Filosofia, política e cosmologia: ensaios sobre o renascimento
Introdução
O desejo de organizar um dossiê especial sobre a Renascença surgiu das várias parcerias e encontros entre Flávia Benevenuto, Professora de Filosofia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e pesquisadora das obras maquiavelianas, e Fabrina Magalhães Pinto, Professora de História da Universidade Federal Fluminense (UFF\PUCG) e pesquisadora de alguns temas da filosofia da Renascença, sobretudo os de Erasmo de Rotterdam e Leonardo Bruni. Já há alguns anos fazemos parte do GT de Ética e Filosofia Política no Renascimento da ANPOF e, em 2014, trabalhamos juntas na organização do SIMPOFI (Simpósio de Política e Filosofia, realizado na UFF\Campos). Deste evento que contou com a presença de pesquisadores e amigos como Antônio Edmilson M. Rodrigues, Sergio Cardoso, Helton Adverse, Cleber Andrade e Victor Leandro C. Gomes, além, é claro, dos muitos participantes dos nossos cinco simpósios temáticos, surgiu a ideia de organizarmos um trabalho que reunisse diversos pesquisadores que tivessem um interesse comum: buscar compreender a riqueza e a complexidade que envolve o tema da cultura do Renascimento em algumas das suas diversas faces: política, filosófica, retórica, histórica ou literária; bem como as relações entre inícios da Modernidade e a Antiguidade Clássica.
Sabemos que vem crescendo no Brasil o número de revistas sobre as diversas temáticas Renascentistas. Contudo, se comparamos com outros objetos de pesquisa, ainda temos um longo caminho a percorrer e muitos novos pesquisadores a persuadir que sigam esta mesma estrada. É por esta razão que ressaltamos aqui não as ausências dos trabalhos sobre este período, mas os esforços mais recentes no tratamento e divulgação de novos estudos. Talvez o que nos falte seja colocá-los em perspectiva, posto que são espaços importantes e trabalhos ainda pouco conhecidos até mesmo pelos pesquisadores da área. Então, passemos brevemente a alguns deles.
Entre as publicações atuais que tratam das temáticas renascentistas, gostaríamos de destacar pelo menos cinco ações importantes nesse sentido, seja na divulgação dos objetos, seja na reunião de pesquisadores de linhas distintas, tendo, na interdisplinariedade um ponto comum entre elas. A Revista Morus –
Utopia e Renascimento14, sempre preocupada com os estudos utópicos e suas relações com a Reforma e Contrarreforma, com o impacto da descoberta do Novo Mundo, e com a elaboração das cidades ideais e modos de representação utópicos, tratou, em seu décimo volume (2015), da Utopia italiana: particularidades, problemas, possibilidades. Este dossiê que reúne especialistas brasileiros e italianos sobre as temáticas utópicas, localizadas entre o Renascimento e inícios do século XIX, foi organizado por Claudio De Boni, Gianluca Bonaiuti, Silvia Rodeschini, Carlos Berriel, Ana Cláudia Romano Ribeiro e Helvio Moraes, numa parceria entre a revista Morus – Utopia e Renascimento e a Università degli Studi di Firenze. Este é talvez um dos poucos periódicos em nosso país que mantenha uma continuidade de dez anos ininterruptos de sua atenção às demandas da área.
Outra importante publicação é o volume 27, sobre a Filosofia do
Renascimento 15 , da Revista O que nos faz pensar. Organizado pelos professores Danilo Marcondes (UFF e PUC-Rio) e Fabrina Magalhães Pinto, e publicado em 2010, reunimos pesquisadores da PUC-RJ, UFMT, UFMG, UFRJ, UNIOESTE, UNIFESP, USP e Universidade Autónoma de Lisboa, das áreas de filosofia e história. Foi diverso também o tratamento dos objetos: partiu-se do “humanismo cívico” e jurídico em inícios do Renascimento, passando por Pico dela Mirandola, Alberti, Maquiavel e Guicciardini, e chegando até as análises das imagens de Santa Cruz, Erasmo e Michel de Montaigne, sendo este um excelente compêndio de textos e autores sobre o período.
O terceiro número da 16 Revista Limiar, editado em 2014 e organizado pelos pesquisadores Cristiane Maria Rebello Nascimento, Patrícia Aranovich e Sergio Xavier G. de Araújo, compõe um excelente retrato das práticas artísticas e intelectuais do Renascimento. Propondo uma interpretação complexiva de autores paradigmáticos do renascimento – como Petrarca, Alberti, Michelangelo e Montaigne –, os artigos que integram o presente número exploram as diversas ligações entre disciplinas tão diversas quanto a filosofia, a literatura, a retórica, a arte e as ciências naturais.
Outro volume mais recente, e também interdisciplinar, foi o Dossiê Renascimento Italiano, organizado por nós, e publicado on-line
pela 17 Revista Crítica Histórica, em 2015. Os textos compilados também tratam de temáticas diversas e são de áreas distintas, fato este que almejamos desde o início: uma perspectiva interdisciplinar das análises. Portanto, contamos com pesquisadores da filosofia, das letras e da história. As temáticas desta edição versam sobre Lorenzo Valla, Maquiavel, Michel de Montaigne, Francesco Patrizzi (Veneza, 1560), Algernon Sidney – quem recupera os valores maquiavelianos no republicanismo inglês do século XVII –, e, logo em seguida, passamos aos textos sobre os impactos do Novo Mundo na sociedade europeia e a transposição da noção de cidade ideal na elaboração da cidade do Rio de Janeiro.
Por fim, destacamos o dossiê Renascimento e Renascimentos,
acolhido pela 18 Revista Diálogos Mediterrânicos, em 2015, o qual se constitui de estudos de caso sobre temas históricos e histórico-artísticos, iniciando-se nas igrejas de Pisa, e alcançando a discussão sobre as transferências culturais em direção ao mundo ibérico e sua diáspora, bem como a constituição do gênero literário renascentista na América Hispânica entre os séculos XV e XVII.
A edição da presente obra caminha nesse sentido e visa a contribuir para que os estudos renascentistas se firmem como um campo de relevância, marcado pela interdisplinaridade. Para tanto, além da participação de vários especialistas, nacionais e estrangeiros, de distintas áreas, contamos ainda com a participação e incentivo do professor e amigo Danilo Marcondes, autor da apresentação deste volume, e também com a preciosa e atenta revisão gramatical da pesquisadora sobre Maquiavel, Christiane
Cardoso Ferreira 19.
Para concluir nossa apresentação não poderíamos deixar de mencionar alguns livros de grande relevância dedicados às temáticas Renascentistas, de autores brasileiros como Newton Bignotto, Sergio Cardoso, Alberto de Barros, Helton Adverse, Gabriel Pancera, Flávia Benevenuto, Luís Falcão, Felipe Charbel, Patrícia Aranovich, Carlos Antônio Leite Brandão, entre tantos outros. Destacamos aqui também as excelentes traduções da obra de Giordano Bruno e sua pontual análise, realizada por Luiz Carlos Bombassaro, e publicada pela EDUCS. Enfim, este é um quadro bastante breve de algumas produções mais recentes para que sempre lembremos que o Renascimento faz, sim, parte dos interesses de uma gama singular de pesquisadores em nosso país; não no intuito de trazer respostas àqueles que se interessam pela filosofia e cultura da Renascença, mas com o objetivo de colocar uma vez mais em discussão uma época tão paradigmática, sem perder de vista um dos elementos centrais de sua conformação: o tema humanista da varietas, de estilos, abordagens e novas perspectivas.
Fabrina Magalhães Pinto
Flávia Benevenuto
Agosto de 2016.