Filosofia, política e cosmologia: ensaios sobre o renascimento

Fabrina Magalhães Pinto · Capítulo 5 de 14

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Filosofia, política e cosmologia: ensaios sobre o renascimento

A cidade ideal no Quattrocento: uma análise da Laudatio Florentinae Urbis, de Leonardo Bruni

Fabrina Magalhães Pinto

 

Possui Mestrado em História Social da Cultura pela PUC-Rio (2001),

doutorado em História pela mesma instituição (2006), pós-doutorado pelo

departamento de Filosofia da PUC-Rio (2010), e pós-doutorado sob a

orientação do professor Dr. Newton Bignotto, pelo Departamento de Filosofia

da UFMG (2016). É professora adjunta do Departamento de História da UFF-

PUCG e pesquisa atualmente as origens do republicanismo no

Renascimento Italiano, especialmente nos textos do humanista e chanceler

da república florentina Leonardo Bruni (1370-1444). É autora de diversos

artigos sobre a Renascença e organizou dois volumes sobre o período: o

primeiro sobre a Filosofia do Renascimento, com o professor Danilo

Marcondes, e hospedado na Revista O que nos faz pensar (Cadernos do

Departamento de Filosofia da PUC-Rio, n. 27, maio 2010). E o segundo, o

Dossiê temático Renascimento Italiano, publicado pela Revista Crítica

Histórica, em 2015, e organizado conjuntamente com a professora Flávia

Benevenuto.

A cidade ideal no quattrocento:

 

uma análise da Laudatio

 

florentinae urbis, de Leonardo

 

Bruni

 

Fabrina Magalhães Pinto1

 

O tema da cidade ideal é um objeto recorrente nos escritos

filosóficos desde a Antiguidade 2, mas recebe uma particular evidência no Renascimento, no momento particular em que o desenvolvimento econômico e político de várias cidades italianas promove a redescoberta dos ideais clássicos, e quando a cidade retoma um papel central nas atividades humanas. Autores como

Hans Baron (1966), Quentin Skinner3 (1996), Eugenio Garin (1993), Pocock (1982), entre tantos outros (e com diferentes argumentos), defendem a tese de que a organização das cidades em repúblicas e a afirmação da sua liberdade frente ao controle do Sacro Império Romano-Germânico, teria possibilitado o crescimento de uma nova forma de estado na península onde ideais como a liberdade, autogoverno e participação cívica seriam defendidos, seja contra o Império, seja também contra o papado. As cidades-repúblicas se tornaram em muitas cidades italianas (tais como Pisa, Milão, Arezzo, Luca, Bolonha e Siena), a forma dominante de organização política no século XII e em começos do século XIII, com uma população urbana relativamente numerosa e um alto grau de autonomia urbana. Nesse sentido, esta nova organização política teria influenciado o crescimento não só econômico ou a formação de grupos sociais favorecidos pela liberdade comercial, mas também teria propiciado um avanço cultural significativo nestas cidades. Seria, portanto, difícil entender os desenvolvimentos culturais e sociais dos séculos XV e XVI sem nos referirmos a este período e à sua história política (MARTINES, 1974; LARNER, 1980).

Assim, quando observamos o crescimento destas cidades, a construção de tantos templos e edifícios públicos, as novas preocupações com urbanização e a higiene, e, sobretudo, a elaboração de um novo modelo arquitetônico, é perfeitamente aceitável a conexão entre esse contexto de expansão e o retorno das elaborações acerca das cidades ideais, sejam elas na arquitetura, arte e filosofia.

Como ressalta Eugenio Garin (1963, p. 17), o projeto da construção de uma cidade ideal em Florença já existia pelo menos desde o século XIII: com a expansão da catedral de Santa Maria del

