Historias Brazileiras

Visconde de Taunay · Capítulo 12 de 12

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Historias Brazileiras

Capítulo IV

 

Juca Ventura apeou do cavallo tremulo e assombrado.

Sem saber pelo que, suava frio e estava com os olhos escuros.

Mas fazendo-se de forte, gritou como quem queria parecer alegre, mas não estava:

—Ó de casa, ó minha gente!

Ninguem lhe respondeu.

Elle então entrou na sala.

Nada estava mudado: erão as mesmas cadeiras, o mesmo sofá velho, uma imagem do Menino Jesus entre dous vasinhos com flôres, tudo como ha cinco annos passados.

Ventura bateu palmas.

Ninguem lhe respondeu ainda.

Oh! Era caso de pensar.

O nosso homem assarampatado empurrou a porta do interior... nem viv’alma na varanda: correu a casa toda, nada.

Mas estava claro que alli ha pouco tinha estado gente que havia fugido ás carreiras.

Decididamente succedêra alguma novidade graúda.

Juca Ventura sentio a boca lhe amargar. Padecia que nem um condemnado á forca, mas como não era precipitado em seus juizos, não quiz logo cuidar em mal.

—Talvez Babita não me conhecesse logo, pensou elle, e tomasse um susto.

N’estas idéas sahio da casa.

Lá fóra fazia um sol valente. Um sugeito passava rente com as casas para apanhar um pouco de sombra.

Juca perguntou-lhe se conhecia D. Cula.

—Cheguei de pouco da Formiga, lhe respondeu o cujo, por isso não a conheço, mas sei que a filha d’ella é casada com o Chico Luiz, o Emboaba.

Como Juca Ventura não saltou ás guélas do sugeito que lhe deu aquella noticia, ou como não cahio no chão morto para todo o sempre, é o que elle mesmo não sabe.

Sentia mil soffrimentos, maiores a um tempo do que todos os de Mato-Grosso e por cima uma vergonha tão grande que a sua cara ardia como se fosse uma fogueira.

Tudo estava perdido!

Tudo!

Elle que só tinha vivido com a lembrança d’aquella mulher, elle que vinha cheio de amor, limpo de miserias, depois de ter dado conta de sua obrigação, elle que tinha ganho as suas medalhas, as suas fitas para enfeitar a sua noiva, e agora vinha encontrar o lugar que lhe pertencia já tomado, e em vez de um coração para o affagar e estimar, a traição e o pouco caso?!

Ah! porque a sórte não o atirou como tantos outros nos campos do Apa para ser degollado pelos paraguayos?

De que lhe servia a vida?

A sua felicidade cahia toda em pedaços, como casa velha de taipa em dia de furacão.

Que restava fazer?

Nada... nada mais!

E vingar-se?... porque é que o valente que vinha da guerra não havia de tirar despique do desprezo de uma mulher?

Isso lá, não. Babita podia dispôr de si, dar o corpo e o coração a quem quizesse; mas elle o bravo de 17º. de voluntarios de Minas precisava se desaffrontar.

Tremessem os desalmados que havião brincado com a honra do tropeiro!

Com isso tudo a lhe ferver no sangue, amontou Juca a cavallo e foi sestear n’um rancho fóra da cidade.

Não se tinha espalhado a noticia da chegada d’elle, senão é de crer que se fizessem em Uberaba alguns festejos e que o commandante superior da guarda nacional o viesse abraçar á vista de todos.

Mas para abraços não estava elle.

Parecia uma onça que acaba de cahir n’um fojo.

Não tocou no prato que lhe puzerão na mesa, mas, com o queixo encostado na mão, estava carrancudo como um tigre preto, e os seus olhos faiscavão. Na cintura tinha uma garrucha de dous canos carregada e um facão-punhal.

Quando o sol vinha cahindo, vermelho e grande, Juca sahio do rancho, mas as pernas lhe tremião.

Queria pisar firme e não podia.

É que nunca fôra assassino e agora ia matar!

Caminhou a pé para a cidade e muitas vezes teve que se sentar á beira da estrada pela affrontação em que vinha.

O coração quasi que lhe saltava pela boca.

Ah! Babita! Babita! Que lhe tinha feito aquelle homem para você o tratar assim? Pois não póde haver uma só mulher no mundo que tenha fidelidade?

E o certo é que lá ia Juca Ventura, já com ares de matador, quando podia entrar no lugar de seu nascimento, de cabeça bem levantada e estufando o peito em que estava escripta a sua historia de soldado! E todos o havião de festejar e até adular!...

