Jogos Vorazes

Suzanne Collins · Capítulo 23 de 28

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Jogos Vorazes

Capítulo 22

Mergulho imediatamente, com botas e tudo, e chapinho na corrente. Retiro as meias de Rue que estava usando como luvas e as pressiono na testa, tentando estancar o fluxo de sangue, mas elas ficam encharcadas em minutos.

Consigo, de alguma maneira, chegar à caverna. Espremo o corpo e passo pelas pedras. Na luz parca, puxo do braço a pequena mochila laranja, abro-a e jogo o conteúdo no chão. Uma caixa fina contendo uma agulha hipodérmica. Sem hesitar, enfio a agulha no braço de Peeta e pressiono lentamente até o fim.

Minhas mãos vão até minha cabeça e depois caem em meu colo, pegajosas de sangue.

A última coisa de que me lembro é uma mariposa verde e prata extraordinariamente bela aterrissando na curva de meu pulso.

 

O som da chuva batendo no telhado de nossa casa me conduz delicadamente de volta à consciência. Contudo, luto para voltar a dormir, enrolada em um aconchegante casulo de cobertores, a salvo no lar. Estou vagamente ciente das dores em minha cabeça.

Possivelmente estou gripada e é por isso que me é permitido permanecer na cama, mesmo sabendo que já dormi demais. A mão de minha mãe acaricia meu rosto e não a empurro para longe como faria se estivesse acordada, sem querer que ela saiba o quanto anseio por esse toque delicado; o quanto sinto sua falta, muito embora ainda não confie nela. Então, ouço uma voz, a voz errada, não a voz de minha mãe, e fico com medo.

– Katniss – diz a voz. – Katniss, consegue me ouvir?

Meus olhos se abrem e a sensação de segurança desaparece. Não estou em casa, não estou com minha mãe. Estou em uma caverna mal-iluminada e friorenta, meus pés estão congelados apesar da coberta, o ar está contaminado com o inconfundível cheiro de sangue.

O rosto abatido e pálido de um garoto surge em meu campo de visão, e após um susto inicial, sinto-me melhor.

– Peeta.

– Oi – responde. – Bom poder ver seus olhos novamente.

– Quanto tempo fiquei apagada?

– Não tenho certeza. Acordei ontem à noite e você estava deitada ao meu lado em uma assustadora poça de sangue. Acho que finalmente parou, mas eu não me mexeria se fosse você.

Levo a mão cautelosamente até a cabeça e vejo que ela está enfaixada. Esse gesto simples me deixa tonta e fraca. Peeta encosta uma garrafa em meus lábios e bebo sofregamente.

– Você está melhor – observo.

– Muito melhor. Seja lá o que for que você injetou em meu braço teve um efeito mágico. Hoje de manhã, quase todo o inchaço na perna já tinha acabado.

Ele não parece estar zangado por ter sido ludibriado, por ter sido drogado por mim e por eu ter corrido até o ágape. Talvez eu esteja simplesmente arrasada demais e serei obrigada a ouvir tudo depois, quando estiver mais revigorada. Mas, por enquanto, ele é só gentileza.

– Você comeu? – pergunto.

– Desculpe, mas botei pra dentro três pedaços daquele ganso silvestre antes de me dar conta de que eles deveriam durar mais tempo. Não se preocupe, voltei pra minha dieta rígida.

– Não, você fez bem. Você precisa comer. Logo, logo vou caçar.

– Não tão logo, certo? Deixa eu cuidar de você um pouco. Nada indica que eu tenha muita escolha. Peeta me alimenta com pedaços de ganso e passas e me obriga a tomar muita água.

Ele massageia meus pés até esquentá-los e os enrola em sua jaqueta antes de fechar novamente o saco de dormir abaixo de meu queixo.

– Suas botas e meias ainda estão úmidas e o tempo não está ajudando muito – informa ele.

Ouço um trovão e vejo um raio eletrizar o céu através de uma abertura nas pedras. Chuva

goteja por diversos buracos no teto, mas Peeta construiu uma espécie de dossel sobre minha cabeça e a parte superior do corpo, encaixando o quadrado de plástico nas pedras acima de mim.

– Imagino o motivo dessa tempestade. Quem é o alvo dela, afinal? – quis saber Peeta.

– Cato e Thresh – respondo, sem pensar. – Cara de Raposa deve estar em sua toca em algum lugar, e Clove... ela me cortou e depois... – Baixo o tom da voz.

– Sei que Clove está morta. Vi no céu ontem à noite – diz ele. – Você a matou?

– Não. Thresh quebrou a cabeça dela com uma pedra.

