Historias Brazileiras
Capítulo II
Fallassem, uns por bem, outros por mal, de sua pobreza, mas não tivessem susto de qualidade nenhuma. A sua familia, sua sogra, mulher e filhos, se Deus lh’os mandasse, nunca havião de ser pesados a ninguem. Graças aos céos, braços não lhe faltavão para sustentar a sua gente, e, se até então ainda não tinha ajuntado bom dinheiro, é que como solteiro botava fóra tudo que ganhava e não fazia conta do futuro.
Agora o caso mudava de figura, e para prova é que elle tratou logo de preparar um montesinho de prata já com vista nos gastos dos papeis de casamento e tudo o mais, além dos presentes que se dão n’aquella occasião.
Emfim quer os moradores quizessem, quer não, Babita e Ventura erão noivos, tinhão já o sim de D. Cula, a unica que podia n’aquelle negocio serrar de cima, e com o favor de Deus e das leis d’este Imperio do Brasil que S. M. D. Pedro I nos deu, estavão contentes como se tivessem ganho o reino do céo.
O casorio ficou marcado para d’ahi a 3 mezes, quando o tropeiro voltasse de uma viagem que tinha de fazer até a cidade de S. Paulo e que já estava paga.
No momento da despedida os noivos chorarão como dous perdidos; mas no coração lhes ficava a quentura da felicidade.
D’ahi a tres mezes!...
II
No tempo marcado voltou Ventura mais amorudo do que quando partira e com as mãos cheias de presentes. D. Cula ganhou um vestido de muito boa seda e Babita uma joia de ouro verdadeiro.
Sim, senhor! não era falsificado. O boticario que entendia de ourives o disse, e o que sabia da boca d’elle era que nem palavra de Evangelho, pelo menos ninguem o tinha pilhado ainda em mentiras.
Emquanto o noivo estava viajando, Babita não ficou de mãos abanando. Tinha cozido todo o seu enxoval e arranjado com os dedinhos o vestido do casamento, que a mulher do commandante superior da guarda nacional fez o favor de cortar e acertar, porque era uma senhora muito estimavel. Tambem a cousa parecia uma maravilha de feitio e assentada.
Mas o que é o destino da gente!
Foi senão quando por este tempo Uberaba poz-se n’uma dobadoura que ninguem na terra se lembrava de cousa igual. Uberaba tão socegadinha! Longe de tudo e de todos no meio de seus sertões!
Não se fallava senão em guerra!
Juca Ventura desde S. Paulo viéra ouvindo contar que o Imperio do Brazil estava n’uma pendencia muito grossa com uma republica chamada do Paraguay, que havia muito fogo de parte a parte, gente e mais gente partia para fóra, que muitos ião por gosto, outros a páo e corda, que o recrutamento roncava feio e forte e os rapazes andavão disparando para os matos, mas como ninguem veio mexer com a vida d’elle e lhe perguntar quantos annos tinha, seguio socegado o seu caminho do interior, sem se occupar com as novidades, a vir se casar, unica cousa que lhe importava n’este mundo.
Eis que encontra na sua cidade a mesma revolução, o mesmo reboliço.
Parece que os negocios não ião bem. O governo da côrte tinha posto nos jornaes que todos devião combater, que a guarda nacional havia de marchar, que era a occasião da gente mostrar a sua coragem e uma lenga-lenga muito grande, tudo para levantar voluntarios.
Minas Geraes, só Minas devia dar seis mil soldados. Imaginem!
Ora Minas é muito grande e tem bastante gente, mas onde é que se ia buscar tanto povo de uma vez para pôr de arma ao hombro! Esses homens lá de cima que governão os outros ás vezes não pensão com juizo. Era uma exigencia por demais.
Alem d’isto todos sabião que tinhão marchado de S. Paulo e de Ouro-Preto duas forças grandes para se juntarem em Uberaba, e d’ahi seguirem para os lados de Mato-Grosso, que os inimigos tinhão tomado á força e onde estavão fazendo selvajarias sem conta nos brazileiros que cortava o coração só de ouvir fallar.
Tudo isto não bastava.
