Jogos Vorazes

Suzanne Collins · Capítulo 11 de 28

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Jogos Vorazes

Capítulo 10

Por um momento, as câmeras focalizam o olhar abatido de Peeta enquanto suas palavras são absorvidas. Então, consigo ver meu rosto – a boca quase aberta numa mistura de surpresa e protesto – aumentado em todas as telas enquanto me dou conta do que está acontecendo. Eu! Ele está falando de mim! Pressiono os lábios e miro o chão, na esperança de esconder as emoções que começam a se agitar dentro de mim.

– Ah, isso sim é falta de sorte – diz Caesar, e há realmente uma pontinha de dor em sua voz.

A multidão está murmurando em concordância, algumas pessoas já deram até uns gritos de agonia.

– Não é uma coisa legal – concorda Peeta.

– Bem, acho que todos aqui entendem sua situação. Seria difícil não se apaixonar por aquela jovem – diz Caesar. – Ela não sabia?

Peeta balança a cabeça.

– Não até agora.

Permito que meus olhos se fixem na tela de televisão o tempo suficiente para ver que o rubor em meu rosto é indisfarçável.

– Vocês não iam adorar se ela voltasse aqui e desse uma resposta? – pergunta Caesar ao público. A multidão berra em concordância. – Lamentamos muito, mas regras são regras, e Katniss Everdeen já esgotou seu tempo. Bem, toda a sorte pra você, Peeta Mellark, e acho que estou falando por toda Panem quando digo que nosso coração está com você.

O barulho da multidão é ensurdecedor. Peeta arrasou com todos nós definitivamente com sua declaração de amor a mim. Quando o público finalmente se acalma, ele deixa escapar um soluçante “Obrigado” e volta para seu assento. Nós nos levantamos para o hino. Tenho de erguer minha cabeça por conta do respeito patriótico e não consigo deixar de reparar que todas as telas estão agora dominadas por uma imagem minha e de Peeta, separados por alguns metros que, na cabeça dos telespectadores, jamais poderão ser apartados. Que tragédia a nossa.

Mas sei que não é bem assim.

Depois do hino, os tributos voltam enfileirados para o saguão do Centro de Treinamento e entram nos elevadores. Faço questão de entrar num que não esteja com Peeta. A multidão obriga nosso séquito de estilistas, mentores e acompanhantes a andar devagar, de modo que só os tributos acabam entrando nos elevadores. Ninguém dá uma palavra. Meu elevador para para depositar quatro tributos antes que eu consiga ficar sozinha e então vejo que as portas se abrem no décimo segundo andar. Peeta mal saiu de seu elevador e bato a palma da mão com força em seu peito. Ele perde o equilíbrio e se choca com uma urna horrível cheia de flores falsas. A urna se parte em centenas de pedacinhos. Peeta cai sobre os fragmentos e imediatamente começa a sair sangue de suas mãos.

– Pra que isso? – pergunta ele, estupefato.

– Você não tinha o direito! Não tinha o direito de sair dizendo aquelas coisas sobre mim! –

grito com ele.

Agora os elevadores se abrem e toda a equipe está lá, Effie, Haymitch, Cinna e Portia.

– O que está acontecendo? – pergunta Effie, um tom de histeria na voz. – Você caiu?

– Depois que ela me empurrou – diz Peeta, enquanto Effie e Cinna o ajudam a se levantar.

Haymitch se volta para mim.

– Empurrou ele?

– Isso foi ideia sua, não foi? Fazer com que eu parecesse uma idiota na frente do país inteiro!

– Foi ideia minha – diz Peeta, estremecendo ao retirar algumas farpas de suas mãos. –

Haymitch só me ajudou.

– Sei, Haymitch é muito prestativo. Pra você!

– Você é uma idiota mesmo – diz Haymitch, chateado. – Você acha que ele te magoou?

Aquele garoto deu a você uma coisa que você jamais conseguiria por conta própria.

– Ele me fez parecer fraca!

– Ele fez você parecer desejável! E vamos encarar os fatos, você pode usar toda a ajuda que conseguir nesse departamento. Até ele dizer que te queria, você era tão romântica quanto um monte de sujeira. Agora todos te querem. Vocês dois estão monopolizando todas as conversas. Os dois amantes desafortunados do Distrito Doze! – diz Haymitch.