Fiore e a cúpula do Duomo, o Batistério 4 e o Campanário de Giotto, o Hospital dos Inocentes, o Palazzo Vecchio (inaugurado em 1299), bem como várias outras construções públicas que já indicariam a construção de uma cidade ideal, e uma cidade livre. Segundo o autor, “não é difícil encontrar nos textos florentinos de fins do século XIV ou do início do XV, um paralelo entre a res publica e seus edifícios” (Ibidem). Mais do que símbolos, eles se tornam expressões tangíveis da força e riqueza da cidade. Em 1293, durante a vigência da república florentina, o notário Mino de Cantoribus sugeriu a substituição de Santa Reparata por uma catedral ainda maior e mais magnificente, de tal forma que a indústria e o poder do homem não pudessem inventar ou mesmo tentar nada maior ou mais belo. Quando Arnolfo di Cambio, arquiteto da catedral, foi encarregado do projeto, em 1294, recebeu o pedido de realizar a maior e mais bela igreja nunca antes construída. E assim ele o fez: com 153 metros de comprimento, 90 metros de largura em seu ponto mais amplo, e 86,7 metros de altura. Previu ainda a construção de uma grande cúpula que se tornaria o novo símbolo de Florença; de extensão tão grandiosa (41 metros) que a solução para a sua cobertura só viria um século mais tarde, em 1418, com Filippo Brunelleschi.

Figura 1 – Baldassarre Lanci. Scena prospettica con edifici

fiorentini. Firenze: Uffizi, Gabinetto dei Disegni e delle Stampe,

1569.5

 

A Florença de Brunelleschi é uma tentativa, não a única neste período, de reequilibrar o núcleo medieval da cidade mediante o enxerto de edifícios representativos, seja no plano funcional, seja no estético. No entorno à emblemática Cúpula de Santa Maria del Fiore se dispõem o complexo de São Lourenço, o pórtico dos Inocentes com a nova Via dei Servi, a Rotunda dos Anjos, de Brunelleschi, a renovada Santa Maria Novella, Orsanmichele com o seu novo aparato de estátuas, o palácio Rucellai, Medici, Strozzi e, do outro lado do Arno, a igreja de Santo Espírito. Certamente, não foi por acaso que Brunelleschi e Alberti teorizaram utopias urbanísticas.

Figura 2 – Vista da cidade ideal atribuída a Francesco di Giorgio

Martini6.

 

Questiona Carlos Antônio Brandão (2006, p. 67), “de onde a arquitetura renascentista retira a sua excelência? Que fundamentos e que visão de mundo, do homem e de Deus são expressos em seus edifícios?” Sem dúvida não aprofundaremos a discussão sobre a arché renascentista e sua utilização do repertório clássico, a ênfase acentuada na centralização especial, o uso da geometria, da simetria e homogeneidade (como vemos nos projetos de Martini e Brunelleschi), mas destacaremos aqui um ponto que para a nossa análise é essencial: tal harmonia da criação humana era o eco visível de uma harmonia celestial, universalmente válida. Criador e criatura podem ser símiles em diversos aspectos e o uso da racionalidade sem dúvida os aproximaria. Desta forma, a reelaboração das cidades apontaria para a afirmação da racionalidade e do homem diante do mundo. Enquanto a cidade gótica aparecia como ideal na medida em que despertava em seu ambiente um sentimento de interioridade, a cidade renascentista o é na “medida em que concretiza um ideal estético-formal geométrico, pré-definido no projeto” do arquiteto (BRANDÃO, 2006, p. 77). Racionalizar o universo era, antes de mais nada, expressão do poder da razão humana e crença na possibilidade de construir um mundo humano ideal.

A hipótese que desenvolvemos aqui é que, na medida em que avançava a república, avançava também o desejo pela criação de um modelo urbanístico e arquitetônico para a cidade, capaz de suplantar todas as demais rivais não apenas em opulência e magnificência, mas também em perfeição e racionalidade. Estariam associados diretamente, portanto, ambições políticas, republicanas e expansionistas com a constituição de uma imagem ideal de cidade: onde imperaria a justiça, a racionalidade e a liberdade. E tal modelo tão elevado só poderia ser pensando e construído em uma república como a florentina, herdeira de Roma e dos princípios de virtude dos antigos. Assim, se olharmos com atenção, podemos citar

o 7 Elogio da cidade de Florença ( Laudatio Florentinae urbis), escrito pelo humanista Leonardo Bruni, como parte dos primeiros escritos sobre as cidades ideais; e adiantaríamos pelo menos meio século nas datações feitas pelos analistas mais tradicionais.

