Historias Brazileiras
Juca, o Tropeiro
ADVERTENCIA
A autoria da presente narração pertence mais a um ex-sargento de voluntarios de Minas, que nos disse haver conhecido de perto o personagem que n’ella figura, do que á nossa penna.
O que fizémos foi desbastar o correr da historia de incidentes por demais longos, de innumeros termos familiares, e sobretudo de locuções chulas e sertanejas que podião por vezes parecer inconvenientes. Havendo comtudo reconhecido a originalidade e força de colorido d’essa linguagem, e desejando conservar ainda um que da ingenua, mas pitoresca expressão do narrador, resultou uma cousa esquesita, nem como era quando contada pelo ex-sargento, nem como devéra ser, sahida da mão de quem se atira a escrever para o publico.
Batemos de arrependido nos peitos.
JUCA, O TROPEIRO
I
Devéras, camaradas, Juca Ventura, filho de Minas Geraes e tropeiro desde em menino, era um companheirão, alegre e estimado, como nenhum outro nas tropas que costumam botar cargas para Goyaz e Matto Grosso e trabalhar n’aquelles sertões brutos.
Noute e dia estava prompto para rir, folgar e sustentar uma boa prosa, no que não havia quem lhe posesse o pé adiante.
Ninguem sabia como elle cantar chulas, armar um cururú, repinicar na viola ou contar historias, umas gaiatas que fazião estourar de riso, outras de bruxas e mandingueiros que deixavão a gente toda arripiada e sem vontade mais de pregar olho.
Uma só cousa o aborrecia. Era quando lhe faltava o serviço, mas isso era tão raro que bem poucos poderião dizer tel-o visto calado e amofinado.
Não havia capataz que o não desejasse em sua tropa, porque não era só de lingoa que elle fazia bichas.
Não, senhor. Quando chegava a hora de trabalho grosso, não se contava um, por mais pintado que fosse, que deitasse mais barro á parede. Lá isso de atalhar uma cangalha, de lidar com volumes, arrôxar a sobrecarga, acolheirar animaes ou pêal-os, sangral-os, remexer pastos, arrumar no pouso as cargas, arranjal-as nos ranchos bem cobertinhas com os ligaes por causa da chuva e da humidade, era elle mestre e tudo n’um sopro. Emquanto o diabo esfregava um olho, Juca Ventura já tinha feito muita cousa.
E forte de saude que parecia de ferro. Zombava das maleitas e sezões, cortando por todo o tempo rios cheios e cruzando pantános sem o menor medo de maldades. Nunca se lembrára de ter tomado mesinhas e beberagens, e dizia com gabolice que chegaria ao fim da vida sem dar o pulso a cirurgião nenhum, nem se quer para saber do que morria.
Tambem quando elle ia atraz do seu lóte de bestas, onze animaes gordos de encher o olho, e que se derreava na sella com o chicóte de couro crú apoiado na coxa, abria o peito á inspiração e lá ia por essas estradas de Christo, cantando alto e afinado, contente como um ricaço e cheio de si como se tivesse o rei na barriga.
Debalde o vento levantava uma polvadeira immensa que lhe avermelhava a camisa e lhe grudava o cabello ao casco da cabeça, debalde a chuva o molhava até os ossos, debalde o sol parecia querer lhe assar a cara e as mãos e derreter o chão, nada mudava, nem um nadinha, o seu genio brincador, nem fazia parar a sua força de trabalho e expediente.
Chegado que fosse ao pouso e não havia um só n’esses fundões de Goyaz e Matto Grosso que elle deixasse de conhecer como se em cada um d’elles houvéra nascido e lá passado annos inteiros— chegado ao pouso e acommodados os seus animaes, se havia matalotagem farta, comia que mettia gosto, se não havia, lá tomava uns bochechos d’agoa e ferrava n’um somno gostoso como tudo.
Mas ninguem se fiasse muito n’esse somno. Qualquer barulho, por menor que fosse, o punha logo de pé: n’isso vencia o cachorro mais desconfiado e podia até dar sóta e basto a ganços, que são bichos de natural vigilante.