– Mas nós não somos amantes desafortunados! – retruco. Haymitch segura meus ombros e me encosta contra a parede.

– Quem se importa? Isso aqui é um grande espetáculo. O que importa é como você é percebida. O máximo que eu poderia dizer sobre você depois de sua entrevista é que você era uma pessoa legal, embora isso já fosse um pequeno milagre por si só. Agora posso dizer que você destrói corações. Oh, como os garotos lá do seu distrito caem aos seus pés. Qual vocês acham que vai receber mais patrocinadores?

O cheiro de vinho no hálito dele me deixa enjoada. Retiro suas mãos de meus ombros e me afasto, tentando clarear a mente.

Cinna se aproxima e me abraça.

– Ele está certo, Katniss.

Não sei o que pensar.

– Alguém devia ter me dito, para que eu não ficasse com aquela cara de idiota.

– Não, sua reação foi perfeita. Se você soubesse, não teria parecido tão real – diz Portia.

– Ela só está preocupada com o namorado dela – diz Peeta, rispidamente, jogando longe um pedaço da urna cheio de sangue.

Minhas bochechas queimam novamente ao pensar em Gale.

– Eu não tenho namorado.

– Não importa – diz Peeta. – Mas aposto que ele é suficientemente esperto para identificar um blefe. Além do mais, você não disse que me amava. Então, qual é o problema?

Estou absorvendo as palavras. Minha raiva está desaparecendo. Agora estou dividida entre achar que fui usada e achar que adquiri uma vantagem. Haymitch está certo. Sobrevivi à entrevista, mas o que fui de fato? Uma garota tola rodopiando num vestido cintilante. Rindo à toa. O único momento de alguma substância que tive foi quando falei sobre Prim. Faça uma comparação com Thresh, com seu poder silencioso e mortífero, e me torno esquecível. Tola, cintilante e esquecível. Não, não totalmente esquecível. Tenho minha nota onze no treinamento.

Mas agora Peeta fez de mim um objeto de amor. Não apenas dele. De acordo com suas palavras, devo ter muitos admiradores. E se o público realmente pensa que nós estamos apaixonados... eu me lembro de como eles responderam com fervor à confissão dele.

Amantes desafortunados. Haymitch está certo, eles consomem esse tipo de coisa na Capital.

Subitamente, fico preocupada de não ter reagido adequadamente.

– Depois que ele disse que me amava vocês acharam que eu também pudesse estar apaixonada por ele? – pergunto.

– Eu achei – diz Portia. – Pela maneira com a qual você evitou olhar para as câmeras, o rubor.

Os outros interrompem, concordando.

– Você está coberta de ouro, queridinha. Vai ter uma fila de patrocinadores dobrando a esquina pra te bancar – diz Haymitch.

Estou constrangida com a minha reação. Eu me forço a pedir desculpas a Peeta.

– Sinto muito pelo empurrão.

– Não tem importância – diz ele, dando de ombros –, embora seja tecnicamente ilegal.

– Suas mãos estão legais?

– Vão ficar – diz ele.

No silêncio que se segue, deliciosos aromas do nosso jantar penetram o ambiente.

– Vamos comer – convida Haymitch. Nós todos o seguimos até a mesa e nos sentamos em nossos lugares. Mas Peeta está sangrando bastante e Portia o leva até a enfermaria.

Começamos a comer a sopa cremosa de pétalas de rosa sem eles. Já havíamos terminado a refeição quando voltaram. As mãos de Peeta estão enroladas em bandagens. Não consigo evitar a sensação de culpa. Amanhã estaremos na arena. Ele me fez um favor e respondi com uma agressão. Será que minhas dívidas com ele jamais terminarão?

Depois do jantar, assistimos à reprise na sala de estar. Pareço frívola e vazia, girando e rodopiando em meu vestido, embora os outros me assegurem que estou encantadora. Peeta está verdadeiramente charmoso e parece um campeão no papel do garoto apaixonado. E lá estou eu, ruborizada e confusa, tornada bela pelas mãos de Cinna, desejável pela confissão de Peeta, trágica pelas circunstâncias e, para todos os efeitos, inesquecível.