Dous dias depois da chegada de Ventura, espalhou-se na cidade que os guardas nacionaes ião ser reunidos, que muitos havião de seguir com a expedição, que quem desertasse era logo fuzilado e um bando de historias capazes de assustar os mais valentes.
As familias andavão com o coração na mão e com toda a razão, porque não tardou muito e ahi chegarão uns officiaes de 1.ª linha para juntar tropa e ensinar o manejo de arma.
Então é que foi susto!
No meio de todo esse barulho, Babita não tinha um momento de descanço. Juca Ventura era guarda nacional, ainda solteiro: estava na flôr dos annos e podia ser chamado.
—Ah! meu Deus, dizia ella toda em pranto, e se você tiver de marchar?
—Não marcho, não, respondia o tropeiro para lhe dar algum socego.
A mocinha perguntava abaixando a voz:
—Então você deserta?
—Isso nunca! retrucava Juca, nunca fugi de cousa nenhuma! Mas tenho certeza de que não vou. Não me chamão. Você verá...
Esta certeza durou pouco tempo.
Um bello dia o commandante superior da guarda nacional mandou-lhe por um cabo de esquadra aviso, ordenando que chegasse n’aquella mesma hora ao palacio da camara municipal, e ahi, não só a elle, como a mais quinze companheiros fez uma falla meio gaguejada em que disse que era preciso ir acabar com o inimigo, que os brazileiros nunca tinham sido vencidos, que a gente de Uberaba ia ganhar um nome illustre, que todos haviam de voltar com vida e bom dinheiro no bolso, que o Brazil contava com os seus filhos, etc., etc., e depois de toda essa perlenga acabou dando vivas ao Imperador e á Constituição, no que foi acompanhado com muito barulho por outros homens de casaca reunidos a um lado da sala.
Mas ahi é que cabia bem uma pergunta?
Porque é que aquelle commandante superior não marchava tambem para a guerra? Então só lá devião ir os pobres soldados para chuchar bala como terra em pó, e os coroneis e mais officiaes de dragonas cheias a se deixarem ficar muito a gosto e só enchendo as bochechas com patriotadas?
Nada: isso era máo, devéras. Se havia essa necessidade, como diziam, então que todos se sacrificassem.
O pequeno quando vê o grande sahir de seus commodos e mostrar boa vontade, supporta tudo com cara alegre, não assim a empurrar-se gente para obedecer ao governo e mettido na tóca caladinho!...
Assim tambem pensava Juca Ventura, mas elle não disse patavina, e sem demora foi mandado para o quartel, uma casa de paredes altas e vigiada que parecia uma cadeia.
Ali já estavão reunidos uns sessenta homens meios assarapantados que todos os dias ouviam fallas e mais fallas do commandante d’aquelle deposito—um major de linha, mandado de proposito da côrte para ensinar recrutas.
Mas o major debalde punha os bófes de fóra: não havia influencia nenhuma.
Juca Ventura só viu caras muito jururús.
Quando Babita teve conhecimento do que succedêra ao noivo, cahiu n’um desmaio que poz D. Cula tonta; depois as duas choraram juntas até não terem mais lagrimas nos olhos.
Uma carta do coitado ainda mais aggravou as dôres. Via-se bem que elle queria se fazer de forte, mas que estava por seu lado desanimado.
Então D. Cula poz o seu capote comprido e lá se foi ao quartel para ver se trocava alguma palavra com o rapaz, mas não pôde entrar, porque na porta estava um cabo de esquadra de olho arregalado e muito atrevido que passeava como um rei, de um lado para outro, segurando na mão uma espada desembainhada. Quando a boa da velha foi se chegando para mais perto, elle gritou —Passe de largo!—com uma voz de lobis-homem.
Isto contou ella á filha, mas não lhe disse que ouvira o cabo fallar n’uma guerra que houve no tempo de dantes em que elle com mais dois companheiros tinha destroçado quatorze castelhanos, que não era homem de brincadeira e que cortaria pelo meio todos aquelles que quizessem sahir do quartel sem passe do senhor major.
Foi o que elle prometteu fazer e quando fallava alisava o bigode com raiva e rangia os dentes como porco do matto.
