos que têm “poder demais”,
mas a Europa que o tem muito pouco…30
Fica-se tentado a imaginar, porém, se a belicosidade dos Estados
Unidos, acoplada ao seu enorme poderio, e a comparativa carência militar
da Europa, combinada aos sentimentos pacifistas dos europeus – vistas
mutuamente como calamidades –, não constituem uma mistura
verdadeiramente explosiva ao se encontrarem no mesmo planeta e no
mesmo período histórico. Essa mistura é, com efeito, inerentemente
instável, implicando a ameaça de uma catástrofe de proporções
incalculáveis. Trata-se de um momento para a humanidade em que a
capacidade de agir com ponderação e a disposição de atuar eticamente se
retiram para campos diferentes.
Especialmente aqui e agora, quando o interesse pela sobrevivência e o
“progresso moral” precisam um do outro como nunca precisaram antes. Um
não pode ser satisfeito sem o outro. Ambos ditam os mesmos imperativos
para a ação e a mesma estratégia. Já que não se pode mais garantir uma
existência segura a terras e pessoas, individual ou coletivamente (sob
condições de interdependência planetária, a segurança de qualquer lugar do
planeta só pode ser alcançada no quadro de uma humanidade segura), a
ação global eticamente esclarecida, voltada para a defesa dos seres humanos
contra a indignidade em qualquer lugar, assim como para reduzir a
crescente desigualdade de oportunidades e o volume cada vez maior de
humilhação e injustiça social, é a condição mais fundamental para a
sobrevivência comum em qualquer dos vários sentidos dessa noção.
Outro aspecto da atual condição planetária tem-se tornado cada vez mais
claro (ou, para os que têm consciência histórica, enfaticamente
reconfirmado) nos últimos anos: deixado por sua própria conta, é totalmente
improvável que o “mundo hobbesiano” possa “reformar-se”. Seu impacto
nocivo e, por fim, ruinoso sobre todas as partes do globo e suas interações
é, pelo contrário, mais capaz de se exacerbar e revelar sua tendência
inerente de escapar ao controle. Ninguém pode sentir-se seguro; nem mesmo o vencedor de hoje está isento dessa regra e suficientemente
fortalecido contra esse perigo. Os ganhos que os competidores podem
extrair desse permanente salve-se-quem-puder são endemicamente
inseguros, e os custos de sua defesa crescem a cada dia, mesmo que o preço
das vidas humanas perdidas em nome de sua defesa seja deixado fora da
contabilidade.
Exatamente quando a derradeira vitória da liberdade (tal como
corporificada no livre mercado) foi anunciada, a economia global entrou em
sua década mais turbulenta e assustadora. A pungente e picante descrição
que David Harvey faz desse período memorável merece ser citada por
extenso:
Durante a década de 1990, não havia um inimigo claro e o boom da economia americana devia ter
garantido um nível de contentamento e satisfação sem paralelo para todos, exceto os elementos
mais desprivilegiados e marginalizados da sociedade civil. No entanto … os anos 1990 se
tornaram uma das décadas mais desagradáveis da história dos Estados Unidos. A competição era
perversa, as divindades da “nova economia” se tornavam milionários da noite para o dia e
ostentavam a sua riqueza, patifarias e esquemas fraudulentos proliferavam, escândalos (reais e
imaginários) eram em toda parte acompanhados com deleite … a exuberância (ir)racional
prevalecia sobre o bom senso, e a corrupção do processo político pelas corporações era gritante. A
sociedade civil, em suma, estava longe de ser civil. A sociedade parecia estar se fragmentando e
se desagregando a um ritmo alarmante. Parecia … estar a ponto de desmoronar no caos sem
propósito nem sentido dos interesses privados.31
A guerra vencida, especialmente de modo definitivo e irrevogável, como
proclamou Francis Fukuyama, mostrou-se um perigo mais sinistro e tóxico
do que os riscos de uma batalha permanente e de resultados ainda por
avaliar. E assim se prescreveu outra guerra como o remédio evidente para as
aflições da vitória … Nessas circunstâncias, como observa Harvey, “o
envolvimento com o Iraque foi muito mais que uma mera distração das
dificuldades domésticas; foi uma grande oportunidade para impor um novo
sentido de ordem social no plano doméstico e colocar a comunidade nos
eixos”. A um preço enorme, é claro, e cada dia maior, pago principalmente
pela democracia e pelas liberdades civis. “A crítica foi silenciada como
impatriótica. O inimigo externo maligno se tornou a principal força pela
qual se poderia exorcizar ou suavizar os demônios ocultos do lado de
dentro.”
O “mundo de Fukuyama”, se um dia vier a existir, pode não ser mais do
que outra versão do mundo hobbesiano. A ausência de um adversário viável
encarnando uma alternativa igualmente viável é o verdadeiro calcanhar-de-aquiles de um capitalismo global triunfante e exuberante, livremente
flutuante e de penetração total. Seu maior infortúnio, potencialmente
terminal, é a ausência de uma resistência efetiva. Num planeta
fukuyamano/hobbesiano, o poder militar americano, braço forte,
desbravador e força policial do capitalismo global, pode golpear à vontade e
aleatoriamente (“no lugar que escolher, no momento em que preferir”),
tendo pouco a temer e esperando emergir sem danos de um choque curto e
profundo. Mas é precisamente essa esperança que mantém e revigora o
mundo hobbesiano, tornando o caráter nebuloso de sua alternativa kantiana
uma profecia auto-realizadora.