Quando o hino termina e a tela fica escura, o silêncio toma conta da sala. Amanhã, bem cedo, seremos despertados e preparados para a arena. Os Jogos verdadeiros só começam às dez horas porque muitos residentes da Capital acordam tarde. Mas Peeta e eu devemos começar cedo. Não há como dizer quanto tempo levaremos até a arena que foi preparada para os Jogos desse ano.

Sei que Haymitch e Effie não irão conosco. Assim que saírem daqui, irão para o quartel-general dos Jogos começar, espero eu, uma convocação ensandecida de patrocinadores para nós dois, e também montar uma estratégia sobre como e quando entregar nossas dádivas.

Cinna e Portia viajarão conosco até o ponto de onde nós seremos transportados para a arena.

Mas, ainda assim, as últimas despedidas terão de ser feitas aqui.

Effie segura nossas mãos e, com lágrimas sinceras nos olhos, nos deseja boa sorte.

Agradece por sermos os melhores tributos que ela jamais teve o privilégio de patrocinar. E, então, por ser Effie e porque, aparentemente, é obrigada pela lei a dizer algo desagradável, ela acrescenta:

– Eu não ficaria nem um pouco surpresa se fosse promovida a um distrito decente ano que

vem!

Depois disso, ela nos beija no rosto e sai às pressas, atarantada com a despedida emocional ou com a possível melhoria de sua sorte.

Haymitch cruza os braços e olha para nós dois.

– Algum último conselho? – pergunta Peeta.

– Quando o gongo soar, deem o fora de lá. Nenhum dos dois está preparado para o banho de sangue na Cornucópia. Simplesmente sumam de lá, distanciem-se o máximo que puderem um do outro e dos outros tributos, e achem uma fonte de água – diz ele. – Entenderam?

– E depois disso? – pergunto.

– Fiquem vivos – diz Haymitch. É o mesmo conselho que nos deu no trem, mas ele não está bêbado e rindo dessa vez. E apenas balançamos nossas cabeças, concordando. O que mais há para ser dito?

Quando me encaminho para o quarto, Peeta fica para falar com Portia. Fico contente.

Quaisquer que sejam as estranhas palavras de despedida que devemos trocar, podem muito bem esperar até amanhã. Minha cama está feita, mas não há nenhum sinal da Avox ruiva.

Gostaria de saber o nome dela. Eu deveria ter perguntado. Talvez ela pudesse escrever. Ou fazer uma mímica. Mas talvez isso apenas resultasse em castigo para ela.

Tomo um banho e removo a tinta dourada, a maquiagem e o cheiro de produtos de beleza do meu corpo. Tudo o que resta dos esforços da equipe de moda são as chamas nas unhas.

Decido mantê-las como uma lembrança para a público de quem eu sou, Katniss, a garota quente. Talvez isso me dê algo a que me agarrar nos dias vindouros.

Visto um pijama grosso de flanela e pulo na cama. Levo mais ou menos cinco segundos para perceber que nunca vou conseguir dormir. E preciso desesperadamente dormir porque na arena cada momento que eu ceder à fadiga será um convite à morte.

Não é nada bom. Uma hora, duas, três horas se passam e minhas pálpebras se recusam a se fechar. Não consigo parar de tentar imaginar em que tipo de terreno exatamente serei jogada. Deserto? Pântano? Uma terra desolada e gélida? Acima de tudo, espero que haja árvores no local, o que talvez me dê uma chance de me esconder, além de comida e abrigo.

Frequentemente há árvores, porque paisagens áridas são chatas e os Jogos se decidem muito rapidamente sem elas. Mas como será o clima? Que armadilhas os Idealizadores dos Jogos esconderam para animar os momentos mais lentos? E também tem os meus companheiros tributos...

Quanto mais ansiosa fico para dormir, mais o sono me evita. Por fim, minha inquietude é tão grande que nem consigo mais ficar deitada. Ando de um lado para o outro, o coração batendo a mil por hora, a respiração acelerada. Meu quarto parece uma cela de prisão. Se eu não puder respirar um pouco de ar fresco vou começar a jogar tudo de novo nas paredes. Corro pelo corredor até a porta no telhado. Não só ela está destrancada como também está escancarada. Talvez alguém tenha esquecido de fechá-la, mas pouco importa. O campo de força que cerca o telhado impede qualquer forma desesperada de fuga. E não quero fugir, apenas encher os pulmões de ar. Quero ver o céu e a lua na última noite que disponho antes de começar a ser caçada.