Homens assim é que deviam ir para a guerra, já que gostavam tanto da historia, e não uns pobres moços socegados que tinham suas familias ou estavam em vesperas de formar casa. Fosse lá o
tres contra quatorze [25], mas não uns guardas nacionaes que nunca haviam feito mal a ninguem.
Eram estas as reflexões de D. Cula, reflexões, que ella não passou a ninguem, porque não gostava de metter o bedelho nos negocios geraes, entendendo com razão que as mulheres, quando se atiram a discursar nestas e n’outras cousas, dizem por força desacertos.
Passou-se um bom par de dias até que a boa senhora podesse trocar lingua com Juca o tropeiro. Elle estava socegado, e entretanto bastante murcho, não que o dissesse, mas pela cara logo se via isso.
O recado que elle deu para Babita não acabava mais de comprido, mas em duas palavras queria dizer amor para sempre.
Por esse tempo os guardas nacionaes fechados e trancadinhos no que se chamava quartel e que já continha uns centos de pessoas, receberam uma bandeira novinha em folha, toda bordada a ouro, cousa em fim muito rica e vistosa.
Houve muita pancadaria de musica, muito foguete do ar, estouros de bombas, e fallatorios compridos e cheios de enthusiasmo.
O commandante superior tomou novamente a palavra e disse que com o contingente mineiro a guerra havia por força de acabar, que Uberaba ia dessa feita para a historia, que todos deviam marchar com a maior alegria e que aquelles que desertassem haviam de receber castigo de Deos e dos homens. Mas o espertalhão não prometteu dar o exemplo e tomar parte nos perigos e honrarias. Isto fiava-se mais fino.
Fallaram em seguida o major de 1.ª linha e o cirurgião, ambos com muito fogo, e no fim do seu palavreado, todos romperam em vivas ao Brazil, e morras ao Paraguay, que a casa parecia querer vir abaixo.
O cabo tres contra quatorze já com algumas garrafas de cerveja no bucho, esbugalhava uns olhos muito graúdos e fazia com os dentes tal barulho que semelhava não um caitetú, mas uma vara inteira de porcos. Elle pedia a um recruta, vindo na vespera da Bagagem e que estava tremendo de susto, que fosse buscar oito ou dez castelhanos, armados de lança e espada, para vêr como n’um instantinho os havia de cortar em pedaços miudos.
Acabados os discursos, cada guarda nacional, chamado por uma lista de nomes, veiu jurar por baixo da bandeira e com a mão aberta sobre os Santos Evangelhos em como havia de defender até a morte o Imperador e a Constitução e nunca desamparar o seu posto de honra.
Quem disse o juramento foi Juca Ventura e, a fallar a verdade, n’esse momento o coração lhe tremeu dentro do peito. Os companheiros diziam sim, sim, mas eram uns sim muito chochinhos que em muitos parecia mais um soluço do que uma promessa que só Deos podia quebrar.
Depois retirarão-se os convidados; apagou-se a illuminação— meia duzia de lanternas de papel—e o quartel ficou todo ás escuras, guardado por uma sentinella que chorava baixinho e pelos roncos de tres contra quatorze.
O valente cabo de esquadra ao entornar os ultimos cópos deixou-se cahir na porta estirado a fio comprido, como que para impedir com o seu corpo a escapúla de algum medroso.
Na grande sala que servia de tarimba tudo era silencio e trevas.
Juca Ventura, depois de dar um suspiros arrancados do fundo d’alma, pegou a dormir e a sonhar com Babita.
De repente alguem o puxou por um braço.
—Que ha de novo? perguntou o mineiro ainda tonto de somno.
—Falle baixo, murmurou alguem.
—Mas o que ha? replicou o outro abaixando a voz.
—Somos nós, responderão quasi que ao mesmo tempo cinco ou seis mas tão baixinho que parecia um sopro.
Erão alguns guardas nacionaes, todos filhos de Uberaba.
—Juca, continuou um d’elles, nós viemos convidar vancê para abrir campo. Parece que o negocio vai ficando sério e que chegou a hora de cada um cuidar em si.
Ventura respondeu com um gemido abafado.
—Ah! rapazes, minha intenção era essa, mas agora...
—Agora, o que?
—Agora não posso.
—E porque?