Por meio século, um inimigo formidável, apavorante e demasiado real
defendia o capitalismo das conseqüências mórbidas de seus excessos mais
fatigantes e preocupantes. O capitalismo provavelmente teria vencido esse
inimigo com muito pouca dificuldade, caso o confronto se limitasse a uma
corrida realizada na pista do capitalismo – como ocorreu no final, quando a
reprodução da sólida e intransigente alteridade desse inimigo perdeu o seu
ímpeto interno. Enquanto o inimigo não era apenas outro competidor na
mesma corrida, mas um “outro” genuíno, portador de um modo de vida
alternativo, ele podia induzir o capitalismo à autolimitação e à
autocorreção. É o tipo de adversário que agora visivelmente faz falta. Em
sua marcha triunfante e aparentemente ininterrupta pelo cassino planetário,
o capital se defronta, em vez disso, com numerosos competidores ávidos
por jogar o mesmo jogo e prontos a depositar todas as suas reservas na
banca, ou com ladrões de banco incertos das chances que têm sobre a mesa
e portanto em busca de um atalho para mudar a sorte. Uma variedade de
adversários com que esse capital não se defronta são os proponentes e as
encarnações realistas de uma forma de vida alternativa que poderia
acarretar a abolição do cassino. Em sua conquista do planeta, o novo
capitalismo global obtém vitórias sucessivas sob o signo da Alternativa
Ausente. É sob esse mesmo signo que pode perecer.
A Europa poderia preencher esse vácuo? Poderia ela oferecer, ser, a
Alternativa? Houve uma época em que essa parecia uma perspectiva
realista.
Lambendo as feridas do último conflito local montado no palco global e
espremida entre a visão de pesadelo de uma Gleichschaltung
[sincronização] totalitária avançando do Oriente Próximo e as suas próprias
memórias horripilantes das devastadoras e, em última análise, sangrentas conseqüências domésticas da Standorkonkurrenz, a Europa se pôs a
trabalhar duro, durante 30 gloriosos anos, no grande experimento social de
mitigar os inaceitáveis extremos do capitalismo sem freios com o
“socialismo de face humana”, enquanto evitava as conseqüências
insustentáveis da versão comunista da eqüidade social, crua e rude, com um
“capitalismo de face humana”. A Europa buscava, por assim dizer, uma
“terceira via” avant la lettre.
O resultado foi o Estado social. Ou seja, um Estado que oferecia a todos
os cidadãos uma política de seguro, endossada e financiada coletivamente,
contra os danos individuais e de grupo inevitáveis numa economia
capitalista, e um Estado que avaliava a qualidade da sociedade como um
todo pela qualidade de vida de seus cidadãos mais fracos e gravemente
feridos.
Houve, é claro, numerosos fatores, além dos medos gêmeos acima
mencionados, que prepararam o caminho para a combinação de reformas
graduais no projeto, construção e manutenção de um “Estado social” – e
todos esses fatores foram amplamente pesquisados e registrados.32 Pode-se
argumentar, porém, que todos esses fatores em conjunto não teriam sido
suficientes, não fosse pela situação de “laço duplo” da Europa, embarcada
numa perigosa viagem entre o demônio e as profundezas do oceano. Foi o
senso, compartilhado por todos, de perigo iminente e a indiscutível
necessidade de cumprir a rota intermediária entre dois rochedos igualmente
perigosos e assustadores que possibilitaram que esses fatores se
vinculassem, se interligassem, se compatibilizassem e produzissem o
consenso europeu do pós-guerra.
Dado o consenso quase universal sobre a natureza do problema e o
generalizado apoio à solução escolhida, não houve escassez de forças
políticas, articuladas ou passíveis de articulação, preparadas para se
mobilizar em defesa do grande experimento destinado a pôr um fim à
endêmica inclinação da Europa às guerras civis – quer fossem da variedade
entre Estados ou da transnacional, interclasses. O orgulho da primazia entre
essas forças políticas pertencia, porém, à Democracia Cristã – estufa
intelectual e base política de Adenauer, Gaseri e Schumann, os três
estadistas que foram os principais responsáveis pelo estabelecimento dos
alicerces de uma “política social” em vez de uma “política do poder” na
Europa. A eles se juntou Paul-Henri Spaak, um socialdemocrata. Se eu
fosse instado a quantificar o peso relativo das contribuições, consideraria como um bom guia a composição político-partidária dos “Quatro Grandes”.
Em sua tradição, se não em seu idioma político corrente, a visão da
Democracia Cristã era essencialmente transnacional: a Europa era um
“Sacro Império” muito antes de ser dividida em domínios nacionais. Podia-
se dizer que a Democracia Cristã era uma nova versão multilíngüe do
espírito da Europa cristã de língua latina. Como tal, tinha menos inibições
do que outros campos políticos (incluindo os socialdemocratas, que tinham
sido treinados desde o início do século XX e nos 40 anos de guerra quente e
fria a apoiar os seus respectivos nacionalismos, sem excluir os mais
chauvinistas e belicosos) e ainda menos rejeição à idéia de uma unificação
transnacional do continente. Essa transnacionalidade – simbolizada pela
França e pela Itália católicas de mãos dadas com a Alemanha protestante e
restringindo o sacrossanto princípio da soberania nacional que, na era pós-
Westphalia, veio a substituir, e solapar, a unidade cristã – podia ser
considerada uma continuação, após três séculos de interlúdio nacionalista,
do processo inacabado de Contra-Reforma; a restauração de um
ecumenismo pan-europeu já comprovado, referente ao statu quo ante, e não
um salto no desconhecido.
