Europa

Zygmunt Bauman · Capítulo 3 de 5

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Europa

4. Rumo a um mundo hospitaleiro à Europa

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Rumo a um mundo hospitaleiro à Europa

 

“Por que a Europa precisa de força?”, pergunta Tzvetan Todorov. E

responde: para defender uma certa identidade que os europeus pensam valer

a pena defender.1

Mas o que poderia ser essa “identidade” (aquele algo, como sugeriu Paul

Ricoeur, que torna seu portador visivelmente diferente de todos os outros,

mas que ao mesmo tempo o faz visivelmente semelhante a si mesmo, a

despeito da passagem do tempo)? Uma forma de vida especial, incomum,

talvez mesmo singular, um modo de viver junto, de se relacionar com os

outros e de ganhar com a presença deles, em relação ao qual os europeus

tendem a avaliar a adequação/decência do mundo pelo qual são feitos ao

mesmo tempo que o fazem. Uma forma de vida que eles lutam, com

resultados ambíguos, para praticar. Como afirmei no início deste livro, um

dos traços mais conspícuos da identidade européia sempre foi a tendência

de perseguir a identidade, enquanto ela se mantém, teimosamente, muito à

frente de seus perseguidores.

O que “vale a pena defender” (assim como lutar para obter e, uma vez

obtido, é difícil de abandonar) é chamado de “valor”. Diga-me quais são os

seus valores e eu lhe direi qual é a sua “identidade”. No caso da Europa,

sempre lutando para se aproximar de um estado que acreditava ser bom e

desejável, em vez de se acomodar no estado em que se encontrava (muito

menos deixando de indagar como seria aquele último estado e, assim, de

descobrir o quanto lhe faltava para ser desejado), o vínculo entre valores e

identidade é, comprovadamente, ainda mais íntimo do que em outros casos: a identidade é mais amplamente definida pelos valores que os europeus

prezam do que por qualquer outra de suas características.

Todorov, bem situado para realizar o trabalho graças a uma biografia que

abrange ambos os lados daquilo que algumas pessoas vêem como as

fronteiras externas da Europa – enquanto outras vêem como a sua “grande

linha divisória”, com dois milênios de idade, mas agora defasada –, oferece

uma lista desses valores distintamente europeus.

Valores “distintamente europeus”? Essa qualificação não se refere aos

limites de seu atual ou, o que é mais importante, potencial encanto (que,

sendo novamente um traço integrante da identidade européia, é considerado

universal, plenamente humano; o traço distintivo dos valores europeus é

acreditar que esses valores só “fazem sentido” se forem vistos como

totalmente includentes, e que são indefensáveis a menos que aplicados a

toda a humanidade), mas a sua origem. Esses valores são “distintamente

europeus” porque foram pensados, articulados e refinados na parte do

planeta que tende a ser descrita como “Europa propriamente dita”, e sua

articulação e refinamento não podem ser separados do curso da história

européia. Foi exatamente pela sua articulação e pelo seu refinamento que a

localização e os sucessivos fenômenos históricos da Europa tiveram o seu

curso.

A “racionalidade” abre a lista de Todorov. A racionalidade, permitam-

me enfatizar de uma vez por todas (e evitar a necessidade de repetir quando

outros valores forem discutidos), é um valor, não uma característica da

realidade quotidiana européia. Segundo os critérios estabelecidos pelo valor

da “racionalidade”, o passado e o presente europeus são polvilhados de atos

de absoluta irracionalidade. A maior parte do que ocorreu e foi feito na

história européia não passaria hoje no teste da razão – e dificilmente

poderia, já que o que se considera razão e os seus critérios têm mudado no

tempo, juntamente com a própria Europa. Mas a crença de que todos os

hábitos e suas transgressões precisam justificar-se no tribunal da razão foi e

continua sendo um hábito dificilmente quebrado pela Europa. Essa crença

elevava a argumentação e a discussão acima da força – era um estímulo a

“trocar argumentos mais freqüentemente do que golpes”.

Estando a “Europa realmente existente” sempre um pouco atrás da

Europa que a Europa ansiava ser, essa crença tornava os europeus

inerentemente críticos e autocríticos. Assentos na suprema corte podiam ser

reservados em todas as épocas para a razão e somente para ela – mas nenhum encarregado de falar em seu nome num determinado período esteve

realmente a salvo do exame crítico. Podemos dizer, em retrospecto, que a

crítica e a discordância, em vez da autoconfiança e da liberdade em relação

à dúvida, mostraram ser os conteúdos de maior permanência da

“racionalidade” como valor europeu. Ser racional, no sentido que a idéia de

“racionalidade” recebeu ou adquiriu na história européia, significa jamais

estar livre da suspeita de que os preceitos da razão foram mal-interpretados,

mal-compreendidos ou mal-aplicados – e que é preciso corrigi-los

urgentemente.