Algumas das principais obras que trataram das cidades ideais são escritas pós meados do século XV: como o L’architetura (De Re Aedificatoria), de Leon Battista Alberti, publicado em 1486, o Trattato di Architettura, de Filarete, (escrito entre 1461 e 1464), e o Codex Atlanticus, de Leonardo (escrito entre 1478-1519). É suficiente lembrar a representação de Leonardo da Vinci sobre a cidade de Milão. Em seu Codex Atlanticus, aconselha Ludovico, o Mouro, a embelezar a cidade: preocupando-se com a higiene, o armanezamento de água, a distribuição da população e a criação de bairros mais organizados. Deste modo, concordamos com Eugênio Garin (1963, p. 15) quando afirma que o esboço de Leonardo, longe de representar um plano puramente imaginário, está ligado já às aspirações reais das cidades-estado italianas, e ao desejo de que Milão se tornasse também um modelo urbanístico na Itália. As cidades ideais vinculam-se a um projeto de reformas das cidades

reais. Seu espaço construtivo não é equidistante da cidade real. 8 Já as teorizações sobre as cidades utópicas – como a Utopia, de Thomas Morus, por exemplo – são ainda posteriores, e tratam da construção racional de um não lugar, ou de um lugar no futuro.

Para fins de distinções conceituais utilizaremos essa classificação das cidades ideais relacionando-as às cidades já existentes. Contudo, tanto as cidades ideais quanto as utópicas são projetos, transbordam os limites do real e, por isso, são passíveis de serem descritas de forma ficcional, mas sem se contrapor em termos lógicos a nenhum dos aspectos reais da cidade, apenas os colocando em maior evidência e modificando seus usos, adaptando-os à crítica da situação real (RODRIGUES, 2000, p. 136).

Para além das obras escritas de Alberti, Filarete e Leonardo, podemos observar a preocupação com as representações da cidade também na arte, pois, temos já, desde o século XIV, diversas imagens sobre as vilas ideais. Basta olharmos para algumas representações da cidade por Simone Martini (A vitória do condottieri Giudoriccio da Fogliano, de 1328); Piero dela Francesca (Perspectiva da cidade ideal, de 1470); Perugino (A entrega das chaves a São Pedro, de 1482); Botticelli (O Suicídio de Lucrécia, de 1498); Vittore Carpaccio (São Jorge em luta contra o dragão, realizada entre 1502 e 1507), entre tantas outras.

Neste artigo trataremos do Elogio da cidade de Florença, escrito

provavelmente em 1404 9, e o consideraremos um dos precursores entre os humanistas na retomada e reelaboração da discussão acerca das cidades ideais em inícios do Quattrocento. Resolver o problema de certos conglomerados populares, distribuí-los de forma mais racional e cuidar de aspectos gerais como a higiene pública, contenção das epidemias e das desordens populares, bem como a defesa contra os ataques externos, a construção de obras públicas imponentes que representassem a força da república tornou-se, desde esse momento uma constante na criação do imaginário das cidades ideais. A cidade deveria se transformar na medida exata em que os homens avançassem politicamente. E, nesse sentido, Florença buscou harmonizar os avanços políticos com as preocupações urbanísticas. Homens tão valorosos – protetores da república contra os mais cruéis adversários, e legítimos defensores da liberdade não apenas da cidade, mas de toda a península – deveriam habitar a mais plena das cidades. Diz Leonardo Bruni:

 

Assim como vemos muitos filhos terem tanta semelhança com seus pais a

ponto de a filiação se reconhecer de modo claríssimo no próprio rosto,

também esta nobilíssima e celebrada cidade está em tal harmonia com seus

cidadãos que parece, por uma razão altíssima, não terem podido habitar em

nenhuma outra cidade nem esta cidade ter podido ter quaisquer outros

cidadãos. Isso, pois, esses mesmos cidadãos são melhores que os outros

homens todos em gênio, prudência, elegância e magnificência, e assim

também a cidade, situada de modo prudentíssimo, supera todas as outras

em esplendor, arquitetura e asseio (BRUNI, Laudatio, 2008, 4).

 

Para o desenvolvimento do nosso argumento aqui, é importante destacar que os escritos humanistas reconhecem a forma ideal de organização política na cidade-estado, em oposição aberta aos grandes organismos do mundo antigo e medieval. Assim, através das lutas pela autonomia e liberdade republicana foi se estabelecendo, tanto na arte quanto nos textos do período, uma forma de propaganda das cidades como núcleos centrais de ideais de racionalidade, magnificência e dignidade humana.

Os homens que lutam contra a tirania de um só homem e postulam o governo de muitos criam modelos de cidades bem diferentes das cidades onde impera a monarquia. Essa legítima batalha está claramente delineada no texto de Bruni. Após essas breves considerações, podemos apontar o Elogio a Florença como um dos textos representativos dessa tradição: que associa política, retórica e idealização da cidade. Passemos ao tratamento desta obra.