Na construção e manutenção do Estado de bem-estar social, a
democracia social foi o principal parceiro, ao mesmo tempo o painel de
especialistas e a agência executiva. Com efeito, durante 30 anos do pós-
guerra, o desenvolvimento de instituições e medidas de “bem-estar social”
se tornou a marca registrada dos partidos socialdemocratas em praticamente
todos os países europeus. Com o tempo, a preocupação com a “seguridade
social” se tornou um traço distintivo dos Estados europeus – e assim
permaneceu, sem muito questionamento, até a aurora da “revolução
neoliberal”, nos anos 70. A essência dessa revolução tardia foi a liberação
da produção e distribuição de riquezas da supervisão e administração estatal
pretendidas pelo modelo do Estado de bem-estar social. Em outras palavras,
a substância da guinada neoliberal foi a submissão daquela parcela da
soberania territorial do Estado-nação que era crucial para a função de
“livro-caixa” daquele modelo, e assim também para corresponder às
responsabilidades sobre as quais se fundamentou a legitimação do poder do
Estado durante aqueles estonteantes “30 anos gloriosos”.
O modelo do “Estado de bem-estar social” acarretava necessariamente,
como elemento essencial, o objetivo do “pleno emprego”, termo
taquigráfico que significa a reafirmação da importância – ou melhor, da indispensabilidade – de cada cidadão, para a riqueza e o bem-estar da
sociedade como um todo. O objetivo do pleno emprego andava de mãos
dadas com a postulada plenitude da cidadania: juntamente com o “lado do
consumidor”, o direito a partilhar dos benefícios da crescente riqueza
nacional, estava o direito de participar da criação dessa riqueza e,
conseqüentemente, de administrar os assuntos públicos (considerados
comuns e compartilhados) e participar da determinação da natureza dos
interesses públicos (também considerados comuns e compartilhados). Se o
endosso e o fornecimento coletivos da seguridade social contra os
infortúnios sofridos individualmente refletiam a intenção de socializar os
riscos endêmicos à economia capitalista e à competição de mercado, a
cidadania plena e ativa assinalava o esforço da inclusão universal, por meio
do corpo político, numa sociedade que evoluía na direção do tipo ideal de
comunidade.
Com o benefício da distância, podemos interpretar o Estado social como
sendo (ao que se esperava) uma solução para o problema colocado pela
retirada da Europa de suas possessões coloniais ultramarinas.
A progressiva eficiência da moderna economia capitalista/de mercado
tem sido paga desde o início por um volume crescente de “pessoas
redundantes”– pessoas para as quais as novas formas de produção de
riqueza, aperfeiçoadas, mais inteligentes e esbeltas, eram inúteis. Por vários
séculos, esse “resíduo humano” do progresso econômico podia ser
depositado nos vastos territórios que, devido à superioridade militar e
tecnológica dos europeus, podiam ser tratados, para todos os fins e
propósitos práticos, como terra de ninguém, ou de qualquer modo “deserta”
e “sub-habitada”, “ociosa” e “subcultivada”. Problemas de redundância,
potencialmente explosivos, gerados localmente, encontraram soluções
globais. Mas, uma vez desatrelado sobre as populações nativas pré-
capitalistas das terras colonizadas, o “novo e aperfeiçoado” modelo
econômico capitalista transformou gradualmente os territórios conquistados
de “depósitos de lixo” em fábricas enormes, cada vez maiores, de pessoas
redundantes. Não era mais possível esvaziar os montes de cinzas,
potencialmente combustíveis, da população excedente diariamente
produzida pelo progresso econômico no plano doméstico e despejá-la, ao
menos em parte, nas terras de ultramar. O lixo só poderia ser neutralizado e
desintoxicado se fosse reciclado domesticamente. Os excluídos tinham de
ser readmitidos. Os inúteis tinham de ser novamente transformados em úteis. Aqueles a que se havia negado alocação social tinham de ser
reposicionados. Aqueles a que se havia recusado a dignidade humana
tinham de ser reabilitados. Acima de tudo, a todos – tanto os
temporariamente oprimidos quanto os atualmente afortunados – era preciso
assegurar, e ainda garantir, que era exatamente isso que aconteceria em
casos de necessidade. O Estado de bem-estar social era visto como a
solução para todos.
