Fala, Amendoeira

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 65 de 66

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Fala, Amendoeira

Posfácio

 

as coisas do tempo:

a crônica na obra

de carlos drummond de andrade

Ivan Marques

É discreta, objetiva e também poética, como convém ao gênero, a significação que Carlos Drummond de Andrade atribui, logo na abertura deste livro, à atividade que ele vinha praticando, desde 1954, nas páginas do Correio da Manhã: “ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo”. Os escritos reunidos em Fala, amendoeira alinham-se, portanto, à crônica, modalidade literária que também pertence ao jornalismo. Da natureza desse trabalho, a definição dada pelo cronista retém o principal: o aspecto de labor contínuo e necessário como o pão de cada dia (contido no substantivo ofício), a alusão ao caráter desambicioso desse tipo de escrita (rabiscar) e, sobretudo, a delimitação de seu objeto (as coisas do tempo), em perfeita sintonia com a própria etimologia da palavra, cuja raiz é khrónos, o tempo, o presente.

O crítico Antonio Candido considera a crônica um gênero menor. Abrigada no jornal, ela é sempre breve e apressada, tendo por matéria as novidades perecíveis do cotidiano nas cidades. Entretanto, por ser também um gênero literário, a crônica fixa um ponto de vista subjetivo e particular, que extrapola o jornal, que independe dos fatos, que resiste ao tempo. Daí a possibilidade de esses textos serem reunidos posteriormente em livro, onde fazem muitas vezes bela figura, para além do amontoado de coisas velhas e datadas.

Numa literatura de forte tradição realista como a nossa — e na qual tantos escritores acabaram se envolvendo também com o jornalismo — era natural que a crônica, à força de ser tão cultivada, constituísse um gênero autônomo, com características especificamente brasileiras. Para isso contribuíram, desde o século xix, autores de peso como José de Alencar, Machado de Assis, Olavo Bilac e Lima Barreto. A geração modernista praticou com entusiasmo a crônica, que casava à perfeição com os ideais estéticos do movimento de 1922: o combate à ênfase retórica, a recusa do ornamento, o gosto pela linguagem coloquial e pelos acontecimentos miúdos do dia a dia (a poesia estaria nos fatos, no dizer de Oswald de Andrade, e poderia ser extraída até mesmo de uma notícia de jornal, conforme demonstrou Manuel Bandeira).

Para Mário de Andrade, a crônica era uma espécie de sueto, intervalo de gratuidade e descompromisso no qual o escritor se “desfatigava” de si mesmo. No caso de Drummond, o exercício da crônica significou igualmente uma busca de distensão, mas sem deixar de entretecer ligações profundas com a sua obra poética. “O tempo é a minha matéria”, exprimem os versos de “Mãos dadas”, do livro Sentimento do mundo (1940): “o tempo presente, os homens presentes,/ a vida presente”.

A obsessão pela vida atual não exclui a ruminação do passado, que também se impõe em Drummond como presença viva e incômoda, voltando sempre à tona, seja nos poemas, seja nas crônicas. Não por acaso ele batizou um de seus livros de Fazendeiro do ar, expressão que sintetiza, como já se observou, a própria evolução social do Brasil (a transição do campo à cidade). O elogio do presente significa, antes, a rejeição do que é morto, eterno ou divino em favor do que pode até ser pequenino, mas acima de tudo é vivo, matéria celebrada nos versos do poema “Vida menor”, de A rosa do povo (1945).

O grande representante da poesia moderna no Brasil — e que também é considerado o nosso maior “poeta público” — não se deu bem com a política, mas trabalhou a vida inteira como um autêntico “homem de jornal”. Nos anos 1920, foi redator-chefe do Diário de Minas, jornal que abrigou as primeiras manifestações do modernismo em Belo Horizonte. Mais tarde, manteve extensa colaboração no Correio da Manhã e no Jornal do Brasil. Depois de se aposentar do funcionalismo público, Drummond ainda exerceu, praticamente até a morte, a atividade jornalística, que considerava a sua principal vocação. E, sendo tão profundamente um poeta-cronista, é curioso que só tenha estreado de verdade no gênero quando já se encontrava em plena maturidade. Apenas em 1957, com Fala, amendoeira, é que veio a lume o seu primeiro livro reunindo escritos que podem ser de fato qualificados como crônicas.