Tambem se era preciso, passava muito a gosto a noute em claro: e no dia seguinte estava lépido e bem disposto, como se não houvéra novidade.
Quantas vezes tinha elle deixado de fechar os olhos a contar aos camaradas historias do sertão ou a fazer gemer a viola em cantorias e caterêtes?
Nem havia conta.
E com tal não padecia o serviço: nem capataz nenhum se gabava de o haver pilhado a cochilar.
Não era rapaz de brigas e mexericos: sabia dar-se ao respeito e se não andava com os chefes e superiores a mostrar os dentes em risótas, nem por isso era carrancudo e malcriado.
Na sua guaiáca havia sempre alguma pratinha de sobresalente para não parecer unhas de fome e mofino quando tinha de pagar a pinga aos companheiros da carreira.
Nunca se mettia em pandegas grossas, nem em jogatinas de estouro; mas ninguem o podia alcunhar de enjoado, porque nos dias de mareta era boa perna para o pagode.
Engraçado e farçola n’isso fazia figas, tanto assim que as raparigas dos povoados, quando chegava alguma tropa, ião perguntar noticias de Juca Ventura, pelo que não faltava quem levasse a mal aquellas fallas de pura amisade.
É porque n’este mundo de Deus ha muita lingoa maldizente que quer botar malicia em tudo, malicia que só existe no juizo enviezado e falso dos falladores.
Juca Ventura, é certo, brincava com as moças das villas e povoações, algumas até bem bonitas; mas era negocio de simples palavreado, e nenhuma d’ellas poderia com verdade dizer que o ouvira fallar de amor, ou fazer alguma promessa.
Não, senhor! Quem tal dissesse, mentiria como um perdido.
Se o tropeiro era estimado, não erão só raparigas novinhas que lhe mostravão agrado e sympathias; as velhas tambem lhe querião bem e quando elle cruzava por diante de qualquer casa da estrada, não havia quem deixasse de o saudar com boas maneiras e franqueza.
E a razão era uma.
É que não se passava uma viagem ou do sertão para o mar ou de lá para cá, em que elle viesse de mãos abanando. Sempre trazia alguma lembrança para as suas conhecidas, ora uma cousa, ora outra, e houve até occasião em que deu de presente uns córtes de fazenda fina e algumas jardas de fita muito vistosa e larga.
E depois não querião que fosse estimado!
Fizessem os invejosos como elle: tratassem a todos conforme os seus merecimentos. Mas por estes mundos afóra não falta quem metta a catana nos mais sem ter meios de praticar, já não se quer melhor, mas até igual.
E porque havia Juca Ventura de andar pelos caminhos a arrastar a aza e a fazer pé de alferes pelos pousos, como se fôra algum rufião mal intencionado que botasse a perder as coitadinhas sem experiencia?
Nada, Juca o tropeiro havia já dado o coração á uma pessoa; e quando um homem de vergonha estima devéras uma mulher, esse amor não consente outro: é o unico na vida.
Nem havia mais segredo.
Só não sabia quem não queria, que em Uberaba é que morava aquella moça, que se chamava Balbina do Canto, porque o pai, sapateiro de officio e já fallecido, havia morado n’uma esquina de becco, que ella era rapariga de truz, morena, mas corada, de muito proposito e composição e de quem lingoa nenhuma tinha tido a pouca vergonha de dizer a mais pequena cousa.
Quem é que não sabia d’isso?...
Quem é que não conhecia a mãe d’ella, D. Cula[21], senhora capaz de revirar com um peteléco o patife que quizesse vir se engraçar com a filha?
Fosse lá algum mariola dizer que a Babita tinha cabellos pretos como aza da graúna e tão compridos que passavão alem do quadril talvez um palmo, olhos que mechião com a gente só no revirado, nariz pequeno, boquinha como se acabasse de comer pitangas, fosse dizer que a sua cintura era de maribondo, o seu andar engraçado e faceiro como andar de moça da côrte, e havia de ter que fazer com a velha, boa pessoa no trato quando estava para conversas, mas zangada de uma vez nos dias de seus azeites.
