Historias Brazileiras
Capitulo III
— [15] Biónne, disse-lhe o moço sinceramente commovido.
— [16] Pehehêvo, respondeo ella, pehehêvo!
Levantou então os olhos e contemplou ainda uma vez aquelle que ia deixar para nunca mais vêr; depois voltou as costas e com passo vagaroso tomou rumo de sua choupana tão cheia de seducções ha dias, agora deserta.... deserta....
Para a sua dôr immensa, nem sequer tinha, como india que era, o balsamo das lagrimas, esse orvalho das almas malferidas.
Alberto tocou o cavallo com energia. D’ahi a dous dias chegou á villa de Miranda.
CAPITULO III
Julio Freitas se occupára activamente do regresso, e, como o vapor Alpha estivesse prompto para seguir viagem, veio a presença de Alberto dispensar outra qualquer demora.
—Quanto mais depressa melhor, pensava elle depois de dar a João Faustino as instrucções relativas ao valle do Hetagati.
A lembrança de Ierecê opprimia-lhe o espirito, como se houvera praticado uma acção má. Não era propriamente paixão o que sentia por aquella india, mas uma immensa commiseração acompanhada de verdadeira amizade.
Tres dias se passarão na villa empregados nos cuidados da partida. Na manhã seguinte o vapor levantava ferro.
Á tarde estava Alberto conversando com João Faustino á porta da casa d’este, uma das raras cobertas de telha, na rua da Matriz, quando avistou um velho e uma mulher que vinhão quasi a arrastar-se pelo caminho, prostrados de fadiga.
Erão Morevi e Ierecê, cobertos de pó, arfando de cansaço e de fraqueza.
Correr ao encontro da infeliz rapariga, abraçal-a e leval-a para o interior da casa em que se achava foi o que fez Alberto com a maior espontaneidade, sem hesitação nem vexame, apezar de haver espectadores que podessem o censurar.
O velho, banhado de suor, anniquilado, deixára-se cahir pesadamente no chão ao pé da porta.
Alberto quiz ralhar com Ierecê, mas achou-a tão mudada, que não teve animo. Ella tinha as faces encovadas e tremia de frio e emoção.
—Que farei, Sr. Faustino? perguntou o moço querendo tomar sério conselho n’aquella contingencia.
—Parta, disse-lhe este com firmeza. Esta coitadinha mostra dedicar-lhe uma affeição verdadeira, mas por isso ficará o Sr. retido n’estes sertões? E por quanto tempo? Não ha rapariga que não tenha passado por transes d’esses, mulheres da mais alta sociedade e fortuna, quanto mais estas infelizes que se apegão logo a quem as trata com carinho. Leval-a para o Rio de Janeiro fôra para o Sr. causa de incommodo e de continuo vexame. Além d’isso os encantos de Ierecê que agora podem parecer irresistiveis, perderão muito, caso não se offusquem de todo, comparados que sejão com as bellezas que a arte e a civilisação fazem realçar. As suas relações que aqui erão muito licitas e naturaes tornar-se-ião em qualquer outra parte impossiveis e motivo justo de escandalo. Parta! Escrever-lhe-hei de vez em quando, mostrando-lhe que cumpri exactamente com todas as suas ordens.
Á noutinha a india comeo um pouco, depois de muito instada. O avô porém precipitou-se sobre a comida e devorou-a como se houvesse jejuado todos aquelles dias passados.
A final chegou a hora da partida.
Ierecê foi até o porto de rio Miranda e deitou um olhar de cólera concentrada para o navio que lhe roubava o amante.
Parecia, comtudo, calma.
Alberto, não querendo chamar sobre si a attenção da gente que acudira a vêr o embarque, occupava-se activamente de suas cargas; antes porém de saltar na canoinha que o ia levar ao Alpha já sobre rodas no meio do rio, chegou-se a Ierecê, apertou-a ao peito rapidamente mas com força e, retendo a custo as lagrimas, depositou-a nos braços de Morevi.
Ella tinha perdido os sentidos, e quando uma filha das selvas e da inculta natureza desmaia, é que a dôr a esmagou com mão de ferro n’um paroxismo horrivel; é que o seu coração estalou n’uma contracção de agonia e a sua alma entrou em duvida se era ou não chegada a hora de sahir d’aquelle corpo para ir buscar outro mundo, outros destinos.
Cinco mezes depois de sua chegada ao Rio de Janeiro, Alberto Monteiro recebeo da mala de Cuyabá uma carta extensa que, datada da villa de Miranda, logo ás primeiras linhas o abalou fortemente.
Era de João Faustino.
«Meu amigo, dizia elle, as minhas previsões forão infelizmente erroneas. Ierecê, a bella virgem do Agaxi, já não existe.
«Pouco tempo depois d’ella sahir d’aqui, tive necessidade de chegar ao Lauiad e como o desvio da estrada era insignificante, fiz uma visita ao valle de Hetagati.
«Nem de proposito. Vinha eu assistir á morte d’aquella bella
creatura. Quando assomei á porta do seu [17] rancho, ella deo um grito de jubilo e, reconhecendo-me logo, fez gesto de querer levantar-se da rêde em que estava deitada.
«Sua magreza era extrema.
«Fiquei tanto mais sorprehendido, quanto ella se mostrára, á sahida da villa, tranquilla e resignada.
«—Unái volta? perguntou-me ella com anciedade que me cortou o coração.
«Julgei de caridade mentir.
«—Elle me mandou dizer que já tinha partido do Rio de Janeiro.
«Um sorriso melancolico entreabio-lhe os esbranquiçados labios, e os seus olhos empanados ainda podérão fulgir.
«Depois não disse mais palavra.
«Perguntei ao velho Morevi como chegára Ierecê áquelle estado em tão curto prazo. Contou-me então que desde a volta ao Hetagati, a sua neta não quizéra ou não pudéra mais nem dormir nem tomar alimento. Uma tristeza sombria a acabrunhava, e febre surda mas continua lhe minava as fontes da vida. Debalde, como feiticeiro, conferenciára elle com o acauán; debalde, como sacerdote, cantára noutes seguidas; debalde, como medico, chupára o lugar em que batia o coração para ir cuspir n’uma cova distante o terrivel mal—a nada cedêra a molestia mortal.
«—O portuguez, disse-me em voz baixa Morevi, levou a alma d’ella.
«Observei Ierecê: poucas horas tinha que viver.
«Estava como que adormecida, arfando um pouco. De vez em quando parecia querer sorrir.
«Ao meio dia abrio de repente uns olhos espantados, pedio agoa e expirou, pronunciando em voz, mais e mais baixa, um nome que o senhor hade conhecer.
«—Alber...to... Al...ber...to!
«Vendo-a morta, prohibi que Morevi se entregasse ás expansões de dôr tumultuosa como usa a gente de sua nação, de modo que aquelles uivos e gritos selvaticos com que os chanés pranteão a morte dos parentes, não perturbarão o socego do valle em que tanto havia soffrido um coração.
«Antes de chegar a noute, enrolei o corpo d’aquella bella mulher na rede e enterrei-o no chão do rancho, conforme ella desejára e poucos dias antes pedira ao seu avô.
«Fiz uma cruz e finquei-a á cabeceira da sepultura.
«Ierecê tinha o direito de descansar amparada pelo symbolo da religião do Deos, cujos labios sagrados perdoarão a aquelles que havião durante a vida amado muito.»
Alberto Monteiro chorou largo tempo, e ainda hoje a recordação do amor de Ierecê ennuvia-lhe o espirito e constringe dolorosamente o seu coração.
FIM DE IERECÊ A GUANÁ