O telhado não fica iluminado à noite, mas assim que meus pés descalços alcançam a superfície de telhas vejo a silhueta escura dele em contraste com as luzes que brilham eternamente na Capital. Há uma agitação nas ruas, música, cantorias e buzinas de carros,

sons que eu jamais teria a oportunidade de ouvir através das espessas janelas de vidro de meu quarto. Eu poderia sair agora, sem que ele reparasse na minha presença. Ele não me ouviria em meio ao alarido. Mas o ar da noite está tão gostoso que não consigo suportar a ideia de voltar para aquela jaula abafada que chamam de quarto. E que diferença faz nos falarmos ou não?

Meus pés se movem silenciosamente por cima das telhas. Estou a apenas um metro dele.

– Você deveria estar dormindo um pouco.

Ele começa a dizer alguma coisa, mas não se vira. Posso vê-lo balançar levemente a cabeça.

– Não quis perder a festa. Afinal, é em nossa homenagem.

Eu me aproximo dele e me inclino sobre o parapeito. As ruas largas estão cheias de pessoas dançando. Aperto os olhos para distinguir melhor os detalhes das figuras pequeninas.

– Eles estão fantasiados?

– Quem poderia dizer? – responde Peeta. – Com essas roupas loucas que eles usam aqui!

Também não conseguiu dormir?

– Não consegui desligar minha mente.

– Pensando na família?

– Não – admito, cheia de culpa. – Tudo o que consigo fazer é imaginar como vai ser amanhã.

O que não faz sentido, é claro. – Com a luz que vem de baixo consigo ver o rosto dele, e a maneira esquisita com a qual segura as mãos enfaixadas. – Sinto muito mesmo pelas suas mãos.

– Não tem problema, Katniss. Nunca tive ilusão de disputar nada nesses Jogos mesmo.

– Você não deveria pensar dessa forma.

– Por que não? É verdade. O máximo que eu posso sonhar é não macular minha honra e... –

Ele hesita.

– E o quê?

– Não sei bem como dizer isso. É que... quero morrer como eu mesmo. Isso faz algum sentido? – pergunta ele. Balanço a cabeça. Como ele poderia morrer a não ser como ele mesmo? – Não quero que eles mudem meu jeito de ser na arena. Não quero ser transformado em algum tipo de monstro que sei que não sou.

Mordo o lábio, sentindo-me inferior. Enquanto eu estava ruminando acerca da disponibilidade de árvores, Peeta estava lutando para saber como faria para manter a identidade. Seu eu puro.

– Você está querendo dizer que não vai matar ninguém?

– Não, quando surgir a oportunidade, tenho certeza de que vou matar como qualquer outro tributo. Não posso cair sem lutar. Só fico desejando que haja alguma maneira de... de mostrar à Capital que eles não mandam em mim. Que sou mais do que somente uma peça nos Jogos deles.

– Mas você não é. Nenhum de nós é. É assim que os Jogos funcionam.

– Tudo bem, mas, mesmo dentro dessa estrutura, ainda existo eu, ainda existe você. Dá pra entender?

– Um pouco. Só que... não quero ofender, mas quem se importa com isso, Peeta?

– Eu me importo. O que quero dizer é o seguinte: com o que mais tenho o direito de me importar nesse estágio? – pergunta, com raiva. Ele fixou os olhos azuis nos meus,

demandando uma resposta.

Dou um passo para trás.

– Você pode se importar com o que Haymitch disse. Sobre a gente se manter vivo.

Peeta sorri para mim, triste e zombeteiro.

– Tudo bem. Valeu pela dica, docinho.

É como se fosse um tapa na cara ele usar a expressão condescendente de Haymitch.

– Olha aqui, se você quer passar as últimas horas da sua vida planejando uma morte nobre na arena, a escolha é sua. Eu quero passar as minhas no Distrito Doze.