Naquela altura, o poeta já havia publicado a parte mais importante de sua obra poética: a lírica modernista de Alguma poesia e Brejo das almas, a poesia participante de Sentimento do mundo e A rosa do povo, as meditações filosóficas de Claro enigma e Fazendeiro do ar. E já havia também realizado incursões admiráveis pelo terreno da prosa — Confissões de Minas (1944), Contos de aprendiz (1951) e Passeios na ilha (1952). Desses três volumes, o primeiro e o último até poderiam ser aproximados ao gênero de crônica. O que eles trazem, porém, são escritos mais alentados, uma densa prosa de ensaio cobrindo matéria distinta da que se encontra na crônica tradicional — reflexões literárias, estudos sobre a poesia romântica, perfis dos companheiros de aventura modernista, evocações de cidades mineiras, tudo misturado aos impasses e à biografia do próprio autor. Trata-se de um ensaísmo em larga medida autorreferente, no qual o poeta se projeta em tudo e em todos. O sentido é oposto ao da quase total extinção do “eu”, que se torna tendência forte num terreno de inclusão e defesa da alteridade como é a crônica. Desnecessário dizer que isso não elimina o outro traço constitutivo do gênero, o olhar subjetivo, cujo ponto de fuga, aliás, é a revelação da subjetividade do “outro”.

A crítica já registrou a correspondência entre a prosa e o itinerário poético de Drummond. Se o livro Confissões de Minas repercute o engajamento proposto em Sentimento do mundo (explicitando a crítica ao individualismo da fase anterior), os artigos de Passeios na ilha estariam ligados à desistência da participação política no decênio seguinte, sendo indissociáveis da atmosfera noturna e desencantada do volume Claro enigma. A analogia pode valer para a prosa de ensaio, mas parece não funcionar no caso das crônicas de Fala, amendoeira, que representam mesmo uma novidade no trajeto de Drummond.

O livro contém, é claro, a “tinta da melancolia” com que foi escrita a poesia neoclássica dos anos 1950. Mas também reintroduz, até por imposição natural do gênero, a “pena da galhofa” que havia sido tão cultivada no período modernista. São bem machadianas as crônicas de Fala, amendoeira — nos temas, no uso da ironia e inclusive na linguagem refinada, levemente aristocrática, que divide espaço com as gírias e os coloquialismos. Do conúbio entre galhofa e melancolia, resulta, como no caso das Memórias póstumas de Brás Cubas, uma prosa ao mesmo tempo divertida e agudamente crítica.

Acima de tudo, as crônicas trazem de volta o cotidiano, as coisas do tempo, em nítido contraste com os vetores do eterno e do universal. A tendência se verifica no âmbito da própria poesia, com os versos de circunstância reunidos nessa mesma época na série Viola de bolso. A década de 1950 foi, portanto, um campo de batalha em que se enfrentaram, de um lado, o poeta metafísico, classicizante, abrigado nos tercetos e decassílabos de construções monumentais como o poema “A máquina do mundo”, e, de outro, o poeta-cronista, apegado a seu tempo, à vida menor — que à ilusão de um conhecimento total da existência preferiria, ao cabo, seguir sua estrada, “vagaroso, de mãos pensas”. Vista por esse ângulo, a crônica (e não seu antípoda, o lirismo filosófico) é que seria a verdadeira expressão da madureza em Carlos Drummond de Andrade.

Tal aprendizado, conforme revela o autor na abertura deste livro, teria vindo da velha árvore postada em frente à sua casa. Seus contatos com a rua e a paciente escuta dos ruídos humanos são uma boa alegoria para o ofício do cronista. Aceitar que as folhas caem — e que não se pode resistir ao tempo —, eis a lição que ele recebe da amendoeira. O bom humor é seu modo espontâneo de ser, além de constituir o “estado de espírito” de todo texto que pretenda ser chamado de crônica.

A função principal do cronista, segundo Drummond, é divertir. Seu lugar é o segundo caderno, sucedendo ao estoque de misérias e calamidades do primeiro, do qual visa justamente oferecer uma “correção” ou distração ao pobre leitor de jornais. Em uma entrevista à sua filha, Maria Julieta, publicada em 1984 em O Globo, o poeta enfatiza o caráter cômico de sua prosa destinada aos jornais, atribuindo-lhe mesmo uma roupagem circense: “Como cronista, eu me sinto um palhaço, um jongleur, dando saltos e cabriolas, fazendo molecagens”. Além de “menor”, a crônica seria, pois, por definição, um gênero “engraçado”. E tudo é aceitável se o intuito é provocar o riso do leitor: não só a exposição de anedotas, chistes e paradoxos irônicos, mas também a prática brincalhona de dar asas à fantasia, produzindo, como um mágico de picadeiro, deslavadas mentiras.