E querem vêr?
Uma tarde, a menina estava tomando fresco n’uma janella e D. Cula cozendo perto de outra, por detraz da rotula fechada, porque a casa tinha duas janellas e uma porta, por signal que tão juntinhas que não davão para um portão largo. N’isto passa um mocinho, filho de um capitão da guarda nacional e, tirando-se de seus cuidados, pedio, nem mais nem menos, um beijinho ao jambo corado—assim chamou o desavergonhado a carinha da moça.
Babita recuou toda vexada, mas quem pulou como uma çuçuarana foi D. Cula.
Sem pensar no que fazia, passou a mão n’um cabo de vassoura, escancarou a porta e cahio de pauladas no costado do engraçado que não foi um brinquedo. Em vão o moço quiz fugir, em vão resistir; só parou a sóva quando o páo se quebrou e por cima levou elle com os pedaços na cara.
E lá se foi o gaiato sem chapéo e com a nizia rota, acompanhado de uma vaia de conta que lhe passárão uns meninos da vizinhança e tres camaradas de tropa que assistirão áquelle merecido castigo.
Tambem depois d’esse, ninguem mais se lembrou de dizer graçolas a Babita, bem que todos os dias ella fosse tomando cada vez mais corpo e ficando de pôr agoa na boca.
Tinha n’esse tempo dezesete annos, e já déra de tábua a tres pessoas de consideração.
D. Cula lhe fallára com verdade e muito assento, mostrando que era preciso tomar estado, que ella nem sempre havia de estar n’este mundo para dar-lhe amparo, que emfim mais valia uma rapariga mal casada do que bem requestada.
Porque não havia ella de aceitar o Chico Luiz, que estava já arranjado em seus negocios, tanto assim que tinha sociedade com o Tinôco, de quem a principio fôra caixeiro? Homem de meia idade, mas de boa figura, procedêra sempre como pessoa de bem que merece dos outros amizade e confiança.
—Mas, mamãe, objectava Babita, elle é emboaba.
—E que tem isso, filha de minha alma? D’essa gente sahem bons maridos. Depois ha tanto tempo que está na terra, que nem parece filho da outra banda.
—Não quero este, murmurava a rapariga.
—Pois bem, continuava D. Cula, você não quiz este por ser portuga. Mas porque disse não ao João Grande, lá da Casa Branca?
—Ora, um socó... e depois zarôlho...
—Zarôlho, sim, mas é apatacado. O pae tem botica e ninguem dirá que seja moço feio de todo. Outras mais pintadas do que você, Babita, não hão de torcer o nariz, quando elle as procurar para casamento. Agora me diga o Mané Quetano, tambem é zarôlho? Rapaz tão bom, tão socegado e de familia limpa! O pae, que Deus haja, era aqui n’esta cidade, quando ella não passava de villa, um graúdo, um tutú. Esperto como elle só...
—Então o filho não sahio ao pae... é um bocó.
D. Cula costumava então abanar a cabeça.
—Minha filha, dizia ella sentenciosamente, permitta Deus Nosso Senhor Jesus Christo, que você não tire de tudo isso motivos de se arrepender. Querer fazer boca de ouro e ter feijão preto e carne secca para comer, são cousas que não vão juntas. Cada um deve pedir a Deus aquillo que basta para a sua posição. Não vá depois lhe acontecer como á Maria do Frajado, a coitada, que do meu tempo andou se fazendo de enjoada e, afinal, quando quiz casar, já não achou com quem. Morreu velha e levou palma e capella em cima do caixão. E não foi das mais infelizes, porque tem se visto muitas cousas que fazem a gente ficar sem pinga de sangue nas veias, só em pensar n’ellas.