– Sorte ele também não ter te pego.

A lembrança do ágape retorna com força total e fico enjoada.

– Ele me pegou, mas me deixou escapar. – Então, é claro que tenho de contar a ele. Coisas que mantive em segredo porque ele estava doente demais para perguntar e eu não estava preparada para reviver. Como a explosão, e meu ouvido, e Rue morrendo, e o garoto do Distrito 1, e o pão. Tudo isso conduz ao que aconteceu com Thresh e a maneira com a qual ele pagou aquela espécie de dívida.

– Ele te deixou escapar porque não estava disposto a dever nada a você? – pergunta Peeta, descrente.

– Isso. Não espero que você entenda. Você sempre teve tudo de que precisava. Mas se morasse na Costura, eu não teria de explicar nada.

– E não tente. Obviamente sou muito burro pra entender isso.

– É como o negócio do pão. Tenho a impressão de nunca conseguir deixar de ter essa dívida com você.

– Pão? O quê? Da época que a gente era criança? Acho que a gente pode esquecer aquilo.

Enfim, você me trouxe de volta dos mortos.

– Mas você não me conhecia. A gente nunca tinha nem mesmo conversado. Além disso, a primeira dádiva é sempre a mais difícil de retribuir. Eu nem estaria aqui se você não tivesse me ajudado naquela ocasião. Aliás, por que você fez aquilo?

– Por quê? Você sabe por quê – diz Peeta. Sacudo levemente a cabeça, apesar da dor. –

Haymitch disse que eu ia precisar de muito tempo pra te convencer.

– Haymitch? O que ele tem a ver com isso?

– Nada. Cato e Thresh, hein? Aposto que deve ser demais esperar que os dois acabem um com o outro simultaneamente, o que você acha?

Mas a ideia só me inquieta.

– Acho que a gente ia gostar de Thresh. Acho que ele seria nosso amigo no Distrito 12 –

digo.

– Então vamos esperar que Cato acabe com ele, assim a gente fica dispensado disso – diz Peeta, impiedosamente.

Não quero de maneira alguma que Cato mate Thresh. Não quero que mais ninguém morra.

Mas isso não é o tipo de coisa que os vitoriosos podem sair por aí dizendo na arena. Apesar de meus esforços, sinto lágrimas começando a encharcar meus olhos.

Peeta olha para mim preocupado.

– O que é isso? A dor está forte demais?

Dou outra resposta a ele, não só porque é igualmente verdadeira mas porque também pode ser encarada como um fugaz instante de fraqueza e não como um definitivo pedido de arrego.

– Quero ir pra casa, Peeta – digo, melancolicamente, como uma criancinha.

– Você vai. Eu prometo – diz ele, e se inclina para me dar um beijo.

– Quero ir pra casa agora.

– Vou te dizer uma coisa. Você volta a dormir e sonha com sua casa. E você vai voltar pra lá de verdade antes mesmo de saber. Certo?

– Certo – sussurro. – Pode me acordar se quiser que eu monte guarda.

– Estou bem e descansado, graças a você e a Haymitch. Além do mais, quem sabe o quanto isso aqui vai durar?

A que ele está se referindo? À tempestade? À breve pausa que ela nos proporciona? Aos próprios Idealizadores dos Jogos? Não sei, mas estou triste e cansada demais para perguntar.

Já é noite quando Peeta me acorda novamente. A chuva se transformou em um temporal, lançando torrentes de água em nosso teto, no local onde antes caíam apenas pingos. Peeta colocou o pote debaixo do pior buraco e reposicionou o plástico para desviar de mim a maior parte da água. Estou me sentindo um pouco melhor, capaz de me sentar sem ficar tonta demais, e absolutamente faminta. Assim como Peeta. Está claro que estava esperando que eu acordasse para comer e está ansioso para começar.

Não restou muita coisa. Dois pedaços de ganso silvestre, uma pequena mistura de raízes e um punhado de frutas secas.

– Será que a gente devia racionar a comida? – pergunta Peeta.

– Não, vamos acabar com ela e pronto. O ganso está ficando passado, de qualquer modo, e a última coisa que a gente precisa é ficar doente por causa de comida estragada – respondo, dividindo a comida em duas pilhas iguais. Nós tentamos comer lentamente, mas estamos ambos tão famintos que terminamos tudo em alguns minutos. Meu estômago não fica satisfeito em hipótese alguma.

– Amanhã é dia de caçada.

– Não vou poder ajudar muito nisso – diz Peeta. – Jamais cacei na minha vida.

– Eu mato e você cozinha. E você também pode colher vegetais.

– Gostaria de encontrar por aí algumas plantas que dão pão – diz Peeta.