“Mentiras” é o título da primeira seção deste livro, aberta com a mirabolante história da visita misteriosa que Greta Garbo teria feito em 1929 a Belo Horizonte, revelando sua identidade apenas aos poetas Drummond e Abgar Renault. Na crônica seguinte, o leitor é surpreendido com a confissão de que o autor imitara o herói sem caráter de Mário de Andrade: “Eu menti”.

Mentirosos e sonhadores são diversos personagens de Fala, amendoeira, como o pequeno ser de dois anos da crônica “Netinho”, que tem o “prazer de recriar, em novas bases, a realidade imposta”. Há também as amazonenses da crônica “Delícias de Manaus”, que dentro do ônibus lotado sonham alto com as comidas de sua terra. E ainda as curiosas personalidades do mundo artístico e intelectual homenageadas na seção “Despedidas”: Roquette-Pinto, “professor de imaginação”, o antropófago Oswald de Andrade e o lendário Jayme Ovalle, cuja “poesia irrealizada” parecia ter o poder de penetrar no mundo das essências. E não seria essa a aspiração do cronista, poeta em prosa ou “poeta sem versos” como Ovalle, a buscar como ele uma iluminação lírica e humorística? O sucesso do cronista depende de sua graça e da capacidade mágica que tem de extrair do cotidiano uma essência poética, isto é, de converter aeromoças em aeromitos, como faz Drummond no texto “Aeroprosa”.

Para recriar ou corrigir a realidade, permite-se ao cronista sonhar alto. Ele pode imaginar, mentir, exagerar, construir livremente o seu “edifício de nuvens”, mas também deve procurar seguir o perfil do funcionário público descrito no ensaio “A rotina e a quimera”, de Passeios na ilha, comportando-se como “um louco manso e subvencionado”. Rotina e quimera são, com efeito, os ingredientes fundamentais da crônica, ao mesmo tempo enraizada no cotidiano e levitando acima do plano terrestre. Os polos são extremos porém ambos necessários: a crônica não é feita só da rotina, ou só da quimera, mas da fantasia que brota do cotidiano, e do cotidiano que, por sua vez, coíbe as fantasias.

Em Fala, amendoeira há um personagem que cumprirá à risca essa prescrição feita ao burocrata. João Brandão, funcionário público e poeta nas horas vagas, ganharia outras crônicas no futuro e até uma coletânea própria, Caminhos de João Brandão (1970). A exemplo da amendoeira, é um alter ego dessa fase madura de Drummond, encarnando os atributos da paciência e da doçura. Estes reaparecem, mais uma vez, na crônica “Elegia de Baby”, caracterizando a elefantinha reduzida, como o cronista, à “condição circense”, pois a única utilidade que lhe restou foi divertir os espectadores. Assim como o elefante do conhecido poema de A rosa do povo, Baby realiza um passeio tonto pela cidade — “entre bichos muito mais ferozes, que são os ônibus e os automóveis” —, metaforizando o deslocamento do poeta-cronista no espaço urbano onde lhe foi dado viver, mas ao qual não pertence.

Na nota introdutória à coletânea de 1970, Drummond escreve: “meu amigo João Brandão vive sua vida entre a rotina palpável e a aventura imaginária, e eu vou cronicando seu viver com a simpatia cúmplice que me inspiram o ser comum e sua pinta de loucura mansa”. Na crônica “O feiticeiro”, de Fala, amendoeira, a mesma qualificação (doido manso) é usada para evocar Roquette-Pinto, que parecia estar sempre a ponto de sacar do bolso uma pomba. O que a expressão traduz é a própria natureza da crônica, dividida entre a prosa e a poesia, entre a rotina e a quimera, ao passo que o lirismo tende a perder muitas vezes a ligação com a terra.

Se a poesia é incomunicável, como desabafou o autor ainda jovem de Brejo das almas (1934), a crônica, que surgirá como fruto do outono e da madureza, é ávida de comunicação. Se os poemas aparecem quase sempre crispados e retorcidos, a prosa, ainda quando trate dos mesmos problemas, caminha sempre para a distensão. Ao resenhar, em 1957, as crônicas de Fala, amendoeira, Antonio Candido chamou de “weekend literário” esse conjunto de textos em que visivelmente se adoçava a aspereza do poeta. Todavia, não se deve exagerar esse aspecto ameno e descompromissado, limitando o campo de ação da crônica, pois a sua ligação intrínseca com a realidade também faz dela um espaço rotineiro de reflexão, de tomada de consciência e, logo, de tensão.

