Infelizes: Histórias Vividas

Ana de Castro Osório · Capítulo 18 de 21

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Infelizes: Histórias Vividas

A Terra

Ás vozes mudas da natureza juntar-se-ha a sua voz—queixume de triste desdenhada pelo egoismo dos homens.

 

18 de junho de 96.

Decoração de Pagina

 

A TERRA

 

Decoração de Pagina

A TERRA

 

Quando um homem se apega á terra, ella é por vezes d'uma ingratidão que chega a revoltar. Com a sua impassibilidade de coisa morta irrita o amôr até ao fanatismo, leva á loucura.

O Manuel Carpinteiro não tinha mulher, nem filhos, nem sobrinhos, ninguem que lhe ajudasse a levar a vida alegremente, que pelas manhãs o acordasse com sonoras alvoradas de risos.

Vivia só, n'um casinhoto ao cimo da villa. Elle mesmo fazia o caldo e cosia umas batatas; a brôa comprava-a de caminho em casa da sr.ª Candida, quando á noite recolhia d'enxada ao hombro, tristonho, indifferente, para alli uma coisa sem nada lhe importar. Passava pelas mulheres com uma completa indifferença de desconhecido. Era um simples cavador, mas chamavam-lhe carpinteiro porque o pae o tinha sido; já em garoto alcunhavam-no de Manél do carpinteiro; depois, com o tempo, por abreviatura, ficára com aquelle nome.

Á custa de muita avareza e muita miseria arranjou meia duzia de vintens, e tanto pediu, tantos empenhos metteu, que na camara lhe emprasaram um bocado de serra. Mas, como a pobresa é muita n'aquella região, o povo miseravel toma os maninhos como proprios. Ninguem lhes pode tocar, sob pena de revoltas e gritos do mulherio, dos sem eira nem beira, que por vezes teem percorrido a villa esbracejando, cabellos desgrenhados, lenços escarlates a agitarem-se como bandeiras de guerra.

Os invernos são rudes e os desgraçados vivem da serra como animaes inferiores. Queimam pelas noites bravas d'invernia os sargaços verdes, que enchem de fumo os casebres e nem ao menos se desfazem crepitando risos d'oiro. Vendem aos lavradores mólhos de fetos para comprarem o pão de cada dia e as ovelhas teem o seu magro pasto por essa serraria além, entre pedreiras e pinhaes.

Temendo um levantamento, os graves senhores da camara emprasaram ao Manuel carpinteiro uma courella de terreno inculto— aquillo que não prestava para os outros.

O povo todo explodiu n'uma sonora gargalhada:—que ia fazer aquelle maluco com um bocado de maninho tão secco? Por mais que se matasse nunca lhe daria senão uma reles terra centeeira...

O Manuel arreliou-se fortemente com esses ditos e, cabeçudo como um verdadeiro beirão, arranjou uma cabanita, no meio da belga e alli vivia como um selvagem.

Trabalhava desde que o sol vinha, irrompente, até que se escondia nos poentes gloriosos dos dias longos do estio. No inverno apanhava a pé firme as chuvas, a neve, o vento e o frio. Era um labutar sem descanço, e ella, a ingrata, pagava-lhe com umas anemicas paveias de centeio, que ondeavam pallidamente, mostrando a terra branca de seixos como dentes descarnados de rapariga tysica. Elle mesmo assim a adorava, a essa belguita que ia fazendo com o seu trabalho, regando com o suor do seu rosto. Em metade plantou um bacello, mas a uva não amadurava; deu-lhe um vinho palhete muito leve, muito agradavel, mas para vender era uma desgraça—nenhum negociante lhe pegava. E no emtanto elle amava-a como se fosse uma mulher formosa, sempre prompta a pagar-lhe em sorrisos os cuidados de que a rodeava.

O que lhe falta é só agua,—dizia elle sombriamente—o mais é uma terra nova, boa de lei. E continuava a revolve-la com a ansia de quem procura thesouros. Vinham homens entendidos, os védores, ensinar o bom sitio para fazer os poços, mas tinha que os entulhar logo, quasi desanimado. Agua, onde é que ella apparecia alli?! Só a tal profundidade, que era absurdo pensar n'isso.

E o povo a rir, a rir perdidamente do desgraçado!..

Picado por esses risos, foi hypothecar a belga e metteu jornaleiros a cavar, até darem com o sangue da terra. Pedras e só pedras é que appareciam, depois, rocha viva, que foi preciso despedaçar a tiro. E elle chorava, o pobre homem!

A face distendeu-se-lhe pela primeira vez, n'um sorriso satisfeito, no dia em que um delgado fio d'agua borbulhou no fundo do poço. Balbuciava coisas sem nexo ria por entre lagrimas que lhe avermelhavam os olhos. Nem parecia o mesmo; a alegria quasi o endoideceu. Depois de ter o poço completamente forrado, tinha ainda pedra de sobejo para murar a territa; e elle tudo era pensar em grandezas.

Porque o povo começava a inveja-lo, quiz ir até ao fim, começando pelo largo portal para carro...

Mas a terra não dava os juros a dez por cento que o triste pagava —ella que apenas rende, quando muito bôa a cinco. Fallavam-lhe em penhoras, desgraças... e o rude camponio começou d'andar aturvado de juizo.

Passava dias a olhar o fundo do poço onde a agua se mostrava estagnada, negra, e ao mesmo tempo fascinante—como a prometter-lhe descanço no interior da terra bem amada.

A propriedade era tão nova que nem os fetos denticulados em primorosa renda o revestiam de verdura, nem a avenca delicada lançára ainda entre o musgo as suas hastes muito finas!...

E horas e horas que elle levava sobre uma fragil tábua, agarrado á varella do engenho com os seus braços cabelludos e fortes, fazendo descer o balde ao fundo para o tirar cheio d'agua fria, que, entornada na piasita ao lado, se ia perder na terra empapada!...

Queria muita, muita agua—era a sua ideia fixa. Parecia-lhe que só assim ella lhe daria todo o seu dinheiro. Os paus do primivo engenho, friccionados no balanço compassado, rangiam lugubres soluços, atiravam para o espaço uns gemidos estertorosos.

O desgraçado até já mettia medo, com os olhos encovados e emfebrecidos, com a magresa musculosa do seu corpo affeito a trabalhos e fomes.

Levaram-n'o então para a villa; mas os cuidados d'indifferentes servem de pouco. Ninguem mesmo se atrevia a guarda-lo de noite porque as passava a gritar—que o diabo estava alli, que um gato preto o queria afogar, que lhe roubavam a fazenda!...

Mal o sino das ave-marias dava a ultima badalada—que se envolve já nos murmurios nostalgicos da noite que se avisinha; o chocalhar dos rebanhos recolhendo ao curral, os carros chiando torturadamente, as cantigas e os risos das raparigas na fonte, as rãs, os grillos e ralos que dispertam para a sua faina palreira— fechavam-lhe por fóra a porta do casebre e deixavam-no sósinho esbravejar e gritar á vontade.

Até que um dia saltando da cama conseguiu arrombar a porta e a correr chegou á propriedade.

Quando de manhã deram por falta do Manuel, foram procural-o á fazenda. Decerto que não fugiria para outro sitio. Todo o camponez comprehende aquella loucura. Foram encontra-lo no fundo do poço. Um rictus medonho mordia a sua face desvairada—nem a morte conseguira pacificar aquella physionomia roida de ambições e terriveis desenganos!...

 

No fim de tudo, quem ganhou foi o uzurario que lhe emprestára o dinheiro e ficou com a belga, já feita, pela divida pequena do pobresito.