Mas não... O destino assim não quiz.

Apparecião as primeiras casas da cidade quando o pobre coitado sentou-se n’um matacão de barro duro a um lado da estrada, á espera que a noute fechasse.

Do sol já só se via uma beiradinha e estava um calor de rachar. Lá no nascente umas nuvens côr de chumbo parecião estar ameaçando a terra, e de quando em quando um relampago fuzilava no meio d’ellas.

Juca Ventura olhava para aquelle lado e pensava que assim estava o seu coração, faiscando, faiscando, mas que tambem d’ahi a bocadinho um raio havia de ferir a quem menos cuidava.

Um barulho de passos lhe chamou a attenção.

Era um homem branco, de meia idade e bem [28] limpo, que tinha um ar sério e muita composição no andar.

Quando Juca Ventura lhe poz os olhos em cima, como que virou-se em pedra.

Depois fez um esforço grande sacudindo a tontura, sacou da cintura a pistola e pulou para a frente do outro como uma onça pintada.

A sua boca deu um uivo.

—O emboaba!

Se Chico Luiz, pois era elle, não tivesse a tempo lhe agarrado no braço, era um homem morto.

E ficarão os dous, um olhando para o outro, bons pares de minutos: Juca Ventura com olhos de engolir um christão vivo, Chico Luiz muito senhor de si e de sangue frio.

—Portuga do diabo, gritou Ventura sempre com o braço preso, você sabe quem eu sou?

—Sei, respondeu o emboaba muito sereno, é um soldado brasileiro, não é um matador.

O modo por que estas palavras cahirão da boca de Chico Luiz e o seu proposito fizerão um abalo tão forte no voluntario que elle ficou branco como cêra.

—Sim, retrucou elle, nunca fui assassino, mas agora vou ser...

—Ao menos deixe eu me defender. Na guerra você fazia assim...

—Não; todos vocês hão de morrer como cachorros. Todos... porque cuspirão na minha cara.

—Juca Ventura, você tem o direito de me matar, isso eu reconheço: mas a mais ninguem, ouvio? O unico culpado sou eu.

A cada palavra que Chico Luiz dizia, o tropeiro como que sentia o coração ficar frio. Quiz puchar pelo braço, mas a mão do portuguez se não apertava com força, segurava com firmeza.

—Sim, continuou elle parando a todo instantinho e com os olhos prégados nos do seu inimigo, eu vim até cá ter com você, sem armas, sem um páo sequer, e lhe dizer atire em mim, porque n’esta historia desgraçada ninguem mais póde ser acusado... Agora...

E, de repente soltando o braço de Ventura, apresentou o peito:

—Aqui estou, disse, faça fogo. Execute a sua vingança!

O modo era de quem estava preparado para morrer n’aquelle instante mesmo.

Juca levantou a pistola, mas depois recuou uns passos, como que vexado e murmurando:

—Eu nunca matei ninguem assim...

—Pois bem, secundou Chico Luiz d’essa feita muito depressa, eu quero defender não a mim, mas a uma pessoa que em tudo isto tem tanta culpa como N. S. da Conceição...

E como Ventura fizesse um gesto de raiva:

—Sim, exclamou elle com força, eu juro pela minha salvação eterna, Babita é innocente; Babita resistio quanto poude a este casamento, Babita não se esqueceu um só momento de seu noivo; chorou todas as lagrimas do seu coração; foi fiel quanto poude á sua promessa.

O portuguez fallava com sotaque lá da sua terra, mas fallava como quem diz a verdade. Cada um de seus ditos era uma punhalada em cheio no peito de Ventura.

—Mas então, bramio elle, ella foi enganada?

—Não, respondeu com energia Chico Luiz.

—Que aconteceu pois?

—Se você quizer me ouvir, eu lhe abrirei o meu coração; se não, dispare já esta garrucha que está engatilhada, mas tenha certeza que ha de vir dia em que o sangue que hoje cahir se levantará a gritar: Sua mão deu cabo de gente innocente!

E a voz de Chico Luiz ficou de quem estava pedindo uma cousa muito grande.

—Você me ouve? perguntou elle ainda.

Houve um silencio de metter medo. A sórte d’aquelle homem estava se decidindo.

—Falle, disse por fim Juca Ventura muito abatido e pondo ao cinto a garrucha depois de ter abaixado de vagarinho o cão.