Deixar o capital de fora dessa complexa equação ética/social/política
significou o réquiem do Estado social. O que permanece dessas instituições
é agora obrigado a travar uma luta penosa contra a pressão de problemas
produzidos globalmente. Os Estados sociais europeus agora se defrontam
com a tarefa impossível de oferecer soluções localmente planejadas,
administradas e protegidas para problemas produzidos globalmente e que
estão além do alcance do controle local. Os Estados-nações têm como único
recurso a estratégia da Standorkonkurrenz, e esse tipo de competição
interestatal estabelece demandas que militam contra os princípios mais
fundamentais do Estado social inclusivo. O lado reverso do esforço para
salvar as funções inclusivas/protetoras que, se esperava, fossem
desempenhadas pelo Estado de bem-estar social é a sua máxima
desesperança – não há soluções locais para problemas globais, e um Estado
de bem-estar social não pode ser construído nem sustentado em um Estado
territorialmente soberano tomado isoladamente; talvez nem mesmo dentro
de uma “fortaleza” que incorpore, com o objetivo de reforçar a sua defesa,
uma combinação de vários desses Estados. A globalização do capital e do
comércio, a remoção das restrições e as obrigações impostas ao capital no
plano local, e a resultante extraterritorialidade das principais forças
econômicas tornaram “o Estado de bem-estar social num único país” quase
que uma contradição em termos.
A abrupta capitulação do controle do Estado sobre os empreendimentos
do capital não ocorreu sem resistência. Houve uma época, depois do coup
d’État reaganista/thatcherista, em que os europeus votaram pelo retorno dos
socialdemocratas ao poder em 13 dos 15 Estados-membros da União
Européia. Mas isso mostrou ser apenas um curto episódio. Por toda parte,
embora com graus variados de convicção e zelo, partidos que antes se
identificavam com o projeto do Estado de bem-estar social, uma vez no
governo, presidiram o seu desmantelamento. Em vez de assegurar o
controle público dos recursos públicos, transferiram mais ativos nacionais para o livre jogo das forças do mercado e fizeram com que mais recursos
antes excluídos da mercantilização se tornassem receptivos à lucratividade e
à acumulação do capital. Alguns o fizeram com entusiasmo, proclamando o
papel invertido como uma “nova e aperfeiçoada” versão da doutrina
socialdemocrata, antiquada e ultrapassada; outros, com relutância e sob
pressão – mas todos insistiram em tom vociferante (ainda que por vezes de
cara envergonhada) em que o “novo caminho” era o único possível e,
transformando em dogma o slogan “não existe alternativa”, ajudaram a
enterrar todas as opções realistas e imagináveis.
Como descobriu Allyson Pollock, a verdadeira extensão da
mercantilização dos serviços que antes eram públicos dificilmente poderia
ser avaliada a partir da leitura das manchetes de jornal. No Reino Unido, a
gradativa, mas profunda e implacável, defasagem das medidas de seguro
coletivo e a ruptura dos pressupostos mais fundamentais do modelo do
“Estado de bem-estar social” ocorreu de maneira sub-reptícia, sem sequer
se manifestar no debate público, muito menos submeter-se a uma decisão
estratégica democraticamente endossada. Por exemplo, “nos últimos 20
anos o Sistema Nacional de Saúde se retraiu quase totalmente no que se
refere à cláusula do tratamento de longo prazo”. “A principal
responsabilidade pelo tratamento de idosos fragilizados ou doentes, assim
como dos portadores de deficiência, ficou para os 5,7 milhões de
atendentes, dos quais 600 mil fornecem cuidados voluntários [gratuitos –
não remunerados] durante 50 horas ou mais por semana.” “Em 2001, 91 por
cento dos leitos dos sanatórios e 75 por cento dos leitos de atenção
residencial na Inglaterra eram operados em base lucrativa.”33
Progressivamente enfraquecidas, as cláusulas do Estado de bem-estar
social foram se transformando de símbolos dos direitos dos cidadãos em
ferramentas de exclusão social – sintomas/indicações de estigma social – e
assim perderam rapidamente o fascínio, juntamente com os vestígios do seu
apoio eleitoral. Mas a principal vítima do massacre das opções alternativas
foi a própria socialdemocracia – como uma força política viável, com
eleitorado próprio e programa político distinto. A socialdemocracia
compartilhou a mesma sorte do Estado de bem-estar social, mostrando-se
tão desejosa de o jogar no lixo da história quanto os outros contendores do
ringue político. Nesse processo, perdeu a razão de ser que a tinha
transformado numa força política importante, sustentando-a por todo o
século passado.
Jürgen Habermas conclui o seu estudo da “constelação pós-nacional”
com as seguintes observações:
Dentro da esfera nacional, a única em que podem operar atualmente, eles [os partidos políticos]
têm de atingir uma arena de ação européia. E essa arena, por sua vez, tem de se abrir
programaticamente com o duplo objetivo de criar uma Europa social que possa projetar o seu peso
numa escala cosmopolita.34
Uma dessas observações transmite uma mensagem de crucial
importância: sendo (tornando-se, ressurgindo como) uma versão ampliada
do Estado de bem-estar social, a Europa tem chance de adquirir peso
suficiente para se manifestar quando (se) for lançada a escalas
“cosmopolitas” – presumivelmente por duas razões ao mesmo tempo. Sua
natureza “social” proporcionaria à Europa, como um todo, o grau de coesão
que fez dos Estados-nações unidades de luta tão eficazes e conseqüentes no
passado, enquanto a competência coletiva dos europeus em planejar,
construir e administrar um Estado social agora elevado ao nível de uma
confederação de Estados seria a aptidão significativa, atraente e bem-vinda
que poderia ampliar ainda mais o seu papel na arena “cosmopolita”.