 

1. A Laudatio florentinae urbis

 

Leonardo Bruni, historiador, humanista, filósofo e chanceler da república de Florença entre os anos de 1427 e 1444, publicou numerosos discursos em que a cidade republicana é louvada sistematicamente. A Laudatio (ou Elogio de Florença) é um dos seus primeiros textos e um instrumento para a exposição de suas convicções republicanas. Escrito pouco após a morte do duque Giangaleazzo Visconti, em 1402, e das ameaças que a tirania de

Milão representava à sobrevivência de Florença10, o texto apresenta um conjunto de argumentos retóricos em defesa das cidades republicanas e em oposição às investidas de seus inimigos vinculados ao Império. Neste momento, caminhava em paralelo o conflito pelas armas e o conflito ideológico, sendo, portanto, a eloquência, um instrumento claro para a persuasão política. Mas não precisamos seguir apenas por esse caminho: ou seja, considerar o texto de Bruni como um exercício retórico de incitação aos cidadãos florentinos à defesa do sistema republicano. Como dissemos antes, podemos olhar esse texto também por outro viés, analisando-o como um elogio, e com o objetivo de tornar Florença um modelo a ser seguido pelas outras cidades: seja em seu aspecto arquitetônico, artístico, político, social, e até mesmo um exemplo no cuidado com as questões relativas à salubridade.

Não é difícil encontrar entre os textos clássicos as inspirações e os modelos seguidos pelos homens políticos e arquitetos de inícios da Renascença para a constituição das cidades ideais. Segundo

Hans Baron11, uma das principais fontes de Bruni seria o autor

grego Elio Aristides12, com o seu Panatenaico (de meados do século II). De acordo com Laurent Pernot, o Panatenaico, um elogio da cidade de Atenas, que data da segunda metade do século II, teria sido admirado na Antiguidade e também pelos bizantinos no fim do período medieval (PERNOT, 1993, p. 323).

Mas, na época da redação da Laudatio, entre os anos de 1403 e 1404, teria tido o nosso autor contato com os textos gregos? Alguns historiadores – como E. Garin (1957, p. 156), por exemplo – atestam que Bruni foi aluno do sábio bizantino Manuel Crysoloras assim que este chegou à Florença (em 1397), tendo aprendido com ele a língua grega e traduzido textos de Platão, Aristóteles, Ésquilo, Homero, entre outros. O que gostaríamos de salientar é que independentemente do fato de Bruni omitir muitos pontos abordados por Aristides e, inversamente, introduzir novos topos que não estão presentes no modelo grego, o ponto mais importante é que o Panatenaico daria a Bruni a possibilidade de se instituir um paralelo entre Atenas e Florença; criando uma nova forma de argumentação, posto que o modelo retórico de louvor a uma cidade não era comum à cultura humanista.

Vale ressaltar ainda o caráter inovador da obra de Bruni, pois, ao contrário da primeira forma do pensamento republicano que utilizava, em particular, Salústio e Cícero, ele é o primeiro a usar como referência não tanto a Grécia antiga em geral, mas Atenas em particular, como afirma Pocock (1982, I, p. 212). E, diferentemente de outros textos do mesmo período, na Laudatio uma parte da discussão é dedicada à ilustração das características e dos mecanismos constitucionais da república florentina. Neste aspecto, podemos notar a influência do Panatenaico, de Aristides. O conhecimento do grego e dos textos gregos, com novos conteúdos históricos e culturais, forneceram aos primeiros humanistas novos instrumentos para se pensar o presente. No caso de Bruni se tratava de uma comparação (tímida, é verdade) entre Florença e Atenas, pois na Laudatio o humanista não diz estar imitando Aristides, nem que está fazendo uma comparação entre as duas cidades (CAMBIANO, 1998, p. 8). Contudo, a descrição, a ordem dos capítulos e o tratamento de algumas temáticas são bastante próximos daqueles presentes no Panatenaico.

 

Passemos agora às especificidades do texto:

 

O texto da Laudatio pode ser dividido basicamente em três partes: 1. Sítio e situação de Florença e de seu território (capítulos 4-29); 2. Origens do povo florentino (capítulos 30-47) e 3. Ações e virtùs de Florença (capítulos 48-91). Esta terceira parte, Bruni a divide em dois capítulos distintos, tratando inicialmente das ações e virtùs de Florença em tempos de guerra. Após tratar da política exterior de Florença, Bruni passa a analisar as suas instituições domésticas.

