Infelizes: Histórias Vividas
Sombras
Para a minha rica mana Rosa!...»
Por acaso, n'uma caixa aromatica de xarão vinda de minha avó, encontrei um dia, entre pequenas coisas d'outro tempo e cartas de familia, uma que decerto foi—ha muitos annos já—lida e relida por uns adoraveis olhos azues que bastante devem ter chorado as tristezas do exilio...
Velha carta amarellecida, quebrada de antigas dobras, n'um antiquissimo papel—como ella evoca, ao meu espirito historias quasi phantasticas para nós, d'essas existencias decorridas ha tantos, tantos annos!...
«Minha querida mana Rosa do meu coração!...»
São adoraveis essas cartas d'antigamente, feitas com uma simpleza e uma ingenuidade quasi infantis—como não somos já capazes de fazer! E elles sentiam tanto como nós sentimos; mais ainda talvez...
Não eram as separações quasi eternas? Quem poderia esperar, ao sahir de Macau, n'uma longuissima viagem em navio á vela, que decorridos annos tornaria a ver essa familia muito querida, deixada por outra mais querida ainda?!
Quanta amargura, quanta tristeza, nos dizem essas pequenas cartas criancilmente simples, a quasi nos fazer sorrir! É que a alma humana não tinha chegado ainda á suprema tortura de se sentir pensar, de se saber despedaçar aos bocadinhos, palavra por palavra, lettra por lettra, lagrima por lagrima!... Não tinha chegado ainda ao espiritual impudor com que nós procuramos traduzir em phrases bem redondas, bem nitidas, bem palpitantes, a amargura que nos cava fundo no coração.
Ao dar com essa singela carta de ha muitos annos, uma grande sympathia, envolta em uma especie de saudade, me veio por as encantadoras figurinhas do tempo passado, sorridentes, frageis, movendo-se musicalmente na graça antiga do minuete passeado...
Vejo-as: com os seus grandes chapeos á directorio, de cintas muito curtas e leques de plumas, levantando graceis os vestidos compridos,—mostrando, n'uma coquetterie quasi infantil, a meia de seda clara arrendada, com fitas a enlaçar, como era a moda.
Têm uma doçura pallida, um encanto murcho d'outros tempos, um perfume apagado, immaterial,—essas historias tão graciosas e tão puras.
É com meiga tristeza que recordâmos todas as que foram lindas e amadas ha muitos annos e hoje desapparecem no pó!... Finas silhouettes que os nossos filhos nem já saberão distinguir no montão de saudades que lhe vamos accumulando!
É um delicado prazer do espirito relembra-las assim, uma por uma, essas empallidecidas figuras de mulheres formosas vestidas com antigos trajos—que eu só posso imaginar bonitas e moças, e tão velhinhas seriam se ainda podessem existir!
E foram bellas e foram novas e foram amadas—essas que hoje não são mais do que sombras!
Mas para escrever uma historia d'essas—feita de ligeirissimos esboços, de recordações muito vagas, quasi de tenuidades de sonho...—quanta concentração de bondade, e delicadeza e amôr é necessario?!...
Ao olhar, ao tocar um pequenino retalho de seda que serviu outr'ora n'um vestido de noivado,—toda a nossa alma hade estremecer n'uma saudade fugitiva, o nosso coração vibrar palpitando, como proprias, as alegrias e as tristezas de todos aquelles que no mundo passaram...
É como se os vissemos diante de nós, sangrando ainda todo o amargo soffrimento da vida...
Minha querida mana Rosa...
Rosa—apesar de se chamar Anna, essa linda irmãsinha, a que o rosado das faces déra esse nome deliciosamente familiar e perfumadamente fresco—n'uma calligraphia larga, antiga, n'um portuguez estrangeirado, ella vae dizendo as saudades e as tristezas que a vinda para Portugal da irmã mais amada lhe deixára na alma.
Nem um grito, nenhuma revolta. Na rectidão do seu espirito de ingleza essa partida era um dever sagrado, que não se devia amargurar por inuteis lagrimas.
E nada litteraria essa ingenua carta d'uma doce e loira inglezinha nascida lá muito longe, na velha terra de Macau. Conselhos para a viagem, d'uma graça toda maternal e muito prática:—«Não he bom tomar caldo de gallinha emquanto está enjoado. Hade fazer muito mal. Eu mando dôce de laranja. Diz que é muito bom comer quando está enjoada. E um pouco de gengibre salgado. Deixa ficar um bocado na bocca, sempre...»—E por fim, quasi n'um soluço: «Adeus minha querida mana, mande noticias suas sempre, para socegar este afflicto coração.»—Saudades, beijos aos sobrinhos,— assignado: Julianna Moor.
Ao ler este nome eu recordei, quasi involuntariamente, toda essa historia, bem certa, que minha avó contou aos filhos, que os filhos nos contaram a nós.