– Eu não ficaria surpreso se você conseguisse. Mande lembranças à minha mãe quando voltar, certo?

– Pode contar com isso – respondo. Então me viro e saio do telhado.

Passo o resto da noite adormecendo e acordando, imaginando as colocações curtas e grossas que farei a Peeta Mellark na manhã seguinte. Peeta Mellark. Veremos quanta altivez e poder ele possui quando estiver cara a cara com a morte. Ele provavelmente se tornará um desses tributos enfurecidos, do tipo que tenta comer o coração de alguém que acabou de matar. Havia um garoto assim alguns anos atrás. Ele era do Distrito 6 e se chamava Titus.

Ficou completamente selvagem, e os Idealizadores dos Jogos tiveram de atordoá-lo com armas elétricas para recolher os corpos dos jogadores que havia matado antes que ele pudesse comê-los. Não há regras na arena, mas canibalismo não cai bem junto ao público da Capital, de modo que a prática precisou ser barrada. Houve alguma especulação a respeito do fato de que a avalanche que finalmente matou Titus teria sido especificamente arquitetada para garantir que o vencedor não fosse um lunático.

Não vejo Peeta de manhã. Cinna aparece antes do dia amanhecer, me entrega uma simples muda de roupa e me conduz até o telhado. Os últimos preparativos, incluindo a arrumação da minha roupa, serão feitos nas catacumbas que ficam abaixo da própria arena. Um aerodeslizador aparece do nada, assim como aquele da floresta no dia em que vi a garota Avox sendo capturada, e uma escada desliza para baixo. Coloco minhas mãos e pés nos degraus mais baixos e instantaneamente parece que fui congelada. Algum tipo de corrente me mantém grudada à escada enquanto sou erguida em segurança para dentro do veículo.

Fico na expectativa de me soltar da escada, mas ainda estou grudada quando uma mulher com um casaco branco se aproxima carregando uma seringa.

– Isso aqui é seu rastreador, Katniss. Se você ficar bem imóvel eu o injetarei de forma rápida e eficiente – diz ela.

Imóvel? Sou um estátua. Mas isso não me impede de sentir uma picada dolorosa quando a agulha insere o dispositivo metálico em meu antebraço. Agora os Idealizadores dos Jogos sempre poderão rastrear minha posição na arena. Eles não ficariam felizes em perder algum tributo, não é mesmo?

Assim que o rastreador está no lugar, a escada me libera. A mulher desaparece e Cinna é resgatado do telhado. Um garoto Avox surge e nos dirige a uma sala onde o café da manhã está sendo servido. Apesar da tensão no estômago, como o máximo que consigo, embora nenhum item da deleitável refeição me impressione muito. Estou tão nervosa que comeria até poeira de carvão. A única coisa que me distrai é a vista da janela, enquanto voamos por cima da cidade em direção à natureza selvagem. Essa é a visão dos pássaros. Só que eles estão livres e seguros. Exatamente o oposto de mim.

A viagem dura mais ou menos meia hora. Então as janelas escurecem, indicando que estamos nos aproximando da arena. O aerodeslizador aterrissa e Cinna e eu voltamos para a escada, só que dessa vez ela nos conduz a um tubo subterrâneo que nos leva às catacumbas que ficam abaixo da arena. Seguimos instruções até meu destino, uma câmara onde serão feitos meus últimos preparativos. Na Capital, eles chamam o lugar de Sala de Lançamento.

Nos distritos, se referem a ela como o Curral. O local onde os animais são mantidos antes de serem abatidos.

Tudo é novíssimo em folha, serei o primeiro tributo a usar essa Sala de Lançamento. As arenas são sítios históricos, preservados após os Jogos. Destinos populares para os visitantes da Capital em férias. Passar um mês, rever os Jogos, passear pelas catacumbas, visitar os locais onde as mortes ocorreram. Você pode até participar das remontagens.

Dizem que a comida é excelente.

Luto para manter o café da manhã no estômago enquanto tomo banho e escovo os dentes.

Cinna faz meu cabelo com minha marca registrada: a trança única caindo sobre as costas.