Logo após o exórdio, Bruni aborda como primeiro topos o sítio e a situação da cidade e de seu território se conformando ao modelo de Aristides. No orador grego a ordem da descrição é a seguinte: situação da Ática do ponto de vista do mar (Pan. 9-13), da terra (Pan. 13-16), do clima (Pan. 18-19), e a natureza do território do ponto de vista do relevo (Pan. 20-23). O que nos chama atenção aqui é que Aristides só trata do que concerne ao território da Ática e faz apenas uma alusão à cidade de Atenas (Pan. 16, 6-9).

O humanista, por sua vez, começa esta primeira parte tratando já

da cidade e não de seu território.13 Uma grande importância é dada à salubridade de Florença, bem como à sua beleza, graças aos seus monumentos e edifícios esplêndidos.

 

Não são poucas as cidades imundas que durante a noite produzem toda

sorte de dejeto que de manhã se expõe aos olhos e pés de todos pelas ruas,

coisa a mais fétida que se possa imaginar. […] Do mesmo modo que um

corpo disforme, ainda que tenhas muitas partes perfeitas, não pode haver

felicidade, também nas cidades, se forem imundas, ainda que lhes esteja

presente todo o resto, não pode haver de modo nenhum, beleza (BRUNI,

Laudatio, 2008, cap. 7).

[…] Florença, de fato, até onde podemos discernir é a tal ponto salubre e

limpa que não se pode encontrar nenhuma outra mais brilhante. Esta cidade

é única e, em todo o orbe terrestre, só nela nada ofende aos olhos, nada é

desagradável ao nariz, nem nada é imundo aos pés. Dada toda a diligência

suprema dos habitantes, assim como suas precauções e cuidados, todas as

imundícies são afastadas para longe, de modo que apenas se encontre pelo

caminho alegria e gozo dos sentidos (Idem, cap. 8).

 

Ao inverter, portanto, o plano de Aristides, Bruni tem a liberdade para tratar de questões modernas, relativas ao planejamento das cidades e às questões de higiene que emergem devido ao crescimento econômico da cidade e ao fortalecimento político das cidades-estado italianas. A cidade ideal para Bruni deve ter as condições necessárias para uma vivência harmônica do cidadão. Em relação às construções florentinas, diz o autor: “o que há em todo orbe terrestre mais esplêndido ou tão magnífico que possa comparar com seus edifícios. Envergonho-me das outras cidades

toda vez que me vem à mente tal comparação14” (BRUNI, 2008, cap. 10). Assim, pela magnificência das suas construções e templos sagrados, bem como por seu cuidado com a higiene e urbanização, ela ultrapassa todas as cidades atuais, não havendo nela “nada que choque o olhar, nenhum odor incômodo” e nada que seja repugnante aos visitantes (Idem, p. 211-213). Quanto à força da cidade, ela se revela por seu poderio militar e sua vitória sobre um inimigo extremamente perigoso. Mas por que Bruni faz essa inversão do plano de Aristides, tratando primeiro da cidade e só em seguida de seu território? Podemos suspeitar que Bruni põe o foco inicial naquilo que é mais importante para ele: a cidade de Florença – com seus homens, a bravura de seu exército, a beleza da sua arquitetura e a salubridade das suas ruas –, para só depois tratar dos temas que atribuía menos relevância: o clima, o relevo, o território, e a distância de Florença do mar – que a deixava protegida das inundações, das doenças e da insalubridade das zonas litorâneas (BRUNI, 2008, cap. 25, p. 233).

Como afirma Stauble (1976, p. 157-164), Bruni fez uma descrição idealizada da cidade sem levar muito em conta alguns aspectos que as fontes medievais considerariam mais relevantes: tais como, a situação da cidade, todas as suas construções, seus habitantes e seus diferentes grupos sociais, sua organização política, sua vida cotidiana. Uma tal diferença no tratamento dos temas é o sinal de uma diferença de projeto. E esta distância entre os projetos fica ainda mais clara quando passamos para a segunda parte da obra sobre a fundação da cidade de Florença.

Distanciando-se dos cronistas medievais, como Giovanni Villani15, que associavam a sua fundação ao período imperial de Roma, Bruni (assim como Salutati o fizera, em 1403, na sua Invectiva contra

Antonio Loschi16) marca a fundação da cidade ao período republicano de Roma.