A “justiça” aparece em segundo lugar na lista de Todorov. Outro valor,

permitam-me comentar, cuja natureza é mais bem apreendida como uma

agonia da consciência, ou por meio das metáforas do espinho na pele, do

acicate ou do fermento. A linha que separa o “justo” do “injusto”

dificilmente resiste por muito tempo. Seria difícil e provavelmente

impossível delimitar uma sociedade em que as novas correções de limites

fossem redundantes e esperar que uma descrição particular obtivesse o

consenso por muito tempo (embora seja igualmente imprudente esperar que

deixem de ser feitas tentativas de congelar essa linha). Tal como a

“racionalidade”, que mostra o seu verdadeiro poder quando se volta contra

os veredictos da razão atualmente pronunciados, a “justiça” revela a

verdadeira força quando a sociedade da época é acusada de parcialidade,

iniqüidade, favoritismo, corrupção ou preconceito. O mais próximo que se

pode chegar de uma definição de “sociedade justa” é dizer que a sociedade

é “justa” quando não acredita que o é suficientemente, e portanto está

determinada a perseguir esse objetivo com mais determinação.

Tomar a “justiça” como valor em si, não utilitário, coloca todos os

outros valores num papel subsidiário, instrumental. Oferece à justiça ao

menos uma chance de imunidade em relação ao vírus da sedução por outros

prêmios, de brilho mais esfuziante. A “justiça” nos lembra que há outros

objetivos a imaginar, e que, se eles foram esquecidos, chegou o momento de

fazer uma pausa e refletir. Porém há mais quanto ao papel singular e

insubstituível da justiça: além de ser juiz, de ser aquele que assume o papel

da neutralidade e de ser revisor de todos os outros valores, quer abraçados

superficialmente ou mais obstinados, a justiça também é o único valor que

guarda o bem comum (quer dizer, do ponto de vista de todos, o bem dos

outros) das incursões promovidas pela autopromoção egoísta. É um valor

que enfatiza a solidariedade e, portanto, torna possível a sociedade. A “justiça” prepara o habitat humano para o convívio pacífico e amigável.

Abre a mesa – uma mesa-redonda – para o diálogo e as negociações

orientadas pelo desejo do acordo. A justiça é o mais “socializante” dos

valores. Pode estimular os confrontos mais frenéticos, mas no final unifica e

cura as divisões. E, como aprendemos com Simmel, a discordância é a

estrada imperial que leva ao consenso. Ser excluído da família humana e

destinado ao depósito de lixo pode por vezes ser um veredicto da razão –

mas jamais seria mantido no tribunal da justiça.

O próximo da lista dos valores mais destacados, realmente definidores,

da Europa é a “democracia”. Como valor, a democracia pode gerar e

informar muitas maneiras de administrar e acomodar os problemas

compartilhados pelos seres humanos – vários e diferentes, por vezes

profundamente. Há em face dela mais diferenças que similaridades entre a

ágora ateniense e o Reichstag, para não mencionar as assembléias de

Estrasburgo. E, no entanto, há uma semelhança familiar que permite a todos

ser reconhecidos como portadores do mesmo conjunto de genes, múltiplas e

variadas versões dos mesmos princípios inspirados pelo mesmo valor.

O que é aquele “algo” que une a todos? Uma característica que

Cornelius Castoriadis singularizou como o constituinte decisivo da

“sociedade autônoma”2 (por oposição às “sociedades heterônomas”, ou seja,

aquelas que “incorporaram a suas instituições uma idéia que não deveria ser

contestada por seus membros: a idéia de que as suas instituições não foram

feitas pelo homem, não foram criadas por seres humanos, pelo menos não

por aqueles atualmente vivos”, e portanto não podem ser desfeitas ou

mesmo reformadas por estes últimos – como a expressão “não há

alternativa”, a desculpa favorita dos atuais atores políticos, tenta, felizmente

com efeito limitado, sugerir).