Então chegam as roupas, a mesma para todos os tributos. Cinna não deu opinião sobre meu traje – não sabe nem o que encontrará no pacote –, mas me ajuda a vestir a roupa de baixo, as calças marrons de feitio simples, a blusa verde, o cinto marrom robusto e a jaqueta preta com capuz que chega até minhas coxas.

– O material da jaqueta é projetado para refletir o calor do corpo. Pode esperar noites frescas – diz ele.

As botas, que visto sobre meias apertadas, são melhores do que eu poderia imaginar. Couro macio, não muito diferentes das que tenho em casa. Mas as daqui têm uma sola de borracha flexível e proteções do lado. Boas para correr.

Quando penso que a coisa acabou, Cinna puxa do bolso o broche dourado com o pássaro.

Tinha esquecido completamente dele.

– Onde você conseguiu isso? – pergunto.

– No traje verde que você usou no trem – diz ele. Agora me lembro do momento em que o retirei do vestido de minha mãe e o prendi à camisa. – É o símbolo do seu distrito, não é? – Eu balanço a cabeça em concordância e ele o prende em minha camisa. – Por pouco ele não passa na vistoria. Algumas pessoas acharam que o broche poderia ser usado como arma, dando a você uma vantagem que seria injusta. Mas, por fim, eles deixaram passar – diz Cinna.

– Mas eliminaram um anel daquela garota do Distrito Um. Quando eles giraram a pedra contida na joia, um esporão foi liberado. Venenoso. Ela afirmou que não sabia que o anel se transformava dessa maneira e não havia como provar o contrário. Mas ela perdeu o símbolo.

Pronto. Você está toda equipada. Mexa-se um pouco para ter certeza de que está confortável.

Ando, corro em círculo, balanço os braços para cima e para baixo.

– Está ótimo. O tamanho está perfeito.

– Então não há mais nada a fazer a não ser esperar a convocação – diz Cinna. – A menos que você consiga comer um pouco mais. Consegue?

Recuso a comida, mas aceito um copo d’água, que bebo aos pouquinhos enquanto espero no sofá. Não quero roer as unhas ou morder os lábios, então, acabo mastigando a parte interna da bochecha que ainda não sarou completamente das estocadas de alguns dias atrás.

Logo o sabor de sangue toma conta da minha boca.

O nervosismo se transforma em terror à medida que começo a prenunciar as coisas que

estão por vir. Posso estar morta, completamente morta, daqui a uma hora. Talvez em menos tempo. Meus dedos percorrem obsessivamente o pequeno calombo duro em meu antebraço, no local onde a mulher injetou o dispositivo rastreador. Eu o pressiono, apesar da dor, eu o pressiono com tanta força que um pequeno hematoma começa a se formar.

– Você quer conversar, Katniss? – pergunta Cinna. Balanço a cabeça em negativa, mas depois de um instante estendo a mão para ele. Cinna a envolve com suas duas mãos. E é assim que ficamos sentados, até que uma agradável voz feminina anuncia que está na hora de eu me preparar para o lançamento.

Ainda apertando uma das mãos de Cinna, caminho em direção ao círculo de metal.

– Lembre-se do que Haymitch disse. Corra e encontre água. O resto será consequência –

diz ele. Balanço a cabeça em concordância. – E lembre-se disso: não posso apostar, mas se pudesse, minhas fichas iriam todas pra você.

– Verdade? – sussurro.

– Verdade – diz Cinna. Ele se inclina e me beija a testa. – Boa sorte, garota quente. – E

então um cilindro de vidro começa a abaixar em torno de mim, interrompendo nosso aperto de mão, separando-o de mim. Ele dá um tapinha com os dedos debaixo do queixo. Cabeça erguida.

Ergo o queixo e fico o mais aprumada possível. O cilindro começa a subir. Por uns quinze segundos, fico em total escuridão. Em seguida, sinto o círculo de metal me empurrando para fora do cilindro, em direção ao ar livre. Por um instante, meus olhos ficam ofuscados pela intensa luz do sol e a única coisa que consigo sentir é um vento forte com o auspicioso aroma de pinheiro.

Então, ouço a voz do lendário locutor, Claudius Templesmith, retumbar ao meu redor.

– Senhoras e senhores, está aberta a septuagésima quarta edição dos Jogos Vorazes!