– O pão que eles me mandaram do Distrito Onze ainda estava morno – suspiro. – Aqui, mastiga isso aqui. – Dou a ele algumas folhas de menta e coloco algumas na minha boca.

É difícil até assistir à projeção no céu, mas há nitidez suficiente para ver que não aconteceu mais nenhuma morte hoje. Então, Cato e Thresh ainda não se enfrentaram.

– Pra onde foi Thresh? Enfim, o que é que existe na extremidade do círculo? – pergunto a Peeta.

– Um campo. Até onde dá pra enxergar, o local é coberto por um matagal que vai até meus ombros. Não sei não, mas de repente uma parte dele é de cultivo de grãos. Há partes de cores diferentes. Mas não tem nenhuma trilha até lá – diz Peeta.

– Aposto que uma parte do local é de grãos, sim. Também aposto que Thresh sabe quais são. Você esteve lá?

– Não. Ninguém na verdade queria seguir Thresh até aquele matagal. O lugar é meio sinistro.

Sempre que olho pra esse campo só me ocorrem imagens de coisas escondidas. Cobras, animais raivosos e areia movediça. Deve ter todo tipo de coisa por lá.

Não falo, mas as palavras de Peeta me fazem lembrar dos avisos que nos dão a respeito de não ultrapassar a cerca no Distrito 12. Não consigo evitar, por um instante, compará-lo a Gale, que veria nesse campo uma fonte potencial de comida além de uma ameaça. Thresh certamente enxergou isso. Não é que Peeta seja exatamente frouxo, e provou que não é nenhum covarde. Mas há certas coisas que você acaba não questionando muito, acho eu, se sua casa está sempre com um cheirinho de pão fresco. Gale, por sua vez, questiona tudo. O

que Peeta pensaria de toda aquela pândega irreverente que ocorre entre nós quando infringimos diariamente a lei? Será que ele ficaria chocado com as coisas que falamos a respeito de Panem? Com as invectivas de Gale contra a Capital?

– De repente há plantas que dão pão naquele campo. Quem sabe não é essa a razão de Thresh parecer estar mais bem alimentado agora do que no início dos Jogos.

– Ou isso ou ele possui patrocinadores bem generosos – sugere Peeta. Imagino o que a gente teria de fazer pra conseguir que Haymitch mandasse um pouco de pão pra nós.

Ergo as sobrancelhas antes de me lembrar que ele desconhece a mensagem que Haymitch nos enviou algumas noites atrás. Um beijo equivale a um pote de caldo. Mas isso também não é o tipo de coisa que posso falar assim, sem mais nem menos. Reproduzir meus pensamentos em voz alta revelaria ao público que o romance foi fabricado para angariar simpatias, o que resultaria no fim da comida. De alguma maneira realista, tenho de fazer com que as coisas voltem aos eixos. Algo simples, para começar. Aproximo-me e pego sua mão.

– Bem, provavelmente ele gastou muitos recursos me ajudando a te nocautear – digo, maliciosamente.

– Sei... Por falar nisso – começa Peeta, prendendo os dedos nos meus –, vê se não tenta repetir esse tipo de coisa.

– Ou o quê?

– Ou... ou... – Ele não consegue encontrar nada interessante para dizer. – Só um minutinho.

– Qual é o problema? – pergunto, dando um risinho.

– O problema é que nós dois ainda estamos vivos. O que apenas reforça a ideia na sua cabeça de que você tomou a atitude correta – responde ele.

– Eu tomei a atitude correta, sim – reafirmo.

– Não! Não mesmo, Katniss! – O aperto em meus dedos ficou mais forte, machucando minha mão, e há uma raiva real na sua voz. – Não morra por minha causa. Você não estará me fazendo nenhum favor, certo?

Estou atônita pela intensidade das palavras, mas reconheço uma excelente oportunidade para arranjar comida, o que me faz manter a pegada.

– Talvez eu tenha feito isso por mim mesma, Peeta. Já parou pra pensar nessa possibilidade? Talvez você não seja o único que... que se preocupa com... como seria se...

Balbucio. Não sou tão desenvolta com as palavras quanto Peeta. E enquanto eu estava falando, a perspectiva de perdê-lo de fato atingiu-me novamente e me dei conta do quanto desejo que ele fique vivo. E não tem nada a ver com os patrocinadores. E não tem nada a ver com o que vai acontecer quando chegarmos em casa. E não é pelo simples fato de que eu não quero ficar sozinha. É por ele. Não quero perder o garoto com o pão.

– Se o quê, Katniss? – pergunta ele, suavemente.

