Europa
3. Do Estado social para o Estado de segurança
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Do Estado social para o
Estado de segurança
A fera sem nome do conto “A toca” de Franz Kafka se gaba de que “a
verdadeira entrada” da cova que vem cavando há muito tempo, e ainda está
cavando, “é coberta por uma camada de musgo removível”, e portanto “tão
segura quanto pode ser alguma coisa neste mundo”. E no entanto, queixa-
se, “alguém poderia pisar no musgo ou rompê-lo, e então a minha toca
ficaria aberta, e qualquer um que quisesse … poderia entrar e destruir tudo
para sempre”.1
“Alguém”… qualquer um, de fato – e não há ninguém fora da toca em
quem realmente se possa confiar. É comparativamente fácil confiar em
alguém que você supervisione, e é possível até confiar em alguém a
distância, “mas confiar plenamente em alguém fora da toca quando se está
dentro, ou seja, num mundo diferente, isso me parece impossível”. Para
piorar as coisas, “também há inimigos nas entranhas da terra. Nunca os vi,
mas as lendas falam sobre eles, e eu acredito firmemente que existam.” Por
causa desses inimigos invisíveis, “não vale a pena consolar-se pensando que
se está em casa – é mais fácil você estar na deles”. No fim, quando se trata
de segurança, o lado de dentro da toca não é muito melhor que o de fora, e
não é possível traçar uma linha clara entre ambos, independentemente do
esforço…
“A questão”, pondera o escavador, é que “na verdade a toca proporciona
um grau de segurança considerável, mas de modo algum suficiente, pois
quem está livre das ansiedades dentro dela?” “Minha preocupação constante com medidas defensivas envolve a alteração e a modificação freqüentes.”
Minha segurança jamais será total, a toca nunca estará terminada, o trabalho
nunca vai acabar. Só as constantes alterações e modificações é que aplacam
o medo – enquanto as realizo. É na agitação e comoção da eterna fuga para
a segurança, no constante cavar e encobrir vestígios que se pode buscá-la
(se não em relação ao inimigo, pelo menos no que diz respeito à ansiedade
que ele causa): “manter o ouvido grudado na parede e a cada alusão de
ruído arrancar um punhado de terra, sem esperar realmente encontrar
alguma coisa, apenas para fazer algo que possa expressar a agitação
interior”. A ansiedade perturba a vida, mas esta se transforma gradualmente
numa série de perturbações. Interromper a série rompe com a vida como
aprendemos a vivê-la e reconhecê-la como vida. Vida é ansiedade,
ansiedade é vida. “Provavelmente não há nada que eu queira mais do que
começar a cavar com obstinação e confiança, simplesmente por cavar, num
lugar ou em outro, tendo ouvido ou não alguma coisa.”
A história é contada pelo animal ao se aproximar o fim de sua vida de
luta contra a ansiedade, cavando a toca. Com o cansaço da vida vem a
sabedoria que esta proporciona. As criaturas velhas são dadas a
reminiscências, retrospecção, reflexão – ainda mais por causa da força que
se esvai: quanto mais fracas as mãos, mais longos os momentos vazios que
os pensamentos podem e precisam preencher. Os pensamentos absolvem as
mãos envelhecidas do pecado da preguiça – é por isso que as velhas
criaturas são muitas vezes consideradas cínicas e sagazes. O cavador de
toca de Kafka resiste ao impulso de abrir outros fossos: “Este fosso me trará
a certeza, é o que você diz? Cheguei ao estágio em que não desejo mais ter
certeza.” A vida sem incerteza – como seria? Ainda seria vida? Será que
não é exatamente o medo que faz a vida valer a pena? Depois de ter lutado
a vida toda pela segurança, a perspectiva de alcançá-la e não precisar mais
lutar por ela é aterradora. Ao fim de uma vida preenchida pelo medo, o
medo que mais apavora é a ausência de medo.
Pode-se ouvir um suspiro de alívio na frase “Mas tudo permaneceu
inalterado” com que o herói de “A toca” termina as suas confissões – tendo
concluído primeiro que, apesar da sua agitação febril, nunca saberia se o
inimigo encontrou ou não o seu abrigo e quais poderiam ser as intenções
dele. O significado da vida não sobreviveria à extinção do medo. A
segurança pareceria o toque fúnebre de uma vida significativa e deixaria a
nu o absurdo dessa existência…
Nós, seres humanos, somos procuradores inveterados de significados.
Pode-se chegar até a considerar a pergunta “por que motivo?” como o traço
definidor da humanidade. Já que a luta contra o medo se transforma no
sinônimo de uma vida significativa, tendemos a nos tornar dependentes
desse sentimento – somos viciados em medo. Precisamos de uma dose
diária – e, como em todo vício digno do nome, cada dia precisamos de uma
dose maior. O que mais tememos é uma overdose, pois tememos o fim do
temor que ela representa. Derrida provavelmente incluiria o medo entre os
principais espécimes de pharmacon, a “droga” – aquele remédio e veneno
embrulhados num só, remédio quando administrado regularmente e na
quantidade certa, veneno se exagerado, com a linha que separa a dose certa
da errada revelando-se evasiva e impossível de determinar com precisão,
muito menos de se manter no lugar.
Não admira que o medo venda, e venda bem. Um recente anúncio de
jornal de uma empresa gigante na área de TV por satélite estimula os
leitores a ligarem o aparelho: “E se você pegasse um vírus mortal tocando
em alguma coisa? Como um jornal…” Os viciados em medo precisam de
mais, sempre mais, e a demanda por medos novos e aperfeiçoados não
parece que jamais vá definhar, muito menos se extinguir – ainda que a
indústria do medo, como todas as indústrias orientadas para o consumidor,
compense as suas falhas de informação e cerque as suas apostas com
excesso, e assim tenda a passar dos limites atirando sobre o alvo repetidas
vezes.
No medo, a indústria de consumo encontrou a mina de ouro sem fim e
auto-renovável que há muito procurava. Para a indústria do consumo, o
medo é, plena e verdadeiramente, um “recurso renovável”. O medo se
tornou o moto perpétuo do mercado de consumo – e portanto da economia
atual.
Foi principalmente na Europa e em suas crias, ramos e depósitos
sedimentares que o vício do medo e a obsessão com a segurança fizeram a
carreira mais espetacular nos últimos anos.
Em si, isso parece um mistério. Afinal, como aponta Robert Castel em
sua incisiva análise das atuais ansiedades alimentadas pelo medo, “nós – ao
menos nos países desenvolvidos – vivemos sem dúvida nas sociedades mais
seguras [sûres] que já existiram”.2 E no entanto, contrariando as “evidências
objetivas”, somos nós, bajulados e mimados, entre todos os povos, que nos
sentimos mais ameaçados, inseguros e aterrorizados, mais inclinados ao pânico e mais apaixonados por tudo que se relacione com segurança e
proteção do que todas as pessoas da maioria das outras sociedades de que se
tem registro.
Sigmund Freud enfrentou francamente o quebra-cabeça e sugeriu que
sua solução poderia ser encontrada no sólido desafio da psique humana à
pura “lógica dos fatos”. O sofrimento humano (e assim também o medo do
sofrimento, e o medo como o mais irritante e exasperante espécime de
sofrimento) emerge do “poder superior da natureza, da fragilidade de
nossos corpos e da inadequação das regras que governam as relações
mútuas dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade”.3
Quanto às duas primeiras causas apontadas por Freud, de uma forma ou
de outra conseguimos conciliar-nos com os limites extremos do que
podemos fazer: sabemos que nunca dominaremos plenamente a natureza e
que não podemos fazer com que os nossos corpos mortais se tornem
imortais ou imunes ao implacável fluxo do tempo – e assim estamos
prontos a aceitar o “segundo melhor”. Essa noção, contudo, não é
depressiva nem incapacitante, mas sim estimulante e energizante: se não
podemos eliminar todo o sofrimento, podemos eliminar alguns tipos e
aliviar outros – é algo que vale a pena tentar, muitas e muitas vezes.