Babita rematava taes conversas que muito se repetião com este estrebilho:
—Deixe estar, mamãesinha, eu hei de me casar.
Quando Juca Ventura procurou travar conhecimento na casa, D. Cula se mostrou meio carrancuda. O rapaz tinha modos direitos e a sua fama era boa; mas ella não era mulher de se fiar em apparencias e na voz dos outros.
Fez cara de poucos amigos e observou de parte a filha.
Vio que Babita corava de cada vez que o moço, todo aceiado e faceiro, passava por diante da janella e comprimentava com muito respeito as pessoas que lá estivessem: vio que elle cruzava por demais n’aquellas paragens, e ficou aborrecida, não por ser elle tropeiro, mas por poderem as suas passadas dar na vista dos outros e trazer fallatorios.
Juca Ventura não vinha francamente tocar em negocios de casorio, e a menina parecia estar se inclinando muito por elle.
D. Cula, pilhando-a uma vez a seguir com os olhos o tropeiro por entre as frestas da rótula, chamou-a a contas, mas com toda a prudencia, porque era pessoa de experiencia e bem sabia que com
mulheres [22] enrabichadas, não se deve apertar muito.
—Vem cá, filha, disse ella, parece que por esta rua anda muito um sugeito que quer se engraçar com você.
—Eu não sei, respondeu Babita com susto que pareceu de máo agouro á mãe.
—Ah! estou que você não reparou, mas eu cá ainda tenho bons olhos. Quando um moço gosta sériamente de uma rapariga que lhe póde servir de mulher diante de Deus e dos homens, sem ter que se avexar de ninguem, deve vir com sinceridades e não fazendo modos de inquietar o descanso dos outros....
—Mas ninguem me anda desinquietando, interrompeu Babita meio arrufuda.
—Máo, pensou lá comsigo D. Cula, a menina está mordida...
E alto continuou:
—Eu não me refiro a você: fallo no geral... e, já que estou com a mão na massa, quero lhe dar alguns conselhos. Os homens, minha filha, são muito enganadores e do que menos se importam é da honra e do socego das mulheres. Deitão uns olhos de peixe morto, revirão o coração de uma probresinha e, quando não a atirão de uma vez no caminho da perdição, mettem na boca do mundo que ella é assim, é assada e não sei mais o que. A cousa começa sempre por brincadeira: a gente olha sem pensar em mal: acha graça no namôro e depois, minha cara, quando menos se cuida sente-se cá dentro no peito uma afflicção, um tormento que não pára nem de dia nem de noute. Então se a mulher não tiver juizo, não sabe mais o que ha de fazer. Tudo é soffrimento tudo é enjôo e desgosto, menos a vista do tentador. E elle a se rir e como cobra traiçoeira esperando de longe com a boca aberta, que a rãsinha se chegue por si mesma...
Babita durante todo esse sermão em que a mãe contava talvez uma historia do que outr’ora se havia dado com ella, estava sem saber onde pôr os olhos, toda vendida e com as maçãs do rosto vermelhas que nem bagas de aroeira.
A final, sem dizer palavra, mas abrindo n’um pranto de chôro, atirou-se ao collo da mãe, escondendo a cara com as mãos.
D. Cula não mostrou a menor admiração: pelo contrario beijou com muito carinho a testa da filha.
—Eu bem sabia, disse ella, que você já não era como dantes. Mas não se afflija. Aquelle moço tem bom nome, e eu vou me entender com elle. O peior era você querer esconder que o seu coração já tinha acordado.
—Mamãe, balbuciou Babita, não... sei... como... foi... Mas ninguem desconfia.
—É sempre assim, secundou D. Cula. A gente está desprevenida e da noute para o dia fica-se outra e presa para toda a vida. O tal rapaz é tropeiro: não digo que seja bom officio, mas tambem não é de fazer vergonha a ninguem. Quem trabalha é sempre merecedor. Nós por nosso lado não somos filhos de capitão-mór, nem de juizes de fóra; o que podemos desejar é que seja de familia limpa, porque graças á Nossa Senhora Santissima, e a S. Joaquim avô de Nosso Senhor, você conheceu o seu pae, que Deus lhe dê a gloria, e nós dous, elle, hoje no reino do céo e eu cá n’este valle de lagrimas, tambem tivemos esta felicidade, tudo assentado nos livros do Revm. Vigario; d’ahi para cima não posso dizer mais, mas emfim nem todos podem dizer tanto...