Embora apenas de maneira oblíqua e um tanto perversa, os líderes políticos
europeus admitem tudo isso quando insistem em que as pretensas “pessoas
em busca de asilo” são de fato atraídas para a Europa principalmente pelas
suas leis generosas e socialmente inclusivas.
Pode-se imaginar, porém, como esse feito poderia ser realizado, tendo
em vista o estado lamentável e a imagem negativa do “Estado de bem-estar
social” na própria Europa de hoje, e em particular a indisponibilidade de
agências viáveis indispensáveis tanto para curar os males atuais dos Estados
sociais europeus quanto para “apresentar” uma Europa “social”
convalescente no palco planetário.
“Permitam-me declarar minha crença inabalável de que a única coisa
que temos a temer é o próprio medo”, afirmou Franklin Delano Roosevelt
em seu Discurso Inaugural de 4 de março de 1933, o qual esboçava a visão
do New Deal, a introdução de uma variedade americana de Estado social.
Com efeito, a grande promessa do Estado de bem-estar social, a que iria
animar e orientar o próximo meio século de história, era ficar livre do
medo. Os seres humanos são suficientemente poderosos para lidar com o
que lhes causa dor e de silenciar o que os faz sofrer – com exceção do medo
da dor e do sofrimento, e com exceção dos momentos em que esse medo se
torna tão profundo que os deixa impotentes para a ação.
Em retrospecto, o episódio do Estado de bem-estar social pode ser mais
bem interpretado como uma longa contra-ofensiva em relação ao medo que
se abateu sobre americanos e europeus durante a “Grande Depressão”, o
qual desnudou a fragilidade dos alicerces sociais sobre os quais se assentava
o bem-estar de todos os seres humanos – até mesmo dos mais afortunados.
O despertar foi brutal, chocante e (ao menos para a geração que o
vivenciou) inesquecível. Era necessário um esforço hercúleo para aplacar o
medo que isso provocou. Incorporado no Estado de bem-estar social, o
projeto de libertar-se do medo talvez tenha sido o empreendimento mais
corajoso que a humanidade já levou a cabo, juntamente com a força de
vontade que reuniu para levar o mesmo plano até as últimas conseqüências.
Na estrada que conduzia ao Estado de bem-estar social, venceram-se
muitas batalhas contra o medo. A guerra, contudo, ainda não tinha
terminado, e a vitória final não está mais à vista agora do que estava na
época do Discurso Inaugural de Roosevelt. As armas de guerra que ele ou
Beveridge sugeriram e colocaram em ação agora estão sendo depostas em
massa e não mais se ajustam ao admirável mundo novo da mercantilização
universal e do domínio do mercado global, mas o medo não parou de
assombrar as noites e envenenar os dias. Tampouco desapareceu dos
discursos políticos; na verdade, sua dimensão se elevou, tendo se
transformado em inimigo público número um e alvo principal das cruzadas
governamentais. “Libertar-se do medo” continua sendo, tal como antes, o
item mais importante na lista de prioridades declaradas de qualquer
governo, e uma promessa que deve ser feita – pelo menos da boca para fora
– por todo político que aspire seriamente a uma cadeira no governo.
Os dias do Estado social podem estar chegando ao fim, mas os do
Estado de segurança certamente não estão.
Mas a segurança não era a principal razão de ser do Estado social? Claro
que era. Então, o que mudou? O significado da idéia de “segurança” se
alterou, e em particular as causas oficialmente reconhecidas de sua
obstinada indefinição. Como prescientemente observou Miguel de
Cervantes meio milênio atrás (no capítulo 20 da primeira parte de Dom
Quixote), “o medo tem muitos olhos e pode ver coisas ocultas”. O medo
pode ver o que os olhos não podem. E o que eles nunca veriam. Boas novas
para o medo, más notícias para o medroso: os medos se alimentam e
crescem por meio dos olhos – por meio do que os olhos vêem e, mais
certamente ainda, do que eles não podem ver.
A segurança na qual nos preocupamos, da qual somos advertidos,
encorajados e preparados para temer, enquanto os poderes constituídos nos
prometem que será garantida, não é mais a que Roosevelt ou Beveridge
tinham em mente. Não é a segurança de nosso lugar na sociedade, da
dignidade pessoal, da honra pelo trabalho, do auto-respeito, da
compreensão e do tratamento humanos, mas uma segurança do corpo e das
posses pessoais. Não é a segurança em relação aos que nos recusam
empregos ou negam nossa humanidade quando estamos empregados, que
nos privam do auto-respeito, nos humilham e nos desonram – mas uma
segurança em relação aos invasores de propriedades e aos estranhos à nossa
porta, aos gatunos e mendigos nas ruas, aos molestadores sexuais em casa e
fora dela, aos envenenadores de represas e aos seqüestradores de aviões. Os
medos podem ter as mesmas raízes de antes – mas ao brotar podem ser, e
são, transplantados para outros canteiros. Em sua nova localização, os
implementos forjados pelo Estado de bem-estar social são inúteis. São
necessárias outras ferramentas. O que costumava ser a arma adequada para
enfrentar o desemprego, a destituição na velhice, a exclusão e a degradação
social está fora de sintonia com a luta contra os terroristas. Para cada medo,
um tranqüilizante adequado.