Ao lado da função de divertir, a crônica possui outra, não menos importante, que é a de veicular a indignação e o protesto. Jamais deixando de ser uma distração, ela atende ao mesmo tempo ao desejo que o poeta-cronista tem de participar. No caso de Drummond, esse impulso nunca desaparece, nem mesmo após o desencanto com a política no final dos anos 1940, como comprovam as crônicas de Fala, amendoeira, contemporâneas de uma produção lírica marcada pelo ceticismo e avessa ao engajamento (“Os acontecimentos me entediam”, diz a epígrafe de Paul Valéry utilizada em Claro enigma). Se o poeta nem sempre se abre ao cotidiano (ao estoque de calamidades que compõe o primeiro caderno dos jornais), o cronista, que acolhe tudo, não deixará de se pronunciar sobre todas essas misérias. Dele o melhor simulacro é mesmo a árvore em que tantos se apoiam no difícil dia a dia: a amendoeira atravessada por fios e luzes, que se entrega à ventania, que não resiste à cidade, que não desiste de observá-la.

Longe de significar alienação, a loucura mansa do cronista não deixa de ser em si mesma um protesto contra a terra alucinada em que se torna uma virtude “cumprir sem violência o mandamento de existir”, conforme escreveu Drummond na mencionada introdução de Caminhos de João Brandão. A serenidade desse alter ego — e da amendoeira, e de Ovalle, e de Roquette-Pinto — opera como um contraponto crítico à violência dos bichos urbanos, à sua mania de edificar e destruir prédios, aos crimes hediondos do capitalismo e a tudo que compõe a “luta brava da cidade” (expressão do poema “Morte do leiteiro”, de A rosa do povo), que em última análise é o assunto principal das crônicas de Fala, amendoeira.

Observando entre as diversas peças uma unidade de tom, Rubem Braga disse que o livro “poderia ser uma novela ou pequeno romance de costumes”. Digamos que esse romance tem como cenário a cidade. Seus personagens são os homens da cidade, entre os quais se dissolve o poeta, a exemplo do personagem carnavalesco da crônica “Essência, existência”, indivíduo com “milhares de olhos, ouvidos, bocas”. E seu tema é o fenômeno desde sempre inerente à cidade e à acumulação do capital: a destruição.

O Rio de Janeiro dos anos 1940 e 1950 é uma cidade em obras, entre tapumes, cujas ruas são percorridas por elementos suspeitos — os negociadores do surto imobiliário, de olho nas habitações humanas e propondo, com mil vantagens, “botar aquilo no chão”. Prédios aparecem o tempo inteiro, impedindo a vista do mar e da montanha. Arranha-céus, cinemas, estacionamentos, tudo vai botando abaixo as antigas livrarias, os teatros que abrigavam grêmios literários, os sobrados de 1800, os móveis da era vitoriana — inventário de coisas caducas que o cronista resolve salvar do esquecimento.

Gênero moderno por excelência — uma planta da cidade —, a crônica não celebra a modernização. É o que se pode notar no mestre desse gênero no Brasil, Rubem Braga, também ele obcecado pelas imagens do passado rural, vagando solitário pela cidade, “sem encontrar a casa em que se ajuste definitivamente, apenas iluminado por instantes passageiros de revelação”, como observou o crítico Davi Arrigucci Jr. Quanto ao nosso fazendeiro do ar, é bem conhecido esse descompasso com a metrópole — vista como ambiente de tumulto, reificação e devastação —, o qual fez dele, na expressão de Lauro Escorel, “o mais moderno dos nossos poetas”. O cronista se mistura com a cidade, mas não deixa de criticá-la de um ponto de vista rural e tradicional, que encontraria ótima síntese no título Cadeira de balanço, de 1966. Conforme explica o poeta, esse “móvel da tradição brasileira não fica mal em apartamento moderno”. É nele que toma assento o autor com o intuito de realizar a “contemplação serena da vida”, em oposição ao ritmo acelerado das demolições e edificações urbanas.