Foi então que D. Cula se metteu n’um sipoal de palavreado, d’onde só sahio quando lhe faltou a respiração.
Em todo o caso, ella no dia seguinte se embrulhou na sua manta de sahir, uma manta côr de fundo de garrafa que lhe ia até os pés e que tinha na altura dos hombros umas especies de dragonas de retroz preto, fincou um pente alto no cocuruto da cabeça, e lá foi ter ao rancho onde estava de pouso a tropa de Juca Ventura.
Justamente tinha este de madrugadinha partido com o seu lóte de bestas para esperar os companheiros d’ahi a vinte legoas no caminho de Goyaz.
—E quando estará de volta? perguntou meio descorada D. Cula.
—Quem sabe se d’aqui a dous pares de semanas, respondeu um outro tropeiro.
Ao voltar para a casa, a coitada da mãe ia remechendo no seu espirito cousas bem tristes. Havia sido o que ella suppunha: o tal sujeito era como os outros. E a sua Babita, a Babita do seu coração, já enamorada, não ia soffrer, se magoar, ficar magra e doente, e quem podia dizer o que mais?
Malditos homens que vem bolir por maldade com as mocinhas e pôr as casas de familia em dobadoura!
D. Cula não disse á filha a verdade.
Contou que Juca Ventura tinha partido, com effeito, mas não sem que ella lhe dissesse duas palavrinhas.
—E então? perguntou a moça com receio.
—Então elle ficou muito admirado e meio corrido, quando vio que eu estava corrente com as suas passadas, mas, fallando com franqueza, não pude saber se elle quer bem ou não a você.
—Quer, mamãe, quer! exclamou Babita pegando logo fogo. Tenho toda certeza.
—É bom não pensar assim... Emfim elle ha de voltar, e saberemos então se é o que você julga d’elle, ou se não passa de um marióla que hei de pôr a tinir como aquelle filho do capitãosinho.
N’isto parou a conversa, e durante muitas e muitas semanas não se fallou n’aquella casa em Juca Ventura.
A mocinha estava um pouco macambuzia: não chegava á janella e não queria sahir, mas comia com vontade e não parecia começar a ficar magra.
Durante este tempo, o nosso tropeiro seguia o seu caminho, jururú e abatido. Se cantava, era com uma vóz abafada que fazia ainda mais triste a solidão.
Estava apaixonado ás direitas, e a casa de D. Cula e o rosto da namorada não lhe sahião da memoria.
Quantos suspiros lhe rebentavam do peito! Era uma cousa sem conta, e se no serviço não afrôxava é porque só no trabalho achava algum consolo.
E lá ia cantando, improvisando na toada do cateretê:
Babita, meu bem Babita,
Babita do coração,
Tem pena de minhas penas,
Senão morro de paixão.
Passarinho que tem aza
Depressa vôa ao seu bem.
Aza não tenho, nem tenho
Quem me possa querer bem.
Desgraçado do tropeiro,
Minha sina é só gemer:
Meu destino caminhar,
Caminhar até morrer.
Chaga viva em mim abrio
Teu olhar, mulher querida.
Mas de ti eu não me queixo,
Pois adoro essa ferida.
Tenhão os rezes seus palacios Ouro e mais prata infinita,
Eu só quero d’este mundo
Ser querido de Babita.
Mas, coitado, porque choro?
Quem m’ouvir póde n’este ermo?
Se o meu canto não tem écho,
Meu tormento não tem termo.
Ó rochedos, montes, valles
Ó campinas tão floridas,
Compaixão deveis sentir
D’essas mágoas tão crescidas!...