Sim, era ella, foi ella, essa pobre e querida irmã deixada para sempre, que á despedida lhe disse:—«ai minha rica mana que não nos tornâmos a ver!... Mas eu irei despedir-me de ti!...»
E veio. É tão sympathica ao meu espirito essa pequena historia, ouvia-a tanta vez contada por minha mãe—que eu tambem a posso contar como se a ella assistisse.
Primeiro, eu as imagino, a essas candidas figuras d'inglezitas, vestidas de seda clara, muito loiras, com a ingenuidade idealista da sua raça, apaixonadas aos quinze annos por estrangeiros, que as levariam para longe—o pae bem o previa!.. Mas n'essa idade quem presente as lagrimas que as alegrias trazem comsigo?!
E tambem a contemplo, á minha linda avósinha, com os seus deliciosos quinze annos, o cabello muito loiro em bandós encaracolados, uma fita estreita a fazer a cinta debaixo dos braços, os hombros quasi infantis a destacarem muito brancos na seda rosa do vestido imperio...
Muito linda, muito linda! Tal qual me sorri na miniatura encantadora que tenho aqui diante dos meus olhos.
E a outra devia ser parecida—quasi eguaes, como duas pombas sahidas do mesmo ninho. Alegres e felizes ambas por bastantes annos ainda, na terra que as vira nascer, crescer e amar. E os filhos da outra, tão amados por ambas que só na separação distinguiram a verdadeira mãe...
Mas tinha de ser. Uma vinha para Portugal na nova familia que ella criára; tão estremecidamente amada no dia em que morreu como no dia em que casou. A outra lá seguiu com o marido para Goa, na logica dos seus destinos e da sua raça.
Mas uma noite...
Já muitos annos tinham passado; aquella que fôra uma gentil criança era então uma formosa mulher, ao de leve empallidecida, de sorriso a murchar, conhecendo já o amargôr das lagrimas... Ella não esquecêra ainda essa familia querida, deixada tão longe, deixada para sempre!... E a irmã, que amava mais que a todos, quando a veria?... Pedia-lhe o coração que fosse bem tarde—porque era uma certeza para o seu espirito que só á alma, desprendida do corpo para sempre, seria dado esse infinito prazer...
Uma noite ella dormia serena, junto do marido, quando uma voz a chamou de manso... Como não acordasse de todo, julgando-se a sonhar,—tres pancadas dadas muito de leve na cama despertaram-na completamente.
Era ella, a irmã muito querida, n'uma sombra suave, que não assustava ninguem. Sentava-se-lhe á cabeceira, sorria, dizia-lhe n'uma caricia de voz ciciada:—«Cumpro a minha promessa, venho despedir-me!...»—E muito baixo, com uma infinita magua de mãe: —«Ah, custa-me muito deixar a minha Julianna! É a mais nova... E não lh'a poder entregar!...»—Levantando-se, desvaneceu-se silenciosamente n'um raio de luar que vinha pela janella mal fechada.
Ella olhava, olhava ainda, procurando na solidão do quarto a imagem da irmã, que lhe apparecia tal qual era e tão differente do que fôra! Só a voz era a mesma. De resto—quasi a não poderia reconhecer n'essa ligeira sombra vestida á moda do tempo, tão differente d'aquella em que a deixára: a cinta muito comprida, a saia de largo balão, o fechu de rendas que aconchegava com a mão esguia, muito fina, ao pescoço nu!
Era ella, bem certo que era ella!... A côr do vestido ficou-lhe bem nitida na memoria—azul pallido, quasi prateado...
Os soluços suffocavam-na, chorava sem consolação a amada morta que se viera despedir a tantas leguas de distancia!
Foi em vão que o marido a quiz convencer a esperar noticias. Elle escreveu logo confiando em que a resposta á sua carta a tiraria d'aquella tristissima impressão... Para ella é que não havia duvida possivel!
E a fatal noticia—que a morta viera trazer n'uma noite de luar tão branca como a santa amizade que as ligára—só passados seis mezes era confirmada por cartas vindas de Goa.—«E na ultima hora, minha querida tia, a minha mãe fallava em V. Ex.ª...»
É bem dolorosamente triste essa pequenina carta em lettra miudinha, de myope, fragil como o coração da pobre orphã abandonada tão longe dos seus!—Familia talvez em França, de onde era o pae, familia em Macau, familia em Portugal... Em Goa, elles sós! Como é triste essa carta, triste a fazer mal! Pobre pequena carta que eu guardarei eternamente—a relembrar as vagas, esparsas tristezas d'exilada que me andam na alma...
E mais tarde, morta a minha avó rodeada de filhos e netos, feliz na serenidade do seu lar, que ella soube sempre fazer tão querido, —a que longinquos paizes iria a sua alma peregrinar em amorosa despedida a algum dos seus?!...
Fevereiro de 96.
Decoração de Pagina
Da mesma auctora:
PARA AS CRIANÇAS
(PUBLICAÇÃO MENSAL)
1.ª serie; 2.ª edição 400 rs.
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Romance (no prélo).
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