—A sorte não quiz. Jurei com a mão posta no livro sagrado, e decididamente hei de ir por estas terras afóra. Deos Nosso Senhor me dê coragem...
Houve silencio no grupo.
—Mas... então, disse com hesitação um d’elles, vancê... não vá... dar parte de nós...
—Deos me livre! respondeo Ventura. Cada qual tome o rumo que quizer. Eu não jurei que havia de guardar os outros, mas só de levar o meu vulto a defender o Brasil.
E, cobrindo a cabeça, voltou-se para para o outro lado.
De manhã vio-se que havião desertado quinze guardas nacionaes e que a sentinella do portão tinha tambem batido a linda plumagem.
Mas eis que na cidade entrárão n’um dia de sol claro, umas machinas exquisitas, canos feitos de bronze, assentes em grandes rodas e acompanhados de um trem pesado, tudo puchado por muitas juntas de bois.
Essa machinada vinha com muito barulho e pôz em reboliço todos os moradores.
—Que é isto? Que não é? perguntavão elles porque nunca tinhão visto artilharias.
Babita com os olhos razos d’agua, vio passar pelas janellas da casa aquella procissão capaz de metter medo aos mais valentes e soube que aquelles canudos ião para Matto-Grosso para fazer fogo nos paraguayos.
—Meus Santos do Paraiso, exclamou D. Cula pondo as mãos de admirada, que peccado atirar em christãos com bacamartes d’esses!
Na noute da chegada da artilharia desertárão de pancada quarenta guardas nacionaes, e ninguem mais lhes poz o olho emcima.
Tres contra quatorze andava damnado e gritava, no meio da praça da matriz, que aquillo era uma pouca vergonha e que elle só com um cacete curto era bastante para dar conta de todos os moradores de uma cidade tão medrosa e—com perdão da palavra— safada, assim dizia o cabo de esquadra.
Pouco tempo depois chegou de Ouro Preto a brigada mineira que foi acampar no Cachimbo, a uma legua de Uberaba, brigada luzida, linda mesmo e capaz de influir a preás do campo... mas qual!... de noute fugirão mais vinte dos aquartelados.
Só ficarão Juca Ventura e dous companheiros.
Ah! Quanto custára a tropeiro resistir à correnteza do exemplo e deixar-se estar quietinho quando os mais abrião pernas e ião cuidar da vida! Quanta coragem para dizer «não» á Babita que todos os dias, todos lhe mandava recados que fugisse, que não fosse tolo, que ella não podia mais viver assim e era noiva de um ingrato, e não sei o que mais, e mil cousas e ditos de fazer sangrar o coração.
Mas elle tinha jurado!
Quando no quartel não restarão senão tres homens, o commandante superior, não se fiando n’elles, mandou trancafial-os sem crime nem culpa na cadêa. Queria ao menos segurar bem esses ultimos.
Ventura baixou a cabeça e lá foi indo.
Já então havião chegado umas forças de S. Paulo e estava marcado o dia 4 de Julho de 1865 para a partida de toda a expedição que devia se internar pelo sertão bravio á procura do inimigo.
Na vespera d’aquelle dia terrivel, Babita veiu despedir-se do noivo que estava como um desgraçado galé encostado ás grades da cadêa.
—Ah! minha amada, disse Ventura pegando-lhe na mão, isto é que é ser desinfeliz de uma vez!...
—A culpa é de vassuncê, respondeu a moça soluçando.
—Mas se eu puz a mão no livro sagrado e jurei!... Foi destino...
—Eu não posso, interrompeu D. Cula, dizer que vassuncê faz mal... entretanto...
—O que devemos fazer, disse o coitado depois de uma pausa em que todos os tres choravam, é não perder a coragem... Eu vou para a guerra, é verdade; mas isso não quer dizer que já esteja defunto. Hei de voltar com toda a certeza, e então seremos felizes para sempre... Tenho o meu amor para me salvar. Agora, Babita, eu lhe peço uma cousa: seja sempre fiel ao seu noivo. Quanto a mim lhe juro pelas sete chagas de Nosso Senhor Jesus Christo que, na batalha ou no descanço, não haverá uma só hora que eu deixe de pensar em quem tanto quero.