É totalmente diferente, porém, quando se trata do terceiro tipo de
sofrimento: a miséria com origem social. Qualquer coisa feita por pessoas
pode ser refeita por pessoas. Não aceitamos nenhum limite a esse refazer –
de qualquer forma, nenhum limite que, com a devida determinação e boa
vontade, não pudesse ser superado pelo esforço humano: “não conseguimos
perceber por que as regras que nós mesmos estabelecemos não devam ser
… uma proteção e um benefício para cada um de nós”. Se a “proteção
realmente disponível” e os benefícios que usufruímos não atingem o nível
ideal, se os relacionamentos ainda não são do nosso agrado, se as regras não
são o que deviam (e, acreditamos, poderiam) ser, tendemos a suspeitar de
maquinações hostis, complôs, conspiração de um inimigo à nossa porta ou
sob a cama. Malevolência, em suma – e um culpado, um crime ou intenção
criminosa.
Castel chega a uma conclusão semelhante quando sugere que a
insegurança moderna não deriva de uma carência de proteção, mas da “falta
de clareza de seu escopo” (ombre portée) num universo social que “foi
organizado em torno de uma interminável procura de proteção e de uma
frenética busca por segurança”.4 A experiência pungente e incurável da insegurança é um efeito colateral da convicção de que, dadas as habilidades
e o esforço adequados, é possível alcançar a segurança plena (isso pode ser
feito, podemos fazê-lo) – e se vier à luz que isso não foi feito, a falha só
poderá ser explicada por um ato iníquo e uma intenção criminosa. Deve
haver um vilão nessa peça.
Podemos dizer que a variedade moderna de insegurança é marcada
distintivamente pelo medo da malevolência e dos malfeitores. É disparada
pela suspeita em relação aos outros e suas intenções, e pela recusa da
confiança, ou a impossibilidade de confiar, na constância e fidedignidade do
companheirismo. Castel coloca na individualização moderna a culpa por
esse estado de coisas. Sugere que a sociedade moderna, tendo afastado as
comunidades e corporações intimamente unidas que antes definiam as
regras de proteção e monitoravam a sua aplicação, substituindo-as pelo
dever individual da auto-proteção e da auto-ajuda, foi construída sobre a
areia movediça da contingência – numa sociedade assim, a insegurança e o
medo do perigo difuso são endêmicos.
Como em todas as outras transformações modernas, a Europa
desempenhou nisso o papel pioneiro. Foi também quem primeiro
confrontou as conseqüências imprevistas e, como regra, perniciosas da
mudança. Esse enervante senso de insegurança não brotaria não fosse pela
simultânea ocorrência de dois desvios que tiveram lugar na Europa, que
depois se espalharam, em diferentes velocidades, para outras partes do
planeta. O primeiro foi, segundo a terminologia de Castel, a
“supervalorização” (survalorisation) do indivíduo libertado das restrições
impostas por uma densa rede de vínculos sociais.5 Mas o segundo desvio
chegou logo atrás: uma inédita fragilidade e vulnerabilidade do indivíduo
despido da proteção oferecida no passado, e de maneira trivial, pela densa
rede de vínculos sociais.
O primeiro desvio se expôs na frente dos seres humanos como
indivíduos, oferecendo áreas estimulantes e sedutoramente amplas para
praticar a auto-estruturação e o automelhoramento. Mas o segundo desvio
barrou a entrada da maioria dos indivíduos. O resultado combinado de
ambos foi o sal da culpa esfregado sem parar na ferida permanentemente
inflamada da impotência. O nome da doença resultante era o medo da
inadequação.
Desde o início, o Estado moderno confrontou-se com a desestimulante
tarefa de gerenciar o medo. Teve de tornar a tecer a rede de proteção que a revolução moderna destruiu, e continuar a consertá-la enquanto a
modernização por ele promovida continuava a deformá-la e desgastá-la.
Diferentemente de uma visão generalizada, era a proteção (o seguro
coletivo contra o infortúnio individual), mais do que a redistribuição de
riqueza, que estava no coração do “Estado de bem-estar social” a que o
desenvolvimento do Estado moderno inexoravelmente conduziu. Para
pessoas privadas de capital econômico, cultural ou social (de todos os
ativos, menos a capacidade de trabalho), “a proteção é coletiva ou
absolutamente não é”.6
Diferentemente das redes de proteção do passado pré-moderno, as redes
de proteção concebidas e administradas pelo Estado foram construídas
deliberadamente e projetadas ou desenvolvidas por impulso próprio a partir
de outras obras de natureza trabalhista, característica da modernidade em
sua fase “sólida”. As instituições e medidas de bem-estar social (por vezes
chamadas de “salários sociais”), os serviços de saúde, escolas e habitações
administrados ou auxiliados pelo Estado, e os decretos trabalhistas
explicitando os direitos e as obrigações de ambos os lados dos contratos de
trabalho, bem como protegendo o bem-estar e os direitos dos empregados,
constituem exemplos da primeira categoria.
O exemplo mais importante da segunda categoria foi a solidariedade do
pátio da fábrica, do sindicato e ocupacional, que fincou raízes e floresceu
“naturalmente” no ambiente relativamente estável da “fábrica fordista”, o
epítome do ambiente sólido-moderno em que se fixava a maioria dos
“carentes de outro capital”. Os envolvimentos entre os lados opostos das
relações capital-trabalho eram mútuos e contínuos nesse tipo de fábrica,
tornando os dois lados mutuamente independentes, mas ao mesmo tempo
habilitando-os a pensar e planejar no longo prazo, comprometer-se com o
futuro e investir nele. A “fábrica fordista” era, por esse motivo, um lugar de
conflito amargo, por vezes fervilhante, mas sempre efervescente (o
envolvimento a longo prazo e a dependência recíproca de todos os lados
faziam do confronto um investimento razoável e um sacrifício
compensador) – mas também era um abrigo seguro para a confiança e,
portanto, para a negociação, o compromisso e a busca de um modo de
coabitação consensual. Com suas linhas de carreira claramente definidas, as
suas rotinas de trabalho cansativas, mas tranqüilizadoramente estáveis, o
ritmo lento das mudanças na composição das equipes de trabalho, a
permanente utilidade das habilidades adquiridas e os altos valores conseqüentemente atribuídos à experiência de trabalho acumulada, os riscos
do mercado de trabalho podiam ser mantidos a distância, a incerteza podia
ser subjugada, senão inteiramente eliminada, e os medos podiam ser
reservados ao domínio marginal dos “golpes da sorte” e “acidentes fatais”,
em vez de saturarem o curso da vida diária. Acima de tudo, os muitos que
careciam de qualquer capital além de seu trabalho podiam contar com a
coletividade. A solidariedade transformou a capacidade de trabalho num
capital substituto – e num tipo de capital que, ao que se esperava, e não sem
razão, iria contrabalançar o poder combinado de todos os outros.
Os medos modernos nasceram durante o primeiro turno da
desregulamentação-com-individualização, no momento em que os vínculos
de parentesco e vizinhança entre as pessoas, aparentemente eternos ou pelo
menos presentes desde tempos imemoriais, estreitamente firmados em laços
comunitários ou corporativos, eram afrouxados ou rompidos. O
gerenciamento do tipo de medo sólido-moderno tendeu a substituir os
vínculos “naturais” irreparavelmente danificados por seus equivalentes
artificiais na forma de associações, sindicatos e coletivos de tempo parcial
ou quase permanentes, unificados pelas rotinas diárias comuns. A
solidariedade destronou o pertencimento como principal escudo contra um
destino cada vez mais perigoso.
A dissipação da solidariedade significou o fim do gerenciamento do
medo ao estilo sólido-moderno. Chegava agora a vez de as proteções
modernas, artificiais, administradas, serem afrouxadas, desmanteladas ou
rompidas de alguma outra forma. A Europa, a primeira a passar pelo
recondicionamento moderno e por todo o espectro de suas seqüelas, agora
está passando pela “desregulamentação-com-individualização grau dois” –
desta vez, porém, não por sua escolha, mas sucumbindo à pressão de forças
globais que não mais controla nem espera fiscalizar.
Paradoxalmente, quanto mais se trata localmente das proteções “do
berço ao túmulo” que agora estão sob ataque em toda parte, mais atraentes
se tornam os escoadouros xenofóbicos para os sentimentos coletivos de
perigo iminente. Os poucos países (na maioria escandinavos) que ainda
relutam em abandonar as proteções institucionalizadas herdadas dos tempos
sólido-modernos, enfrentando as múltiplas pressões para reduzi-las ou
eliminá-las de vez, vêem-se como fortalezas cercadas por forças inimigas.