A essência de uma sociedade autônoma, a consciência de que todas as

suas formas e meios se baseiam somente na vontade de seus membros

vivos, foi incorporada ao preâmbulo com que os antigos atenienses

precediam todas as leis votadas na ágora: “edoxe te boule kai to demo”, “foi

considerado bom pelo conselho e pelo povo”. Diversos pressupostos

fundamentais foram comprimidos nessa fórmula, sucinta, mas que ainda

assim dizia tudo: que há algo chamado “bom”, capaz de ser reconhecido

como tal; que escolher esse bom em vez de suas alternativas, não tão boas

ou absolutamente ruins, é o propósito da deliberação pública que precede

uma decisão; que a discussão e a argumentação para se chegar a uma decisão constituem a forma de fazer a escolha certa; e que quando, afinal, a

escolha tiver sido feita, todos os envolvidos e afetados por ela precisam

lembrar-se de que a razão para fazê-la não foi mais, mas também não foi

menos, do que o fato dela ser considerada boa pelo conselho e pelo povo da

época. “Considerada”: isso significa que, mesmo que o conselho e o povo

tenham feito o possível para chegar a uma decisão conjunta à luz de seu

conhecimento do que é bom, esse conhecimento pode ser incompleto ou

simplesmente errôneo. O debate é interminável; não pode acabar, a menos

que a democracia não seja mais democrática e a sociedade se veja privada

de sua autonomia. Democracia significa que a tarefa do cidadão nunca está

completa. Ela existe em função do interesse perseverante e obstinado dos

cidadãos. Quando esse interesse é posto para dormir, a democracia expira.

De modo que não há, nem pode haver, uma democracia, uma sociedade

autônoma, sem cidadãos autônomos – ou seja, cidadãos dotados de

liberdade individual e de responsabilidade também individual pelas formas

como a empregam. Essa liberdade é outro valor – embora impensável

separado do valor da democracia. Esta se baseia na liberdade de seus

cidadãos, e estes baseiam a sua confiança de serem livres na coragem de o

serem na democracia de sua polis. Os dois constroem um ao outro e são

construídos no processo dessa construção.

Eu sugiro que foi a combinação de todos os valores mencionados que

lançou a Europa em sua aventura – contínua, inacabada e, ao que se espera,

interminável. Misture esses valores e você tem um composto inerentemente

instável, que dificilmente se solidificará um dia, sempre pronto a interagir

com outras substâncias, absorvê-las ou assimilá-las. É essa provavelmente a

qualidade da Europa que os teóricos da “modernidade reflexiva” quiseram

apreender e nomear, embora o tenham feito, como a coruja de Minerva,

apenas quando o fenômeno em questão havia entrado em tempos difíceis e

enfrentava, tendo a Europa perdido o seu papel secular de estabelecer

padrões em âmbito planetário, o perigo genuíno de acabar prematuramente.

E foi provavelmente isso que estimulou Lionel Jospin a investir as suas

esperanças na Europa com base numa “abordagem repleta de nuances das

realidades atuais”.3 A Europa aprendeu, do modo mais difícil e a um preço

enorme pago na moeda do sofrimento humano, “a ultrapassar antagonismos

históricos e resolver conflitos pacificamente”, e a juntar “uma ampla

variedade de culturas” e viver na expectativa de uma permanente

diversidade cultural, não mais vista apenas como um fator de irritação temporária. E note-se que essas são precisamente as lições de que o resto do

mundo necessita mais urgentemente. Quando observada contra o pano de

fundo de um planeta tomado por conflitos, a Europa parece um laboratório

em que as ferramentas necessárias para construir a Allgemeine Vereinigung

der Menschheit (“unificação universal da humanidade”) de Kant continuam

a ser projetadas e, como numa oficina, “testadas na ação”, embora neste

momento na execução de tarefas menores, menos ambiciosas. As

ferramentas atualmente forjadas e testadas dentro da Europa servem antes

de tudo para a delicada operação (segundo alguns observadores, delicada

demais para apresentar mais do que uma mínima chance de sucesso) de

separar as bases da legitimidade política, o procedimento democrático e a

disposição de compartilhar, ao estilo comunitário, os ativos a partir do

princípio da soberania nacional/territorial com o qual estiveram

inextricavelmente ligadas durante a maior parte da história moderna.

No Estado-nação, o casamento do poder com a política foi definido e

fixado territorialmente; o lento e confuso progresso de um modus

coexistendi internacional objetivava corroborar e reforçar esse princípio – o

que acabou por levar ao estabelecimento das Nações Unidas, com o

mandato de proteger a soberania dos Estados – territorialmente confinada –

da agressão e interferência externas. Mas esse casamento “celebrado no

céu” entre a política e o poder, e seu lar, o Estado-nação territorial, estão

sendo atacados hoje em dia tanto por fora quanto por dentro. Para as

potências globais emergentes, os enclaves políticos territoriais cada vez

mais se parecem com um monte de “bairros fétidos” a dificultar a

integração de um reino novo e mais amplo, enquanto o indivisível direito de

determinar as leis do reino a que obstinadamente se aferram esses enclaves

dos Estados-nações parecem cada vez mais semelhantes àquelas restrições

locais (municipais, paroquiais, com base na terra), economicamente sem

sentido e contraproducentes, contra as quais empresários turbulentos e

vigorosos se rebelaram dois séculos atrás, quando os seus olhos

vislumbraram territórios mais amplos (futuramente nacionais) onde

poderiam desenvolver o seu jogo.