—Eu direi poucas palavras, começou logo o outro. Você partio para Mato-Grosso e só houve noticia certa de sua pessoa por uns seis mezes. Depois passarão-se annos inteiros, e ninguem sabia onde parava e qual o seu fim. Babita, coitada, perguntava, indagava de um e de outro, escrevia muita carta, punha tudo no correio e a chorar dia e noute que era uma cousa por demais. No fim de tres annos chegou, parece que desertado, a Uberaba um soldado do 17º de voluntarios que disse que conhecia muito a você, que você tinha morrido ha mais de um anno e até elle tinha carregado o seu caixão. Nós todos então fomos ouvir uma missa por sua alma, e Babita esteve entre a vida e a morte um mez inteiro. Correu muito tempo. N’isso chegou outro soldado que tambem deu a você por morto e enterrado. Já ninguem tinha duvida. Foi então que eu, apezar de ter levado de táboa já uma vez, me apresentei de novo para casar com ella. N’esse tempo D. Cula estava de cama; pedia muito a filha que aceitasse; ella resistio, resistio, eu instei; todos os dias ia lá; fiz muitos quartos quando a minha sogra ficou a sahir d’este mundo. Então Babita, para obedecer, eu sei bem, a quem todos já fazião na cova, casou-se commigo haverá uns dez mezes. Esta é a verdade.

E acrescentou:

—Agora estou ás suas ordens.

Juca Ventura, emquanto Chico Luiz fallava no tempo em que um gato passa por cima de um brazeiro, estava calado e mais sombrio do que a noute que vinha chegando.

As suas sobrancelhas estavão tão apertadas que formavão uma só linha na testa.

Elle via que tudo aquillo era certo, mas queria poder não acreditar.

—Ah! já sei, retrucou elle como que chasqueando, vocês todos enganárão a Babita. Foi você quem inventou a embromação da minha morte.

—Pela alma de minha mãi eu lhe juro que não! Caia ella no inferno se eu estiver mentindo. A cidade inteira ouviu aquelles soldados... E depois olhe para mim, e veja se sou capaz disso...

Sem querer, Juca Ventura levantou os olhos e fitou o portuguez.

O seu ar tinha tanta sinceridade que a convicção entrou no fundo do coração do tropeiro: mas elle ficou mudo com a cabeça cahida sobre o peito...

Já era quasi noite fechada, e se não escurecêra de todo é que no céo havia umas nuvensinhas vermelhas que aos poucos ião perdendo as côres.

Os dous homens estavão calados.

De repente Chico Luiz disse com voz muite suave:

—Você me perdôa?

Juca Ventura estremeceu todo.

—Ah! exclamou elle com a boca encrespada de amargura, não bastou a você, portuga de desgraças, me tomar a minha noiva, me arrancar o coração, pisar com pé de chumbo na minha felicidade, matar para sempre a minha alegria, quer tambem o meu perdão?...

—Quero, atalhou Chico Luiz com força. Você é homem de honra, é homem de bem, eu tambem sou. Da conversa de hoje é que vai sahir o futuro da mulher que nós dois amamos, da mulher que ainda ama a você, Ventura, mas que me pertence a mim. Eu fallo aos seus sentimentos. Aqui lhe peço de joelhos...

—Não, não!

—Perdão, perdão. Eu quero ou morrer de sua mão, ou que você me dê o seu perdão. Nossa Senhora abrande o seu coração... Tem pena de minha mulher, tem pena de meu filho!...

E Chico Luiz, no meio da estrada, se atirou de joelhos aos pés de Juca Ventura, mas com tanta dignidade que ninguem havia de vêr n’aquelle acto, não uma baixeza ou medo, mas uma menagem á desgraça do tropeiro.

—Levante-se, homem, disse em fim com muita pausa Ventura... Eu... vou pensar.

E depois de novo silencio, acrescentou com esforço.

—Se... amanhã eu... apparecer na... sua casa... então... é signal que... para mim... o passado, passado. Se... eu não fôr lá... é que parti para nunca... mais ouvir fallar... em Uberaba... e na gente que aqui mora.

E acenando com a mão, sumiu-se, sem dizer mai-palavra, na escuridão da noite...

No dia seguinte Juca Ventura fez ás claras a sua entrada na cidade de Uberaba.

Isso foi um alarma nunca visto e pelo ar com que todos olhavão para elle, conhecia que era a pura verdade tudo o que Chico Luiz lhe tinha dito. Parecião encarar alguem que sahia da cova para fazer cousas do arco da velha.