Consideram os remanescentes do Estado social um privilégio que deve ser
defendido com unhas e dentes dos estrangeiros ávidos por espoliá-los ou até diluí-los e enfraquecê-los. A xenofobia, a crescente suspeita de um complô
estrangeiro e o ressentimento em relação aos “de fora” (principalmente os
migrantes, essas lembranças vívidas e altamente visíveis de que muralhas
podem ser perfuradas e fronteiras abolidas – efígies naturais, prontas a
serem queimadas, das misteriosas forças globalizantes que se tornam
descontroladas) podem ser vistos como um reflexo perverso das
desesperadas tentativas de preservar o que possa ter restado da
solidariedade local.
Quando a competição substitui a solidariedade, os indivíduos se vêem
abandonados à própria sorte, restando-lhes apenas os seus parcos recursos,
evidentemente inadequados. A dilapidação e decomposição dos vínculos
coletivos os transformaram, sem o seu consentimento, em indivíduos de
jure – mas circunstâncias poderosas e insuperáveis militam contra a sua
ascensão ao modelo postulado dos indivíduos de facto.7 Se, nas condições
sólido-modernas, o infortúnio individual mais temido era não conseguir
ajustar-se, agora – na aurora da guinada líquido-moderna – o espectro mais
atemorizante é a inadequação. É um temor bem-fundado, com certeza,
considerando-se a brecha cada vez maior que separa a quantidade e a
qualidade dos recursos exigidos pela produção efetiva de uma segurança do
tipo faça-você-mesmo, mas ainda assim confiável e fidedigna, da soma total
de matérias-primas, ferramentas e habilidades que a maioria dos indivíduos
pode ter uma esperança razoável de adquirir e manter.
Robert Castel também assinala o retorno das classes perigosas.8
Permitam-me observar, porém, que a semelhança entre a sua primeira e a
sua segunda forma é, na melhor das hipóteses, parcial.
As “classes perigosas” originais eram constituídas do excedente
populacional, temporariamente excluído e ainda não reintegrado, a que o
progresso econômico em processo de aceleração privava de uma “função
útil”, enquanto a progressiva pulverização das redes de vínculos os destituía
de proteção. As novas “classes perigosas”, por outro lado, são aquelas
reconhecidas como inadequadas para a reintegração e declaradas
inassimiláveis, já que não é possível conceber uma função útil que elas
pudessem desempenhar após a “reabilitação”. Não são apenas excessivas,
mas redundantes. São excluídas permanentemente – um dos poucos casos
de “permanência” que a modernidade líquida não só permite como promove
ativamente. Em vez de ser percebida como o resultado de um surto
momentâneo e remediável de má sorte, a exclusão de hoje transpira um ar de finalidade. Cada vez mais, a exclusão atual tende a ser uma via de mão
única. As pontes queimadas, provavelmente, jamais serão reconstruídas. A
irrevogabilidade de sua expulsão e a exigüidade de suas chances de apelar
do veredicto é que transformam os excluídos contemporâneos em “classes
perigosas”.
A irrevogabilidade da exclusão é conseqüência direta, embora
imprevista, da decomposição do Estado social – como uma rede de
instituições estabelecidas, porém, talvez de forma mais significativa, como
um ideal e um projeto. O definhamento, o declínio e a ruptura deste último
pressagiam, afinal, o desaparecimento das oportunidades de redenção e a
eliminação do direito de apelar, e assim a gradual dissipação da esperança e
o enfraquecimento do desejo de resistir. Em vez de uma condição de “des-
emprego” (termo que implica um afastamento da norma, uma aflição
temporária que pode e deve ser curada), não ter um emprego é cada vez
mais percebido como um estado de “redundância” – ser rejeitado, rotulado
como supérfluo, inútil, não empregável e destinado a permanecer
“economicamente inativo”. Não ter um emprego implica ser descartável,
talvez até já ter sido excluído para sempre – destinado ao lixo do “progresso
econômico”, aquela mudança que no final se resume em fazer o mesmo
trabalho e atingir os mesmos resultados econômicos, porém com uma força
de trabalho reduzida e com menor “custo de mão-de-obra” do que antes.
Só uma linha tênue separa hoje em dia os desempregados, e
especialmente os desempregados a longo prazo, de uma queda no buraco
negro da “subclasse”: homens e mulheres que não se ajustam a nenhum tipo
de divisão social legítima, indivíduos deixados de fora das classes e que não
exercem nenhuma das funções reconhecidas, aprovadas e úteis que os
membros “normais” da sociedade desempenham – pessoas que nada
acrescentam à vida da sociedade, exceto aquilo de que ela não precisa para
passar muito bem e cuja eliminação lhe seria proveitosa. Igualmente tênue é
a linha que separa os “redundantes” dos criminosos: “subclasse” e
criminosos são apenas duas subcategorias de “elementos anti-sociais”,
diferindo entre si mais pela classificação oficial e pelo tratamento que
recebem do que por sua postura e conduta. Tal como as pessoas sem
emprego, os criminosos (ou seja, os confinados à prisão, acusados ou sob
vigilância policial, ou simplesmente constantes dos registros da polícia) não
são mais vistos como temporariamente afastados da vida social normal e
destinados a serem “reeducados”, “reabilitados” e, na primeira oportunidade, “reconduzidos à comunidade”– mas como permanentemente
marginalizados, inadequados para a “reciclagem social” e destinados a
serem mantidos afastados, longe da comunidade das pessoas respeitadoras
da lei.
Não se dispõe mais de escoadouros para o despejo das “pessoas
redundantes”. Durante séculos, a Europa em processo de modernização
costumava despejar no ultramar o excedente populacional tornado supérfluo
pelo progresso tecnológico e econômico doméstico – buscando e
encontrando soluções “globais” para problemas sociais gerados localmente.
Hoje em dia, porém, enquanto a produção de “lixo humano” prossegue
inabalada nos países desenvolvidos da Europa e no resto do mundo
ocidental, a indústria de remoção do lixo, outra invenção moderna,
atravessa uma crise profunda: os aterros sanitários afastados de casa se
tornaram escassos e estão encolhendo rapidamente. Lugares considerados
vazios ou sub-habitados agora começaram a produzir os seus próprios
excedentes populacionais. Intermitentemente, vestem os seus jovens
redundantes em uniformes de soldados com a ordem de forçarem os povos
vizinhos a recuarem a fim de obter mais espaço para si mesmos, enquanto
outros jovens permanecem em trajes civis e são enviados a países
estrangeiros com a orientação de sustentar as famílias que deixaram atrás de
si com o dinheiro que deverão ganhar lá fora, mas que não ganhariam se
ficassem em casa. Por falta de alternativa, a “subclasse” e a indústria da
prisão e detenção, em processo de rápido crescimento, devem absorver o
“lixo humano” produzido localmente que as terras do ultramar, agora não
mais os sítios da colonização européia, não continuarão absorvendo; e os
fundos de assistência social, difundidos de modo cada vez mais tênue,
correm perigo de serem ainda mais diluídos pelas vítimas da decolagem do
progresso econômico em outros continentes – que as autoridades de origem
não têm permissão nem estão dispostas a retirar da miséria.
Pressionadas/forçadas como continuamente são – pelas forças conjuntas
dos bancos e das corporações comerciais globais, apoiadas pelo Fundo
Monetário Internacional e às vezes auxiliadas por forças militares
expedicionárias equipadas para a “mudança de regime” – a abrir as suas
fronteiras aos mercados mundiais e a abandonar qualquer esperança de
fazer frente aos acionistas estrangeiros denominados “livre concorrência”,
as antigas colônias não estão em condição de adotar a estratégia escolhida
no passado pelos pioneiros da modernização, notadamente a Europa: a estratégia que acabou conduzindo à emergência do Estado de bem-estar
social. Os mercados, diz Benjamin R. Barber, “podem sangrar através das
fronteiras nacionais porosas, não sendo mais restringidos pela lógica da
soberania do que a Sars, o crime ou o terrorismo”.9 A privatização de ativos
nacionais (ou dos ativos que poderiam transformar-se em riqueza nacional,
caso não tivessem sido arrematados pelo lance mais elevado ou mais
formidável antes de terem tido a chance de fazê-lo), que o FMI e o Banco
Mundial transformaram na condição para qualquer ajuda financeira e o
Pentágono em condição de imunidade em relação à “mudança de regime”,
evidentemente não ajuda a “privilegiar o poder da vontade comum e do
bem público sobre a anarquia do poder privado”. Ao contrário, ela “celebra
o poder privado desembaraçado de leis, regras ou governo” e, portanto,
“modifica a lógica tradicional de pensamento com base no contrato social
sobre a qual se fundaram os Estados Unidos” e que até recentemente a
Europa seguiu, ainda que aos trancos e barrancos, por toda a sua história
moderna.