Há mais uma característica – talvez a de mais graves conseqüências –
que separa os medos contemporâneos daqueles que Roosevelt ou Beveridge
tentaram exterminar. Aqueles eram pura e simplesmente calamidades,
aflições inúteis, sofrimentos e tormentos demasiadamente concretos que se
colocavam entre as pessoas e as suas chances de uma vida decente.
Também era difícil equivocar-se quanto à sua localização. Como assinalou
Ulrich Beck, é difícil enganar-se sobre as causas de dores como a fome, a
doença ou a falta de perspectivas de vida, a miséria ou a destituição pois,
“na experiência da carência material, a aflição concreta e a vivência
subjetiva do sofrimento estão indissoluvelmente ligadas”.35 Não ocorre o
mesmo ao que Beck chama de “riscos”, as chances de que as calamidades
atualmente visíveis pelas armas do governo venham a ocorrer. Os “riscos”
são invisíveis – é preciso ser advertido sobre a sua existência para se ter
medo deles, e as suas causas dificilmente são transparentes. Beck aponta
que, por causa de sua invisibilidade, a própria existência dos riscos, e
decerto a sua gravidade e intensidade, pode ser negada (como, por exemplo,
no caso dos gases do efeito estufa ou do aquecimento global). Mas a
invisibilidade dos novos riscos tem outra conseqüência muito mais seminal. É tão improvável imaginar a fome como negá-la – mas as ameaças à
segurança podem ser imaginadas, e facilmente. Mais uma vez citando Beck,
É possível fazer com mais facilidade digressões interpretativas de inseguranças e medos
instilados do que em relação à fome e à pobreza. O que acontece aqui deve ser superado aqui, mas
pode ser desviado nesta ou naquela direção e procurar e encontrar lugares, pessoas e objetos
simbólicos para superar o medo. Na consciência dos riscos, portanto, o pensamento e a ação – ou
o conflito social – deslocados são especialmente possíveis e muito procurados.
Em poucas palavras: os “riscos à segurança” podem ser encobertos ou
negados – mas também se pode inventá-los. Quanto às razões de se temer
pela segurança, estas podem ser mantidas em segredo ou afastadas
racionalmente – mas também se pode fantasiá-las, exagerá-las ou inflá-las
de modo totalmente desproporcional.
O formidável filósofo russo Mikhail Bakhtin assinalou que todos os
poderes terrenos tendem a extrair veios de disciplina de seus súditos com a
ajuda do “medo oficial”: uma réplica artificial, feita sob medida, do “medo
cósmico” – aquele terror natural e original experimentado pelos seres
humanos, mortais, vulneráveis e impotentes, quando confrontados com uma
Natureza inescrutável e todo-poderosa.36 Se Bakhtin estava certo (e há, nos
dias de hoje, muito a dizer em favor de suas propostas), então a produção
do “medo oficial” é a chave para a efetividade do poder. O medo cósmico
pode prescindir de mediadores humanos, mas o medo oficial, como todos os
outros artifícios culturais, não consegue passar sem eles. O medo oficial só
pode ser inventado. Os poderes terrenos não aparecem para resgatar os
seres humanos já tomados pelo medo – embora façam o possível, e mais
que isso, para convencer os seus súditos de que esse é, de fato, o caso. Os
poderes terrenos, de modo muito semelhante às ofertas dos mercados de
consumo, precisam criar sua própria “clientela”, e assim a sua própria
demanda. O “medo capital” precisa primeiro ser produzido pelo poder
terreno para então se insinuar e ganhar a confiança de seus súditos sendo
duro naquilo que estes temem. Para que o seu domínio se sustente, é preciso
tornar, e manter, vulneráveis, inseguros e amedrontados os objetos
humanos.
As conclusões de Bakhtin devem ter sido mais fáceis graças à evidência
empírica que lhe era disponível no tempo e lugar em que escreveu. Stalin,
então a cargo da terra natal de Bakhtin, demonstrou repetidamente o seu
poder de desencadear expurgos e caçadas a bruxas – mas também a sua
capacidade de interrompê-los ou suspendê-los de modo tão abrupto e inexplicável quanto o seu início. Não havia como prever quais seriam as
próximas perseguições caracterizadas como casos de bruxaria. Os golpes
eram desferidos de forma aleatória, e fazer acusações – para não mencionar
o fornecimento de provas materiais de ligação com a variedade de bruxaria
que estivesse sendo caçada no momento – constituía um luxo desaprovado
(como a sabedoria popular soviética observava com perspicácia na história
da lebre, explicando por que esta, uma lebre, corre em busca de abrigo
quando ouve dizer que estão atrás de camelos: “Primeiro eles o matam,
depois você tenta provar que não era um camelo…”). Quando todos estão
sempre vulneráveis e inseguros em relação ao dia de amanhã, a
sobrevivência e a segurança, e não uma catástrofe súbita, parecem ter um
feito sobre-humano a exigir grande dose de previdência, sabedoria e poder
de ação – tudo além da compreensão, dos recursos e das habilidades das
pessoas comuns. Sob o governo de Stalin, a contenção dos golpes
aleatoriamente distribuídos, dispensando uma pessoa dos campos da Sibéria
ou dos pelotões de execução, é que parecia ser a prova de potência,
sabedoria, cuidado paternal, benevolência e graça do poder supremo.