A recente federação européia enfrenta agora a tarefa de repetir o feito

realizado pelo Estado-nação no início da modernidade: a de religar poder e

política, atualmente separados e navegando em direções opostas. A estrada

que leva à implementação dessa tarefa é tão pedregosa quanto era antes, repleta de armadilhas e riscos incalculáveis. Pior de tudo, não está mapeada,

e cada passo sucessivo é como um salto no desconhecido.

Muitos observadores duvidam da sensatez desse empreendimento e

consideram baixas as chances de que ele tenha sucesso. Os céticos não

acreditam na viabilidade de uma democracia “pós-nacional” ou de qualquer

entidade política democrática acima do nível da nação. Insistem em que a

fidelidade a normas cívicas e políticas não substituiria os “laços

etnoculturais”4 e que a cidadania não funcionaria numa base puramente

“civilizacional” (jurídico-política) sem a ajuda de “Eros” (a “dimensão

emocional”) – enquanto presumem que os “laços etnoculturais”, assim

como “Eros”, são inextricavelmente conectados ao tipo de sentimento de

compartilhar o passado e o destino que, na história, recebeu o nome de

nacionalismo: a fidelidade a essas normas só pode fincar raízes e crescer

dentro dessa conexão, não podendo ser reconstruída ou restabelecida de

qualquer outra maneira. A possibilidade de que a legitimação nacional do

poder de Estado foi apenas um episódio historicamente confinado, uma das

muitas formas alternativas de reunir política e poder, ou de que a moderna

mistura de statehood e nationhood apresentava mais sintomas de um

casamento por conveniência do que o veredicto da providência ou da

inevitabilidade histórica, ou de que o próprio casamento não é um resultado

inevitável e, quando arranjado, pode ser tão tormentoso quanto tendem a ser

os processos de divórcio (como foi claramente demonstrado pela

experiência das entidades políticas pós-coloniais e pós-imperiais artificiais)

é assim descartada pelo simples expediente de fugir da dificuldade.

Jürgen Habermas é comprovadamente o porta-voz mais consistente e

autorizado do ponto de vista oposto a esse tipo de ceticismo. “A ordem

democrática não tem necessidade inerente de se enraizar mentalmente na

‘nação’ como comunidade pré-política de destino compartilhado. A força

do Estado democrático constitucional reside precisamente em sua

capacidade de fechar os buracos da integração social por meio da

participação política de seus cidadãos.”5 Isso é verdade, mas o problema vai

além disso: a “nação”, como qualquer promotor da “idéia nacional” estaria

ávido por admitir, é tão frágil e vulnerável sem um Estado que a proteja (de

fato, que assegure a permanência de sua identidade) como o é o Estado sem

uma nação para legitimar as suas demandas. Estados e nações modernos são

produtos gêmeos da mesma constelação histórica. Um só pode “preceder” o

outro a curto prazo, tentando mantê-lo tão curto quanto possível e enchendo-o de esforços para substituir a prioridade pela simultaneidade e

inserindo um sinal de equação entre esses parceiros aparentemente

autônomos. O Estado francês foi “precedido” por savoiardos e bretões, não

por franceses; o Estado alemão, por bávaros e prussianos, não por alemães.

Savoiardos e bretões dificilmente se tornariam franceses, assim como

bávaros e prussianos dificilmente virariam alemães, se sua reencarnação

não fosse “acompanhada pelo poder”, pelos Estados francês e alemão,

respectivamente.

Para todos os fins e propósitos práticos, tanto as nações quanto os

Estados modernos emergiram no curso de processos simultâneos e

intimamente interligados de construção do Estado e da nação – processos

pouco transparentes e sem sucesso garantido. Dizer que uma estrutura

política não pode ser estabelecida sem um organismo etnocultural viável já

assentado não é mais nem menos convincente do que sustentar que nenhum

organismo etnocultural tem probabilidade de se tornar e permanecer viável

sem uma estrutura política funcionando e exeqüível. Um dilema do tipo ovo

e galinha, se é que já houve um.

