Infelizes: Histórias Vividas

Ana de Castro Osório · Capítulo 13 de 21

Páginas do PDF

Infelizes: Histórias Vividas

Entardecer

—«Cá, tens os teus filhos, Rosa. Hade dizer-se que não gostas d'elles!... Isso é tentar a Deus, rapariga!»

—O sr. vigario que perdoasse; ella gostava dos filhos—pois se eram seus filhos, não havia de gostar!—mas o seu menino era outra coisa! Tão lindo, tão esperto, tão bem vestido!... Que Deus lhe perdoasse, mas tinha-lhe tanta affeição, que o não podia esquecer!... E beijava o seu retrato, chorando.

O vigario, depois de dar os seus conselhos, affastou-se resmungando:—«o démo da mulher! Se não conhecesse a casa onde esteve e não soubesse que foi sempre uma boa rapariga, até desconfiava d'aquellas lagrimas! Emfim... Decerto que o filho da viscondessa é bem mais bonito do que os negritos do Antonio Marques, mas são filhos, afinal!...»—E rematava sentencioso—o demonio são as mulheres! Umas adoram os filhos mais do que ao proprio Deus; outras até os matam; esta quer mais aos alheios que aos d'ella!... Ha de tudo cá por este mundo!»—E lá se ia á missa primeira, esfregando as mãos geladas pelo nordeste, levantando, a golla de pelles do casaco, batendo com as botas-tamancos na calçada, para aquecer os pés.

 

Outubro de 96.

Decoração de Pagina

 

ENTARDECER

Decoração de Pagina