N’essa versalhada é que Juca Ventura desaffogava o peito, de modo que todos sabião por quem ficára preso o tropeiro modelo.
Á noute, ao redor da fogueira, elle espantava os seus males, e a viola chorava nos dedos do namorado. Os companheiros ficavão caladinhos a ouvir o cantor, cuja vóz ia longe que era cousa de pasmar.
Ventura me chamão todos,
Desgraça devem chamar.
Pois aquella a quem adoro
Não me quer a mim amar.
Sou tropeiro, não sou rico
Casas não tenho, nem ouro;
Mas no peito tenho honra,
E não sou filho de mouro.
No braço tenho [23] talento
Na cara tenho vergonha,
Não vivo de comer bichos
No lôdo como cegonha. [24]
Ai! se apaga em mim a vida!
Sinto já que vou morrer.
Mas não sei se chóre ou não
Por agora perecer.
Pois embóra eu seje moço, Por effeito da paixão
Com certeza hei de findar
Nas funduras do sertão.
N’estas cantigas passava Ventura a noute e já o brazeiro se apagára, e já as barras do dia riscávão os lados do nascente, e elle ainda ficava de vióla na mão, tocando e verseando.
Tambem a primeira cousa que fez, quando se apeou em Uberaba, foi logo procurar vêr a quem lhe tinha inspirado tanta quadrinha bonita.
O caso foi que, como geralmente se diz, encontrou-se a ronda com a patrulha.
Mal elle apontava na rua, sahio-lhe pela frente D. Cula com um ar muito agradavel e cheio de riso.
Ventura quiz voltar, não poude e parou.
A esse tempo já a mãe de Babita o tinha saudado com muito boas maneiras, perguntando noticias da saude e da ultima viagem e mais outras cousas.
Ventura ia respondendo meio engasgado, mas ficou passado de uma vez quando, conversa puchando conversa, D. Cula o convidou para descansar em sua casa.
O moço no acto de se sentar já não estava muito em si, mas quando vio entrar na sala a rapariga por quem suspirava tanto, perdeu de todo a cabeça.
Não soube mais dizer uma palavra.
Se queria fallar, sentia um nó na garganta; se queria ficar calado, vinha-lhe a comixão de fallar.
Então passou-se uma cousa de deixar a qualquer pasmado. Foi que no fim de sua visita, uma visita de medico, elle pedio a mão de Babita, que Babita ficou muito corada, mas disse sim, que a mãe de Babita chorou algumas lagrimas e que consentio e poz-se a fallar muito e a contar casos e mais casos, dando de lingoa que era de pôr tonto a um homem de juizo, quanto mais a um namorado!
Elle levantou-se cambaleando.
Era noivo da rapariga mais bonita de Uberaba!...
A noticia correu logo a cidade, como se fosse novidade chegada do Rio de Janeiro. Uns approvarão muito, outros acharão a cousa má, outros emfim nada disserão, no que fizerão melhor do que os que se mettião a abelhudos.
Os que approvavão, mostravão que as idades dos noivos estavão muito combinadas e achavão direito que um pobre casasse com uma pobre e outras cousas mais.
Os que empurravão, a tesoura, dizião que o officio de tropeiro era baixo e por demais andejo, sendo assim o casal obrigado a viver sempre separado. E a final em que mãos ia cahir uma menina tão bem parecida? Nas de um camarada de tropa...
Alto lá, minha gente! Fallem quanto puderem, intromettão-se na vida e nos interesses dos outros como melhor quizerem, mas por amor á verdade não digão que o noivo não merecia a noiva. Isto nunca!
Não era Ventura um rapaz sacudido, de 25 annos, olhos rasgados, côr morena, bigodes finos, boca bem feita, e barba sempre penteada? Não tinha elle cabellos cheios de anneis? Erão grossos, é certo, mais isso era do pó da estrada, e esse pó dava signal de que elle trabalhava para ganhar honradamente o pão de cada dia.