A chance de descarregar em partes distantes do globo o excedente
populacional produzido localmente, algo que ofereceu uma válvula de
escape à Europa em modernização enquanto a economia moderna
continuava sendo um privilégio europeu por excelência, não está disponível
para as terras atualmente arrastadas pelo moinho modernizador. Países que
costumavam exportar os seus grandes excedentes de mão-de-obra agora não
abririam as portas à sua importação. Ainda precisam do influxo de mão-de-
obra barata para fazer o trabalho sujo, mal-remunerado e opressivo em
certos ramos da economia, como construção, abastecimento, transportes
públicos ou hotelaria, de modo que as portas não podem ser totalmente
fechadas, mas a entrada é estritamente controlada. Quando David Blunkett,
secretário do Interior britânico, declara (não sem ter sido muito pressionado
por industriais sedentos de mão-de-obra barata, obediente e “flexível”) que
“precisamos de migração econômica legal e controlada”, ele imediatamente
acrescenta: do tipo exigido pela nossa economia.10 E para não deixar dúvida
de que não há motivos humanitários envolvidos, de que nenhum dos
“direitos humanos universais” figura no tratamento dos deserdados, e de
que as “exigências da nossa economia” são e continuarão sendo o único
aspecto considerado, ele corre a anunciar que os benefícios do Estado de
bem-estar social não estarão disponíveis aos novos imigrantes e que o
número de refugiados vai cair ainda mais, graças ao tratamento mais rigoroso aplicado às indesejadas e rejeitadas pessoas em busca de asilo –
tais como campos de detenção e transporte forçado para os países de origem
ou para campos de refugiados em outros países.
Alain Morice resume as mudanças mais recentes na política européia em
relação aos refugiados provenientes do Sul empobrecido e conflituoso –
exemplificadas na aprovação pelo parlamento holandês da decisão de
deportar 26 mil pessoas em busca de asilo oriundas de países como
Chechênia, Afeganistão ou Somália – como “a morte e o enterro do direito
de asilo” (aprovado e quase universalmente endossado em 1951).11 Há um
total e coordenado recuo em relação à promessa de que as pessoas cujas
vidas estão em perigo terão garantida a segurança com base no direito à
vida. A diferença entre o tratamento aprovado para pessoas em busca de
asilo e o que é imposto aos “meros migrantes econômicos” foi praticamente
eliminada. A tendência hoje em dia é pagar países escolhidos do Terceiro
Mundo, localizados em outros continentes, para que estabeleçam campos
em que as potenciais pessoas em busca de asilo sejam detidas antes de
atingirem o destino europeu (como continuam fazendo, contra todas as
probabilidades: nos últimos dez anos, mais de quatro mil morreram nesse
processo, afogadas depois de viajarem – a preços exorbitantes – em navios
sem condições de navegar, ou sufocadas em caminhões lacrados ou em
compartimentos localizados em fundos falsos). A medida de confinar as
pessoas em busca de refúgio em campos cuidadosamente distantes de
qualquer lugar em que elas possam começar uma nova vida foi liderada
pelo governo da Grã-Bretanha, que atribui a esses campos o nome enganoso
e talvez fraudulento de “centros de processamento de trânsito”, mas a idéia
capturou rapidamente a imaginação de outros governos europeus. Ela se
segue à declaração pública de Ruud Luubers, alto comissário das Nações
Unidas para Refugiados, em novembro de 2003, de que, em vez de proteger
indivíduos e grupos em perigo e ajudá-los a se estabelecer em novas
paragens, sua missão e preocupação principais eram agora facilitar os
esforços dos governos europeus para “deslocar” os potenciais refugiados,
deportá-los ou evitar o seu ingresso na Europa.
Podemos dizer que o novo império planetário, governado e administrado
pelo capital e pelo comércio globais, lança diariamente “ataques
preventivos” contra qualquer surto de “pensamento com base no contrato
social” que possa surgir no mundo pós-colonial. O lado irônico da
privatização por atacado dos lucros e ativos é a necessidade de afugentar qualquer resistência possível à precarização compulsória do destino
individual. Em última análise, a política perseguida pelas instituições
internacionais de livre comércio evita o estabelecimento de uma esfera
pública em que as escolhas individuais possam solidificar-se em escolhas
públicas, a cidadania e os governos democráticos possam fincar raízes, e os
princípios e instituições de proteção coletiva contra os riscos sofridos
individualmente possam ser negociados para se transformarem em práticas
políticas.
Em suma, os feitos do império planetário desmentem as suas palavras.
Eles solapam, talvez a ponto de eliminá-las, as mesmíssimas chances da
democracia, em nome das quais, aparentemente, o braço econômico do
império saqueia as terras virgens remanescentes do planeta, enquanto o
braço militar policia as terras em que se possa suspeitar da existência de
focos de resistência à exploração predatória dos recursos locais. Os dois
braços colaboram para assegurar que o “Estado social” não seja uma opção.
Mas, se o Estado social não é opção, qual a alternativa?
Em vez de lançar as sementes da democracia, os dois braços imperiais se
ocupam em plantar governos ditatoriais e corruptos, porém maleáveis, ao
mesmo tempo em que subjugam pela fome, incapacitam e erradicam todos
os outros. O planeta está hoje salpicado de feudos controlados por déspotas,
propriedades de poderosos e “não-Estados”. Nesses lugares, o poder do
governante se concentra em desviar para cofres privados os ativos que
tenham sido poupados pelos predadores globais e ainda não destruídos
pelas guerras domésticas. Para os governados, essa situação é o prenúncio
da inabilitação, da pobreza material e da falta de esperança de melhora.
Também significa a miséria quotidiana de uma existência arriscada e
precária e do medo eterno – uma vida frágil que pode ser negada ou
invalidada a qualquer momento. Para os mais jovens com a perspectiva de
uma vida sem perspectivas, alistar-se a serviço de um ou outro déspota,
juntar-se a uma das gangues armadas em competição ou ingressar num
campo de treinamento militar (terrorista) improvisado são as únicas chances
realistas de se ter uma “carreira”, e na verdade uma vida – ou morte pelo
menos – dotada de significado.
Em outros lugares, as comunidades religiosas entram em cena para
substituir o natimorto ou abortado Estado social. Oferecem proteção e
solidariedade – as promessas mais atraentes. Embora diferentemente do
Estado de bem-estar social, apresentam o pertencimento, a uniformidade e a conformidade como principais garantias de segurança. Fornecem uma
“segurança no atacado”, do tipo multidão ou enxame, em vez da rede de
proteção com que os planejadores do Estado social e das instituições de
bem-estar esperavam estimular a autonomia de movimentos, a liberdade
individual de avaliação e ação, e a coragem de assumir riscos.
Evidentemente, ainda é muito cedo para dizer se o atual fundamentalismo
religioso, que ganha atratividade e influência na ausência das outras
proteções, seculares, contra os riscos da vida no cassino global, será visto
em retrospecto como uma estufa de filosofias e estratégias existenciais
individualistas semelhantes àquelas que o Estado social europeu ajudou a
promover. (O fundamentalismo puritano não demonstrou ser, como Max
Weber reconhecidamente apontou mas os profetas puritanos não poderiam
prever, uma abertura para a moderna racionalidade egocêntrica e egoísta do
capitalismo?) A curto prazo, porém, o atual fundamentalismo religioso,
agindo contra a poderosa maré do individualismo promovido pelo mercado,
tende mais a anunciar um período de dogmas ossificantes, antagonismos
doutrinais cada vez mais profundos, visões de mundo maniqueístas e
guerras religiosas.
No momento, os resultados gerais do desmonte das redes tradicionais de
proteção, assim como de se evitar o planejamento e a construção de seus
substitutos, é a crescente insegurança do planeta – de todo o planeta, com
certeza, em razão da íntima interdependência de todas as partes do globo e
de seus habitantes.
