Fala, Amendoeira
Letras
academia gonçalves
Os que se entediavam com a mesmice da Academia Brasileira de Letras, eternamente vinculada a um padrão já muito sabido, poderão agora distrair-se com a novidade: vamos ter a nossa Academia Goncourt. As primeiras providências para fundá-la já foram tomadas, e agora se tomam as segundas. Os escritores que não puderam ainda penetrar na Casa de Machado de Assis penetrarão, pois, na ilustre Casa de Gonçalves.
Por que Gonçalves? Porque a nova academia, como a velha, segue modelo francês, e onde está escrito Goncourt, devemos aportuguesar para Gonçalves. Aproveitaremos as quatro primeiras letras de um nome consagrado, o que já não é pouco; as letras restantes exprimirão nossa originalidade, que deve ser preservada mesmo em questões de — se assim me posso exprimir — galotropicologia.
Gonçalves, como é sabido (não confundir com Gonçalves Dias), foi ou foram dois ilustres escritores brasileiros do Século de Ouro, que faleceram deixando apreciável fortuna e a desejaram votada ao serviço das letras. Gonçalves Júnior não viveu bastante para cuidar do assunto, mas Gonçalves Sênior, que todos os domingos à tardinha reunia os seus “fiéis” num porão da rua do Senado — o seu “pardieiro”, como gostava de dizer —, em companhia de Capistrano de Abreu, Jacinto de Tormes, o marquês de Maricá, João do Rio, João Ramalho, Silvana Pampanini, Ataulfo Alves, Luz del Fuego, Haya de la Torre ii e outros nomes famosos daquele tempo, lá um dia assinou um gordo cheque e declarou fundada a academia gonçalvina. Compor-se-ia de dez membros, todos escritores natos e com pedigree literário remontando a pelo menos três gerações: não haveria jetom, haveria jantares no Cabaça Grande, e todas as deliberações se tomariam entre o vinho branco e o tinto, porque depois não seria possível tomá-las. Dar-se-ia um prêmio de dez contos ao melhor romance do ano, e cada acadêmico receberia por ano uma pensão de quinze contos — oba! Gonçalves Sênior foi aplaudido com emoção, mas a febre amarela endêmica não permitiu que se concretizasse tão belo sonho. Um grupo rival fundou, com muito maior número de assentos, mas sem pensão, uma Academia Francesa, que funciona ainda hoje ali junto ao Café e Bar Academia, e a cem passos do Vilarino, na avenida Presidente Wilson, embora quase ninguém o perceba.
A nova instituição se recomenda, antes de mais nada, pelo culto à memória de Gonçalves, hoje tão esquecido que se chega a duvidar de sua existência, e que é preciso revalorizar, como já se vão revalorizando outras glórias nacionais um tanto murchas. Edmundo Gonçalves ressurgirá, pois, em nossa admiração, através de jantares votivos, já agora no Bife de Ouro, e o Prêmio Gonçalves sagrará os nossos Prousts em perspectiva. E graças à saudável tendência antimisógina dos Gonçalves, que hoje refloresce nos seus seguidores, haverá enfim uma cadeira ao sol para as senhoras escritoras, pois a Academia terá também a sua Colette, talvez com menor talento do que o original francês, mas esperemos que também com idade menos provecta.
Receia-se apenas que os fundos de Gonçalves, diluídos pela inflação, ou mesmo congelados sob forma de herança jacente, não apareçam para animar o projeto. Nesse caso, convidam-se os capitalistas da era imobiliária e petrolífera a fazer suas prestantes doações a fim de que não deixemos de ter por aqui a nossa Goncourtzinha. E como é natural que esses beneméritos pretendam ter seus nomes ligados à nobre empresa espiritual, pode muito bem ser que se ponha de lado o título Gonçalves, em proveito de firmas comerciais; mas Gonçalves terá sempre uma pira a arder no coração dos novos acadêmicos, que também, provavelmente, serão acadêmicos novos.