Filosofia, política e cosmologia: ensaios sobre o renascimento

Fabrina Magalhães Pinto · Capítulo 1 de 14

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Filosofia, política e cosmologia: ensaios sobre o renascimento

Apresentação

 

Significados de Renascimento

 

Duas obras primas podem representar magistralmente o Renascimento: O Nascimento de Vênus de Sandro Boticelli, hoje na Galeria degli Uffizi, em Florença, e A escola de Atenas de Rafael, no Vaticano.

No Nascimento de Vênus, com a imagem da deusa surgindo das águas do mar de Chipre, temos a ideia de nascimento e, ao mesmo tempo, de renascimento no século XV dessa temática clássica. O quadro é de cerca de 1480, uma recriação da Afrodite anadyomene inspirada num modelo perdido do grande pintor grego Apeles. Boticelli recria essa imagem tendo também como referência a escultura da Vênus de Médici, que certamente conhecia e que se encontra na mesma pose. Na verdade, foi o famoso Vasari que atribuiu esse título à obra de Boticelli e que a vincula a uma encomenda dos Médici. O simbolismo, contudo, parece evidente: a imagem da divindade nascendo e a evocação dessas obras da Antiguidade trazem exatamente um retorno aos padrões e temáticas da cultura clássica grega como inspiração para a arte e o pensamento desse período. Se nos perguntarmos, portanto, o que exatamente “renasce” no Renascimento, podemos ver no Nascimento de Vênus uma síntese dessas ideias. O quadro é também associado à temática neoplatônica da beleza como símbolo do espírito e da nudez como representação da pureza, o que permite aproximá-lo, apesar da cena pagã, de uma temática neoplatônica cristã muito em voga na Florença desse período.

Figura 1 1 – Sandro Boticelli. O nascimento da Vênus.

 

A Escola de Atenas é um afresco de Rafael, um pouco posterior, cerca de 1509, que serve de decoração à Stanza della Segnatura, um salão no palácio do Vaticano onde os papas assinavam seus decretos. Temos aí uma representação dos principais pensadores da Antiguidade clássica, dispostos em grupos e em poses que revelam suas atitudes e suas afinidades intelectuais.

Figura 2 2 – Rafael Sanzio. A Escola de Atenas.

 

O afresco foi feito por encomenda do papa Júlio II, e embora esteja no coração da Igreja, o palácio do Vaticano, contém

essencialmente figuras pagãs3. Isso é significativo da secularização da própria Igreja nesse período e da importância do pensamento clássico como inspiração e mesmo padrão para o pensamento da época. Representa também não só a diversidade de pensadores, mas a controvérsia entre os filósofos simbolizada pela oposição entre Platão, que aponta para o alto e segura em sua mão esquerda o Timeu, um diálogo sobre o Cosmo; e por outro lado, Aristóteles, crítico de seu mestre Platão, que aponta para o chão e segura a Ética, representando com isso o interesse prático. A Escola de Atenas mostra como os filósofos, cientistas e artistas da Antiguidade se tornaram as grandes referências do Renascimento.

Em seu último livro, que alguns consideram uma espécie de “testamento intelectual”, o grande medievalista francês Jacques Le Goff se pergunta se faz sentido estabelecermos períodos para a

história do pensamento e que critérios teríamos para isso4. Le Goff defende a tese polêmica de que a Idade Média e o Renascimento formam um único período, o que certamente me parece uma tese provocadora, mas em última análise, pouco convincente.

Grande parte dos períodos históricos foi estabelecida por filósofos e historiadores, o melhor exemplo, e talvez o mais influente, é a periodização feita por Hegel. No entanto, nem sempre isso ocorre. Podemos considerar que o Renascimento é um dos poucos

períodos que recebeu essa caracterização já em sua época5. Foi Giorgio Vasari em seu Vida dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos (1550) que supostamente primeiro emprega o termo

rinascità6. Mas a importância da retomada dos clássicos já o precede em praticamente dois séculos com Francesco Petrarca tomando Cícero como modelo e mesmo Dante, que vê em Virgílio o seu guia, passando por Leonardo Bruni, chanceler da república florentina e defensor dos studia humanitatis. Leonardo Bruni em sua História do Povo Florentino (publicada postumamente em 1442) formula uma divisão da história em três períodos e anuncia o início de um novo tempo, influenciando fortemente os autores da época. Há assim boas razões para pensarmos o Renascimento como o período entre o final do século XIV e meados do século XVI, mesmo que não haja, nem seja necessário haver, precisão sobre essas datas.

Le Goff não faz uma distinção que me parece fundamental a respeito da periodização da história, da história da filosofia e da história das ideias, que, aliás, nem sempre coincide. Trata-se da diferença entre periodizações, enquanto propostas teóricas ou mesmo metodológicas que podem ter uma utilidade analítica, e períodos que se definiram como tais, ou melhor, que se autodenominaram, vendo assim a necessidade de demarcar uma identidade própria. Esse nos parece ser o caso exatamente do Renascimento. Não apenas o resultado de uma periodização estabelecida por historiadores, mas um modo através do qual muitos pensadores desse período, de Leonardo Bruni a Giorgio

Vasari, procuraram entender a sua própria época7.