Devia-se ter gratidão pelos favores recebidos. E se tinha.
A vulnerabilidade e a incerteza humanas são os alicerces de todo o poder
político. Na variedade stalinista de poder totalitário, ou seja, na ausência da
precariedade da condição humana produzida pelo mercado, essa
vulnerabilidade e essa incerteza tinham de ser produzidas e reproduzidas
pelas forças policiais sob o comando do poder político. Pode ter sido mais
do que mera coincidência que o terror aleatório se tenha desencadeado
sobre os russos em escala maciça ao mesmo tempo em que eram
embrulhados os últimos restos do livre mercado na Rússia.
Numa sociedade moderna da variedade capitalista e regida pelo
mercado, a vulnerabilidade, a incerteza e a insegurança da existência são
asseguradas pela exposição das atividades da vida aos perigos e caprichos
da competição de mercado. Quando exigem de seus indivíduos a disciplina
e a observância à lei, os poderes políticos podem legitimar as suas
exigências na promessa de reduzir o nível da vulnerabilidade e da incerteza
reinantes, limitar os danos e prejuízos produzidos pelo livre jogo das forças
do mercado, proteger os vulneráveis pelo menos dos mais devastadores
entre os golpes que sofrem, ou podem sofrer, e garantir os inseguros dos
riscos que toda a competição livre necessariamente lhes reserva.
Tal legitimidade, permitam-me repetir, encontrou sua derradeira
expressão nas práticas do “Estado de bem-estar social”– com base no
pressuposto de que a segurança de cada cidadão em relação aos golpes de
seu destino individual é tarefa e responsabilidade de toda a comunidade de
cidadãos. Essa fórmula de poder político, contudo, está atualmente
regredindo. As instituições do Estado social são, uma a uma, desmanteladas
ou defasadas, enquanto se removem uma a uma, as restrições anteriormente
impostas às atividades empresariais e ao livre jogo da competição de
mercado e suas conseqüências. As funções protetoras do Estado estão sendo
esvaziadas para servir apenas a uma pequena minoria de pessoas inválidas e
não empregáveis (e não são mais preventivas: só se põem em movimento
quando o desastre já se abateu). Mesmo essa minoria tende a ser
reclassificada, contudo, da esfera da assistência social para a da lei e a da
ordem, já que a incapacidade de participar do jogo do mercado tende a ser
cada vez mais criminalizada. O Estado lava as mãos quanto à
vulnerabilidade e à incerteza produzidas pela lógica (ou falta de lógica) do
livre mercado, agora reapresentadas como um problema privado, que os
indivíduos devem tratar e enfrentar por conta própria e com recursos
particulares.
O antipático efeito colateral dessa tendência é solapar os alicerces sobre
os quais o poder do Estado se fundamentou por grande parte dos tempos
modernos. O crescimento da apatia política, amplamente observado, a perda
do interesse e do compromisso políticos (“não há mais salvação pela
sociedade”, como Peter Drucker observou numa frase célebre) e a redução
maciça da participação popular na política institucionalizada testemunham
o esfacelamento dos alicerces estabelecidos do poder de Estado. A
mensagem mais comumente ouvida dos porta-vozes nomeados da “grande
sociedade” é o apelo a ser “mais flexível”. Nos dias de hoje, oferece-se a
incerteza como cura para a insegurança…
Tendo rescindido ou reduzido enormemente a sua antiga interferência
programática na insegurança produzida pelo mercado, os Estados
contemporâneos devem procurar outra variedade, não econômica, de
vulnerabilidade e incerteza em que possam basear a sua legitimidade. Agem
como se tivessem optado por trocar a condição de Estados sociais pela de
Estados de segurança. Trocaram a ansiedade alimentada pela progressiva
desregulamentação das condições essenciais de vida, a privatização dos
riscos e a retração do seguro comunal pelo problema da segurança pessoal: os medos provenientes das ameaças aos corpos, bens e habitats dos seres
humanos e que emanam dos criminosos, da “subclasse”, das “pessoas em
busca de asilo” portadoras de doenças e prontas a se engajar no crime de
rua e, mais recentemente, do terrorismo global ou das armas de destruição
em massa, prontas a serem usadas nos próximos 45 minutos.
Diferentemente da insegurança nascida do mercado, que é no mínimo
visível demais para passar despercebida, essa insegurança alternativa com
que o Estado espera poder salvar as suas pretensões redentoras deve ser
artificialmente estimulada, ou pelo menos altamente dramatizada e
martelada de maneira insistente, repetida e monótona, para inspirar uma
dose suficiente de “medo oficial” e ao mesmo tempo reduzir e empurrar
para debaixo da mesa as preocupações da insegurança economicamente
gerada sobre a qual a administração do Estado nada pode e/ou deseja fazer.
Diferentemente das ameaças à subsistência e ao bem-estar geradas pelo
mercado, que costumam ser representadas em tons pastéis, a extensão dos
perigos à segurança pessoal deve ser pintada nas cores mais gritantes, de
modo que a não-materialização das ameaças possa ser aplaudida como um
evento extraordinário, resultado da vigilância, da atenção, das proezas e da
boa vontade dos órgãos de Estado.