A combinação do pleno emprego, seja este realmente existente ou
desejado e planejado, com uma densa rede de proteções administradas pelo
Estado contra as incertezas do destino individual durante os “gloriosos 30”
anos do pós-guerra na Europa resultou num sentimento generalizado de
estabilidade social e segurança individual. As bases de tal sentimento, e
assim também da confiança num futuro seguro (evitando, evidentemente,
um holocausto nuclear), eram, como Philippe Robert recentemente apontou,
um ”bloqueador da insegurança” (“bloqueur d’insécurité”),12 com acesso
coletivamente garantido a quase todas as amenidades essenciais –
acomodação, meios de transporte, serviços de saúde e escolaridade –
coincidindo com o advento do consumo de massa. É claro que seria
possível argumentar que o preço dessa segurança estava longe de ser
módico: o trabalho era rotinizado e, no geral, monótono e desestimulante,
os salários eram mantidos num nível baixo e só subiam lentamente – mas “era possível alugar uma moradia, casar-se, comprar um veículo a crédito”
e, sob outros aspectos, planejar a vida “a longo prazo” sem medo de uma
súbita catástrofe que poderia destruir o bem-estar da família da noite para o
dia.
A segurança no emprego fornecia um alimento particularmente nutritivo
para a confiança no futuro: contratos de trabalho coletivos protegidos pela
lei, reforçados pelo impacto, em termos do poder de barganha, da ameaça
de retirar a mão-de-obra em condições de quase pleno emprego e relativa
imobilidade dos investimentos de capital, estimulavam ambos os lados a
buscar, negociar e observar um modus coexistendi que ofereceria a
segurança de longo prazo que ambos necessitavam e almejavam.
“Dificilmente nos dispomos agora”, observa Richard Sennett, “a pensar no
tempo rotinizado como uma realização pessoal, mas, considerando-se as
pressões, picos e depressões do capitalismo industrial, ele muitas vezes se
transforma nisso… A rotina pode aviltar, mas também proteger; pode
corromper o trabalho, mas também constituir uma vida.”13
Robert data de meados da década 1970 o fim dos “30 anos gloriosos” e
do período de alegre despreocupação quanto aos riscos da vida. Foi quando
a questão da insegurança chegou subitamente à consciência pública, como
que vinda do nada, não tardando a se estabelecer no centro do debate
público. A desregulamentação do movimento global de capital e do
mercado de trabalho havia apenas começado. Seu efeito imediato foi trazer
o desemprego prolongado, provavelmente crônico e em geral sem
perspectiva, a fragilidade ou a ausência dos contratos de trabalho, o
emprego por tempo fixo ou rescindido por necessidade, horários de trabalho
flexíveis e salários indeterminados. Após algumas décadas do que devia
parecer, em retrospecto, uma segurança jubilosa, a nova ordem (ou melhor,
o súbito caos) trabalhista deve ter chegado como um golpe que estilhaçou o
mundo tal como “as pessoas sem outro capital que não a mão-de-obra” o
conheciam. A exclusão não era mais vista como um tropeço momentâneo,
mas como uma condição durável, talvez permanente – e as autoridades
reforçaram essa impressão com uma assustadora mudança no vocabulário
de seus pronunciamentos programáticos: de eliminar e evitar a exclusão
para conter e administrar os excluídos.
Uma surpreendente descoberta feita por Robert é a de um nível
relativamente baixo de crimes violentos num período em que o medo da
violência e a preocupação com a segurança estavam em ascensão. Os registros mostram que o volume de atos violentos começou a subir alguns
anos depois de a opinião pública perceber sua ubiqüidade e ampliação como
“auto-evidentes” e estabelecê-las como doxa pública. O foco da ansiedade
nas áreas habitadas principalmente por imigrantes recentes e, segundo o
consenso, cheias de criminosos e de violência, veio mais tarde ainda – mas
o caminho fora bem preparado por anos de terremoto existencial, e seu
progresso seguiu de perto a contínua eliminação da proteção coletiva,
institucionalizada, da vida dos indivíduos. A ansiedade procurava
desesperadamente um escoadouro espaçoso, rápido e confiável. Somar dois
mais dois, associar o novo e desconhecido sentimento de vacilação e
fragilidade a respeito do lugar conhecido no mundo com a nova e
desconhecida visão de multidões de aparência e comportamento estranhos
enchendo as ruas conhecidas era um passo óbvio, quase natural, a se tomar.
Não foram apenas os que estavam na base da nova “estratificação por
grau de segurança individual” que se viram tomados pela ansiedade na
busca de um escoadouro – não só os trabalhadores sem qualificação, já
expostos às incertezas de um mercado de trabalho “flexível”,
desregulamentado, oferecendo apenas empregos frágeis, voláteis e
eminentemente precários. O espectro da “descartabilidade”, a consciência
da distância cada vez menor entre qualquer posição aparentemente sólida
no mundo e a perda da função, com a conseqüente remoção para o depósito
de lixo, deve ter assombrado a tudo e a todos, tanto os ainda aparentemente
seguros quanto os já excluídos. As ondas de “precarização” inundaram todo
o espectro de posições sociais, de cima a baixo, dos mais conspicuamente
privilegiados aos mais flagrantemente despossuídos – embora o curso das
possibilidades estatísticas de exclusão e a sua profundidade aumentem
quanto mais baixo o ponto inicial de uma carreira é colocado.
Na opinião de Jacques Donzelot, hoje em dia não existe uma linha que
separe os incluídos dos (potencialmente) excluídos, e decerto nenhuma
fronteira estrita e impermeável (segura!) entre as duas categorias.
“Inclusão” e “exclusão” são, antes, dois pólos de um continuum uniforme
ao longo do qual se assinalam os itinerários existenciais de todos os homens
e mulheres, e ao longo do qual oscilam as suas trajetórias – de modo
errático e imprevisível. “Os excluídos”, diz Donzelot, “representam apenas
a extremidade, uma espécie de estágio final do movimento de desagregação
que começa no centro, embora afete mais fortemente os que estão na
periferia.”14 A exclusão tornou-se uma perspectiva realista praticamente para todos, e todos devem estar preparados para enfrentar a ansiedade
resultante.
Dada a variedade de recursos disponíveis, as formas de enfrentar a
ansiedade diferem. Pessoas para as quais a eventualidade da exclusão não
passa neste momento de um pesadelo que ainda não pode ser visto quando
se está totalmente desperto podem tentar reprimir esse pensamento
separando-se territorialmente dos que já foram afligidos: mantendo
distância – no lar, no escritório e no caminho entre um e outro – dos já
atingidos e afetados, lembranças ambulantes de um perigo universalmente
compartilhado. Mas as pessoas de quem desejam manter distância não se
podem dar ao mesmo luxo. Suas ruas são as mais atingidas pelas
tempestades da exclusão, e não há fita isolante nem trancas de qualidade,
mesmo sistemas de vigilância por TV, capazes de proteger as portas de suas
casas.
O caráter vacilante e imprevisível dos ambientes em que se ganha a vida
é provavelmente a fonte mais prolífica de angústia, mas não a única. A nova
vulnerabilidade e fragilidade dos vínculos humanos15 é outra poderosa razão
para se preocupar e ter medo do futuro. Há poucos momentos desanuviados,
livres da premonição – se é que chega a haver algum – quando se passeia ou
perambula pelo diretório de uma “rede” ou se digita o miniteclado de um
celular. As parcerias são eminente e iminentemente rompíveis, os
compromissos revogáveis e sujeitos a serem desfeitos, sem aviso, a
qualquer momento, números de telefone ficam inativos, e chamadas
permanecem teimosamente não atendidas, e repreensões impiedosas podem
substituir as alegres boas-vindas às quais se estava acostumado e que eram
consideradas, por credulidade, algo de direito. Explorar a rede é como
esquiar sobre gelo uniformemente polido: divertido num rinque freqüentado
nos fins de semana, mas exigindo vigilância plena, sem descanso, e
portanto cada vez mais cansativa, quando se transforma na única superfície
disponível para as caminhadas diárias.