Gostaria de poder fechar as persianas para impedir que esse momento fosse alvo dos olhares enxeridos de Panem. Mesmo que isso signifique perder comida. Seja lá o que for que estou sentindo, só diz respeito a mim e a mais ninguém.

– Esse é exatamente o tipo de assunto do qual eu deveria manter distância, como Haymitch

frisou diversas vezes – comento, evasivamente, embora Haymitch jamais tivesse mencionado qualquer coisa dessa natureza. Na verdade, ele provavelmente deve estar me amaldiçoando nesse exato momento por deixar a peteca cair durante um momento tão emocionalmente intenso. Mas Peeta entende a situação, de uma forma ou de outra.

– Então eu mesmo vou ter de preencher as lacunas – diz ele, e se aproxima de mim.

Esse é o primeiro beijo do qual estamos plenamente conscientes. Nenhum dos dois está acometido de alguma doença ou dor ou simplesmente inconsciente. Nossos lábios não estão nem quentes de febre e nem gelados de frio. Esse é o primeiro beijo que eu realmente sinto chacoalhar meu peito. Gostoso e estranho. Esse é o primeiro beijo que me faz querer mais.

Mas não recebo outro. Bem, recebo um segundo beijo, mas somente um beijinho rápido na ponta do nariz porque Peeta distraiu-se.

– Acho que sua ferida está sangrando novamente. Deita aqui, já está mesmo na hora de dormir.

Minhas meias estão secas o suficiente para serem usadas. Convenço Peeta a recolocar sua jaqueta. O frio úmido parece cortar meus ossos, o que significa que ele também deve estar quase congelado. Insisto também para ser a primeira a montar guarda, embora nenhum de nós imagine a possibilidade de alguém aparecer com esse tempo. Mas ele não concorda, a menos que eu também esteja dentro do saco, e estou tremendo tanto que não faz sentido discordar. Num contraste gritante com duas noites atrás, quando eu tinha a sensação de que Peeta estava a milhões de quilômetros de distância, nossa proximidade agora é arrebatadora.

Enquanto nos acomodamos, ele puxa minha cabeça para baixo para usar seu braço como travesseiro. O outro se mantém sobre mim, de modo protetor, até mesmo quando vai dormir.

Ninguém me ampara dessa forma há muito tempo. Desde que meu pai morreu e parei de confiar em minha mãe, nenhum outro par de braços fez com que eu me sentisse tão segura.

Com a ajuda dos óculos, fico observando as gotas da chuva pingando no chão da caverna.

Ritmadas e calmantes. Diversas vezes caio no sono, mas logo em seguida acordo num estalo, culpada e zangada comigo mesma. Depois de três ou quatro horas, não consigo evitar, sou obrigada a despertar Peeta porque não consigo mais manter os olhos abertos. Ele não parece se importar.

– Amanhã, quando estiver seco, vou achar um lugar bem no alto de uma árvore pra gente poder dormir em paz – prometo, ao cair no sono.

Mas o amanhã não será melhor com relação ao tempo. O dilúvio continua, dando a impressão de que os Idealizadores dos Jogos estão com a intenção de submergir todos por aqui. O trovão é tão potente que parece sacudir o chão. Peeta está pensando na possibilidade de seguir caminho de qualquer maneira para conseguir comida, mas digo a ele que com essa tempestade a ideia não faz sentido. Não vai conseguir enxergar três palmos à frente e vai acabar encharcado até a alma. Ele sabe que estou certa, mas o ronco em nosso estômago está começando a ficar doloroso.

O dia se arrasta até virar noite e o tempo não dá trégua. Haymitch é nossa única esperança, mas nada é enviado, ou por falta de dinheiro – tudo deve custar uma fortuna exorbitante – ou porque ele está insatisfeito com nosso desempenho. A segunda opção é a mais provável. Eu seria a primeira a admitir que não estamos particularmente atraentes hoje. Esfomeados, enfraquecidos devido aos ferimentos, tentando não reabrir as feridas. Estamos enroscados um no outro e enrolados no saco de dormir, sim, estamos, mas principalmente para nos mantermos aquecidos. A coisa mais excitante que qualquer um dos dois faz é tirar uma

soneca.

Não tenho muita certeza sobre como agitar esse romance. O beijo de ontem à noite foi legal, mas preparar um outro vai demandar muito planejamento prévio. Há algumas garotas na Costura, algumas comerciantes, que navegam nessas águas com muita desenvoltura. Mas nunca tive muito tempo ou jeito para esse tipo de coisa. De qualquer modo, está mais do que claro que um simples beijo já não é mais suficiente, porque, se fosse, teríamos recebido comida ontem à noite. Meus instintos me dizem que Haymitch não está apenas atrás de afeição física, ele quer algo mais pessoal. O tipo de coisa que ele estava tentando me convencer a falar sobre mim mesma quando estávamos praticando para a entrevista. Sinto nojo disso, mas Peeta não. Talvez a melhor opção seja fazer com que ele fale.

