Infelizes: Histórias Vividas

Ana de Castro Osório · Capítulo 11 de 21

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Infelizes: Histórias Vividas

Cúmulo

 

 

Trabalhava muito, a mulhersinha. Era para admirar como um corpo tão debil podia com tanto. Ella era os recados, a lavagem das casas, as compras...

De manhã passava avergada por grandes cabazes, onde as cebolas côr de rosa conversam amigavelmente com os pimentos d'um bello verde de porcelana, a couve abre grandes folhas já murchas cobrindo as batatas ainda com terra, as cenouras doiradas, o raminho de salsa cheirosa e a carne junto da escama prateada do peixe é uma sangrenta mancha—como ramo de cravos n'um corpete branco. A extravagante mistura que as cosinheiras recebem torcendo o nariz, ralhando com as pobres compradoras e por fim acommodando-se, vencidas pela avalanche de commentarios e explicações... Tudo pela hora da morte! Não ha quem possa chegar á mais insignificante coisa! E cada vez peor. Verão que os pobres hão de morrer de fome qualquer dia!...

Com um sorriso estagnado, magrinha, grave, trabalhava muito, muito. Silenciosa, sem incommodar ninguem, passava ou, melhor, escoava-se por entre a multidão como um peixe dentro d'agua por entre os dedos da mão que o quer segurar. Não faltava ás missas, ouvia recolhida todos os sermões, frequentava as novenas, mas não tinha excessos devotos. Tudo fazia comedidamente, sem nenhum exagero.

Não sei como dizer em phrase vulgar a sua figura tenue. Que isto não dá a ideia, não completa a impressão que d'ella fica, leve como um desenho mal esboçado a esfuminho quasi limpo... Honesta, vestidinha d'escuro, aceada, faz gosto vê-la. Tem um ar senhoril, distincto, quasi d'uma velha fidalga sem fortuna que precisa agradar.

As filhitas andaram sempre muito arranjadinhas. Emquanto pequenas, era mesmo um encanto. Fatos velhos talvez, mas tão gentilmente postos, que ao vê-las dir-se-hia que eram duas meninas ricas. No collegio não se confundiam com as mais pobres, não. Mal ficára viuva deixára a renda na almofada encher-se de pó, amarellar com o tempo e confundirem-se os bilros n'uma indesmanchavel meada.

Viuva?!...

Se ella acaso o era!... Que o marido embarcára e ha dezeseis annos que não sabiam d'elle. Tantas vezes navegára n'aquelle navio mercante e sempre voltara tão alegre, trazendo tanta coisa estranha de paizes distantes, que ella nem comprehendia que podessem existir!.. O que o pobre homem ria de gosto com os espantos da sua mulhersinha! Porque a amava muito, apezar do seu feitio rude, das suas maneiras largas d'embarcadiço; morria por ella e pelas pequenas. Não pensava em mais nada, nas longas viagens trabalhosas por esses mares fóra.

E dezeseis annos sem dar conta de si—decerto que tinha morrido!... Mas sem o confessar, no fundo do coração alimentava ainda uma esperança... Custa tanto acreditar na morte das pessoas amadas, mesmo quando deixam de soffrer deante dos nossos olhos!... Que fará, assim?!...

As raparigas eram bonitinhas, belleza da mocidade, uma certa finura da mãe, com os instinctos aventurosos do pae, talvez. Queriam luxo, muito fato, como as outras. Côres claras, leques, fitas, plumas, rendas... coisas tão caras, mesmo quando ordinarias, para uma pobre mulher que mal ganha para a comida. Quantos recados era preciso fazer; quantas casas esfregar! Por mais que se estafasse não chegava a nada. Sempre as outras melhor do que ellas; sempre as raparigas a grazinar.

Um dia, furtivamente, tirou uma renda de sobre o mostrador d'uma loja de modas, onde comprava para outros o que tanto desejava para as filhas. E que linda golla fizeram! D'ahi em deante, nas casas que servia, ia tirando sempre, sempre, na tentação que crescia como serena maré n'um mar feito de lama amornada. Abria as gavetas, desapparecia dinheiro... desconfiavam e despediam-na. E as raparigas que desejavam blusas novas, casacos, lenços!... Por fim, até chapeo. A pobre mulher, que não tinha remedio a dar-lhe, dobrava-se sobre si mesma, compungida da sua desgraça. Não era remorso; era pena de não ter a quem roubar, devagarinho, sem haver escandalo.

Um dia, cançadas de não terem o luxo que desejavam, abalaram as duas deixando a mãe a governar-se sósinha. E ella—nunca mais tirou nada a ninguem! É tão fiel, tão honesta, que não haveria perigo em lhe confiar uma fortuna.

«Que as filhas são muito boas...—murmura a pobre, muito convencida,—dizem por ahi mal d'ellas; mas tudo é inveja. Coitadinhas, andam bem vestidas, andam, mas isso o que tem? A mais velha hade casar em morrendo a mulher do homem que a sustenta... E Deus hade fazer esse milagre!—Sinceramente o pede nas suas fervorosas orações.—A outra casa para a paschoa, com um empregado publico. Vive como senhora.»

E ha quantos annos que ella espera essas boas festas!...

 

Setembro de 96.