Essas razões para o nervosismo e o medo, embora assustadoras, são
apenas as primeiras de uma longa lista de fontes de ansiedade. Com a
sedução (sempre fugaz, sempre em competição implacável com outras iscas
e feitiços) abrindo caminho por entre regras normativas, e a excitação de
despertar novos e não experimentados desejos para substituir a monotonia
de manter satisfeitas as antigas necessidades, tediosamente familiares, sobra
pouco tempo para fazer uma pausa, relaxar e avaliar as nossas bênçãos. O que conta é a apropriação (temporária) e não a posse (permanente); o
emprego imediato e oportuno, e não a manutenção e preservação. Nunca se
sabe o que se pode desejar amanhã, quando os objetos do desejo de hoje
perderem o brilho. O que importa é levantar as orelhas para ouvir os
primeiros sinais do novo “chegando” e do velho “esvaindo-se”; manter-se
na pista em vez de correr todo o percurso, já que a linha de chegada não
existe ou se move com mais rapidez do que o mais rápido dos corredores.
Uma vez mais, a vida de um corredor pode ser agradável (ou pelo menos
conseguimos convencer-nos de ser essa a verdade), mas certamente é
exaustiva. O preço é o medo, que nunca descansa, de vacilar, perder o
fôlego, cair fora da pista.
A lista de temores é como a trajetória do consumidor – inacabada e, com
toda probabilidade, interminável. O medo capital do qual se podem extrair
lucros econômicos e políticos é, para todos os fins e propósitos práticos,
ilimitado.
Há pouco tempo, as telas de TV se encheram de pessoas acotoveladas
nos saguões dos aeroportos, onde passaram dias esperando para que os
aviões recebessem permissão de voar, e horas para chegar às cabines de
raios X e de entrevista, para ter o corpo todo cheirado por cães policiais
antes de embarcar – vigiadas o tempo todo por guardas fortemente armados.
Enxames de suspeitos até que se prove o contrário, todos desejosos de
provar a sua inocência individual.
Em nossa época de confissões públicas, isso não seria fazer boa
televisão se os repórteres não pinçassem rostos na multidão sem face –
rostos de homens e mulheres, jovens e velhos – e perguntassem a essas
pessoas como se sentiam… E assim os repórteres fizeram o que se espera
que façam e perguntaram: “Você não está furioso por ter sido afastado dos
que lhe são mais próximos e mais caros? Por perder a sua reunião de
negócios? Por passar o fim de semana olhando painéis de partida e entrando
em filas de check-in?” “Ah, não, pelo contrário! Estamos satisfeitos e
agradecidos”, diziam as respostas, todas elas, unânimes como um coral
ensaiado repetidas vezes, componente por componente, desde o soprano até
o baixo. “Que alívio! Nunca nos sentimos tão seguros. Os responsáveis pela
nossa segurança realmente estão fazendo o seu trabalho.”
Até aí, nada de novo. Muitos anos antes de Charles Lindbergh se
estabelecer como o pioneiro dos vôos transatlânticos, e muito antes de
senhoras idosas terem as suas lixas de unha identificadas dentro das bolsas pelos raios X e triunfantemente confiscadas nos checkouts dos aeroportos,
corria pela Europa Oriental a história de um seguidor devoto do grande
Rabino de Zhitomir que tentava convencer uma pessoa descrente como São
Tomé dos poderes sobrenaturais de seu santo mentor e de como a
onipotência deste não tinha rival. “Os judeus de Kiev enviaram uma
delegação ao Rabino para se queixar de que a sua cidade estava cheia de
anti-semitas e lhe pedir que fizesse alguma coisa a respeito”, disse ele.
“Para ajudar os judeus, o Rabino fez uma oração a Deus e lhe pediu que
queimasse a toca dos vilões – e Deus, como sempre, concordou. Os
delegados, contudo, ficaram confusos diante da rapidez, da severidade e do
caráter indiscriminado da resposta. Apontaram ao Rabino que algumas
pessoas gentis, das quais havia um certo número até mesmo naquela cidade
infestada, também poderiam ser atingidas pelo fogo. E assim o Rabino
tornou a orar, dessa vez pedindo a Deus que não deixasse Kiev desaparecer
na fumaça.” “E como você vê”, gritou o hassídico, em êxtase, “ninguém se
queimou, nenhuma casa foi atingida, Kiev ainda está inteira e firme!” A
história terminava – você adivinhou – com a conversão do cético.
Assim, o que há de novo, além de os rabinos terem sido substituídos por
empresas de segurança estatais ou privadas, as orações por TVs de circuito
fechado, raios X, cães farejadores e impressões digitais, e os hassídicos por
redatores de editoriais e reportagens? Na época em que a história acima
circulava pelas cidadezinhas da Europa Oriental, Karl Marx afirmou que a
história acontece duas vezes, primeiro como tragédia e depois como farsa.
Neste caso, porém, a seqüência foi invertida. A piada tornou-se
estranhamente real; o grotesco transformou-se em tragédia.
Grande parte das verbas de P&D das empresas gigantes na área do
marketing é destinada à produção de consumidores. Não haveria sentido em
gastar o dinheiro da empresa na invenção de “novos e aperfeiçoados” bens
de consumo se não houvesse consumidores para cobiçá-los e ansiar por
eles, prontos a gastar o seu dinheiro com a sua parcela da primeira fornada e
a ficar horas na fila por esse privilégio. Os novos produtos despertam o
entusiasmo dos consumidores porque prometem fornecer aquilo de que eles
precisam – mas como é que os consumidores saberiam de que precisam e
onde obtê-lo se não fossem adequadamente informados? Provavelmente
não o fariam. Sequer imaginariam aquilo de que realmente precisam, e
obviamente não teriam a menor idéia do tipo de implemento ou serviço que
melhor atenderia à sua necessidade.
Evidentemente, nem os mais engenhosos especialistas em marketing
seriam capazes de fazer aparecer uma necessidade totalmente nova a partir
do nada. Em vez disso, eles precisam partir de um anseio, desconforto ou
preocupação já sentidos, ainda não processados, mas eminentemente
“processáveis”: uma tensão inarticulada ainda sem nome, difusa e destituída
de foco. Quanto menos definido for o desconforto vagamente
experimentado, melhor. Esses especialistas gostam que a sua “matéria-
prima” seja vaga e informe, flexível, submissa, suave e amoldável, pronta a
assumir formas diversas – de modo a que lhe possam dar a forma específica
que os fornecedores estão ávidos por oferecer ou convincentemente
afirmem estar oferecendo. Seu papel se reduz a “apenas conectar”. Consiste
em condensar ansiedades confusas e dispersas numa necessidade dotada de
um nome, e então apresentar o que seja que os mercados tenham a oferecer
atualmente como a resposta certa a essa necessidade. As mesmas
ansiedades podem ser remodeladas para responder a diferentes ofertas – e
de fato são repetidamente recicladas. Uma vez que determinada oferta tenha
sido, por qualquer motivo, retirada, a conexão previamente estabelecida
deve ser rompida e os fios soltos, atados para formarem outro nó.
Pode-se afirmar que a mais conspícua das ofertas atualmente retiradas
do “mercado político” é a do Estado social; em desavença com a lógica do
mercado consumidor, este caiu, sem causar surpresa, como a primeira baixa
da retirada do Estado da regulação normativa dos empreendimentos
comerciais. O mercado consumidor floresce no mesmo medo capital que o
Estado, quando almejava tornar-se o Estado social, prometia erradicar. É
principalmente por essa razão que tudo aquilo direta ou indiretamente
relacionado à filosofia e à prática do “Estado de bem-estar social” é, para os
filósofos e praticantes do mercado consumidor, um anátema. O sucesso do
Estado social significa a estagnação ou a morte do mercado, e assim o
Estado social é o primeiro obstáculo que as forças do mercado devem
remover do caminho para o sucesso.
Escapar do medo é o melhor “ponto de venda”. Nada vende tanto quanto
os dispositivos anti-medo, e o sintoma mais evidente da passagem do poder
do Estado para o mercado é a política de cortar impostos, uma política cuja
linha mestra é o retorno ao mercado de fundos anteriormente carreados para
os cofres do Estado a fim de financiarem a segurança individual
socialmente fornecida. Em outras palavras, a “comercialização do medo” –
a transferência maciça do recurso chamado “medo” da esfera do poder político para a dos atores do mercado. Esse recurso foi o primeiro a ser
“desregulamentado” e “privatizado”. Cabe agora ao mercado de consumo
lucrar com o medo desassistido em outros sentidos. E ele o faz – com prazer
e habilidades cada vez maiores.