– Peeta – chamo, levemente. – Você disse na entrevista que sempre foi apaixonado por mim. Quando foi que esse sempre começou?

– Ah, vamos ver. Acho que no primeiro dia de aula. Nós éramos cinco. Você estava usando um vestido vermelho e seus cabelos... estavam presos com duas tranças em vez de uma. Meu pai apontou pra você quando a gente estava esperando pra entrar na fila.

– Seu pai? Por quê?

– Ele disse: “Está vendo aquela garotinha ali? Eu queria me casar com a mãe dela, mas ela preferiu um trabalhador das minas.”

– O quê? Você está inventando tudo isso!

– Não! É verdade! E eu disse: “Um trabalhador das minas? Por que ela preferiu um trabalhador das minas se podia ter você?” E ele disse: “Porque quando ele canta... até os pássaros param pra ouvir.” – Isso é verdade. Eles param mesmo. Enfim, eles paravam. – Estou perplexa e surpreendentemente comovida, pensando no padeiro contando isso a Peeta. Acaba de me ocorrer que minha própria relutância em cantar, meu próprio desdém pela música, talvez não seja realmente o fato de eu achar que isso é uma perda de tempo. Talvez seja porque me faça lembrar demais de meu pai.

– Então, naquele dia, na aula de música, a professora perguntou quem conhecia a canção do vale. Sua mão logo se ergueu. Ela colocou você em um banquinho e mandou você cantar pra gente. E juro, todos os pássaros do lado de fora ficaram em silêncio.

– Ah, por favor – rio.

– Não, aconteceu mesmo. E assim que você terminou a canção, percebi, exatamente como sua mãe, que eu estava caído por você. Então, pelos onze anos seguintes, tentei preparar os nervos pra falar com você.

– Sem sucesso – acrescento.

– Sem sucesso. Aí, num certo sentido, meu nome ter sido escolhido na colheita acabou sendo um verdadeiro golpe de sorte.

Por um momento, estou sentindo uma felicidade quase tola, e então uma atrapalhação total toma conta de meu ser. Porque nós deveríamos estar inventando essa coisa toda, representando nosso amor, e não nos amando de fato. Mas a história de Peeta possui um quê de verdade. Aquela parte sobre meu pai e os pássaros. E cantei mesmo no primeiro dia de aula, embora não me lembrasse mais da canção. E aquele vestido vermelho... existia mesmo, um vestidinho de segunda mão que depois foi de Prim e que virou trapo após a morte de meu pai.

Isso explicaria uma outra coisa também. Por que Peeta levou aquela surra para me dar o pão naquele dia horroroso. Então, se todos esses detalhes são verdadeiros... será que tudo isso é verdade?

– Você possui uma... memória notável – comento, hesitante.

– Eu lembro de tudo a seu respeito – diz Peeta, colocando um fio de cabelo solto para trás de minha orelha. – É que você nunca prestou atenção.

– Agora estou prestando.

– Bem, aqui eu não tenho tantos competidores – diz ele.

Quero mudar de assunto, fechar novamente as persianas, mas sei que não posso. É como se eu pudesse ouvir Haymitch sussurrando em meu ouvido: “Fale! Fale!”

Engulo em seco e deixo as palavras saírem de minha boca:

– Você não tem competidores em lugar nenhum.

E dessa vez sou eu quem se aproxima.

Nossos lábios estão quase se tocando quando a explosão do lado de fora me faz dar um pulo. O arco já está na minha mão, a flecha preparada para voar, mas não há mais nenhum outro som. Peeta espia por entre as pedras e em seguida emite um grito de entusiasmo. Antes que eu possa impedir, ele já está na chuva me entregando alguma coisa. Um paraquedas prateado atado a uma cesta. Abro-a imediatamente com um rasgão e encontro um verdadeiro banquete dentro: pãezinhos frescos, queijo de cabra, maçãs e, o melhor de tudo, uma terrina com aquele incrível cozido de carneiro com arroz selvagem. O mesmo prato que eu havia dito a Caesar Flickerman ser a coisa mais impressionante que a Capital tinha a oferecer.

Peeta se contorce todo para entrar na caverna, seu rosto iluminado como o sol.

– Imagino que Haymitch tenha finalmente ficado cansado de nos ver passar fome.