O Renascimento foi sobretudo um período de grande eclosão do pensamento e da criatividade humanas, desde a ciência e as várias artes – pintura, arquitetura, escultura – até a filosofia, a poesia, o pensamento político e o jurídico. Foi também um período de grande transformação na sociedade com o surgimento de novos modelos de organização política e econômica que trouxeram grande dinamismo a algumas regiões da Europa e que inclui as navegações no Novo Mundo, que tiveram além do genovês Cristóvão Colombo, o florentino Américo Vespúcio como um de seus protagonistas.

O interesse pelo Renascimento entrou até certo ponto em declínio no século XVIII com o Iluminismo e no início do XIX com o Romantismo, mas foi retomado posteriormente sobretudo por influência de três grandes obras: a Histoire de France, de Jules Michelet, publicada em 1855, que destaca a importância do renascimento e introduz esse termo em sua acepção moderna; o célebre estudo de Jakob Burckhardt, A civilização do Renascimento na Itália (1860), até hoje uma das principais referências sobre Renascimento; e a do inglês Walter Pater, Estudos sobre a História do Renascimento (1873), de grande influência na estética em sua

época 8.

Nem sempre na Filosofia e mesmo na História das Ideias o Renascimento vem recebendo o devido destaque. Por exemplo, a grande História da Filosofia em 8 volumes organizada por François

Chatêlet9 não inclui nenhuma referência específica ao Renascimento. Por outro lado, mais recentemente, a History of Western Philosophy inclui um volume (número 3) sobre a

Renaissance Philosophy 10 , na verdade o mais extenso da coleção.

O historiador das ideias alemão, radicado nos Estados Unidos, Paul Oskar Kristeller foi um dos principais responsáveis pela retomada do interesse pelo Renascimento e pela importância das características desse período, as quais embora relacionadas ao Pensamento

Medieval e ao Moderno não são redutíveis a nenhum dos dois11. É

claro que historiadores e filósofos italianos como Eugenio Garin 12 e

Paolo Rossi 13 tiveram uma contribuição importante aos estudos sobre Renascimento, mas é relevante notar que este interesse tem se ampliado bastante nas últimas décadas.

O Renascimento é um período multifacetado que produziu obras inovadoras nos campos mais diversos desde o Corpus Hermeticum até O Príncipe de Maquiavel, desde a Capela Sistina de Michelangelo até as máquinas bélicas de Leonardo Da Vinci. No presente livro Filosofia, Política e Cosmologia: Ensaios sobre o Renascimento, organizado por Fabrina Magalhães Pinto e Flávia Benevenuto, e incluindo textos de alguns dos mais importantes especialistas na área no Brasil e no exterior, temos uma significativa contribuição para o estudo do Renascimento precisamente em algumas dessas múltiplas facetas.

Essas contribuições, que refletem as pesquisas realizadas por seus autores, assim como os debates que vêm desenvolvendo regularmente, se concentram em três grandes linhas que se interpenetram: a política e a ética; a linguagem; e a cosmologia. Sergio Cardoso contribui com uma reflexão indispensável sobre a concepção de “civilização” no Renascimento, seu sentido próprio, e o modo como os pensadores desse período trouxeram essa questão para o primeiro plano, em um processo de busca de autoentendimento, a que me referi acima. Newton Bignotto, Flávia Benevenuto, Helton Adverse, Luís Falcão e Carlo Gabriel Pancera apresentam estudos sobre Maquiavel em diferentes perspectivas: evidenciando a riqueza, a complexidade e a influência de quem foi certamente um dos maiores pensadores desse período. Maria Cristina Theobaldo mostra a importância de um dos autores mais característicos do Renascimento, e ao mesmo tempo extremamente original, Michel de Montaigne. Fabrina Magalhães Pinto explora um tema essencial da política, mas também da experiência humana nesse período, o projeto político das cidades, através de Leonardo Bruni, que não só contribuiu diretamente para essa reflexão, como exerceu por longo tempo e de forma bem-sucedida a difícil função de chanceler da república florentina. Jonathan Molinari destaca a relevância da contribuição de Pico dela Mirandola e de Leon Batista Alberti, autores relativamente pouco explorados. Luiz Carlos Bombassaro e Pietro Omodeu discutem a obra de Giordano Bruno, um dos mais originais pensadores desse período. Annarita Angelini trabalha o sentido de humanismo em Rabelais e seu uso inovador da linguagem.

Têm sido raras as oportunidades entre nós de contarmos com um conjunto de estudos de grande valor acadêmico que nos convidam e nos provocam à, cada vez mais indispensável, discussão sobre, para retomarmos o conceito de Sergio Cardoso, a “civilização do Renascimento”.

Danilo Marcondes

Departamento de Filosofia – PUC- Rio

Departamento de Filosofia – UFF