Tudo botava uns ólhos arregalados, e espantadiços. Muitas velhas já fazião cruzes pelo que ia succeder sem falta, e alguns que muito a tôa tinhão raiva do portuguez, só porque os negocios lhe corrião bem, lá no coração sentião certa alegria, apezar de estarem a dizer por toda a parte que o delegado de policia devia estar alerta se não quizesse vêr uma desgraça feia.

Os modos de Ventura pozerão os bibilhoteiros de queixo cabido. Começou a fallar que já sabia desde muito que a Babita tinha se casado, mas que não se admirava disso, porque tinha corrido a rodella de sua morte, e mais isto e mais aquillo e tanta cousa com socego tão grande que não se sabia o que pensar se era disfarce ou não.

Mais ainda cresceo o espanto, quando, depois do furriel ter-se apresentado, como militar, ás autoridades que o receberão muito bem, o abraçárão e o fizerão sentar, foi elle com sol alto parar á porta do emboaba.

Chico Luiz estava então no balcão de sua loja de negocio, e nem de proposito, a casa estava cheia de freguezia que nada lhe comprava, é preciso notar.

Juca Ventura desapeou meio branco. O outro ficou um tanto amarello, mas se adiantou a encontrar quem vinha entrando.

—Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo que o traz a esta casa, disse o portuga estendendo a mão.

O tropeiro mal a tocou.

—Para sempre seja louvado, respondeu pausado e muito serio.

E accrescentou.

—Eu venho visitar a sua familia, D. Cula e a filha della.

Houve um silencio grande.

Chico Luiz desviou o corpo, e apontando para dentro:

—Póde entrar, disse. Esta casa lhe pertence. A minha sogra e mulher hão de vêr com gosto um conhecido antigo e amigo.

E deixou que Juca Ventura entrasse sósinho.

Na salinha junto á loja estavão D. Cula e ao lado Babita, a bella e chorada Babita, com o filhinho no collo, como se fosse bandeira de misericordia.

Ventura ficou de pé, branco como cêra. As duas mulheres, que de tudo sabião, tinhão os olhos pregados no chão e choravão sem fazer barulho.

—Bons... dias... minhas... senhoras, saudou o tropeiro parando em cada palavra.

Ninguem lhe respondeu.

—D. Cula, disse de repente Ventura, eu perdôo a vocês todos... No meu coração só guardo uma cousa: é tristeza para sempre.

Babita deu um soluço de desespero.

Ventura chegou-se para ella.

Baixinho, mas com muita doçura lhe perguntou:

—E você é feliz?

—Chico... Luiz... é... o... pae de meu filho.

—Babita, D. Cula, disse por fim o tropeiro, não fiquem me querendo mal... Adeos, adeos!

As duas coitadas abaixarão a cabeça e chorarão até não poder mais.

Já então Juca havia sahido e, ao despedir-se do portuguez, lhe apertou uma outra vez a mão.

 

Dous mezes depois o tropeiro tinha tornado a tomar o emprego do outro tempo, mas já não era o mesmo de dantes. Calado sempre, só achava gosto no trabalho.

A ninguem mais contava historias, a ninguem fazia festas e mostrava amizade. Não se mettia com pessoa alguma, nem queria que se mettessem com a vida d’elle.

Uma vez, porém, sahio do sério.

Desafiado por um camarada, que tanto tinha de forte como de malcriado, e que se lembrou de fallar da Babita, foi acima d’elle e lhe deu tanta pancada que por pouco não o mandou para o outro mundo.

Desde esse dia, não ha quem se lembre de mecher com Juca Ventura.

Uma só cousa ainda lhe agrada um tanto: é cantar alto quando vai tocando o seu lóte de bestas, mas essas mesmas cantorias são tão tristes que a gente vê bem claro que alguma cousa o está consumindo e minando por dentro.

Longes terras viajei

Padeci muito na vida.

E o Deus de compaixão

Não me quer findar a lida.

Faço força para ter

Paciencia, meu senhor:

Mas debalde aperto o peito

Atravez rompe-me a dôr.

Coração, meu coração,

Á razão porque não cedes?

Se não ha poder no mundo

Que te dê o que tu pedes...

Porque, pois, tanto affligir?

Palpitar com violencia?

O destino já fallou

E foi falla sem clemencia.

Golpes duros contra mim

Desfechou sorte perjura,

Mas, cruel, deixou-me o nome,

Por chacóta, de Ventura.

Sim, ventura hei de emfim ter

Quando a morte apparecer.

Sim, ventura sentirei,

Quando me sentir morrer.

 

FIM DE JUCA, O TROPEIRO.

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