A análise de Habermas, abrangente e laboriosa, aponta numa direção

muito parecida:

 

precisamente as condições artificiais em que surgiu a consciência nacional argumentam contra o

pressuposto derrotista de que uma forma de solidariedade cívica entre estranhos só pode ser

gerada dentro dos limites da nação. Se essa forma de identidade coletiva se deveu a um salto

altamente abstrato da consciência local e dinástica para a consciência nacional e daí para a

democrática, por que esse processo de aprendizagem não poderia prosseguir?6

 

Um sentimento de nação compartilhado não é uma condição necessária

para a legitimidade da autoridade do Estado se este é um corpo

genuinamente democrático: “Os cidadãos de um Estado jurídico

democrático se vêem como os autores da lei, a qual os compele à

obediência como seus destinatários.”7 Podemos dizer que o nacionalismo

preenche a legitimação deixada em aberto (ou, para começo de conversa,

não preenchida) pela participação democrática dos cidadãos. É na ausência

de tal participação que a invocação de sentimentos nacionalistas e os

esforços para alimentá-los constituem o único recurso do Estado. O Estado

deve construir a sua autoridade sobre a disposição de seus indivíduos de

morrer pelo país se e quando este parecer precisar de seus habitantes apenas

na sua propensão a sacrificar as suas vidas, e pode passar muito bem sem a

sua contribuição à administração dos negócios no quotidiano.

Os detratores do “projeto europeu” descartam a esperança numa

“identidade européia” supranacional perguntando “quem desejaria morrer

por Javier Solana?” (ou, nesse sentido, Romano Prodi). O que eles,

prudentemente, deixam de perguntar é quantas pessoas desejariam dar suas

vidas por Jacques Chirac, Gerhard Schröder, Tony Blair, George ou George

W. Bush, ou mesmo Jean-Marie Le Pen. Fazer essa outra pergunta

desafiaria o seu propósito, já que revelaria a futilidade de seu argumento,

tornando óbvio como era defasada e irrelevante a primeira pergunta para a

perspectiva da unidade européia.

O “patriotismo heróico” a que se refere a primeira pergunta, e que

tacitamente se assume como uma proposição plausível, é claramente passé;

não está em oferta nem em demanda. O quanto está fora de sintonia com a

atual condição da Europa se mostra na forma como nós (pessoas nascidas e

criadas num continente atulhado de túmulos de “soldados desconhecidos” e

monumentos à glória de outros mártires que deram as vidas pelo rei e pela

pátria) somos incapazes de compreender, muito menos aprovar, os motivos

pelos quais jovens de ambos os sexos de outras partes do mundo,

freqüentemente com elevado grau de instrução, podem transformar-se em

homens ou mulheres-bomba, dando suas vidas “pela causa”.

Desconcertados, tentamos entender o seu comportamento de uma forma que

se ajusta melhor aos nossos próprios pensamentos e sentimentos: pelas

delícias póstumas falsamente prometidas por agentes de credos religiosos

exóticos. Tal explicação nos parece muito mais verossímil do que dar a vida

por Deus ou pela nação.

Tal como a ética protestante desempenhou o papel de “mediador

evanescente” para o moderno capitalismo emergente, perdendo a sua função

e o seu poder quando o trabalho estava concluído e não era mais necessário

para um capitalismo autoconfiante, o “patriotismo heróico” auxiliou o

nascimento e a maturação do moderno Estado-nação, definhando e

desaparecendo depois, quando o Estado encontrou formas menos custosas

de sustentar a continuidade de sua existência do que alimentar as emoções

das massas populares. A inclinação de recorrer às estratégias da última

guerra vitoriosa é uma fraqueza que os políticos compartilham com os

generais. Mas se uma repetição da “mobilização espiritual” acompanhada

pelo poder da era da construção da nação e do Estado será condição

necessária para edificar as lealdades no nível continental é uma questão em

aberto e de forma alguma um resultado inevitável. A União Européia não será nem pode ser uma cópia ampliada de um Estado-nação, da mesma

forma que os Estados-nações não foram nem poderiam ser versões maiores

de propriedades, paróquias ou municipalidades. Qualquer pessoa que

considere a disposição de morrer por Javier Solana como o teste de

exeqüibilidade e viabilidade da União Européia está cometendo o equívoco

de tomar o produto final de um longo processo de construção nacional

como condição preliminar de toda integração social num nível mais

elevado.