 

E assim o foi: esta esplendíssima colônia romana foi estabelecida no exato

período em que o domínio do povo romano florescia grandemente e quando

poderosos reis e nações guerreiras estavam sendo conquistados pelos

exércitos de Roma e por sua virtude. Cartargo, Numância, Corinto se

puseram a seus pés. Todas as terras e mares reconheceram a regência de

seu povo. E esses mesmos romanos não sofreram nenhum mal advindo de

qualquer de seus inimigos. E ainda nenhum César ou Antônio ou Tibério ou

Nero, peste e ruína para a República, conseguiu acabar com a liberdade.

Ela, ao contrário, mantinha-se sacra e firme, quando logo depois da

fundação da colônia de Florença foi roubada pelos mais vis ladrões. Por

essa razão creio que algo foi verdade e é verdade para esta cidade mais que

para qualquer outra: os homens de Florença amam sobretudo a liberdade e

são grandes inimigos dos tiranos. Então acredito que desde sua fundação

até hoje Florença tenha desenvolvido um imenso ódio aos invasores do

Império Romano e aos destruidores da República Romana. Se qualquer

traço mesmo dos nomes dos corruptores de Roma sobreviveu até o

presente, eles são odiados e desdenhados em Florença. Não é novo aos

florentinos esse zelo político, nem começou, como alguns pensam, há pouco

tempo: tem sua origem em antigas disputas. Começou tempos atrás quando

homens nefastos cometeram o maior de todos os crimes: a destruição da

liberdade, do esplendor e da dignidade do povo romano. (BRUNI, cap. 34)

 

Tomando de empréstimo de Satulati a tese sobre a fundação de Florença, Bruni descarta a necessidade de embasá-la com exemplos históricos, como fizera o chanceler, baseando-se no depoimento dos textos antigos para refutar afirmações aceitas em seu tempo, examinando a etimologia do nome da cidade e buscando provas de reminiscências arquitetônicas na cidade do período republicano para provar o seu argumento; tais como a presença de um Campodolio, Foro, Circo, Templo de Marte, Termas, uma estátua equestre de Marte, aqueduto, entre outros exemplos (BIGNOTTO, 2000, p. 245). Partindo deste argumento inovador, Bruni o leva ainda mais longe e afirma que a fundação de Florença estaria associada ao período áureo de expansão romana, no século I, e que esta influência histórica seria de fundamental relevância na construção do caráter do povo florentino: desde sempre amante e defensor da liberdade e opositor àqueles que a destruíram, como César e todos os demais imperadores. Portanto, ao buscar esclarecer a origem da cidade, ele estabelece uma relação de causalidade entre o momento de criação – forjado na liberdade –, e o momento posterior da história da cidade – onde estes princípios da liberdade e soberania deveriam ser novamente defendidos para que a tirania (antes dos césares e agora do duque Gian Galeazzo) mais uma vez não seja vitoriosa. “Assim, a liberdade primitiva é uma garantia de que ela pode e deve ser retomada para que a cidade encontre a sua verdadeira identidade” (BIGNOTTO, 2001, p. 97). A liberdade romana foi roubada por homens nefastos, os destruidores da república romana.

 

Esses são os imperadores, os famosos césares, que não poucos reputam

como dignos de louvor! Que desgraças são essas! Que monstros de

homens! Por causa disso quem se surpreende que a cidade de Roma

tivesse tanto ódio contra esses partidos e o conservasse até os dias de hoje?

Ora, que indignação seria mais justa? A quem com mais força tocou essa

dor que ao povo de Florença? Seus ancestrais e fundadores, que apenas um

pouco antes tinham governado o mundo inteiro com grande habilidade,

repentinamente perderam sua própria liberdade nas mãos dos maiores

facínoras entre os homens, os quais, se a República tivesse sobrevivido,

seriam relegados à escória da sociedade. (BRUNI, 2008, cap. 37-38).