Quando lhes negam brutalmente o acesso às conexões de vôo, as
empurram de um lado para outro nos saguões congestionados dos
aeroportos, lhes recusam o direito à privacidade e as classificam como
culpadas até prova em contrário, as infelizes vítimas de um “iminente
ataque terrorista” aplaudem os guardas de segurança – em voz alta e com
toda sinceridade. Quem mais se esforçaria tanto para dispersar os seus
temores – estes de agora ou quaisquer outros? Quem mais garantiria que
eles viajassem sãos e salvos de um lugar para outro?
Esse tipo de temor, juntamente com o mecanismo que o fabrica e utiliza,
é produto do mundo hobbesiano. É também o principal fator responsável
pela sua contínua ressurreição.
E assim está de volta a mesma questão: será que a Europa pode oferecer,
ou ser, uma alternativa ao mundo hobbesiano da terra de fronteira planetária
trazido à luz, servido e perpetuado pelo novo império?
Há alguns fenômenos distintamente, talvez até singularmente, europeus,
alguns antigos, outros novos, que sugerem que a resposta é “sim” – embora
as chances do outro lado sejam assustadoras. O cálculo da força relativa dos
fatores pró e contra não pode ser antecipado mediante argumentação teórica. Em última instância, só pode ser decidido por meio de opções e
decisões políticas.
Para começo de conversa, é improvável que o fantasma do Estado de
bem-estar social seja exorcizado. Ele continuará assombrando os porões
sombrios e os sótãos etéreos, assim como todos os andares interligados do
lar que os europeus compartilham – e a fama que conseguiu obter
mundialmente continuará cutucando a memória européia. O Estado social
foi uma estufa da solução pacífica de conflitos. Ou, parafraseando
ligeiramente os termos de Balibar, uma oficina em que se forjavam o
abrandamento e a suavização do conflito por meio de sua
“institucionalização”. A construção e a manutenção do Estado de bem-estar
social eram e continuam sendo uma lição da arte de “combinar os diferentes
recursos para institucionalizar conflitos”, ou seja, “dotar os interesses
antagônicos de ‘representação’ formal dentro do Estado, em vez de suprimi-
los e criminalizá-los”.37 Em lugar de repressão e exclusão, um esforço
sustentado para “habilitar” as vítimas da injustiça por meio da provisão
mais eqüitativa de (para usar o termo de Amartya Sen) “capacidades”. Essa
arte, praticada e cultivada por muitos anos na Europa, pode ser utilizada
agora, quando se trata de suavizar e civilizar a terra de fronteira global –
mesmo que isso possa exigir mais, muito mais, do que simplesmente
ampliar as ferramentas testadas com sucesso no âmbito do Estado-nação
para torná-las efetivas em escala planetária.
Há outra herança preciosa que a Europa pode levar para o iminente
“processo civilizador” da terra de fronteira planetária. Balibar toma
emprestada de Umberto Eco a idéia do “idioma europeu” formado na
“prática da tradução”.38 Por muitos séculos, a Europa foi uma totalidade
compósita, colocando diariamente muitas línguas e elementos culturais em
contato e comunicação. Poderíamos dizer que a Europa era, por esse
motivo, um solo natural para o florescimento da hermenêutica, a arte da
interpretação e da compreensão. A Europa foi e continua sendo o lar da
eterna tradução. Nesse processo, ela aprendeu a estabelecer um diálogo
proveitoso e efetivo entre idiomas culturais e lingüísticos sem anular a
identidade de nenhum dos participantes. Ela aprendeu (para citar a
expressão de Franz Rosenzweig) a tratar os participantes da conversa como
donos de línguas, além de ouvidos; como falantes, não apenas ouvintes.
Balibar sugere que essa habilidade prática, baseada na tradição de
falar/ouvir, ensinar/aprender, entender e se fazer entender (em suma, de traduzir) “também poderia ser ampliada estendendo-se a idéia de ‘tradução’
do nível puramente lingüístico para o nível cultural mais amplo”. A Europa
ainda pode desempenhar um papel crucial na concepção, nascimento e
amadurecimento de uma comunidade planetária em sua capacidade de
“intérprete do mundo”.
Balibar chama esse papel de “mediador evanescente” (como o
desempenhado, segundo Max Weber, pela “ética protestante” na emergência
da moderna racionalidade capitalista): o sucesso do papel seria avaliado por
uma Europa desempenhando a sua tarefa enquanto a progressiva
“institucionalização do conflito” e o diálogo perpétuo abrem caminho para
os recursos de uma terra de fronteira e substituem o mundo hobbesiano
atual por uma constituição política [polity] kantiana que abrace toda a
humanidade. Permitam-me comentar que o padrão do “mediador
evanescente” parece ajustar-se muito melhor ao império fantasma que se
imagina ser atualmente governado pela superpotência americana. É esse
credo irracional que, a longo prazo, pode muito bem provar ter
desempenhado a função de “parteira” responsável pelo nascimento de
forças capazes de, e/ou que “não têm escolha senão…”, realizar uma
“europeização do globo” – moldando os contornos da constituição política
[polity] planetária do futuro.
As atuais condições de terra de fronteira galvanizadas pelo império
fantasma podem muito bem entrar para a história como as circunstâncias
que efetivamente salvaram o “idioma europeu” do desaparecimento.
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