Os sentimentos de pertencimento comum e responsabilidade mútua pelo

futuro também comum, a disposição de cuidar do bem-estar de todos e

encontrar soluções amigáveis e duradouras para conflitos esporadicamente

inflamados – todas as características da vida comum que foram

condensadas por grande parte da era moderna na idéia de “nationhood” –

precisavam necessariamente de uma estrutura institucional de formação de

opinião e vontade, atualmente condensada na idéia de um Estado soberano

democraticamente governado. A União Européia está caminhando, ainda

que de modo lento e vacilante, para uma forma rudimentar (ou embrionária

– o futuro decidirá qual o conceito que melhor se ajusta) desse tipo de

Estado, encontrando no caminho, como obstáculos mais importunos, os

atuais Estados-nações e sua relutância em abandonar o que ainda lhes resta

da antiga soberania plena. A direção atual é difícil de traçar sem

ambivalência, e prognosticar as suas futuras voltas e reviravoltas é mais

difícil ainda (além de irresponsável e imprudente). O momentum atual é

modelado por duas lógicas diferentes (talvez complementares, mas talvez

incompatíveis) – e é impossível decidir, antecipando a história, qual delas

acabará prevalecendo. Uma delas é a lógica do entrincheiramento local; a

outra é a da responsabilidade e da aspiração globais.

A primeira lógica é a da expansão quantitativa da base territorial e de

recursos para a estratégia da Standortkonkurrenz [lugar da concorrência].

Mesmo que não tivesse havido tentativas da parte dos fundadores do

Mercado Comum Europeu e de seus sucessores de emancipar as economias

de seu incapacitante confinamento à estrutura da Nationalökonomie, a

“guerra de libertação” atualmente conduzida pelo capital, finanças e

comércio contra as “restrições locais”, desencadeada e intensificada não por

interesses locais, mas por iniciativas globais, de qualquer maneira seria

travada e continuaria com a mesma força. O papel das instituições

européias não consiste em minar a soberania dos Estados-membros e, particularmente, em isentar a atividade econômica de sua interferência

controladora (e restritiva) – em suma, não em facilitar, muito menos iniciar,

o processo de divórcio entre poder e política. Para esse fim, dificilmente se

solicitam os serviços das instituições européias. Sua função consiste, ao

contrário, em conter a maré: prender os ativos de capital que escaparam das

gaiolas do Estado-nação dentro das paliçadas continentais e mantê-los lá. Se

o cerco efetivo dos mercados de capitais, financeiro, de mercadorias e de

trabalho e o equilíbrio das contas de um único Estado-nação podem tornar-

se uma tarefa ainda mais assustadora em vista do crescente poder do capital

global, será que o poder combinado dos Estados-nações, separadamente ou

em conjunto, seria capaz de contrapor-se a ele e confrontá-lo em termos

mais eqüitativos? Em outras palavras, a lógica do entrincheiramento local é

a de reconstruir, no nível da União, a rede jurídico-institucional que no

passado sustentou a “economia nacional” dentro das fronteiras da soberania

territorial do Estado-nação – mas não o faz mais. Porém, como diz

Habermas, “a criação de unidades políticas mais amplas em si mesma não

muda nada no que se refere ao modo de competição no âmbito local

enquanto tal”.8 Vista de uma perspectiva planetária, dificilmente se poderia

estabelecer uma distinção entre a estratégia conjunta de uma combinação

continental de Estados e os códigos de conduta dos Estados-nações

individuais que essa substituiu, enquanto ainda se pauta pela lógica da

divisão, separação e cerco – de buscar isenções territoriais para regras e

tendências gerais, soluções locais para problemas gerados globalmente.

A lógica da responsabilidade global, por outro lado (e, uma vez que essa

responsabilidade seja reconhecida e assumida, também da aspiração

global), objetiva, ao menos em princípio, confrontar diretamente – no seu

próprio nível – os problemas gerados globalmente. Parte do pressuposto de

que soluções duradouras e realmente efetivas para os problemas de âmbito

planetário só podem ser encontradas e funcionar por meio da renegociação

e reforma da rede de interações e interdependências globais. Em vez de ter

como alvos apenas os menores danos e os maiores lucros em termos locais

a serem extraídos das guinadas caprichosas e aleatórias das forças

econômicas globais, prefere buscar um novo tipo de ambiente global, no

qual os passos das iniciativas econômicas em qualquer lugar do planeta não

serão mais caprichosos, guiados apenas por ganhos momentâneos, sem

prestar atenção aos efeitos secundários e às “baixas colaterais”, sem dar

importância às dimensões sociais dos cálculos de custos/benefícios. Em suma, essa lógica está voltada, mais uma vez citando Habermas, para o

desenvolvimento de uma “política que possa fazer frente aos mercados

globais”.9

Diferentemente da lógica do entrincheiramento local, que no geral repete

as persistentes harmonias da filosofia da raison d’état universalmente

dominante (ou quase) na era do Estado-nação, a lógica da responsabilidade

e das aspirações globais nos lança num território desconhecido e inaugura

uma era de experimentação política. Rejeita o caminho da defesa local

contra tendências planetárias como um beco sem saída já conhecido.