 

Cabe, portanto, ao povo florentino – herdeiro desta tradição – ser seu maior defensor. Reconhecer a estirpe romana e sua linhagem livre é condição fundamental para a defesa da liberdade e soberania

da cidade17. Estas tópicas não eram novidade neste momento e já vinham sendo desenvolvidas pelos dictatores medievais, sobretudo pelo jurista Bartolo de Saxoferato, como bem aponta Skinner (1996, cap. 1). No entanto, a associação entre a defesa da liberdade e a questão da fundação é o ponto de inflexão do texto bruniano (e

também da 18 Invectiva de Salutati), tendo em vista a associação da cidade com o seu passado republicando. A partir da fundação se tornaria possível conhecer a história de um povo. E conhecer a história o autorizaria imediatamente a agir contra a tirania, pois os ancestrais florentinos “que apenas um pouco antes tinham governado o mundo inteiro com grande habilidade, repentinamente perderam sua própria liberdade nas mãos dos maiores facínoras entre os homens” (BRUNI, Idem, cap. 38). Torna-se, portanto, dever de cada cidadão florentino, defender como no passado, sua soberania e autogoverno frente a toda e qualquer ameaça de destruição da república – como ocorrera a partir de 1390 com as investidas milanesas.

 

Isso, pois, a dignidade e grandeza dos ancestrais também iluminam seus

filhos, quando os filhos lutam pela sua virtude. E certamente se os

descendentes tivessem sido covardes ou dissolutos ou tivessem de algum

modo fugido à virtude, o esplendor dos ancestrais não teria escondido seus

vícios, mas os teria posto a descoberto (Idem, cap. 45).

 

Na terceira parte da obra de Bruni sobre as ações e virtùs de Florença encontramos o tema de que a liberdade só é possível com a salvaguarda da liberdade cívica, proporcionada pelo sistema republicano, ressaltando em vários momentos a importância da resistência contra seus inimigos e, sobretudo, contra a expansão milanesa.

 

Quem em toda a Itália poderia ser comparado àquele inimigo em poder e

diligência? Ou quem resistiria aos esforços daquele cujo mero nome era

motivo de terror para todos os mortais? Realmente não apenas a Itália, mas

os povos transalpinos também temiam sua fama. Ele estava, sim, muito bem

guarnecido de recursos, dinheiro e homens, mas bem mais de estratagemas

e astúcia. E ele tinha grande e formidável poder: toda a Gália cisalpina e

quase todas as cidades que, desde os Alpes até a Etrúria e a via Flaminia se

encontram entre dois mares, estavam sob seu poder e obedeciam a suas

ordens. Na Etruria ele tomou Pisa, Siena, Perúgia e Assis, por último ocupou

também Bolonha. Muitas fortalezas, muitos poderosos e nobres – seja por

temor, seja por esperança de rapinagem, seja por terem sido enganados –

seguiram seu nome e fortuna (BRUNI, 2008, cap. 70).

 

Antes de tudo, portanto, há de se cuidar para que a justiça prevaleça na cidade, pois sem justiça não pode haver cidade. E, em seguida que haja liberdade, “pois sem liberdade este povo nunca consideraria a pena viver” (BRUNI, 2008, cap. 77). O tema da cidade livre e justa – sendo estes dois aspectos complementares – é o esquema do Estado racional; no qual funções, magistraturas, poderes e grupos sociais são distintos, porém muito coordenados e organizados pela república. Para conter as injustiças tem-se magistrados muito bem instruídos; e para que eles não se considerem donos do poder e sejam levados à tirania, estipulou-se o prazo de permanência de apenas dois meses no cargo. “Além disso, a cidade foi dividida em quatro, de tal modo que nenhuma seção ficasse privada de representação (BRUNI, 2008, cap. 79). Sobre isso afirma Bruni. “Nada há em Florença que seja desordenado, sem razão ou sem fundamento; todas as coisas têm seu lugar. Distintos são os ofícios, distintos os julgamentos, distintas as ordens” (Idem, cap. 80).

O poder supremo concedido a nove cidadãos escolhidos para as magistraturas (dois para cada um dos quatro bairros da cidade, aos quais se somavam o gonfalonieri), a sua permanência no cargo por dois meses, o Conselho maior constituído de outros 12 membros e o Conselho do povo seriam instrumentos que regulariam a manutenção dos direitos na república, pois esta subdivisão dos poderes era vista por Bruni como garantia de redução dos erros nas deliberações públicas. “Desse modo vige a liberdade e se salvaguarda em sua sacralidade a justiça na cidade: que a vontade de um ou de outro não possa antepor-se ao julgamento de tantos homens” (BRUNI, 2008, cap. 81). Da mesma forma, a existência de um magistrado forasteiro e a curta duração nos cargos lhe aparecia como condição de controle da arrogância e dos laços políticos dos detentores do poder. Como indica Skinner (1996, cap. 1), a função temporária de cargos relevantes como o podestà poderia abster a insurgência de inimizades entre os cidadãos, bem como impediria também a criação de laços de favorecimento.