O instinto de destruição talvez seja comum à espécie, segundo especula o cronista ao observar o hábito que tinha seu neto de desmontar brinquedos. Mas ele define, acima de tudo, a espécie capitalista. Em contextos de modernização, com a cidade ensaiando continuamente novos hábitos, não só casas, como ruas inteiras vão desaparecendo sob a ação das picaretas. No lugar do que foi demolido, erguem-se novas habitações, que um dia também deixarão de existir.

Para engrossar esse cortejo de ruínas e comprovar a fragilidade das construções humanas, em Fala, amendoeira entram igualmente em ação o acaso, a natureza e os animais. Na crônica “Ventania”, são atacadas casas, igrejas, lonas de circo e, sobretudo, os “edifícios em formação”, abalando nossa confiança na técnica e nos materiais de construção. A natureza rói os bens humanos, assim como os ratos perseguidos e, afinal, deixados em paz por João Brandão em “Conto carioca”. Já em “Uma corda”, o incêndio que devora o prédio também revela “a extensão de nossas misérias urbanas”, a inexistência de proteção para a vida humana.

As histórias mais pungentes surgem na seção final do livro, intitulada “Situações”. Na crônica “Nascer”, um servente de pedreiro e sua mulher perdem o tão sonhado bebê por falta de transporte e atendimento. Em “Morte na obra”, outro pedreiro, Sebastião Raimundo, tem sua vida sacrificada por acidente. Assim como a tragédia do leiteiro de A rosa do povo, essa também provoca simpatia e terror, mas logo é esquecida — “uma notícia de morte, que se perdia entre as solicitações da manhã”. A obra não podia ficar suspensa por conta de uma morte qualquer. A morte da elefantinha de “Elegia de Baby” também passa despercebida, embora ela tenha caído sobre a linha férrea, paralisando o tráfego. Para o cronista, porém, o “risco no ar” e o silêncio final desses corpos anônimos, esmagados pela engrenagem capitalista, ecoam de modo profundo, como se fossem um grito de resistência.

Sim, é preciso reagir como o personagem da crônica “Cor-de-rosa”, que pinta alegremente sua casa, “em vez de negociar-lhe a demolição”. O mesmo fazem os herdeiros das livrarias Briguiet e José Olympio. Sobre esta última, observa o cronista que, apesar de desmanchada, “a Casa continua”, assim como se salvam do abismo os velhos livros de poesia ou a remota peça publicitária recuperada na crônica “Anúncio de João Alves”, que “continua um modelo no gênero”. De modo semelhante, ao retratar sua mulher, Eliseu Visconti, também homenageado por Drummond, conseguia salvá-la da dissolução. Algo que, afinal, todos fazemos, como lembra a crônica “Os mortos”, ao preservarmos em nós a vida de nossos entes queridos. Pois é possível “guardar dentro de nós aquilo que perdemos no espaço”, conforme diz o autor em “O chamado” — ou recompor “cá dentro” as coisas “destruídas lá fora”, segundo os termos da crônica “Arpoador”.

Dar permanência a coisas e seres queridos — transformá-los em algo parecido com o “principezinho” que sobreviveu à ruína do Império Inca, dormindo um sono eterno que a picareta dos homens não pudera perturbar — é uma espécie de sonho secreto do cronista. Paradoxalmente, sua ligação umbilical com o tempo lhe dá uma aguda consciência da efemeridade de tudo, do tamanho acanhado de nossa vida menor e da tendência de todas as coisas para a dissolução, contemplada por fim sem melancolia. Se faz parte de uma dinâmica abominável (o processo devastador da modernização), a destruição também corresponde ao movimento natural das coisas. Numa crônica de Cadeira de balanço, ao considerar o desaparecimento de uma antiga casa, o cronista dirá que a demolição é “um resgate de formas cansadas, sentença de liberdade” — compreensão a que somos levados, segundo ele, “pelo trabalho similar, mais surdo, que se vai desenvolvendo em nós”.

Aceitar com serenidade o fim das coisas é a lição dada ao cronista pelas folhas amarelas da amendoeira que se despe graciosamente diante de seus olhos. E o que fazer se a própria natureza, explodindo de amor e formosura, insiste em abalar os alicerces e trincar as paredes da casa, como ocorre na crônica “Buganvílias”? O melhor é não fazer nada. Não importa que tudo venha abaixo, pois só em nós, “frágil arquivo”, é que as coisas podem ter ilusão de permanência, ao menos enquanto não desaparecemos. A ruína é terrível, mas também necessária e, às vezes, até poética, como a destruição da casa pela árvore — e a da árvore pelo outono.