Abstém-se (por necessidade, se não por razões de consciência) de recair na

estratégia européia ortodoxa de tratar o espaço planetário como uma

“hinterland” onde seria possível despejar problemas domesticamente

produzidos, mas que não podem ser resolvidos em casa. Aceita que seria

totalmente inútil adotar a primeira opção com a esperança realista de obter

sequer um mínimo de sucesso, ainda que a Europa – tendo perdido o

domínio global e vivendo, ao contrário, à sombra de um novo império

planetário que só pode se esforçar por conter e mitigar, dificilmente por

controlar – não esteja em posição de adotar a segunda opção, não importa

quanto sucesso esse caminho tenha rendido no passado e o quanto ainda

possa ser tentador.

E assim, quer queira quer não, novas estratégias e táticas inexploradas

devem ser buscadas e tentadas, sem a possibilidade de calcular

confiantemente, que dirá assegurar, um sucesso definitivo. “No plano

global”, adverte Habermas, “os problemas de coordenação que já são

difíceis no plano europeu crescem ainda mais acentuadamente.” Isso ocorre

porque a “solidariedade cívica está enraizada em identidades coletivas

particulares”, ao passo que “a solidariedade cosmopolita tem que sustentar a

si mesma somente sobre o universalismo moral dos direitos humanos”, ao

mesmo tempo em que “a cultura política de uma sociedade mundial carece

de uma dimensão ético-política comum, que seria necessária para uma

comunidade global correspondente.”10

Um verdadeiro “Ardil 22”: a comunidade que poderia enfatizar uma

sensibilidade ética comum e tornar possível a coordenação política,

fornecendo assim a condição necessária que se deve estabelecer para que a

solidariedade supranacional e supracontinental (na verdade,

supracivilizacional) possa germinar e fincar raízes, é difícil de alcançar

precisamente porque a “dimensão ético-política” até aqui está ausente e provavelmente continuará assim, ou não alcançará o que é necessário,

enquanto a comunidade estiver incompleta. O que a Europa agora enfrenta

é a perspectiva de desenvolver, de modo gradual e simultâneo, e

possivelmente mediante uma longa série de tentativas e erros, seus

objetivos e as ferramentas apropriadas para enfrentá-los e resolvê-los

(Jacques Delors chamou a Europa de hoje de “OPNI” – objeto político não

identificado…). Para tornar a tarefa ainda mais assustadora, o derradeiro

destino de todo esse trabalho, uma política planetária efetiva com base num

diálogo amplo e contínuo, e não num governo planetário, igualmente não

tem precedentes. Só a prática histórica pode provar (mas nunca refutar) a

sua viabilidade – ou, mais corretamente, torná-la viável.

Nós sentimos, imaginamos, suspeitamos o que precisa ser feito. Mas não

podemos saber de que forma ou modelo isso acabará acontecendo. Mas

podemos estar certos de que a forma não será familiar – será bem diferente

de tudo a que estamos acostumados. As instituições políticas à nossa

disposição atualmente foram feitas sob medida para a soberania territorial

do Estado-nação. Elas resistem à ampliação, e as instituições políticas que

ajudarão na autoconstituição da comunidade humana de âmbito planetário

não serão, não podem ser, “as mesmas, apenas maiores”. Podemos perceber

bem que a passagem de agências e instrumentos de ação “internacionais”

para instituições “universais” destinadas a toda a humanidade deve ser uma

mudança qualitativa, e não apenas quantitativa. E assim podemos avaliar, e

temer, se as estruturas da “política global” atualmente disponíveis podem

acomodar (de fato, servir de incubadoras) as práticas da constituição

política [polity] global emergente. Que dizer das Nações Unidas, por

exemplo – destinadas, desde o nascimento, a guardar e defender a soberania

indivisível do Estado sobre o seu território? E a força aglutinadora das leis

globais – poderá depender do acordo (revogável!) de um membro soberano

da “comunidade internacional” para ser obedecida?

Para entender a lógica dos proféticos desvios no pensamento europeu do

século XVII, Reinhardt Kosseleck empregou o tropo do “desfiladeiro”. É,

de fato, mais uma vez uma metáfora feliz, para nós, lutando para prever as

reviravoltas e caprichos que o século XXI inevitavelmente trará no seu

curso, e para os futuros historiadores, ao escreverem os seus relatos

definindo-o em retrospectiva.

Tal como nossos ancestrais três séculos atrás, estamos no declive

ascendente de um desfiladeiro que nunca escalamos antes, e portanto não temos nenhuma indicação do tipo de vista que se descortinará diante de nós

quando atingirmos o topo. Não temos certeza quanto ao lugar a que a

tortuosa garganta nos conduzirá. Só sabemos que não podemos parar e

descansar aqui, numa trilha de um desfiladeiro. E assim prosseguimos

“porque” – porque não podemos ficar parados muito tempo. Só quando (se)

alcançarmos o topo da garganta e examinarmos a paisagem do outro lado é

que chegará o momento de prosseguir “a fim de” – puxados em vez de

empurrados, e puxados por visões, escolher propósitos e destinos.

