Fala, Amendoeira

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 42 de 66

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Fala, Amendoeira

O sono

 

Que se passa com este garoto, que não quer dormir? Acorda cedo, vai à praia, almoça um boi, janta outro, pula feito macaco, está exausto até o sabugo da alma; entretanto, quando o sol se recolhe, ele não faz o mesmo. Pretenderá abolir a noite, prosseguindo infindavelmente nos jogos e experiências do dia claro.

Livros especializados responderiam à pergunta. Mas um avô que se preza jamais recorreria à ciência dos outros para iluminar sua ignorância. A resposta deve vir da compreensão amorosa, forrada de paciência, que costuma falecer aos avós mais aperfeiçoados.

Não, o guri não quer saltar sempre, como brinquedo a que se desse corda infinita. Seus olhos já não têm aquele foguinho azul-claro que crepitava a cada hipótese de prazer, durante o dia. Estão baços e estreitos, como convém à viagem do sono. E se o menino não se dispõe a empreendê-la, é porque sabe que irá sozinho, que todos nós dormimos abandonados e ermos, que o mundo murcha em nosso redor, e perdemos todo contato com a corrente da vida. Se a casa inteira fosse dormir, bem seria um mergulho geral, e os sonos se sentiriam solidários; mas é cruel ir para a cama, e saber que lá embaixo a vida está acontecendo em volta à mesa do jantar, e o riso imprudente dos adultos soa como um odioso privilégio. Então se desenrola o entreato da escada.

A escada marca a separação de dois mundos: o mundo propriamente dito e a solidão. É longa, e cada degrau que se sobe representa um passo para o exílio. Deve-se subi-la devagarinho, e descê-la em ritmo de carga de cavalaria. Infelizmente, é hora de subir. As autoridades, sob compromisso de recolhimento pacífico, prometeram um serão mais longo, mas tudo acaba, e temos de enfrentar a noite e seus espaços vazios e desolados.

— Anda mais depressa, menino.

— Um momentito. Tenho ganas de coçar-me as rodijas.

Senta-se e começa a coçar-se, na calma. Levanta-se e olha para baixo, saudoso, como do alto de um clipper.

— Mamãe…

— Que é?

— Amanhã bos me regalás uma cosita que eu quero mucho?

— Que coisa, filhinho?

— Todavia não sé. Es um negocio mui lindo, focê sabe?

— Bem, amanhã você lembra e me diz. Agora vai dormirzinho, vai.

— Quero água.

— Mas, meu bem, agorinha mesmo você bebeu um copo d’água! divertimento

— Quero más.

— Deita, e mamãe te traz água.

— Sim, voi acostarme. E me contás um conto de Ruãozinho e Maria?

Vários contos são contados, já na cama, e o menino parece vencido. A família janta, satisfeita. Ouve-se um lamento débil:

— Mamãe…

— Que é?

— Me olvidê de cepijar os dentes.

— É engano, filhinho, você escovou.

— Escovê mal.

— Vai dormir, menino.

Ruído na escada. Então, ele não estava falando da cama?

— Volte para o quarto e fique quietinho.

Faz que volta, sobe um degrau. Nova pausa, e recomeçam os apelos suaves e melancólicos de comunhão. Precisa contar o tombo que o Valdemar levou hoje na escola. Recorda-se de que a porta do “comedor” em Buenos Aires não ficou fechada aquele dia, e entrou um imenso galo cor de escuridão. Precisa atender a uma necessidade urgente; não podem ajudá-lo a acender a luz, tão alta? Quando baixarão los marcianos, que viajam em aviões-foguetes?

As pessoas perdem a paciência, divertem-se, ameaçam, imploram-lhe que durma só um pouquinho. Imagem de vigília, mãos no rosto, bocejante e perseverante, sentado no alto da escada, seu pequenino corpo escondido no pijama parece aguardar que um cataclismo subverta a face da terra, e as pessoas crescidas voltem a ser crianças para entenderem a tristura de adormecer.