Quer se trate de um spray mágico que extermina ácaros de tapete
invisíveis a olho nu e, por isso, particularmente assustadores, alvejantes
com ingredientes secretos para assegurar a destruição “da sujeira que você
vê e da que você não vê”, fitas adesivas para vedar janelas contra o antraz
dos terroristas, câmeras de TV para manter a distância estranhos
transpirando objetivos não especificados, alimentos orgânicos que protegem
dos vendedores ambulantes de comida envenenada e/ou envenenante, e
alimentos dietéticos que matam de fome e destroem a gordura corporal, sua
quinta coluna, ou os SUVs – veículos pessoais armados com aríetes em vez
de amortecedores, para afastar os menos aquinhoados “motoristas do
inferno”, com placas de aço tranqüilizadoramente espessas a fim de manter
ao largo o “mundo exterior” saturado de perigo – quando se trata de
apascentar as nossas ansiedades e canalizar os nossos temores para usos
lucrativos, a inventividade dos promotores do mercado não conhece limites.
E há sempre uma última e intransponível linha de trincheiras: o medo de ser
encontrado com instrumentos de ontem destinados a afastar os temores de
anteontem…
A “indústria da segurança”, em rápido crescimento, a única em que as
expectativas de redundância permanecem confortavelmente remotas e que
pode merecidamente afirmar que faz o que prega, ou seja, ser segura, pode
muito bem se tornar a principal beneficiária do desmantelamento do Estado
social. Instado, no dia 30 de janeiro de 2004, a encontrar websites referentes
à segurança, o Google ofereceu (em 0,14 segundo) cerca de 66.400.000
entradas. O Lycos levou uma fração de segundo a mais para oferecer
91.266.444, enquanto o Alltheweb conseguiu encontrar 95.635.722. Dado o
nível de comercialização da Internet, ofertas de engenhocas assombrosas
destinadas a reforçar a segurança do corpo ou das propriedades dos
consumidores são responsáveis, como seria de esperar, pela maior parte
desses números. O único “assunto de segurança” sobre o qual o Estado
ainda pode arrogar a sua propriedade monopolista (tal como antes, ao
tempo de Weber, este se arrogava a propriedade e a administração
monopolistas dos meios de imposição da lei) – o terrorismo e a guerra
contra si mesmo – ocupava, em comparação, uma parcela diminuta (embora de modo algum insignificante) da rede de informação mundial. O Google
listou 5.190.000 sites, o Altavista 8.614.569 e o Lycos dessa vez terminou
em primeiro lugar com 9.011.981.
Tendo deixado de lado a ambição e quebrado a promessa de libertar os
indivíduos do medo que emana dos acasos da vida, o Estado não pode mais
beneficiar-se da legitimação que apresentou durante a maior parte da
história moderna para justificar a exigência de que os indivíduos se
submetessem à lei e à ordem. A proteção efetiva contra os golpes aleatórios
desfechados pela impiedosa e irrefreada competição de mercado
simplesmente não está ativada e não pode ser creditada ao Estado – nem
como realização, nem como perspectiva viável. Não obstante, qualquer
tentativa nesse sentido é capaz de desencadear uma réplica devastadora da
parte do capital global, e os efeitos adversos seriam, em última instância,
atribuídos à incompetência dos responsáveis, e portanto utilizada contra o
Estado como prova do equívoco de sua “política econômica”. Em resultado
do rápido e implacável encolhimento do domínio das decisões soberanas do
Estado, a “crise de legitimação” assinalada por Jürgen Habermas mais de
duas décadas atrás se aprofundou continuamente com o passar dos anos e
agora parece ter alcançado um ponto sem retorno.
Quando as democracias enfrentam um período de crise (como a crise de
legitimação de nossos dias), Eugen Weber sugere que
o descontentamento e o medo difusos podem concentrar-se nos Outros, denunciados por tirar o
trabalho dos nativos, o pão de suas bocas, a segurança de suas ruas e os impostos de seus bolsos.
Em períodos assim, pessoas que vivem como vizinhas se transformam em inimigas, o
nacionalismo informal se torna um xenofóbico nós contra eles. Normalmente, primeiro os
imigrantes são ofendidos e marginalizados, mas depois integrados e assimilados. Em tempos
difíceis, porém, a antipatia latente se transforma no ressentimento e no ódio declarados, como
durante a grande depressão, quando holandeses, belgas, suíços, britânicos, franceses e americanos
se puseram a estabelecer restrições à imigração. Os direitos do homem são apenas aqueles que
alguns homens concedem a outros … A democracia tende a expressar os preconceitos da maioria,
da mesma forma que os seus melhores sentimentos e aspirações.16
A busca frenética por uma legitimação alternativa que pudesse navegar
sobre as ondas adversas em vez de ser varrida por elas levou os Estados a
uma área que os marketeiros de bens de consumo, prontos a farejar novas e
lucrativas oportunidades, já tinham percorrido em massa: a da segurança
pessoal. Como a área já estava congestionada, o desafio era criar ou
adicionar um setor que os órgãos do Estado pudessem objetivamente
reclamar como sendo o seu domínio monopolista – o tipo de ameaça à segurança que precisaria das prerrogativas singulares do Estado para ser
enfrentado, contido ou eliminado de forma realista. O papel exclusivo e
inconteste das autoridades do Estado em confrontar a nova edição das
ameaças à segurança foi buscado, como apontou Jo Goodey, pela “fusão
dos temas da imigração e do crime num continuum de segurança interna” e
associando “a já estabelecida demonização do ‘outro’, sob a forma da
ameaça criminal apresentada à União Européia pelos ‘forasteiros’
indesejáveis”, e as crescentes pressões da migração de fora para dentro da
UE que permitiram “um casamento fácil entre as preocupações com o crime
e as preocupações com a imigração”.17
Por meio dessa fusão e desse casamento, o Estado adquiriu um ativo
inestimável em sua luta por um substituto para a legitimação. As
oportunidades de exibições espetaculares da atividade do Estado (e, com
efeito, de sua indispensabilidade) já eram amplas nessa área, mas além
disso podiam ser multiplicadas à vontade. Pode-se atrair grande atenção da
parte do público para os esforços de separar, entre os refugiados e as
pessoas em busca de asilo, os “autênticos” dos “espúrios” e de identificar
potenciais mafiosos e “parasitas da previdência” entre os que, após um
exame high-tech e um meticuloso procedimento seletivo, já tiveram
permissão de entrar no país. Para coroar tudo isso, como observou Rory
Carroll, “ao fechar virtualmente todas as formas legais de entrada, a Europa
garantiu que os forasteiros não tenham escolha senão procurar o traficante.
Este estabelece um preço com base na demanda, no custo e no risco. A
estratégia da Europa é tornar esse custo e esse risco os mais altos
possíveis.”18 Novas e amplas áreas criminais são assim evocadas,
proporcionando aos governos muito trabalho para proteger a ameaçada
segurança de seus cidadãos. O continuum “migração-crime-segurança”
(expressão de Goodey) permite aos Estados europeus encontrarem uma
nova e poderosa legitimação na nova mistura de policiamento com políticas
de imigração.
O 11 de Setembro abriu outro espaço, mais amplo ainda, para a
construção da nova legitimação. O próprio tamanho desse espaço é enorme,
mas também tem outras vantagens que as preocupações com segurança
focalizadas nos refugiados não têm.
Apesar da posição precária à beira da extraterritorialidade (leia-se: fora
dos domínios da lei), os refugiados ainda podem (ao menos em princípio)
invocar os “direitos humanos”, não importa o quanto estes possam ser imprecisos, e algumas vezes recorrer com sucesso aos tribunais, sejam
locais ou supranacionais, e a procedimentos disponíveis aos habitantes
estabelecidos do país em que estão. Há limites nos quais até mesmo as
iniciativas mais engenhosas das autoridades, ávidas por serem observadas
flexionando os músculos, são obrigadas a parar. Ao fim do dia, a evidência
de um vínculo entre a imigração e a criminalidade tem de ser apresentada, e
essa culpa por essa associação precisa ser provada, não importa o quanto tal
fim seja adiado pela coalizão entre as sucessivas histórias de horror
publicadas pelos tablóides e os pânicos patrocinados pelo governo. Os
refugiados, tal como outros seres humanos, podem considerar-se inocentes
até que se prove o contrário – e assim não são candidatos perfeitos para o
status de (invocando um conceito de Giorgio Agamben) “homini sacri” –
condição que está fora de todas as condições legalmente reconhecidas,
privada de todo significado humano e à qual nenhuma lei, humana ou
divina, se aplica.