Por enquanto, pouco se pode dizer sobre essa época exasperantemente

distante, a não ser que esta (ao que se espera) chegue – quer dizer, se ainda

houver alpinistas para descobrir que isso aconteceu e falar sobre isso. Eu

sugeri tudo isso a Kosseleck, assinalando a raridade dos talentos proféticos

e as deficiências notórias da predição científica. Em sua resposta, contudo,

Kosseleck acrescentou um argumento ainda mais decisivo: não temos

sequer os conceitos para expressar nossa previsão. Tais conceitos são

formados na prática da escalada, não antes. Do outro lado do desfiladeiro,

alpinistas prudentes devem manter silêncio.

Isso não significa que os alpinistas devam interromper o seu percurso. E

no caso dos europeus, conhecidos pela inclinação à aventura e à

experimentação, é improvável que o façam. Muitas escolhas difíceis serão

necessárias, todas feitas em condições de conhecimento severamente

limitado (é exatamente isso que separa a aventura da rotina e da ação sob

comando). As chances adversas parecem realmente assustadoras, mas

também há esperanças que são tudo, menos vazias, firmemente enraizadas

na vida quotidiana dos europeus e manifestas de modo ainda mais

irredutível em momentos de crise.

Numa conversa mantida em maio de 2003, Jürgen Habermas e Jacques

Derrida afirmaram que 15 de fevereiro de 2003 era “outro 4 de julho”, mas

agora numa escala totalmente européia: o dia em que nasceu “uma

verdadeira consciência comum européia”.11 Naquele dia, milhões de

europeus saíram às ruas de Roma, Madri, Paris, Berlim, Londres e outras

capitais européias para manifestar a sua condenação unânime à invasão do

Iraque, prestes a ser lançada – e mostrar, indiretamente, a sua memória

histórica comum dos sofrimentos do passado, assim como a sua

repugnância, também comum, à violência e às atrocidades cometidas em

nome de rivalidades nacionais.

Madeleine Bunting agradece à Espanha “por nos proporcionar uma

escolha” após as explosões terroristas em Madri e a decisão do novo

governo de retirar os soldados espanhóis do Iraque. Uma escolha entre

políticos que sabem principalmente prometer aos amedrontados e confusos

uma “vingança colérica” e mais sangue para derramar e “a mulher

espanhola que disse não sentir ódio, apenas tristeza”.12 Os políticos, sugere

Bunting, “fariam bem em ouvir e articular a sua civilidade em vez de

correrem em direção à metáfora gasta e sem sentido de uma ‘guerra contra

o terror’ … Não se pode enfrentar o fogo com o fogo, essa era a mensagem

implícita das multidões silenciosas” nas ruas das cidades espanholas.

A escolha é entre transformar as nossas cidades em lugares do terror

“onde o forasteiro é objeto de temor e suspeita” e sustentar o seu legado de

civilidade mútua entre os cidadãos e “solidariedade aos forasteiros”,

solidariedade essa reforçada pela emergente vitória no mais duro dos testes.

A lógica da responsabilidade/aspiração global, se adotada e priorizada

sobre a lógica do entrincheiramento local, pode ajudar a preparar a Europa

para a sua esperada aventura, talvez maior do que todas as anteriores.

Apesar das chances formidavelmente adversas, isso poderia colocar mais

uma vez a Europa no papel de estabelecer padrões no plano global. Pode

possibilitar que a Europa empregue os valores e a experiência política/ética

de autogoverno democrático que adquiriu a fim de ajudar na substituição de

uma série de entidades territorialmente entrincheiradas, engajadas num jogo

de soma-zero de sobrevivência, por uma comunidade humana universal,

totalmente inclusiva. Só com a realização de tal comunidade é que a missão

da Europa pode ser concluída. Só dentro de tal comunidade é que os valores

que iluminam as ambições e buscas européias podem estar realmente

seguros.

O que jaz pela frente foi profeticamente posto no papel por Franz

Kafka13 – como uma premonição, um aviso e um estímulo:

 

Assim, se você não encontrar nada nos corredores, abra as portas, se não encontrar nada atrás

dessas portas haverá mais andares, e se não encontrar nada lá em cima, não se preocupe, apenas

suba outro lance de escadas. Desde que não pare de subir, as escadas não terminarão; sob seus pés

em movimento ascendente, elas continuarão se estendendo acima.

 

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