A divisão dos poderes protegeria, de um lado, a república contra a tirania, e, de outro, as contribuições da cidade-estado. Ou seja, tanto na justiça penal quanto na imposição de taxas, a cidade procuraria fazer uma justiça distributiva, corrigindo as leis da natureza e se dirigindo de maneiras distintas aos pobres e aos ricos, aos fracos e aos fortes, tomando para si a proteção dos desafortunados. Por conta disso, conclui Bruni, “apesar das diversas classes, temos um estado de equilíbrio: os mais ricos, defende-os sua riqueza; os mais pobres a República; e ambos, o medo da punição” (BRUNI, 2008, cap. 89). Podemos dizer então, que a Florença delineada por Bruni com base na ius e libertas (leis iguais para todos e salvaguarda da liberdade) é uma cidade democrática, fundada tanto sobre a liberdade, como pela paridade de direitos.

 

No que diz respeito às pessoas em geral, não se deve discernir sentenças

senão por meio justamente da maioria, procedimento que se julga estar de

acordo com a justiça e com a razão. Desse modo vige a liberdade e se

salvaguarda em sua sacralidade a justiça na cidade: que a vontade de um ou

de outro não possa antepor-se ao julgamento de tantos homens. E, de fato,

esses homens decidem sobre as questões da República, sancionam as

decisões da justiça, abolem leis, estabelecem a paridade (Idem, cap. 81).

 

Contudo, sabemos que o humanista fala de muitos, mas não de todos os homens. No século XV o percentual de florentinos que votava girava em torno de 2.000 e 3.000 cidadãos. Nesse sentido, os “tantos homens” de que falava Bruni era um eufemismo e não uma realidade de fato (CAMBIANO, 1998, p. 12). Da mesma forma, é evidente que não havia uma igualdade política entre os grupos sociais em Florença.

O que temos na Laudatio é uma idealização por parte do autor na descrição do funcionamento da constituição florentina, como ressalta Rubinstein (1990, p. 18-19). Mas, este fato não é motivo para acusações das inverdades brunianas. Também em um retórico como Aristides encontramos certa idealização de Atenas, pois o mesmo sabia muito bem que em um encômio é possível omitir muita coisa; mas o mais importante é não omitir nenhum aspecto positivo da cidade que seja realmente presente (ARISTIDES, 1987, cap. 230).

O que importa nessa discussão sobre a criação de uma cidade ideal em Florença é que o seu tipo de governo era superior aos poderes singulares de um único indivíduo e que tais subdivisões de poderes impediam que os magistrados se transformassem em tiranos. Assim, a relevância do corpo de cidadãos para a criação de um estado livre distancia Bruni dos pressupostos teológicos-políticos que faziam parte da obra dos autores medievais que o precederam.

A escolha republicana seria a melhor forma de governo entre as demais e, nesse sentido, Florença e Atenas se transformavam em baluartes da liberdade. Essa estrutura político-social idealizada (de um estado de reparação e que busca a equidade) se corresponde ainda, segundo Bruni, com a estrutura arquitetônica da cidade, com seu Palácio da Senhoria, Duomo, com casas dispostas racionalmente, com praças amplas, e com cuidados sanitários para se evitar novas incursões da peste. Por essa razão, o elogio bruniano é importante justamente porque a sua cidade ideal, tão plena de referências antigas, não é uma fantasia nascida de fora da realidade, mas se identifica com uma cidade já existente, que é preciso tanto exaltar, como intensificar a racionalidade dos seus traços reais. É Florença que, por sua história – e pela força da sua herança romana – parece destinada a ser apresentada como ideal de coexistência humana, e da realização de uma vida em comum fundada sobre bases racionais.

A cidade ideal, como aponta Eugenio Garin, perfeita em seus edifícios e instituições políticas não está fora do mundo, no céu ou no país da Utopia, de Morus: ela está presente, mesmo que não seja perfeita, em uma cidade exemplar: Florença, que só pode ser um modelo ideal por sua opção pela justiça, liberdade e civitas. Por esta razão, diferentemente do tratado Da monarquia, de Dante, por exemplo, o modelo ideal é a república.

 

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