Os terroristas, por outro lado, podem ser colocados aberta e
explicitamente fora do reino da humanidade: fisicamente – em Guantanamo
ou no campo de prisioneiros de Bagram e em suas réplicas menos
divulgadas, locais plena, total e inegavelmente extraterritoriais e vedados a
qualquer jurisdição de base territorial, sobre os quais nenhum sistema
jurídico estabelecido pode reclamar soberania e onde nenhuma das regras
que se tornaram ingredientes indispensáveis dos direitos humanos permite
que os prisioneiros questionem as acusações e tentem provar a sua
inocência ou se queixar de tratamento desumano. A intenção de cometer um
ato de terrorismo é, por definição, equivalente a uma prova de
desumanidade, e ser acusado de tal intenção é (se não na teoria, ao menos
na prática) toda a evidência necessária de que o tratamento reservado aos
membros da raça humana não se aplica nesse caso. Quando concentram os
temores do público na ameaça do terrorismo, e suas preocupações na
“guerra contra o terrorismo”, os poderes constituídos ganham uma
liberdade de manobra inacessível e inimaginável no caso de qualquer outro
inimigo público, real ou imaginário. Não há nenhum outro caso em que o
Estado esteja virtualmente livre do medo de que sua representação como a
única barreira que separa seus indivíduos de horrores incontáveis e
indizíveis possa ser desmascarada como exagerada, desproporcionalmente
inflada ou simplesmente resultante de uma fraude. Não há nenhum outro
caso em que o Estado, em seu papel de aplicador da lei, possa estar igualmente seguro de que os seus indivíduos se inclinarão a tomar a não-
concretização dos perigos como prova de que eles são reais, assim como do
papel abençoado, salvador, dos órgãos de segurança do Estado que
preveniram sobre a sua iminência. “Os suspeitos de terrorismo podem ser
presos com base em evidências obtidas pela ‘bisbilhotagem eletrônica’ de
chamadas telefônicas e e-mails, segundo as medidas de varredura tomadas
para combater a ameaça de uma atrocidade da Al-Qaeda”, afirma o
Observer de 22 de fevereiro de 2004. Mas isso não é tudo: pelos novos
poderes antiterroristas do governo “os suspeitos seriam presos com base
num padrão de provas menos rigoroso do que o exigido pelas cortes
criminais, e por crimes nem sequer cometidos, como a intenção de provocar
uma explosão suicida”.
Como vimos anteriormente, não é fácil provar ou refutar o tamanho e a
gravidade dos riscos. Essa dificuldade foi agora afastada pelo expediente
muito simples de admitir padrões de prova “menos rigorosos” (e não
especificados) de que “essas pessoas” (os suspeitos de intenções mórbidas
captadas em suas conversas telefônicas) “são um risco”. Como em nossa
época os riscos são, por consenso, ubíquos (tal como o são seus potenciais
portadores), essa mudança abre uma perspectiva praticamente ilimitada para
as atuais e futuras fábricas de medos acompanhadas pelo poder. O problema
não é mais se os acusados são culpados ou inocentes ou se as acusações
oficiais são corretas, fraudulentas ou manipuladas, mas se a definição
oficial do caso, com base em provas irreveladas e admitidamente
irreveláveis, pode ou não ser independentemente examinada, testada e
aprovada ou questionada. A dosagem de ansiedade pública depende agora
mais dos caçadores de terroristas do que dos próprios terroristas – e assim
pode ser determinada pelas necessidades políticas de governos impotentes
em controlar a turbulência econômica, e não pela escala de danos que os
terroristas fervorosamente desejariam, e são capazes de, perpetrar.
Nenhuma pessoa em sã consciência poderia negar a realidade da ameaça
terrorista. Enquanto o lar planetário que compartilhamos permanecer
caótico e os poderes globais tão descontrolados e livres da política e da
orientação ética, e nossas paroxísticas respostas aos atentados terroristas
seguirem tão unilaterais, privatizadas e desregulamentadas como são agora
em resultado de uma globalização unilateral, privatizada e
desregulamentada, essa ameaça continuará sendo real. O terrorismo
extraterritorial é um produto tão inevitável da forma como se dá a globalização da interdependência planetária da humanidade quanto as
finanças, o comércio, o crime e a corrupção extraterritoriais. Só
desaparecerá se também desaparecer a “nova desordem mundial”– sua terra
natal e seu playground, fonte inexaurível de seu vigor sempre renovado.
Em reação à resposta espanhola ao atentado terrorista em Madri, o
secretário de Defesa americano recorreu a uma parábola sobre vizinhos
decidindo se devem juntar-se ou não na caçada a malfeitores locais que
constituem uma ameaça a todos. O pressuposto tácito era o de que os
ataques liderados pelos americanos ao Afeganistão e ao Iraque, assim como
outros semelhantes que os Estados Unidos poderiam conduzir no futuro, são
a verdadeira e única caçada adequada, e aqueles que suspeitam que esses
ataques são equivocados, contraproducentes e despropositados, e buscam
outras formas, mais efetivas, de combate ao terrorismo, estão, pelo mesmo
raciocínio, optando por abandonar a “guerra contra o terrorismo”. Mas a
parábola de Rumsfeld e o pressuposto de que ele, de modo ubíquo,
apresentava como supostamente auto-evidente, assim como a maioria dos
comentários que se seguiram à vitória socialista nas eleições da Espanha –
assumindo que a possível retirada das forças ocupantes espanholas do
Iraque equivalia a lavar as mãos na luta contra o terrorismo –, não foram
senão outro sintoma de uma agenda discursiva perigosamente enviesada.
Ao contrário do que sugere a parábola, o verdadeiro foco do debate não é se
o esforço para aniquilar os terroristas é um dever tanto da Europa quanto
dos Estados Unidos, mas se a “guerra contra o terrorismo” à qual os
americanos pretendem que os europeus se juntem é a forma correta de
empreender esse esforço.
A verdadeira escolha é entre manter o planeta fértil para o terrorismo,
perpetuando e exacerbando as suas condições de terra de fronteira, aberta a
todos, ou reformar o planeta de um modo que tenderá a impedir que as
sementes do terrorismo criem raízes e floresçam (embora, sendo como são
os seres humanos, nenhuma reforma concebível possa eliminar totalmente a
ameaça de atos terroristas). A verdadeira “guerra ao terrorismo” seria um
esforço concertado para tornar o planeta hospitaleiro para a humanidade e
assim inóspito para os seus inimigos. Essa “guerra”, contudo, exigiria muito
mais do que enviar aviões para bombardear o Iraque, o Afeganistão ou
quaisquer outros alvos escolhidos. Além disso, absolutamente não se tem
certeza de que os responsáveis pela estratégia considerariam enviar os
aviões como a maneira correta para se travar a luta. E, a julgar por seus efeitos até o presente, a suspeita de que a estratégia de Rumsfeld nos afasta
do propósito declarado da “guerra contra o terrorismo”, em vez de nos
aproximar do objetivo de uma coexistência pacífica dos seres humanos em
nível planetário, está bem fundamentada.
Se o objetivo da Al-Qaeda é fazer o Ocidente viver amedrontado e
perder a capacidade de manter os seus padrões de liberdade, justiça,
democracia e dignidade humana (todos esses valores que os líderes da Al-
Qaeda e seus seguidores têm sido repetida e corretamente acusados de
pretenderem destruir), parece que a organização está mais perto do alvo do
que as suas próprias forças poderiam ter sonhado. O amargo comentário de
Robert Taber – o americano que lutou a favor de Castro em Playa Giron –
sobre a guerrilha se confirmou, e de uma forma particularmente sinistra, no
caso da atual onda de atentados terroristas: os guerrilheiros (ou terroristas)
lutam a guerra da pulga, e seus inimigos militares sofrem as desvantagens
do cão: muito a defender; um inimigo muito pequeno, ubíquo e ágil a
enfrentar…
Uma vez desencadeada a “guerra contra o terrorismo”, versão Rumsfeld,
pouco resta aos militares caçadores de terroristas senão seguir outra
observação pungente, esta do grande historiador romano Cornélio Tácito:
eles fazem uma miscelânea e a chamam de paz. É a miscelânea que eles
fazem que torna tão distante e aparentemente nebulosa a perspectiva da paz.
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